“Memórias à Mesa: Entre Aérton Perlingeiro e Angélica ao Vivo”

Desde a estreia, em outubro, estou querendo escrever sobre o programa “Angélica ao Vivo”, no GNT. Ele me trouxe boas lembranças, tanto por ser ao vivo — uma arte para poucos apresentadores — quanto pelo formato “almoço com as estrelas”.

Talvez muitos nem se lembrem de que houve um tempo em que não existia transmissão de TV por satélite. Os programas eram exclusivos de seus estados e, tanto no Rio quanto em São Paulo, havia o tradicional “Almoço com as Estrelas”. No Rio, com Aérton Perlingeiro; em São Paulo, com o casal Lolita e Airton Rodrigues. Dezenas de artistas ainda em atividade podem comentar a importância desses programas na divulgação de suas músicas, peças de teatro, filmes, livros…

Tive uma relação próxima com o programa do Aérton Perlingeiro na TV Tupi. No final dos anos 60, comecei como repórter em uma revista de TV e, aos sábados, tinha a missão de fazer a cobertura. O melhor de tudo: tive o privilégio de ver estrelas como Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Bibi Ferreira, Agildo Ribeiro, Rogéria, e outros grandes nomes do teatro, à mesa, almoçando e promovendo seus espetáculos. Sempre era possível conseguir alguma entrevista nos intervalos.

O almoço existia de verdade. Os pratos vinham um pouco frios, trazidos por garçons vestidos comme il faut — calça preta, paletó branco e gravata borboleta. Às vezes, algum convidado era flagrado pelas câmeras com a boca cheia ou chamado para dar alguma opinião ainda mastigando. Mas isso não apagava o brilho…

Ao assistir ao programa da Angélica, entrei numa viagem prazerosa. A tecnologia deu ao programa um ritmo ágil e leve, diferente dos anos 60/70, quando os convidados mal podiam se mover em torno da grande mesa. Agora, com a cozinha integrada — do fogão à mesa —, André Marques dominando as panelas, os drinks correndo soltos (e soltando a língua dos convidados), a descontração faz toda a diferença.

O auditório é simpático, a cantora transita da mesa para o palco com naturalidade — tudo muito atual, descolado e elegante. Quanto à Angélica, ela é um show à parte, com sua leveza e habilidade em transitar entre todos esses elementos.

Como é bom constatar que formatos antigos podem ser revisitados com inteligência e charme.

Desejo uma nova temporada!

Dia do Livro

O primeiro foi Os Três Porquinhos, da Disney — e vinha acompanhado de um disquinho de plástico. A música “Quem tem medo do Lobo Mau?” acabou se tornando, para mim, um grito contra a adversidade. Medo de quê?, eu me perguntava, e logo me lembrava da musiquinha.

Aos 14 anos, Espumas Flutuantes, de Castro Alves, chegou como um presente merecido ao ganhar o prêmio de Melhor Redação do Colégio Batista Brasileiro, no Rio de Janeiro.

Aos 17, O Pequeno Príncipe, com a clássica e óbvia dedicatória: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” Recebi do namorado que me “ensinou” a ler literalmente, era professor de português.

Aos 19, Cadernos de João, de Aníbal Machado — a vida ganhando outros rumos. A dedicatória “Bendita a chuva que nos uniu” deixou lembranças eternas. Não conhecia o autor, mas me encantei pela narrativa linear, coleção de fragmentos de pensamentos e anotações do autor, abordando temas variados, com um estilo que mistura humor e lirismo.

E tantos outros vieram, poderia escrever um livro sobre os livros que me inspiraram em tantos momentos. Foram a força para gerar meus “filhotes” — todos com propostas de jornalismo e pesquisa:

Um Instante, Maestro (1993), memórias do pioneiro da TV Flávio Cavalcanti;

O Rei na Terra Santa (2011), reportagem sobre a produção e realização do show de Roberto Carlos em Jerusalém;

A Verdade é a Melhor Notícia (2015), bastidores e estratégias de assessoria de imprensa;

E, em 2024, Dody Sirena – Os Bastidores do Showbusiness.

Livros: pedaços de mim.

Jovem

Hoje acordei me sentindo muito jovem aos 76 anos….

Creio que é efeito retroativo do Altas Horas de sábado que teve um desfile de talentos com mais de 80.

Escuto e cantarolo Caetano, Gil e Ney desde sempre… Sou dessa geração…

Ouvi no rádio, em LPs, fitaK7, cd, ao vivo, em todos os formatos possíveis.

