Um dia…

unnamed (2)

O dia corre sem nada acontecer, sigo sem fazer esforço para que algo aconteça… Escrevo mais um parágrafo no livro que está preguiçoso dentro do computador, fico admirando o céu entre os galhos das árvores, copio o molde da boneca de pano para a amiga, fotografo uma planta que surgiu no meio de um tronco, vejo a abóbora que nasceu na horta sem ser plantada, repito o exercício diário de varrer o pátio, alimento os cães e os pássaros e, de repente, as luzes se acendem no jardim. Escureceu.

Por mais tolo que pareça, este dia que se acaba foi mais rico do que muitos quando trabalhava das 10 às 8 da noite. Não montei planilha, não criei um grande evento, nem vendi uma boa ideia. Mas vivi profundamente desde a meditação ao acordar, passando pelo agradecimento à refeição, ouvir atentamente o barulho das maritacas voltando pra casa, procurar a primeira estrela no céu… Sei que é possível viver com muito menos e ter muito mais…   Mas sei também que tudo isso faz parte de um longo aprendizado que nem todos passam sem dor…

Estes dias acompanhando o noticiário da morte do Eduardo Campos, assistindo a garra da sua mulher Renata e dos seus filhos, refleti mais uma vez como uma perda deste tamanho transforma uma família. Estava ali, ao vivo e a cores, dias de velório sem o corpo presente. E é numa situação assim que se aprende a superar o sofrimento com uma força que só pode vir da alma… Passei por isso, esperei por uma morte certa, semanas aguardando o desenlace…Lembro de cada detalhe, o desespero da mãe,  o olhar triste dos amigos, os apertos de mão, até o sorriso pendurado em meu rosto durante o velório. Era o alivio de encerrar um ciclo, maior do que a dor da perda… Aplausos para os que partem de uma vida bem cumprida… Mesmo querendo sempre ter o querido um pouco mais, quando tudo acaba fica apenas a certeza de quanto a vida é curta, muito curta… Resta a calma da noite e mesmo que o próxima dia corra sem nada de novo, já vem com muito…

Vida breve…

robertoatoba

Foram apenas alguns passos. Para ajudar um amigo ele subiu a comprida escada com pouco apoio, se desequilibrou e o tombo foi fatal.  Um edema cerebral, um coágulo e em 15 dias a vida se tornou vegetativa. Acompanho o desenrolar desta história que teve ponto final esta madrugada.  Converso com meus botões, falo ao telefone sobre como viver é rápido. Acreditamos que tudo acontece com os outros jamais conosco. Chegamos a pensar que temos todo o tempo do mundo, nos imaginamos, mesmo revoltados ao constatar a perda da juventude, que só iremos embora depois de uma vida comprida e cumprida, apenas num piscar de olhos, talvez um suspiro feliz de desenlace… Como somos tolos pequenos mortais!

O homem que percorreu trilhas e estradas em sua moto, milhares de quilômetros de norte a sul, e me levava a viajar nas paisagens de tantas fotos que registrou em seus caminhos, não se foi num acidente nas duas rodas. Foram apenas alguns degraus. Como disse a amiga Vera, alguns nem sobem míseros degraus, “caem e do chão não passam”. E me vejo em menos de uma semana refletindo sobre os dias que são curtos, os momentos contados numa calculadora a qual não temos o poder de tirar a pilha ou desligar da tomada para que o tempo pare…

Esta manhã acordei pensando nas tantas casas onde morei, percorri na memória cada uma, agradeci por terem me abrigado e sido cenário da minha história. As casas ficam, os moveis se reciclam, e nós vamos a qualquer momento… Arrumar as gavetas, manter a mente limpa, os bons sentimentos, o olhar repleto de alegria pela vida para no dia da partida ter vivido plenamente… Boa viagem Roberto Atobá !

Ninguém vai sozinho…

janela

Nem lembro há quantos anos ouvi o Moacyr Deriquem* comentar diante da morte de algum famoso que esperássemos pois na sequencia seria anunciada a morte de outro… “Ninguém vai sozinho” dizia ele, desde então fiquei atenta aos sinais, sempre que vai um espero para ver quem vai junto…

Com todo respeito e admiração que me merecem, sem querer apressar a partida, mas diante a idade e problemas de saúde, Rubem e Suassuna eram previsíveis… Ubaldo foi um susto, estava com 73 anos, ainda tinha muitas letras pela frente…

