A chuva no Rock in Rio…

Li sábado na coluna do Ancelmo Gois, no jornal O Globo, uma nota sobre a explosão de comentários nas redes sociais atribuindo as chuvas da primeira semana do Rock in Rio ao fato de a organização do evento não ter contratado a Fundação Cacique Cobra Coral. Segundo a Escola de Comunicação da FGV, o assunto gerou 80 mil interações no Instagram e mais de 10 mil menções no X.

A história que uniu o Rock in Rio à Fundação Cacique Cobra Coral teve origem em outra nota do Ancelmo Gois, em setembro de 2000 no Informe JB, do Jornal do Brasil. A nota trazia a previsão da Fundação Cacique Cobra Coral de muita chuva para janeiro de 2001, no período próximo ao festival.

Eu era da equipe de comunicação do Rock in Rio, não conhecia a Fundação. Localizei o endereço, enviei um e-mail e recebi uma resposta em dezembro de que a Fundação, uma entidade científico-esotérica especializada em fenômenos climáticos, evitava as chuvas ou transferia para outras regiões por meio da força do vento e do trabalho espiritual do Cacique Cobra Coral.

Estávamos em dezembro, chovia muito no Rio e num projeto como o Rock in Rio representava uma ameaça. Como eu conhecia Roberto Medina há muito tempo, sabia que tinha espaço para falar sobre um assunto tão insólito. Entrei em sua sala e descarreguei as informações. Ele pode não ter acreditado, mas respeitou a minha preocupação e disse que pensaria no assunto.

O século XX terminou com chuva. Na segunda-feira, 8 de janeiro de 2001, todos os serviços de meteorologia anunciavam chuva para aquela semana, inclusive para o dia 12, sexta-feira, na abertura do festival. E no dia 8 que choveu muito. A tempestade se tornou um teste para o sistema de escoamento de água da Cidade do Rock. Os engenheiros consideraram providencial para tomarem precauções.

Foi então que Roberto me chamou e deu carta branca para contratar a Fundação Cacique Cobra Coral. Pediu apenas sigilo, tanto na mídia quanto entre a própria equipe. A proposta da Fundação era fazer com que a força do vento levasse a chuva para regiões atingidas pela seca. Se ela chegou a algum lugar onde era necessária, não sei. Mas, a partir daí, só quem tem fé pode acreditar no que aconteceu. Não choveu na Cidade do Rock, mas em vários pontos do Rio.

Não divulgamos o assunto. Poderia virar piada e em nada acrescentaria ao sucesso do festival. Alguns meses depois, a história acabou transpirando. Desde então, a Fundação passou a ser procurada não apenas por produtores de eventos, mas também por empresas e órgãos públicos. Presidida pela médium Adelaide Scritori, filha de seu fundador, a instituição afirma monitorar fenômenos climáticos no Brasil e no exterior e atuar em situações que envolvem eventos, obras, transportes e outras atividades sujeitas às condições do tempo.

Quanto a chuva deste ano, com bom humor e elegância, Roberta Medina, vice-presidente da Rock World, declarou “Abraça a chuva!”. Ela sempre soube que não seriam algumas gotas de água que tirariam o brilho do festival…
Foto UOL

As flores do meu vizinho

As flores do meu vizinho

A pousada ao lado está fechada, silenciosa, abandonada ao tempo. Já não há vozes, portas que se abrem, gente chegando ou saindo. O lugar que um dia teve vida parece ter esquecido como era ser pousada.

Mas há uma coisa que insiste em me dizer que, de alguma maneira, ela ainda está viva.

São as flores.

Uma planta do antigo jardim se debruça sobre o muro e, de tempos em tempos, deixa cair no meu jardim uma chuva delicada de pequenas flores rosadas. Elas chegam sem pedir licença, espalham-se pelo chão e, por alguns instantes, devolvem vida à casa que já não a tem.

Lembro-me de quando aquele vizinho estava ali. De quando a casa tinha movimento, de quando éramos separados apenas por uma cerca.

Hoje, ele não está mais. E talvez seja por isso que essas flores tenham adquirido para mim um significado tão especial. Elas são a única coisa que ainda atravessa aquele muro. A única mensagem que chega daquela casa sem que ninguém a envie.