É um privilégio ser testemunha dessa história…

Na abertura com a introdução de “Alegria Alegria”, rejuvenesci… Me senti nos tempos dos festivais…

As músicas não envelhecem, nem nós…

Por isso estreio foto nova… Sem filtro ou photoshop…

Fotos @igorpaixaofotografia

Turismo é negocio sério.

Sempre gosto de lembrar: minha essência não nasceu do turismo. Mas ao escolher viver em uma região cuja principal possibilidade de desenvolvimento está no turismo, precisei me reinventar. Foi assim que agreguei minha trajetória em comunicação e eventos à criação do http://www.santoandre-bahia.com, que em 2026 completa 20 anos, e ao Festival da Lagosta, que chega à sua 8ª edição este ano. Com o tempo, passei também a integrar o Conselho de Turismo de Santa Cruz Cabrália, me disponibilizando a ouvir quem realmente entende do assunto.

Não é todo dia que, no extremo sul da Bahia, temos a oportunidade de dialogar com quem conhece os caminhos do turismo. Por isso aceitei com alegria o convite para um encontro com Divaldo Gonçalves, uma conversa simpática e rica sobre o plano Avança Turismo. Divaldo sabe o que fala. E muito bem. É diretor de Regulação e Certificação de Serviços Turísticos da Setur-BA e interlocutor estadual do Programa de Regionalização do Turismo do Ministério do Turismo.  

A Bahia conta com 13 zonas turísticas que derivam 16 câmaras técnicas, pois uma zona se subdivide em mais de uma câmara, e entre elas a da Costa do Descobrimento, que abrange: Belmonte, Santa Cruz Cabrália, Porto Seguro e Guaratinga. Em processo de adesão – Itabela e Eunápolis. É através dessas câmaras que o Ministério do Turismo certifica atividades e qualifica serviços, orientando ações como capacitação profissional, incentivo à regularização de empreendimentos, melhoria de infraestrutura e promoção do desenvolvimento sustentável.

Tudo isso reforça uma verdade simples: turismo é assunto sério. O turismo não é um conceito estanque, preso a fórmulas prontas. Ele se move, se transforma e se reinventa junto com os anseios de cada sociedade. À medida que os desejos das pessoas mudam — seja por mais sustentabilidade, por experiências autênticas ou por vivências coletivas — o turismo também se adapta, criando novos caminhos. O turismo é coletividade, não é projeto solo. O que antes era experiência, hoje a proposta é para vivências.  O que podia ser visto apenas como lazer ou consumo, hoje ganha dimensões de pertencimento, identidade e preservação cultural. É essa natureza dinâmica que torna o turismo um desafio constante, mas também uma oportunidade única de alinhar desenvolvimento econômico com os sonhos e valores de cada comunidade.

Conhecer o Avança Turismo Bahia foi, acima de tudo, entender que ainda temos muito a aprender e a conquistar para o futuro de nossa cidade. Os objetivos são fortalecer o setor turístico, apostando em ações estruturantes como capacitação de profissionais, apoio à regularização de empreendimentos, elaboração de diagnósticos de infraestrutura e incentivo ao turismo sustentável. Com isso, busca-se ampliar a qualidade da oferta turística, gerar emprego e renda e valorizar as identidades locais, sempre em diálogo com municípios, empresários e comunidades.

 Esses encontros aproximam gestores públicos, guias, trabalhadores do setor e representantes da sociedade civil, estimulando a cooperação regional e a construção de estratégias conjuntas. A ideia central é que cada destino possa se reconhecer dentro de uma rede mais ampla, consolidando a Bahia como referência em planejamento territorial e turismo de experiência no Brasil. Eu acredito. Adorei o encontro Divaldo, que outros se repitam… E conte comigo na plateia.

Entre cupins, colmeias e canções…

“As aparências enganam”, música de Sérgio Natureza e Tunai, não sai da minha cabeça desde que precisei cortar uma árvore.
O tronco largo crescia inclinado sobre um chalé e, no topo, havia uma casa de cupim. Um amigo que entende do assunto recomendou retirar, pois poderia cair no telhado.

Chamei o rapaz da serra elétrica. Ele prendeu cordas em outras árvores para reduzir o impacto das quedas e, quando chegou ao alto, descobriu que a casa dos cupins estava vazia. Em compensação, ao ligar a serra percebeu que a árvore estava oca. Mas não abandonada.

