China, Índia e Cabrália

Esta manhã no Pilates, enquanto reforçava os exercícios para os bíceps deixando-os no ponto para receber a vacina, meus pensamentos viajaram tão longe quanto os insumos que vêm da China e da Índia para nos salvar.  Nas terras aonde Cabral chegou e nasceu o Brasil, me encontro deitada numa cama de alongamento imaginando a cena há mais de 520 anos quando as caravelas aqui aportaram. Estavam atrás de outros caminhos, de outros insumos e se depararam com este escândalo de paraíso continental…. Tantos anos depois, não desejamos descobridores portugueses, mas que indianos, chineses e até russos encontrem a rota e tragam a semente da cura. Tenho chorado ao ver nos noticiários cenas de vacinação. Choro mais do que nos filmes do tipo love story. Creio que muitos perceberam que a vida no fio de um vírus tornou-se ainda mais preciosa.  

Cercada por uma natureza exuberante, muitos quilômetros de praia, vivo dividida entre o sentimento de semi imunidade, mas com o temor do inimigo invisível que pode estar perto. É aterrorizante. Chegaram doses de vacina em Santa Cruz Cabrália. Não atuo na área de frente da saúde, nem sou índia, quilombola, tão pouco me encontro em um asilo. Com isso, a vacina para a minha turma vai demorar um pouco para chegar.

Mas, no entanto, hoje recebi a foto de uma prima querida sendo vacinada no Rio de Janeiro. Intelectual brilhante, poliglota, há pouco mais de 2 anos um AVC quase a tirou definitivamente do ar. Com sequelas, foi morar em uma casa de repouso para idosos e a vacina bendita chegou até lá. Fiquei feliz ao vê-la e triste ao saber que a sua rica vida intelectual ficou no passado. Com um pouco de confusão mental, passou a viver num outro mundo. Preferi não perguntar como ocupa o tempo, difícil imaginar alguém tão dinâmica e ativa em uma outra rotina. Ainda sou capaz de escutar as nossas risadas nas noites que passávamos bebendo vinho, contando casos e planejando o futuro para os nossos filhos ainda pequenos…

E é pela demora da vacina, por este cenário que se revela no mundo que cada dia estou mais certa de que viver é para consumo imediato… Mesmo com o distanciamento que estes tempos pedem, não dá para deixar de experimentar um novo afeto, usar o vestido guardado para um grande momento, tomar vinho na taça alemã Spiegelau, caprichar no perfume, se deliciar com camarões flambados ou lamber os dedos ao degustar uma fruta do conde pois estamos na temporada e os camelôs oferecem na rua em Porto Seguro… São simples e inadiáveis prazeres.  Como estrear uma camisola de seda apenas para si, usar o melhor sabonete e se labuzar com um bom creme no corpo para dormir assistindo a lua passear pela janela. A vida é curta demais para amanhã… 

+60

Você conhece alguém que se apresentou no The Voice+60? Eu conheço. Eu reencontrei esta amiga há uns 6 anos num almoço muito formal para Gilberto Kasab, então Ministro das Cidades, em Porto Seguro. Quando nos apresentaram, mesmo depois de tantos anos, impossível não reconhecer pois Aurea Catharina é primeira e única…

Tínhamos por volta de 20 anos quando nos conhecemos.. Ela era uma jovem cantora, já tinha se apresentado com Vinicius de Moraes, gravados discos e namorava Roberto Jorge, filho da atriz Gracinda Freira, diretor de  programas na TV Tupi envolvido com os festivais de música… O tempo nos separou, a reencontrei vivendo em Arraial da Ajuda, cantando na noite e nas barracas de praia durante o dia… Totalmente envolvida com a comunidade de Arraial, aonde chegou depois de muitos anos cantando em bares em Paris…

Estar com Áurea foi rever o passado com muita alegria e quando vi o anúncio de que teria um The Voice para mais de 60anos impossível não a imaginar  no palco da Globo, ampliando seu público além do sul da Bahia … Insisti, acompanhei  a inscrição, fantástico conhecer os bastidores como a seleção foi feita, os encontros de forma remota com diretor, maestro, produtores, figurinista…Um show à parte como a Globo se organizou para produzir conteúdo com distanciamento…

Hoje Áurea Catharina brilhou duplamente no The Voice +60 … Além das 4 cadeiras que viraram avalizando seu talento, ainda foi interrompida pela edição extraordinária anunciando que a Anvisa aprovou as vacinas… Chorei pela Áurea estar realizando seu sonho e por todos nós que realizaremos o nosso…