Caem no meu jardim como quem diz: eu ainda estou aqui.

E eu gosto de pensar que estão mesmo.

Enquanto essas flores continuarem caindo no meu jardim, alguma coisa daquele tempo continuará viva. E, de algum jeito, meu irmão também.

O anel

Vão-se os anéis, ficam os dedos…

Esse dito popular hoje me soa de outra forma. Não perdi os anéis; foram os dedos que afinaram. Com receio de que ele caísse em um movimento mais brusco, achei melhor guardá-lo.

Se não estiver enganada, esse anel morava no meu dedo mínimo desde 1986 ou 1987. Fez ali a sua casa, encaixou-se de tal maneira que nada mais conseguia fazê-lo sair… Até que o tempo afinou os dedos.

Foi testemunha de grandes momentos da minha vida. Está presente em muitas fotografias e guarda, silenciosamente, tantas lembranças.

Hoje, aposentou-se na gaveta.

Fotos Claudia Schembri e Rogerio Erlich

Eu vivi uma vida de homem

“Eu vivo uma vida de homem”. A frase de Antonia Pellegrino, presidente da EBC, em um post no Instagram, me fez descobrir que, sem perceber, eu também vivi uma vida de homem.

Entende-se por “vida de homem” aquilo que, há 50 anos, eu considerava absolutamente normal para qualquer mulher da minha geração que quisesse ser independente e precisasse criar os filhos sem um parceiro.

A maioria das minhas amigas viveu seus melhores anos, entre os 20 e os 30, exatamente assim: equilibrando pratos como um equilibrista de circo, tentando não deixar nenhum cair. Havia, é verdade, uma rede de apoio: a babá, a empregada doméstica, a mãe, a madrinha da criança, a melhor amiga e, na hora do aperto, até o porteiro e os vizinhos.

O curioso é que não me lembro de reclamações nas nossas conversas. E olha que elas eram longas, tanto no banheiro da redação quanto nas mesas de bar, ao fim do expediente. Talvez porque não enxergássemos aquilo como uma injustiça, mas como o caminho natural para conquistar a autonomia que desejávamos.

Também não tínhamos consciência de que estávamos abrindo uma estrada para que outras gerações chegassem ao ponto de identificar essa realidade e dizer, com todas as letras, que vivem uma vida de homem. Dar nome a essa experiência é, de certa forma, reconhecer o percurso de quem veio antes.

Fico feliz em saber que a EBC é hoje conduzida por uma mulher. Para quem não associa a sigla à instituição, a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) é a empresa pública federal responsável pela comunicação pública do país, administrando portais de notícias, emissoras de rádio e canais de televisão.

E pensar que trabalhei e participei de programas em algumas dessas emissoras, como a TV Educativa — hoje TV Brasil — e a Rádio Nacional!

Só por isso, já valeu o esforço de ter vivido uma vida de homem.

Foto Paulo Martins, 1971, Paraty

Além da casca

Aprendi, nas últimas duas décadas, mais do que em todas as outras. A sala de aula é o próprio entorno onde vivo; os ensinamentos vêm da força da natureza, da alma dos homens e da vida dos animais.

No último ano houve uma rebelião nas árvores do quintal. Começou com uma embaúba que recomendaram podar por abrigar uma enorme casa de cupins no topo. Quando chegaram para fazer o serviço, constatou-se que os cupins já haviam partido. Em seu lugar, as abelhas assumiram o posto e, aproveitando o tronco oco, construíram uma enorme colmeia.  

Em dezembro, o silêncio de uma tarde foi interrompido pela queda de uma árvore. Chamou atenção o tamanho, enganou a todos. Sem qualquer sinal aparente de deterioração, mantinha uma aparência vigorosa; no entanto, apesar do porte imponente, estava oca e suas raízes eram superficiais.

E sempre os cupins na causa. Fui entender e descobri que os cupins se desenvolvem com facilidade em períodos de chuva e excesso de umidade, e este ano tem sido especialmente propício para isso. Preparando-me para o anúncio dos efeitos do El Niño no segundo semestre, nos últimos dias foi preciso podar seis árvores e retirar outras cinco que estavam comprometidas.

