Desapega

O coração veio à boca e voltou. Começou a bater forte. Ondas de calores, tremores de frio, tudo misturado, diante de cada um que surgia. Poderia ser bem mais simples, jamais imaginei que seria tomada por este sentimento diante dos muitos CDs que me acompanham há mais de duas décadas e confinei em grandes caixas de plástico.  Cansei de vê-los enfileirados, um apoiado no outro, praticamente mortos, tomando espaço na estante da sala. A música não saía mais deles, nem tenho cd player, tudo vem no computador, nas mídias alternativas, no pen drive, no celular….Tomando poeira e sem que ninguém os quisesse ao menos para admirar suas capas, resolvi recolhê-los até o dia em que surgisse uma ideia melhor. E este dia chegou. Depois de ler o livro da japonesinha que ensina a desapegar, minha vida está mudando de forma galopante.

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A guru japonesa Marie Kondo é autora do best seller “A Mágica da Arrumação” que vendeu mais de 2 milhões de exemplares, andou no topo da lista do The New York Times e foi lançado no Brasil há alguns meses.  Uma amiga deu a dica, encomendei e chegou no correio. Agarrei-me ao livro de tal maneira que desde então só penso em reduzir os meus pertences. Marie que nem inglês fala, é viciada em arrumação desde criancinha. Insistia para que a mãe desapegasse de objetos e mantivesse a casa numa organização minimalista. E foi dessa obsessão que nasceu o método KonMarie que a levou a ser disputada por milionários japoneses que acumulam além de dinheiro muita quinquilharia e querem aprender o detox do supérfluo. Aos 30 anos de idade ela ganhou o mundo falando sobre um programa que criou e que baseia-se em dois fundamentos: a necessidade de reavaliar tudo que se tem em casa para descartar sem dó os itens inúteis e a reorganização do espaço segundo categorias bem definidas. Ela sugere que se examine cada objeto por segmento. Das calcinhas/sutiãs aos suéteres, dos sapatos aos cds, passando pela louça, roupa de cama, banho e festas, bolsas, produtos de limpeza e de banheiro, livros, recuerdos de viagens, fazendo a seguinte pergunta: “Isto me traz alegria? ”

Estou vivendo exatamente o momento “isto me traz alegria” com os CDs, mas já de olho comprido nos livros, nas roupas, objetos de decoração e mais adiante a cozinha, o banheiro, fotografias… Já estabeleci que os CDs do coração serão gravados num HD externo, ocuparão menos espaço e terei para sempre as músicas da minha vida. Estou saboreando estes ensinamentos e me fazendo uma outra pergunta “isto me importa? ” Muito mais do que necessito TER é o PARA QUE carregar tantos objetos…  Ao longo da vida já desmontei muitas casas, doei, deixei para trás, abri mão, com o sentimento de querer me libertar do passado. Foi assim em muitas mudanças. Há alguns anos fiz uma conta e cheguei ao número de 26 mudanças em 23 anos. A última há 11 anos quando vim prá Bahia e me lembro que estava colocando as últimas coisas no carro quando percebi que não teria mais espaço para uma TV. Dei ao porteiro que ficou me acenando com o maior sorriso.

Mas nestes últimos anos novos elementos surgiram…. O guarda roupa que usei como executiva indo e voltando de São Paulo, mais livros, objetos de decoração, lembranças, presentes e haja acúmulo…. Vou esvaziar os armários, liberar espaço, respirar…. No entanto o que mais gostei no livro da japonesinha não foram as dicas para guardar meias esticadas (jamais embrulhar como uma bola!!), dobrar roupas de forma especial para serem acariciadas, ou guardar duas bolsas juntas, uma dentro da outra. Nas últimas páginas ela fala sobre o respeito que se deve ter à casa onde se vive, a importância da moradia, agradecer o teto que se tem.

“Você cumprimenta a sua casa ?” Ela pergunta e conta que se ajoelha no chão, no centro da casa dos clientes, e dirige-se mentalmente ao local. É um ritual silencioso que arranca olhares de espanto. “Assim como cumprimenta seus familiares e seus animais de estimação, faça o mesmo com a casa quando chegar da rua “ sugere Marie. Mesmo antes de ler seu livro ou reportagens sobre sua técnica, faço algo parecido. Sou muito grata pela casa que tenho. Ela é parte fruto do meu trabalho e parte memória da família. E por ser tão feliz aonde vivo que criei o hábito de pela manhã, ao abrir as janelas e portas, agradecer o dia e pedir que além do sol, entre muita saúde, alegria, prosperidade, harmonia… À noite, ao fechar cada uma das 9 portas e janelas da parte de baixo da casa, peço proteção e paz… Este pequeno ritual me faz muito bem e acredito que a vida vai ficar ainda muito melhor depois que puser a casa em ordem…

Braços de fora

Joguei mais uma peça de roupa em cima da cama e só então percebi que o guarda-roupa estava praticamente vazio. Saias, vestidos, blusas, calças, xales, lenços, formavam uma enorme montanha no mais autêntico estilo nada serve, nada combina. Depois de meia hora desfilando frente ao espelho para achar uma roupinha simples e ir ao encontro de amigos num bar, a ficha caiu. O problema não estava na cintura que aumentou uns centímetros, ou nos braços que já não aguentam mais ficar fora das mangas na baixa estação, mas a insatisfação era única e exclusivamente minha.

