1o Capítulo

Na celebraçao dos 70 anos da TV brasileira, o 1o capítulo de Um Instante, Maestro ! Para quem gostar, o livro está disponivel em PDF ou ainda pode ser garimpado em sebos por todo o país…

Urca, Rio de Janeiro. Janeiro de 1971.
Domingo. Um calor insuportável. As duas horas da tarde, uma
longa fila saía da porta da TV Tupi e subia a Avenida São
Sebastião. Era tão grande que se confundia com as filas dos ônibus
que levavam os farofeiros* de volta para o subúrbio depois de um
belo domingo de praia.
A TV Tupi, Canal 6, estava instalada num prédio onde, muitos anos
antes, funcionara o Cassino da Urca. O bairro era estritamente residencial,
com apenas duas vias principais de acesso. Por um capricho da
arquitetura do anos 40 o prédio unia os dois lados da Avenida João Luís
Alves; de um lado funcionava a parte comercial e do outro, os estúdios.
Era engraçado ver os funcionários apressados passando de um lado para
outro, ziguezagueando na frente dos carros e ônibus. Mas isso já fazia
parte da rotina. Afinal, aquela era a maior rede de televisão do país, com
afiladas nas principais capitais.
Foi a Tupi que colocou no ar a primeira emissora do Brasil, em São Paulo, em 1950. O dono era Assis Chateaubriand, que tinha um império de comunicações, com rádios e jornais em vários estados brasileiros. Após a sua morte, em 4 de abril de 1968, todo esse conglomerado passou a ser administrado por um condomínio, como determinara o testamento por ele deixado. Mas o síndico geral, responsável pela direção desse condomínio, senador João Calmon, preocupava-se muito mais com sua carreira política do que com os caminhos da comunicação. Com isso, novas emissoras foram chegando e ganhando lugar no mercado.
No início da década de 70, os programas de auditório eram ao vivo, e a Tupi, apesar de não estar vivendo seus melhores momentos, com problemas financeiros e uma briga interna entre os condôminos, tinha grandes nomes como Bibi Ferreira, Jota Silvestre e Aérton Perlingeiro no comando de bons programas. Aos domingos, no entanto, tudo mudava. A Urca ficava com outra cara. Dentro da emissora, contra-regras, assistentes de produção, técnicos e músicos corriam de um lado para o outro da emissora, numa função que começava bem cedo. Do lado de fora, os fãs formavam longa fila e vibravam com a chegada dos artistas. Fã é fã em qualquer época, e ali se repetiam os chiliques, gritinhos e desmaios como nos áureos tempos do rádio. Paralelamente a essa agitação, acontecia uma outra não tão alegre junto à porta de serviço da emissora. Eram pedintes que se enfileiravam; a fila da miséria. Doentes, mendigos e necessitados vindos de diversos pontos do país esperavam a chegada do “Senhor dos Domingos“, o salvador da pátria que – acreditava poderia aliviar todos os males e solucionar os seus problemas.
Distante duas quadras da TV Tupi, numa pacata rua residencial, a Candido Gaffrée, havia uma casa branca de dois andares, varandinha, jardim na frente, coqueiro e mangueira no quintal. Era uma casa diferente. Ali produzia-se o programa que fazia o Brasil parar aos domingos. Naquele momento, fechado numa sala superrefrigerada, o todo-poderoso preparava-se para mais um programa. Sabia exatamente o que se passava na porta da emissora. Há seis meses era líder absoluto de audiência. Amado por muitos, odiado por outros tantos, era o apresentador mais polêmico da TV brasileira. Explorava assuntos que eram discutidos na semana seguinte pelos mais diversos segmentos da sociedade, como Congresso, repartições públicas, quartéis, bares, salões de cabeleireiro e universidades. Tanto a esquerda quanto a direita ficavam atentas ao que ele dizia, nem que fosse para discordar. Ele tinha consciência desse poder.

Atrás de uma grande mesa, sentado numa poltrona de couro, relia o script do programa. O mesmo script que recebera em sua casa, em Petrópolis, dois dias antes, numa cópia arroxeada, mimeografada* em papel-jornal. Idêntica à enviada à Censura. Era um tempo em que ninguém podia abrir a boca no rádio e na TV, nem publicar uma linha num jornal ou revista sem a aprovação da Censura. Depois de aprovado, o script ganhava outro formato na mão do apresentador. O papel-jornal era substituído por papel-ofício,
datilografado em máquina elétrica sem um erro. As perguntas das entrevistas eram copiadas em fichas brancas, impecavelmente limpas, sem rasuras. Somados a este farto material, capaz de manter milhares de brasileiros com os olhos pregados no vídeo durante quatro horas, outros textos surgiam de uma fina pasta decouro marrom, como se fizessem parte de um programa diferente.
Eram recortes de jornais e revistas, cartas, anotações e algumas folhas de papel datilografadas pelo próprio apresentador com identificações variadas: “Li não sei onde, guardei e dou de graça…”, “Criança diz cada uma…” e “Fora de script”. Este último, sem dúvida, o mais fascinante. Uma surpresa para os telespectadores, um susto para a produção e um soco no estômago do governo.
Conheci esse lado de dentro da televisão no primeiro dia de trabalho. Eu era jornalista e trabalhava como repórter da revista Amiga. Aos domingos era encarregada de ir à Tupi fazer a cobertura do programa. Aos poucos fui conhecendo as pessoas, e um dia acabei sendo convidada para trabalhar com ele. O salário era quatro vezes maior, e não pensei duas vezes. Estava recém-casada, queria fazer análise, e topei a proposta. Um acerto puramente profissional, pois politicamente eu discordava de alguns pontos de vista do apresentador. Mas,já no primeiro dia como sua secretária particular, percebi o quanto valiam o grito, a coragem, num tempo de poucas palavras. Valiam também a audiência, os pontinhos do IBOPE e a
ousadia de cutucar a censura com vara curta. O medo estava “fora de script”. Ele defenderia sua opinião com unhas e dentes, se fosse preciso, até tirarem o programa do ar.
Dramático, teatral, emocionado, ele dominava uma nova linguagem
de comunicação e acreditava que TV era “timing”: saber a hora do show, segurar o telespectador no suspense de uma boa reportagem. Tirava e colocava os óculos nervosamente, chorava diante das câmeras, vibrava com as entrevistas, ria com os fora de série e se divertia muito com o trabalho pelo qual era regiamente pago. Não era de esquerda nem de direita. Era simplesmente Flávio Cavalcanti.