Convido a seguirem @aureacatharinacantora no Instagram e entrar nesta torcida…

Foto @alinecavalcante

Lembrando um amigo…

Hoje Flávio Cavalcanti faria 98 anos. Ele é meu amigo inesquecível… A foto com Luiz Armando Queiróz, registra a minha ultima apresentaçao no programa Sem Limite, na TV Manchete, aonde tive a ousadia de responder sobre sua vida… Foram 10 programas, com 10 perguntas em cada edição, divididas no minimo em 3 partes… Ufa… Cheguei lá… E para completar as tantas informaçoes escrevi “Um Instante, Maestro !” lançado pela Editora Record em 92…. Quem tiver interesse em conhecer a historia desse apresentador, pode encontrar o livro digitalizado neste blog …. O texto abaixo é do capítulo 2, aonde conto como fui trabalhar com Flávio…

Eu tinha 22 anos de idade quando conheci Flávio. Tinha participado de passeatas, cantado músicas de protesto, procurado em delegacias de subúrbio um namorado desaparecido que só foi encontrado no DOPS, levado porrada da polícia no quebra-quebra da Cinelândia e ouvido dezenas de histórias de amigos torturados. Fazia parte de um grupo que veio a se chamar MAU – Movimento Artístico Universitário -, nascido na casa do psiquiatra Aloysio Porto Carreiro, na Rua Jaceguai, 27, Tijuca. Eu era colega de Angela, filha mais nova de Aloysio. Nos fins de semana, o grupo se reunia em sua casa para tocar violão, bater papo, namorar e tomar cerveja. Corria o ano de 1965, um após a revolução. Era sensacional para uma adolescente descobrir aquele clima de protesto e conhecer um mundo politicamente diferente do que tinha aprendido em casa. Com Aloysio e sua mulher Maria Ruth tudo era permitido. Fumar, ficar acordada até o dia amanhecer e, sobretudo, falar de política. Liberdade, liberdade! Aprendia-se muito ouvindo músicas de Sinval Silva a Nelson Cavaquinho, passando por Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, já despontando como compositores, e acompanhando os novos que ali surgiam como Gonzaguinha (namorando Ângela), Ivan Lins (namorando Lucinha), Aldir Blanc, César Costa Filho, Sílvio Silva, Paulo Emilio e mais um monte de gente de talento que veio a se firmar nos festivais universitários. Meus amigos não eram exatamente do estilo dos amigos de Flávio. Deste meu grupo, alguns ao longo da vida tomaram-se inimigos do apresentador por discordarem de sua postura. Apesar disso, me tomei amiga de Flávio, ou melhor, ele foi meu melhor amigo, essencial em minha vida durante quinze anos. Proporcionou-me momentos inesquecíveis, foi generoso, sincero, doce e dedicado, ensinando-me que, mais importante do que ser de esquerda ou de direita, era ter opinião própria e respeitar a alheia. Meu objetivo em escrever este livro foi apontar fatos e contar histórias que envolveram o apresentador e a televisão no período de 70 a 74. Mais do que o resgate do seu nome, quero revelar um Flávio Cavalcanti punido e perseguido pela Censura, ao contrário da imagem fortemente divulgada pelo patrulhamento ideológico. Colocaram-lhe uma culpa que jamais teve, foi chamado de dedo-duro sem jamais terem conseguido provar nada, apesar de ter ajudado a esconder amigos procurados pelo Exército. Foi conivente com a revolução de 64, mas acabou discordando dos rumos que esta tomou a partir do Ato Institucional 5, em dezembro de 1968, e pagou por isso. Através de pareceres da Censura Federal sobre o programa, somados a depoimentos de amigos, companheiros de trabalho e até mesmo de opositores, este livro mostra um Flávio Cavalcanti que quase ninguém conheceu.

A CoronaVac, o Butantan e eu

Album de família

Cada vez que ouço falar na CoronaVac e no Butantan meu coração bate mais forte. Não apenas por sentir que lá está sendo produzida a vacina que promete em breve  imunizar os brasileiros do vírus Covid 19, mas pela memória afetiva que o Instituto Butantan me traz. Tenho enorme orgulho em estar ligada à família Vital Brazil, cujo patriarca fundou o Instituto Butantan e ali desenvolveu muitas pesquisas cientificas, plantando a semente que mais de 1 século depois se mantém viva. A árvore genealógica da minha família por parte de mãe é bem interessante e gosto de contar assim:  por volta de 1916, duas jovens muito bem nascidas e criadas em Curitiba, Déa Meneses e Dinah Carneiro Vianna, se tornaram amigas. Déa morava com o pai, a mãe e os irmãos, era sobrinha do escritor Emilio de Meneses; enquanto Dinah vivia com o pai, Paulo Guajará Vianna e 8 irmãos, a mãe havia falecido há alguns anos. Déa se apaixonou pelo pai da amiga. Amor correspondido. Contava-se na família que Dinah dizia:

“Déa, como vai se casar com alguém com a idade do seu pai e ainda por cima com filhos para acabar de criar?”