Dentro dela havia uma enorme colmeia. Abelhas pequenas, sem ferrão, produziam um mel levemente cítrico. O trabalho era engenhoso: favos com estruturas hexagonais de cera, feitos pelas abelhas operárias. Como pequenas gavetas, servem para armazenar mel, pólen e também para que a rainha deposite os ovos, que se transformarão na nova geração.

Consultei Jean e Carlos, da Fazenda Arimugue, que têm grande experiência em meliponário (colmeias de abelhas sem ferrão) e apiário (colmeias de abelhas Apis). Eles recomendaram deixar os troncos próximos de onde estava a árvore. Assim, quem sabe, as abelhas continuam por lá até dezembro, quando eles voltam de viagem e poderão transferi-las para uma casinha.

Todo dia a gente aprende alguma coisa. E, mudando a trilha sonora, lembro outra canção: “Vivendo e aprendendo a jogar”, de Guilherme Arantes, eternizada na voz de Elis Regina.

“Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”

Sobre a Pousada Victor Hugo

Esse cenário me remete a uma história…

Na segunda metade dos anos 80, os amigos Victor e Ugo deixaram o Rio de Janeiro rumo a Porto Seguro. Um dia, decidiram explorar o litoral norte e, dirigindo um buggy até o fim da estrada, chegaram a um rio. Não havia balsa para cruzá-lo — apenas um barquinho. Conduzidos por um barqueiro, seguiram por uma trilha que margeava o mangue até a praia… e se encantaram. Era um vilarejo com pouco mais de 200 moradores. Decidiram comprar um terreno e construíram uma casa. Depois, veio a ideia de uma pousada. Adquiriram uma área à beira-mar.

Nascia ali uma sociedade perfeita. O nome unia os dos empreendedores e homenageava o escritor francês Victor Hugo, que ambos admiravam. Ugo, que morava em Milão, trazia o bom gosto e a arquitetura na alma. Victor, em Ipanema, vinha do mercado financeiro — era administrador e ótimo de conversa. Assim, em dezembro de 1994, foi inaugurada a Pousada Victor Hugo.   

No início, havia apenas o salão, o bar, a varanda, a cozinha, dois chalés e as espreguiçadeiras na praia. O jardim ainda era árido, a restinga rasa. Criaram, então, um jeito diferente de receber — sentido nos lençóis e toalhas sempre brancos, no clima elegante e descontraído que fazia os hóspedes se sentirem em casa. Tudo muito exclusivo, único, com glamour num clima de acolhimento com axé e estilo. No bar variedade de destilados, fermentados e o espumante sempre gelado; o cardápio era enxuto, com destaque para o inesquecível peixe ao molho de vinho.

Assim, na base dos bons relacionamentos e de “boca a boca”, passaram a ser descobertos por hóspedes notáveis. Tempos em que, no salão, na varanda ou na praia, corriam conversas inteligentes entre atores, escritores, terapeutas, acadêmicos, cantores, jornalistas, doutores e investidores — gente que buscava privacidade até para um topless livre à beira-mar. Nos pés a tradicional sandália havaiana e, em noites mais frescas, jogado nos ombros um cashmere autêntico. Trilha sonora do jazz aos clássicos da mpb. Atrás do balcão do bar, o bom humor (às vezes ácido) dos proprietários também ajudava a fortalecer a marca.

Victor conduziu a pousada até sua morte, em dezembro de 2001. Ugo a vendeu em março de 2014. A Pousada Victor Hugo tornou-se referência e símbolo de pioneirismo no turismo da orla norte de Santa Cruz Cabrália, deixando boas memórias para todos que por lá passaram — ou ouviram suas histórias.

No salão, entre peças contemporâneas trazidas da Itália e arte local, havia sempre uma obra do escritor Victor Hugo. Em francês, é claro. E dele extraio uma frase que parece escrita para essa história: “Não há nada como o sonho para criar o futuro.”