Hoje depois de um post que coloquei no facebook sobre a partida de Suassuna, Rubem e Ubaldo na mesma semana uma amiga comentou “será que eles armaram essa?” Não sei se tinham esta capacidade, mas como estou neste pensamento reflito que se é assim mesmo que a vida acontece quem será que vai comigo ? Não quero antecipar a ida de ninguém, nem fazer previsões ou escolhas, mas seguindo este raciocínio deve seguir comigo algum jornalista. Não sei se é pedir muito, mas seria bom se fosse alguém com quem dividi espaço em alguma redação, tanto faz se foi em jornal ou revista, também vale quem trabalhou em assessoria de imprensa, pois teríamos assuntos em comum… Lembraríamos de boas pautas, projetos complicados para conseguir espaço na mídia e outros tantos que foram mais prazerosos…

Também poder ser alguém daqui da Bahia, que conheça as belezuras de Vila de Santo André, entenda de canto de passarinho, de tipo de árvore de mato, de maré alta e maré baixa, e que juntos possamos lembrar as delícias deste paraíso na terra…  Outra opção é uma costureira, bordadeira, crocheteira ou tricoteira, não precisa nem ser grande estilista, uma pessoa mais doméstica com quem poderia no caminho falar sobre pontos de cruz, dicas de arremate no tricôt ou uma nova laçada no crochê… Agradeceria também se me ensinasse um melhor acabamento de costura para as colchas de retalhos, isto pode servir num aprendizado de grande utilidade se me for permitido levar para outra encarnação. Também seria bem vindo algum artista em mosaicos, com quem lembraria quantos azulejos quebrei e as “artes” que deixei em casa…

Quem sabe vai comigo alguma carola, destas que cantam todos os hinos na missa e poderíamos seguir puxando o terço, seria uma caminhada temática e chegaríamos no clima… E dentro deste segmento, podem ir comigo também estudantes de “Um Curso em Milagres”, praticantes de Reiki, todos os chegados a qualquer modalidade de meditação e buscantes em entender a vida… Claro que não teríamos entendido tudo sobre a vida mas passaríamos juntos a falar sobre a morte… Mas se puder mesmo fazer uma escolha, quero viver por um bom tempo e não me deixe seguir com qualquer pessoa da família pois velório duplo é demais…

*Moacyr Deriquem (1927-2001) foi ator de teatro, cinema e TV e também diretor de novelas. Iniciou a carreira artística em 1949, no Teatro do Estudante, aos 23 anos, contrariando a vontade dos pais. Foi um dos príncipes do Teatrinho Trol e galã no programa “Neide no País das Maravilhas”, programas extinta TV Tupi. Ele atuou também em chanchadas de sucesso produzidas pela Atlântida, como “Vamos com calma” e “Colégio de brotos”, ambas dirigidas por Carlos Manga e lançadas em 1956. Nesta última, Deriquem trabalhou ao lado de Oscarito. A fita foi recorde de bilheteria. Nas décadas de 1970 e 1980, participou de várias novelas da Rede Globo, entre elas “Casarão” e “Cambalacho”.

Pensamentos na chuva

Foto : Cláudia Schembri

Foto : Cláudia Schembri

Chovia muito, quando na pequena rua de terra por onde o carro vagarosamente passava desviando dos buracos e das poças, avistei uma moça embrulhada numa capa caminhando, se protegendo como podia embaixo de um guarda-chuva… Fez um aceno para a amiga que dirigia o carro e me ignorou, fato corriqueiro nos últimos tempos… Aquele ignorar de alguém que passa por cima e faz que não vê, provocou compaixão…Eu estava protegida no conforto do carro e ela totalmente sozinha na chuva…

Seguimos o caminho para deixar uma amiga em casa e no retorno avisto a moça esperando o ônibus que sabe lá Deus a que horas passaria…  Situação desconfortante. Peço para a amiga que dirigia o carro fazer um retorno e ao nos aproximarmos da moça ofereci uma carona, mesmo sabendo que ela seguia para um local totalmente oposto ao nosso. Dez minutos não fariam diferença para ajudar alguém numa situação desagradável.