*farofeiros – termo usado para definir pessoas que iam de ônibus fazer pic nic na praia

*mimeografada – cópias feitas através de um equipamento pré xeroc que produz a partir de matriz perfurada ( estêncil ) afixada em torno de pequena bobina de entintamento interno e acionada por tração manual ou mecânica.

70 anos da TV brasileira

Então chegamos aos 70, eu e a TV brasileira… Eu um pouquinho antes, mas posso considerar que estamos no mesmo pique de renovação… Não sou bombril na antena – se é que me entende? – sou completamente streaming, up to date, um conteúdo de multimídia enorme, pronta para entrar no mercado na mais nova profissão de “conselheira” pois “coach” já era, e honrada em fazer parte de sete décadas desta história. Tem um pedacinho que lá estou, não como atenta e observadora, mas colocando a mão na massa na TV Tupi do Rio de Janeiro, no Programa Flavio Cavalcanti, o Senhor das Noites de Domingo como a revista Veja o intitulou… E esta passagem foi tão marcante que transformei no livro, “Um Instante, Maestro”, lançado pela Editora Record em 1992 e hoje disponibilizado em pdf neste blog.

Mas muito antes disso, aos 10 anos, quando a TV engatinhava eu a vi por dentro e me apaixonei. Fui muitas vezes ao Programa Pullman Junior na TV Record em São Paulo, aonde comia bolo, tomava milk  shake, assistia filmes do Roy Rogers e Dale Evans, participava de gincanas de perguntas e respostas e ganhei o prêmio máximo: uma lanterna dos heróis do faroeste. No início da vida profissional a TV também me esperava. Antes dos 20 anos, trabalhando como assistente do jornalista Eli Halfoun, que era gerente de divulgação da TV Continental (não haviam ainda os assessores de imprensa), a curiosidade me levou a fazer hora extra como contrarregra, produtora e o que mais precisasse em um dos primeiros programas de entrevista com estilo informal. Apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa, o programa ia ao ar à noite e a dupla entrevistava as melhores cabeças do Rio de Janeiro. Escritores, compositores, políticos, atores, artistas plásticos, sentavam em volta de uma mesa onde o whisky corria solto e assisti conversas saborosas. Não sei se dava audiência, mas o resultado era muito bom.

“Perguntas e respostas” voltaram à minha vida, num desafio nos anos 90 quando fiz a loucura de, durante 10 semanas, responder no programa “Sem Limite”, na TV Manchete, sobre a vida do Flávio Cavalcanti.  Foi neste tempo que concluí que a memória é um musculo, que quanto mais acessada melhor o resultado. O programa era apresentado por Luiz Armando Queiróz, cada programa 10 perguntas divididas em 3 itens, num total de 300 respostas. E não eram coisas simples, iam dos detalhes da certidão de nascimento da Marzinha, primeira filha do apresentador, até a relação das músicas do LP Canções Medalha de Ouro, joias da MPB orquestradas por Paul Mauriat e Erlon Chaves. E ouvi o ABSOLUTAMENTE CERTO na final debaixo de lágrimas e soluços ao repetir a carta que Flavio escreveu ao neto Jarbinhas, duas páginas de um texto excelente que levei dias decorando.   

Ah! TV na minha vida… ainda em voo solo apresentei dois programas… Sempre morri de vergonha das câmeras, por incrível que possa parecer. Até hoje tento reunir imagem e voz numa só Léa. É isso mesmo : eu acho que quem fala não é a imagem que tenho de mim !!

Um dos programas no início dos anos 80 marcava a estreia da TV Studio, que depois veio se tornar o SBT do Silvio Santos.  Foi a TV pioneira do apresentador e ficava no Rio de Janeiro. Moyses Weltman, que havia sido meu diretor na revista Amiga, estava à frente e, para cumprir uma determinação do Ministério da Comunicação que exigia um mínimo de horas de programas com produção local, criou um jornal no fim da noite e eu tinha de 15 a 30 minutos para falar o que quisesse…. Naquela época eu trabalhava no Segundo Caderno do jornal O Globo e escrevia sobre artes e espetáculos. Uma vez por semana, no final do dia, eu ia para a emissora em São Cristóvão e gravava programas suficientes para exibição de 2ª à sexta-feira. A maquiadora me preparava e eu só trocava a blusa, o brinco, o colar e o assunto…. Não tinha Teleprompter*. Era eu, a câmara, um bloquinho com o roteiro e falava como se ninguém estivesse me ouvindo, atenta ao coordenador da gravação que controlava quantos minutos ainda restavam. Por muito tempo não contei aos amigos que apresentava o jornal, mas como não se engana todos o tempo todo, foram me descobrindo e comecei a ouvir comentários “fui dormir assistindo você”… Eu nem respondia de tanta vergonha… Foi um tempo bom…Parei quando fui morar em Nova York.

