Falta luz. Às vezes isto acontece e não é apenas um problema da vida semi rural. Agradeço por não ter que subir 10 andares de escada, não ficar presa num elevador ou num escritório onde as janelas não abrem. Sinto o silencio, ouço o canto mais claro dos pássaros, o barulho do mar batendo na praia, o movimento dos galhos nas árvores e ao longe as motos que passam em velocidade. Quando falta luz a noite o clima é de magia. Acendo velas pela casa, deito no banco do pátio e observo as estrelas. De vez em quando passa um vagalume, despenca uma estrela, o silencio é diferente. Até os pássaros tem um canto mais contundente.

Foto: Cláudia Schembri

Ainda tem bateria no notebook, posso escrever antes que escureça. Não nasci contemplando, aprendo com o tempo. Certa vez assisti a um filme de animação encenando a chegada dos portugueses no Brasil. Os índios olhavam para o mar e não viam as caravelas que estavam bem próximas a praia. Eles nunca tinham visto caravelas, como reconhecer uma? Em muitas das leituras de física quântica que às vezes me arrisco, Um Curso em Milagres por Skype, estudos sobre espiritualidade, reflexões sobre os poderes da mente, tem uma costura fina em comum: tudo o que vemos está de alguma forma espelhando o que há dentro de nós.  Do amor ao ódio, do bom ao mau, do certo ao errado. São informações/imagens/conceitos pré-concebidos que recebemos/vimos/vivenciamos e a partir daí fazemos o nosso julgamento.

Mudar o tom da conversa, do olhar, faz uma grande diferença. Uma vez fui convidada para ser “ombudswoman” de um prefeito no Rio de Janeiro. Ficaria cada semana em um bairro ouvindo as reclamações, pedindo soluções aos secretários, dando retorno às comunidades. Não respondi de imediato ao convite que me dava status de secretária, fui ouvir às bases e concluí que em menos de seis meses estaria estressada, deprimida, ouvindo tantas dificuldades sem poder resolver. Agradeci e saí de fininho sem queimar a relação com o amigo gestor.

Como não convivo com tanta violência urbana, posso pedalar pelas ruas sem medo e andar com as janelas do carro abertas. Outro dia assisti a uma cena engraçada: um carro com turistas percorria em baixa velocidade a rua principal de Cabrália como se procurasse a localização de algum destino a visitar, quando um informante de turismo saiu correndo atrás do veículo para entregar um mapa. Imediatamente o motorista assustado fechou a janela, acelerou e na certa pensou que era um assalto.  Ainda não vivemos assim. Nas últimas semanas aconteceu a seleção para profissionais ocuparem   diversas áreas no quadro de funcionários da prefeitura. Salários menores do que as grandes cidades, mas uma qualidade de vida incomparável… Chegaram inscrições de todo o sul da Bahia, além de Minas, Goiás, Espírito Santo…. Não sei se é o desemprego ou o desapego, mas sei que há uma busca para o melhor.

No fim de semana no restaurante à beira do rio, paisagem divina, fui apresentada a dois homens, um na faixa dos 60, outro pouco mais de 30, que estão viajando desde Abrolhos buscando um lugar para morar onde haja paz. Podem trabalhar à distância e ficaram encantados ao saber que além da beleza e facilidades para os atendimentos e necessidades básicos, nesta vila também tem um grupo de pessoas interessantes o que nos faz sentir menos sozinhos.  Seguiram para Canavieiras, depois Itacaré, Barra Grande, Maraú, Taipu de Fora e sei que foram levando a vila em suas retinas e procurando uma nova forma de construir seus sonhos.

Foto: Cláudia Schembri

Assistindo um noticiário na TV contando sobre a 10ª vítima de alguma faca, meu olhar se desviou da tela e pousou no porta-retratos onde meu irmão me sorri. Mais uma vez agradeci por esta oportunidade de fazer diferente os meus dias. Cada um sabe onde dói seu calo, diria meu pai. Posso perceber nas curtidas ou comentários das fotos que publico nas redes sociais quantos suspiros e ais. Sei que nem todos têm disponibilidade e coragem para recomeçar de outro jeito, e também muitos preferem o asfalto, as grandes edificações, o burburinho da cidade grande. Monóxido de carbono também vicia. Não digo que é fácil…. Conheço uma meia dúzia de pessoas que vieram e não deram conta desta placidez. Um casal que veraneava há anos por aqui aposentou-se em São Paulo comprou um belo terreno na praia, construiu uma casa linda e veio com tudo. Não se aguentaram um ano. Casamento desfeito, casa vendida. Uma mulher na faixa dos 50, filhos criados, chegou e ficou tão fascinada. Ligou para o ex-marido, um homem muito influente na República e pediu uma casa. Ele comprou, ela foi ao Rio buscar a mudança e sumiu. Caiu na real que para entrar numa busca interior tem que ter uma boa dose de domínio exterior. Não me admira a impetuosidade, mas a inconsequência… Eu quero porque quero sem medida e com pressa. Ninguém disse que seria fácil, poucos encaram uma noite no escuro, como esta que vem chegando e percebo por só ter a me iluminar a tela do computador.   Vou acender umas velas, deitar no pátio e ver se as estrelas já chegaram.

Fora da Caixa

No pequeno e belo trajeto de balsa na travessia do rio João Tiba não se gasta no percurso nem 15 minutos, mas se ganha muito na conversa. Outro dia éramos seis, diversas faixas etárias, vindo de vários pontos do país, havia um colombiano, e falávamos sobre mudanças, grandes passos que se dá na vida. Alta filosofia para um curto tempo. Formas e movimentos peculiares, mas um fato era unânime: todos tinham se arriscado sempre. Há de se pensar que optar por morar num local distante e com um mínimo de infraestrutura já é um risco. Mas o assunto caminhava também através dos medos, o sentimento de estar se jogando no espaço sem rede, acreditando que é possível até nascerem asas para voar.