E, quando não se tem mais sonhadores, fica assim, abandonada, coberta de folhas secas. Apenas memórias…

Fotos 2006 Alexandre Campbell @xandecampbell

Eu, a mídia e a lagosta…

Em 1985, deixei a redação do jornal O Globo. Montei um pequeno escritório na área de serviço de casa e comecei uma nova fase: fui ser assessora de imprensa. Naquela época, os profissionais que promoviam artistas e eventos na mídia ainda eram chamados de divulgadores.
Comecei com dois grandes nomes: Renata Sorrah, que estreava como produtora e atriz na peça Grande e Pequeno, e Ivan Lins, em temporada no Canecão.
Eu conhecia bem os críticos de teatro e música do Rio de Janeiro. Mas queria ir além, ampliar a visibilidade dos meus clientes. Fui a uma banca de jornais na Av. Rio Branco, daquelas bem sortidas, e comprei um exemplar de cada jornal e revista. Liguei para todos os veículos, anotei nomes e endereços dos profissionais que atuavam nas editorias de variedades, turismo, negócios, música e teatro — e assim nasceu meu primeiro mailing.
Ele foi datilografado, encadernado e, anos depois, virou um programa no meu primeiro computador. Bastava digitar o segmento e a cidade, e surgia uma lista completa, pronta para imprimir etiquetas. Era tão inovador que virou matéria na recém-lançada página de informática do jornal O Globo.
De lá pra cá, muita coisa mudou. Segui na comunicação estratégica, gestão de crise, criação de projetos e, pontualmente, mantendo contato com colegas da imprensa. Mas este ano resolvi, mais uma vez, colocar a mão na massa.
Buscando me atualizar, testei plataformas que oferecem mailings segmentados. A tecnologia é ótima, mas o resultado foi pífio. Não me interessa disparar e-mails genéricos rumo à caixa de spam. Quero falar com quem realmente se interessa pelo conteúdo.
Desta vez, promovo um evento que criei e muito me inspira: o Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, que chega à sua 8ª edição. Vamos trabalhar fortemente as redes sociais e investir num marketing criativo e eficiente. Mas… ainda sinto falta de um bom mailing nacional.
Como já não temos mais bancas repletas de jornais e revistas, compartilho essa história pois quem sabe você conhece veículos ou profissionais que tenham interesse em receber pautas incríveis — e com gosto de lagosta fresca — sobre um festival que acontece de 10 a 19 de outubro, entre em contato comigo.
Vai ser um prazer reconectar!

A árvore da felicidade

O cajueiro que voltou a cruzar o caminho do mar….

Do que me lembro, lá pelos fins dos anos 60, era comum encontrar nas salas de estar ou nos jardins das casas uma árvore da felicidade. Frondosa ou em versão bonsai, diziam que bastava ter um casal — macho e fêmea — para atrair alegria duradoura.

Tive várias ao longo da vida, até chegar à Bahia… E encontrar, não uma árvore, mas um jardim com alma de floresta.

Hoje completo 21 anos em Vila de Santo André, Santa Cruz Cabrália, Bahia. E não tenho árvore da felicidade no quintal. Nem preciso.
Aprendi a ser feliz entre árvores com nomes que soam como cantigas: aderno, araçá, angelim, almescla, araticum, aroeira… E mais: bananeira, cajueiro, coqueiros, dendezeiro, embaúba, flamboyant, jambolão, limoeiro.
Algumas são heranças do meu irmão Victor, que ergueu esta casa. Outras, dádivas dos pássaros.
Plantei apenas o jambolão, que hoje é um gigante. Seus frutos roxos tingem o chão como se o tempo ali se materializasse em cor.

Algumas árvores têm histórias. Como o cajueiro cuja galha atravessava a cerca e sombreava o caminho para a praia. Estava esplêndido, até que o vizinho pediu para cortar.
Queria a passagem livre para um caminhão.
Disse “não” de pronto — busque outra solução, respondi.
Mas ao voltar pra casa, a dúvida me agarrou: o que pesa mais — a galha do cajueiro ou a boa convivência com o vizinho?
Cortei a galha.
O cajueiro, generoso, não se ofendeu. Voltou a crescer. E sua nova galha, agora mais alta, já se estende, atrevida, pelo mesmo caminho…

Com honra, sou Cidadã Cabraliense. O diploma está na parede — mas o reconhecimento vem daquilo que construí aqui.
Tive o privilégio de servir duas vezes à cidade onde o Brasil começou. Fui Secretária de Cultura e Secretária de Comunicação.
E vi a Vila de Santo André, que me acolheu com 350 moradores, crescer para mais de mil almas.

Um vilarejo resume uma grande cidade: os problemas são os mesmos, mas as alegrias e os conflitos nos tocam mais de perto, como se fossem parte da própria pele.

Nestes 21 anos, tive quatro cães.
Escrevi três livros. Criei um site que vai completar 20 anos, um blog e redes sociais.
Aprendi a costurar bonecas de pano, colchas de retalho. A fazer pilates 3 vezes por semana. A dormir com a janela aberta para ver a lua passeando no céu.

