Carinho de amigo

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Há algum tempo aprendi que grandes emoções vem de gestos simples e surpreendentes. Nos últimos dias tive este sentimento muito forte. Chegou um presente na caixa de email. Algo muito singelo, profundo para o meu coração que se encanta com gestos de amizade. Um querido amigo, jornalista especializado em música, apesar de não conhecer a vila onde moro, acompanha meus movimentos e fez o carinho de apresentar em seu programa Sala do Ouvidor na Rádio Mec AM/800 uma faixa do CD do Projeto Ambiente Musical. Um programa onde renomados artistas tem suas músicas executas, abriu espaço para o coral de crianças da vila mostrarem músicas do folclore brasileiro. Este coral faz parte do projeto Ambiente Musical criado pelo IASA – Instituto Amigos de Santo André, e as músicas apresentadas estarão no CD a ser lançado em dezembro.. Uma pré estreia com essa categoria não é pra qualquer um, é só pra quem tem amigos com muita sensibilidade e sabedoria para perceber que a música está em todos os cantos e prestigiar o interior é fortalecer o país.  Ouvindo esta gravação o meu dia ficou ainda mais feliz. Agradeço ao Jorge Roberto Martins o prestígio que deu às crianças da vila e para que todos possam ouvir a participação editei a trilha sonora com algumas fotos da vila e transformei num vídeo…  http://youtu.be/lAU_7q57qJ0

 

30 anos nunca mais

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Confesso que há algum tempo tenho dificuldade em reconhecer aquele mulher de cabelos grisalhos que me olha todas as manhãs no espelho. Às vezes me permito algumas fotos para encará-la, outras recuso reprodução tão chocada que fico naquela que não me reconheço. Na auto imagem estou entre os 30 e 40 anos. E aquela que me persegue ao se refletir no espelho enquanto passo o batom, ou quando encaro ao passar o creme no rosto, tem a minha voz, os olhos pequenos, os meus trejeitos, mas esteticamente não é com quem converso intimamente.

Para criar o material da campanha de promoção do livro que escrevi contando alguns cases de assessoria de imprensa, tive que fazer fotos e o mais desafiador, vídeos. No primeiro dia quando vi i vídeo na tela do computador tive o impulso de apertar o pause e deletar.  Revi e não quis mais saber do assunto. O cenário era o jardim de casa, a roupa e a maquiagem estavam discretas, mas o assunto se encerrou ali. Fui dormir e sonhei que tinha que fazer o vídeo de qualquer jeito. Acordei mais confiante, com muitas críticas ao vídeo do dia anterior e pronta para novas gravações.  Vesti uma blusa vermelha para levantar o astral, passei perfume, um toque de delineador nos olhos, joguei o melhor sorriso e de uma tacada só falei mais de 3 minutos. Tenho muita facilidade de falar em público, mesmo que seja só para uma câmera conduzida por uma amiga e tendo como plateia plantas e árvores do jardim. Aprendi que o que está no coração não sai da memória, o que conto é a minha história, e isso fica bem fácil. A questão é a imagem reproduzida.

No meio dessa operação uma amiga psiquiatra, na mesma faixa etária, telefonou e contei a crise de identidade. Ela simplesmente sorriu e disse: não reconhecer a própria imagem é mais comum do que você pensa. Fiquei com a frase na cabeça e lembrei que as vezes quando reencontro um amigo ou vejo em fotos no Facebook penso : como envelheceu ! E completo : deve pensar o mesmo ao me ver… Não posso esperar que se mantenha com a mesma juventude que eu julgo ainda ter, é preciso reavaliar o olhar para si e o outro…

A realidade é que graças a conversa rápida com a amiga psiquiatra, bastou um toque para reencontrar o rumo. Se o que julgo ser loucura não é apenas um problema meu, e se aquela que me segue não é uma inimiga, começo um exercício de aceitação e boa vontade com a mulher de cabelos grisalhos. Assisto ao vídeo e apesar das rugas, de tanto sol a pele ainda está boa… Os quilos a mais estão bem disfarçados na blusa larga e até que ela é uma figura bem simpática.  Não tem outro jeito, vou ter que gostar de mim assim mesma. 30 anos nunca mais…

Foto: Cláudia Schembri (sem photoshop)

