Vizinhos

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Marita tem 63 anos, Werner 66, são os novos vizinhos. Alemães aposentados, saíram de Lubeck, uma cidade a 200 km de Munique, voaram para Montevideo onde compraram uma pequena motor home e chegaram à Vila Santo André depois de passarem por Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro…Eles não falam nada em espanhol nem português. Só inglês e alemão. Ela usa uma peruca nas cores da Alemanha e faz de canga uma bandeira do seu país. Ele usa 2 chapéus, um com a bandeira do Brasil, e estacionou a “sua casa” quase ao lado da minha. Típicos torcedores . Começamos a conversar na rua e acabei convidando-as a entrar.

Como professor de matemática em escolas alemãs Werner correu o mundo sempre junto de Marita. Na África do Sul ficaram 9 anos e aproveitaram a Copa de 2010. Mesmo sem ingresso vão para Salvador na terça-feira onde esperam conseguir um jeito de assistir ao jogo dia 16. Eu estava curiosa em saber como abasteciam de água da motor home e onde despejavam os dejetos do banheiro. A água é bem mais fácil, conseguem em qualquer posto de gasolina, já os dejetos tem que esvaziar o depósito a cada 10 dias e a última vez foi sábado num local próximo ao aeroporto de Porto Seguro… Contaram que vão voltar à Alemanha antes do final da Copa por causa do casamento do filho no dia 5 e que a casa de rodas vai ficar guardado com  amigos no Brasil. No fim do ano voltam para viajar mais um pouco.

Marita e Werner ficaram encantados com as árvores nativas do jardim da minha casa e ao ver a água jorrando de um aspersor na grama ele perguntou se poderia pegar um pouco de água para abastecer “sua casa”. E foi assim que “a casa deles” veio visitar a minha.  Marita ria muito e repetia “Super, we are neighbors” e neste clima de amizade enquanto Werner entrava com a motor home pelo portão, veio correndo atrás uma equipe de uma TV alemã. O repórter bonitão que deve ser bem famoso explicou que é da n-tv (escreve-se mesmo em minusculo), uma emissora como a CNN e estava feliz com aquele momento exclusivo mostrando brasileiros e alemães se relacionando tão bem.  E enquanto Guinho enchia o deposito de água, a entrevista foi feita e até Xico, o Golden retriever aqui de casa virou estrela… Aguardo o email do jornalista com o link da matéria, estou fazendo meu clipping na imprensa alemã… Abaixo fotos deste encontro…

Guinho colocando água

Guinho colocando água

Detalhe da placa que trouxeram da Alemanha, mas está apenas como enfeite,

Detalhe da placa original que trouxeram da Alemanha, mas usam apenas como enfeite,

Marita, Werner e Cláudia Schembri, a fotógrafa fotografada,,,

Marita, Werner e Cláudia Schembri, a fotógrafa fotografada,,,

Eu na Copa

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Fui dormir com um carro da polícia fechando o acesso à rua onde moro com o sentimento de estar no reality show de um grande evento. Acordei pensando quando foi a primeira vez que vi um evento … A lembrança mais remota chega aos 5 anos no 4º centenário da cidade de São Paulo quando papai levou a família para ver a festa no Anhangabaú. Era inverno, não lembro quais eram as atrações desta comemoração apenas que naquele fim de tarde assisti ao primeiro grande espetáculo da minha vida: uma chuva de prata. Eram milhares de pequenos triângulos de papel de alumínio picados que caíam do céu. Voltei pra casa com as mãos cheias de papeizinhos que meus irmãos guardaram dentro da nossa coleção de licros do Tesouro da Juventude e muito tempo depois li que aquela festa reuniu 1 milhão de pessoas.

Talvez o encantamento da chuva de prata tenha sido tão forte que naquele instante passou um anjo bom e resolveu que este sentimento iria se perpetuar na vida da menina… “Vai viver em grandes eventos” preconizou… Assim os anos correram e fazer festa era parte da minha vida… Na juventude com os amigos da Jaceguai 27 ajudei a organizar shows no Presídio Frei Caneca, depois como jornalista cobri festivais e como assessora de imprensa vieram tantos Rock in Rios, Planeta Atlântida, dezenas de mega shows…Nunca me senti confortável sendo público, preferi os bastidores…

