Sobre Domingos de Oliveira

Em janeiro de 1992 eu estava fazendo assessoria para Gloria Menezes e Tarcísio Meira que produziam e encenavam a peça “O Duplo”, texto e direção de Domingos de Oliveira no Teatro dos Quatro. Uma noite enquanto a peça acontecia, saí no lobby do teatro para fumar e Domingos me falou sobre um texto que sua filha com mais algumas amigas haviam escrito. Seria uma peça que ele estava dando a maior força, tanto que estava dirigindo, prestes a estrear e precisavam de uma assessoria de imprensa. Mas caíam na questão da falta de orçamento. Era um projeto ousado e me convidou para assistir a uma leitura algumas noites depois em sua casa. Topei mesmo sem saber o que era e na hora marcada lá estava acompanhada do Bernardo, meu filho que recentemente deixara a adolescência. Ofereceram-me um lugar de honra no sofá de veludo vermelho e as quatro meninas com os textos na mão, acompanhadas de um rapaz que tocava violão, encenaram o espetáculo na minha frente. Foi um soco no estômago. Fiquei ouvindo de boca aberta, completamente chocada com a atualidade e a forma direta como falavam de seus problemas, das suas alegrias. Era diferente de tudo o que eu tinha assistido em teatro nos últimos anos, e eu tinha assistido muita coisa!

Fiquei tocada com a peça que chamavam de “Diário de Uma Adolescente” e entrei de cabeça no projeto. Como não havia orçamento, ofereceram-me um pequeno percentual da bilheteria de um teatro com 85 lugares, previsão de 2 encenações por semana e o ingresso ao preço de 5 “dinheiros”. Fiz os cálculos e se tudo desse certo teria o dinheiro “para a feira”. Mas alguma coisa me dizia que ia ser sucesso. Recebi um excelente material fotográfico feito por Guilherme Rozembaun, irmão da atriz Priscila Rozembaun, mulher do Domingos, pois esta produção funcionava como uma ação entre amigos. Sugeri o título “Confissões de Adolescente”, bem mais intimista, e como alguns trechos da peça ainda estavam manuscritos e sem a ordem de apresentação, digitei e imprimi para registro na SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).

Fiz um release encadernado com muitas páginas. O espetáculo assim merecia, não havia outro no gênero. Apesar da total falta de pretensão com um orçamento de 300 dólares o espetáculo tinha uma grande verdade.  “Confissões de Adolescente” surgiu do diário de Maria Mariana, filha de Domingos de Oliveira e foi acrescido de pensamentos e situações vividas por outras três jovens que, junto com Mariana, compunham o cast: Carol Machado, Ingrid Guimarães e Patrícia Perrone. 

O material chegou nas redações dos jornais e surpreendeu aos editores que não sabiam nem em qual retranca enquadrar o espetáculo. Não era teatro adulto nem infantil, criaram assim a retranca Jovem. A estreia da peça foi destaque nos cadernos de fim de semana, capa dos cadernos de cultura não só por seu ineditismo como também por ter estreado num sábado após o carnaval quando nada de novo havia no mercado cultural. O que podia ser uma zebra foi a loteria.

No sábado 7 de março, antes das 5 da tarde os ingressos estavam esgotados. A cena era inusitada: pais deixavam filhos na porta da Casa de Cultura Laura Alvim e marcavam hora para buscá-los no final. A crítica teatral Barbara Heliodora, por não ter confirmado com antecedência, teve que voltar para casa pois não tinha um lugar disponível. No domingo repetiu o mesmo sucesso e no fim de semana seguinte foram programados 2 espetáculos por dia, e no sequente a sexta-feira já estava incorporada à agenda. As críticas foram unânimes em aplaudir a peça que abria caminho para outros tantos no mesmo segmento. Dois meses depois, “Confissões de Adolescentes” saiu do Porão da Casa de Cultura Laura Alvim para o teatro principal do mesmo espaço com uma plateia de 250 pessoas. Em poucos meses estavam no teatro Candido Mendes em Ipanema, e não demorou para chegarem no Teatro Casa Grande com 700 lugares, levantando voo para um sucesso maior. A peça virou livro best seller, áudio-livro pela gravadora Polygram (o primeiro lançado no Brasil), virou mini-série de TV e foi indicada ao Prêmio Emmy da TV Americana. Mais de um milhão de pessoas assistiram a este espetáculo no Brasil. O percentual de bilheteria que eu tinha direito e a princípio daria para a feira semanal, foi importante no meu orçamento o ano inteiro, até que em janeiro de 1993 me desliguei do projeto ao assumir a Assessoria de Eventos da Prefeitura do Rio de Janeiro.  Em 2004, chegando para fazer uma palestra na Universidade de Coimbra, atravessava um teatro a caminho do auditório quando vi umas garotas ensaiando uma peça. Reconheci uma parte do texto e fui conferir. Era Confissões de Adolescentes além mar.  (Texto do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”)
Obrigada Domingos de Oliveira por ter me proporcionado este enorme prazer e ter contribuído para o teatro jovem… Boa caminhada por outros palcos…