Não conheço mulher que não tenha passado por uma situação dessas. Tem dias que nada serve nada presta nada vale, nem nós mesmas. São dias que poderíamos pular no calendário, esquecer que existiram, não valem nem guardar como experiência de vida. Mas são dias que existem, às vezes muito mais do que desejamos. Jamais assisti um filme ou li em livros, a cena de um homem frente ao espelho colocando e tirando compulsivamente uma gravata, ou uma camiseta básica para ir tomar um chopp com os amigos.

Foto: Alexandre Campbell Penna

Chego a acreditar que o privilégio da transformação, tirar a pele e se recompor como um camaleão, é única exclusivamente feminina. Vem no mesmo pacote do processo da fêmea cujos óvulos caem no útero e se não forem surpreendidos na trajetória se escamam, dissolvem e jorram mensalmente por entre nossas pernas. Passamos boa parte de nossas vidas nos recompondo mês a mês, por dentro e por fora, experimentando as mais incrédulas sensações, como se tivéssemos permanentemente um espelho à nossa frente esperando qual personagem irá se refletir.

Somos e fomos uma coleção de personas. Há pouco tempo abri uma caixa com velhas fotos e fiquei procurando um ponto em comum em todas aquelas carinhas que se transmutavam ora em cabelos claros, outros escuros, longos, curtos, lisos, ondulados…. Fiquei analisando aonde eu realmente me reconheceria em qualquer circunstância e só então pude perceber que me encontro num certo jeito de olhar a vida com muita vontade. Um olhar que às vezes se acanha, outras encara, mas com a coerência de enfrentar o que vier sem medo. Não importa se foram os tempos de vacas gordas ou magras, se a roupa era chic de boutique ou costurada pela vovó, se o cenário de fundo era Nova York ou a Tijuca, se sozinha ou acompanhada, mas em todas aquelas fotos o olhar refletia a alma de quem acredita que viver vale a pena.

E é por isso que fico até envergonhada quando vejo na cama um monte de roupas empilhadas. Seda, linho, crepe, jeans, chita, algodãozinho barato, jersey, tudo se mistura e qualquer dia vai virar trapo. Não tem escapatória, é o destino do pano que nem traz alguma verdade ou faz diferença. Serve somente para cobrir um corpo e dar algum status. E eu ainda fico ali, vendo o que serve e o que não serve, combina ou não combina, sendo que a sensação de desconforto é puramente interior. Melhor seria esquecer a conversa com amigos, ler um livro, dormir mais cedo ou simplesmente trabalhar na consciência de que o verdadeiro poder está dentro de mim. Enquanto ficar brincando de pôr e tirar roupinha, como fazia com as bonecas de papelão que recortava das revistas que vinham no jornal de domingo, nada vai prestar ou saciar a minha busca…

Busca de roupa interior, de algum véu que se rompeu em algum momento e me deixou desnuda na confiança da luz que cada um carrega dentro de si. Algo invisível, intangível, um brilho além desta vida, que será sentido profundamente quando conseguir sem ressentimentos ou comparações deixar os braços de fora em qualquer estação.

Mão na massa

Acabei me interessando pelo assunto só para dar uma força aos amigos.  Talvez com mais um aluno a professora se animasse. Eu sempre reconheci a minha inabilidade para artes plásticas. Com agulhas, linhas, tecidos até que me resolvo. E foi apenas para ter quórum que há um mês comecei com aulas de cerâmica, duas vezes por semana. No primeiro encontro com a argila me apaixonei. Amor ao primeiro toque.  Lembrei muito dos sentimentos já vividos, daquela festa que se pensa ser muito chata e se torna a melhor de todos os tempos, assim nasceu a minha relação com o barro.  Fascinante descobrir um novo repleto de segredos, jeitinhos e vontades. É praticamente um ser em transformação, chego a pensar que tem vida própria, em outros momentos acho que me escolhe para criar alguma peça…

Lembrei de uma história que ouvi a respeito do Dr. Roberto Marinho, não sei se é verídica, mas é bem bacana e adoraria que fosse. Conta a lenda que o poderoso criador da Rede Globo de Televisão, responsável pelo sucesso do sistema Globo de tudo, depois dos 80, em alguns dias na semana fazia aulas de cerâmica para evitar a artrite. Chego a imaginar Dr. Roberto – era assim que o chamávamos em O Globo – em um atelier super sofisticado, com um mega forno, cercado pelas melhores argilas do mundo, de todas as cores, “brincando de massinha”, transformando em potinhos, pratos, vasos, pequenas esculturas…

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Os meus dedinhos médio e indicador que de tanto escrever ficaram tortinhos, estão agradecendo por estes exercícios. Como é prazeroso mexer no barro! Coloco literalmente a mão na massa e vou mexendo aquela consistência, às vezes mais rígida, outras molhada, colocando força, muita energia para esticar como se fosse uma massa de pizza, atenta às bolhas que podem prejudicar o trabalho, batendo firme e depois, delicadamente, criando as peças… E nada se faz em um dia. Só mesmo o homem que Deus criou que, como consta na Bíblia, saiu do barro. No final da aula as peças são levadas para descansar e retomamos ao acabamento.

