2014

deitada

Pensar fora da caixa. Foi isso que este ano me ensinou e sou grata a todas as dificuldades, mudanças de jogo nos 45 do segundo tempo, obstáculos que surgiram, fazer a vida de outro jeito, enfim, a entender o que é resiliência.

Pensei nisso pela manhã andando na praia com a maré baixa olhando o mar de coca-cola e aceitando que nem sempre está verde ou azul mas mesmo assim é bonito. Este ano assumi que sou pousadeira e mesmo com apenas três chalés quero receber o ano inteiro amigos e amigos de amigos e indicados por amigos ou que ouviram falar que tem um misto de pousada, pensão, cama e café, a casa da Léa em Santo André onde é uma delícia se hospedar…

Também tirei o livro que tomava espaço no meu hard disk mental e coloquei na roda. Aceitei os sinais do universo quando vi um Bernardo (Obadia) e um Vitor (Arteiro) dando entrevista na Globonews contando que tinham criado uma plataforma digital de financiamento coletivo para literatura. Mais um Bernardo e um Vitor* em minha vida como não enxergar que ali estava o caminho? Em 15 dias de campanha o livro era uma realidade, custos levantados e serei eternamente grata aos que participaram desta proposta… Obrigada Luiz Caversan por ter um dia na praia insistido para que escrevesse o livro e aceito fazer prefácio; obrigada Esther Rocha por seu lindo texto na “orelha”. Vocês avalizaram a minha história. Até 28 de dezembro o livro estará disponível www.bookstart.com.br/averdade.

E fazendo diferente encontrei um ponto íntimo de alegria com o desejo antigo de fazer bonecas de pano. Conta a lenda familiar que por volta dos 6 anos pedi ao Papai Noel “uma boneca preta, uma boneca branca e um carrinho para puxar boneca”. E este ano descobri as Tildas, criação de uma design norueguesa que ganhou o mundo através da web. Foi paixão à primeira vista e assim surgiram as Tildas com um toque pessoal: afro, chef, bailarina, moleque, baiana, anjo e o que mais meu coração pedir. Sou imensamente feliz costurando bonecas de pano e vendo a alegria de quem as recebe. Esta semana uma menina abraçou uma com olhar de encantamento e me disse “vou cuidar dela até ficar adulta” …

Quantas coisas boas este ano…

Pode vir 2015 pois aprendi a viver fora da caixa.

* Bernardo meu filho, Victor meu irmão querido

Foto Cláudia Schembri na Ponta de Santo André

Meu livro

leafxaverdadeHá mais ou menos dois anos por sugestão de um amigo jornalista comecei a escrever um livro contando como saí do trabalho em um jornal e caí na assessoria de imprensa, os desafios e estratégias que tive que usar num tempo sem redes sociais, nem mundo digital.  O livro quase pronto ficou como um arquivo a mais no computador por um longo tempo, pois quando não se tem meta fica desnecessário fechar o projeto. Apesar de não ocupar espaço na máquina, aquele livro parado me incomodava até chegar ao ponto que resolvi colocar pra fora, mas não sabia como… Foi então que assistindo uma entrevista na Globonews de dois jovens empreendedores surgiu a forma: fazer o livro através de uma plataforma de financiamento coletivo, ou seja, juntar amigos, aumentar a rede, buscar interessados no assunto e “vender” o livro antecipadamente para que o sonho fosse realizado.

Entrei no site que os empreendedores indicaram e enviei um email. A resposta veio rápida, gostei da forma como se apresentavam e abriam a conversa. Enviaram um termo de compromisso de confiabilidade, ou seja, eu enviaria o original do meu livro para análise editorial e eles se comprometiam a manter sigilo sobre o assunto caso não acertássemos o contrato. E assim surgiu o projeto “A Verdade é a Melhor Notícia – Bastidores e Estratégias de Assessoria de Imprensa” através da plataforma de Bookstart. Muitas borboletas no estomago, enorme ansiedade e o medo de colocar a cara num projeto que é parte da minha vida.

Um lado dizia “vai lá, o livro é bom, pode ser importante para jovens jornalistas, vai ser boa lembrança para quem viveu aquele tempo”, enquanto outro contrapunha “mas precisava ser assim? não podia fazer através de uma editora padrão? Será que tem quem se interesse por este assunto?”

E no meio desta divisão entrei de corpo e alma.  Usei as estratégias que conhecia, a que sugeriram, chegamos hoje a 136% de arrecadação necessária e o livro vai ser publicado. Todos os apoiadores receberão o exemplar em casa e os que optaram por alguma forma diferenciada receberão os prêmios que variam de assinatura como patrocinador, uma consultoria por Skype a hospedagem em minha casa por 4 dias. É só dar uma olhada no www.bookstart.com.br/averdade.