Anúncios

Em sintonia com a vida

Inúmeros sites vêm anunciando um evento que, a princípio, começou em novembro de 2018 e hoje chega ao ápice com o equinócio de outono, quando o Sol distribui sua luz de forma igual, a ambos os hemisférios do planeta.  Do ponto em que estou há 15 anos, num pequeno povoado cuja única poluição é de raras queimadas e alguns carros de som, com tempo para ver o nascer da lua e do sol, perceber um vento mais frio com o aviso de chuva, maré subindo e descendo, canto dos pássaros, percebo também pessoas que chegam e partem. Muitos são turistas, outros buscam uma outra vida com mais qualidade. Nem todos conseguem ficar por muito tempo, tanto viajantes que não aguentam a falta de agitação, como os desejosos de um novo destino. Santo André é para fortes, tem algo de místico e mágico, tem algo de mix de tribos que nem sempre convivem em harmonia, tem algo de sedução e repulsa, mas isso só se descobre com o tempo. E quem se encanta volta sempre.

Entre os muitos passantes e chegantes surgem os místicos. A energia pura pulsante, muito mar, rio, matas, poucas torres distribuidoras de poluição eletromagnética, é um convite para a reflexão. Os praticantes de yoga já descobriram o caminho e já ouviram a lenda de que há um Santo André de ouro guardado no fundo dessas terras. O santo teria sido trazido por um padre temeroso que a imagem desaparecesse como tantas outras da sua Igreja. Dizem que este mistério acessa uma memória profunda dos que passam por aqui e querem descobrir a própria essência, o seu ouro interior. Tem algo que não vemos e nem tocamos. Apenas sentimos como o brilho do ouro no fundo da terra. 

No feriado de 12 de outubro Halu Gamashi teve esse sentimento ao atravessar o rio João de Tiba. Médium, paranormal, autora de 10 livros, criadora de técnicas corporais e sutis, atuando há mais de 25 anos como professora, participando de congressos e workshops sobre anatomia do corpo sutil, chakras, campo áurico, filosofia, saúde e comportamento humano em diversas cidades brasileiras e europeias, chorou ao cruzar o rio. Convidada a trazer suas técnicas terapêuticas para um workshop de ashtangha yoga, conta que sobre as águas, enquanto a balsa fazia a travessia de pouco mais de 10 minutos, sentiu como se estivesse chegando em casa, sem jamais ter pisado em Santa Cruz Cabrália, cidade onde o “Brasil” começou.

Baiana de Salvador, andarilha pelo mundo, morou em mais de 400 cidades em seus 58 anos, sempre seguindo as indicações do seu guia espiritual que diz a acompanhar desde os 3 anos de idade. Estava instalada em Lisboa, onde lançou livros e atuava com terapias quando, no início de 2018, recebeu a recomendação de seu mentor para uma nova mudança: a Costa do Descobrimento. Instalou-se em Trancoso onde vivera nos anos 80 mas não sentiu a mesma energia do passado. Ficou aguardando novas indicações até que veio o convite para o workshop em Santo André e, desde então, não mais saiu.  Por ter chegado ao povoado com a cabeça raspada é chamada por alguns de “a monge de Sto André” e conta como sua mediunidade surgiu na primeira infância:

“Penso que não escolhi dedicar a minha vida à vida espiritual. Hoje sei que antes de encarnar assumi este compromisso. Fiz esta descoberta aos vinte e nove anos de idade, porém, desde que nasci as idiossincrasias e as peculiaridades que naturalmente despertaram em mim fizeram com que, aos três anos de idade, alguns dos meus familiares buscassem na espiritualidade um remédio. Os médicos quando me viam adoecer, não conseguiam chegar a um diagnóstico e “doenças atípicas” era o que a minha família começava a ter como resposta. A falta de esperança, o medo de me ver morrer foi a porta que se abriu para que eles procurassem a espiritualidade a fim de restabelecer a minha saúde, e isto virou um hábito: eu adoecia (febre reumática atípica, paralização dos rins, pequenos infartos), os médicos não encontravam diagnóstico e eles me levavam à uma casa espiritual. Faziam isto escondido por temerem serem rejeitados pela sociedade em que viviam. Assim foi até os meus dezoito anos quando descobri que não precisava adoecer e sim conhecer, afinar minhas energias, alinhar-me”.

Em uma trajetória de grandes desafios, tanto físicos como mentais, muitas vezes foi apontada como louca e não conseguia se entender por ser tão diferente das outras pessoas…

“Disseram-me que a espiritualidade tinha um projeto para mim. Confesso que aos dezoito anos, muito ignorante ainda sobre esse mundo invisível, me senti invadida e pensava: ‘Como é isto? A espiritualidade tem um projeto para mim? Eu queria ter o meu próprio projeto’. Porém, apesar destes questionamentos, durante nove anos morei em uma chácara-escola que me iniciou nos conhecimentos e na magia branca dos elementos da natureza, a água, a terra, o fogo, o ar, a madeira, os rios, as cachoeiras”.