Índice – Banco de Dados

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Leio no jornal o obituário de Cyro Kurtz e viajo no tempo, início dos anos 70… Releio o capítulo do livro que escrevi sobre a trajetória de Flavio Cavalcanti onde reencontro Cyro,  Paulo Alberto Monteiro de Barros (Artur da Távola), Eurico Amado, Alberto Rajão e um grupo que havia se escondido do país nos tempos da ditadura e retornava com uma proposta inovadora : um Banco de Dados com a informações do país que crescia… Buscaram apoio no Flávio, seu programa era líder de audiência, e segue abaixo a minha memória sobre este fato na reprodução do livro… Pessoas de bem, idealistas e brasileiríssmas… Em tempo de eleição esta gente faz muita falta… Fica aqui a minha singela homenagem…

Capítulo 13

“Mesmo abrindo mão de suas colunas no jornal Última Hora, Flávio não perdeu o contato com Paulo Alberto, que, naquela época, já estava se associando a um projeto do jornalista Gentil Noronha. Nos anos 60, Noronha começou a arquivar informações sobre o Brasil, principalmente as que se referiam à economia. Acordava de madrugada, lia os jornais e arquivava os dados em fichas. Um método bem artesanal. Em pouco tempo, tinha um acervo de grande valor histórico, e, para expandir sua empresa, chamou Ciro Curtis, Alfredo Viana, Paulo Alberto e Eurico Amado. Homens muito inteligentes que, assim como ele, já haviam passado por enormes dificuldades por serem de esquerda. Juntos formaram o Índice —Banco de Dados, prestando um serviço muito interessante. Diariamente, por volta das duas horas da manhã, assim que os jornais eram impressos, Gentil e sua equipe faziam uma leitura detalhada, selecionando as principais notícias econômicas. Depois redigiam um boletim, que era mimeografado e distribuído aos clientes. Era um trabalho apaixonado e dedicado.

A clientela era formada por empresários que não tinham tempo a perder com a leitura de todos os jornais e iam direto ao que interessava: a economia do país.

A amizade de Paulo Alberto a Flávio fez com que toda semana recebêssemos informações do índice sobre o crescimento do país, notas interessantes que o apresentador gostava de divulgar no programa, sempre citando a fonte. Índice – Banco de Dados ganhou notoriedade em todo o país, a clientela ia aumentando e aos poucos a forma artesanal de classificar as informações foi dando lugar aos computadores. No programa, as notas divulgadas também faziam sucesso. Recebíamos cartas de todo o Brasil pedindo mais e mais informações. Não só técnicos em economia nos escreviam mas também pequenos artesãos, donas-de-casa, vendedores, aposentados, soldados, estudantes e bancários querendo mais dados. Era um período próspero na economia do país.

Diante do interesse do público e do empenho de Flávio em colaborar com os profissionais do Índice, a equipe resolveu criar um livro mostrando o Brasil que o Brasil não conhecia. Os jornalistas Alberto Rajão e Jesus Soares Pereira trabalharam em tempo integral para a elaboração do livro Brasil em Dados, que em outubro de 71 foi lançado no Programa Flávio Cavalcanti. O prefácio escrito pelo apresentador era o seguinte:

“Há cerca de um ano, o Programa Flávio Cavalcanti começou a divulgar pequenas informações sobre a economia brasileira, aproveitando o excelente trabalho de pesquisa que me é fornecido diariamente pelo índice – Banco de Dados. Ao fazer essa divulgação, meu desejo era o de prestar mais um bom serviço aos telespectadores da TV Tupi, Canal 6, transmitindo-lhes dados de grande valor para quem planeja, educa, produz, comercializa, estuda, para todos aqueles, enfim, que precisam da informação econômica em suas atividades profissionais.

Supunha que o número dessas pessoas não fosse muito grande, limitado que estaria a uma parte das chamadas elites do país. Embora poucas, mereciam que o Programa Flávio Cavalcanti estendesse a elas o serviço que ainda era privilégio dos clientes do índice.

Devo confessar que me enganei, apesar de minha longa experiência na imprensa, no rádio e na televisão. Milhares e milhares de cartas começaram a chegar, de todo o país, das grandes cidades e dos pequenos municípios do Norte, do Leste, do Centro, do Oeste e do Sul. Dezenas de milhares de brasileiros escreviam-me pedindo mais informações.