Sou anfitriã de pessoas adoráveis que passam por minha casa o ano todo. Um prazer receber. E fiz novos amigos.
Com as flores do hibisco, aprendi sobre a finitude e o mais essencial: a vida é breve.
Mesmo em toda sua beleza, o hibisco dura apenas 24 horas.

A cada ano, uma nova pergunta me visita: até quando?
E hoje, respondo com o que aprendi entre raízes e galhos:

Enquanto eu for feliz.

O Globo e eu

Na edição de hoje memórias dos que por lá passaram

Assistindo à série 100 Anos do Jornal O Globo, entendi por que fui contratada como repórter do Segundo Caderno em novembro de 1976. Evandro Carlos de Andrade havia assumido, cinco anos antes, o cargo de diretor de Redação com o objetivo de reformular o jornal, tanto graficamente quanto editorialmente. As mudanças incluíram a criação da edição de domingo, o uso de cores, novos suplementos e a conquista de leitores e anunciantes nos subúrbios. E por indicação do Edgard Catoira, meu editor na revista TV Guia da Editora Abril, que lá cheguei.

Meu primeiro dia na redação foi inesquecível. O espaço era enorme, sem ar-condicionado, com móveis antigos. A equipe era formada por intelectuais de diversas áreas da cultura. Exceto Joana Angélica Gusmão, que eu já conhecia da época da Bloch Editores, não conseguia imaginar nenhum dos meus novos colegas fazendo entrevistas cotidianas com artistas da televisão. Essa era a minha especialidade.

Em oito anos de jornalismo, eu havia construído ótimas relações com atores, cantores, gravadoras e radialistas — do popular ao erudito —, embora ainda houvesse quem visse esse universo como um subproduto cultural. A TV Globo completava 10 anos, consolidava uma programação de alto nível e esperava que o jornal do mesmo grupo refletisse esse prestígio editorial.

Minha estreia foi com uma matéria sobre comportamento, mostrando que havia muitas formas de abordar a televisão. O programa Planeta dos Homens, exibido às segundas-feiras, trazia um quadro em que Taborda (Jô Soares) perguntava ao Fonseca (Paulo Silvino): “Será que aguenta?”, ao que ele respondia com um sonoro “Guenta!”. O bordão foi adotado por milhões de brasileiros — a população do país na época era de cerca de 42 milhões — e passou a ser repetido em todas as situações. A matéria abordava o nascimento dos bordões, a trajetória do comediante e o sucesso do programa.

A segunda matéria, com o título Os fãs escrevem a seus ídolos (e falam de seu amor, de sua paixão, de seu desejo etc. etc.), era aparentemente óbvia. Afinal, com o sucesso das novelas, esperava-se que os artistas recebessem muitas cartas — mas ninguém havia feito uma reportagem sobre isso. Pedi autorização à diretora de elenco Maria Augusta Mattos, a Guta, e também a alguns artistas, para analisar o conteúdo de centenas de cartas que chegavam diariamente à emissora, entregues em grandes sacolas de lona pelos Correios. Os destinatários mudavam de acordo com o sucesso do personagem na novela. Havia declarações de amor eterno, promessas de TVs, casas, viagens… De todo o elenco, a única que mantinha um volume constante de correspondência, estivesse ou não no ar, era Regina Duarte.

Em menos de seis meses, tive a honra de cobrir as férias do colunista Artur da Távola. Para quem não conheceu, Artur da Távola era o pseudônimo de Paulo Alberto Monteiro de Barros, advogado, senador cassado durante o regime militar, exilado na Bolívia e no Chile, e crítico de televisão. Seu texto era profundo, poético, doce e encantador. Conquistou milhares de fãs. No lançamento de seu primeiro livro, Mevitevendo, em 1977, encontrei  a maior reunião de artistas fora da tradicional gravação de fim de ano da emissora. O convite para substituí-lo foi um enorme prestígio — ainda mais por ter sido uma escolha dele próprio. Um verdadeiro aval ao meu trabalho perante uma redação repleta de notáveis.

Mostrando o outro lado da telinha — e também cobrindo estreias e temas de interesse da empresa —, meu texto começou a ganhar espaço. Passei a ser chamada por outras editorias para cobrir matérias como o réveillon em Copacabana e a premiação Operário Padrão, eventos organizados pelo Departamento de Promoções, onde conheci a querida Sheila Roza.

