Eu larguei tudo e fui viver em Nova York

“Não quero mais”. Lembro da frase reverberando na minha cabeça por muitos dias até explodir numa sexta-feira 9 de novembro. A minha insatisfação era geral. Não se tratava apenas de um problema externo como mudar de casa, marido, emprego, amigos. Eu sentia que estava tudo errado – nos treze anos de jornalismo, no relacionamento com o filho, nos dois casamentos fracassados e em toda a minha vida. Para os que viam a situação do lado de fora não havia o que mudar. Estabilidade profissional, bom nome no mercado de trabalho, apartamento com vista para o Cristo, carro novo e filho estudando em bom colégio. Nada disso me fazia acreditar que estava tudo certo. Era necessário parar e pensar. Antes vou tentar me localizar. Sou a 4ª. de 5 filhos de uma família de classe média unida e feliz. Casei a primeira vez com 21 anos. Paixão e casamento relâmpago sem papel nem festa: ele era desquitado. Paulo é cineasta e formávamos um típico casal “hippie de boutique” dos anos 70. Nosso casamento acabou depois de três anos por causa da nossa imaturidade. Como resultado Bernardo, hoje com 11 anos, e uma grande amizade. O segundo casamento aos 28 anos aconteceu depois de dois anos de namoro. Régis (Régis Cardoso) já era diretor de novelas da Globo e não tinha nada em comum com Paulo. Era um relacionamento maduro e o casamento foi muito discutido. Casamos com juiz, testemunhas, numa grande festa. Com ele minha vida mudou. Carro com chofer, apartamento de cobertura com piscina, muitas festas. E muito amor, carinho e amizade. Todos acreditavam que formávamos um par perfeito e eu também. Depois de quatro anos o casamento acabou. As razões foram muitas entre elas a impossibilidade dele de ser monogâmico. Para disfarçar a volta por cima que estava tentando dar com o final do segundo casamento, programei com Bernardo e mamãe, férias nos Estados Unidos. No roteiro Disneyworld, Washington e Nova York. Nada mais gratificante. Mas até quando eu continuaria a tapar o sol com peneira ? Não era só o fim do casamento que me incomodava. Tinha duvidas em relação à profissão, ao futuro, ao mundo em si. Sem contar a minha total incapacidade de viver sozinha, que poderia gerar um terceiro casamento sem a menor conseqüência. Naquela segunda-feira 9 de novembro mudei meus planos. Faria a viagem, mas Bernardo e mamãe voltariam e eu continuaria em Nova York. Um amigo que morava lá ofereceu-me hospedagem por quanto tempo eu precisasse. Meus pais concordaram em ficar com meu filho. Pedi demissão do jornal onde trabalhava há cinco anos, vendi o carro e em apenas um mês leiloei 32 anos de Brasil a preço de banana. A viagem foi perfeita, mas quando embarquei Bernardo e mamãe de volta para o Brasil tive a sensação de estar sozinha no mundo. Duas malas, alguns discos e um nó na garganta eram toda a minha bagagem. Chorei o suficiente para transbordar o Hudson e o East, os rios que envolvem esta louca e linda ilha de Manhattan. A minha cabeça era um caos e o meu inglês era de índio. Para resolver este problema fui morar numa escola em Staten Island, uma ilha que está para Manhattan como Niterói está para o Rio. Dividia o quarto com uma coreana e meus novos amigos eram árabes, gregos, japoneses, africanos, hindus e sul americanos, que se misturavam como numa torre de Babel. A superalimentação de um college americano somada a total carência afetiva me fez engordar muito. Eu me sentia horrorosa e, como um urso, me hibernei no primeiro inverno. Entrei num processo de respirar notícias do Brasil. Escrevia dezenas de cartas e quando recebia resposta era como uma baforada de oxigênio para continuar sobrevivendo. Mas havia também o ombro amigo do Zé Luis de Oliveira, na casa de quem vivi por nove meses. Pacientemente ele ouviu todos os problemas e foi um analista full time. Eu era a pessoa mais chata do mundo: um poço de mágoas e mau humor. Não queria ver ninguém e nem ia a lugar algum. O curso de inglês terminou no início da primavera e para praticar o idioma fui morar por quatro semanas com uma família americana em Larchmont, subúrbio de Nova York. Carol Greenwald e seus dois filhos me adotaram. Com eles aprendi a cozinhar, a economizar nas compras, usar a agenda para tudo e, a saber, como é uma típica família americana. Com Carol também aprendi que não é fácil ser uma mulher