
Não fui a Cuba, mas me entristecem as notícias do que o país vem vivendo, com escassez de energia, alimentos, medicamentos e combustível. Houve um tempo, porém, em que esteve muito próxima de mim.
Em 1986, eu tinha um escritório de assessoria de imprensa e fui procurada por Marília Guimarães, professora e militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Aos 22 anos, ela participou, em janeiro de 1970, do sequestro de um avião. O objetivo era chegar a Cuba com mais cinco companheiros de luta, onde conseguiriam asilo político. Deu certo. Viveu lá por dez anos, foi anistiada e retornou ao Brasil em 1985, com outros exilados, trazendo um projeto para me apresentar.
Marília e seu companheiro, Eduardo, queriam abrir um restaurante cubano no Rio de Janeiro — uma réplica do La Bodeguita del Medio. Conhecido intimamente como La Bodeguita, é um bar e restaurante, notório ponto turístico em Havana, com paredes repletas de escritos e assinaturas de visitantes, ilustres ou não. Entre os célebres, Ernest Hemingway deixou registrado: “Mi mojito en La Bodeguita, my daiquiri en El Floridita”.Naquele tempo, o Brasil não mantinha relações diplomáticas com Cuba. Era um destino de difícil acesso para o turismo, também por conta do patrulhamento político, mas ainda assim sedutor por sua história, música e gastronomia. E era um pouco de tudo isso que o casal queria trazer.
Alugaram um sobrado antigo na Rua Ipiranga, em Laranjeiras, e, ao mesmo tempo em que realizavam as obras, batalhavam para conseguir vistos para que artistas cubanos viessem ao Brasil para a inauguração. Um diplomata chegou a sugerir que talvez fosse mais fácil abrir um restaurante baiano, diante de tantas dificuldades.
Divulgar a inauguração era simples, dado o ineditismo de um restaurante cubano no país. Mas o projeto ia além — mexia com comportamento. Junto com o charme de Cuba vinham sua cultura, gastronomia e seus drinks, rapidamente incorporados aos hábitos até mesmo de quem era de direita e jamais pensou em conhecer a ilha de Fidel.O impacto na mídia foi tão grande que, na inauguração, em 24 de abril, foi preciso fechar as portas: o público era tanto que havia temor de que o velho casarão não suportasse. A polícia interditou a rua, o embaixador do México teve que voltar no dia seguinte, e a apresentação da Nova Trova — movimento comparável ao tropicalismo brasileiro, que resgatou a música do início do século com menos boleros e mais tradição —, representada por Noel Nicola e Augusto Blanca, levou o público ao delírio.
Apesar de já terem se apresentado em diversos países da América do Sul, os cantores cubanos jamais haviam conseguido vir ao Brasil por conta do regime instaurado em 1964. Mas não foi só a música que encantou. A gastronomia cubana, com bananas verdes e carne de porco, conquistou o público. Ainda assim, quem precisou colocar a mão na massa foi a própria Marília, já que o visto do chef demorou a sair.
Marília e Eduardo transformaram o restaurante em uma espécie de “embaixada de Cuba” no Brasil. A Bodeguita tornou-se ponto de encontro de todos que apoiavam a política de Fidel e Che Guevara, e aquele outono quente no Rio também marcou o início de um interesse maior pela gastronomia internacional.Chefs vinham de Cuba para temporadas de um mês e aproveitavam as tardes para compartilhar os segredos da culinária criolla. O mojito virou bebida obrigatória, e o país vivia um momento de leveza, tentando deixar para trás os anos de chumbo.
Começava-se a falar mais abertamente e, em 14 de junho daquele mesmo ano, quando foram restabelecidas as relações diplomáticas entre Brasil e Cuba, as grandes comemorações aconteceram justamente na casa de Laranjeiras — que cumpriu seu papel ao quebrar o gelo da política com boa comida e espetáculos.
Diante dessa relação, algumas vezes pensei em conhecer Cuba, mas o projeto foi ficando para trás — e agora parece ainda mais distante. Estas memórias estão no livro A Verdade é a Melhor Notícia, que escrevi em 2016, reunindo cases de assessoria de imprensa.
E de quebra segue a receita de Mojito, que aprendi com os cubanos… Este drink existe há mais de 400 anos em Cuba, e está para os cubanos como a caipirinha para os brasileiros. Ingredientes:
- 1/2 copo de água com gás ou soda (mais ou menos 100ml)
- 1 dose de rum branco
- 1 colher de sopa de açúcar
- 1 ramo de hortelã (cerca de 10 a 12 folhas)
- Gelo picado a gosto
- Suco de 1 limão
Modo de preparo
Em seguida, acrescente o rum e o gelo, e beba com moderação…
No copo em que você pretende servir o mojito deverão ser colocados o suco de limão, ½ copo de água com gás, 1 ramo de hortelã e também o gelo picado
Amasse bem a hortelã, pois esse é o segredo de um bom mojito