Ah! Como tem sido rica esta espera!  O exercício de dar um tempo e dias depois voltar a trabalhar a peça que ainda não está em ponto de forno, cuidar dos detalhes com pequenos instrumentos improvisados, do cabo de uma escova de dentes a uma agulha de crochê. Tudo muito delicado.  Paciência, este um grande desafio. Para uma capricorniana prática é quebrar paradigmas. E estou aprendendo com uma dedicada professora e três amigos, cada um com seu jeito de construir suas obras. Rimos muito, às vezes cantamos, contamos intimidades, uma catarse em meio ao barro.  Comentamos que no fim do ano faremos uma exposição, mas muito mais do que expor aos outros temos a nos mostrar superações. Reconheço que somos artistas. Um escreve poesias em suas peças; outra trabalha simetricamente, detalhista, ao máximo do capricho e energia; e a terceira que se denomina artesã aposentada, é uma artista na plena extensão da palavra.

Estou me descobrindo mais uma vez, refletindo enquanto construo potes, vasos, porta velas, pratos, todos assinados, que distribuirei entre amigos com a lembrança de mais um aprendizado.

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Visita

A casa dos meus pais tinha muitos braços abertos, bem mais do que o número de quartos. Papai e mamãe nasceram no Paraná e foram os primeiros de suas famílias a “ganhar o mundo”, entenda-se Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, por isso desde muito pequena lembro que tínhamos hóspedes. Eram parentes e amigos que chegavam para temporadas, como a tia avó que foi conhecer o mar e passava os dias sentada na poltrona favorita do papai recortando e emendando tecidos criando infindáveis tapetinhos; a prima da mamãe que se refugiou com o neto enquanto o filho, recém separado, mexia os pauzinhos para ter a guarda do menino. Teve também o padre de São Paulo que ia embarcar para Roma e como o avião saía do Galeão passou dias conhecendo a cidade tendo papai como guia turístico. Detalhe: papai não era católico, mas o ajudara a levantar fundos para construir uma igreja. A garota americana veio com um coral e a pedido da minha madrinha ficou conosco 15 dias. Ela não falava português, nós gaguejávamos inglês e fomos felizes. Uma prima que foi fazer extensão na Escola de Belas Artes e ficou quase um ano, e outra que fez também um longo curso de Biologia. Mas o melhor de tudo foi quando meu irmão Victor levou para casa um jovem peruano mochileiro que, através de amigos, conheceu na rua. Juan viajara de carona até o Rio carregando na mochila mais livros do que roupas. Apresentava-se como periodista (jornalista) isto em pleno ano da graça de 1966, no meio da “revolução”. Morou três meses em nossa casa e mamãe, penalizada com a penúria do rapaz, todo dia lhe dava um trocado para o ônibus e o cigarro. Saía de manhã, voltava a noitinha, e dizia que frequentava as universidades. Quis conhecer Brasília, papai conseguiu uma carona em um caminhão que transportava medicamentos e, para repatria-lo conseguiu um lugarzinho num voo do Correio Aéreo Nacional. Depois que ele partiu concluímos que deveria ser um agitador comunista. E papai era de direita!

Lembrei desses fatos enquanto lia o e-mail de uma amiga pedindo hospedagem para um casal que fotografa passarinhos e viaja de carro pelo país registrando as espécies mais incríveis. Impossível negar acolhida. Foi assim que conheci Gabi e Re (Gabriela Giovanka e Renato Rizzaro), idealizadores do tradicional pôster ilustrado com aves brasileiras e que desde 2005 viajam para documentar aves. Em 2009 foi publicado o pôster com uma coleção de aves da Mata Atlântica, seguido de aves do Pantanal (2010), Amazônia (2013), Pampa (2014) e Cerrado (2015). Agora chegou a vez da Caatinga. Felizes, queridos, bem-humorados, comprometidos com a natureza, eles batalharam para recuperar e manter uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), a Reserva Rio das Furnas, com 53 alqueires, distante 80km de Florianópolis, onde cercados por 7 cachoeiras convivem com pumas e outras tantas espécies em extinção.

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Falamos muito sobre vida na contramão. O quanto é bom se trabalhar com paixão e comprometimento. Por onde passam, em uma escola ou ONG, dedicam algumas horas com o projeto Roda de Passarinho, onde levam às crianças a refletir sobre a importância da liberdade e preservação da natureza. O carro em que viajam é uma Toyota, e também funciona como casa, sem ser um trailer. Foi adaptada, pode ser usada como confortável cama de casal com 2ms de comprimento, tem armários horizontais como gavetas, um pequeno depósito cozinha, bandeirinhas enfeitando a janela para dar um toque doméstico. Vivem com o mínimo, num máximo de qualidade. Sonham com que as RPPNs se multipliquem e, enquanto viaja fotografando passarinhos, Renato também encontra tempo para fazer lindos trabalhos editoriais. Deixou-me dois maravilhosos livros sobre Santa Catarina, design seu, o registro de alguns passarinhos no meu “quintal alado” e a certeza de uma nova amizade… Qualquer dia eles voltam, e eu espero pois adoro conhecer gente nova… Aprendi com meus pais.