Foto: Cláudia Schembri

A balsa chegou ao seu destino, nos despedimos no cais de Cabrália, cada um seguiu seu rumo, e passei o dia pensando nos medos que não tenho. Na verdade não tenho tempo para eles. Lembro de um período quando tinha pouco mais de 24 anos, filho pequeno, fiquei sem trabalho e isso nem me fez cosquinhas. Rápido fui fazendo contatos, abrindo caminho e no final daquele mês tinha o dinheiro para as contas, nos meses seguintes também e nunca esse processo parou. Até hoje caminho nesta corda bamba vestida de bailarina, segurando uma sombrinha numa das mãos, braços esticados, buscando equilíbrio. Sempre penso que Deus tem um lugar cativo na minha carteira de dinheiro onde tenho a presença garantida de um santinho que a Mariangela Sedrez enviou por correio. Mas o meu bom pensar me faz crer que Ele está ali contando as notinhas, vendo o extrato bancário e quando o dinheiro fica curto acontece um milagre.

Os tempos não tem sido fáceis. A conta de luz subiu à altura do sol do meio dia. Está a pino queimando todos nós. Qualquer compra no mercado chega aos 3 dígitos. O tomate quase R$7,00 o quilo me deu um susto e comecei a reativar a horta. Abóbora, abobrinha, berinjela, tomate, couve, rúcula, alface, salsa, cebolinha em se plantando tudo dá, já ouvi alguém falar isso nestas terras. O plantar mais do que o resultado do alimento vem como um jeito de mudar o passo da dança, fazer diferente. Vou trocar os 16 pontos de luz no jardim, investindo em lâmpadas mais caras, com vida mais longa e menor consumo. Apertar o cinto de forma ecologicamente correta.

Mas as dificuldades não estão só no vil metal. Cruel a imagem multiplicada nas redes sociais do cardiologista assassinado num dos pontos mais lindos do Rio. Mexe com o meu coração as cenas dos milhares de imigrantes africanos navegando em busca de terra firme, jogados de um país para outro, sem rumo…. Podia ser eu…. Que mundo mau onde adolescentes atacam com facadas, que bate a porta na cara de quem precisa, que se digladia em nome de suas religiões e verdades absolutas. Vivemos uma crise de confiança em todos os pontos vista. Em quem acreditar, confiar, pedir ajuda. Assisto a tudo isso indignada. Não mundo o canal da tv, nem enfio a cara no chão como avestruz. Lamento estar vivendo nestes tempos e procuro fazer mais simples meus dias. Para uma capricorniana com ascendente leão, deixar de ser a dona da razão é um árduo exercício. Ainda atropelo com as palavras, disparo frases rápidas, não escondo uma grande vibração quando desenvolvo algum pensamento e fico feliz como criança frente ao brinquedo novo quando me deparo com uma nova ideia. Mas já tenho a consciência de que preciso respirar entre as frases, abaixar o tom e desacelerar.

Foto: Cláudia Schembri

É preciso força, coragem e fé para passar por este turbilhão que nos tira do prumo. Além do mais, quaisquer sequências de dias com chuva, em qualquer época do ano, aqui na Bahia chamam de inverno. A minha casa com tantas árvores ao redor fica úmida. Como disse certa vez um pedreiro “Dona Léa, quando chove a sua casa fica uma humildade enorme…”. Pode ser assim.  Baixa uma certa humildade, um ar reflexivo e como muito bem ensina Lucia Ehlers “não tem como fazer download para a iluminação divina”. É um dia de cada vez, suportar as más notícias, as intempéries e procurar algo de bom, nem que seja numa lasquinha de chocolate. Retomar o exercício da meditação, das preces ao acordar e ao dormir, ativar o Timo, os bons pensamentos, encarar a vida sem temor. Viver simplesmente o agora. A situação está difícil? Mas é o que temos para hoje, vamos pensar fora da caixa, fazer diferente, quem sabe amanhã vai ser melhor

Duas histórias de amor

Eu moro numa vila que tem mais história do que qualquer outro condomínio, bairro ou cidade por onde passei. Às vezes me sinto em Macondo, outras em Sucupira. Viajo de Garcia Marques à Dias Gomes num piscar de olhos. Por ser tão pequena tudo se sabe, tudo se ouve, tudo se fala. Não precisa de rádio ou jornal, as conversas surgem na balsa, na porta do mercadinho, no caminho de casa pedalando nas ruas. Já ouvi contar que em um velório o grande amigo da falecida deitou embaixo da mesa onde repousava o caixão e ali passou a noite velando o sono eterno.  Mas as histórias que mais gosto são as de amor.

Foto : Cláudia Schembri

Conheci uma moça cujo casamento estava em crise. Morava numa capital, era psicóloga, tinha um consultório com muito movimento, mas em vias de separação resolveu pedir um tempo e veio passar uns dias na Bahia. Baixa estação ruas vazias, silencio, perfeito para reflexão. Alugou quarto em uma pousada, caminhava na praia, comia prato feito nos restaurantes simples, via lua nascer, sol se pôr, ouvia as conversas nos bares e foi assim que conheceu um nativo. Artesão, rapaz jovem, corpo malhado, pele com aquele tom que mistura índio e negro, conversa sedutora, não demorou muito para a carência e o tesão se encontrarem e rolarem na areia.  Sem preocupação andavam pelas ruas abraçados, juras de amor eterno e 15 dias passaram muito rápido. Ela voltou para casa certa que queria outra vida, quem sabe até num povoado assim, algo mais apaixonante, orgânico, visceral. Pediu o divórcio, voltou a morar com a mãe e durante 4 meses o namoro a distância pegou fogo em intermináveis conversas ao telefone. A mãe não entendia como tinham tanto assunto apesar da enorme diferença social. A moça tinha mestrado, viajado o mundo, casado com um engenheiro de família tradicional, mas se encantara com o nativo e contava os dias para reencontrar. Programou um verão inteiro com ele. Alugou uma casinha no centro da vila, bem no meio do buchicho, em frente ao campo de futebol, onde nos fins de semana a música de gosto duvidoso corre solta em alto volume.  Mais ´[e no chão impossível. Se preparou como noiva.  Fez enxoval com camisolas sensuais, vestidos de alcinhas, biquínis e cangas, embarcou no voo da paixão e ele a esperava na balsa. Foram para a casinha que ela só conhecia nas fotos do face. Era bem rustica. Sem forro, telhas à mostra, um calor infernal, mas ela teve o cuidado em fechar a janela para se amarem sem medida. Quando o dia clareou ele correu no mercadinho trouxe o pão e pó para o café. A primeira refeição juntos em nova vida. E assim que acabou ela foi arrumar as roupas no pequeno armário e deu a ele um papel e lápis para anotar as compras que precisavam fazer. “Macarrão, sabão, açúcar, bombril… “ ia ditando enquanto pendurava um vestidinho mas percebeu que ele não anotava. Sentado no banquinho, apoiado na mesa, olhava a folha em branco.  “Anota aí senão a gente esquece”, brincou com o rapaz que envergonhado confessou “não sei…”

Ela pirou. Como assim?