Muitos anos depois, numa mesa no Antoninos na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, Carlos Alberto Vizeu, diretor de tv, me convenceu a apresentar um programa de entrevistas para a sua produtora, Tele Tape, que tinha um horário no início da noite, de 2ª à 6ª. feira, na então TV Corcovado. A esta altura eu tinha um escritório de Assessoria de Imprensa e o programa passou a ser a alegria de todos os que tinham artes para divulgar… Com quatro blocos de quase 12 minutos, fiz entrevistas incríveis, como uma das primeiras com a Adriana Calcanhoto chegando no Rio de Janeiro vinda de Porto Alegre. Os cenários eram os mais diversos: de restaurantes a salas de hotéis, escritórios, passando por festas em casas noturnas e conversar com amigos sempre era muito bom… Foi fazendo o “Programa da Noite” que descobri Santa Edwiges. Uma sexta-feira, já com todos os programas da semana seguinte gravados e editados, Vizeu telefonou pedindo desculpas por mudar a agenda, pois no dia seguinte, sábado, era dia de Santa Edwiges. Ele tinha uma promessa de fazer a cobertura da festa da santa e colocar no ar em qualquer programa que sua produtora tivesse e, no caso, era o programa que eu apresentava. Eu não precisaria fazer a cobertura, afinal era outro estilo, uma reportagem. Saí elegantemente da quase convocação me desculpando com uma viagem no fim de semana e, ao desligar o telefone, comentei com a Angela Tostes, minha assistente, sobre o conteúdo insólito de um programa que eu tinha me livrado e fiquei pasma quando ela me revelou: Santa Edwiges é a santa dos endividados. Imediatamente telefonei para o Vizeu e no dia seguinte estava linda e loura entrevistando o pároco, os fiéis e contando a história da santa que acabei devota.

E assim a TV foi passando profissionalmente na minha vida, sem contar as muitas vezes que participei do “Almoço com as Estrelas” do Aérton Perlingeiro, do programa do Chacrinha, das entrevistas no Clodovil e na Hebe, o prazer de ser debatedora do programa Sem Censura a convite da Leda Nagle. No meio disso tudo, dois momentos inesquecíveis na telinha: o dia em que fui entrevistada no Jornal Nacional para falar sobre a abertura da exposição dos 50 anos de música do Roberto Carlos na OCA, em SP, da qual fui diretora, e no Faustão, num quadro em homenagem ao Elymar Santos com o qual fecho um pouco dessas minhas memórias…

Domingão do Faustão 31 de janeiro 2016 https://globoplay.globo.com/v/4777299/

  • Teleprompter é um equipamento acoplado às câmaras de vídeo que exibe o texto a ser lido pelo apresentador

Dignidade

Amiga querida…

Talvez o olhar para como vamos nos transformando com a chegada das marcas e rugas do tempo, seja tão difícil de encarar que sempre publicamos fotos antigas para reafirmar como éramos belas quando jovens… Escrevi a primeira frase no plural, mas se enquadra bem no singular pois com a prerrogativa do #tbt às quintas feiras também procuro alguma foto memorável tendo nas entrelinhas a legenda “olha como eu estava bem…” É um ato de preservação da dignidade e isso é inerente ao ser humano e ainda mais nós, mulheres vaidosas não apenas das nossas belezas, mas orgulhosas da nossa trajetória.

Hoje chorei ao ler a forma como estão expondo a sua fragilidade nas manchetes de blogs e sites. É covardia, neste momento em que você não tem como se defender, tentarem desconstruir a sua imagem mostrando todo um doloroso processo que você está passando….Sei quanto o fã quer saber do seu artista, mas não desta forma…  É por isso que como sua amiga, há quase 50 anos, venho aqui levantar uma pequena bandeira pedindo DIGNIDADE.  Se não lembram quem você foi, independente de dar uma “googada” e levantar sua trajetória musical, seria bom perguntar à alguma mulher com mais de 70 anos o quanto você foi inspiradora e revolucionaria.  Nem falo do seu cabelo que era de dar inveja quando jogava a franja de um lado para o outro cantando “era um menino que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, ou o movimento delicado dos braços que dançavam no ar nas Manhãs de Setembro, ou quando você encarou um terrível patrulhamento ao gravar uma música contra o uso das drogas. Muitos avisaram, inclusive eu, para não se expor e você botou a cara pra bater e durante um bom tempo foi boicotada.