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Com Valdir Siqueira, sempre uma lembrança

Com Valdir Siqueira, sempre uma lembrança

“Mesmo tendo deixado o Canecão, eu ainda estava como muito trabalho. Isso não era de todo ruim, pois significava um bom faturamento, mas trazia muita responsabilidade. Na verdade, eu não sabia o quanto eu queria crescer, não imaginava realmente o que era ter um grande escritório, com dezenas de clientes e funcionários, PIS, PASEP, FGTS e outras coisas mais. O que eu gostava mesmo era cuidar de cada projeto como sendo o único, pensar nos detalhes, construir junto com a equipe e o cliente uma comunicação sob medida. Diante destas divagações, uma noite trocando ideias com a querida amiga Ana Maria Ramalho, ela me deu uma sugestão: “Fecha o escritório e dá um tempo. Vai conversar com o Valdir e o Lula, eles estão precisando de um gerente de comunicação para a agência.” Antes de ser jornalista, eu desejei ser publicitária. Foi em uma agência de publicidade em que eu tive o meu primeiro emprego com carteira assinada. Era uma das maiores agências do país, e eu cheguei lá através de um anúncio do jornal procurando por uma recepcionista. Eu tinha 18 anos e fazia um curso na ABP (Associação Brasileira de Propaganda), ao mesmo tempo em que me preparava para o vestibular de psicologia. Meu pai fez parte da primeira turma de Publicidade formada em São Paulo nos anos 1950 e com um enorme prazer, ele me contava sobre as maravilhas do mundo do marketing: uma palavrinha tão especial que nem recebeu tradução, e que acabou sendo incorporada em sua forma original à Língua Portuguesa. Ele foi uma influência importante para mim. Assim, segui a sugestão da Ramalho e fui ao encontro do Valdir (Siqueira)7 e do Lula (Vieira)8 na simpática casa numa rua tranquila do Humaitá.
Com o Aias Lopes e Carlos Alberto Carmo (Carlão), eles formavam a cúpula da V&S Propaganda, uma agência premiada, com clientes importantes. Era um clima muito gostoso, que me cativou desde a primeira conversa. Parecia com o meu escritório, funcionava em uma casinha numa vila entre Laranjeiras e o Flamengo. Fui para casa com a cabeça a mil. Passei o fim de semana divagando sobre a proposta deles e voltei a um ponto que sempre me norteia nos momentos de alguma grande decisão: a certeza de que meu maior tesouro é meu caderno de telefones. É uma forma figurativa de dizer que os amigos – as pessoas que encontrei ao logo da vida e as relações construídas com eles – são importantes e me acompanham em qualquer caminho. Diante disso, tomei a decisão que achava mais coerente para aquele momento: iria ampliar o meu conhecimento em comunicação, vivendo no mundo corporativo. A partir daí, foi tranquilo para fechar o meu escritório: encaminhei a equipe para outros trabalhos, conversei com os clientes (alguns continuaria atendendo), desfiz o contrato da casa e sem qualquer apego doei alguns móveis, levei outros, assim como todo o arquivo de memórias. E comecei um novo tempo. Estava fascinada com a possibilidade de trabalhar de segunda a sexta, com horário fixo para chegar e para sair, sem contar que teria um bom salário no final do mês. Era exatamente esse o tempo do qual eu precisava, e me entusiasmava saber que estaria mais uma vez à frente de um desafio. Como a função de Gerente de Comunicação não existia na agência, estava livre para criar uma estrutura voltada exclusivamente para o mundo corporativo, trazendo o know-how adquirido com o meu escritório de eventos. Fui incorporada à nova área da agência, a Central de Informações, um departamento que funcionava em uma sala que era um grande arquivo de referências de imagens que poderiam ser usadas na montagem de provas de anúncios, para serem apresentadas aos clientes. Fiquei fascinada com aquela quantidade enorme de revistas, livros e pastas. Em tempos sem computador, todos os recortes eram arquivados em pastas. O que temos hoje em pastas do Windows (e outros sistemas operacionais), fazíamos em pastas de papelão,
algumas vezes até em caixas, com requintes, como por exemplo, a pasta de recortes sobre copos ter sub pastas, com taças, copos de plástico, todos os tipos possíveis e imaginários. O trabalho mais básico que era desenvolvido pela Central de Informações era o clipping, que ganhou uma cara nova. Geralmente, eu contratava uma empresa de clipping para atender aos projetos dos clientes, mas, neste caso, percebi que era uma ação muito mais subjetiva. Não precisávamos apenas saber tudo o que saísse de um determinado cliente, mas apenas o que poderia interessar às diversas áreas de agência, analisar tendências e oportunidades. Para fugir do padrão de recortes colados em folhas brancas, acrescentávamos desenhos, figuras e antigos anúncios retirados da minha coleção da revista Fonfon, o que dava um charme especial ao clipping. Eles deixavam de ser aquelas folhas grampeadas que passavam dias jogadas em cima de uma mesa. Mais uma vez, seguindo as mesmas exigências de qualidade de não ter recorte torto, nem mancha de cola. Tinha que ser objeto de desejo. Além das relações com a imprensa do segmento de propaganda e marketing, comecei a buscar assuntos para entrar em outras áreas. A V&S tinha entre seus clientes o Ministério da Saúde e estava lançando uma campanha promovendo consultórios odontológicos em comunidades. Mussum fazia muito sucesso no programa Os Trapalhões, tinha um sorriso bonito e foi contratado para ser o “garoto propaganda” da campanha. Como eu o entrevistara algumas vezes, sabia que ele tinha sido um menino pobre, e o convenci de que esta era uma boa oportunidade para dar um testemunho sobre a importância do comercial gravado. A entrevista saiu em uma coluna de televisão, e para além do comercial, o assunto ganhou vida em um depoimento verdadeiro, agregando um enorme valor ao trabalho da agência. Trabalhando com Cristina Ramalho e Júlio Marques, em uma equipe enxuta e afinada, conseguíamos fazer mil atividades simultaneamente. Desde preparar a lista de convidados para festas de premiação de publicidade, até embalar centenas de incensos artesanais em pequenas caixinhas como brinde de fim de ano. Organizávamos as festas mensais temáticas reunindo os funcionários, e criamos uma rádio para estas comemorações, onde qualquer um poderia oferecer uma música com uma mensagem. A rádio acabou fechando quando um funcionário dedicou a música “Comida” dos Titãs para o Diretor Financeiro, e aumentou o volume bem no trecho “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Em outra oportunidade, distribuímos algumas dúzias de vasos de violetas que foram encomendados para uma ação promocional cancelada um dia antes. Para não perder as flores, antecipamos o dia da secretária e fomos extremamente criativos, como uma boa agência. A V&S era uma empresa com profissionais da melhor qualidade, e era tão antenada com sua equipe, que havia reuniões semanais com uma psicóloga que atendia, separadamente, o Grupo da Diretoria e o Grupo de Gerentes. Enfim, era uma agência que pagava até o analista! Fomos felizes por pouco mais de um ano, até que uma proposta sedutora tirou o meu sossego e resolvi partir para novas experiências, mas com a certeza que este tempo corporativo tinha acrescentado muito na minha forma de encarar a assessoria de imprensa. A partir disso, eu podia tudo.
notas
7. Valdir Siqueira, paulista e publicitário, começou na agência Selo Azul, e de lá foi para a JMM Publicidade, depois, mudou para a SSC&B Lintas Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1976, foi para a multinacional J.Walter Thompson, onde conheceu Lula Vieira. Em 1982, fundou com ele a VS Escala, que depois passou a ser simplesmente V&S Propaganda. Foi duas vezes escolhido como Melhor Executivo do Ano pela ABP, e depois como Publicitário do Ano. De 1995 a 1998 presidiu a Federação Nacional das Agência de Propaganda (Fenapro). Foi presidente da APAR Rio, e depois da ABAP Nacional. Também foi ele o fundador e vice-presidente do CEMP. Formado em Publicidade na primeira turma
da ESPM-Rio, Valdir participou de diversas entidades de classe, tendo sido um dos fundadores da Associação Brasileira de Marketing, e presidente da Associação Brasileira de Propaganda. Lecionou publicidade e propaganda na PUC Rio, na ESPM e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, faz parte do Conselho Fundador e da diretoria do Conselho do Desenvolvimento Sustentável da Baia da Ilha Grande.”