Não foi para garantir uma janelinha no céu que fiz a gentileza à quem nem me cumprimenta, mas por entender que a vida é muito curta para ter mágoa. Por alguns segundos me coloquei no lugar da moça e me senti péssima, imaginando não ter um amigo a quem pedir uma carona em um momento de emergência, pois vamos combinar que ninguém sai de casa para passear pisando na lama num dia chuvoso…

A verdade é que o tema amigo estava comigo desde o começo do dia e tem sido uma constante em meus pensamentos… Talvez a maturidade esteja me permitindo entender o outro. Nesta manhã de chuva eu voltava de um encontro com pessoas, que apesar de serem ímpares, têm um pensamento par em relação ao meio ambiente. Não estão preocupadas com o que são, mas sim como que juntas podem fazer alguma coisa bacana no planeta. Uma proposta de somar sem o formato de empregados seguindo o patrão, sem egos à frente das decisões, mas construindo juntos em prol de um bem maior… Não é fácil este movimento, assim como ninguém disse que era fácil viver… E mais difícil do que viver é conviver, perceber o outro e permitir que ele seja o que quiser, sem julgamento, com um olhar complacente de quem entende que é tudo muito curto, rápido e efêmero…

E como teve muita chuva e aprendizados, acabei o dia recebendo um maravilhoso presente… Fui citada com carinho e amor pelos meus queridos Esther Rocha e Ronnie Von no programa “Todo Seu”… Até fotos aqui de casa ela mostrou ! Quer coisa melhor na vida do que ter amigos e ver que tem sempre sol depois da chuva ?

Jornalista cadeirante

unnamed (6)

Foto : Cláudia Schembri

No auditório das coletivas de imprensa da seleção alemã em Vila de Santo André os jornalistas vão chegando e me deparo com um que é cadeirante.  Florian Hebbel tem 27 anos e se apresenta em um bom português como “o jornalista cadeirante”. Estas são algumas das palavras que aprendeu nesta primeira viagem ao Brasil. Ele é de Kiel, uma cidade no norte da Alemanha, distante 100km de Hamburgo. Aos 15 anos,depois de um acidente, foi parar numa cadeira de rodas e nestes anos a vida seguiu com louvor. Há cinco meses formou-se em psicologia e há dois casou com Aline. Escreve para a revista Barrierefrei publicação voltada para pessoas com necessidades especiais e se tornou o primeiro jornalista com deficiência entre os credenciados oficialmente para a Copa do Mundo. Conta que conseguiu a credencial pois a DFB e as associações de esportes em seu país acreditam que as suas reportagens são importantes como incentivo a outros na mesma situação.

Florian aprovou os aeroportos de São Paulo, Salvador, Porto Seguro, Fortaleza, Natal por onde passou. Segundo ele “onde há dinheiro há boas condições para pessoas com necessidades especiais”. Foi assistir ao jogo em Salvador, recebeu ingresso para a área dos jornalistas e sentiu-se muito bem tratado. “Eram três pessoas para cuidar de mim!” comenta entusiasmado. Mas não pode dizer o mesmo da arena em Fortaleza. Apesar do acesso perfeito, ficou na área para cadeirantes e se surpreendeu com “falsos” deficientes. “Alguns se levantaram das suas cadeiras para tirar fotos, outros foram ao banheiro andando”.

Ele viaja com um acompanhante e conta que não teria condição de fazer esta viagem sozinho pois ainda são muitas as dificuldades. Está hospedado num hotel em Porto Seguro, não tomou banho de mar pois é impossível o acesso à praia, na próxima semana viaja ao Rio e está feliz em conhecer a cidade… Florian está fazendo a cobertura da seleção alemã na Copa do Mundo com suporte da DFB e patrocínio de diversos amigos e empresas que preferem não aparecer, mas que sabem que este exemplo pode fazer a diferença na vida de muitos…

Quanto à coletiva em que o goleiro Manoel Neur e o meia André Schürlle eram as estrelas, a mídia esportiva vai escrever muito melhor do que eu…Florian foi o meu aprendizado de hoje.

 

A força da rede

DSC02301

Esta foto é de 9 de agosto de 2004. Estou no carro cruzando o rio João de Tiba depois de mais de mil kms na estrada, chegando para um semestre sabático em Vila de Santo André…Não sabia bem o que procurava, apenas que precisava de um tempo para ficar perto do mar e rever a vida…  E aí se passaram quase 10 anos…Fiquei e criei raízes… Mais do que raízes, criei um compromisso com o lugar. Não sei como nem quando, mas creio que há momentos na vida que algum anjo passa e diz que é hora de olhar mais para o seu entorno. Não especificamente para um outro mas para todos os outros. E aí você descobre que tem muita gente também pensando igual e fica mais fácil criar uma rede para fazer coisas legais.