divorciada neste país. Single, em inglês, significa “um só, único” e designa também as pessoas solteiras ou divorciadas. Atrás dessa palavrinha existe uma grande indústria oferecendo viagens, festas, acompanhantes para ópera, e por vídeo-teipe pode-se até conseguir um namorado. Tudo mecânico e organizado para diminuir a solidão. Uma noite Carol me levou a um single party (festa para solteiros). Paguei 6 dólares na entrada com direito a vinho, café, biscoitos e colocaram na minha blusa uma etiqueta com meu nome. O salão decorado com flores de papel estava repleto de pessoas cuja idade variava de 40 a 70 anos. Eu era a caçula. Ao fundo um conjunto tocava baladas dos anos 50. A cena seria triste se eu não tivesse um ataque de riso quando o conjunto atacou um rock n´roll e todos invadiram a pista como se fossem adolescentes. Como disse Carol, eles pagaram para se divertir. Era bem melhor estar ali do que passar uma noite sozinhos em frente da televisão. Passei a entender o desespero da solidão dos singles. Eles aprendem muito cedo a viver longe da família e, quando ficam adultos, os laços familiares não existem mais. Não é como no Brasil em que a gente casa, descasa e continua sempre junto com pais e irmãos. Aqui é cada um por si. Terminei a temporada com os Greenwald e voltei prá Manhattan. Uma noite conversando com Zé Luis sobre a vontade e necessidade de trabalhar, ele teve a idéia de fazer uma revista brasileira nos Estados Unidos. Com a ajuda de outra brasileira, Dudu Continentino, pusemos mãos à obra. Acreditando na viabilidade do projeto, achei que era hora de trazer meu filho. Nessa época, Zé, Dudu e eu alugamos uma casa em Nova Jersey, um Estado vizinho de Nova York, e fomos viver em comunidade. Éramos uma “família” diferente na pacata cidadezinha de Maplewood, mas nem por isso fomos alijados. O sonho da casa com tomateiro no quintal, sótão, porão e lareira durou pouco. As divergências pessoas transformaram o que seria um paraíso em inferno. Ao mesmo tempo, nossas provisões destinadas a levar avante a revista chegaram ao vermelho. Ficamos com lindas idéias e bolsos vazios. Dudu resolveu voltar para o Brasil. Por que não voltar também ? Era a pergunta dos meus pais e do meu filho. Mas eu sentia que a batalha comigo mesmo estava penas começando. Estava tomando consciência de quantas vezes abri mão da minha opinião e objetivos só para agradar terceiros. Por que esta necessidade de ser eficiente, gentil, cordata ? Por que não me mostrar exatamente como sou : teimosa, frágil, carente, tímida, romântica ? Que medo de não ser amada ! Estava descobrindo dados que desconhecia. Sempre acreditei que era extrovertida e sou tímida. Não sou tão auto-suficiente nem tão forte para dar tantas voltas por cima. Ainda continuava sendo a adolescente tijucana que sonhou casar, ter filhos, uma casa com cadeira de balanço para fazer tricô, um gato preguiçoso e um canário cantador. Mas a vida andou por tantos caminhos que não dava para voltar atrás. Como voltar para o Brasil agora, sem saber ainda quem eu era e que queria dessa vida ? Resolvi continuar. Precisava trabalhar, o dinheiro estava acabando. Estava disposta até a ser doméstica quando um empresário paulista me telefonou. Estava abrindo uma agencia de turismo e precisava de uma secretária. Não o deixei terminar a frase “Sou a melhor secretária do mundo”, concluí. No final de setembro começava a minha vida 9 to 5 na Eron Travel, em plena Fifth Avenue, endereço chic e coração do mundo. Troquei o jeans por saia, blusa e meias de nylon, típicos das secretárias americanas. De setembro a dezembro foram meses duros, Morando em Nova Jersey para chegar a Manhattan eu pegava três trens e caminhava 20 minutos. Quase duas horas de viagem. Saía com o dia amanhecendo e voltava de noite. Bernardo aprendeu a ser independente, a preparar o breakfast, ir sozinho para a escola, ficar sozinho enquanto eu não chegava, Fiquei magra, com ruga e vi meus primeiros cabelos brancos. Aprendia lavar, passar, arrumar, cuidar das unha e cortar os cabelos. Cada dia minha cabeça mudava. Os valores materiais antes tão importantes, foram dando espaço a valores espirituais cada dia mais ricos e fortes. Percebi isso no dia em que vendi minhas jóias para comprar agasalhos para meu filho e uma árvore de Natal. Foram os anéis, ficaram os dedos e uma paz