Sem querer se prender a qualquer seita, a casa aonde viveu nesse período não era religiosa. Não era candomblé ou umbanda. Era uma casa que estudava a influência das energias da natureza nos humanos voltada ao conhecimento e à medicina mais do que aos mitos e mitificações. Antes de completar 28 anos saiu da casa, era tempo de conhecer o mundo.

“Disseram que eu estava pronta para canalizar mensagens e que a espiritualidade me ensinaria outras coisas e daria novas iniciações.  E descobri, aos vinte e nove anos, o porque de toda a minha vida estar sempre perto das energias da natureza e desse mundo sutil. Se minha família não fosse tão preconceituosa este caminho não teria sido tão difícil: realmente encarnei com o compromisso espiritual e se lutei tanto contra os preconceitos da minha família é porque havia em mim um chamado, muito forte para me aprofundar nesse universo. ”

Halu lamenta que os temas espirituais, principalmente a inteligência espiritual, sejam tratados com descrédito, banalidade, superficialidade e ironia, principalmente por alguns paranormais que valorizam muito mais os fenômenos do que os seus significados. Neste processo de vida, um dia percebeu que seus chacras se abriam em fendas no corpo físico, como na testa, na palma das mãos e no plexo solar, causando um profundo estranhamento. Todas essas manifestações foram registrados em fotografias, acompanhados por médicos que jamais conseguiram chegar a um diagnóstico.  As marcas dos movimentos dos chacras estão presentes e o processo acontece com assiduidade, principalmente quando ela percebe movimentos estranhos no planeta.

“O fenômeno, em mim, sempre o compreendi como uma mutação, o crescimento de um órgão sutil que abriria os meus canais para aprendizados mais importantes. Foi este o valor que dei aos fenômenos: eles precisavam acontecer para gerar mutações no meu corpo material que me viabilizassem o acesso à informação, e hoje tenho certeza que se tivesse escolhido parar nos fenômenos, utilizá-los como forma de convencimento para outros – o que chamam de exposição mórbida – eu não teria cumprido a minha missão de alcançar uma comunicação, que volto a repetir, sinto-me na obrigação, dever e direito de dividir com quantos queiram ler ou ouvir”.

Halu explica em seus livros que o termo chakra (em sânscrito significa roda), são portais de entrada e saída de energias, com muitas funções; podendo ser definido como radares energéticos que sintonizam a relação entre o corpo físico, o períspirito e a alma, sincronizando o produto desta união com o Universo. Então, rodando ou girando, esses pontos captam as energias sutis do universo, distribuindo-as pelo corpo. Como resultado das suas vivências no mundo espiritual desenvolveu setenta técnicas terapêuticas que visam a harmonia e o equilíbrio nos corpos físico, emocional e espiritual através do alinhamento dos chakras.

Autora com mais de 10 livros publicados no Brasil e Portugal, dentre eles: Caminhos de um aprendiz; Plano inverso; Chakras, A História Real de uma Iniciada; Chakras, The True History of a Medium; Clandestina, O Resgate de um Destino; Conde Vlado, um Alquimista em busca da Eternidade; A Hermenêutica de Deus e o Código Original; Meditando com a Consciência Suprema e O Livro dos Sonhos Cabalísticos, Halu Gamashi há 20 anos ministra cursos de terapia em uma escola em Yverdon Les Bain, na Suíça. Desenvolveu também uma linha de produtos – Maberu – que tem auxiliado e melhorado a qualidade de vida dos seus pacientes. 

Uma das coisas que Halu Gamashi mais gosta em Santo André é sentir que está em um povoado onde o respeito às diferenças e a amizade são valores reais e objetos de permanente cultivo. Em 5 meses já apoiou projetos voltados às raízes e à cultura local, como a Festa de Iemanjá dia 2 de fevereiro, o Batismo de Capoeira, a abertura do carnaval bem no tradicional estilo baiano com entrega da chave da cidade a Rainha Moma. Seus pacientes e alunos que vêm de diversas partes do país têm trazido um novo movimento ao povoado. Até um suíço, campeão de snow boarding, está continuando sua formação e aprendendo português. Os seminários que realizava em sua chácara no interior de São Paulo, depois em Portugal e em tantos outros países, começam a ser realizados na Bahia. O próximo será de 17 a 21 de abril, Semana Santa onde compartilhará conhecimentos e aplicará técnicas como a fluidoretapia e leitura de aura. Em seu site publica constantemente artigos canalizados através de suas viagens astrais e, segundo ela, sobre Vila de Santo André há uma colônia espiritual. São cidades espirituais que servem de morada para os espíritos com algum grau de evolução, aguardando a reencarnação.  Quem sabe o Santo André de ouro perdido é sinal deste mistério ?

Foto : Cláudia Schembri

Para quem ama animais…



O ano passado perdi uma amiga. Um câncer fulminante a levou em poucos meses, depois de ter realizado o sonho de passar um Natal com neve em Nova York.  Ela era louca por Natal e por Nova York, realizava um sonho duplo. No Rio ela morava com um cachorrinho muito mimado. Como não tinha nem pais nem irmãos, seus bens foram para uma tia distante, assim como a guarda do animal. Os amigos desolados com a partida brusca, também ficaram preocupados com o fim do bichinho de estimação. Todos sabiam que era de convivência difícil, tinha milhões de manias, não ia à rua, fora diagnosticado com problemas cardíacos e nos ossos, e como sobreviveria com a ausência de quem o cuidava com tanto amor ?