Talvez nem saibam que você enfrentou de cabeça erguida uma gravidez quase solitária, escondendo quem era o pai em respeito à família, pois ele ainda era casado. E suas buscas por um amor em tantos casamentos onde saiu economicamente sempre mais pobre do que entrou. Mas em todas as situações estava você, literalmente linda e loura correndo os palcos do país e do mundo, ganhando prêmio na Coreia cantando em português. Uma mala numa mão, uma frasqueira na outra com todos os seus milhares de produtos de beleza, e lá ia você sem medo de trabalhar e tendo que criar três filhos… E viva Da. Noemia, sua mãe, seu braço direito por tanto tempo…. Lembro num final de casamento você deixou em minha casa Amanda, Aretha e Veruscka para remontar a vida em São Paulo. E montar e desmontar casas sempre foram seu forte, tanto que serviu inspiração para compor Mudanças, da qual me orgulho de ter uma parcela na parceria que só nós mesmas sabemos.  A sua facilidade em compor, escrever sempre foi enorme. Ainda vejo você com um caderninho na mão, que era uma espécie de diário, anotação para composições, mas posso ainda ver a sua letra bem desenhada, ligeiramente inclinada para a direita, traço firme e certo.

Temos muitas histórias amiga! Como um domingo em que as crianças eram bem pequenas e você, para fazer surpresa ao Antônio Marcos, saiu da casa na Cantareira e se instalou em uma casa na cidade… Arrumou tudo em 3 dias e ficamos esperando ele chegar de uma turnê tomando licor Parfait D’Amour que você adorava e dava uma terrível ressaca…  Nem me refiro a Ninguém é Loura Por Acaso, espetáculo que escrevi para você, pois é um capítulo à parte, mas lembro das suas buscas espirituais, de Chico Xavier a quem me apresentou num encontro no Rio, por ter me aplicado Deepak Chopra com o livro As Sete Leis Espirituais do Sucesso, e seus estudos mais recentes do budismo com um incrível depoimento de como foi este encontro com a milenar tradição oriental. 

E é por isso e por muito mais que daria até para escrever um longo capítulo de um livro, que nesta manhã de setembro, me entristeci ao ler o leilão que fazem com sua dor… Por onde andam suas memórias e seus pensamentos não me importa, vale o que eu vi, vivi e na nossa amizade que eternamente guardo do lado esquerdo do peito, como na música do Fernando Brant que você um dia usou um trechinho para me deixar num bilhete…   

Conhecer

Lembro de ainda na adolescência ver nas revistas de fotonovela publicidade do Instituto Universal Brasileiro oferecendo cursos à distância, de corte costura à eletrônica, tudo chegava através do correio, e pensava quem fazia essas aulas e qual o grau de aproveitamento. Quando morei nos Estados Unidos conheci o que era garbage mail, um volume enorme de correspondência que chegava na caixa de correio oferecendo tudo o que a mente humana pudesse produzir, de roupas a cursos. Quando vim morar na Bahia, cheguei a me entusiasmar em fazer uma faculdade de história à distância, mas como a internet era discada – alguém não sabe o que é isso? – desisti … Em tempos de pandemia, os cursos floresceram mais que mato no meu gramado. Além das aulas de como fazer máscaras, pães e receitas da Rita Lobo, tenho me deliciado com cursos na Casa do Saber – fiz um de storytelling (muito legal!), de Kaballah com o Shmuel Lemle e o mais recente de Inteligência Emocional  – Search Inside Yourself – com Bianca e Guido Padovano que tem sido uma viagem, uma experiência pra lá de legal… 

A esta altura da vida, depois de anos no divã do psicanalista, curso de meditação para desligar a tensão do Rock in Rio em 1991, cinesiologia para deixar de fumar, neurolinguística para superar medos, formação em Reiki para entender a vida, constelação familiar para compreender a importância dos antepassados, só me faltava um curso para ativar a performance, liderança e ir em busca da felicidade…  Mindfullness, reconhecida como o grande pulo para o autoconhecimento da atualidade, é apontada como a ferramenta do momento… E tem sido bem revelador perceber que, repetindo, a esta altura da vida, ainda tenho o que aprender…

A bem da verdade, sempre acreditei que o dia que deixar de aprender, nem que seja o nome de uma árvore que está destruindo algumas tubulações do encanamento de casa, ou a ter uma percepção mais fina dos movimentos da maré, a vida terá acabado… Não vou dar spoiler dos caminhos que Bianca e Guido estão me levando a interagir em uma sala com quase 30 pessoas, de idades variadas, e com o auxílio de uma ferramenta incrível do Zoom, em determinados momentos ser levada para salas privativas, encontrar alguém que nunca vi e desenvolver exercícios bem interessantes… E estou revendo coisas que fazem me sentir viva, os meus desafios, as coisas que me irritam e quem eu sou quando estou no meu melhor…. Mas até agora a medalha de ouro vai para o aprofundamento sobre um tema fantástico: autocompaixão…

Jesus, como passei tanto tempo sem me ater a este tema… Que maravilha a nossa mente, seus meandros, gatilhos, sabotagens… Estou de olho em mim, estou com um olhar bem diferente para o outro, conhecendo o meu estado interno, as minhas preferencias, quais são meus recursos e minha intuições, como aponta Daniel Goleman, escritor “pai” da “Inteligência Emocional”, seu primeiro livro em 1995. Outro dia numa live com a Kika Gama Lobo, me defini com uma mulher sem limites. E é isto que me alimenta e me faz acordar numa alegria enorme, nem que seja apenas por perceber que está sol depois de algumas semanas de chuva, aproveitar a maré baixa, andar na praia e registrar a cena da foto acima… Aguardem a minha nova versão…

