Pelas ruas

Quando fiz 18 anos tirei carteira de motorista. Era um documento necessário assim como o RG e o CPF. Mas só fui dirigir quase aos 30 anos, quando comprei o primeiro carro. Dirigir, mais do que um meio de transporte, passou a ser uma boa companhia para pensar na vida. Saía à noite dando voltas pela Lagoa Rodrigo de Freitas, conversando comigo mesmo sobre os caminhos que deveria tomar. Era um tempo de pouca violência urbana, sendo ainda possível fazer essa loucura com segurança. Sem ar condicionado, eu dirigia de janelas abertas fumando e foi num desses noturnos passeios, ouvindo Milton Nascimento no toca fitas, que decidi passar um tempo nos Estados Unidos: “vou me encontrar/ longe do meu lugar/ eu, caçador de mim”.

Em Portugal saía dirigindo o Toyota Yaris adesivado de Rock in Rio-Lisboa rumo à Setubal. Depois de 40 km, tomava a direção da Serra da Arrabida para me deliciar com a paisagem mágica do Parque Natural da Arrabida. Formado por terrenos acidentados na margem norte do estuário do Rio Sardo, o parque tem características incríveis em uma área de preservação de fauna e flora. Eu estacionava o carro, sentava numa murada e ficava olhando aquele cenário incrível que escolhi como meu lugar favorito em Portugal…

Estes e outros pensamentos me vieram à lembrança no fim de semana que andei de carro por São Paulo. Durante o dia, a paisagem urbana que não via há quase 2 anos, me revelou as empenas pintadas dos prédios como museus a céu aberto, a miséria sob os viadutos, os pedintes nos semáforos…. Um mundo feio e triste que a pandemia e a política criaram nestes tempos sombrios. À noite, com um amigo à caminho de um restaurante, circulando pelas ruas de casas e prédios elegantes, as mazelas da cidade foram encobertas pela trilha sonora do spotify. Que prazer ver a noite na grande cidade, o carro rodando alheio a garoa e nada me traz mais lembranças do que canções. Sou eclética. De Inezita Barroso a Glenn Miller, tudo me toca… De todas as décadas que vivi, tenho registros de emoções pontuados por músicas. E isto é tão forte que estou bordando frases musicais em tecidos que irão compor uma segunda colcha de retalhos… Pois a primeira já está pronta e se quiser ouvir, segue o link

  https://open.spotify.com/playlist/7FTPgzLGDzcWjlWxVgwLiP?si=6a7050b10d7a4f14  

Maid, você já assistiu ?

Tenho me permitido dias livres, como jamais pensei… É um grande esforço me entregar ao ócio. Vou aprendendo aos poucos, quando consigo ficar algumas horas na rede sem me convocar para alguma tarefa … Tarefas que ninguém me exige, eu me imponho, que variam de fazer bonecas, bordar e costurar colchas, escanear fotos, até resolver questões complexas da comunidade onde moro e sair feito Dom Quixote contra os moinhos de vento…

No exercício do fazer apenas para mim, sem qualquer obrigação, tenho encontrado ótima companhia nas séries da TV… E foi assim que em dois dias chuvosos me dei ao luxo de maratonar “Maid”, uma nova série do canal Netflix que me valeu como ótimas sessões de terapia. Voltei ao tempo em que morei nos Estados Unidos com um filho pequeno… Não trabalhei como empregada doméstica, mas fui a minha própria “maid” limpando, lavando e passando, uma rotina que aprendi no grito… Não precisei contar com o suporte financeiro do governo, apesar de ter um social security, o cpf local que mantenho até hoje, mas tinha a culpa de estar como mãe solo e imigrante… Assim como Alex, a protagonista, eu também tive uma  “Regina” na vida, uma amiga fundamental que me ajudou a desenrolar trâmites legais e burocráticos, generosa ao ponto de abrir o seu armário e me fazer vestir como uma americana, me integrar na sociedade… 

“Maid” me fez lembrar os 30 minutos que andava na neve até a estação de trem, as moedas contadas para o mercado, a vendas dos anéis para comprar uma árvore de Natal e roupas de inverno…

“Maid” me fez lembrar os sapos que engoli e cuspi todos, um a um, no final da série tomando um copo de vinho… Sem culpa, sem engolir o choro… Deixei derramar livremente, bem mais feliz comigo, que estou aprendendo a colocar limites ao que não me convém e a dizer sim para mim…