De vez em quando comentava com amigos sobre o destino do animal e era uma incógnita. Até hoje quando soube que a tia, na mesma época que recebeu o cão, estava hospedando um sobrinho que fora ao Rio terminar um doutorado.  O sobrinho e a esposa tomaram-se de amores pelo pequeno que se revelou educadíssimo, sem mimos ou dificuldades. Resumo :   Keith, este é seu nome, foi adotado e hoje mora em Nova York. Exatamente onde sua “mãe” sonhava viver…Milagres acontecem…

 

…e as crianças como vão ?

O tema Alzheimer voltou aos meus pensamentos com a morte da atriz e cantora Edyr de Castro. Ao ler a notícia tive a sensação de que não fazia muito tempo que ela fora diagnosticada e levada por amigos para o Retiro dos Artistas. Ah! como gosto do Retiro dos Artistas… No entanto quase 8 anos se passaram, o tempo corre… É mais ou menos este o período que acompanho o mesmo diagnostico em uma pessoa muito querida. Na verdade, creio que fui eu quem detectou algo estranho quando ela chegou para umas semanas de férias. No caminho do aeroporto à minha casa percebi que repetia os mesmos assuntos, creditei ao fato de estar animada com a viagem e muito para contar depois de um ano sem nos vermos. No entanto com o decorrer das semanas todos em casa foram notando a repetição das histórias e culminou com a Torta Alemã.  Ela sempre fez maravilhosas tortas para festas de família, principalmente a Alemã, e se prontificou a fazer uma para a ceia de réveillon. Comprei os ingredientes e ela avisou que faria a sua obra prima um dia antes para ficar mais saborosa. Faltando 4 dias para a festa ela acordou pronta para fazer a torta. Perguntei se não era para fazer na véspera, ela percebeu que tinha se confundido com as datas, afinal estava de férias e ”todo dia é domingo”. E este diálogo se repetiu nos dias seguintes até finalmente chegar o momento de fazer a sobremesa. Esta cena acendeu em mim uma luz vermelha, e quando voltou para casa enviei um longo email para a família contando os fatos, relatando a preocupação.

Alguns meses depois viria o diagnostico que ninguém queria ouvir, o próprio mal alemão, Alzheimer. Durante alguns anos permaneceu lucida, com alguns momentos de confusão mental. Voltou a me visitar outras vezes, tratei com cuidado, deixei o portão fechado com chave, temia que saísse pelas ruas da vila e não soubesse voltar… E pensar que ela caminhava pela estrada de terra, ia de uma ponta a outra da praia, passeava em Porto Seguro, e isso não fazia tanto tempo.  Foram dias difíceis ver como alguém que foi referência na minha história caminhava sem direção, pensamentos trocados, memórias confusas… Continuei percebendo as mudanças nos telefonemas algumas vezes por semana. Creio que ela não sabia que eu telefonava tantas vezes. Aos poucos a sua mente foi cada vez mais sendo tomada pelo “alemão” e as conversas eram confusas. Quando telefonei no aniversário ela disse que estava passeando em Itaipava. Como assim, se falávamos no telefone fixo?

O desgaste familiar foi ganhando espaço, todos exaustos, tristes, vencidos, enquanto o “alemão” se incorporava no dia a dia. Causava preocupação, temor por ter que ficar sozinha, contratou-se uma acompanhante, mas não era essa a solução. Chegou o momento que não se queria ver nem viver aquele drama. A escolha foi leva-la para uma casa de repouso onde teria tratamento, cuidados e atenção. Ninguém sofreria ao ouvie suas conversas truncadas, pois não tinham convivido com a mulher ousada, brilhante, perfeccionista, divertida, companheira, inteligente, irônica, uma grande companhia. E assim ela foi para uma casa que, por ironia do destino, está localizada em uma rua que homenageia um de seus antepassados. Tudo em família. Ontem pela primeira vez telefonei e depois que me identifiquei ela perguntou: “e as crianças como vão?”.  Não sei com quem pensou estar falando, certamente não era comigo. As crianças vão bem, nas minhas lembranças da infância… As crianças ainda somos nós…

O ano que passou

IMG_20190101_132730462

Foram mais de 300 dias num dilema que parecia sem fim…. Não havia critério de tempo, espaço ou lógica para a tortura surgir…. Às vezes ao acordar, outras no meio da noite, entre as refeições, lendo o jornal, na prece, na melhor cena da novela, no Pilates, quando menos esperava surgia o pensamento aterrorizante. A primeira manifestação foi exatamente há um ano ao assoprar as velas do bolo de aniversário e constatar que no próximo seriam 70. Foi difícil assimilar. E me perguntava: como assim? 70 anos !!!

