O primeiro namorado

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Na casa dos meus pais havia regras e, entre elas, as meninas só podiam usar salto alto e namorar depois dos 15 anos. A minha irmã mais velha estava casada quando atingi a idade permitida…Não sei como foram para ela essas proibições. Apesar de ter ficado de olho em alguns garotos e usado sapatos com micro saltos, segui as ordens e só quando debutei com festa em casa, desci as escadas para dançar a valsa me equilibrando num salto enorme e fiquei atenta aos possíveis namorados.  Não queria um rapaz que morasse na mesma rua ou fosse do clube, nem tão pouco amigo dos meus irmãos. Tinha que ser alguém especial, novo no pedaço, praticamente um príncipe encantado. E aquele que viria ser o primeiro namorado apareceu alguns meses depois na saída da missa da Igreja Nossa Senhora da Conceição, na Tijuca. As missas no fim da tarde de domingo eram concorridas.  As famílias sentavam nas primeiras filas, na sequencia vinham as moças com os namorados, depois as desimpedidas e os rapazes ficavam em pé quase na porta. Na saída havia uma confraternização e rolavam as paqueras no sobe e desce da larga escada de pedra.

Foi nesta situação que vi e me interessei por um rapaz vestindo camisa com listras finas, calça lewis e sapato mocassim do Mottinha. Só quem foi jovem tijucano nos anos 60 pode avaliar o que era chic e blasée vestir calça lewis e mocassim do Motinha.  Ele estava com a turma de uma rua distante uns 5 quarteirões da minha casa, mas eu nunca o tinha visto. Não era de uma beleza estonteante, mas tinha charme, um jeito intelectual por conta dos óculos, falava manso e um sorriso sincero. Ficamos só no olhar. A semana passou eu esperando pela missa, preparando o figurino, imaginando como seria conversar com ele…. No outro domingo nos vimos de novo e na saída um dos amigos nos apresentou. Fomos andando juntos conversando nada de concreto, aquele papo meio sem graça, e na esquina de casa ele pediu o número do meu telefone. Ao longo da semana o telefone em casa foi só meu, tendo que enfrentar enormes brigas com os irmãos que também namoravam. Passei horas pendurada até saber tudo sobre a vida dele, contar a minha e concluirmos que devíamos tentar o namoro. Na sexta-feira às 8 da noite lá estava ele no portão da minha casa e, paralelo aos borbotões de paixão, coração pulando e cara de tola, fui aprendendo que havia um mundo maior do que a minha família, os amigos do colégio, do clube e da rua. Havia a família e os amigos do namorado. Uma outra cultura que às vezes era tão diferente daquela que eu aprendera em casa. Nem melhor nem pior, apenas uma outra forma. E viver estas outras experiencias era fascinante.

Alexandre – Luiz Alexandre Gonçalves e Silva – tinha 18 anos, estudara no Colégio Militar e fazia cursinho para a faculdade de arquitetura. A família era de Natal, RN. O pai era general reformado, a mãe muito delicada, fofa e elegante, e ainda tinha uma irmã que era quase noiva de um estudante de engenharia. Apesar do pai militar e estarmos em tempos de ditadura, com Alexandre assisti três vezes ao show Opinião, tendo o privilégio de ver as interpretações de Nara Leão, Suzana de Moraes e Maria Bethânia. Vivemos as aventuras de assistir aos primórdios das corridas de carro que aconteciam nas ruas da distante Barra da Tijuca. Íamos ao cinema, comíamos hot dog e tomávamos milk-shake no Bob’s, namorávamos na varanda da sua casa e no portão da minha.  Sempre tínhamos muito assunto… Almoços, jantares, pequenas viagens em família. Mais anos 60 impossível.