Para quem quiser conhecer https://siyli.org/

Na tesoura

Em uma das mais remotas lembranças estou sentada aos pés da máquina de costura Singer admirando vovó cozer para a família.  Enquanto agilmente ela movimentava os pés sob o pedal fazendo a máquina funcionar, com uma tesoura de ponta redonda eu recortava sobras de tecido e criava vestidos para as bonecas. Não sei se esta imagem é real ou se criei de tanto ouvir a mamãe contar o quanto eu me encantava com costura e ficava nos pés da vovó, mas o certo é que tesoura virou um fascínio seja para a costura, aparar as plantas ou cortar o cabelo. O sentimento que “cortar é crescer” faz parte da minha história, e isso em muito somou quando vim morar numa casa com quintal e muitas árvores que precisam de poda constante, quase que implorando “uma tesourada, por favor”.

Quando aos 15 anos fiz um curso de costura não tive medo de encarar com firmeza um tecido caro seguindo um molde duvidoso. Do algodão barato à renda, fui com a cara e com a coragem, e se não deu certo reinventei… Mas antes disso, aos 13, 14 anos, eu me arriscava no corte de cabelo da Laura e da Edna. Com idades próximas a minha, eram filhas de índios do Paraná e passaram um longo período morando em nossa casa. Brincávamos de produzir um salão de cabeleireiro embaixo da mangueira. Um espelho era preso no gancho da rede, enfileirados numa mesinha colocávamos todos os pentes da casa, tinha toalha para os ombros e talco para o pescoço. A tesoura era da costura e como elas tinham cabelos muito lisos, o trabalho era fácil. Aparava as pontas e franjas, e jamais reclamaram.

Creio que foi aos 20 anos que comecei a cortar os meus próprios cabelos ao comprar num camelô uma engenhoca que unia dois pentes e, entre eles, se inseria uma gilete. Como na época eu usava cabelo bem curto, estilo “Joãozinho”, ia penteando e cortando. Se algo dava errado, rapidinho o cabelo crescia e cobria as falhas.  A ousadia de cortar com a tesoura foi com mais de 30 anos quando me olhando no espelho percebi que o cabelo estava horrível para o jantar de Thanksgiving na casa de Carol Greenwald em Nova York. Um evento programado há meses e como o orçamento era muito curto, o jeito foi aparar o comprimento.  Os amigos de Westchester gostaram do novo modelo e não revelei quem fez a arte.

Esses foram meus pensamentos ao acordar enquanto passava as mãos no cabelo percebendo que o pior já estava acontecendo: o formato capacete. Como tenho muito cabelo se deixar crescer me transformo em Dona Léa, uma senhora respeitada de cabelos grisalhos. É um sentimento ameaçador, pois Dona Léa, definitivamente, não sou eu.  Para não viver este momento me arrisco a tudo, até a passar a máquina 2 como já fiz algumas vezes.

E nos dias em que acordo assim, ainda lembro que certa vez ouvi um ilustre fotografo dizer que quando estava preocupado cortava o cabelo pois tinha a sensação de que os problemas iam juntos com as madeixas. Adotei esta teoria, por isso nesta manhã chuvosa, no caminho da cama para o banheiro, peguei a tesoura e em frente do espelho encarei o desejo de me reencontrar aos 20 anos com o cabelo um pouco arrepiado, desestruturado, aquela coisa sem compromisso, leve, desprendida, liberta, como creio que a minha alma é. Diante disso, já estou pronta para novos tempos.

Dia do Padre

Igreja do Sagrado Coraçao de Jesus

Hoje é dia do padre, impossível não lembrar do meu pai…. Criado na doutrina espírita, como profissional de vendas e marketing, papai estreitava relações com facilidade. E foi assim que aceitou o convite dos padres do colégio Meninópolis onde mamãe era professora para ajudar na campanha de construção da igreja do Sagrado Coração de Jesus, no Brooklin, bairro onde morávamos em São Paulo.

Sem qualquer intimidade com a igreja e seus rituais, papai fez a sua parte conseguindo doações e auxiliando na realização de uma revista lançada na inauguração. No final do movimento, papai se tornou amigo dos padres e, alguns anos depois, quando mudamos de São Paulo para o Rio, a relação permaneceu com troca de cartas e telefonemas. Certo dia chegou a consulta se poderíamos hospedar o Padre Vicente, o top de linha da diocese, que iria viajar para o Vaticano e, naquele tempo, os voos internacionais saíam da Cidade Maravilhosa.

Papai nem consultou a mamãe, respondeu positivo, o quarto dos rapazes recebeu uma cama de hospede, e nós recebemos uma série de ordens de como deveríamos nos comportar durante as 24 horas da visita. Proibido shorts, vestidos decotados e os rapazes tinham que usar camisa – nada de camiseta regata – apesar do verão 40graus. Apesar de palavrões não serem liberados em casa, cuidados com o palavreado. Se o padre manifestasse a intenção de rezar antes das refeições rezaríamos junto.

No dia marcado fomos eu, papai, mamãe e Marcus, meu irmão caçula, receber o Padre Vicente no aeroporto num final de tarde. Um homem inteligente, culto, no trajeto até a Tijuca mostrou que não era o carola que papai anunciara. Um lanche ajantarado nos esperava, com salada de maionese padrão da casa, cachorro quente, saladas e diante do calor papai perguntou ao padre se queria um suco ou uma cerveja. “Que venha a cerveja”, exclamou o padre… Assim rolou a conversa interessante até a hora de dormir.