Sei que Roberto tem 77, Chico 74, Caetano 76, Jagger 75, Fernanda 89, Bibi 96 e por aí vai, mas desconheço o processo pelo qual passaram, se rolou alguma neura ou se correu tranquilo. Cada um é um, e minha alma tem menos de 40 anos. Como tudo em minha vida aconteceu sem qualquer planejamento, fui seguindo e me deparei na porta dos 70. Nas primeiras semanas após a constatação pensei em mudar a alimentação, chegar aos 70 quilos para celebrar 70 anos, mas percebi que ficaria com cara de doente. Depois de uma certa idade emagrecer é temerário, pode cair tudo… Pensei em N projetos para superar o medo, estava quase me atirando de volta à um divã de analista. Optei por insistir na vida alimentar e mental saudável, caminhando na praia, retirando da mesa o pão, bolos, chocolates, mas isso não eliminava a navalha na cabeça, uma tortura silenciosa, vergonhoso até em compartilhar com os amigos.

E no meio deste drama há algumas semanas acordei muito estranha às 5 da manhã. Estava inebriada num profundo sentimento de que a vida é muito boa. Eram tantos passarinhos cantando, tamanha mistura de notas musicais, que até o estridente aracuã me fez feliz. Um sol escandalosamente carregado de brilho e o mar ao longe com jeito de maré alta. Esse cenário acordou em mim o sentimento de que se não tivesse chegado aos 70 não teria vivido esta e tantas outras maravilhas…

Como perder o prazer de ser testemunha da mudança na comunicação, a profissão que escolhi, ver sair do mimeógrafo às impressoras 3D, do orelhão aos smartphones, dos jornais nas bancas à leitura digital no tablet, do telex à internet. Imagine encarnar e perder a transformação da TV preto e branco para cores, às transmissões internacionais via satélite, não testemunhar a revolução que um homem chamado Flavio Cavalcanti fez na TV brasileira. O prazer em ter trabalhado em 4 Rock’n Rios e contribuído para a construção desta marca reconhecida mundialmente… Imagine que tédio ter a chance e não entrar no sonho do Roberto Medina tal qual um Sancho Pança seguindo Don Quixote atrás dos moinhos de vento? Que graça teria não acompanhar o crescimento de tantos profissionais que continuam meus amigos e, assim como eu, o tempo também está contando no velocímetro deles… Por favor, Dody Sirena!! Como passar nesta vida sem ver a sua trajetória despontando do sul do país, enfrentando os mais malucos desafios e  produzir um show em Jerusalém… Jesus ! E eu estava lá… Experiência única.

E todos os amores, paixões, encantamentos, prazeres, borboletas no estomago, taquicardia ao ouvir uma canção, suores, cheiros, sabores e também decepções, perdas, lutos, traições, mentiras, enganos, despedidas, puxadas de tapete, separações, tudo vivido muito intensamente como as cenas mais densas no final de um capítulo da novela aos sábados. Como esquecer !!! E como não lembrar quão felizes foram os namoros, casamentos, encontros furtivos, paqueras, amizades coloridas… Muito mais encontros do que desencontros…

Ah! Nova York e Lisboa que me acolheram como uma de suas filhas. Na América com meias de nylon e sandália no verão, três invernos com neve, ser commuter entre Larchmont e Manhattan, almoçar sanduiche na escada da Saint Patricks, assistir à queima de fogos nos 100 anos da Brooklyn Bridge, a marcha pelo desarmamento nuclear nas ruas de Manhattan, tão organizada como o desfile de uma escola de samba…Tantas histórias e vidas… Portugal meu avozinho, como escreveu David Nasser, a descoberta das raízes, o encontro do idioma, das tradições e a beleza de tanta modernidade. A sardinha frita nas festas de Santo Antônio, as cerejas aos montes vendidas nas barracas na rua, os fados, os rocks e os pops que ainda tocam na minha playlist. Coimbra, Aveiro, Setúbal, Porto, Braga, Cezimbra, Azeitão, Serra da Arrabida, de norte e sul percorri suas estradas, ruas e vielas, deixando meu coração pleno de amor e simpatia. E por fim me tornar baiana de Vila da Santa Andre, Santa Cruz Cabralia, onde o Brasil começou !

Se não tivesse vivido tanto nem teria percebido que nasci em uma família que às vezes me faz pensar que nos reunimos apenas para esta experiência coletiva. Do meu irmão que se foi tenho a certeza que já estivemos juntos em outros momentos. Dos demais são relações em fases constantes de construção… Dos meus pais ficaram os ensinamentos sobre honestidade, respeito, tolerância. Dignidade, amizade, acolhimento. Em casa todos eram bem-vindos. Sempre havia um lugar na mesa e uma cama extra. Não se discutia politica, religião nem futebol, todos respeitavam as escolhas. E pude fazer as minhas, divergir do meu pai nas mudanças politicas; buscar um caminho na espiritualidade e torcer por um time que não era da familia… Foi essa estrutura que me permitiu entrar por tantas portas com pé no chão, sem deslumbramento, pedindo licença, aceitando desafios, encarando tudo com muito prazer e me levou a viver em tantos lugares como se estivesse sempre em casa. Mudavam os cenários, ora sofisticados, algumas vezes mais simples, mas a essência da família permanecia intocável.