A encontrei neste dia andando na praia sem rumo e ouvi a história. Ela disse que superaria a diferença social, a cor e a cultura. Viveria numa casa com telhado sem forro, ouviria o som dos vizinhos, mas analfabeto não. O amor não tinha tempo, ela tinha pressa para ser feliz. Deixou a casinha, mudou para o único hotel da vila, a mãe veio busca-la e partiu antes do ano novo. Nunca mais apareceu.  Ele hoje frequenta o EJA (Escola para Jovens e Adultos) quem sabe quando chegar um outro amor ao menos saiba fazer a lista de compras.

Foto: Cláudia Schembri

Esta outra historinha ouvi aqui, mas começou em meados do século passado. Como em qualquer lugar do planeta, um casal se conheceu, namorou, casou, teve filhos e separou. Ninguém sabe o que aconteceu, a realidade é que ele não quis mais saber dela. Abandonou com os filhos e foi embora dizendo a quem quisesse ouvir que daquela mulher não queria nem guardar a voz. Os filhos perderam o contato com o pai, de vez em quando alguém chegava com a notícia que ele tinha sido visto em outra cidade. Não casara nem tinha família, apenas empurrava a vida com a barriga. Filhos cresceram, seguiram outros caminhos e, como acontece em muitas famílias, uma filha ficou cuidando da mãe e veio morar bem perto da minha vila. Um dia recebeu o recado que o pai estava praticamente mendigando em uma localidade não muito distante. Botou o carro na estrada e foi a procura do velho. Mais do que o receio com a saúde do pai tinha a questão do que fazer com ele, como trazer para viver com aquela a quem tanto odiava.  Encontrou o pai doente e cego. Se não enxergava, menos mal. Não avisou a mãe e chegou com o pai em casa. A mãe olhou, olhou e não precisou muito para reconhecer o antigo amor agora bem-acabado. Os demais filhos se emocionaram, ela ficou num canto só olhando e, quando todos já estavam rindo, se aproximou se apresentando ou com outro nome. Ninguém riu, contestou ou questionou. Aceitaram a persona que a partir daquele momento passou a se dedicar ao ex-marido. Cuidava, dava comida, remédios, conversavam sentados na varanda. O que aconteceu entre os dois no passado nunca os filhos souberam, mas o que viram foi a mãe cuidando do pai nos últimos anos de vida.  Ele repetia sempre que ela era uma boa mulher, muito diferente daquela com que havia casado. Ela ouvia e não retrucava. Amor não se explica.

Querida mãezinha,

Ontem me lembrei de você. Comercialmente foi seu dia, mas prefiro pensar que foi simplesmente um dia como todos os outros 22.279 em que você esteve em minha vida. Lembrei das nossas conversas, em especial uma que considero a grande lição. Mais importante do que quando falávamos sobre a fé que você tinha dificuldade em admitir apesar de tantos santos e anjos na estante do seu quarto, bem mais do que o bordado em ponto de cruz que você me ensinou fazer ou a nossa árvore genealógica. Foi uma conversa nos primeiros dias de dezembro de 2009. Eu saía de São Paulo para passar o fim de ano em casa na Bahia e resolvi parar no Rio apenas para lhe dar um beijo. Uma parada de amor e a encontrei sentada em sua cadeira na sala de televisão. Do seu lado esquerdo a cesta com linhas do tricô, do outro a mesinha coberta por uma toalha de crochê feita pela vovó onde você sempre deixava uma tesourinha, agulhas, um lencinho, um bloco com caneta…Tirei os sapatos, me estiquei no sofá, começamos a falar sobre as festas do fim do ano quando você desabou…

com_mamae

Sim, literalmente você desabou e despejou sobre mim a tristeza com o Natal que chegava. Você não queria nem mesmo montar a árvore com bolas azuis e o presépio. Você estava cansada para preparar a ceia, tirar a louça do armário, abrir o faqueiro e receber filhos, netos e bisnetos. A bem da verdade esta festa foi esvaziada em nossa família com a partida do papai que sempre puxava um animado e desafinado coro de Noite Feliz, e 21 meses depois quando o Victor foi se encontrar com ele na antevéspera desta data. Mas você estava em uma saia justa. O seu filho “meu tudo”, como você mesmo o denominava, queria reunir filhos e netos. Como ele morava com você a festa seria em sua casa. Sugeri que deixasse ele encarregado da festa, demoraria no máximo umas 4 horas e você poderia ficar no quarto com a Chica assistindo TV… Mas isto era impossível para você sempre uma cuidadosa anfitriã. E foi nas possibilidades que eu apresentava para minimizar o desespero que veio a frase fatal:

– Mas não faz mal, eu vou morrer antes e o Natal não vai acontecer. 

Pulei do sofá, puxei o banquinho, sentei na sua frente, segurei suas mãos, e por mais duro que tenha sido falei com carinho.

– Não seja tão prepotente mamãe… você pode até morrer, mas o Natal vai acontecer de qualquer jeito… Com ou sem você…Ele existe há mais de dois mil anos…

Ela parou, pensou e retrucou:

– Então vou morrer em janeiro.

Continuei o diálogo como se conversássemos sobre o cardápio da ceia.

– Não mamãe, você não vai morrer em janeiro pois estarei na Bahia e vou fazer 60 anos. Por favor não estrague a minha festa…. Em janeiro as passagens são difíceis, mais caras, estarei com hóspedes e não terei como vir ao seu enterro…

Respirei fundo, não acreditava que isto estava acontecendo, e ela não se deu por vencida…

– Então eu morro em fevereiro!

– Fevereiro nem pensar – contestei – Vou estar trabalhando para o Dody no navio do Roberto, já imaginou que confusão o navio ter que parar apenas para eu descer e vir ao seu enterro… Vamos combinar o seguinte: você fica quietinha até maio no seu aniversário de 90 anos. Depois disso voltamos a conversar sobre a morte.