No dia seguinte a programação já estava estabelecida. Como fazia com todos os visitantes papai levava para um passeio de carro, no caso uma Kombi, subindo o Alto da Boa Vista, passando pela Floresta da Tijuca, descendo à Barra da Tijuca onde parávamos para comer milho verde e o retorno era pela orla da zona sul, aterro do Flamengo, centro da cidade, uma volta no Maracanã e de novo estávamos na rua da Cascata.  Perfeito para ocupar a manhã pois no fim da tarde embarcaria para Roma.

No dia seguinte quando estávamos sentados para o café da manhã vem a surpresa:   Padre Vicente surge vestindo shorts preto, camisa de mangas curtas e calçando sandálias.  Estava pronto para o passeio e dar um mergulho em Copacabana. Claro que ninguém comentou nem demonstrou choque com a realidade. A verdade é que o dia foi muito divertido e quando o deixamos no aeroporto voltei para casa com a certeza de ter aprendido algo que iria mudar a minha vida: as pessoas não são seus títulos, suas vestes, suas crenças. São múltiplas.          

Sobre um sábado

Duas notícias tristes chegaram nesta madrugada. Mulheres que não conheci, mas ligadas diretamente a homens que quero muito bem, foram para outra dimensão. E a dor é sempre avassaladora, parece que não tem fim. Nenhuma morreu vitimada pelo vírus, mas o impacto, o ritual da despedida, a consciência da finitude é a mesma. Creio que nunca se falou tanto em luto e a sobrevivência tem encontrado menor espaço.  Os falidos, empresas fechadas, desempregos, tem espaço garantido. E como gosto de olhar o copo pela metade acreditando que está mais cheio, fico vibrando com os que estão se reinventando. Na minha set list “Only the strong survive” na voz de Billy Paul está no topo…

Fico buscando boas notícias, mas no meu dia a dia dois exemplos tem me trazido muita alegria: as lives da Teresa Cristina e da Leda Nagle. Cada uma no seu estilo estão bombando com informação e alto astral. Ambas são mulheres que já passaram dos 50, donas de sua arte e o talento ganhou ainda mais espaço quando o mundo se recolheu.  As madrugadas com a Teresa Cristina são divinas. Durmo mais leve, embalada por muita música boa. É o máximo estar na cama e, de repente, ver Caetano Veloso de pijama dividir a tela do Instagram dando uma canja. Momentos únicos como com Marisa Monte, Monica Salmaso, Maria Gadu super tímida, Zéca Pagodinho as 6 da tarde pois dorme cedo, e teria muitos parágrafos para contar tudo o que vi e ouvi nestes dias. E o canal da Teresa está aberto, ninguém paga pra entrar, pode sair quando quiser, mas aproveite pois vale a pena…

Leda é amiga dos tempos da redação de O Globo, de lá foi para a TV Globo onde se firmou como grande entrevistadora. Quando “foi saída” do programa Sem Censura, ao contrário do que muitos pensaram o mundo para Leda não acabou. Ela se reinventou com um canal no youtube fazendo o que sempre fez com maestria: conversar de forma leve, deixando o entrevistado falar. Com a pandemia se adaptou para o esquema das lives no Instagram e está dando show. Seu elenco é estelar, perpassa todos os assuntos, do jurista Ives Gandra ao mestre de cirurgia no cérebro Paulo Niemeyer, a Alcione Marrom, o ex-presidente Fernando Collor, estes são só alguns que assisti esta semana. E o melhor, todos saem agradecidos e deixando o registro de como são seus fãs. Leda não opina, traz as informações; assim como Teresa Cristina, canta em todos os ritmos, aberta às tendências musicais.   

E por isso neste sábado, a minha teoria para tempos difíceis está ainda mais fortalecida de que é preciso se reinventar e só os fortes sobrevivem. Assim como um dos mercadinhos aqui em Vila de Santo André que criou um grupo no whatsaap onde publica fotos dos produtos e aceita pedidos. Ou um casal que está oferecendo produtos que traz da área rural e entrega em casa como ovos caipira, pequenos e deliciosos maracujás, limão galego, pés de banana e verduras para quem quer começar uma horta, enfim, dezenas de ofertas que também chegam no aplicativo; e uma família que o pai italiano faz pão, a mãe vende roupas africanas, uma filha faz brigadeiro, a outra vende vinho e o genro pesca. Vamos nos reinventar e quando a tristeza bater, muda de canal e bota Billy Paul prá tocar, pois só os fortes sobrevivem… Outra hora conto sobre o prazer de ter trabalhado com Billy Paul, mas neste sábado segue o link, vamos cantar e dançar …

Carta para uma amiga

Minha loura querida,

Li sua crônica (link abaixo)… Feliz com seu passeio pela Lagoa… Não podemos nos privar destes pequenos prazeres, visto que em nossa idade os prazeres são bem outros… Uma brisa do mar, uma bela paisagem, um afago dos netos, uma atenção do filho, a vitória de um amigo frente a qualquer desafio, são alegrias que enchem nossos dias e muito mais verdadeiros do que aqueles quando acreditávamos que o grande barato eram as festas magistrais, muito divertidas, mas que passaram, assim como as ressacas e aquele gosto horrível de cinzeiro, pois fumávamos feito chaminé…