Mas Déa foi firme, casou com Paulo e, algum tempo depois, Dinah, casou com um homem quase da idade do seu avô. O marido de Dinah era o cientista Vital Brazil, também viúvo, com 9 filhos, e com ela teve mais 9. Déa e Dinah foram mães quase ao mesmo tempo.  Não me lembro quem enviuvou primeiro, mas as amigas se consolaram nas perdas, comemoraram as conquistas, nascimento de netos e bisnetos. Dinah, generosa, deu uma casa para Déa no mesmo bairro onde foi construído o Instituto Vital Brazil em Niterói. Esta relação de carinho – amizade se perpetuou pelas gerações…

Eu sou neta de Déa, tinha 1 ano quando o vovô Vital morreu e cresci ouvindo falar sobre ele que foi padrinho do meu irmão Victor. Uma lenda que ia muito além da foto no álbum que herdei onde aparece elegantemente vestido e sentado ao lado de vovó Dinah. As minhas melhores lembranças de férias na infância estão ligadas diretamente a esta família, a casa tão grande, praticamente um sitio em Niterói aonde íamos buscar o leite no curral. Com a venda do Instituto para o Estado, as minhas memórias de férias foram transferidas para a casa em Laranjeiras, onde vovó Dinah vivia com meus padrinhos Eliah (Vital Brazil) e Álvaro (Protásio). Eu passava o dia cercada de primos e, apesar do barulho da garotada, tinha um silencio no ar. Talvez o jeito calmo e manso dos meus padrinhos em conduzir 11 filhos

Mas tinha algo ainda mais mágico nesta casa cercada por árvores. Havia muitas salas, como a de música com quase todos os instrumentos, da harpa ao piano, a de TV uma sensação com o equipamento recentemente lançado  onde assisti pela primeira vez os Espetáculos Tonelux, a sala de jogos, de costura e pintura, de refeições, de estar, varandas e tinha uma muito especial: um pequeno museu. Ali estavam expostos objetos e documentos do vovô Vital. Ainda menina eu percorria com os olhos atentos e as mãos ficavam seguras atrás da cintura para evitar a tentação de tocar no intocável. Me lembro de uma escrivaninha, uma espécie de armário de vidro com peças pequenas, como relógio, óculos, caneta, um tinteiro… Ainda tinham quadros, alguns moveis de época, e como eu gostava de admirar aquelas relíquias.  E é com esse mesmo olhar de menina encantada que ouço sobre a vacina que vai sair do Butantan, diretamente de onde saíram boas memorias da família e se encontrar comigo na Bahia.. Vai dar certo.

2021 aqui vou eu

Olá 2020, tentei escrever um longo texto me despedindo de você, mas não consegui…. Agradeço os tantos desafios… Tive o privilégio de permanecer no mesmo cenário, uma casa cercada por árvores, junto a uma praia quase deserta, num povoado pequeno que vive exclusivamente do turismo e que diante da pandemia parou… Tudo fechado… Mas nunca fui tão ativa solitariamente como neste ano inesquecível. Aulas de Kabalah, bordado e redes sociais. Muitas séries e filmes na Netflix, meti as caras na cozinha, fiz foccacia e risoto, enfrentei uma obra em casa durante 3 meses, produzi o 5º Festival da Lagosta quando o turismo retomou depois de 6 meses e nunca se consumiu tanto crustáceo como naqueles 10 dias de outubro…

Sobrevivi com saúde, insônias e sonhos de voar, ver amigos, andar pelas ruas, queimar máscaras, inventar alguma vida nova… Escrevi menos do que queria, nem meia dúzias de páginas de um livro, mas estou mais rica de sentimentos e desejos… Tudo vai passar e continuo com planos e preciso de muitas vidas para realizar todos… Em mais alguns dias começo um novo ciclo, mais 365 dias passaram no meu caminho e foram muito bem vistos, olhados e cuidados, algumas vezes com lagrimas outras com risadas… Uma rede na varanda foi meu melhor presente, ali me embalo preparando para os novos tempos… Hello vida, aqui vou eu de cabeça para 2021, do jeito que for e vier, mais viva do que nunca….