E você aceitou minhas ponderações. Tomamos um café, conversamos banalidades e peguei meu voo para a Bahia. Na noite de Natal quando telefonei você estava bem animadinha com a festa. Passou meu aniversário e como sempre fazia você colocou um dinheirinho na minha conta “para comprar uma blusinha”.  Vieram fevereiro, março, abril e começamos a planejar sua festa de 90 anos dia 5 de maio aproveitando o feriado do dia 1º quando filhos e netos distantes poderiam ir ao seu encontro num almoço em família. Tudo pronto, família chegando de São Paulo e do Paraná, o feijão de molho esperando ir para a panela quando o dia raiasse, você acordou na madrugada para ir ao banheiro e levou um tombo. Um tombo bobo mas fraturou o colo do fêmur e foi parar no hospital. Almoço cancelado e, como nós havíamos combinado meses atrás, era hora de voltar a falar sobre a morte.

Fui vê-la no hospital e sem qualquer fé você percebeu a força da palavra e do pensamento. A cirurgia foi um sucesso, mas você não quis fazer fisioterapia e escolheu ficar na cadeira de rodas vendo cada dia nascer e aguardando a partida, uma despedida em longos nove meses, uma gestação.  Você ficou zangada, realmente de mal com a vida. Impaciente, melancólica e nenhum dos tantos santos e anjos no seu altar podiam lhe dar algum alento, pois você não acreditava. Você tinha medo de morrer, enfrentar o desconhecido e para quem sempre foi muito materialista foram dias muito tormentosos. Tempos em casa, outros no hospital. Pouco antes do Natal saí da Bahia e fui ao Rio só para vê-la na UTI. Uma despedida. Você não falava, mas percebeu que eu ali estava… Fiz uma prece, agradeci pela minha vida e entreguei você à Deus. Voltei para casa achando que era o final… Mas você resistiu mais um mês, de novo fui ao seu encontro e então você conseguiu ver seus quatro filhos reunidos ao redor do seu leito. Não falou, mas deixou uma lágrima correr. Apenas uma. Era a derradeira. No dia seguinte levamos seu corpo à morada final.

Estou contando tudo isso mãezinha, para confessar que quando me lembro de você, aumenta ainda mais a minha certeza na força das palavras e dos pensamentos. “Nós somos o que pensamos”, disse Buda, e todo dia penso em como sou feliz, saudável e grata aos meus antepassados. A sua pouca fé permitiu que nascesse uma fé enorme dentro de mim e sou imensamente agradecida…Mais do que a vida, você, através de um jeito truncado, me fez entender a morte… Fique bem, aonde você estiver… Um beijo da sua filha Léa

Vida rural

Foto Claudia Perroni

Quando eu ainda era apenas turista em Vila de Santo André hospedada na casa do meu irmão, ficava impressionada com a quantidade de insetos que surgiam nas noites de verão. Era difícil entender como meu irmão, um homem urbano, nascido e criado em grandes cidades, convivia com tanta rusticidade. Lagartixas apareciam ao escurecer correndo pelas paredes em busca de alimento. Aonde ficavam durante o dia, escondidas nos dutos de eletricidade? Ah! se morasse aqui iria fechar todos os buraquinhos, pensava na santa ignorância de que um dia a vida me pregaria uma peça e este seria o meu cenário.

Viver neste mundo é reaprender e nada mais me assusta. Se as lagartixas aparecem de noite, os calangos correm na grama e na areia durante o dia se escondendo entre as folhas.  Voam insetos de todos os tipos e cores que ficam fora do meu quarto com as janelas protegidas por telas…. As vezes tenho que apagar todas as luzes da casa para os cupins voadores ficarem de fora. Aprendi o nome de muitos passarinhos que comem a casca do meu mamão. A falta de experiência logo que aqui cheguei me fez acreditar que deveria comprar semente para os pássaros… Fiquei frustrada ao perceber que um determinado tipo alpiste só atraía pássaros pretos. Os sanhaços azuis e verdes, o sangue de boi, os sabiás da praia preferiam as frutas, assim tirei do meu orçamento este gasto.

As vezes surgem pequenos micos que saíram da mata pois lá não encontram o que comer. A vida está difícil até para eles…Tenho receio que invadam a minha casa pois são bem abusados e evito dar banana na mão como alguns vizinhos fazem. Outro dia surgiu um pequeno esquilo e as vezes boto para correr um saruê (espécie de gambá) ou um jupati (marsupial) que por aqui ousam chegar por descuido dos cães… A semana passada, sol a pino, adentrou a sala, pela primeira vez, um guaiamum. Patinava no piso de cimento queimado e foi caçado por Lelê minha fiel escudeira, nascida e criada na Bahia, que muito me ensina. Devolvemos ao quintal o guaiamum que também chamam de Maria Farinha para que encontrasse seu caminho de volta à praia.

Há alguns anos uma casa de cupim que cresceu em uma árvore no jardim foi tomada por maritacas. Acompanhei o trabalho dos pássaros de plumagem verde transformando em moradia. Um ficava como zelador na porta, o outro entrava e limpava. Não sei se quem trabalhava era o macho ou a fêmea, mas isso pouco importava. Fiquei feliz com os novos moradores do meu latifúndio, mas a alegria durou pouco. Abelhas vieram, tomaram a residência e transformaram em uma enorme colmeia que anos depois para retirar me deu muito trabalho.

esperança

As esperanças me surpreendem. Acredito que trazem sorte, boas novas, abundancia, saúde, prosperidade… Mas de todas estas experiências uma me fez viajar. Certa noite comecei a fechar as 9 janelas e portas do térreo da minha casa numa cerimônia de agradecimento ao dia quando ouvi o canto de uma cigarra. Não conseguia me concentrar nas preces tanto que gritava.  Pensei estar em algum lugar do jardim próximo a casa, mas com tudo fechado constatei que estava do lado de dentro. Afastei o sofá, a poltrona e nada. Fui dormir deixando a cigarra recolhida. Gritou, ou como alguns preferem dizer de forma poética, cantou, a noite toda… Fechei a porta do quarto, coloquei o travesseiro na cabeça para abafar o som e só consegui dormir ao lembrar que o seu cantar significava sol no dia seguinte e há alguns dias chovia. Ao acordar me deparei com a dita cuja morta no meio da sala. Explodiu com seu canto. É o que acontece com esse tipo de inseto.