No meu primeiro Dia dos Namorados ganhei uma linda e delicada bolsa de veludo vermelho, uma espécie de carteira, muito moderna naqueles tempos, que veio embrulhada com papel brilhante e o selo da Sloper! Eramos bem felizes mas um dia o namoro acabou. Acho que ele disse que precisava se concentrar para o vestibular… Parece que chorei, mas o fato é que ficamos amigos pra sempre e nos encontramos em vários momentos. Sempre sabíamos um do outro. Alexandre foi morar no Leblon, se tornou um respeitado arquiteto e não casou. Eu já estava separada do primeiro casamento quando jantamos pela última vez… Tomamos uma garrafa de vinho e rimos muito. Lembramos a turma da Tijuca, contamos as nossas experiências da maturidade, das delicias de morar na zona sul e não precisar ir à praia de carro… A Tijuca era apenas uma doce lembrança, e era muito bom reviver estas historias com ele.  Alguns meses depois recebi um telefonema avisando sobre a morte do Alexandre. Não acreditei. Tudo muito rápido, um vírus estranho e fatal. Fui ao Cemitério São João Batista abraçar a família e me despedir do amigo. Muito jovem, tudo muito triste… Com ele iam as doces memórias de descobertas sobre romance, confiança, amizade, companheirismo, carinho, respeito e amor. Hoje ao ver tantas notícias sobre o dia dos namorados me peguei pensando na gratidão que tenho por ele ter sido o primeiro, pois se tornou referência para todos os que vieram. Tinham que ter charme, um jeito intelectual, falar manso e um sorriso sincero, como Alexandre.

A pasta verde

 

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Com dois meses de antecedência a agenda foi marcada para 5 de junho às 15hs. Cheguei meia hora antes. Missa se espera na igreja. Na sala, com ar condicionado congelando, procurei um local menos frio e me acomodei com a pasta verde na mão.  Os pensamentos acompanharam os minutos passando no relógio digital, pulando de mantras à orações e lembranças. Na hora certa ouvi meu nome e sobrenome como na chamada de presença escolar. Sentei à frente do guichê 3, abri a pasta verde e depositei com cuidado as preciosidades: duas carteiras de trabalho e comprovantes. A minha vida profissional estava ali para análise da aposentadoria. Silenciosamente, durante 1h30, a profissional em frente ao computador foi conferindo os dados. O olhar corria das informações na carteira à tela do monitor. Ia e voltava nas páginas, conferindo cada detalhe. Gostaria de saber o que dizia a tela. Com certeza não importava o que fiz, aprendi e vivi em cada empresa, só valia o tempo.

Não se importou com a primeira assinatura : MPM Propaganda. Nem quanto representou na minha trajetória ter aprendido a datilografar enquanto era recepcionista, acomodada num pequeno cubículo, olhando por uma janelinha voltada para o corredor do elevador, apertando o botão da porta automática para cada visitante. Foi vendo entrar e sair a fina flor da publicidade carioca dos anos 60 que me apaixonei por publicidade e marketing. Conheci grandes profissionais. Curiosa, às vezes fugia do meu posto e ia ver como criavam comerciais e anúncios. Reencontrei nas redes sociais alguns amigos daquele tempo, como Sargentelli, Franco Paulino, Genaro Mendes de Moraes, Capinam (sim, o poeta e compositor!!) que me trazem o frescor do tempo em que saía da Tijuca para descobrir o mundo. E por falar em mundo por onde andará Luiz Duboc que me deu o livro “Cadernos de João”, de Aníbal Machado, guardado há anos!

Lendo de cabeça prá baixo vi que a moça virou a página e surgiu a Editora Abril. Ficava do outro lado da Av.Presidente Vargas, quase em frente da MPM. Foi lá que, contratada por Jairo Carneiro, gerente de publicidade das revistas técnicas, aprendi a ser secretária. Tinha até uma datilógrafa !! Organizar reuniões, arquivos, preparar malote, atender anunciantes. Tudo lá. Mas a vida foi correndo… Auto Modelo revendedora de automóveis, mas não era a minha praia… Depois a TV Continental com Eli Halfoun já “namorando” o jornalismo e xeretando os programas de TV auxiliando creio que o primeiro talk show apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa. Foi quando Moyses Fuks me convidou para ser repórter na Bloch Editores. E eu lá sou repórter? E a faculdade de psicologia? E os estudos de publicidade na ABP? Mas fiz a escolha que não me arrependo. Misturei tudo e deu no que deu. Da Bloch para o programa Flávio Cavalcanti foi um pulo… A TV Studio Produções realizava o programa de maior audiência aos domingos na tv brasileira. Foi lá que conheci o que é ser líder, formador de opinião, celebridade e ter um alto salário… Entendi sobre ônus e bônus, e a simplicidade com que Flávio convivia com tudo isso…  Licença maternidade, mais palco da TV Tupi, e depois novamente a Bloch para dirigir uma revista, ou melhor, duas… E de lá para Editora Abril – obrigada Edgard Catoira -; depois o jornal O Globo por 5 anos, viva Henrique Caban e Evandro Carlos de Andrade! Escrever todo dia era um grande desafio. Um prazer enorme entrevistar e no dia seguinte ter as palavrinhas publicadas. Muitas vezes com “chamada” de capa. Uma alegria desmistificar o jornalismo de TV e entretenimento, inserindo uma nova linha de temas perante uma equipe de intelectuais do Segundo Caderno do jornal. Ninguém assistia novelas nem programas de auditório e passaram a curtir as reportagens que eu trazia.