Tem dias…

Tem dias que me sinto com 18 anos. A mesma curiosidade, uma certa ingenuidade juvenil com as promessas do mundo, um desejo louco de novas descobertas…Penso que tenho todo o tempo, valem os riscos… Em outros me sinto na maturidade dos 40, mais experiente arriscando na medida de onde a mão alcança, sabendo que ainda tenho muito à frente… Mas tem dias, como hoje, que acordo com 100 anos carregando o mundo nas costas. Um olhar de quem já viu tudo, uma canseira dos fatos que se repetem, completo “déjà vu”… Melhor não me perguntarem se está tudo bem, vá que eu repondo…  

E por estar num dia assim, fui para a varanda cercada de árvores e deitei na rede. Abaixei o som do celular, deixei o silencio entrar e fiquei simplesmente sem nada pensar. Nem no passado nem no futuro. Quieta. O mundo podia parar em definitivo. Apenas a brisa embalando a rede, quase permitindo a alma sair do corpo e voar… Viver o momento, mesmo que pequeno, sem qualquer obrigação … Nem mesmo responder o que quero para o almoço…

Foi neste vai e vem na rede, quase cochilando, que senti o sol ser encoberto por uma nuvem e começou a entrar um vento leve… Logo vieram os primeiros pingos, depois uma chuva sem muita consistência destas que anunciam sol em breve, e foi quando vi um passarinho voar bem perto buscando abrigo em uma árvore… Nunca duvidei que é pra lá que os pássaros se refugiam na chuva, mas nunca tinha visto a cena, talvez por estar mais preocupada em me proteger, ou fechar portas e janelas… Da rede eu via o sanhaço azul quietinho, se equilibrando num galho fino, porém forte o suficiente para aguentar seu peso de menos de 40 gramas. Era uma cena apenas para mim. Ele no seu galho, eu na minha rede, também me equilibrando no peso dos meus 100 anos, e isto bastou para me sentir novamente voltando aos 18, saciando a curiosidade de quem já viu muito, mas que ainda tem o que apreciar, nem que seja apenas a maravilhosa natureza que me rodeia..    

Entre Aroreiras e Aracuans

A casa era assim há 17 anos…

O dia estava clareando e os aracuans faziam um grande alvoroço no jardim. Eles são barulhentos e ainda me espanta como tão grandes se equilibram na aroeira. Ainda na cama fiz as preces que estão no app do celular, tomei banho de água fria para não me resfriar, coloquei a meia e um um lenço no pescoço para me aquecer, e pouco antes das 7 horas saí para o pilates. Encontrei o vigia noturno da pousada vizinha que comentou sobre a chuva a noite. Na sequência passou o pintor de paredes dando carona para o pedreiro sentado no esquadro da bicicleta, e ambos acenaram sorridentes. Iam para a mesma obra e me encantei com a solidariedade.  A professora de pilates chegou atrasada pois perdeu a balsa, fui adiantando os exercícios e na volta encontrei no portão de casa a moça que veio entregar o pão integral que encomendei sábado no whatsaap e paguei com pix. Estas cenas do cotidiano em que o “pouco urbano” e o tecnológico se misturam nas primeiras horas deste dia tão especial, resumem o que tem sido a minha vida desde que aqui cheguei há exatos 17 anos.

No dia 9 de agosto de 2004 também estava nublado. A casa fechada há algum tempo tinha mofo nas paredes, mas estava quase exatamente como meu irmão deixou 3 anos antes. Ainda podia sentir sua presença. E, mesmo com as pequenas intervenções que fiz, ele ainda se faz sentir. Quer na foto na porta de entrada da varanda, quer nos móveis, quer na minha gratidão em forma de preces todos os dias…. Acho que ele sabia muito bem o que estava fazendo quando me apresentou a este lugar…. Tornei-me parte dessa comunidade, fiz muitos amigos e quando vejo que esta pandemia trouxe tantas pessoas em busca de um lugar legal prá morar só peço que conservem esta simplicidade, pois é o que encanta os turistas que são a única fonte de renda deste povoado…

Não me seduz mais o Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa ou Nova York, cidades onde vivi e fui muito feliz. Meu mundo é aqui, no meio de aracuans e aroeiras, aves e árvores que aprendi a amar…   

Aracuan – A ave mede de 40 a 60cm de comprimento e pesa entre 500 e 600 g. Caracteriza-se pelo padrão salpicado do peito, ainda que a cor da plumagem varie de acordo com a subespecie . Juntam-se entre outubro e novembro, e fazem ninhos únicos a aproximadamente 2 metros do solo.