Trecho do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”

30 anos de rock

Capara do livro

Capa do livro

Depois de 3 anos morando em Nova York em 1984 voltei a morar no Rio e restabeleci minha relação de trabalho como freelancer no Segundo Caderno de O Globo. Naquele tempo ofereciam ao “freelancer” reportagens que a equipe fixa ou não tinha interesse ou disponibilidade para fazer. Acredito que por ter sido repórter especial na área de cultura durante 5 anos na mesma editoria, recebi a tarefa de ouvir Roberto Medina “aquele publicitário visionário” que estava anunciando um enorme festival de rock para o ano seguinte.  Na sala de reunião da Artplan na Lagoa lembro perfeitamente de ter ficado extasiada frente a ilustração do Benício mostrando como ficaria a Cidade do Rock. Foi amor à primeira vista. Conhecia Roberto há muitos anos, admirava as realizações de seu pai Abraham Medina e fiquei boquiaberta com a capacidade de projetar algo tão grandioso para um Brasil tão tímido em matéria de showbusiness. Por ter vivido nos Estados Unidos tão recentemente eu tomara conhecimento de grandes festivais e eventos, mas nada se comparava a este. Fiz a primeira reportagem, tentei convencer ao editor que merecia uma capa do Segundo Caderno, mas tudo que consegui foi uma matéria de duas colunas numa página interna. O assunto era tratado com pouco crédito, nas entrelinhas eu entendia que viam como um delírio. Depois desta reportagem fiz outra, mais outra, e acabei me tornando uma espécie de setorista de “rock in rio” dentro do Segundo Caderno, ou seja, aquela repórter que fica colhendo informações sobre o mesmo assunto. Era um tema que poucos na redação acreditavam e eu estava completamente encantada com a ousadia e dimensão. Mesmo sem bola de cristal eu conseguia ver o que representaria para país.

Quando o festival aconteceu em janeiro de 85 eu tinha uma intimidade com o evento como nenhum outro repórter do jornal. Sabia de cor quantos caminhões de terra, quilômetros de grama, milhares de metros de fios para a iluminação “bailarina” criada pelo light designer Peter Gasper  e todos os detalhes do mega evento. Poucas semanas antes do festival começar Roberto me concedeu uma entrevista exclusiva que finalmente consegui colocar na capa do Segundo Caderno do jornal O Globo no primeiro domingo do Rock in Rio. Nesta reportagem ele contava sobre sua vida, o desejo de ser poeta, a influência do pai e o desafio de fazer o festival. Uma das fotos que ilustrou a matéria mostra a família, tendo Roberta e Rodolfo, hoje principais cabeças do festival, ainda bem crianças. Como “prêmio” fiquei 10 dias trabalhando no sol e na lama, escrevendo para o jornal críticas, matérias sobre comportamento, tudo o que estivesse acontecendo, e quando o festival acabou, Medina fez o convite para que no próximo eu integrasse sua equipe. E lá estava eu. Rock in Rio Eu Acredito.