Durante um período no jornal, simultaneamente apresentei um quadro sobre artes no telejornal da TV Studio, primeira TV do Silvio Santos. Gravava uma vez por semana, achava que ninguém assistia. A TV Studio tinha que cumprir uma lei que determinava um número de horas com programação nacional, não apenas exibição de enlatados. E lá estava eu frente à câmera a convite de Moyses Weltman. De 15 minutos a meia hora para falar o quisesse, valia fazer entrevistas no estúdio…. Às vezes encontrava com amigos que diziam “dormi com você. Mudando os canais depois da meia noite vi o jornal na TV do Silvio…” Que vergonha… Mas eu fazia direitinho, com capricho e carinho…

Idas e vindas, muito mais alegrias do que decepções… Só fui demitida uma vez, num pedido que fiz ao jornal O Globo para liberar meu FGTS quando fui pra Nova York…. No retorno free lancer para O Globo e carteira assinada com crachá da TV Globo como pesquisadora de Caso Verdade. Quanta confiança do Régis Cardoso e depois do Reynaldo Boury! Em pouco tempo passei de pesquisadora à autora da novela de 5 capítulos exibida no final da tarde que contava uma história real… Mas o Canecão foi uma tentação ainda maior, saí da TV Globo e a carteira azul se fechou. Abri o escritório de assessoria de imprensa e as carteiras foram para o fundo da gaveta. Há pouco mais de 7 anos foram resgatadas pela DC Set Sports – obrigada Dody Sirena, Cicão Chies e Duflair Pires- e ganharam novas marcas por dois anos.

Casas, mudanças, casamentos, namoros, separações, filho crescendo, amigos, descobertas, conquistas, ganhos, perdas, tudo isso veio em cada página virada. Uma análise sem sofá nem psicanalista… Eu e meus botões frente a uma desconhecida.  No meio da viagem voltei à real quando a moça perguntou se queria acrescentar a conta do banco para receber a aposentadoria. Uau ! Vou ser aposentada! Demorei a tomar esta iniciativa, podia ter me aposentado há muito mais tempo, mas no fundo acho que temia fechar a vida profissional que amo tanto… Mas isso em nada muda… A profissional sou eu com ou sem carteira… Continuo com mais garra e paixão, estou mais animada e criativa do que nunca… Aprendendo novas linguagens e na ativa. Me aguardem…

Fátima

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Com Juliana Braga, num retorno à Fátima, embaixo de muita chuva, dia 31 de janeiro de 2004. A foto é da Denise Chaer.