Mas melhor do que ter o livro publicado é conhecer o mundo do crowdfunding, ou melhor, no financiamento coletivo.  Se até Beethoven buscou entre reis e rainhas recursos para financiar parte de sua obra e retribuía com consertos, por que nós não podemos também usar deste mecanismo?

Estou me informando sobre este assunto, tenho que acompanhar o tempo pois estas atualizações me fazem mais viva. Sou muito grata a todos que contribuíram para o meu livro sair do computador e ganhar forma… Até dia 28 de dezembro ele ainda está disponível e a única forma de adquirir é através do site da Bookstart… Vivendo e aprendendo com as novas tecnologias…

Mais uma dose

Jpeg
A primeira vez que o vi foi na varanda da pousada. Um homem alto, nem feio nem bonito, barba por fazer, fumando muito e de vez em quando perdia o olhar no horizonte do mar. Tinha vindo da Itália esquecer maus negócios no ramo dos tecidos de seda e o fim do casamento. Devia ter mais de 50 anos e conversamos um pouco aquela noite. Era um novo vizinho. Ficou morando na pousada por algumas semanas, depois alugou um quarto ao lado, na casa de uma italiana muito querida. Podia não vê-lo, mas ouvia a sua tosse e sentia o cheiro do seu cigarro.
Um dia ele foi embora, creio que cumpriu o prazo do visto de turista, e deixou avisado que em breve voltaria para morar. Não sei se passaram meses ou anos, um dia o reencontrei na rua. Cumprimentou com um movimento da cabeça e continuou andando chutando as pedras do chão. Soube depois que tinha alugado uma pequena casa e passava os dias trancado entre a pequena sala e o quarto, fumando e bebendo. Não saía nem para perder o olhar no horizonte do mar.
E assim se tornou uma pessoa esquecida entre os que o conheceram. Um dia na “radio balsa” chegou a notícia que o estado de depressão somada ao alcoolismo e a desnutrição estava matando o homem das sedas. Um amigo também italiano conversou com outros da grande colônia neste sul da Bahia e acertaram uma ação para devolvê-lo ao país de origem. Convenceram o homem a voltar para casa. Compraram passagem área, providenciaram no dia da viagem que o homem tomasse banho e se barbeasse, contrataram um taxi, fecharam as malas e se despediram.
Assim partiu da vila o homem vestindo o que melhor havia restado. Entrou no taxi com uma pequena mala nas mãos rumo à balsa. Atravessaria o rio e de lá seguiria para o aeroporto um percurso com pouco mais de 20kms. Mas ao chegar do outro lado, o homem avisou ao motorista que ainda tinha questões para resolver. Pediu para ficar em uma pousada, seguiria mais tarde com outro amigo. O taxista com a corrida já paga, partiu sem se preocupar na entrega do passageiro. E assim o italiano se trancou no quarto, bebeu, fumou, bebeu, fumou até ser encontrado morto dias depois.
Lembrei desta historia triste quando conversava com amigas sobre o desafio de escolher morar em uma pequena localidade, longe de onde se cresceu e se construiu uma história, em que por ser um local sem referências de passado tudo é permitido. Não há o olhar da censura e o que estava desejoso por dentro salta pra fora. Um pulo para perder a medida, uma dose a mais. Como o álcool é uma droga socialmente aceitável, fica ainda mais fácil. Um alívio passageiro da ansiedade, camufla a sensação de mal-estar e tristeza, uma possível depressão, e tudo vai se perdendo no caminho… A compostura, a elegância, a inteligência e qualquer dia até se esquece que escolheu viver em um local pequeno exatamente para ter qualidade de vida… Ah! este ser humano tão fugitivo de si mesmo…

Salut

champagne

Lembro quando terminei o primeiro namoro. Chorei o fim de semana todo. Fui para a escola sem saber como contar para as amigas que não tinha mais namorado. Lembro detalhes, perfumes, sabores e cores do final dos casamentos e de muitas relações. Mesmo sem amor, acabar sempre dói. É um pedaço que vai…

Já fiquei sentada à mesa de um bar, sem fôlego de tanto soluçar, ouvindo a indefectível frase “preciso de um tempo”. O rapaz valia a pena, mas não merecia tantas lágrimas. Não era o último biscoito do pacote. Outra vez caí doente de amor, como uma “dama das camélias”, estirada na cama, sem conseguir trabalhar. Fiz doideiras como jogar roupas pela janela, rasgar cartas em milhares de pedaços, não atender ao telefone e devolver as flores com o cartão amoroso pedindo desculpas. Fiz a loucura de fugir de uma cidade e para ser mais eloquente mudei de país.