Aroeira – Aroeira-vermelha, aroeira-pimenteira ou poivre-rose são nomes populares da espécie Schinus terebinthifolia, árvore nativa da América do Sul da família das Anacardiaceae. A aroeira também é uma planta medicinal que pode ser utilizada como remédio caseiro para tratar doenças sexualmente transmissíveis e infecções urinárias em mulheres.

Medalha de Ouro


Talvez aos 30 ou até aos 40 anos eu não tivesse o olhar que tenho hoje sobre a minha geração. Tinha muita pressa em viver todo o frescor de resto de juventude e devo ter deixado de perceber muito do que aconteceu no meu entorno. Às vezes alguém lembra alguma história em que andei metida e, espantada, comento com meus botões: e não é que eu fiz isso ?? A vida passou rápido…
Mas aos 70, com mais tempo para reflexões apesar da vida ser tão corrida mesmo fora dos grandes centros, talvez pelo fato da maturidade encher mais o coração de carinho e encantamento com o que me cerca, tenho me sentido muito orgulhosa dos feitos de algumas amigas com quem compartilhei momentos profissionais incríveis e se tornaram parceiras “ad eternum”. Às vezes é uma que vem com um livro, outra com uma boa prosa, mas esta semana Anna e Leda brilharam…   Na verdade, elas vêm brilhando há algum tempo. Se reinventaram quando saíram das redações e da frente das câmeras convencionais, criando seus próprios espaços. Anna fez um portal, Leda um canal no youtube. Não ficaram reclamando da falta de oportunidade, fizeram as suas. Muitas vezes me espelhei nelas talvez por termos tantas similaridades: somos jornalistas, capricornianas, mães de apenas 1 filho, boas de garfo e copo, otimistas, bem-humoradas, sem medo de ser feliz e apaixonadas pela vida.  Se juntássemos nossas histórias daria um livro e tanto, quem sabe uma peça de teatro ou até uma mini série.
Mas voltando aos feitos da semana, as duas muito competentes em suas entrevistas no Instagram, receberam aplausos e elogios dos seus convidados, figuras públicas da maior respeitabilidade: Leda com Ney Matogrosso e Anna com Ciro Gomes. Que qualidade de conversa !!  Nas duas noites em que assisti aos encontros, fui dormir com a alma lavada, um enorme orgulho da minha geração e principalmente dessas duas queridas… Nestes tempos em que tudo se julga, ataca, incrimina e cancela, são muitos os entrevistadores que conduzem as conversas com claros interesses políticos e corporativos. A função de informar permitindo que quem está do outro lado forme a sua opinião, já não tem qualquer relevância. O destempero é coletivo e quem ousar sair da panelinha, também passa a ser atacado e cancelado…  Imagina então quem se reinventou depois da aposentadoria e vem provando que está firme encarando todos os tempos e quantos desafios mais encontrar pela frente…
Às vezes tento abstrair e imagino o que as pessoas pensam ao me ver criando e tentando implementar projetos num tempo em que se acredita que na minha idade o caminho é para uma aposentadoria suave, com caminhadas na praia, pilates, leitura na rede, série nas TV, um crochê aqui, uma boneca de pano ali… Percebo isso em várias reuniões que participo, tanto no Conselho de Turismo de Santa Cruz Cabrália,  onde estou vice-presidente, como pedindo apoio para um projeto de gastronomia ao gerente regional do Sebrae, ou reunida com um grupo de profissionais jovens da MAPS, uma empresa de projetos sustentáveis que está se estabelecendo na minha vizinhança. Em todas as situações começam formalmente me tratando com “senhora” e com o desenrolar da conversa consigo mostrar que, na verdade, a única diferença que temos é que já vivi mais tempo, vi mais coisas, tenho um currículo mais gordinho…
E sei que isso também deve estar no desafio que a Anna e Leda passam a cada dia frente a uma nova entrevista… Mas como capricornianas teimosas, não desistimos… Continuemos sorridentes e otimistas como este registro que a Claudia Schembri fez há mais de uma dezena de anos quando vocês vieram me visitar na Bahia… Vocês são medalha de ouro na maratona da vida e, já que o assunto é jornalismo, como diria o inesquecível Ibrahim Sued, os cães ladram a caravana passa, sorry periferia e ademã que vamos em frente…    