‘Seu Flávio. Quantas toneladas de aço produz o Brasil? Qual a quilometragem de nossas estradas? Quantos analfabetos ainda existem? Por que não se industrializa a banana?

Quantas vagas existem nas universidades brasileiras? Qual tem sido o aumento de nossa renda per capita?’

Eram consultas de professoras, médicos, advogados, industriais. Mas eram também, e em maior número, perguntas de operários, comerciantes, camponeses, donas-de-casa, estudantes, vendedores, aposentados, soldados, empregadas domésticas.

Descobri com uma das maiores emoções de minha vida que o povo brasileiro queria saber; que o povo brasileiro quer conhecer o seu país, a sua terra, a sua gente, os seus problemas, as suas possibilidades. Descobri que o povo brasileiro deseja aprender, para melhorar, para construir, para desenvolver-se. Era preciso ajudá-lo. Recorri ao índice. Expus essa necessidade e a minha ideia: estender ao povo a assessoria econômica que vinha sendo prestada apenas aos técnicos, aos dirigentes, aos grandes industriais e homens de empresa que têm acesso às fontes de pesquisa ou que recebem todas as manhãs o Boletim do Banco de Dados.

Meu entusiasmo foi imediatamente entendido e incorporado pelos jovens empresários e profissionais daquela organização. Começamos a recolher informações, a classificá-las,

a organizá-las didaticamente, a enriquecê-las com fotos, gráficos e quadros, a traduzi-las para uma linguagem simples, ao alcance de todos.

Posso dizer agora, com muito orgulho, que o resultado desse trabalho foi o que obtive no índice, guardei e passo a vocês: o Brasil em Dados.

De tudo o que fiz nos jornais, nas emissoras de rádio e nos estúdios de televisão, procurando durante anos oferecer ao meu público a melhor música, o humor mais alegre, a notícia mais verdadeira, o espetáculo mais agradável, nada se compara ao que desejo oferecer a todo o povo brasileiro através deste livro: o conhecimento de seu próprio país. Brasil em Dados não contém a minha opinião nem a opinião de ninguém. Não é contra nem a favor de pessoas ou de partidos. Não ataca nem defende quem quer que seja. Brasil em Dados informa. Esta é a minha contribuição ao desenvolvimento, à paz, à integração e à felicidade deste nosso querido Brasil. E modesta, sem dúvida. Mas eu a dou, juntamente com o Índice

– Banco de Dados, com o melhor do meu carinho, do meu patriotismo, da minha confiança nesta brava gente brasileira. Tomem este livro nas mãos, transfiram para a memória o que ele contém, fortaleçam no coração o que ele deseja ensinar: o amor ao Brasil, não apenas pelo que ele é, mas pelo que ele deve e pode ser. E será.

Flávio Cavalcanti.”

Brasil em Dados se transformou num grande sucesso editorial. Em 48 horas foram vendidos vinte mil exemplares, em uma semana, cinquenta mil, e em um ano, duzentos mil. Tinha 144 páginas escritas por uma equipe de técnicos e profissionais do Índice; trazia ainda fotografias, gráficos e quadros, traduzindo a economia para uma linguagem simples, bem ao alcance do público.

Nessa época o Brasil tinha 92 milhões de habitantes e era o oitavo país em volume populacional. Na sua frente estavam China, Índia, União Soviética, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão e Japão.

Em 72, Flávio lançou São Paulo em Dados, também elaborado pela equipe do Índice. Repetindo o sucesso, o livro teve cem mil exemplares vendidos em menos de seis meses só em São Paulo.

O Índice ainda prestou serviços à Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e a muitas empresas de grande porte. Foi vendido em 74, e de sua equipe original continuam entre nós Paulo Alberto Monteiro de Barros, deputado federal, e Ciro Curtis, advogado.”