Em 1980, na onda dos novos suplementos, surgiu o Caderno de TV, uma revista que circulava aos domingos totalmente dedicada ao tema. Moyses Fuks, que me levara ao jornalismo na Bloch Editores e profundo conhecedor de televisão, foi convidado para dirigir. Fechou o contrato, mas não pôde assumir no lançamento. Assim, produzi as duas primeiras edições junto com Flávia Villa-Boas, então editora de moda e comportamento.

Eu já intercalava reportagens de TV com shows e discos, e fui, aos poucos, mudando o foco. Popularizei o caderno com matérias deliciosas, como Sidney Magal em um clube do subúrbio, em meio ao delírio das fãs; ou Gretchen, que fazia três shows por noite, trocando de roupa no carro e cantando em um palco improvisado com quatro mesas, Wando recebendo uma “chuva” de calcinhas em pleno show… Ao mesmo tempo, entrevistava nomes como Elis Regina, Maria Bethânia, Milton Nascimento… e por aí vai.

Minha história com O Globo daria um livro. Foram cinco anos iniciais, depois de quase três anos fora, morando nos Estados Unidos, ao retornar foram mais dois anos incríveis, iniciando minha relação com o Rock in Rio, em 1985. Até que virei a chave: deixei de ser pedra e virei vidraça. Fui ser assessora de imprensa.

Mas isso… já é outra história.

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O Cacique Cobra Coral e eu

Osmar Santos quando me visitou de surpresa na Bahia em plena pandemia.

Em setembro de 2000 li uma pequena nota na coluna Informe JB do Ancelmo Góes sobre a previsão da Fundação Cacique Cobra Coral de muita chuva para janeiro num período próximo ao Rock in Rio que retornava à Cidade do Rock num projeto aguardado por muitos anos. Eu era diretora de comunicação do festival, nunca tinha ouvido falar na Fundação, e pedi a Ju (Juliana Braga) que era da equipe para localizar o endereço e enviei um email.

Passaram alguns meses, eu já tinha esquecido o assunto quando em dezembro chegou resposta da fundação que se apresentava como uma entidade Científica Esotérica especializada em fenômenos climáticos, comandada pelo Cacique Cobra Coral, espírito que em outras encarnações teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Podia parecer uma doideira, mas levei o assunto a sério. Por telefone conversei longamente com Osmar Santos, representante da Fundação, que confirmou ser possível evitar chuvas ou transferi-las para outras regiões com a força do vento através do trabalho espiritual do Cacique Cobra Coral.

Estávamos em dezembro e chovia no Rio. Em um projeto do tamanho do Rock in Rio a chuva era uma grande ameaça. Como Roberto Medina me conhecia há muito tempo, sabia que tinha espaço para falar qualquer coisa, mesmo um assunto insólito como esse.  Entrei nas sua sala certa da privacidade e descarreguei estas informações. Quem sabe contratar o Cacique Cobra Coral para não chover?

Ele pode não ter acreditado, mas como sempre elegante e aberto para ouvir as opiniões da equipe, respeitou a minha preocupação e ficou de pensar no assunto.

O século 20 terminou na Cidade Maravilhosa debaixo de muita chuva. Na segunda-feira 8 de janeiro todos os serviços de meteorologia anunciavam tempo ruim para a semana, incluindo dia 12, sexta-feira, abertura do festival esperado há 10 anos. E foi neste dia 8 que choveu muito, um grande teste para a capacidade de água na Cidade do Rock. Os técnicos e engenheiros justificaram como ótimo para se precaverem, mas na minha cabeça era o prenúncio de mais um festival na lama. Foi quando Roberto me chamou em sua sala dando carta branca para contratar a Fundação Cacique Cobra Coral. Pediu sigilo, tanto na mídia quanto na equipe.

A proposta oferecida pelo Cacique era que a força do vento levasse a chuva para regiões de seca. Se chegou em algum lugar de seca, não sei, mas a partir daí só quem tem fé pode acreditar no que aconteceu. Na sexta-feira e sábado choveu em vários pontos do Rio de Janeiro, inclusive nas proximidades da Cidade do Rock, mas lá dentro nenhuma gota. Na abertura do festival, no momento dos 3 minutos de silêncio pela paz no mundo, até apareceu um tímido sol em meio nuvens cinzentas, fato registrado em diversas fotos. O assunto não foi divulgado, podia virar a piada e em nada acrescentaria ao sucesso do evento… Mas alguns meses depois com o sucesso do festival, o assunto transpirou e muitos produtores passaram a contratar a Fundação Cacique Cobra Coral para garantir um bom tempo em seus eventos ao ar livre.