De tudo fica um pouco

Perdi uma amiga há algumas semanas…  Perdi alguns amigos nestes últimos anos… Tenho perdido irmãos, parentes, mestres, mas não perdi as nossas histórias. As memórias estão mais vivas do que nunca…  No tempo em que uns vão outros chegam…  Ganhei dois amigos numa carona de carro da Bahia para Minas Gerais…  Não fiquei na estrada fazendo sinal, mas o destino deu um jeito e nos aproximou… Foi uma viagem inesquecível, quase dois dias de conversas tendo os cenários das estradas da Bahia, Espirito Santo e depois Minas Gerais… Há quanto tempo eu não viajava por estrada, só em sonhos…

Ontem resgatei uma amiga que não via há muitos anos…. Acordei pensando nela sem qualquer razão especifica…. Do nada o seu nome veio em meio a uma conversa, e aí puxei um rosário de boas lembranças…. Ela não está nas redes sociais, mas foi através de umas dessas redes, que unem e separam, que dei uma grande volta e a encontrei. Às vezes acho que tenho alma de detetive, mas é o hábito da repórter. Cheguei em boa hora no encontro, ela anda tristonha pois recentemente perdeu o filho caçula. Já havia perdido uma filha…E são nessas conversas, mesmo que curtas, que percebo o quanto podemos não só fazer pelos outros, como também por nós mesmos. É passando a vida em revista que damos mais valor à nossa caminhada, vemos muito mais conquistas do que derrotas e, como na poesia de Drummond, “de tudo fica um pouco”…

Nestes tempos longe do mar, saudades da casa e da família, reconhecendo as Minas Gerais aonde nasci e tão pouco vivi, estou cercada pelas montanhas da Serra do Rola Moça, em dias de sol e noites frias, acolhida na casa de amigas de sempre, no meio de muitas risadas, contando e ouvindo histórias, cozinhando, lavando, mexendo no jardim, fazendo crochê, rezando, vou me renovando e aprendendo que muito mais tem para chegar, ninguém parte, apenas muda de lugar…

Para Claudia, Du, Tarcísio e Tininha….

Na balsa

Ter que atravessar um rio por balsa para ir ao banco, à farmácia, ao correio, ao açougue, a um mercado com mais variedades, faz parte da minha vida… Durante a travessia com pouco mais de 15 minutos, somada à espera na fila, o que dá quase meia hora, é possível fazer uma porção de coisas, desde encontrar vizinhos e saber das novidades da região, colocar a correspondência em dia e até usar o bankline. Ontem, voltando do mercado, enquanto esperava a balsa, assisti no Instagram a live de uma amiga e agradeci por este presente…  A pandemia que transformou tantas vidas, também marcou a desta amiga que conheci como super executiva de marketing e turismo, praticante de yoga, que se descobriu com uma doença complicada. Passou por tratamento pesado e, na recuperação, quando pode tomar banho de mar, escolheu ficar em minha casa… E voltou diversas vezes…

Se encantou tanto por este povoado que escolheu aqui se casar num lugar lindo, na Ponta de Santo André, à beira do rio. Mas o planeta entrou em crise e ficou transferida a cerimonia para alguma data quando voltarmos à uma outra realidade. Tati Isler, CEO da Ti Transforma e da Ti Comunicações, aproveitou que o mundo parou e, através de lives, começou a compartilhar a razão da sua grande transformação pessoal com a prática da meditação. A executiva ganhou um sorriso tranquilo, um discurso suave e simples se mostrando como Monja Ishaya, professora da meditação Ishaya, uma palavra em sânscrito que significa “para uma consciência superior”, aberta para quem busca paz interior, felicidade, libertação do estresse e uma experiência viva de amor, presença e unidade.