Sem foco

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Parte uma amiga e vai junto um pedaço da minha vida… Não vou mais relembrar os tempos do Segundo Caderno de O Globo de forma completa… Falta uma risada, um comentário, uma vírgula, um aliás que já não está mais por perto para comprovar se era mesmo assim o que guardei na memória… Posso estar deformando as histórias, contando o que senti e não o que foi na verdade, mas o que importa a verdade se os amigos partem e também a levam…

Sinto a juventude cada vez mais distante quando um amigo parte. O futuro na maturidade é incerto, mas a vida sempre foi assim… Quando se tem 20 e poucos anos a incerteza é instigante, vem com sabor de conquista e desafio, depois dos 60 traz medo e insegurança. Restam fotos e lembranças, com ou sem foco, mas resta viver de forma real com o que está a volta. Mesmo que seja tristeza num domingo de sol.

Em tempo : a foto que na moldura do enorme quadro com pedaços de historia tem foco, quando tentei captar surgiu nublada, um momento que vai se dissipando. Foto de dezembro de 1980, da esquerda para a direita : Leonel Kaz, Ana Maria Ramalho, Flavio Marinho, Sonia Biondo, Terezinha Larcher, Eliane Levy, Heloisa Daddario, Fuad Atala, Flavia Villas Boas e eu.

6 graus de separação

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Levei a Ana para pegar a balsa. Atravessou o rio João de Tiba, do outro lado o táxi a esperava para o aeroporto e voltou para sua casa no Rio de Janeiro.  Chegou há duas semanas. Não a conhecia, era mais uma hospede para a pousada e acabamos amigas. Trouxe trufas, um livro com as poesias que escreve, uma boa conversa, vontade de mudar a vida e me ensinou a tingir tecidos. Agora cada vez que olhar o enorme panelão comprado unicamente para tintura vou lembrar dela.

No princípio os hóspedes chegaram por indicação de amigos. Hoje podem me encontrar na web e cada dia acredito mais na teoria dos seis graus de separação. Esta teoria diz que no mundo são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas e, através disto é possível chegar a qualquer outra pessoa no mundo. Trocando em miúdos, falando em redes digitais, se eu tiver no mínimo 6 amigos e esses 6 amigos tiverem mais 6 amigos diferentes que terão outra vez mais 6 amigos, numa duplicação em cascata eu posso estar conectada com qualquer pessoa do mundo, do Papa Francisco à Madonna. É uma possibilidade, não um fato.  Mas se eu tenho 6 amigos falando para os seus 6 amigos que recebo amigos de amigos em uma casa-pousada no sul da Bahia, terei novos amigos o ano inteiro.  Assim tem acontecido.

No domingo passado comentávamos animadamente em uma mesa de almoço sobre essa teoria que teve origem num estudo científico, ou seja, não é um “chutódromo”.  E entre as 8 mulheres que formavam suas redes nos divertimos ao constatar aonde poderíamos chegar. Este estudo é bem aprofundado e, como só poderia ser, começou numa universidade nos Estados Unidos através do envio de cartas para identificar os laços de conhecimento pessoal existente entre duas pessoas quaisquer. Acabou se tornando tema de um espetáculo de teatro (Six Degrees of Separation), um jogo para a internet (Oráculo de Bacon) e é um estudo de ponta sobre o poder de movimentos nas redes sociais.

De 6 em 6 vou fazendo amigos sem sair de casa. Não preciso correr o mundo, ele vem ao meu encontro. Gosto de receber pessoas, todas tem uma história para contar, algum conhecimento para compartilhar. Há poucos meses um professor da universidade de turismo passou por aqui e acalmou meu coração com informações baseadas em estudos de mercado sobre o futuro desta vila. Vamos continuar na paz, somos um destino zen. Um casal de São Paulo ensinou a fazer omelete com tapioca, as amigas que vem no verão trazem receitas de novos drinks, o jornalista que ficou 40 dias acompanhando a seleção alemã, em cada viagem que fazia para assistir um jogo da Copa voltava com jornais e revistas, e eu já tinha até desacostumado a ler no papel.