O melhor de tudo, um prazer até egóico, a perpetuação da espécie, é a alegria de ver que o filho gerado se tornou um homem integro, profissional da mais alta qualidade, amigo sincero, sensível, amoroso e construiu uma família por quem tenho o maior amor… Gratidão Paulo Martins por esta parceria de vida. Bernardo é sem duvida o melhor de mim.

Se tivesse ficado no meio do caminho, não teria conhecido a paz e a grandeza que cresce internamente quando o externo começa a se deteriorar. Reconheço como grande mistério da vida a capacidade de exercer a quietude, a compaixão, a complacência diante dos que ainda produzem acirradas disputadas do ego. Já vi esse filme e o final nem sempre é feliz. A vida pode ser muito mais leve e simples. Continuo aprendendo, estudando e acreditando na sabedoria que vem com a maturidade. Faço planos sem parar. Me recrio, me reinvento, e ainda tenho muito chão pela frente. Aguardem.

Pequenas alegrias, algumas tristezas

ILUMINAÇÃO DA CRUZ DE SANTA CRUZ CABRÁLIA - BAHIA (FERNANDO PORTELLA/ZECA)

Tico e teco funcionam paralelamente. Com um lado do cérebro faço a contagem das práticas do Pilates, com o outro o pensamento viaja por caminhos que variam do cardápio do almoço a um tempo passado em Lisboa. Às vezes perco a contagem e, quando percebo, o exercício que deveria ser repetido 36 vezes já chegou aos 50. Esta manhã, enquanto contava no vai vem da ‘cama reformer’, concluía que me basta muito pouco para ser feliz.  Me pego diante de fatos que não me dão qualquer lucro ou resultado profissional, mas que me enchem o coração. Por exemplo, estou num momento de encanto com o Museu das Cadeiras Brasileiras que foi inaugurado em Belmonte, a apenas 50kms distante da minha casa. Ainda não visitei, nada tenho a ver com o projeto, mas só em pensar que tem um grão de arte tão próximo me faz feliz; algo significativamente novo para apresentar aos amigos e mostrar como é rico o sul da Bahia. Este museu, criado pelo filho do arquiteto Zanine Caldas, traz a valoração da arte e da cultura para esta região com tão poucas atrações. E no viés desta reflexão me pego olhando para Cabrália, um museu a céu aberto repleto de história, que permanece escondido.  Prédios centenários sendo comidos por cupins, infiltrações, memórias em ruínas. Área indígena com crescimento descontrolado, abandono das tradições. Não é culpa de uma gestão, mas de todas que não entenderam a importância da preservação da cultura e das tradições para alavancar o turismo, um setor crescente e fundamental para a economia.

Há pouco mais de dois anos Fernando Portella, um amigo que dirige o Instituto Cultural Cidade Viva, no Rio de Janeiro, me procurou com a proposta de uma empresa espanhola da área de energia elétrica em criar uma iluminação cênica em um marco histórico do país. Ele se lembrou da cruz da Primeira Missa em Coroa Vermelha que conhecera há muitos anos e achou ser o local adequado. Eu estava Secretária de Comunicação da Prefeitura, levei a proposta ao Prefeito e ao Secretário de Turismo que aprovaram o projeto, mas a realização não foi simples, a começar pela primeira visita técnica quando percebemos que o local não era mais o mesmo das boas lembranças de Fernando. O crescimento comercial desordenado fechou a bela vista para o mar, acabou o cenário que se imagina Cabral ter encontrado ao aportar com suas caravelas. Mesmo assim o projeto seguiu, com grandes desafios estruturais e finalmente foi inaugurada a iluminação cênica. O objetivo era marcar a presença do fato histórico e religioso, estimular o turismo com visitação noturna. Mas, assim como o museu indígena há anos abandonado, a cruz seguiu o caminho e voltou às escuras. Nada se preserva, nada se cuida. Ah! minha Cabrália, quando terão olhos para preservar a memória do país ?

Foto : Claudia Schembri

Sobre consciência negra

310729_2746205534643_1073794321_n

Quando criança na casa dos meus pais jamais se falou sobre negros. A razão era simples: negros eram pessoas como nós e os chamávamos pelo nome… No início dos anos 50 minha família mudou de BH para São Paulo, papai alugou um sobradinho na rua das Acácias (hoje Pássaros e Flores) no Brooklin, um bairro distante sem pavimentação, muito barro no caminho e mamãe chorou quando viu aonde seria o nosso lar. Era uma área rural que começava a ser urbanizada. Ainda tinha algumas chácaras, rios onde tomava banho e o Ginásio Beatíssima Virgem Maria, a escola das freiras, aonde fui estudar. Foi lá que conheci Neide Fernandes, morava em uma casa simples numa rua atrás da minha. Quintal grande muito bem cuidado, flores e hortas, ali vivia com o pai policial militar que vestia um uniforme azul marinho sempre impecável, a mãe, a avó, dois irmãos e eu adorava brincar em sua casa. Neide não era branquelinha como eu. Era morena, o pai negro, a mãe e a avó mais claras, mas jamais percebi essa diferença por que lá em casa negro tinha nome e não cor de pele. A vida nos levou por caminhos diferentes, mas com a chegada das redes sociais nos reencontramos. Permanecemos amigas até há dois anos quando ela partiu depois de um curto tempo doente. Nem soube que estava internada, a noticia veio como uma bomba, também pela mesma rede social que nos reuniu. Neide sempre me surpreendia com pequenos mimos que enviava para a caixa postal. Pacotinhos com biscoitos de polvilho que derretiam na boca feitos por ela, pãezinhos de queijo, panos de prato e uma série de carinhos embalados. Um dia ela mandou o santinho da minha Primeira Comunhão. Chorei em rever a criança com o anjo da guarda ao lado. Teve o cuidado de manter intacta a lembrança por toda a vida. Quer amor e amizade maior ? Por isso, quando tanto se fala em 20 de novembro, sinto que a minha consciência negra é consciência do amor e carinho aos amigos. Homenagem à Neide Fernandes, aonde estiver…