Faz-se muito por amor e também por desamor. Quando a relação começa a deteriorar do outro lado não está mais o amigo, parceiro, amante, amado. Quem nos encara é um inimigo ameaçador que conhece as nossas fraquezas. Tudo o que se falou e se prometeu que seria pra sempre desaparece. As pequenas incompatibilidades se tornam gigantescas… É tão duro o processo que o sentimento é de que o mundo vai acabar.

Não sofro mais dessas dores, no entanto há algum tempo acompanho à distância o fim de uma longa relação e, mesmo com a lucidez de que não há mais amor e viver junto é impossível, o fim é caótico. É guerrilha, desconfiança, partilha. Quem leva o quê, restou o quê? E quando resta dignidade e a certeza do que se viveu foi uma história que chegou ao fim, mesmo com o rosto inchado e a sensação que até pode ser falsa de vazio no peito, mãos à obra. Limpe a casa, abra todas as torneiras, deixe escorrer a água do chuveiro, do vaso sanitário… Deixe escorrer também suas lágrimas até a visão fluir para novas imagens… Bata palmas, grite, faça barulho, retome o seu espaço… Jogue o que foi do passado fora, incluindo roupas comuns… Acenda incenso, faça a energia fluir, compre flores estoure um champagne e comemore !  Uma vida nova está nascendo.

Carinho de amigo

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Há algum tempo aprendi que grandes emoções vem de gestos simples e surpreendentes. Nos últimos dias tive este sentimento muito forte. Chegou um presente na caixa de email. Algo muito singelo, profundo para o meu coração que se encanta com gestos de amizade. Um querido amigo, jornalista especializado em música, apesar de não conhecer a vila onde moro, acompanha meus movimentos e fez o carinho de apresentar em seu programa Sala do Ouvidor na Rádio Mec AM/800 uma faixa do CD do Projeto Ambiente Musical. Um programa onde renomados artistas tem suas músicas executas, abriu espaço para o coral de crianças da vila mostrarem músicas do folclore brasileiro. Este coral faz parte do projeto Ambiente Musical criado pelo IASA – Instituto Amigos de Santo André, e as músicas apresentadas estarão no CD a ser lançado em dezembro.. Uma pré estreia com essa categoria não é pra qualquer um, é só pra quem tem amigos com muita sensibilidade e sabedoria para perceber que a música está em todos os cantos e prestigiar o interior é fortalecer o país.  Ouvindo esta gravação o meu dia ficou ainda mais feliz. Agradeço ao Jorge Roberto Martins o prestígio que deu às crianças da vila e para que todos possam ouvir a participação editei a trilha sonora com algumas fotos da vila e transformei num vídeo…  http://youtu.be/lAU_7q57qJ0

 

30 anos nunca mais

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Confesso que há algum tempo tenho dificuldade em reconhecer aquele mulher de cabelos grisalhos que me olha todas as manhãs no espelho. Às vezes me permito algumas fotos para encará-la, outras recuso reprodução tão chocada que fico naquela que não me reconheço. Na auto imagem estou entre os 30 e 40 anos. E aquela que me persegue ao se refletir no espelho enquanto passo o batom, ou quando encaro ao passar o creme no rosto, tem a minha voz, os olhos pequenos, os meus trejeitos, mas esteticamente não é com quem converso intimamente.

Para criar o material da campanha de promoção do livro que escrevi contando alguns cases de assessoria de imprensa, tive que fazer fotos e o mais desafiador, vídeos. No primeiro dia quando vi i vídeo na tela do computador tive o impulso de apertar o pause e deletar.  Revi e não quis mais saber do assunto. O cenário era o jardim de casa, a roupa e a maquiagem estavam discretas, mas o assunto se encerrou ali. Fui dormir e sonhei que tinha que fazer o vídeo de qualquer jeito. Acordei mais confiante, com muitas críticas ao vídeo do dia anterior e pronta para novas gravações.  Vesti uma blusa vermelha para levantar o astral, passei perfume, um toque de delineador nos olhos, joguei o melhor sorriso e de uma tacada só falei mais de 3 minutos. Tenho muita facilidade de falar em público, mesmo que seja só para uma câmera conduzida por uma amiga e tendo como plateia plantas e árvores do jardim. Aprendi que o que está no coração não sai da memória, o que conto é a minha história, e isso fica bem fácil. A questão é a imagem reproduzida.