Neste 13 de maio em que se celebra 100 anos da aparição de N.Sa.de Fatima aos pastorinhos, lembrei de 2003 quando fui morar em Lisboa integrando a equipe de produção daquele que, no ano seguinte, se tornaria o maior sucesso dos festivais de música em Portugal: o Rock in Rio-Lisboa. Fiquei imensamente feliz ao ser convidada a fazer parte do grupo que iria implantar este mega evento na Europa levando know how brasileiro.  Afinal aquele seria o meu 4º Rock. Mas as primeiras semanas na “terrinha” foram difíceis. A produção luso brasileira ainda se formava. Linguagens e culturas distintas. O escritório não estava pronto e improvisadamente ocupávamos uma suíte no 5 estrelas Hotel da Lapa. O apartamento que dividiria com outras brasileiras estava em fase de montagem, sem tv nem internet. Há muitos anos não sabia o que era compartilhar uma casa e me sentia sem chão. O assunto referente ao trabalho eu conhecia profundamente mas havia algo muito estranho naquele começo, eu era um peixe fora d´água. Estava quase arrependida de ter aceito a proposta, quando duas semanas após a chegada, num fim de semana, fui convidada a visitar Fátima. Com duas brasileiras peguei o ônibus e percorri pouco mais de 120km até chegar na cidade que respira turismo religioso. Todo o comercio vive do milagre das 3 crianças que tiveram a visão da Santa. Dos hotéis aos restaurantes, é só esse o tema. Chegamos ao Santuário e na pequena capela onde consta ter acontecido o milagre procurei um lugarzinho para fazer as minhas orações. Abri meu coração e travei uma conversa franca com N.Sa. de Fátima. Mesmo sem ter grande intimidade com a Santa, a não ser pela lembrança da infância quando, na escola das freiras, fazíamos procissão e cantávamos “A treze de maio na Cova da Iria no céu aparece a Virgem Maria…”, fui sincera. Coloquei as dúvidas e incertezas sobre o rumo que havia dado à minha vida, o compromisso de morar quase um ano em Portugal, o desafio em construir um projeto tão inovador num país desconhecido, o começo confuso e perguntei “o que estou fazendo aqui, o que tenho que aprender? ”.  Foi neste momento que o telefone, que eu retirara o som, se mexeu na bolsa encostada ao corpo. Olhei na tela e a chamada era da Roberta Medina. Atendi discretamente, ela perguntava se eu estava bem… O telefonema naquele momento serviu como resposta imediata à minha pergunta. Como se uma luz tivesse acendido na minha cabeça, dissipado qualquer dúvida, eliminado todos os problemas. Eu estava ali para fazer o meu trabalho de promover e trazer a memória do festival para outras terras. A família Medina confiava em meu trabalho e, como fiel seguidora do Don “Roberto” Quixote, iria às batalhas contra os moinhos de vento. Obrigada N.Sa. de Fátima por esse telefonema que sinalizou sua milagrosa presença e mudou meus pensamentos transformando minha estada em Portugal em uma experiência inesquecível.

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Os amigos de juventude sabem da relação que tive com a família Porto Carreiro desde 1966. Na simpática casa na Tijuca onde viviam Maria Ruth e Aluízio, com as filhas Regina e Angela, vi nascer um grupo de jovens que se tornou de grande importância para a MPB. O MAU – Movimento Artístico Universitário – revelou talentos como Aldir Blanc, Gonzaguinha, Ivan Lins, Célia Vaz, Cesar Costa Filho, Eduardo Lages, Lucinha Lins, Ruy Maurity, Sílvio da Silva Júnior, Marcio Proença e muitos outros.  Esta história foi relembrada por vários amigos, transformada em livro por Leila Affonso e Jorge Fernando dos Santos, e está no Catarse recebendo recursos para se tornar realidade. Hoje fui dar uma xeretada em quantas anda o crowdfunding e fiquei preocupada com a possibilidade da meta não ser atingida e o livro se transformar em apenas uma porção de memória guardada na gaveta. Convido os amigos a conhecerem o projeto no https://www.catarse.me/jaceguai27. É uma bela historia !

O texto abaixo escrevi em outubro de 2010 sobre o meu encontro com Angela que tanto mudou a minha vida. Gosto sempre de lembrar… Um orgulho ter convivido com esta família.

lea e angela

Aos 17 anos…

Conheci Ângela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, ou simplesmente Ângela, ou Jóca, no 1º ano do curso Clássico no Instituto Coração de Jesus, uma escola que à noite chamava-se Colégio Veiga de Almeida e ficava em frente ao Colégio Militar na Tijuca. No primeiro dia de aula descobrimos que nascêramos no mesmo dia e mês, com um ano de diferença, e isto bastava para selar uma amizade para sempre. Alguns dias depois fui à sua casa e conheci um contexto de família liberal, com o pai psiquiatra, Aluízio Porto Carrero e a mãe, Maria Ruth, dona de casa e costureira maravilhosa. Em 1966, na efervescência da ditadura o sobradinho na rua Jaceguai 27 na Tijuca onde moravam, era refúgio de talentosos contestadores que nos fins de semana se reuniam para tocar violão, bater papo, namorar e tomar cerveja. Era sensacional para uma adolescente descobrir aquele clima de protesto e conhecer um mundo politicamente diferente do que tinha aprendido em casa. Com Aluízio e Maria Ruth tudo era permitido. Fumar, ficar acordada até o dia amanhecer e sobretudo falar de política. Liberdade, liberdade! Aprendia-se muito ouvindo de Sinval Silva (compositor de preciosidades gravadas por Carmem Miranda) a Nelson Cavaquinho. Ali eu vi Jacó tocar o seu Bandolim, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, já despontando como compositores, e acompanhei os novos que surgiam como Gonzaguinha (namorando Ângela), Ivan Lins (namorando Lucinha), Aldir Blanc, César Costa Filho, Sílvio Silva, Rolando Farias, Paulo Emilio, mais um monte de gente de talento que veio a se firmar nos festivais universitários. Deste grupo surgiu o MAU – Movimento Artístico Universitário que ganhou o país com todos eles transformados em estrelas do programa Som Livre Exportação na Rede Globo .