Tudo isso me levou a refletir. Na natureza, os cupins muitas vezes são vistos apenas como destruidores. Mas, quando observamos melhor, percebemos que frequentemente estão trabalhando justamente onde a madeira já estava enfraquecida, morta ou em processo de decomposição. Eles não criaram o problema; apenas revelaram algo que já existia.

Com as pessoas, às vezes acontece algo parecido.

Há quem pareça forte, alegre e bem resolvido por fora, mas carregue fragilidades invisíveis. E há quem seja julgado por alguma marca, alguma falha ou algum momento difícil, quando, na verdade, possui uma força e uma beleza interior que não aparecem à primeira vista.

As aparências enganam, como na música de Tunai e Sérgio Natureza. Fazem parecer sólido aquilo que está frágil. Fazem parecer frágil aquilo que é extremamente forte.

No fim, árvores e pessoas compartilham algo em comum: para conhecer seu verdadeiro estado, é preciso olhar além da casca.

É para quem sonha…

Eu acredito nos que sonham. E não me arrependo de nenhum dos sonhos em que embarquei, mesmo quando não eram meus.

Foi assim com Roberto Medina, em 1985, no primeiro Rock in Rio; com Dody Sirena, nos tantos projetos “Emoções”, inovando o showbusiness e o turismo; com Elymar Santos, o cantor do subúrbio que alugou o Canecão — a maior casa de espetáculos do Rio de Janeiro — para mostrar sua voz; e com as meninas Ingrid Guimarães, Maria Mariana, Carol Machado e Patricia Perrone, quando me apresentaram “Confissões de Adolescente”. Enfim, casos não faltam no meu portfólio.

Outro dia bateu à minha porta Wallace Marques, com um notebook embaixo do braço e um sonho: o aplicativo turístico de Santa Cruz Cabrália.

@cabraliatanamao é tudo o que a cidade precisa para ser ainda melhor — e mais facilmente — conhecida e apreciada por seus visitantes. Tem tudo ali: história, cultura, restaurantes, quiosques, barracas de praia, hotéis, pousadas, pontos turísticos, praias, passeios…

Esse é o sonho – no ponto de virar realidade – de um turismólogo nativo, recém-formado, que sempre olhou para sua cidade com orgulho do passado e a certeza de que o turismo é o seu grande negócio.

E disso eu não tenho a menor dúvida. Assino embaixo.

O projeto já está na rua em busca de apoio…. Mais informações
https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/cabralia-ta-na-mao-o-guia-turistico-que-cabralia-merece-e-ainda-nao-tem-310

Ipanema Adeus e a memória de Porto Seguro

No final do meu casamento com Paulo Martins havia um filme: Ipanema Adeus.

Era o sonho do arquiteto, fotógrafo, músico e cineasta — premiado por seus curtas e documentários — realizar um longa-metragem. Foi justamente no período de nossa separação que o roteiro foi criado. Quando “Ipanema Adeus” foi lançado, em 1975, compreendi o quanto o casamento o asfixiava e como seu grande desejo era fugir para um outro mundo.

Isso fica claro em seu alter ego, Carlos, personagem interpretado por Hugo Carvana: um executivo carioca bem-sucedido que, em meio a uma crise existencial, abandona a família no Rio de Janeiro e parte para a região de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, na Bahia, tentando recomeçar a vida como pescador ao lado da amante Gilda, vivida por Monique Lafond.

Se havia uma amante na vida real, nunca soube. O filme, que também contou no elenco com Bibi Vogel e Cláudio Cavalcanti, marcou a carreira de Paulo e representou a realização de um grande sonho. Por ironia do destino, quem acabou vindo morar nessa região fui eu. Nas vezes em que Paulo me visitou, comentávamos sobre essa coincidência.

Nos últimos anos, algumas pessoas da região me procuraram em busca de informações sobre Paulo. Entre elas, a organizadora do Festival de Cinema de Trancoso, interessada em exibir o filme, e um professor de Porto Seguro dedicado à preservação da memória da cidade.

