
Ontem tomei chá com uma amiga que acaba de completar 80 anos. Mora em São Paulo, mas tem uma casa de veraneio próxima da minha e, quando vem passar uns dias perto do mar, sempre temos boas história para lembrar. Há alguns anos ela me contou que aos 18 anos saiu de São Paulo para estudar em Paris, uma experiência fantástica. Um tempo em que a capital francesa vivia uma mistura fascinante entre tradição e modernidade: ainda elegante e clássica, mas pulsando juventude, arte e liberdade que anunciavam as mudanças culturais da década de 1960.
Não estive por lá nessa época, mas quando conheci alguns anos depois, as ruas ainda tinham cafés cheios de fumaça e conversas intermináveis, livrarias fervilhando, lá assisti “Laranja Mecânica”, passei por clubes de jazz atravessando a madrugada. Caminhar por Saint-Germain-des-Prés ou pelo Quartier Latin era sentir que tudo podia acontecer. Mas era uma cidade com menos turistas, menos pressa, menos luzes artificiais. As margens do Rio Sena eram românticas e a Torre Eiffel ainda simbolizava glamour sem parecer cenário lotado.
Mas neste encontro, lembrou que nesta época teria um mês de férias e, com dinheiro curto, como boa descendente de judeus resolveu passar 15 dias num kibutz em Israel. Conseguiu uma viagem de navio dividindo a cabine com 6 mulheres – as malas ficavam no corredor – e enviou um telegrama aos pais informando os planos. Cuidadosos com a filha correndo o mundo, acionaram um tio que morava em Tel Aviv e, quando o navio atracou, lá estava esperando a sobrinha. “Kibutz não, vem ficar na minha casa”. Foram dias maravilhosos, o tio a levou para conhecer o país, os 15 dias se transformaram em 30. So conversavam em francês, pois ela pouco sabia do hebraico, e isso dificultou um pouco a relação com a tia que nada entendia. Todos os dias, após o almoço, a tia perguntava se ela queria GLIDÁ , e por não entender o que era recusava. Só quando já estava voltando para Paris descobriu que GLIDÁ era sorvete, e lamentou os muitos que deixou de saborear.
GLIDÁ ficou na memória e recentemente, quando a sua editora – esqueci de contar que a minha amiga há muitos anos criou uma editora, hoje Grupo Aleph, que continua fazendo sucesso conduzida por seu filho – lançou um selo de livros infantis, um dos seus antigos sonhos, ao pensarem no nome veio a sua mente o sorvete que não provou em Israel. E quer algo melhor para seduzir uma criança do que um sorvete ?
Memórias de Santo André e as fotos foram selecionadas na web entre as mais significativas desta época em Paris e não tinha crédito do fotografo ! .