No meio dessa operação uma amiga psiquiatra, na mesma faixa etária, telefonou e contei a crise de identidade. Ela simplesmente sorriu e disse: não reconhecer a própria imagem é mais comum do que você pensa. Fiquei com a frase na cabeça e lembrei que as vezes quando reencontro um amigo ou vejo em fotos no Facebook penso : como envelheceu ! E completo : deve pensar o mesmo ao me ver… Não posso esperar que se mantenha com a mesma juventude que eu julgo ainda ter, é preciso reavaliar o olhar para si e o outro…

A realidade é que graças a conversa rápida com a amiga psiquiatra, bastou um toque para reencontrar o rumo. Se o que julgo ser loucura não é apenas um problema meu, e se aquela que me segue não é uma inimiga, começo um exercício de aceitação e boa vontade com a mulher de cabelos grisalhos. Assisto ao vídeo e apesar das rugas, de tanto sol a pele ainda está boa… Os quilos a mais estão bem disfarçados na blusa larga e até que ela é uma figura bem simpática.  Não tem outro jeito, vou ter que gostar de mim assim mesma. 30 anos nunca mais…

Foto: Cláudia Schembri (sem photoshop)

Índice – Banco de Dados

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Leio no jornal o obituário de Cyro Kurtz e viajo no tempo, início dos anos 70… Releio o capítulo do livro que escrevi sobre a trajetória de Flavio Cavalcanti onde reencontro Cyro,  Paulo Alberto Monteiro de Barros (Artur da Távola), Eurico Amado, Alberto Rajão e um grupo que havia se escondido do país nos tempos da ditadura e retornava com uma proposta inovadora : um Banco de Dados com a informações do país que crescia… Buscaram apoio no Flávio, seu programa era líder de audiência, e segue abaixo a minha memória sobre este fato na reprodução do livro… Pessoas de bem, idealistas e brasileiríssmas… Em tempo de eleição esta gente faz muita falta… Fica aqui a minha singela homenagem…

Capítulo 13

“Mesmo abrindo mão de suas colunas no jornal Última Hora, Flávio não perdeu o contato com Paulo Alberto, que, naquela época, já estava se associando a um projeto do jornalista Gentil Noronha. Nos anos 60, Noronha começou a arquivar informações sobre o Brasil, principalmente as que se referiam à economia. Acordava de madrugada, lia os jornais e arquivava os dados em fichas. Um método bem artesanal. Em pouco tempo, tinha um acervo de grande valor histórico, e, para expandir sua empresa, chamou Ciro Curtis, Alfredo Viana, Paulo Alberto e Eurico Amado. Homens muito inteligentes que, assim como ele, já haviam passado por enormes dificuldades por serem de esquerda. Juntos formaram o Índice —Banco de Dados, prestando um serviço muito interessante. Diariamente, por volta das duas horas da manhã, assim que os jornais eram impressos, Gentil e sua equipe faziam uma leitura detalhada, selecionando as principais notícias econômicas. Depois redigiam um boletim, que era mimeografado e distribuído aos clientes. Era um trabalho apaixonado e dedicado.

A clientela era formada por empresários que não tinham tempo a perder com a leitura de todos os jornais e iam direto ao que interessava: a economia do país.

A amizade de Paulo Alberto a Flávio fez com que toda semana recebêssemos informações do índice sobre o crescimento do país, notas interessantes que o apresentador gostava de divulgar no programa, sempre citando a fonte. Índice – Banco de Dados ganhou notoriedade em todo o país, a clientela ia aumentando e aos poucos a forma artesanal de classificar as informações foi dando lugar aos computadores. No programa, as notas divulgadas também faziam sucesso. Recebíamos cartas de todo o Brasil pedindo mais e mais informações. Não só técnicos em economia nos escreviam mas também pequenos artesãos, donas-de-casa, vendedores, aposentados, soldados, estudantes e bancários querendo mais dados. Era um período próspero na economia do país.

Diante do interesse do público e do empenho de Flávio em colaborar com os profissionais do Índice, a equipe resolveu criar um livro mostrando o Brasil que o Brasil não conhecia. Os jornalistas Alberto Rajão e Jesus Soares Pereira trabalharam em tempo integral para a elaboração do livro Brasil em Dados, que em outubro de 71 foi lançado no Programa Flávio Cavalcanti. O prefácio escrito pelo apresentador era o seguinte:

“Há cerca de um ano, o Programa Flávio Cavalcanti começou a divulgar pequenas informações sobre a economia brasileira, aproveitando o excelente trabalho de pesquisa que me é fornecido diariamente pelo índice – Banco de Dados. Ao fazer essa divulgação, meu desejo era o de prestar mais um bom serviço aos telespectadores da TV Tupi, Canal 6, transmitindo-lhes dados de grande valor para quem planeja, educa, produz, comercializa, estuda, para todos aqueles, enfim, que precisam da informação econômica em suas atividades profissionais.