Recentemente, surgiu uma nova demanda: um doutorando em Estado e Sociedade da Universidade Federal do Sul da Bahia que, por acaso, ao pesquisar filmes antigos no YouTube, encontrou imagens raras de Porto Seguro. O filme mostra o casario, o cotidiano e personagens locais de uma época em que a cidade ainda preservava outra escala e outro ritmo de vida.

Ao comparar aquelas imagens com a cidade de hoje, impressionou-se com a dimensão das transformações urbanas.

Inspirado pelo conteúdo, Leandro Santana Souza desenvolveu o artigo “Cinema e urbanização: o filme Ipanema, Adeus como documento do crescimento de Porto Seguro (1970–2026)” e me enviou para leitura.

Seu estudo analisa as transformações territoriais de Porto Seguro entre 1970 e 2026, utilizando o filme como fonte documental visual. A pesquisa adota uma abordagem interdisciplinar, reunindo Sociologia Urbana, Sociologia Visual e Demografia. Os dados revelam um crescimento populacional expressivo: de 30 mil para 180 mil habitantes no período.

Mais do que o registro do fim de um casamento, o filme preserva a memória de uma relação apaixonada, divertida e leve, que me deu Bernardo, um filho tão genial quanto o pai. E quem conheceu Paulinho pode afirmar: nem em seus sonhos mais ousados ele imaginaria que seu “Ipanema Adeus” se tornaria base para um estudo de doutorado.

Salve, Paulinho!

Santo André, Paris e Tel Aviv

Ontem tomei chá com uma amiga que acaba de completar 80 anos. Mora em São Paulo, mas tem uma casa de veraneio próxima da minha e, quando vem passar uns dias perto do mar, sempre temos boas história para lembrar. Há alguns anos ela me contou que aos 18 anos saiu de São Paulo para estudar em Paris, uma experiência fantástica. Um tempo em que a capital francesa vivia uma mistura fascinante entre tradição e modernidade: ainda elegante e clássica, mas pulsando juventude, arte e liberdade que anunciavam as mudanças culturais da década de 1960.

Não estive por lá nessa época, mas quando conheci alguns anos depois, as ruas ainda tinham cafés cheios de fumaça e conversas intermináveis, livrarias fervilhando, lá assisti “Laranja Mecânica”, passei por clubes de jazz atravessando a madrugada. Caminhar por Saint-Germain-des-Prés ou pelo Quartier Latin era sentir que tudo podia acontecer. Mas era uma cidade com menos turistas, menos pressa, menos luzes artificiais. As margens do Rio Sena eram românticas e a Torre Eiffel ainda simbolizava glamour sem parecer cenário lotado.

Mas neste encontro, lembrou que nesta época teria um mês de férias e, com dinheiro curto, como boa descendente de judeus resolveu passar 15 dias num kibutz em Israel. Conseguiu uma viagem de navio dividindo a cabine com 6 mulheres – as malas ficavam no corredor – e enviou um telegrama aos pais informando os planos. Cuidadosos com a filha correndo o mundo, acionaram um tio que morava em Tel Aviv e, quando o navio atracou, lá estava esperando a sobrinha. “Kibutz não, vem ficar na minha casa”.  Foram dias maravilhosos, o tio a levou para conhecer o país, os 15 dias se transformaram em 30. So conversavam em francês, pois ela pouco sabia do hebraico, e isso dificultou um pouco a relação com a tia que nada entendia. Todos os dias, após o almoço, a tia perguntava se ela queria GLIDÁ , e por não entender o que era recusava. Só quando já estava voltando para Paris descobriu que GLIDÁ era sorvete, e lamentou os muitos que deixou de saborear.

GLIDÁ ficou na memória e recentemente, quando a sua editora – esqueci de contar que a minha amiga há muitos anos criou uma editora, hoje Grupo Aleph, que continua fazendo sucesso conduzida por seu filho –  lançou um selo de livros infantis, um dos seus antigos sonhos, ao pensarem no nome veio a sua mente o sorvete que não provou em Israel. E quer algo melhor para seduzir uma criança do que um sorvete ?  