Vendo aquela cena não resisti em criar um paralelo com a vida das cantoras líricas. Imaginei Maria Callas no final de uma récita implodindo no palco do Scala de Milão… Primeiro a garganta se dilataria estourando os fios de pérolas japonesas de um colar parecido com o que Marilyn Monroe ganhou de Joe di Maggio. Uma a uma as legítimas pérolas cultivadas saiam rolando pelo chão, caindo palco abaixo como um pequeno filete de água, ganhando o tapete elegante da plateia e depois o fosso dos músicos para incredulidade do maestro… Com o pulmão cada vez mais inchado, seria a vez de explodir o sutiã, começando a desestruturação do vestido de seda grená. O tecido ia esgarçando até rasgar, ao mesmo tempo que rompia a carne entre os seios de onde pulava o coração exausto de cantar… A plateia aplaudiria de pé diante da cena inusitada gritando por um bis impossível…Um espetáculo tragicômico, mas era o que passava em minha cabeça enquanto recolhia os restos mortais da cigarra…

Gritar até morrer, acho que tentei algumas vezes sem resultado. Chorei tanto, gritei tanto, mas só fiquei muito rouca e no desespero como num estalo fez-se a lucidez. Acabei preferindo o silencio, a reflexão, e na serenidade sou levada à viagens inesquecíveis dentro de mim. Viajo mesmo, mais longe do que qualquer psicotrópico ou ácido sonham chegar. Já me senti voando, o corpo expandindo, braços e pernas crescendo como se fosse aquele personagem João Pé de Feijão que numa corrida atravessa as nuvens e chega ao céu… Eu também subo montanhas, atravesso rios, cruzo mares e do alto vejo tudo tão pequeno e peço: Senhor, livre me de qualquer sentimento de medo e abra as janelas de minha alma e do meu coração para que eu possa sentir a verdade da vida nos minúsculos seres, como as pequenas cigarras.

Memória

Quando fui busca-la no aeroporto não percebi qualquer desajuste. Estava feliz com férias na praia, festas de fim de ano e percorremos os 24kms até Vila de Santo André comentando o corrido nos últimos meses em que não nos vimos. Não foram necessários muitos dias para notar um estranhamento confirmado com um comentário da Lelê, a boa alma que me ajuda em casa e a conhece há muito tempo: “ela está repetindo sempre a mesma coisa”.  Era verdade. Três ou quatro assuntos ficavam em cena como se só isso tivesse acontecido ao longo do ano. Repetiam como um disco velho que vai e volta nas mesmas canções. Fiquei atenta com as reações, comecei a instigar a memória, prestar atenção na hora que saia e voltava da praia, e faltando uma semana para o Ano Novo ela se ofereceu para fazer uma torta alemã como sobremesa para a ceia. É uma das suas especialidades! Comprei os ingredientes, ela avisou que a torta deveria ser feita um dia antes e foi a partir daí que vi o quanto a situação estava crítica. Durante 5 dias ela acordava e dizia: vou fazer a torta. E nós tínhamos que avisar que ainda não era a véspera do réveillon. Foi assim que descobri que ela estava com Alzheimer.

Lembrei deste fato que muito me dói enquanto conversava com um amigo sobre a importância de adquirir e passar o conhecimento, ficar up to date com o que rola no mundo e me surpreendi com o seu comentário: para que tudo isso se o futuro é incerto? O amigo tem vasta formação acadêmica, trabalhou com processamento de dados, é realista, tem o pé no chão. Acabou de aposentar e procura um lugar tranquilo para viver com a mulher. Mais pescarias, caminhadas, leitura na rede, viajar no mundo enquanto está lucido… Teme o mal alemão.

arvore e mar (Foto:Cláudia Schembri)

Passei o dia com esse assunto viajando comigo na travessia da balsa, em reunião na prefeitura, assistindo novela, costurando bonecas, meditando, nas entrelinhas do livro “Eu.Com”, na prece antes de dormir… Pensei muito e conclui que se acaso venha perder algum pedaço da memória que sejam as aulas de álgebra e matemática. Física e química também. Ficarei feliz com a aritmética, as quatro operações e as taboadas. Também posso esquecer os afluentes das margens direita e esquerda do Amazonas (Javari, Jutaí, Juruá, Madeira, Purus…), mas quero preservar as declinações em latim. Sei que não servem pra nada mas tem um cheiro de juventude. Também posso esquecer receitas culinárias, afinal sou tão fraquinha na cozinha, mas não me tire o paladar nem os cheiros e perfumes… Ah! manter a memória do cheiro de terra molhada, de café no coador, de sabonete Phebo, das árvores de Almescla e da Murta, da maresia, de roupa limpa, de Patchouli e feijão temperando. Não preciso mais entender de moda, afinal acho que nunca entendi, mas dispenso saber o que combina ou deixa de combinar, pois as roupas servirão só para proteger o corpo.  Posso terceirizar a catalogação dos livros, não preciso mais arrumar em ordem alfabética do autor, mas não quero esquecer o poema “Ouvir Estrelas” de Olavo Bilac, que até meus últimos dias eu possa dizê-lo assim como as orações que aprendi e as que inventei…

foto : Cláudia Schembri

Dispenso guardar o nome das árvores, das flores e também os horários das marés e as luas. Basta que as árvores deem sombra, frutos e segurem a minha rede, que as flores tragam cor ao jardim. O mar irei vê-lo a qualquer hora e a lua que me surpreenda quando surgir no céu de qualquer tamanho ou formato. Posso também esquecer as marcas e os tipos dos carros. Para que lembrar do Simca Chambord, da Vemaguete e da Romiseta ? Alguém vai me conduzir ou então vou a pé, de bike, ou melhor, não saio do lugar… A minha casa me basta com meus pensamentos, mesmo que falhos ou turvos… E se nada mais puder lembrar, que fiquem apenas as memórias dos que me amaram e os que eu amei, os amigos, os mestres e todos os que riram comigo….