Supunha que o número dessas pessoas não fosse muito grande, limitado que estaria a uma parte das chamadas elites do país. Embora poucas, mereciam que o Programa Flávio Cavalcanti estendesse a elas o serviço que ainda era privilégio dos clientes do índice.

Devo confessar que me enganei, apesar de minha longa experiência na imprensa, no rádio e na televisão. Milhares e milhares de cartas começaram a chegar, de todo o país, das grandes cidades e dos pequenos municípios do Norte, do Leste, do Centro, do Oeste e do Sul. Dezenas de milhares de brasileiros escreviam-me pedindo mais informações.

‘Seu Flávio. Quantas toneladas de aço produz o Brasil? Qual a quilometragem de nossas estradas? Quantos analfabetos ainda existem? Por que não se industrializa a banana?

Quantas vagas existem nas universidades brasileiras? Qual tem sido o aumento de nossa renda per capita?’

Eram consultas de professoras, médicos, advogados, industriais. Mas eram também, e em maior número, perguntas de operários, comerciantes, camponeses, donas-de-casa, estudantes, vendedores, aposentados, soldados, empregadas domésticas.

Descobri com uma das maiores emoções de minha vida que o povo brasileiro queria saber; que o povo brasileiro quer conhecer o seu país, a sua terra, a sua gente, os seus problemas, as suas possibilidades. Descobri que o povo brasileiro deseja aprender, para melhorar, para construir, para desenvolver-se. Era preciso ajudá-lo. Recorri ao índice. Expus essa necessidade e a minha ideia: estender ao povo a assessoria econômica que vinha sendo prestada apenas aos técnicos, aos dirigentes, aos grandes industriais e homens de empresa que têm acesso às fontes de pesquisa ou que recebem todas as manhãs o Boletim do Banco de Dados.

Meu entusiasmo foi imediatamente entendido e incorporado pelos jovens empresários e profissionais daquela organização. Começamos a recolher informações, a classificá-las,

a organizá-las didaticamente, a enriquecê-las com fotos, gráficos e quadros, a traduzi-las para uma linguagem simples, ao alcance de todos.

Posso dizer agora, com muito orgulho, que o resultado desse trabalho foi o que obtive no índice, guardei e passo a vocês: o Brasil em Dados.

De tudo o que fiz nos jornais, nas emissoras de rádio e nos estúdios de televisão, procurando durante anos oferecer ao meu público a melhor música, o humor mais alegre, a notícia mais verdadeira, o espetáculo mais agradável, nada se compara ao que desejo oferecer a todo o povo brasileiro através deste livro: o conhecimento de seu próprio país. Brasil em Dados não contém a minha opinião nem a opinião de ninguém. Não é contra nem a favor de pessoas ou de partidos. Não ataca nem defende quem quer que seja. Brasil em Dados informa. Esta é a minha contribuição ao desenvolvimento, à paz, à integração e à felicidade deste nosso querido Brasil. E modesta, sem dúvida. Mas eu a dou, juntamente com o Índice

– Banco de Dados, com o melhor do meu carinho, do meu patriotismo, da minha confiança nesta brava gente brasileira. Tomem este livro nas mãos, transfiram para a memória o que ele contém, fortaleçam no coração o que ele deseja ensinar: o amor ao Brasil, não apenas pelo que ele é, mas pelo que ele deve e pode ser. E será.

Flávio Cavalcanti.”

Brasil em Dados se transformou num grande sucesso editorial. Em 48 horas foram vendidos vinte mil exemplares, em uma semana, cinquenta mil, e em um ano, duzentos mil. Tinha 144 páginas escritas por uma equipe de técnicos e profissionais do Índice; trazia ainda fotografias, gráficos e quadros, traduzindo a economia para uma linguagem simples, bem ao alcance do público.

Nessa época o Brasil tinha 92 milhões de habitantes e era o oitavo país em volume populacional. Na sua frente estavam China, Índia, União Soviética, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão e Japão.

Em 72, Flávio lançou São Paulo em Dados, também elaborado pela equipe do Índice. Repetindo o sucesso, o livro teve cem mil exemplares vendidos em menos de seis meses só em São Paulo.

O Índice ainda prestou serviços à Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e a muitas empresas de grande porte. Foi vendido em 74, e de sua equipe original continuam entre nós Paulo Alberto Monteiro de Barros, deputado federal, e Ciro Curtis, advogado.”