Foto Claudia Schembri em 23 de novembro de 2011 no lançamento do livro Um Show em Jerusalém em São Paulo.

Para Danuza Leão

IMG-20181118-WA0007

Sempre gostei de ler os jornais de domingo. Quando criança eu ganhava o suplemento infantil e assim nasceu o hábito.  Passei anos repetindo a rotina de colocar em uma cadeira na mesa do café da manhã os jornais e as revistas semanais. Tomar café era um ritual que se prolongava por horas, depois se estendia para a poltrona da sala onde as publicações eram colocadas em um banquinho. A esquerda ficavam as a ler, a direita as lidas…So saía de casa depois da última letra devorada. Este formato ficou no passado. No sul da Bahia as publicações chegam em forma digital e repito o ritual na mesa da varanda com o Ipad, e depois a leitura continua em uma rede no jardim, ou a beira da praia. E a praia foi a minha inspiração ao ler a crônica da Danuza Leão na revista Ela de O Globo.

A praia que ela descreve é muito igual à que a conheci no início dos anos 90 e aonde escolhi viver em 2004. Havia energia elétrica nas casas simples, não nas ruas…. As noites estreladas eram escandalosamente belas, e em uma barraca de piaçava à beira mar comia-se peixe frito com farinha e uma cachacinha prá descer mais fácil…. Não havia rúcula nem endivers nem brócolis, a salada era de repolho e tomate quase sempre verde.  A tv ficava do outro lado do rio, na praça da cidade, dentro de uma caixa que era aberta para alguns programas, e a balsa fazia travessia das 6 da manhã às 6 da tarde…. Os terrenos não tinham muros, cercas simples de pau de árvore amarradas por um arame farpado, mas qualquer um podia entrar e pegar fruta nos cajueiros, mangueiras, jaqueiras … Carros eram raros, não havia transporte público…

Esta praia não existe mais. Menos de 30 anos ganhou outros ares… Além dos “chegantes” que como eu escolheram por ser um bom lugar para viver, vieram as casas de veraneio, as pousadas, restaurantes e, mais recentemente, 2 resorts que estão buscando se inserir no segmento de “destinos para casamentos”.  Mudou muito sim. Antes um simples mercadinho hoje são 4, tem até 2 cabelereiros, uma loja de material de construção, 3 ONGs, wifi, tv a cabo, aluguel de bicicletas, loja de roupas, balsa até de madrugada, transporte público, uma estrada asfaltada que passa por fora, às vezes um som batidão numa esquina tirando o sono de quem mora perto…

Também não sou a mesma…. Com as tantas experiências e informações trazidas dos grandes centros por onde passei não me enquadraria no perfil de um amor e uma  cabana… Danuza querida, na nossa idade, um mínimo de conforto faz bem. Na minha quase deserta praia ainda tem muita estrela no céu, alguns quilômetros para andar a beira mar sem encontrar uma viva alma, a lua cheia nasce escandalosamente na hora certa em que o aplicativo do meu smartphone anuncia… Em contraponto sabiás, pardais, maritacas, beija flor, e outras tantas aves lindas e não raras, cantam no meu jardim.  E ainda tenho uma rede, deliciosa para ler você aos domingos… Quando quiser, apareça ! Vai ser um enorme prazer …

jardim botanico

Um pé lá outro cá. 3 noites e 3 dias na grande capital e quanta novidade. Encontro com a família em festa de aniversário, com direito a parabéns, bolo e brigadeiro. Visito o centro com amigas, conheço o prédio histórico Farol Santander, passamos na exposição do Adoniran Barbosa, depois teatro de onde saí embasbacada. Não com o talento notório das atrizes de Eva Wilma e Suely Franco, mas pela memória perfeita. Com 84 e 78 anos respectivamente, um show com o texto correndo inteiro, só as duas em cena, do riso à emoção.