Ressaca

Eu sou uma profissional de comunicação que há muitos anos trabalha com eventos. Eventos enormes, em áreas fechadas para 200 mil pessoas, em áreas abertas para milhares delas e, entre os ensinamentos que recebi com grandes produtores como Dody Sirena, Cicão Chies e Roberto Medina, o mais simples é o que acontece no palco. O artista, os técnicos de som e luz, os cenógrafos, sabem o que fazer. A grande questão é o que rola no entorno. Como chegar e sair do local, a logística dos fornecedores, a segurança do público e como o evento se incorpora na localidade. Talvez algumas dezenas de histórias para contar na relação com diversas comunidades, como ao lado da Cidade do Rock na Barra da Tijuca, nas Piscinas do Sultão em Jerusalém ou no Parque Bela Vista em Lisboa.  O respeito aos locais dos eventos e aos seus moradores sempre foi fator fundamental nos planejamentos e nos levaram a muitas horas de reunião.

Isto tudo para dizer o quanto um lado meu se entristeceu em integrar um grande movimento criado no povoado aonde vivo para que não acontecessem 6 dias de festas para até 600 pessoas/dia no final do ano.  Não entro no mérito do evento, apropriado ou não para a localidade cuja mídia sempre promoveu como um local de tranquilidade e cujas 3 experiências de réveillons foram desastrosas. Mas me refiro ao momento em que vivemos, tudo acontecendo numa comunidade com pouco mais de 800 habitantes que, naturalmente, já tem um grande aumento na sua população no final do ano e que está passando pela pandemia com apenas 7 casos registrados pela Secretaria de Saúde de Cabrália. E ainda temos um outro ponto relevante: estamos numa APA – Área de Proteção Ambiental – e neste período acontece desovas de tartarugas.

Inapropriada a proposta, foi o mínimo que pensei…  Mas a insistência dos produtores permanecia apesar das conversas que tentamos manter e aí não nos coube outro caminho a não ser sair em defesa de vidas, pois essas importam… Tanto importam que no início da pandemia, quando tudo fechou, levantamos recursos e distribuímos durante 6 meses cestas básicas para os trabalhadores da praia que ficaram desassistidos e também colaboramos com a doação de medicamentos básicos para o posto de saúde.  A fragilidade da saúde pública em todo o país é latente, aqui não foge à regra, por mais boa vontade que tenha a administração. Por ser um município com menos de 30 mil habitantes, Santa Cruz Cabrália, onde se encontra o bairro de Santo André, tem como referência para saúde a vizinha Porto Seguro, 24kms distante, com grande ocupação nos 20 leitos de UTI, sendo 10 particulares. A grande maioria dos trabalhadores desta festa seria de moradores e quando tudo terminar como ficaríamos?  Infectados?

Resisti a participar do movimento pois achava um absurdo que os produtores insistissem com o assunto. Varias reuniões já tinham acontecido e fiquei fora. Mas chegou num ponto que não deu mais. Já existia um grupo formado e me engajei. Uma união de moradores, turistas e empresários. Começamos a falar com amigos, disparar apelos nas redes sociais, abaixo assinado virtual e físico onde recolhemos mais de 2 mil assinaturas, nos tornamos assunto na mídia nacional, entramos com uma ação no Ministério Público e tudo culminou no horário nobre da TV Globo, com o Jornal Nacional. Seguindo a teoria dos 6 graus*, nosso clamor chegou ao Governador Rui Costa que veio à público dizer que “festa não”, através de um decreto estadual. Uma posição política exemplar.  Hoje vivemos o alívio.   Tenho o sentimento de ter ajudado a estancar o vírus. Sinto uma ressaca como no final dos grandes eventos, quando só resta desmontar o palco, juntar os recortes da mídia e fechar os relatórios… Sei que turistas mais conscientes virão, utilizando máscaras, desfrutando de  nossa enorme extensão de praia, ocupando hotéis, pousadas e restaurantes, cumprindo os protocolos determinados pelo Governo e acreditamos que com isso a Vila de Santo André volte a ter o título de quase todas as reportagens publicadas a seu respeito: um local de tranquilidade, paz e contemplação.

*A Teoria dos Seis Graus de Separação originou-se a partir de um estudo científico desenvolvido pelo psicólogo Stanley Milgram, que criou a teoria de que no mundo são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas.

Reveillon Não

Foto : Claudia Schembri

Este ano estou tendo a oportunidade de viver experiências riquíssimas e únicas na comunidade onde moro. Como diria o Artur Xexéo, “os meus 14 leitores” sabem que vivo numa vila pequena, com menos de mil habitantes onde nem sempre todos concordam, mesmo nos assuntos de interesse geral. Em abril realizamos um projeto bacana, levantamos quase 40 mil reais e entregamos durante 6 meses cestas básicas aos trabalhadores da praia que ficaram sem os turistas que normalmente chegam em escunas e chalanas. Estávamos nos preparando para um verão com todos os cuidados, isolamento social, o que é muito fácil diante da enorme extensão de praia que temos, quando apareceram 4 produtores do Rio e São Paulo com um projeto para uma grande festa de réveillon.