de espírito enorme. Cansada da viagem diária, da solidão do Bernardo, do alto custo de manutenção da casa, resolvi deixar Maplewood. Aluguei um pequeno apartamento em Larchmont, subúrbio onde morava Carol Greenwald e me separei de Zé Luiz, depois de um ano em que dividimos sonhos e problemas. Eu e Bernardo passamos o Natal sozinhos mas estávamos felizes na nova casa. No fim de semana brincávamos, lavávamos e cozinhávamos juntos. Pela primeira vez eu era mãe integral sem babá sem ninguém. Era uma relação bonita e profunda mãe e filho. Por outro lado a vida da Léa mulher era nenhuma. Quando as 9 da noite Bernardo apagava a luz do quarto eu ficava olhando as paredes da sala pensando o que tinha feito da minha vida. Algumas vezes telefonava para o Brasil apenas para conversar com um adulto, pois Bernardo não podia entender por que nossa vida havia mudado tanto. Em março comecei a pensar em voltar para o Brasil. Conversando com Bernardo ele achou que seria bom ficar com os avós por uns tempos. Ele iria primeiro e assim que eu resolvesse que rumo tomar com o trabalho e o apartamento iria também. Em abril iniciei a verdadeira experiência de viver sozinha. Sem Zé Luiz, sem Bernardo, era eu comigo mesma. Algumas vezes eu parava de falar na sexta-feira ao sair do escritório e só voltava a conversar na segunda. Hoje não vivo o drama do correio. Fiz novos amigos brasileiros que me trazem um pouco do Brasil nas conversas. Mas não vivo em gueto. A maior parte do tempo estou com americanos, sou a única brasileira na agencia. Todas s manhãs, pontualmente, às 8h02m pego o trem para Manhattan. Trem confortável, com ar condicionado no verão e calefação no inverno. Todos os dias encontro com as mesmas pessoas que não se olham nem dizem bom dia. Sentam nos mesmos lugares, abrem livros ou jornais, e viajam 35 minutos em silencio. Tenho a sensação que quando saem de casa vestem invisíveis bolhas de plástico para não terem contato com o mundo. É o que se chama de liberdade. Se conversam eu respondo, se não, tenho os meus botões para falar. Apesar disso não creio que perdi a minha sensibilidade ou espírito carioca. Apenas aprendi que para viver aqui tenho que me adaptar ao jeito deles. Por exemplo: tive um namorado americano que uma noite me convidou para jantar em sua casa. Na sala, uma mesa linda com flores e velas, e na cozinha ele preparava o jantar. Jantamos romanticamente e, ao perceber que ele ia lavar os pratos, me ofereci para fazê-lo .Cozinha limpa, ele me deu um longo beijo e me mostrou o caminho da sala. Sentei no sofá e acendi um cigarro e fiquei esperando por ele. Os minutos passaram, o cigarro acabou, e nada. Ouvi um barulho na cozinha e fui ver o que estava acontecendo: ele estava lavando o fogão. Diante do meu espantou comentou: “você esqueceu”. Agora me diga: qual brasileiro se preocuparia em lavar um fogão numa hora dessas? Em julho voltei ao Brasil para rever Bernardo, meus pais, irmãos e alguns amigos. No reencontro com os amigos uma sensação estranha : eles falavam, perguntavam e eu não conseguia responder. Era um bombardeio de amor e festa e já não sei mais como é isso. Algumas pessoas me acharam triste. Sei que não sou mais uma grande gargalhada, mas o sorriso é sereno e constante. Pais e amigos continuam a perguntar até quando continuarei aqui, levando esta vida. É difícil responder. Gosto da minha vida tranqüila, sem badalações, doméstica e interiormente profunda. Nasci de novo aos 34 anos de idade, Sei que perdi muita coisa. Não falo do plano material, isso não importa mais. Tenho consciência que meu filho passou por momentos difíceis. Talvez ele ainda não possa compreender mas um dia vai perceber que ganhou uma mãe muito melhor. Deixei a profissão de que tanto gostava e não sei se vou poder recuperá-la, mas por outro lado ganhei uma nova. Turismo já não é apenas um meio de sobrevivência, faz parte de mim e gosto muito do que faço. Sei que aqui sou apenas um numero a mais no Social Security. Mas não tenho que provar mais nada para ninguém, nem para mim mesma. Posso ser tímida, carente, apaixonada, teimosa, em qualquer idioma, pois descobri que sou uma boa companhia. Aprendi a viver comigo mesma e minha fé é tão grande que sei que amanhã será melhor, em qualquer parte do mundo em que eu estiver. Até mesmo no Brasil. Afinal eu quero e mereço ser feliz.