Em tempo: a amiga, referência do primeiro parágrafo, neste pouco mais de 1 ano fez todos os exames e foi diagnosticada com Alzheimer. Descobriu-se ainda cedo, está em tratamento, mas bem comprometida. Sai sozinha, assiste muitos filmes na TV mas no dia seguinte não lembra o que viu nem o que almoçou… Deixou de frequentar cursos, encontrar amigos e ir ao shopping. Se deprimiu. Neste processo também não recorda que telefono muitas vezes por semana, escuto as mesmas histórias e sempre faço ares de surpresa. Não critico, nem brigo nem insisto que já ouvi…. Só fico muito triste.

 

Memória

Quando fui busca-la no aeroporto não percebi qualquer desajuste. Estava feliz com férias na praia, festas de fim de ano e percorremos os 24kms até Vila de Santo André comentando o corrido nos últimos meses em que não nos vimos. Não foram necessários muitos dias para notar um estranhamento confirmado com um comentário da Lelê, a boa alma que me ajuda em casa e a conhece há muito tempo: “ela está repetindo sempre a mesma coisa”.  Era verdade. Três ou quatro assuntos ficavam em cena como se só isso tivesse acontecido ao longo do ano. Repetiam como um disco velho que vai e volta nas mesmas canções. Fiquei atenta com as reações, comecei a instigar a memória, prestar atenção na hora que saia e voltava da praia, e faltando uma semana para o Ano Novo ela se ofereceu para fazer uma torta alemã como sobremesa para a ceia. É uma das suas especialidades! Comprei os ingredientes, ela avisou que a torta deveria ser feita um dia antes e foi a partir daí que vi o quanto a situação estava crítica. Durante 5 dias ela acordava e dizia: vou fazer a torta. E nós tínhamos que avisar que ainda não era a véspera do réveillon. Foi assim que descobri que ela estava com Alzheimer.

Lembrei deste fato que muito me dói enquanto conversava com um amigo sobre a importância de adquirir e passar o conhecimento, ficar up to date com o que rola no mundo e me surpreendi com o seu comentário: para que tudo isso se o futuro é incerto? O amigo tem vasta formação acadêmica, trabalhou com processamento de dados, é realista, tem o pé no chão. Acabou de aposentar e procura um lugar tranquilo para viver com a mulher. Mais pescarias, caminhadas, leitura na rede, viajar no mundo enquanto está lucido… Teme o mal alemão.

arvore e mar (Foto:Cláudia Schembri)

Passei o dia com esse assunto viajando comigo na travessia da balsa, em reunião na prefeitura, assistindo novela, costurando bonecas, meditando, nas entrelinhas do livro “Eu.Com”, na prece antes de dormir… Pensei muito e conclui que se acaso venha perder algum pedaço da memória que sejam as aulas de álgebra e matemática. Física e química também. Ficarei feliz com a aritmética, as quatro operações e as taboadas. Também posso esquecer os afluentes das margens direita e esquerda do Amazonas (Javari, Jutaí, Juruá, Madeira, Purus…), mas quero preservar as declinações em latim. Sei que não servem pra nada mas tem um cheiro de juventude. Também posso esquecer receitas culinárias, afinal sou tão fraquinha na cozinha, mas não me tire o paladar nem os cheiros e perfumes… Ah! manter a memória do cheiro de terra molhada, de café no coador, de sabonete Phebo, das árvores de Almescla e da Murta, da maresia, de roupa limpa, de Patchouli e feijão temperando. Não preciso mais entender de moda, afinal acho que nunca entendi, mas dispenso saber o que combina ou deixa de combinar, pois as roupas servirão só para proteger o corpo.  Posso terceirizar a catalogação dos livros, não preciso mais arrumar em ordem alfabética do autor, mas não quero esquecer o poema “Ouvir Estrelas” de Olavo Bilac, que até meus últimos dias eu possa dizê-lo assim como as orações que aprendi e as que inventei…

foto : Cláudia Schembri

Dispenso guardar o nome das árvores, das flores e também os horários das marés e as luas. Basta que as árvores deem sombra, frutos e segurem a minha rede, que as flores tragam cor ao jardim. O mar irei vê-lo a qualquer hora e a lua que me surpreenda quando surgir no céu de qualquer tamanho ou formato. Posso também esquecer as marcas e os tipos dos carros. Para que lembrar do Simca Chambord, da Vemaguete e da Romiseta ? Alguém vai me conduzir ou então vou a pé, de bike, ou melhor, não saio do lugar… A minha casa me basta com meus pensamentos, mesmo que falhos ou turvos… E se nada mais puder lembrar, que fiquem apenas as memórias dos que me amaram e os que eu amei, os amigos, os mestres e todos os que riram comigo….

Em tempo: a amiga, referência do primeiro parágrafo, neste pouco mais de 1 ano fez todos os exames e foi diagnosticada com Alzheimer. Descobriu-se ainda cedo, está em tratamento, mas bem comprometida. Sai sozinha, assiste muitos filmes na TV mas no dia seguinte não lembra o que viu nem o que almoçou… Deixou de frequentar cursos, encontrar amigos e ir ao shopping. Se deprimiu. Neste processo também não recorda que telefono muitas vezes por semana, escuto as mesmas histórias e sempre faço ares de surpresa. Não critico, nem brigo nem insisto que já ouvi…. Só fico muito triste.

 

Dúvida

Joguei mais uma peça de roupa em cima da cama e só então percebi que o guarda-roupa estava praticamente vazio. Saias, vestidos, blusas, calças, xales, lenços, formavam uma enorme montanha no mais autêntico estilo nada serve, nada combina. Depois de meia hora desfilando frente ao espelho para encontrar uma roupinha simples a ficha caiu. O problema não estava na cintura que aumentou uns centímetros, ou nos braços que já não aguentam mais ficar fora das mangas na baixa estação, mas a insatisfação era única e exclusivamente minha.

Santo André - Santa Cruz de Cabrália - Bahia - Brasil

Não conheço mulher que não tenha passado por uma situação dessas. Tem dias que nada serve nada presta nada vale, nem nós mesmas. São dias que poderíamos pular no calendário, esquecer que existiram, não valem nem guardar como experiência de vida. Mas são dias que existem, às vezes muito mais do que desejamos. Jamais assisti um filme ou li em livros, a cena de um homem frente ao espelho colocando e tirando compulsivamente uma gravata, ou uma camiseta básica para sair e encontrar amigos.