Eu disse não ao convite para uma reunião. Mas um produtor paulista pediu que recebesse os visitantes e chegaram à minha casa duas moças e dois rapazes. Logo no início percebi o nível da loucura tanto ao apresentarem o projeto com intenção de aglomerar 800 pessoas em 7 dias de festa em tempos de distanciamento, quanto à pouca informação e conhecimento do perfil do povoado. As moças já conheciam de duas curtas temporadas de 1 semana, e os rapazes vieram pela primeira vez.  Uma sensação de invasão e total falta de respeito foi pra mim a resultante dessa reunião.

Não sabiam que somos uma APA (Área de Proteção Ambiental), que os nossos turistas gostam da tranquilidade, viajam com família,  por vezes com muitas crianças que andam pelas ruas à pé ou de bicicleta, ainda tem a turma da ashatanga yoga que sai de casa cedinho para as práticas carregando uma bolsa com o tapetinho nas costas, tem os que já passaram dos 60 e se deliciam com nosso mar de poucas ondas, e todos amam no final do dia ir para a beira do rio assistir ao show das maritacas quando voltam para o mangue…É uma vila simples, encantadora, com pouco mais do que 2 km de extensão, onde todos se cumprimentam na rua, e não precisa de grandes festas, pois estar aqui de férias já é um show…

Mas os produtores não desistiram, mesmo sem autorizações das secretarias de Saúde e de Meio Ambiente, continuaram com a proposta em campanhas nas redes sociais, vendendo ingressos e sonhos, e esta semana convocaram moradores e empresários para uma reunião… “Queremos ouvir a vila”, diziam eles… Mesmo com chuva, lá fomos levar o nosso parecer. Eu achava que muitos pensavam como eu, mas não imaginava quantos mais estavam na mesma vibe… E foi um desfile de NÃOS em alto e bom som. E os produtores ouviam sem se abalar. Cheguei a ouví-los dizer que tinham um projeto para o futuro de Santo André…. como assim ???

Lembrei que há 16 anos, quando me preparava para o semestre sabático que se tornou em uma mudança radical na minha vida, estava com muitas dúvidas e fui conversar com uma astróloga que disse algo que ainda me norteia: não faça o que você acha que é bom para a comunidade, espere ver o que eles precisam.  E é neste pensamento que tenho construído a minha relação com Santo André.  Por isso que ri, achei ingênuo, petulante, a produtora dizer que tinha uma fórmula para a vila sem jamais ter vivido temporadas de baixa estação, épocas de chuva, as enormes crateras que surgem nas ruas, falta d’agua, as discussões do preço da balsa, a falta de médico no posto de saúde, as podas deixadas nas ruas, enfim, todas as mazelas que o povoado tem e só quem aqui vive conhece…

Bom, mas apesar de todos os NÃOS dos moradores e empresários, eles insistem em fazer os 7 dias de festas repletos de pessoas em plena interação social. Continuam anunciando em suas redes sociais, vendendo o que estamos conscientemente contra.

Nós que não estamos de passagem por  Santo André, mas SOMOS  Santo André,  buscamos as possibilidades para que o nosso NÃO chegue a um número cada vez maior de pessoas através das redes sociais, quem sabe o nosso grito chegue nas páginas de um jornal de circulação nacional,  num caderno de turismo que conte a história de um pequeno povoado praiano que quer apenas preservar seus moradores e turistas habituais … Estamos  em uma cidade que não tem hospital em funcionamento, utilizamos o hospital municipal de Porto Seguro cuja UTI já está no talo… Segundo o decreto do Governador da Bahia Rui Costa, até 15 de novembro eventos só até 200 pessoas. Do jeito que anda o movimento do vírus, creio que o bom senso manda continuar neste clima… E com a comunidade unida de uma forma jamais vista, acredito que vamos mais do que vencer o vírus. Vamos nos livrar do que pode ser um grande problema para os moradores e turistas que amam e respeitam a vila, e celebrar o réveillon como sempre fazemos à beira mar, com os visitantes de sempre, em clima de paz, amor e principalmente saúde…