Adoro quando a vida me surpreende em pequenos movimentos. Da simples árvore que floresce até as gentilezas de novos amigos. Estamos formando um grupo muito interessante com propósito de estabelecer neste povoado um sistema de coleta seletiva de resíduos sólidos, criação de composteiras (quem sabe até hortas!), pensar na qualidade da água e no saneamento básico.

E quando muitos pensam junto mais desafios chegam. A Prefeitura avisou que a Oi vai retirar o sistema de internet de alta qualidade que instalou para atender a Seleção Alemã de Futebol. Em mais algumas semanas os alemães partem e será que não podemos requisitar este legado?

Lembro que cheguei nesta vila num tempo de internet discada, andamos muito mas às vezes ainda passamos dias com o sinal fraquinho, fugindo do roteador como o diabo da cruz… A oportunidade deste legado é fantástica e para conseguir precisamos de muitas assinaturas num manifesto. Enviei email para moradores e me comovi com amigos também enviando emails para seus amigos, postando no facebook, pedindo assinaturas no documento que vamos encaminhar para a Oi e Anatel…Apenas o nome e o cpf podem fazer a nossa diferença.

Obrigada aos moradores, empresários, frequentadores e amigos de Vila de Santo André que estão endossando este manifesto. Quem quiser colaborar o email da Associação Pro Cultura e Turismo Santo André-Bahia que irá encaminhar o documento é santoandrebahia@gmail.com. Juntos podemos muito mais…

Sem manual de instrução

unnamed (2)

Não faz muito tempo uma amiga querida atirou-se do alto de um edifício. Programou muito bem. Sozinha, sem filhos, teve um baque financeiro e não conseguiu pedir socorro. Deixou cartas com desculpas, não aguentou viver assim. Há dois dias uma amiga tomou todos os remédios que tinha em casa. Como era apenas uma ameaça e não a certeza de partida, avisou à alguém que pediu ajuda à vizinha e foi salva. Tenho acompanhado mulheres que ao virar a faixa dos 60 anos sem opção para o futuro entram em depressão… Percebo algumas alcoólatras perdendo a auto estima, deteriorando fisicamente, se abandonando, tomando atitudes que colocam em risco a integridade física…

Confesso que tenho medo de tudo isso. Este não saber o que vem pela frente não deveria assustar pois desde que nascemos o processo é esse. Ninguém recebeu manual de instrução, é o desafio da descoberta a cada dia. Mas todos querem permanecer no que consideram “os áureos tempos” e nem aproveitam o que acontece aqui e agora…Pode não ser o que nossa memória seletiva considere o melhor, mas é o que temos pra hoje e tem seu lado divertido. Descobri que não preciso mais me preocupar com a celulite, depois de uma certa idade ela até desaparece, as prioridades são outras… A pressão tem que estar bacana, olhar para o colesterol. Comer muitas fibras e o intestino tem que funcionar todo dia…  Uma amiga telefonou contando que a perna ficou mais fina depois de um mês engessada por conta de uma fratura… Ainda bem que pode andar sem bengala, pois concurso de mais belas pernas não vamos mais participar…

Tenho uma lista de coisas para fazer nos próximos 20 anos. São tantas e tão legais que as vezes me dou ao luxo de nem começar para não acabar logo… É como o recheio do bolo, deixar para o final, curtir mais um pouco…. Um amigo terminou de gravar um disco no ano passado.  Temos a mesma idade, ele fez o que sempre sonhou, do jeito que queria, com todo o tempo e recursos disponíveis… E fez lindo! Olhar o passado de nada vale, quero ver é olhar prá frente e projetar novos caminhos… Na minha lista enorme de futuro tenho hoje uma prioridade: o lixo. Outro dia postei a foto de um local de triagem de resíduos sólidos (plásticos, vidros, papelão…) e perguntei aos amigos o que estavam fazendo com o lixo de suas casas. Não é que um deles teve a cara de pau de dizer que não tinha isso em sua casa ?

Vivemos cercados por embalagens e não somos também responsáveis pela forma como serão descartadas? Esta é uma boa e longa conversa que jamais imaginei a esta altura da vida estar envolvida de forma tão integral…Tenho lido a respeito, conversado com quem conhece, penso em projetos… O meu lixinho, posso cuidar bem, fazer compostagem no quintal, levar as embalagens para um descarte consciente, mas o meu foco é ampliar esta ação na vila onde moro, quem sabe estender aos povoados vizinhos, à cidade… Desculpem queridas deprimidas e alcoólatras, sinto muito por esta escolha mas estou muito ocupada para desistir da vida.