E foram tão veementes as palavras do anjo que até mesmo quando vim morar num pequeno povoado os eventos vieram atrás de mim. Assim estou quase dentro da concentração da seleção alemã de futebol, no perímetro de segurança máxima, dentro dos 500ms da rua principal fechada. Esta manhã desfilaram pela minha porta as vans trazendo os jogadores seguidos por batedores e policiais. A notícia ferve no meu portão com dezenas de jornalistas passando. Estou entre o Campo Bahia, concentração dos jogadores, e o Resort Costa Brasilis, centro de mídia… E vejo tudo da janela do escritório que montei no chalé voltado para a rua… Estou de camarote… Recebi o passe livre, posso ir e vir no perímetro limitado… Com credencial me sinto à vontade…

Santa Cruz Cabrália

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Li a singela postagem no facebook de um morador da vila onde moro sobre o pastor de sua igreja que há pouco mais de dois anos resolveu tomar uma atitude para reverter a situação de Santa Cruz Cabrália e convocou os fiéis a orarem pela cidade. O pastor saiu pelas ruas em oração ungindo com óleo santo os caminhos e as casas, pedindo à Deus que mudasse o destino da cidade onde o Brasil começou. Andou por todos os bairros, ungiu o rio João de Tiba e chegaram a Vila de Santo André onde orações e óleos não foram poupados. Como resultado, este morador credita a isto o fato da Alemanha ter escolhido o local para ser sua sede na Copa do Mundo.

Admiro as pessoas que tem fé, seja qual for… A capacidade da transformação frente a um desejo por mais impossível que possa parecer aos olhos dos outros sempre me comove. É ser maior do que os sonhos e limitações… Estes desafios são os que me parecem estar acontecendo aqui… Da noite para o dia, sem orçamento nem planejamento, caiu de paraquedas uma seleção mundial para se concentrar neste município que sobrevive muito mais da agricultura do que do turismo histórico ou de suas belezas naturais …

Tenho minhas reservas quanto a gestão pública. Envio e-mails ao prefeito e secretários pedindo atenção às mazelas da vila, mas tenho que ser justa neste momento. Não posso ignorar a realidade de que este é um município pobre. São mais de 28 mil habitantes distribuídos em 1.550 km2 – de litoral são 165kms -, onde estão 16 assentamentos de sem-terra, 4 aldeias indígenas, 1 comunidade quilombola e para tudo isso o orçamento é de 4 milhões de reais, basicamente sustentado pelo governo federal… A conta no início do mês começa assim: 1,8 milhões para a educação, 800 mil para a saúde, ainda tem a folha dos funcionários e todos os custos de uma cidade… E é nesse panorama que um dos menores povoados da cidade recebe a seleção de um dos países mais ricos do mundo… Parece pai pobre tendo que fazer a festa de casamento da única filha com um milionário. Os falados recursos da Secopa não chegaram até aqui. É o que conta do Secretário de Turismo Fernando Oliveira.

Neste aperto financeiro há de se ter uma alegria com a visibilidade que a cidade está conquistando. O Jornal da Globo na segunda-feira passada não podia mostrar Cabrália mais bonita… Até a bagunça que se transformou o local onde foi rezada a primeira missa estava fotogênico nas imagens em HD… Se durante um ano todos os recursos do município fossem usados apenas para relações de marketing e promoção não pagaria o que estão conseguindo em mídia gratuita. E a copa nem começou, os falados 200 jornalistas ainda não chegaram, muito mais virá… Vale a cidade e a vila estarem limpas, vale o esforço… Vale o aprendizado para o futuro, planejar como usufruir desta evidencia… E valem também as orações e os óleos que ungiram este milagre de cair do céu o que pode ser a grande transformação de uma cidade até então conhecida como vizinha pobre de Porto Seguro…

À Venda

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Em junho do ano passado a convite do Resort Costa Brasilis o jornalista Tales Azzi veio à Vila de Santo André fazer uma reportagem para a revista Viaje Mais e por indicação de amigos me procurou. Estava chocado com as ruas vazias, as muitas placas “vende-se” em casas e terrenos, as pousadas e restaurantes fechados… A vila estava vivendo a baixa estação, como acontece todos os anos passados os meses de verão. Mas nos ultimos tempos a baixa tem sido tão baixa que algumas pousadas fecham depois da Semana Santa. O único movimento de turismo que o jornalista encontrou foi o que se repete quase todos os dias no encontro do rio com o mar onde chalanas e escunas param por uma ou duas horas como parte do pacote vendido pela CVC. Entre as muitas perguntas o jornalista quis saber sobre uma grande construção abandonada distante uns 200 ms da minha casa. Contei que era um condomínio, conhecia um dos donos e a última vez que falamos ele comentou que os sócios estrangeiros estavam com dificuldade na remessa de dinheiro para continuar o empreendimento. Para não ir embora tão decepcionado, convidei o jornalista para um passeio de veleiro com o Carlindo. Voltou encantado pois ao ver a vila do mar  levou uma melhor impressão e a certeza de que um lugar tão lindo não deveria estar à venda.