E foi assim, esperando a balsa, que assisti a mais uma live da Tati, uma série que tem como interlocutora a jornalista e escritora Milly Lacombe @mlacombe, cujo tema foi  “agradecer”… Muito mais do que exercer o sentimento de gratidão, agradecer literalmente a tudo o que acontece na vida, o que é bom e o que nem tanto é… Me lembrei que nos anos 80, morando em Nova York, fiquei encantada com os pins (broches) que muitas pessoas colocavam na roupa às sextas feiras com a sigla TGIF  “Thank God It’s Friday” (“Graças a Deus é Sexta-Feira”), celebrando o último dia de trabalho/escola, um exercício quase que coletivo de dar graças. Foi na América também que entendi a força do Thanksgiving, o dia de Ação de Graças, celebrado na última quinta-feira de novembro, o maior feriado para os americanos, em honra ao resultado próspero da primeira colheita dos imigrantes ingleses na nova terra.  E fico pensando como na cultura brasileira exercitamos tão pouco o ato de agradecer. Em 1972, quando Roberto Carlos compôs e gravou “A Montanha” – Por isso eu digo: Obrigado Senhor por mais um dia, Obrigado senhor que eu posso ver, Que seria de mim sem a fé que eu tenho em Você. – , a canção estourou nas paradas como se houvesse inconscientemente um desejo de gratidão.  A música foi vertida para diversos idiomas, teve centenas de regravações e deve ainda continuar sendo executada nos lugares mais improváveis do planeta…  Enquanto por aqui temos que continuar aprendendo o que é bem simples…. Basta olhar no entorno e fazer mentalmente uma lista de nomes, pessoas, locais, coisas que você quer agradecer e sair vibrando positivamente…. Assim foi como entendi assistindo a live da Tati enquanto atravessava na balsa… Comecei a praticar hoje e pode saber que você está na minha lista…

Para quem quiser conhecer mais : https://www.thebrightpath.com/pt-br/

Como nascem os desafios…

Indicados por uma amiga, o casal mineiro chegou para passar 2 semanas na Casinha Amarela. Ela em home office, ele de férias. Precavidos com o vírus, vieram de carro. A Casinha Amarela é um dos três módulos que compõem o espaço de bem receber que tenho no mesmo terreno da minha casa. Originalmente era um chalé transformado numa casinha para hospedar um poeta, também mineiro, que por aqui ficou quase 2 anos. Nestes tempos de pandemia, passou a ser um lugar bem disputado, adequado para duas pessoas, tem o conforto de um quarto conjugado à uma sala, um bom banheiro, uma pequena cozinha e varanda. Acesso independente, quando desejado pode contar com serviço de camareira e café da manhã, direito a usufruir do jardim, piscina, chamego dos cães e algumas vezes da conversa com “a anfitriã” que, quando está inspirada, é boa para contar histórias…

Rapidamente Rita e Alexandre criaram uma rotina. Tomavam o café antes das 8 para que ela tivesse tempo de estar à postos nas extensas reuniões online, e ele, em férias, ia caminhar na praia de onde voltava com uma sacola repleta de restos plásticos trazidos pelo mar. A mesa da piscina se transformou em base de trabalho que Rita ia mudando de lugar conforme o sol, percorrendo todo o deck ao longo do dia. Três vezes por semana o dia começava mais cedo. Eles faziam no jardim exercício com pesos e outros instrumentos.  Até parecia que estavam numa academia. No meio da segunda semana, já anunciando a partida, consultaram sobre a possibilidade de estender a hospedagem. Ele voltaria a trabalhar online e poderia ser da Bahia, só faltando o notebook. Como os astros conspiram a favor, uma amiga estava vindo de carro de BH e poderia trazer o equipamento de trabalho…. Bom, de 2 semanas ficaram 5, e aí uma amizade foi se construindo… Fizemos churrasco, fomos ao mercado, ele fez um pão que é uma deliciosa receita da família, tomamos cerveja na piscina jogando conversa fora e no café da manhã havia sempre alguma história. Na despedida ofereci o melhor da gastronomia de casa: um peixe feito pela Lelê.  Sábado eles partiram, sem abraços, com um adeus à distância, máscaras no rosto e ficou esta carta…

Que me perdoem os monólogos virtuais, como whapps e e-mails sem vida e afins, que até agilizam, fazem links mas não nos envolvem. Gosto dos sotaques, entonações, suspense, surpresas, vivências gravadas em histórias. Gosto da chance de tirar a limpo, voltar ao assunto, revirar como num livro, uma página que passou e deixou saudade, reviver o texto, sentir de novo uma palavra que foi perdida…

Toda conversa, toda história compartilhada, tem vida, tem personagens principais mas tem coadjuvantes, pequenos detalhes que só se expões em uma narrativa, onde existe sinceridade e instiga curiosidade e atenção.