Saímos da adolescência e entramos juntas na juventude. Ainda posso ouvir o violão do Aluízio e nossas vozes em pleno pulmão entoando Pixinguinha num “Carinhoso” suplicante “vem vem vem vem… vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos seus….” Descobrimos juntas amores, dores de cotovelo e trocamos confidências… Lembro Ângela contando que havia se apaixonado por Gonzanguinha e com um jeito muito divertido dizia o quanto ele era magro, feinho e genial … Rimos muito, sempre, dessas e outras revelações íntimas que só na juventude se faz para as melhores amigas… Selamos uma amizade até 1991 quando Ângela aos 41 anos se cansou de respirar… Jamais esquecera seu grande amor, Gonzaguinha, e 6 meses depois de sua partida ela foi atrás … Em algum lugar no infinito deve estar rindo das nossas histórias, quem sabe cantando com sua voz pequena e suave, como naqueles sábados na Tijuca…

Sansão do Campo

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Neste outono, por muitas ruas onde passo, encontro floridas as cercas vivas de Sanção do Campo* . Parecem pequenos tufos de algodão, são de extrema delicadeza e quem não conhece é incapaz de perceber quantos espinhos tem os seus galhos. À primeira vista parece frágil como suas flores, mas seus galhos produzem espinhos semelhantes aos da roseira e funcionam como uma barreira contra invasores, contra a poeira das estradas e quebra o vento. A natureza sempre surpreende, assim como o homem…. Revelam espinhos onde pensávamos ser só carinho, revelam carinho onde pensávamos ser só espinhos.

Aprendi há algum tempo que ninguém é exatamente o que aparenta, sempre temos o que descobrir e desvendar…. Enquanto caminho reflito que o aprendizado pode estar em cada passo, e consigo perceber tudo isso pois estou aberta para o que a vida oferece…. Não é fácil passar dos 60. Como escreveu Rita Lee “envelhecer é uma loucura”…Penso que é o tempo mais difícil de uma existência. A infância corre fácil, tudo é novo. A adolescência por mais incomoda que seja passa rápido, já se chega à juventude com um mundo de tesão por descobertas, passasse dos 30 com desejos maiores de conquistas e solidez, aos 40 há um brilho de olhar a trajetória quase ganhando o mundo, aos 50 o orgulho da maturidade, aos 60 é divertido ser visto como prioridade apesar de se sentir ainda jovem, mas chegar aos 70 é um susto com o futuro.  O tempo está mais curto. Posso fazer planos para 10 ou 15 anos? Quanto ainda terei de lucidez e vida com qualidade? São muitas perguntas sem respostas.

Enquanto me alongo no Pilates percebo integralmente a matéria que sou. Sinto todo o corpo enquanto me movimento. Por mais que em determinados pontos a pele perdeu o tônus, os músculos estão fortes. Atingi uma abertura de pernas que em outras épocas faria enorme sucesso… Agora servem apenas para exercitar a elasticidade… E entendo que o caminho está em contemplar o cenário que se apresenta e buscar no corpo e na alma mais elasticidade, flexibilidade, harmonia, amor, fé e aceitação do que vem pela frente…Como o Sansão do Campo, mesmo que hajam espinhos vamos manter a beleza das pequenas flores…

 

* Sansão do Campo, também conhecido como Sabiá, o Sansão do Campo é uma espécie pioneira nativa da região nordeste do Brasil, sendo um arbusto de rápido crescimento que apresenta vantagens que o tornam ideal para a formação de cerca viva.  É uma planta perene que necessita de pouquíssima manutenção e, dependendo da situação, bastante rústica e resistente, dispensando inclusive as podas. Suas pequenas flores acrescentam valor ornamental à cerca viva, um outro diferencial em relação à outras espécies para a mesma finalidade, além de ser utilizada para restaurações e recomposições de áreas degradadas. Outra característica marcante do Sansão do Campo é a utilização de sua madeira, que é muito apropriada para usos externos, como mourões, estacas, esteios e lenha.  Nome Científico: Mimosa caesalpiniifolia (Leguminosae Mimosoideae)