Sobre escolhas…

A professora, que também era poeta, se aposentou e foi morar numa pequena cidade nas serras do Estado do Rio…. Uma vida mais tranquila para quem passou os últimos 25 anos correndo entre a escola, a casa e atenção ao filho criado pelo pai, mas a quem visitava todos os dias.  Sozinha, chegou na pequena cidade, comprou uma casinha e foi conhecendo a comunidade.  Era o casal da mercearia, o taxista, o farmacêutico, as carolas da igreja, os viznhos e havia também o verdureiro, que trazia a produção da sua roça para vender na cidade. Ele vinha empurrando um carrinho de madeira, parava na casa da professora, ela escolhia alguns legumes, frutas e verduras, e ele seguia para a beira da estação do trem aonde tinha freguesia certa. Na volta, encontrava a professora sentada na varanda geralmente lendo um livro ou escrevendo poesias. Trocavam mais um dedo de prosa, comentavam assuntos banais como o calor ou o frio da estação, e ele seguia para casa. Com o passar do tempo, o verdureiro passou a parar e tomar café. Começou a guardar o carrinho de madeira na casa da professora, trazia as verduras em sacolas e nasceu uma amizade. Os vizinhos achavam estranho as conversas animadas entre pessoas de mundos tão diferentes.

Certo dia, a professora poeta foi para o Rio de Janeiro visitar a família e chegou acompanhada do verdureiro. Bem vestido, cabelo aparado, barba feita, unhas cortadas, adentrou aos salões do apartamento da família na Av. Rui Barbosa e o apresentou como seu companheiro. Foi um choque! O filho letrado, diplomado, fluente em 3 idiomas que conhecia o pequeno agricultor das raras visitas que fazia à mãe, não entendeu o que a levou, uma mulher culta e sensível, viver com um verdureiro analfabeto. Sim, ele era analfabeto, só conhecia os números. A ex-sogra, em cuja mesa só se comia em pratos com o brasão da família e usava talheres de prata, foi condescendente com a escolha. Compreensão feminina, o que nos dias de hoje chamam de sororidade. 

Me lembrei da história da professora e do verdureiro que juntos viveram até o fim dos dias, um cuidando do outro, com relatos de mulheres imponderadas que fazem escolhas estranhas e amores improváveis ao assistir “Lida Baarová” na Netflix. O filme conta sobre a atriz tcheco-austríaca que por dois anos foi amante do ministro da propaganda nazista da Alemanha, Joseph Goebbels, o mais perfeito exemplo de escolhas insensatas. Tinha tudo para cair fora do jogo de sedução, crescer na profissão, mas como coração é terreno sem dono, não há o que discutir… É um filme biográfico, um gênero que gosto muito, pois conhecer trajetórias para entender melhor a vida, muito me agrada.   Vira e mexe, aqui na minha região, escuto casos de profissionais, altas executivas, mulheres cultas que atuam em grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, cargos de poder e atuação impecável, chegam para uma pequena temporada e se apaixonam por homens mais simples, rudes, pescadores, agricultores, pedreiros, que fazem acontecer um amor sem tamanho, coisa de novela… Para uma, que me confidenciou um desses romances em que andavam na praia a luz do luar e ele contava sobre as marés, os períodos de boa pesca e conhecia o canto de quase todos os pássaros, perguntei o que conversavam depois do amor. O que acontecia quando batia aquela leseira e muitos reconhecem ser o momento em que se percebe se a escolha foi correta, se vale a pena continuar junto para um bom tempo, quem sabe construir uma vida … Com a maior tranquilidade ela me respondeu: “Faço nada, abraço e durmo… ” Ah… Simples assim… Ainda há muito o que se entender sobre relações e escolhas, sem qualquer julgamento…   

A Casa

Uma casa em obras é como uma pessoa nua à frente de um espelho de aumento revelando as suas mazelas… Todas as celulites, rugas, cravos e marcas de espinhas, gorduras acumuladas, varizes e cabelos brancos que ficavam escondidos estão à mostra para os que não as viram surgir e chegam para consertar…. É este o meu sentimento em meio a uma obra na qual estou envolvida há mais de um mês… Primeiro foi o telhado, pois a minha casa não tinha…. Sim era uma casa sem telhado, construída em estilo mediterrâneo com laje, se tornou inviável com tanto sol e chuva no sul da Bahia. Foi uma decisão difícil mudar o estilo da casa. O primeiro a sugerir foi o Paulinho, originalmente arquiteto, na última vez que me visitou olhou para o alto e foi contundente: “coloca um telhado com uma beira larga, mais de 50 cms, para proteger toda a casa”. Mas não vai contra o estilo? “Então continua chovendo dentro da casa...” pontuou bem-humorado.