Léa, foram assim nossas conversas e seus livros, como especiais foram suas histórias… deleite e ensinamentos!

Foi assim “Leia me Penteado”, uma vivencia inspiradora, cultura, passagens de vida, aprendizados… efervescência de ideias e exemplos… apresentando fatos e pessoas reais, de caminhadas também surpreendentes.

Espero não ter fim essa nossa conversa…

Carinho e admiração,

Alexandre Moreira

Verão maravilhoso, março 21

E esta carta era o empurrão que faltava: começo hoje a escrever minhas histórias… Vem aí um novo livro… Obrigada Rita e Alexandre… Espero vocês em breve, enquanto isso, escrevo …

Ainda tem jeito…

Há uns 10 dias, estava voltando do mercado, quase meio dia, em plena travessia da balsa no rio João de Tiba, quando chegou a mensagem no whatsapp : “Vem correndo para o posto. Tem vacina sobrando.” Meus olhos se encheram de lágrimas. Meu carro fora o último a entrar, seria o último a sair.  Queria que a balsa voasse, queria ser tele transportada para o PSF na entrada de Santo André, mas tive que engolir o choro e esperar a minha vez.  Quando cheguei no posto tinham 2 doses sobrando. Já tinham chamado toda a lista dos moradores com mais de 73 anos, eu podia entrar na xepa. Mas junto comigo chegaram um sueco e uma alemã, moradores do povoado, mais velhos. Joguei a toalha. Voltei para casa certa de que em breve seria a minha vez….

Acompanhando os avisos da Secretaria de Saúde, uma luz acendeu na 6ª. feira com o convite para vacinação no fim de semana para pessoas acima de 73 anos… Faltava pouco pra mim. Até mandei uma mensagem para Renata, secretária de saúde de Cabrália, dizendo sobre a vontade de resgatar a carteirinha de estudante da juventude onde alterei a data do ano de nascimento para assistir a filmes impróprios para menores de 18 anos… Ter nascido um ano antes faria a diferença… 

Mas antes da Renata responder kkkkkk , ao anoitecer chegou a notícia de que a vacinação no sábado tinha sido alterada para maiores de 70 anos…. Novas vacinas estavam chegando…. Perfeito! Entrada do outono, ano novo astrológico, saí mandando mensagens para os amigos da região com a boa nova… Às 4 da manhã eu estava acordada. Às 7h30 buscando as amigas rumo ao povoado de Santo Antônio, onde ocorreria a vacinação…. Não era drive thru como vejo nas grandes cidades, seria no PSF local…. Para quem não conhece, Santo Antônio é um dos três bairros separados do centro da cidade de Santa Cruz Cabrália por um rio. Os três bairros – Santo André, Santo Antônio e Guaiú – ficam às margens da BA 001, parte de uma longa estrada que corta a Bahia, mas que em 50 kms une Cabrália a Belmonte. Por ser o bairro mais populoso do outro lado do rio, concentraram as vacinações.

Um posto de saúde simples, uma salinha de espera, outras salas fechadas e do lado de fora uma sala para vacinação. Antes das 8 horas haviam 5 pessoas aguardando. A equipe da secretaria de saúde chegou pontualmente, deve ter atravessado na balsa das 7h30, duas enfermeiras e mais uma profissional da secretaria de saúde e foram recebidas com aplausos… Tudo simples, asséptico e prático… Apenas o número do CPF e a carteira de vacinação. As técnicas de enfermagem Brena e Daniani se revezavam nas picadas. Um algodão para estancar um pinguinho de sangue, o selo da vacina na carteira de vacinação e saí com sentimento de estar meio salva.   