Chego a acreditar que o privilégio da transformação, tirar a pele e se recompor como um camaleão é única exclusivamente feminina. Vem no mesmo pacote do processo da fêmea cujos óvulos caem no útero e se não forem surpreendidos na trajetória se escamam, dissolvem e jorram mensalmente por entre nossas pernas. Passamos boa parte de nossas vidas nos recompondo mês a mês, por dentro e por fora, experimentando as mais incrédulas sensações, como se tivéssemos permanentemente um espelho à nossa frente esperando qual personagem irá se refletir.

Somos e fomos uma coleção de personas. Há pouco tempo abri uma caixa com velhas fotos e fiquei procurando um ponto em comum em todas aquelas carinhas que se transmutavam ora em cabelos claros, outras escuros, longos, curtos, lisos, ondulados… Fiquei analisando aonde eu realmente me reconheceria em qualquer circunstância e só então pude perceber que me encontro num certo jeito de olhar a vida com muita vontade. Um olhar que às vezes se acanha, outras encara, mas com a coerência de enfrentar o que vier sem medo. Não importa se foram os tempos de vacas gordas ou magras, se a roupa era chic de boutique ou costurada pela vovó, se o cenário de fundo era Nova York ou a Tijuca, se sozinha ou acompanhada, mas em todas aquelas fotos o olhar refletia a alma de quem acredita que viver vale a pena.

boneca de papel

E é por isso que fico até envergonhada quando vejo na cama um monte de roupas empilhadas. Seda, linho, crepe, jeans, chita, algodãozinho barato tudo se mistura e qualquer dia vai virar trapo. Não tem escapatória, é o destino do pano que nem traz alguma verdade ou faz diferença. Serve somente para cobrir um corpo e dar algum status. E eu ainda fico ali, vendo o que serve e o que não serve, combina ou não combina, sendo que a sensação de desconforto é puramente interior. Melhor seria não ir trabalhar, vestir um biquíni e ficar andando pela praia simplesmente trabalhando a consciência de que o verdadeiro poder está dentro de mim. Enquanto ficar brincando de pôr e tirar roupinha, como fazia com as bonecas de papelão que recortava das revistas que vinham no jornal de domingo, nada vai prestar ou saciar a minha busca…

Busca de roupa interior, de algum véu que se rompeu em algum momento e me deixou desnuda na confiança da luz que cada um carrega dentro de si. Algo invisível, intangível, um brilho além desta vida, que será sentido profundamente quando conseguir sem ressentimentos ou comparações deixar os braços de fora em qualquer estação.

Coração

Jpeg

… respira… calma… bebe um pouco d´água, assoa o nariz … telefona para o seu irmão… pra sua mãe não precisa, afinal você acaba de dizer que quer matá-la, mas anyway lembra que ela te ama…Telefona para o terapeuta, que tal um psiquiatra? … Não se assuste com psiquiatras, são médicos simplesmente médicos como oftalmos, ginecos, ortopedistas e cuidam da gente… não desista meu bem, tudo vai melhorar…”

“… pega um avião agora e vem passar uns dias comigo… vou arrumar seu chalé… dor de amor se cura com sol, banho de mar, colo e risadas… “

“…quantos desafios…a vida é assim, cada dia uma surpresa… as vezes boas, outras nem tanto, mas é o aprender desta encarnação… e as vezes tudo acontece ao mesmo tempo…quando só chegam fatos mais difíceis penso no que tenho que aprender… as vezes nada a aprender, apenas uma distração como os óculos que quebraram, um mal contato na antena da tv, nada disso pode tirar o nosso sono, são apenas coisas, não a nossa essência…”

“…amor não tem jogo de conquista, tem que se jogar de cabeça e viver…”

Resumo de algumas conversas por telefone, email, whatssap, messenger, dos últimos dias. Um exercício de abrir os ouvidos e o coração para quem chegar. Sou grata pela confiança, sou feliz quando tento acalmar, trazer à lucidez, puxar os pés para o chão, ajudar com palavras, um carinho, um colo, mesmo que a distância. Falo e escrevo tudo o que acredito. Faço o que gostaria que fizessem comigo. Já tive dores, baqueei, me atirei no chão, pedi misericórdia, mas o desafio de dar certo sempre foi mais forte. Nas preces agradeço pela saúde mental e física. Temo mais o desespero, o impensado, a loucura do que a doença física. O mental é visto como um estigma, pior que a lepra no tempo de Cristo… O físico, mesmo o mal desconhecido, todos falam, pesquisam, buscam soluções…

Vila de Santo Andre

Há pouco mais de um ano perdi uma amiga para o desespero. Se soubesse antes, se pudesse falar não sei se ajudaria, mas teria me empenhado pois conhecia um pouco da sua linguagem. Durante um tempo morei em seu apartamento em São Paulo e montamos muitos quebra-cabeças, destes enormes, com mais de mil peças. As vezes acordava muito cedo e já a encontrava em volta da mesa procurando “aquela peça” para fechar o quadro. Algumas montagens difíceis, como uma estação de esqui onde quase tudo era branco, mas conseguíamos. Radiante, generosa, boa de conversa, risada solta, ela esqueceu que a vida nada mais é que um quebra-cabeças e nem sempre achamos a peça num primeiro olhar. Quando soube o fato já tinha acontecido e, como na canção, “estava lá o corpo estendido no chão”…

Nas últimas conversas destas semanas momentos fortes com queridas amigas: uma com 42 anos, outra quase aos 70. Mulheres lindas e sem rumo. Desencantadas, desesperadas… Uma conheci bebê, a outra começando a brilhar. Sinto-me impotente diante do sofrimento alheio,  só posso ouvir, falar algumas coisas que me passam pela cabeça e quando percebo fogem pela boca…Às vezes magoo como o dia em que perguntei para uma amiga em crise :“até quando você vai se portar como uma menininha e continuar apanhando do seu pai?” Dias depois ela contou que chorou muito repetindo a pergunta e constatando que realmente se colocava em situações em que apanhava do mundo…