O  tempo passou rápido. No dia 18 de agosto uma equipe da Seleção Alemã de Futebol visitava o condomínio cuja obra parada retomara a todo vapor. Uma casa estava bem adiantada, ali foi servido um coquetel, apresentadas plantas baixas da construção, um vídeo mostrando a beleza do projeto arquitetônico e a notícia era que até dezembro a Seleção da Alemanha definiria sua base para a Copa do Mundo e outras duas cidades estavam na disputa. Santa Cruz Cabrália, o resort Costa Brasilis, nem o Campo Bahia estavam no famoso book da Copa que oferece hospedagem e centros de treinamento para as seleções que participariam da Copa. Vila de Santo André era o azarão na disputa, correndo por fora com sua exuberante beleza natural, praias semi virgens e um grande empreendimento de bem sucedidos alemães.

Outras visitas aconteceram, a obra foi andando cada vez mais rápida até que no dia 6 de dezembro quando aconteceu o sorteio das chaves da Copa ficou definido que a Alemanha estrearia em Salvador, mesmo contrariando a Fifa os alemães decidiram ter sua própria concentração e centro de treinamento em Vila de Santo André. Operários trabalhando das 7 às 2 da manhã, de domingo a domingo… Poeira e muito barulho… A rua de terra antes silenciosa ficou tomada por caminhões… Não se pode fazer omelete sem quebrar ovos, eu sei…

Crescia rapidamente um enorme condomínio em um terreno de 12 mil m2 com 14 casas. Uma área de proteção ambiental em local próximo conseguiu em tempo recorde de 15 dias autorização para devastação de um espaço para a construção de um campo de futebol e outros quesitos necessários para um centro de treinamento. Parecia uma gincana e se nada deu certo no Brasil com a Copa, aqui na Bahia, local onde dizem que impera a preguiça, está tudo pronto. A prefeitura veio para a limpeza geral, pressionou a empresa de energia elétrica para trocar postes e colocou lâmpadas, pintou o meio fio com as cores das bandeiras do dois países, mas ainda há uma pergunta no ar quanto o falado legado da Copa… Os comentários correm solto na vila.

Legado é a divulgação que a vila vai ter em receber os alemães? Alguns questionam…

Vão reformar o campo de futebol. Isto é muito bom…

Mas isto não é legado da Copa,  contesta a Secretária de Meio Ambiente.

Já doaram uma ambulância para o posto de saúde da vila como antecipação do imposto de 0,5% do valor total da obra.

Mas a ambulância foi para Cabrália. Isto é legado?

E as manilhas colocadas na beira do rio para impedir alagamento da vila fazem parte do legado?

E sem saber qual será o legado e o que reserva o nosso futuro, se pós Copa seremos reconhecidos como destino turístico e teremos visitante ao longo do ano, precisamos agora resolver questões básicas. Neste exato momento há duas informações conflitantes quanto ao fechamento da rua do Campo Bahia. Na verdade esta é a rua principal da vila. A informação é que do acesso à praia por onde passam os ambulantes até o lado da minha casa, todo o trecho será fechado. Só os moradores terão credencial para acesso, os demais terão que dar uma grande volta pela pista (rodovia BA 01). Já uma outra pessoa que esteve na mesma reunião onde se discutiu este tema entendeu que a pé ou de bike todos podem passar, o limite será dado aos automóveis. E enquanto não sei o que vai acontecer reflito se a segurança terá a insensibilidade de dividir a vila. Ironicamente criar um muro frente aos alemães…

 

A tal da idade

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Éramos 10 mulheres jantando nhoque, tomando vinho e festejando o aniversário de uma delas. Ríamos e falávamos muito. Mulheres barulhentas e divertidas, nove já tinham passado dos 60, era muita falação e  de repente uma perguntou: que idade nós temos ? Somos adolescentes ou já passamos dos 20? Foi aí que cada uma entrou em reflexão concluindo a idade interna. Umas poucas se achavam com 80, a grande maioria se sentia na casa dos 30.

