Yayá chegou num dia 5 de maio

Estava na travessia de balsa do rio João de Tiba, distraída, quando uma foto me encontrou: uma cachorrinha magrinha, encolhida na calçada do restaurante Berimbau. O alerta veio pelo grupo de WhatsApp dos “cachorreiros” da Vila de Santo André — gente que tem o coração atento aos cães perdidos ou abandonados. A imagem me tocou. Enviei para a Alexandra, dona do restaurante. Ela, generosa como sempre, logo conseguiu atraí-la com um pouco de ração e água.

Na saída da balsa, passei por lá para conhecer a pequena.

Eu vinha de um luto silencioso, dobrado. Em janeiro, perdi Akira. Em março, Chiquinho. Dois companheiros que deixaram um vazio enorme. Tinha decidido dar um tempo, respirar sem patas pela casa, sem pelos nas roupas. Mas bastou aquele olhar desconfiado e o corpo frágil perto de mim para que algo mudasse. Foi encantamento. Foi flecha certeira.

Ela não se deixava pegar. Arisca, como quem já apanhou demais na vida. Tentamos colocá-la no carro, mas ela fugiu. Escapou de laços, pulou muros, correu para uma casa onde o morador estava ausente. Alexandra pulou a cerca atrás dela, mas a pequena fugiu de novo, dessa vez para o condomínio ao lado. E nós atrás. Quanto mais nos aproximávamos, mais ela se escondia no mato. Desistimos, por ora. Era preciso respeitar seu tempo.

Espalhei fotos pelos grupos. Pedi ajuda. Torci. Até que veio a boa notícia: ela estava bem, acolhida em uma casa do condomínio. Mas a alegria durou pouco — a família já tinha outros cães e não poderia ficar com ela. Ainda assim, era um sinal: talvez ela fosse mesmo minha.

Na sexta-feira, a confirmação. Fui com Alexandra buscá-la. Ela veio ainda assustada, mas quando chegou em casa, se aconchegou como se já conhecesse cada canto. E ali mesmo ganhou nome: Yayá, homenagem à minha mãe, dona Yayá, que faria aniversário naquele 5 de maio. O dia em que encontrei a cachorrinha — ou melhor, o dia em que ela me encontrou.

Porque talvez seja sempre assim: achamos que estamos salvando alguém, mas no fundo, somos nós que estamos sendo salvos.

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