Este ano, antes da pandemia, quando ainda se pensava num tempo normal, ouvi a opinião de um arquiteto amigo e vizinho. Era a mesma do Paulinho e sou grata por ter recebido sábios conselhos e feito a mudança. A sensação que tive quando as telhas cobriram a casa foi de proteção e cuidado. Já não estou mais exposta ao tempo. Tenho uma casa com eira e beira…

E para cuidar da casa toda, o telhado se estendeu para uma varanda, um espaço que não tinha qualquer valia e está se transformando num salão para relaxar com redes, poltrona, estrado com almofadas, com vento leve, uma brisa sempre fresca que vem do mar …  E não me canso de perguntar: por que não pensei nisso antes? Mas meu olhar estava viciado naquilo que se apresentava e tenho cada dia mais certeza de como é importante ouvir outras opiniões, trocar ideias…

A pintura começou, chega como um vestido novo para uma jovem dama, com quase 30 anos. Os toldos das janelas foram retirados revelando umas nesgas da cor original que ficou protegida do sol por alguns anos… Antes da tinta, como uma limpeza na pele cansada, escovão para tirar o limo que escorreu das árvores, uma boa dose de lixa, impermeabilizante e depois, enfim, a casa, terá seu novo vestido verde folha para se misturar entre as árvores e se manter num jeito discreto, num canto de terreno, exatamente como projetada ao ser construída por meu irmão… Aguardo feliz este novo tempo…          

A lagosta e eu…

Seguindo a tradição familiar, sou bem fraca na cozinha. Mamãe não gostava nem sabia cozinhar, mas sugeria pratos ótimos para todas as assistentes que passaram por nossa casa. Nos últimos anos, iniciada por uma amiga, descobri Rita Lobo e nesse período de pandemia fiz risotos e focaccias que foram bem recebidos.  Mas ser pouco competente em temperos e panelas não me impediu de nos últimos 5 anos estar envolvida com a gastronomia, desde que em 2016 capitaneei o Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento em Vila de Santo André. O sucesso foi tal que no ano seguinte se expandiu por Santa Cruz Cabrália e em sua trajetória teve a participação de 74 restaurantes e foram consumidos mais de 1500 quilos de lagosta. Esta é a 5ª. edição, tinha tudo para não acontecer, tempo de pandemia, alguns restaurantes ainda fechados, zero patrocínio, mas quem segura uma capricorniana teimosa que, como dizia meu pai, adora inventar coisas?

A bem da verdade o que me fascina é ver o que a promoção de eventos produz numa sociedade, como estimula o turismo, gera empregos, aumenta horizontes, cria oportunidades, movimenta recursos… Seja um Rock in Rio em Lisboa desbravando a Europa ou um Festival da Lagosta na Santa Cruz Cabrália com menos de 30 mil habitantes, conduzo meus sonhos e projetos com o mesma magnitude, respeito e atenção.  De repente a gastronomia da região ganha espaço na mídia e tanto os restaurantes dos sofisticados resorts, como as cabanas de praia, o bistrô na beira do rio, as trattorias, tem holofotes voltados para seus sabores provocando uma enorme alegria para os chefs e empresários que são estimulados a criar receitas e se renovar. 

Com meu olhar experiente em grandes eventos, o ano passado pedi ao Emerson Stark, 24 anos, morador de Sto André, para desenvolver um aplicativo contendo os pratos participantes, a história do festival, informações sobre Cabrália e como chegar. Ele fez um trabalho lindo e este ano resolvi dar um passo ainda maior. Além do aplicativo, era hora de aposentar os jurados tradicionais e a escolha da Melhor Lagosta e Melhor Atendimento ser feita pelo público. Quem come dá a nota através de um QR Code impresso no Guia do Festival, aonde se chega até um hot site e é só escolher entre 0 e 10 para pontuar o sabor. Emerson e seu sócio o índio Wilson Junior, toparam o desafio.  Mas como dois rapazes deste pequeno pedaço do sul da Bahia se especializaram no mundo digital ?

Em 2013 se instalou na cidade um CEIT (Centro de Educação e Inovação Tecnológica) realizado pela QUALCOMM e Fundação Telefônica Vivo, em parceria com a USAID e Prefeitura Municipal. O objetivo era incentivar a inclusão digital, explorando o potencial educacional das tecnologias móveis e das redes de telecomunicações, mobilizando a comunidade. Infelizmente o CEIT encerrou atividades alguns anos depois, mas a semente já estava plantada e dando frutos. Através deste projeto, Emerson, Wilson e outros jovens tiveram a oportunidade de viajar para São Paulo e serem palestrantes no encontro nacional de empreendedores no Campus Party e aí o mundo grande ficou perto, criar passou a não ter limites…

Com toda essa tecnologia e o alto astral dos empresários do setor, seguindo todos os protocolos dos tempos de pandemia, 10 restaurantes embarcam de 9 a 18 de outubro no Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento. É uma honra conduzir esse projeto com o endosso do Senac, Sebrae e Abrasel, e o apoio da Katz Engenharia, parceria da Revista Bacana, pois instituições e empresários tem a consciência da importância da promoçao do turismo gastronômico para o desenvolvimento de um destino. Da minha parte, continuo buscando fazer a diferença na cidade onde escolhi viver. É isto que me move e me faz feliz. Não sei cozinhar, não tenho restaurante, nem sou tão apaixonada pelo crustáceo, mas amo fazer o festival…