“Não posso me olhar no espelho, quem está ali não sou eu, ainda tenho 30 anos” declarou a argentina que estava sentada na cabeceira da mesa…  E este assunto rendeu boa parte da noite e a conclusão é que ninguém percebe a idade que tem… Um dia depois, assistindo a entrevista do Zuenir Ventura e do Luiz Fernando Veríssimo ao Roberto D`Avila na Globo News o mesmo tema retornou com uma frase ótima, não sei de qual dos dois, mas a realidade é que nós não sabemos como é envelhecer… Pura verdade…. E concluo com meus botões, assim como não sabíamos o que era ser jovem e fizemos tantas loucuras, e não tínhamos ideia do que era ser criança e deixamos tanto tempo bom passar…

A vida não vem com manual, é entender dia a dia o que vai rolando… As vezes uma confusão de ideias, em outras uma luz que norteia os pensamentos, mas é difícil compreender novos processos quando já experimentamos tantos na base da descoberta, simplesmente metendo a cara… Não dá mais pra ignorar que cigarro e obesidade fazem mal à saúde. Se queremos ter longa vida e saudável  temos que comer fibras e folhas, controlar a gordura, esquecer a nicotina, fazer caminhadas, dormir bem, controlar o açúcar, olho firme na pressão arterial e não deixar se resvalar pela convidativa depressão … Rir ainda é muito bom, estar com amigos melhor ainda e acreditar que ainda se tem 30 ou 40 anos não é crime… Vale sair de mini saia, amarrar o cabelo num rabo de cavalo, usar biquíni, calça apertada, cada um que administre seus ridículos da forma que quiser…

Tenho alguns amigos que estão planejando chegar aos 75 anos para chutar o balde… Depois dessa idade vão fumar, beber e fazer todas as loucuras que quiserem… O que vier é lucro … Ainda estou em dúvida se me filio a esta turma pois na verdade o meu foco está nos 85 anos…Quero muito chegar lá, e quem sabe depois disso, libero geral…

 

Conversas

JpegNo café da manhã passam muitas histórias. A mesa às vezes se transforma em divã, espaço para confidências, trocas de experiência, revelações…Risadas e reflexões… É nas manhãs que conheço melhor as pessoas que recebo, criamos laços fraternos e aprendemos mutuamente… Alguns amigos de muitos anos só vim a entendê-los melhor depois de passarem uns dias aqui em casa… O descontraído clima praiano, a intimidade preservada pelas tantas árvores que nos cercam e os passarinhos, são elementos que colaboram para que isto aconteça naturalmente… Apesar de ser muito faladeira, aprendi nos últimos tempos a ouvir e reativei a essência da repórter…Ontem ouvi de uma jovem que viaja com o namorado alemão uma história que me levou a muitos pensamentos. A história de Sonia que aos 51 anos durante uma aula de dança de salão desmaiou nos braços da filha. Uma parada cardíaca surgiu do nada e a deixou em vida vegetativa há 5 anos…

Sonia era uma mulher bonita, dinâmica e feliz… Como muitas de sua geração assistiu a vários shows do Roberto Carlos, não perdeu um especial de fim de ano na TV e dizia que na próxima temporada de espetáculos em São Paulo iria com a filha. Tudo isso ficou na memória. E entre os tantos mistérios que a medicina não explica está um certo ar de serenidade que surge em seu rosto quando ouve a voz do cantor. As enfermeira e cuidadoras colocam várias vezes ao dia os CDs e sentem que ela fica feliz… Contam que enquanto assistiam na TV ao programa do fim de ano uma lágrima rolou em seu rosto…

Por onde viajam os pensamentos de Sonia, me pergunto desde ontem… O que acontece quando de repente a vida estanca e se entra em estado vegetativo. Todos os órgãos funcionam normalmente, você dorme e acorda, abre os olhos e nada acontece… O que será que fica na tela da memória? O último sentimento? Um flash back dos melhores momentos? A mais profunda emoção?