Trilha da vida

Prefiro dirigir conversando com meus botões, no barulho dos pensamentos… Mas esta semana voltando de Porto Seguro, deliciosos 24kms à margem do mar pela BR 367até Cabrália, de repente, num inexplicável mistério tecnológico, um solavanco, um botão que apertei errado, a aparelhagem de som do carro foi ativada e a música guardada no pen drive invadiu o espaço. E era exatamente a música que mudou a minha vida. O carro não é meu, nem a seleção musical, mas o beliscão na saudade estava ali dentro sem mesmo eu perceber. Acredito que todos têm canções que marcam início e fim de um relacionamento, algum momento magistral, uma conquista profissional… Mas não sei se alguém tem como eu uma música que fez virar a vida de cabeça pra baixo, que me mostrou ser o país pequeno demais para a busca pessoal e me atirou no mundo.

Deixei filho, casa, emprego e saí com a voz do Milton Nascimento martelando em minha cabeça “vou me encontrar longe do meu lugar eu caçador de mim…”  Mais de 30 anos se passaram e bem digo a música que conheci quando em 1981 fui entrevistar Milton Nascimento para o jornal O Globo em um hotel na orla de Copacabana. Voltei para casa com o disco embaixo do braço, coloquei na vitrola e pirei.  “Caçador de Mim”, de Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão, foi a trilha da minha vida por um bom tempo, acabou cansando e nunca mais quis ouvir. Depois de ter me encontrado “longe do meu lugar”, deixou de ser importante, se tornou apenas uma referência, uma lembrança remota…. Sem sabor, odor ou textura, sem mexer mais com as minhas emoções, foi posta fora do meu set list.

Esta semana nos reencontramos sem mágoa nem expectativa, num fim de tarde lindo. Nada como o tempo para acalmar as emoções. Apenas eu e a música percorrendo a estrada numa temperatura amena, sem pressa…. Cantei junto com Milton. Aumentei o som para liberar a energia. Abri as janelas para compartilhar com o mar, os coqueiros, a vegetação, ainda com um pouco de Mata Atlântica, a alegria do momento. Ouvindo e repetindo cada palavra, respirando, sentindo. Missão cumprida, um agradecimento para quem impulsionou uma mudança jamais pensada…. Continuo na busca, muito mais me encontrando do que me perdendo, com outras sonoridades. Hoje o barulho das ondas, o som do vento, os cantos dos pássaros me bastam.

Para lembrar https://youtu.be/Se9XYKHQi3Y

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Que bomba você está soltando ?

Entre as boas coisas de se ter uma pequena pousada é a oportunidade de estar com amigos, conhecer amigos dos amigos e fazer novos amigos que me encontram através da internet.  Não tenho uma pousada padrão, por isso pesquiso antes receber alguém que não foi recomendado e sempre me surpreendo. O grupo vai se ampliando, vou costurando novas relações, conhecendo historias, ouvindo casos, aprendendo. Foi assim no último feriado quando recebi uma engenheira paulista, em torno de 40 anos, mochila nas costas, a mesma que usou ano passado no Caminho de Santiago.  Para aceitar a sua reserva foi complicado. Sem referências nas redes sociais, tive que abrir meu coração quanto a preocupação sobre quem é o hóspede e depois de alguns e-mails acreditei que valia a pena. E valeu mesmo. Ela não tem celular, leva uma bolsinha com fichas para telefones públicos, e só utiliza o email profissional. Não quis sugestão de táxi para chegar do aeroporto à vila, preferiu o ônibus local e aceitou que fosse buscá-la de carro na balsa. Além das boas conversas e de sua alegria com tanta liberdade como viajante solitária, antes de partir deixou dois pequenos presentes: um chocolate da sua cidade e uma pequena bola de argila recheada com sementes de árvores para jogar em alguma estrada e deixar florescer.

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Desde então, tenho olhado para a pequena bomba transformadora da natureza, pensando em qual estrada irei jogar…. Puxando o fio da meada, entrando um pouco mais a fundo, reflito o que tenho espalhado por este mundo… Mais do que fazer amigos vou à luta para conservá-los. Tenho alguns desde a infância, os reencontrei nas redes sociais, o contato é virtual ou por telefone, seguimos caminhos tão diferentes que temo encontrá-los e nosso assunto ser só o passado. Mas não importa a língua que estamos falando, sabê-los por perto me faz feliz. As amizades construídas na escola, depois na vida profissional, me dão uma enorme alegria mesmo com o convívio distante. Têm sido cada vez mais raros os encontros e são estes amigos que alimentam a minha memória, fazem lembrar a trajetória… Alguns de forma mais atuante, outros passaram ao largo, mas ouviram, viram, viveram o mesmo tempo.