Passei o dia refletindo…. Fui invadida por um pensamento de que o país tem jeito. Viva o SUS… Se a vacina chegou em Santo Antônio, povoado com pouco mais de 2 mil habitantes em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, temos salvação. Estou acompanhando amigos mais velhos, moradores em grandes centros, que ainda não foram vacinados. Uma amiga em Milão, uma outra em Andorra, uma na cidade de Passatempo interior de Minas, outras no Rio de Janeiro…. Que privilégio a Bahia estar à frente…

Ser vacinada foi como subir num pódio. Todos deveriam ter este direito…. Cheguei lá pois fiquei quieta em casa, segui as normas de higiene, usei máscaras, mantive distância…. Não foi sorte… Muitos dos que perderam esta chance, já quase 300 mil, podem não ter queimado na largada, nem desistido no caminho, apenas foram atropelados por um descaso do próximo… O inimigo não é apenas o vírus, mas a forma como nos relacionamos com a proximidade dele. Tenho o privilégio de estar passando pela pandemia num local afastado, em meio à natureza. Não sei como resistiria se tivesse que estar num apartamento num grande centro vendo a vida pela janela… Quando assisto reportagens com pessoas aglomeradas em festas em clubes, boates, ou mesmo em vagões de trem, só me vem a imagem de um corpo em frente ao precipício ou com um revólver apontado para a cabeça numa roleta russa… Em alguns anos certamente virão muitas análises e estudos sobre o desamor e a desesperança nestes tempos de pandemia… Um desacerto em relação ao futuro… Ainda há muita estrada pela frente, aguardo 15 de Abril para a 2ª. dose e acredito que o grande desafio é as pessoas aprenderem que cuidar de si com consciência e responsabilidade é também cuidar do outro…                       

Outono

Acordei pensando no outono que se aproxima.  Ganhei um presente ao viver junto da natureza onde tudo se vê, se sente e se percebe, e mesmo às pessoas menos reflexivas não tem como fugir da constatação da mudança do tempo. Entra pela fresta da janela um sol em horário diferente, um vento no fim da tarde, um verão terminando de forma tórrida em todos os pontos de vista…. De todas as estações o outono é a que me traz mais lembranças.  Foi num outono que decidi ficar morando na América, me tornei um número a mais no Social Secutiry, aprendi a colher as folhas de Oak que cobriam o jardim; a lavar, passar, cozinhar ser mãe integral, começar uma outra vida com pouco mais de 30 anos.  Eu era ninguém na Big Apple e me reinventei. Até aprendi uma profissão.

Foi quase chegando num outono, muitos anos depois, que percebi o caos que se anunciava no mundo. Há exatamente um ano deixei a Juliana num taxi rumo ao aeroporto fugindo do vírus. Ela estava de férias e diante das notícias voltou para casa antes do aeroporto fechar. E este ano nas telas da tv, do celular, do tablet e do notebook fui me dando conta de um mundo assustador… E também constatando literalmente que somos um… Não há rico nem pobre, nem títulos nem diplomas, nada garante estar livre do mal. Somos todos seres sensíveis ao vírus. Apenas o bom senso, os cuidados consigo e com o outro podem salvar. Um aprendizado que nos milhares de anos deste planeta, apesar de todas as transformações, o homem não tinha sentido de forma tão impactante.

E no meio desse triste cenário acompanho à distância uma amiga que há alguns anos convive com uma doença sem cura. Vai se adaptando com um mínimo de esperança, todos os tratamentos possíveis, mas às vezes se cansa. Hoje uma dor, amanhã uma melhora. Brindamos nos dias felizes, apenas escuto suas mensagens nos dias tristes. Ela é uma jornalista das boas, texto da melhor qualidade. Participou do movimento da luta armada nos anos 60, lindo currículo e diferente de mim não tem fé. Respeito e rezo por ela. Nos momentos mais complicados rezo dobrado, para que vença a doença e o vírus não a abrace.       

Aguardando o outono tudo isso me vem à mente… Se não tivesse alguns quilômetros de praia para andar, se não percebesse que alguns passarinhos têm sumido, mas em compensação outros estão voltando, se não fossem as luas cheias iluminando meu jardim todo mês e o sol nascendo todas as manhãs mesmo com todo esse pavor comendo solto no mundo, se não fosse o mar de nuvens que dança no céu azul, eu não teria resistido com um mínimo de bom humor e muita esperança…  Às vezes perco a inspiração, deito na rede da varanda, viajo nas boas memórias, penso em escrever um livro e desisto, assisto uma série na TV, tiro a sesta depois do almoço, me dou ao direito de ficar simplesmente observando o movimento da natureza. Sem pressa nem hora. Sem agenda, sem obrigações… Viver o que me apresenta e esperar mais do que as folhas das árvores mudarem de cor, a chegada da vacina…