Há muitos anos leio em livros e artigos de diferentes religiões, estudos filosóficos e análises sociológicas sobre o caminho do pensamento. Como escreveu Buda “a lei da mente é implacável…O que você pensa, você cria; O que você sente, você atrai o que você acredita, Torna-se realidade” … Talvez o tempo de Sonia tenha parado numa canção do Roberto… Quem sabe o poder da música transpôs seu estado vegetativo e esta é a forma que encontrou para dizer “ainda vivo, estou só viajando em boas lembranças.”

 

5th Avenue

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Da janela do 15º andar do número 555 na 5ª.Avenida vi chegarem tormentas trazendo neve, dias de muito vento quase carregando as pessoas nas esquinas, vi pessoas com tulipas na primavera e o sol resplandecente no verão. Em mais de 2 anos, das 9 às 5, de segunda a sexta, aquele era meu lugar. Uma agencia de turismo de um brasileiro que morava no Brasil, pouco falava  inglês, onde fui um misto de gerente, secretária, intérprete e agente de viagens.

A 5ª. Avenida é mais famosa e chique de Nova York, onde estão as mansões, os apartamentos e as lojas mais caras da cidade (quiçá do mundo!), onde a riqueza e o poder estão melhor representados. Dividindo o este e o oeste de Manhattan, ali também estão cartões postais da cidade como o Empire State Building, o Rockefeller Center, a Catedral de Saint Patrick, o Metropolitan, o Guggenheim  e o Central Park. E eu estava exatamente no coração da avenida, entre a 34th Street e a 60th Street.

Apesar de não morar em Manhattan e viajar 32 minutos de trem da estação de Larchmont (Westchester) à Grand Central, eu sabia muito bem o que significava trabalhar naquele endereço… Na verdade sabia muito bem o que era morar em Nova York, a volta que eu tinha dado na vida para estar ali como qualquer profissional americana “9 to 5” que vai trabalhar de tênis  levando o sapato na bolsa e no verão compra um sanduíche para almoçar sentada nas escadas da Saint Patrick ou no jardim do Rockfeller Center tomando sol nas pernas…

Da janela do 15º andar, olhando do alto eu esperava que ele atravessasse a 5ª. Avenida vindo pela 46th oeste. Retoquei o batom, ajeitei o cabelo que eu mesma cortara alguns dias antes e estava quase na hora da agencia fechar. Ele subiria às 4h40, eu ofereceria um café, mostraria o belo escritório com recepção e 4 salas, as garotas de vendas sorridentes dariam um “hello”, eu daria alguns folhetos com nossos pacotes e às 5 em ponto fecharíamos a porta repetindo TGIF (Thank God It’s Friday).

Aconteceu exatamente assim. Saímos do edifício sentindo o bafo quente do verão. Dia ainda claro, fomos caminhando pela calçada em direção ao Central Park onde pararíamos em algum lugar para tomar um drink… Era nosso primeiro encontro depois de quase 3 anos separados. Ele estava exatamente ele. Blazer elegante, camisa de seda, calça com vinco, sapato de cromo alemão. Cabelos penteadíssimos e o mesmo perfume que comprava aos montes cada vez que viajávamos.

Fomos andando e conversando sobre assuntos sem a menor importância. Contou de um amigo que separara, outro que casara, assuntos triviais do Rio de Janeiro, e quando paramos na esquina da 59th em frente ao Plaza Hotel, esperando o sinal abrir  ouvi a seguinte frase:

- Você sabia que agora eu tenho um crachá prateado?

Não entendi. Era tão absurdo aquele comentário naquele cenário que devo ter feito cara de espanto e ele repetiu.

- Um crachá prateado, só tem quem é da diretoria.

Olhei para a 5ª. Avenida do sul ao norte e pensei de que valia um crachá prateado no coração do mundo. Lembrei dos meses em que morei em New Jersey e caminhava 20 minutos embaixo da neve para pegar 3 trens até o trabalho. Das joias vendidas para comprar a árvore de Natal, das moedas contadas para o cigarro, o luxo de tomar uma taça de vinho as sextas-feiras no bar da Grand Central e como tinha batalhado para me tornar uma bela profissional de respeito em uma grande cidade… Não conseguia acreditar que aquele que eu considerara o grande amor da vida estava pensando no status do crachá… O sinal abriu, sugeri um drink aonde era mais perto, o Oak Bar do Plaza, e fui com a sensação de que nunca tivéramos uma vida em comum… Sumiram nossos sonhos e projetos… Em tão pouco tempo o mundo nos tornou pessoas tão diferentes. Este foi nosso último encontro.