Memórias de Santo André e as fotos foram selecionadas na web entre as mais significativas desta época em Paris e não tinha crédito do fotografo ! .

Feliz aniversário, enquanto há tempo

A minha mãe tinha uma agenda que abria todos os dias para ver quem eram os aniversariantes. Era sempre a primeira a telefonar desejando parabéns. Não apenas para os familiares, mas também para os amigos dos filhos, amigos dos amigos, todos que, de alguma forma, tivessem passado por seu caminho.

Quando alguém morria, ela não apagava o nome. Apenas acrescentava uma cruz ao lado e, ao longo do dia, lembrava daquele amigo que partiu.

Seguindo a mamãe, também tive uma agenda… até a chegada do Facebook, que ampliou o número de amigos e passou a avisar sobre os aniversariantes do dia.

Nos últimos tempos, porém, tenho tido um cuidado diferente quando vejo o nome de alguém que não aparece mais nas redes sociais. Será que ainda está por aqui? Procuro na página, observo as postagens… Recentemente, diante do silêncio de uma amiga, entrei em contato com o filho que mora do outro lado do mundo. Ela estava bem, apenas cansada das redes sociais. E me telefonou, feliz, com a preocupação e ficamos horas conversando.

As redes sociais aumentaram o número de “amigos”, ou melhor, de seguidores. A maioria conheço apenas digitalmente. Não tenho uma história em comum, não conheço a voz, nem sei o que a levou a me seguir. Agradeço o interesse, mas sigo apenas quem, em algum momento, cruzou a minha vida.

E, com isso, fomos perdendo o hábito de cultivar amizades à distância através de uma carta ou de um telefonema.

Hoje, vi o aniversário de um amigo. Como não o encontrava há algum tempo, fui procurar notícias… e encontrei o convite para a missa de sétimo dia, no ano passado, com a mesma foto do perfil. Aquele sorriso sempre aberto. Era um homem à frente de grandes eventos corporativos, sempre de bem com a vida… Não sei a causa da partida. E já não importa, ficou uma reflexão.

Creio que está na hora de retomar a agenda de aniversários e fazer como fazia Dona Yayá: telefonar aos amigos de tempos em tempos. Mesmo sem motivo. Só para dizer alô.

PROVA DE EXISTÊNCIA

Eu achava que o currículo era suficiente.

Ali estavam anos de trabalho resumidos em poucas linhas: datas, cargos, conquistas. Tudo organizado, objetivo. Mas então pediram um portfólio e percebi que não tinha um.

Ou melhor, tinha feitos alguns para clientes, corporativos demais. Mas como fazer um falando de mim. Como contar a minha história como pessoa física.

E foi aí que veio a pergunta: como se conta uma vida?

Precisei de tempo. Tempo para pensar no formato, mas principalmente para reunir provas de que tudo aquilo que vivi era real.

Nas mudanças entre Rio de Janeiro, São Paulo, Nova York e Santa Cruz Cabrália, muita coisa ficou pelo caminho. Credenciais, diplomas, recortes de jornais e revistas… pequenos registros que hoje entendo como pedaços de mim.

Algumas fotos sobreviveram. Outras ficaram presas em CDs e DVDs que o notebook já não lê. Como se partes da minha história estivessem trancadas em um tempo que não conversa mais com o presente.

Comecei então uma espécie de arqueologia pessoal.

HD externo, acervo do jornal O Globo, postagens antigas no Facebook… fui juntando tudo. Nome por nome, imagem por imagem.
E, de repente, aquilo deixava de ser só informação.

Ganhava vida.

Porque a memória não é só lembrança, ela é sensorial. Um registro é capaz de me levar de volta ao lugar exato, ao momento preciso. Com cheiro, com sabor, com tudo.
Tem memória que tem perfume.

E foi assim que comecei a montar a minha história. Não mais como uma lista, mas como uma narrativa.

Confesso: estou mexida.

Talvez porque revisitar o passado não seja apenas lembrar — é reviver. Ou talvez porque eu tenha entendido algo simples:
eu não estava criando um portfólio.

Criei a linha do tempo para escrever um livro.