Para saber mais acompanhem o @festivaldalagostacabralia, e se estiverem aqui por perto escolham a sua lagosta :

Cabana A Praia Branca (Mutá)

Lagosta ao Coco : Cozida com a água e na nata do coco verde, e ainda cebola, vinho branco seco, raspa de queijo da Serra Canastra, salsa, creme de leite e uma base de arroz. R$ 55,00 – Av. Beira Mar, 2850 – Praia do Mutá Aberto todos os dias de 10 às 16hs – Tel:  (73) 9990-3321

Cabana Macuco (Coroa Vermelha)

Lagosta das Índias : Lagosta assada guarnecida de um papelote feito na folha de bananeira recheada de ingredientes tipicamente indígenas. Ainda uma surpresa: a sobremesa fica por conta da casa. R$ 69,00 – Avenida Beira Mar n. 50, Coroa Vermelha – Todos os dias de 9:00 – 16:30 – Tel:  (73) 99920-1122  e  3677-1000

Hibisco Praia (Mutá)

CaNuVAL :  acrônimo de Cátia, Nuca, Vanessa e Alanda, homenagem às funcionárias do restaurante abraçando a causa do Outubro Rosa : Risoto cozido com vinho branco caldo de peixe e um molho leve de abacaxi, filé de lagosta e, por fim, uma pitada de açafrão para dar uma cor ainda mais viva a esse lindo prato. Acompanha salada de rúcula, tomate cereja e cubos de abacaxi. R$65,00 – Endereço: Av. Beira Mar, n. 12402, bairro Ponta do Mutá, Aberto de segunda a domingo das 10:00hrs as 17:00hrs Telefone (73) 999364442

Luz de Minas Bistrô, Brigaderia Café (Santo André)

Canoa dos Deuses : Um prato aromático de lagosta grelhada na manteiga de garrafa, com manta de nibs de cacau acompanhado de creme de kefir com hortelã e brotos frescos. Prato assinado por Said Dias, com toques da parceira Renata do @brigadeirodasminas R$ 85,00. Av. Beira Rio 62Todos os dias de 13:00 –  21:00 hs –  Tel: (73) 99871-0888 – 31 99958-7965

Maria Nilza (Guaiú)

Lagostelas : Lagosta grelhada no vinho branco com arroz indiano feito com castanhas e melaço de lagosta, laminas de abóbora grelhada.  Acompanha um drink da casa. R$ 65,00 – Praia do Guaiú – Todos os dias 09:30 às 16:00 horas – Tel : (73) 99985-0149

Recanto do Sossego (Coroa Vermelha)

Agnolotto : Agnolotto com recheio de lagosta, ricotta, aspargo com tomate cereja em crosta de bacon. R$ 80,00 – BR-367, 133,  Coroa Vermelha – Todos os dias de 8:30 – 23:30hs Tel: (73) 999-232630 

Restaurante Caju (Campo Bahia Hotel Villas Spa) (Santo André)

Lagosta Mar e Terra : Lagosta grelhada e flambada na cachaça e Risoto de aspargos com bisque de lagosta  Valor: R$ 89,00 +10%R$ – Av. Beira Mar 1885, Vila de Santo André – Todos os dias 12h às 15 – 19h às 22h Tel: (73) 3671-4200

Restaurante Gaivota (Santo André)

Duo de Lagosta : Cauda grelhada com aroma de limão rosa. Arroz cremoso de lagosta com coco. vinagrete de maxixe. Redução de frutas amarelas com vinho do vale de São Francisco. R$ 85,00 – Av. Beira Rio Todos os dias 12 às 21hs Tel: (73) 3671-4144

Restaurante Pitanga (Vila Angatu Eco Resort Spa) (Santo André)

Lagosta Angatu : Angatu significa felicidade e bem-estar, o equilíbrio yin yang vem na lagosta grelhada com tiras de berinjela, abobrinha e cenoura acompanhada de musseline de ervas e purê de banana da terra com lascas de castanhas tostadas. R$ 67,00 + 10% tx serviço Av. Beira Mar 2000, Vila de Santo André- Todos os dias 20 às 23hs Tel: (73) 3282-8200 

Restaurante Trigo (Cais Cabrália)

Massa de Cacau Tagliatelle ao cacau de Bahia, com lagosta e granola de pistache – R$65,00 Rua 23 de julho n 20, Praça da Ancora, Cais  – 5ª. a sábado 18hs – domingo 12 hs Tel: (73) 99109-8435