Estas “psicologadas” vem do nada, ou de tudo o que vejo por aí.  Apesar de fazer uma vigília constante à saúde mental creio que o equilíbrio que busco vem apoiado num livro que há 14 anos mudou minha vida… Mudou porque chegou na hora em que eu estava destroçada com a perda de um irmão e precisava fazer alguma coisa para acabar com tanta angustia que nem cabia mais no meu peito. Um amigo sugeriu “Um Curso em Milagres”, um livro que não estava em livrarias, sob encomenda aumentava a expectativa. A primeira vista é muito complicado. É dividido em três partes, a primeira tem mais de 700 páginas. A essência dos seus ensinamentos é de uma simplicidade estonteante e baseia-se no princípio de que “nada real pode ser ameaçado…. a projeção faz a percepção. O mundo que vês é o que deste ao mundo, nada mais do que isso”. Fala sobre a não culpa e a não condenação, provoca o julgamento que fazemos de nós mesmos…Nos tira da cruz aonde nos crucificamos.

jardim

A vida não se resolve com um livro, nem sei se este é a salvação. Mas creio que a vida se resolve na consciência de que o caminho as vezes árduo. É ser autodidata, aprender fazendo. Não sou a rainha dos acertos, tão pouco quero ser canonizada… Estou em constante busca de melhoria interna mas ainda erro muito, sou pavio curto, exigente e convivo com tudo isso sem culpa. Nada tira o meu sono. Posso até acordar na madrugada pensando na solução de alguma questão e depois volto a dormir. Pode ser que amanhã precise do colo dos amigos. Já me atirei de cabeça no espaço sem rede de segurança e mãos surgiram para me acudir. Quem sabe aconteça algum revertério, bata um pavor e precise de aconchego. Sei que os amigos vão aparecer de novo pois uma coisa aprendi: o que se dá é o que se recebe.

Vida longa

cerca

Entre uma taça e outra de vinho, em meio a uma boa conversa na varanda cercada por um belo gramado e árvores, a dona da casa sentencia: “os nossos velhos não estão nos deixando viver a nossa velhice”. Médica, cientista, doutora, pós doutora, um currículo de primeira linha, aposentou-se aos 60 para viver diferente. Foi aprender a velejar, equilibrar-se no stand up paddle, cuidar do jardim, gastar horas com pequenos trabalhos em madeira na oficina bem equipada e conviver com a pequena comunidade. Um tempo tranquilo para quem estudou e trabalhou muito. Mas vez por outra está às voltas com a mãe de 90 anos, lúcida e independente, que mora no Rio.

Vejo este fato se repetir com tantos outros amigos. Maior longevidade alguém tem que olhar os velhos. Os meus queridos já se foram, não coube a mim cuidar deles, e fico conversando com meus botões sobre o tema que não adianta fugir, faz parte do caminho. Esta semana com a notícia da morte prematura da jornalista Beatriz Thielman com quem tive pouco contato mas admirava a forma segura e tranquila como conduzia as entrevistas, pensei o quanto vale partir antes de passar pela aposentadoria e a velhice… Não gosto muito da expressão “velhice”, mas considero 3ª. idade marqueteiro demais, e chegam até a falar na 4ª. idade com muitos centenários vivendo com saúde.

Dercy Gonçalves, uma sábia que muito me ensinou, dizia que “velho é tudo que não presta e se joga fora”. Mesmo o termo velhice tendo um sabor de poesia derruba qualquer astral.  Mas como disse um amigo “se nosso egoísmo em viver eternamente imperasse hoje seríamos 80 bilhões de habitantes neste planeta” … A verdade é que ora excluída, ora enaltecida, a velhice é o assunto que temos pra hoje. Penso nisso, não me tira o sono nem tão pouco me deprime pois os exemplos que tenho são ótimos.

A bisavó do meu filho, Mercedes Martins, a primeira mulher jornalista no país segundo a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) que anualmente enviava um carro à sua casa para que comparecesse as reuniões mais importantes, aos 84 anos de idade só saia do quarto maquiada. Vaidosíssima, dormia com papelotes no cabelo alourado, passava rouge nas maçãs do rosto, batom vermelho desenhando os lábios e sobrancelhas pintadas. Tocava violão, cantava, conversava em espanhol. Inglês e francês, fazia o maior sucesso com os amigos do neto. Muitas histórias da “vovó” como num réveillon, lá nos idos de 70 quando ainda não havia multidão em Copacabana, depois que todos deixaram a festa no seu apartamento na Av. Atlântica, recolheu os copos, limpou cinzeiros – ainda se fumava, e muito! – e avisou que não ia dormir. Foi para a janela esperar o sol nascer.

Tive uma vizinha sensacional. Italiana, Edoarda Casadei viveu até os 84 anos e lembro que mesmo depois dos 80 podia vê-la bem cedo tomando banho de mar vestindo apena a parte inferior do biquíni. Seu corpo era de menina, altura pouco mais de 1m40, bem magrinha. Cabelos vermelhos andava pela vila usando vestidos curtos, sempre seguida pelas crianças que a achavam uma igual. Vila de vida longa…

Santo André - Santa Cruz de Cabrália - Bahia - Brasil

O ano passado na festa de 101 anos, o aniversariante Sr. Enoch, tocou cavaquinho, cantou e conversou com todos. Qualquer carro que passa pela estrada que circunda a vila pode ver a placa pedindo para diminuir a velocidade e se tiver sorte ainda o encontra no quintal roçando o mato, dando comida para galinha ou simplesmente deitado num banco, pernas cruzadas para o alto apreciando as folhas da grande mangueira.

Sr. Enoch

Como mostram as pesquisas a longevidade dos brasileiros vem aumentando e desde 1980 ganhamos mais 10 anos de vida. As mulheres vivem mais que os homens e daqui a três décadas seremos um país tão envelhecido quanto o Japão, diz o médico Alexandre Kalache, ex-chefe do Programa de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde). Já escolhi aonde envelhecer com alegria e segurança. Sei que vou poder sair às ruas de camisola e ninguém vai reparar. Sempre vai ter alguém me mostrando o caminho de casa, com carinho e consideração, pois podem não cuidar bem das crianças mas os velhos da minha vila são muito bem tratados. E como as pesquisas confirmam que a maioria das pessoas morrem mesmo é do coração, vou permitir que aquele em mim que palpita, ama, se apaixona e se derrama, bata no tempo certo e aqui ficarei para virar areia, poeira nas ondas do mar.