Nova York, setembro de 1983

11 Respostas para “Eu larguei tudo e fui viver em Nova York

  1. Estive lá, com a tia Yayá, tio Alceu e Bernardo, vim de Belo Horizonte com escala de um dia, rsrsrs, mas foi ótimo. Bernardo era um menino adorável e falante. Bons tempos…. podíamos não ter muita coisa (material) mas possuíamos a juventude! Pena que, como tantas outras coisas, só damos valor quando a perdemos…. Beijos prima

  2. Adorei sua história, foi um aprendizado em tanto. Tenho 47 anos e se um dia ainda tiver a oportunidade de acrescentar esse conhecimento de mundo ao meu currículo, certamente o farei.

  3. Amei sua história e me identifico muito com ela .Estou morando em Orlando e estarei me mudando para Nova York esta semana.Hoje, vivo no silêncio e com os meus pensamentos.Tem dias que não falo com ninguém…especialmente finais de semana (eu odeio sábado e domingo ).Estou me conhecendo melhor e não sei o que vou fazer da minha vida ainda…Sempre fui uma pessoa trabalhadora, responsável…mas percebi que estava me sentindo perdida, mas não tinha coragem para tomar decisão de abandonar tudo e viajar para outro país. Mas a vida é tão curiosa , que um dia , ela me abandonou. Perdi marido, casa e dois cachorros. Foi o pior momento da minha vida …Sem chão, decidi que era hora de estudar e conhecer outra cultura … Eis me aqui !!!

  4. Belissimo texto e super inspirador. obrigado

  5. aiiihhhh..um pouco triste e melancólico,cada um escolhe o seu destino,mas eu espero ter um fundo musical suave ,mas bem alegre quando eu estiver em NY,distante de minha mae e de todos os meus, que eu amo tanto.
    Fiquei com uma sensação de que este relato ficou sem um final feliz.
    Eu quero Alegria em dose tripla!!!!!!!!!!!!!!!

  6. Estamos planejando morar 1 ano em NY meu marido , meu filho de 10 anos enquanto minha filha vai estar fazendo o intercâmbio em outra cidade…. espero q seja uma escolha feliz p todos nós. Amo mt NY mas p morar é outra coisa neah. O q faz a decisão ser mais fácil é estar certa de q vamos voltar, q será só por um período. Será? Tomara!

  7. fantástico!!!!!!
    tenho a vontade, a coragem e o sonho, mas nāo tenho a menor ideia de como fazer isso….

  8. Aos 15anos fui estudar no colegio internato em San Francisco mas acabei voltando aos 17anos por que sentia muito “home sick”. Quando estava no 3ano da faculdade em Sao Paulo quis voltar a morar na California… Mas a minha Mae que sempre foi muito coruja nao concordava com a ideia de eu morar sozinha e tambem faltava a coragem da minha parte de ser independente.
    Hoje com 32anos, com a vontade enorme de mudar a vida com novos desafios, digitei na google ” morar em NY” e o titulo do seu texto me chamou a atencao.
    Obrigada! Foi muito inspirador, verdadeiro e profundo ao descer cada paragrafo com os olhos passou filme pela minha cabeca.

  9. MUITO OBRIGADA! Pra ti pode ter sido um desabafo. Pra mim foi tudo que eu precisava ler.
    Beijos

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