E nestes novos tempos, creio que devemos cuidar tanto da nossa saúde física como da mental. É isto que desejo do fundo do meu coração, para mim e para os que amo. E ter também uma casa confortável, uma família unida e amigos queridos… E ter sonhos muitos, sempre, projetos os mais variados para avivar a criatividade, mesmo que seja escrever um livro que está ainda no primeiro parágrafo, refazer a horta, aprender kabbala, ou uma colcha bordada ainda nas primeiras linhas…

Mas quero revelar um segredo, que pode parecer uma loucura:  abstraí da minha vida qualquer assunto que possa me tirar do sério, causar mau humor, dar engulhos, como as questões políticas… Não me dou ao direito de me sentir aviltada, ofendida ou invadida pelas loucuras do planeta, afinal o caos político é geral, e o nosso é apenas um quadrado da colcha de retalhos… Claro que a colcha está em cima da minha cama, mas posso virar de lado e não me alimentar deste pandemônio.  Na real, no frigir dos ovos, o que nos resta são nossos conhecimentos, as experiências do que já vivemos, vimos e aprendemos.  Isto sim vale ouro, um patrimônio que ninguém nos tira…

Loura, aprendi com a maturidade que só me tira o sono doença ou desemprego de alguém que quero bem, e se nada posso fazer rezo e procuro manter a mente sã.  Sem receita de meditação, apenas me manter no eixo, nas boas palavras, bons pensamentos e bons alimentos, como bordei em algum lugar… Querida, mantenha seu astral no alto, as boas risadas, ótimas conversas e isso aumentará também sua imunidade… Um terço na mão, a fé no coração e a pandemia vai passar sim, assim como algum dia a política ganhará outro rumo como vimos em todos estes anos… No que consta do efeito vírus, sou sincera, não creio que o mundo irá mudar como um toque de pirlimpimpim … Muitas pessoas tiveram oportunidade para refletir e quem sabe escolher outro caminho… Porém, políticos corruptos continuarão, maus caráteres sobreviverão, doenças permanecerão nos laboratórios em busca de cura… Ao mesmo tempo que os dias nascerão e morrerão sempre lindos, as flores continuarão alegrando os caminhos, amores existirão e nós vamos rir de tudo isso tomando um whisky duplo pois ninguém é de ferro…

Em tempo :

  1. esta foto é dos nossos 50 anos….
  2. esta foi a crônica Caminhando e cantando na Lagoas

Na redação

Eu e Lucia Ritto – Foto André Costa e Silva

Este tempo de pandemia tem me trazido momentos surpreendentes… Ainda não arrumei as caixas de fotos, nem o armário, mas o passado chega através do whatsapp e do messenger fazendo um rebuliço na memória. No fim de semana um amigo enviou um texto antigo que publiquei domingo, e também o original do musical “Ninguém é Loira Por Acaso”, que escrevi e produzi para a Vanusa em 1999. Sim, eu já escrevi um espetáculo para teatro e não coloquei no meu currículo. Não rejeito a obra, é bem legal, a estrutura bem construída e até então eu tinha zero conhecimento de carpintaria de teatro. Podia ter tido vida longa, mas foi um projeto que acabou se perdendo com a Vanusa morando em São Paulo, eu no Rio já engatando no Rock in Rio que veio a acontecer em 2001 e assim ficou…  

Ainda não consegui reler “Ninguém é loira…”, preciso de fôlego, calma no coração e uma caixa de lenços de papel ao lado, pois vou chorar pelo tempo e amizade com que foi criada e como estamos agora. Mas antes de ter este fôlego, ontem, quando fui desligar o celular para dormir, vi uma foto que chegou no Messenger e me tirou o sono. Era eu aos 20 anos na Bloch, Rua do Russel, em 1969. As fotos foram feitas por André Costa e Silva, um jovem que estagiava na casa e fazia algumas matérias para a Revista Amiga.  Eu comecei em jornalismo como tudo em minha vida, muito por acaso. A convite do Moyses Fuks fui para a Bloch Editores que ia lançar uma revista sobre TV chamada Amiga. Estas fotos são da redação e quem trabalhou lá ou conheceu o prédio da rua do Russel vai se lembrar do cenário. Era um luxo de arquitetura e construção. Mármore, vidro, jacarandá, couro e tapetes por toda a parte, intercalados com obras de arte sem contar o visual para o parque do Flamengo. Tinha um restaurante com uma piscina, mesas redondas para 8 pessoas com toalha e guardanapos de linho branco, talheres de prata e copos bico de jaca.