Às vezes penso como eu estaria hoje se tivesse permanecido casada – vale para os dois ex-maridos -, se não tivesse deixado a redação do jornal, se continuasse morando nos Estados Unidos, se não tivesse me demitido da Globo e hoje fosse autora de novelas…  Fiz escolhas, joguei muitas “bombas”, deixei marcas, sei que deixei lembranças por onde passei…. Tenho consciência que não estou à margem da vida que me foi dada… Entrei de cabeça em todos os projetos e sei que isso me valeu algumas brigas por cuidar com zelo da terra dos outros, semear com carinho, cuidar da colheita que nem sempre usufrui. Mas me orgulho até das inimizades que surgiram e, como sempre, quase que num toque de mágica, se tornam “os melhores amigos”. O que tem me irritado é ainda encontrar “pessoas solo árido” que não querem botar a mão na massa nem se comprometer com o próprio caminho. Esperam a banda passar, não vão atrás dela.

Soltei bombas em terreno novo, bem adubado, colaborando para construir grandes eventos, megaprojetos que se multiplicaram e se tornaram reconhecidos internacionalmente… Sementes jogadas com muito amor, falando sobre um mundo melhor para alguns milhares de estudantes em 25 universidades portuguesas…. Ainda me lembro dos olhares incrédulos dos jovens na plateia ao constatar que uma mulher com cabelos grisalhos estava ali para falar de rock… E no final éramos “uma só voz uma canção num céu de estrelas…”

Crio “bombas” misturando essências, credos, filosofias, pensamentos e vou soltando no caminho da praia agradecendo pela vida, meditando na balsa, repetindo todos os dias, ao abrir e fechar as tantas portas da minha casa, a pequena prece de gratidão que escrevi: “Bem-vinda a alegria, a saúde e a prosperidade. Fartura, amor, amigos e felicidade estão chegando. ”

Em tempo:

As bolas de argila, também conhecidas como bombas da paz, tem o nome original de “nengo dango”, foram projetadas e desenvolvidas pelo japonês Masanobu Fukuoka, agricultor, mestre e sábio observador do comportamento da natureza permitindo agir a partir da ciência ambiental. Comprometido em restaurar solos e vegetação criando condições para o desenvolvimento de massa de árvores novas (…) Encapsular sementes em argila tem um alto valor simbólico: o enorme poder da ecologia, simples social, a capacidade de criar vida como parte da responsabilidade de deixar aos nossos descendentes um planeta habitável contra o desafio incontornável dos tempos.http://www.movimentoterraqueimada.com/news/manual-de-fazer-bolas-de-sementes/

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Para mulheres

Foto: Cláudia Schembri

Foto: Cláudia Schembri

Foi numa fração de segundos, entre o tirar a blusa e pegar a toalha, num movimento rápido, simultâneo, que olhei no espelho e gostei do que vi. Nem sempre é assim. Estes três dias à base de sopa fizeram uma diferença (ou foi meu olhar que teve complacência com esta mulher?). Ainda não conversei abertamente com as amigas como se percebem fisicamente depois dos 60. Quando o assunto surge geralmente se reclama de alguma dor, não se fala em prazer, apreço à matéria que temos e carregamos… Tenho a impressão que no fundo ficamos torcendo para mudar o tema e entrar na zona de conforto das lembranças de como as pernas eram bonitas, os seios rígidos, bumbum no lugar, zero de barriga desfilando em minúsculos biquínis no píer de Ipanema, como se viver fosse folhear um velho álbum de fotos… É mais fácil olhar o passado, é nosso conhecido, mas se pensarmos bem vamos concluir que a boa forma que fomos e cultuamos, o sucesso de público e crítica, não durou mais do que 20 anos!

E o que fazer com tantos os outros anos que estão passando? Rejeitar, fingir que não existiram? Nada chegou da noite para o dia, fomos produzindo este nosso atual resultado.  É desagradável a constatação das varizes desenhando a perna, a gordura localizada no abdômen, a celulite, a flacidez nos braços, os pés de galinha, as rugas de tantos sorrisos e estes horrorosos pelos que desapareceram do corpo e surgiram no rosto.

O assunto é forte, mas nada disso me assustou quando, naquela fração de segundos, percebi a mulher se despindo para o banho. Talvez o corpete preto de alcinhas, usado sobre o sutiã para compor com a blusa um pouco transparente, tenha favorecido.  Ou a maquiagem que ainda estava nos olhos, talvez um pouco da lua que refletia no espelho, mas a verdade é que a imagem estava agradável. Os cabelos estão grisalhos, a expressão divertida. Tenho um bom tempo pela frente e se não tratar bem esta mulher, o caminho será árduo. Conviver com o inimigo deve ser horrível!  Todo dia tenho que me permitir ser feliz. Da forma e do jeito que for, não posso dar mole às churumelas.

Uma das mais importantes lições de vida aprendi por volta dos 30 anos, morando em Nova York. Um renomado jornalista brasileiro durante uma conversa em torno de alguns copos de whisky on the rocks me confidenciou que passara por uma grande depressão. Procurou um médico – ou psicanalista, psicólogo, não lembro o que – e no primeiro encontro, depois de ouvir suas lamúrias, o profissional pediu que ele fosse para casa e retornasse dias depois trazendo uma lista com o que considerava mais importante em sua vida. Meu amigo passou dias pensando, voltou à consulta com uma longa lista e começou a relacionar o que considerava vital:  o apoio à mãe no Brasil, a realização profissional como chefe de um grande escritório, o apartamento que comprara num bairro chic em Manhattan, as viagens à Europa nas férias, e foi desfiando o que considerava ser a mola mestra para a sua felicidade. No final o médico simplesmente disse que tudo aquilo só existia por causa dele. No momento em que ele não mais existisse, não haveria a sua mãe, nem seu emprego, seu apartamento, suas viagens…