Volto para casa e no caminho para o aeroporto uma parada rápida para visitar uma amiga no hospital. Estou em um tempo que tem sempre algum amigo partindo ou se preparando para seguir viagem.  Por morar distante, na maioria das vezes as notícias chegam pelas redes sociais, sem chance de acompanhar um funeral…. Mesmo sendo um momento de dor, nos velórios se reencontra amigos, sabe-se como estão envelhecendo…

No Uber pelas ruas de São Paulo fui pensando o que me aguardava no apartamento 306. Há alguns anos a amiga com quem compartilhei tantos momentos, que testemunhei casamentos, crescimento dos filhos, separações, sucessos e fracassos, que vi dar a volta por cima tantas vezes, entrou num processo onde viver é o que menos importa. Acabou o tesão. Uma apatia tão grande e foi se deixando para o nada… Como companhia para a solidão o cigarro, algum comprimido tarja preta e as vezes uma taça de vinho. Esse conjunto não dá certo pra ninguém.

Bato delicadamente na porta, entro com cuidado e a encontro na cama com os cabelos presos num rabo de cavalo no alto da cabeça, o que lhe dá um ar jovial. O rosto está magro, são poucas as rugas, não faz o tipo velhinha…. Uma sonda no nariz, outra no braço, as mãos enroladas com ataduras e amarradas na cama. A enfermeira justifica de que ela ficou agitada, arrancou as sondas e precisou tolher os movimentos. Olho para trás e lembro nossas mãos soltas correndo pelo Jardim Botânico atrás da filha de uma amiga que se perdeu. Nossa juventude estava ali com os filhos pequenos, tantos desejos e sonhos… Até as perdas eram provisórias…

Mais de 40 anos de amizade e, mesmo que as vezes a distância fazia um vácuo, bastava um telefonema para resgatar o carinho e continuávamos qualquer assunto do ponto que havíamos deixado, sem importar o tempo. E encontro a amiga falando com dificuldade. Queria ouvir contar sobre este momento, onde foi que tudo degringolou, como chegou a este ponto. O tubo no nariz, a boca machucada com os lábios desidratados, a voz embargada, os efeitos dos medicamentos, deixaram a voz fraca, as vezes titubeante. Falei mais do que ouvi. Derramei um longo discurso com bons pensamentos, palavras de fé e positivismo. Rezei ao seu lado, agradeci ao nosso encontro nesta encarnação. Do pouco que consegui ouvir, com total lucidez, guardei a frase: “sei que quando bato com o pé no fundo do poço, tomo impulso e subo”. E quantas vezes ela fez isso… Despedi com um beijo na testa, saí pedindo a Deus que este fundo do poço chegue rápido, que ela tenha força para bater o pé e voltar breve para a vida…

O cajueiro

IMG_20181009_075718748 (1)

Há 14 anos descobri os cajueiros ao aprender a conviver com os dois plantados no jardim de casa… Troncos com formas sinuosas, ora buscando o sol, ora se enterrando na areia e depois retomando seu caminho que ameaçavam os telhados. Deram poucos frutos, muitas flores, mas gosto de admirar a sua força, a determinação em crescer, mesmo sem receber muita água. Bastava a da chuva e às vezes alguma que do gramado escorria para seus pés…

Porém, com o tempo seus troncos saíram do meu jardim, atravessaram a servidão* e quase se derramaram no caminho, inibindo a entrada de veículos mais altos. Para evitar que derrubassem a frágil cerca de madeira da minha casa como também a cerca de eucalipto de outro vizinho, há algum tempo coloquei uma estaca aparando um pesado galho, tudo paliativo… Sabia que um dia teria que ser podado. Na verdade, o que me seduz são seus galhos, muitos secos, fazendo como um “túnel de acesso” ao meu paraíso… O portal da minha alegria…

Ontem o vizinho de servidão, proprietário da Pousada Victor Hugo, construída nos anos 90 por meu irmão Victor e seu sócio Hugo, veio pedir socorro. Precisa de forma urgente da entrada de um caminhão por uma questão estrutural do seu empreendimento e com os galhos é impossível…

Ouvi o pedido, prometi refletir e fiquei divagando sobre a necessidade relevante do vizinho e a estética poética dos galhos, às vezes misturados com bouganvilles, dando boas-vindas à quem chega. O vizinho é meu bem e meu mal. Se for feliz e próspero, serei também. Doeu profundo o tempo de vazio, o abandono, a pousada sem saber que rumo tomar, muitas vezes fechada por longo tempo. Só sobreviviam os jardins, por total dedicação do Beto, jardineiro da época do meu irmão. Havia amor e cuidado por aquele espaço que vi ser construído, estava na inauguração, acompanhei a expansão, e se tornou ponto de referência no povoado, recebeu elogios nos cadernos de turismo, estrelas referendando os bons serviços, e vi também a partida do meu irmão. Foram anos difíceis de um inventário empacado na morosa justiça no sul da Bahia, a desavença entre o sócio e a minha família e, por fim, a venda há 4 anos. Período de altos e baixos, e a bela Victor Hugo perdendo a identidade…. Até que há seis meses chegou um empresário paulista cheio de sonhos para ser pousadeiro à beira mar… Um respiro para o meu coração…

Nestas divagações, me coloquei no lugar do vizinho…. Conclui a importância da poda …. Clareou a servidão, tenho esperança que vai renascer com vigor, assim como a pousada.

*Servidão – um acesso público para o mar, muitas são tão estreitas que veículos não entram. Esta servidão é mais larga, com acesso a veículos exclusivamente para minha casa e para Pousada Victor Hugo.