Crio relações, mesmo que curtas, e deixo de ser pousada sendo apenas uma casa que recebe amigos quando um hóspede pede 6 travesseiros e o café da manhã às 7h30, mesmo com o aviso atrás da porta informando que o serviço é após às 8. Sou bem menos rígida com os visitantes do que comigo mesma. Vou exercitando a flexibilidade. Acordo feliz às 6 para preparar no capricho o café de um casal jovem que veio da Alemanha e por temer o sol vai à praia às 7. Estico o café até quase ao meio dia para a turma que sai em jejum com o dia nascendo para a prática de yoga na Ponta de Santo André, com o mesmo carinho com o qual preparo a garrafa térmica de chá no início da noite para a mineira que não janta e coloco pimenta dedo de moça no cardápio do casal que vem da Ilha Fomentera na Espanha para longos períodos. Sempre tem alguém que chega trazendo notícias da civilização e partindo levando a certeza de que o mundo é uma quitinete, basta ter 6 amigos…

Um dia…

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O dia corre sem nada acontecer, sigo sem fazer esforço para que algo aconteça… Escrevo mais um parágrafo no livro que está preguiçoso dentro do computador, fico admirando o céu entre os galhos das árvores, copio o molde da boneca de pano para a amiga, fotografo uma planta que surgiu no meio de um tronco, vejo a abóbora que nasceu na horta sem ser plantada, repito o exercício diário de varrer o pátio, alimento os cães e os pássaros e, de repente, as luzes se acendem no jardim. Escureceu.

Por mais tolo que pareça, este dia que se acaba foi mais rico do que muitos quando trabalhava das 10 às 8 da noite. Não montei planilha, não criei um grande evento, nem vendi uma boa ideia. Mas vivi profundamente desde a meditação ao acordar, passando pelo agradecimento à refeição, ouvir atentamente o barulho das maritacas voltando pra casa, procurar a primeira estrela no céu… Sei que é possível viver com muito menos e ter muito mais…   Mas sei também que tudo isso faz parte de um longo aprendizado que nem todos passam sem dor…

Estes dias acompanhando o noticiário da morte do Eduardo Campos, assistindo a garra da sua mulher Renata e dos seus filhos, refleti mais uma vez como uma perda deste tamanho transforma uma família. Estava ali, ao vivo e a cores, dias de velório sem o corpo presente. E é numa situação assim que se aprende a superar o sofrimento com uma força que só pode vir da alma… Passei por isso, esperei por uma morte certa, semanas aguardando o desenlace…Lembro de cada detalhe, o desespero da mãe,  o olhar triste dos amigos, os apertos de mão, até o sorriso pendurado em meu rosto durante o velório. Era o alivio de encerrar um ciclo, maior do que a dor da perda… Aplausos para os que partem de uma vida bem cumprida… Mesmo querendo sempre ter o querido um pouco mais, quando tudo acaba fica apenas a certeza de quanto a vida é curta, muito curta… Resta a calma da noite e mesmo que o próxima dia corra sem nada de novo, já vem com muito…

Vida breve…

robertoatoba

Foram apenas alguns passos. Para ajudar um amigo ele subiu a comprida escada com pouco apoio, se desequilibrou e o tombo foi fatal.  Um edema cerebral, um coágulo e em 15 dias a vida se tornou vegetativa. Acompanho o desenrolar desta história que teve ponto final esta madrugada.  Converso com meus botões, falo ao telefone sobre como viver é rápido. Acreditamos que tudo acontece com os outros jamais conosco. Chegamos a pensar que temos todo o tempo do mundo, nos imaginamos, mesmo revoltados ao constatar a perda da juventude, que só iremos embora depois de uma vida comprida e cumprida, apenas num piscar de olhos, talvez um suspiro feliz de desenlace… Como somos tolos pequenos mortais!

O homem que percorreu trilhas e estradas em sua moto, milhares de quilômetros de norte a sul, e me levava a viajar nas paisagens de tantas fotos que registrou em seus caminhos, não se foi num acidente nas duas rodas. Foram apenas alguns degraus. Como disse a amiga Vera, alguns nem sobem míseros degraus, “caem e do chão não passam”. E me vejo em menos de uma semana refletindo sobre os dias que são curtos, os momentos contados numa calculadora a qual não temos o poder de tirar a pilha ou desligar da tomada para que o tempo pare…

Esta manhã acordei pensando nas tantas casas onde morei, percorri na memória cada uma, agradeci por terem me abrigado e sido cenário da minha história. As casas ficam, os moveis se reciclam, e nós vamos a qualquer momento… Arrumar as gavetas, manter a mente limpa, os bons sentimentos, o olhar repleto de alegria pela vida para no dia da partida ter vivido plenamente… Boa viagem Roberto Atobá !