“O mais importante em sua vida é você”.  Não sei se foi assim que o profissional falou ou meu amigo me contou, mas foi a frase que ficou em mim e já escrevi em cadernos, paredes, páginas na agenda, rabisquei em anotações durante infindáveis reuniões, relembrei na hora de tomar decisões e repito quando me vejo sem pressa frente a um espelho…. É um gesto de sobreviver com dignidade. Li em algum lugar que se não me sentir bem quando sozinha é por que estou muito mal acompanhada…. Por isso preciso ter carinho, até um pouco de piedade, atenção com esta mulher mesmo com as mazelas que o tempo fez com a matéria. Com o privilégio em ter uma natureza esplendorosa ao meu redor, aprendo ao ver a mudança nas folhas das árvores, na flor do hibisco que só dura um dia, no rio que tem sua margem alterada com vai e vem da balsa raspando no fundo, empurrando a areia, derrubando coqueiros, trazendo novo cenário…. Sigo o mesmo movimento, caindo como folha, renascendo na flor, raspando areia, mudando o rumo, em busca do meu novo cenário…

Vai mudar

Comunico a quem interessar possa que estou fora da crise que rola no país. Sem querer ser Poliana, fazer o jogo do contente ou dar uma de avestruz enfiando a cara no chão, cansei de notícia ruim.  É uma tragédia pior que a outra. Matança, escândalos, corrupção, roubalheira, desrespeito, falta de ética e muita gente lambendo o beiço com tanta desgraça. Onde já se viu um senador da república ir à tribuna para xingar um procurador! Estou sem nenhuma paciência para me deprimir ou sair do Brasil. Este desfrute eu não me dou. Sinto muito, deve ter alguma coisa boa rolando neste mundo. Vou atrás, é nisso que vou focar minha vida…

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Como disse Buda “A lei da mente é implacável. O que você pensa, você cria; O que você sente, você atrai; O que você acredita, torna-se realidade.”  E nada mais doentio do que a mente erva daninha que sai plantando qualquer porcaria. Vejo amigos diletos fazendo o jogo de quanto pior melhor. Não votei na presidente, revoltou-me a forma machista como um jornalista se referiu a ela em recente artigo na revista Época. Não falo em política, boa ou má administração, mas o fato de sermos da mesma geração. Quem sabe até tenhamos nos encontrado em alguma passeata no Rio e fugido juntas das bombas de gás lacrimogêneo ou da cavalaria da Polícia Militar.  Quero que ela seja feliz, tenha saúde, bom senso, saiba escolher seus pares e reverta este quadro triste que o país se encontra antes do final do mandato para o qual foi eleita pela maioria dos brasileiros.

Estou de olho no que é bom, de qualidade de vida à pensamentos. Desde que vim morar num povoado com menos de 800 habitantes em um município de grande extensão territorial, mas com recursos pequenos, aprendo mais sobre este país. Em 2013 a cidade aonde moro, Santa Cruz Cabrália, se inseriu num processo sensacional de educação com a chegada da Universidade Federal do Sul da Bahia. Um projeto inovador, uma universidade “anisiana”, com um olhar na Mata Atlântica, na inclusão, nas realidades locais. O reitor Naomar Almeida Filho está fazendo uma revolução na educação. Médico com muitos títulos, epidemiologista, encantado com o poder da vida acadêmica. Já tinha ouvido depoimentos de alguns professores que para cá vieram aliados a este propósito transformador e de uns jovens do meu povoado que através do Enem estão cursando o módulo básico de 18 meses ainda em uma escola na cidade, em breve haverá um colégio universitário em cada localidade.

Tudo muito inacreditavelmente atual em termos de ensino.  No campus Jorge Amado, em Itabuna, além da reitoria estão instalados os Centros de Formação em Ciências, Tecnologias e Inovação, em Comunicação e Artes e o Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC). Em Porto Seguro haverá os Centros de Formação em Ciências Humanas e Sociais, em Ciências Ambientais e o outro IHAC. No campus em Teixeira de Freitas será criado o Centro de Formação de Saúde, com o curso de Medicina, e mais um IHAC.  Espera-se que em 2020 quando chegar em sua plena implantação hajam 18 mil vagas em ensino superior distribuídas em 71 cursos.

Em maio deste ano, como Secretária de Comunicação do município, representando o Prefeito, tive o privilégio de compor a mesa na aula magna que aconteceu através de vídeo conferencia. Assisti ao entusiasmo do reitor e dos novos alunos em estarem vivendo esta oportunidade tão única, e todos ficamos boquiabertos com o show que o Professor Jorge Portugal deu sobre a língua portuguesa e sua diversidade. Tudo acontecendo através de transmissão direta de Itabuna, de onde o professor showman cantou, leu poemas, prosas e levou a todos em uma viagem nas palavras. Fiquei emocionada ao estar tão honrosamente assistindo ao crescimento de uma universidade de excelência em uma região onde se pensava apenas em turismo e agricultura.  Vai mudar este pedaço do Brasil e mesmo sabendo que o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) ainda está vergonhoso, há luz no fim do túnel, tem quem acreditar e se predispor a transformar.

A partir de hoje meu olhar está em buscar o que há de bom neste mundo. Sei que tem muita coisa acontecendo, nem sempre está nas primeiras páginas, mas o bom é o que me alimenta.

foto Cláudia Schembri