Um desfile de lembranças nestas fotos. Muitas reflexões desde a alegria da juventude e dos amigos que partiram cedo como Lucia Ritto e Luiz Augusto Chabassus, rever Marco Antonio Gay, Alexandra Bertola, José Luiz Sombra, como a falta de preconceito ou pre julgamento em conviver pacificamente com o neto do ex-presidente da General Costa e Silva. Sim, André era neto do General Costa e Silva, o 2º presidente da época da ditadura militar que, dois anos antes, em sua posse, assinara o AI-5 que suspendia todos os direitos civis. Este mesmo general, naquele ano estava elaborando uma reforma política que incluiria a extinção do AI-5 e, segundo o jornalista Carlos Chagas, pretendia assinar essa emenda no dia 7 de setembro de 1969. Mas uma semana antes sofreu um derrame cerebral.  Como não havia nenhuma previsão constitucional para tal situação de emergência, foi sucedido por uma Junta Governativa Provisória, também conhecida como a Segunda Junta Militar. Morreu poucos meses depois. (Fonte Wikipedia)

Não me lembro, em nenhum momento, de que tanto eu como Lucia, Chabassus, Sombra, Marco Antonio, Alexandra, que nas fotos estamos sorrindo para as lentes do André e fomos às ruas como todos os outros jovens gritar contra a ditadura, termos rejeitado a sua companhia ou feito bullying. Eram tempos duros, difíceis, mas havia respeito.  E foi nestes pensamentos que perdi o sono, fazendo comparações com os tempos de hoje. Será que nestes 50 anos que se passaram, a delicadeza, o respeito, o amor ao próximo se esvaíram e em paralelo nasceu a cultura de que aceitar, doar, respeitar as diferenças é uma obrigação? 

Impossível ver o passado e não ter o coração repleto de orgulho da boa caminhada. Sinto o perfume, me lembro das risadas soltas, dos amores sem qualquer restrição… Não havia o medo da Aids nem de engravidar fora de hora. Senti até o calor do verão nas roupas com ombros de fora… Éramos felizes e sabíamos. Construímos uma bela história e somos setentões bem resolvidos… Esta pandemia tem me levado à viagens maravilhosas, às vezes rouba meu sono, me enche de lágrimas, e me faz ter cada vez mais certeza de que a vida está valendo a pena.

José Luiz Sombra, eu, Luiz Augusto Chabassus, Lucia Ritto e Alexandra Bertola

Do fundo do bau

Fecho mais uma caixa de arquivo morto. Colo uma etiqueta na tampa, outra na lateral com letras grandes, leitura fácil, posso ao longe, sem óculos, ver todas as caixinhas iguais, lado a lado, ocupando duas prateleiras da velha estante de ferro formando um desenho simétrico. Se não fosse a identificação nas etiquetas seria um arquivo morto como outro qualquer. Entretanto, este pode ter vida a qualquer momento. É só abrir e deixar fluir dos seus incontáveis papéis, fotos, recortes de jornais, documentos, histórias vividas e ouvidas ao longo de 50 anos nos bastidores.

Talvez mais do que 50 anos, cresci vendo o show do outro lado do palco. Fecha a cortina, corro no tempo e lá está a menina sentada no banco da cozinha, pernas balançando no ar, cheiro do feijão borbulhando na panela e a cebola fritando com o bife. A trilha sonora vem do rádio de madeira clara, com enormes válvulas, trama de tecido marrom no alto-falante bem em cima do dial, num lamento caipira acompanhado pelo violão. Rosalina enxuga as mãos no avental, passa nos olhos enrugados, limpa uma lágrima e me põe para correr. Atrás da porta continuo ouvindo a cantiga que fala de um amor infeliz, a própria história de Rosalina.

Miúda, ágil, poucas palavras, mãos especiais para a cozinha e costura, chegou em casa quando eu ainda nem andava. Trouxe junto com suas agulhas a filha, resultado de um casamento que acabara quando o companheiro foi ser cantor. Trajano Militão tocava violão e cantava. Abandonou a família para ser artista, queria ser famoso, correr o mundo…. Este mundo, na verdade, cabia todo em alguns bordéis a beira das estradas ou nas rádios do sul do país que Rosalina procurava sintonizar nas ondas médias e curtas.

O pequeno rádio de madeira acompanhava Rosalina por toda a casa. Mas a noite, em seu pequeno quarto, com a luz amarelada caindo do teto pendurada num longo fio com bocal marrom, aconteciam os momentos inesquecíveis. Enquanto passava roupa, gesto que eu imitava com um pequeno ferro a carvão, esperávamos o momento supremo do locutor anunciar: “Trajano Militão, o rei do violão! ” Num código só nosso, parávamos os movimentos, como que estivéssemos brincando de estátua. Silêncio total. Cúmplice respeitosa, eu ficava olhando aquela figura agachada num canto, mãos abraçando as pernas cobertas com uma longa saia, o corpo encolhido, apertado, dolorido como o coração ao ouvir aquele cantar.

A minha cabecinha viajava no sonho de como era fascinante a vida do artista que corria o mundo fazendo sucesso. Em que cidade estaria? Como seria a rádio, um prédio grande? E o microfone? Quem aplaudiria na plateia? E em quantas outras casas estariam ouvindo a mesma canção? E por que ele não tinha um disco de 78 rotações, aqueles com capa de papel pardo, com um furo no meio para se ver o rótulo, igual ao que papai colocava para tocar na vitrola com som hi-fi nos domingos de manhã?

Esta é minha mais remota lembrança sobre bastidores e, inconscientemente, creio ter sido o despertar da curiosidade em viver e ouvir histórias.

Mas este texto não terminava no parágrafo acima. Há quase 20 anos escrevi como introdução para um livro sobre showbusiness que acabou ficando no tempo e reapareceu neste fim de semana diretamente dos arquivos muito bem cuidados do meu amigo Macgyver Zitto… Só mesmo um “macgyver” para descobrir textos perdidos…