Manera Frufru

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Programei Fagner no Deezer para ser a trilha enquanto ia cortando os tecidos que se transformarão em coelhinhos de Páscoa para distribuir às crianças e minha cabeça viajou! Senti perfumes, lembrei das roupas, dos sabores, da temperatura e dos locais aonde ao longo da vida ouvi Fagner. Ele é uma das minhas grandes memórias musicais, trilha sonora de longos anos…

Em 73 estava recém separada e ganhei o LP “Manera Frufru” que passou a morar no meu “3 em 1”. Para quem não teve um “3 em 1”, apresento o aparelho que surgiu no início da década de 70. Era bastante simples: tinha rádio AM e FM estéreo, toca discos, gravador cassete (“tape deck”) montados num único gabinete e um par de caixas acústicas independentes. Esta era a mais importante peça do mobiliário reduzido do meu primeiro apartamento de mulher separada com pouco mais de 20 anos e um filho de 9 meses. No apartamento ainda se “destacavam” uma mesa com 4 cadeiras, uma estante feita com tabuas que se equilibravam em tijolos, dois colchões de solteiro que simulavam um sofá repletos de almofadas. E claro que muitas plantas em algum canto para disfarçar o vazio. Foi uma experiência marcante. Medo da cama vazia, da responsabilidade de manter a “família”, ter que cuidar de alguém quando eu ainda precisava que cuidassem de mim. Lembro que alguns dias depois da mudança fui falar alguma coisa com o porteiro que perguntou quem era o meu marido. Disse sem qualquer constrangimento que não tinha marido, mas a partir daí percebi que ele me olhava com um certo ar de reprovação e por não ter um homem em casa mereceria menos respeito. Nunca levei a sério, mas até hoje me divirto ao imaginar como ele deve ter ficado com o cabelo em pé com o entre e sai de amigos e as tantas festas que rolavam ao som do velho e bom 3 em 1 principalmente quando se tocava Fagner. Quem conhece um bom compositor sabe que na receita da boa música tem uma parte que eu chamo de “exorcizar sentimentos”, quando se pode gritar com a certeza de que aquelas palavras correspondem ao seu desejo mais profundo. Por exemplo, em “Velas do Mucuripe” eu sempre delirava com o final que, além da poesia no jogo das palavras – “vida vento vela leva-me daqui” – naquele momento era o que eu mais desejava. Queria ir longe e acabei indo morar nos Estados Unidos…

Nas minhas andanças com Fagner, em 78 quase cortei os pulsos ouvindo “Jura Secreta”, composição de Suely Costa em parceria com Abel Silva, meu professor de português do cursinho vestibular. “Só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz…” repetia repetia repetia no 3 em 1… Incrível constatar que como antes dos 30 anos de idade eu era tão dramaticamente apaixonada! Ah, se eu soubesse o que viria aos 40, aos 50, talvez não tivesse me desesperado tanto… Mas com Fagner não tem outro jeito, há de se ser pateticamente visceral. Até hoje.

“Borbulhas de amor” –  Tenho um coração, dividido entre a esperança e a razão  – é a minha cara.  “Traduzir-se” musicada sob o poema de Florbela Espanca – Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver – já fiquei rouca de tanto repetir e com  “Espumas ao vento” –  E de uma coisa fique certa, amor, a porta vai estar sempre aberta, amor, o meu olhar vai dar uma festa, amor, na hora que você chegar – é uma eterna realidade. Não sei quem espero, mas a porta está escancarada…

Fagner sempre faz uma revolução nos meus sentimentos. Traz saudades e tem a capacidade de tirar o mofo de paixões que jurava escondidas… Recentemente ele gravou “Paralelas”, do Belchior, e ao ouvir lembrei de uma das minhas grandes tragédias na cozinha. Era início dos anos 70, eu já era muito fraca com as panelas, mas a pedido de um amigo produtor musical que estava apresentando Fagner e Belchior ao mercado paulista, fiz um jantar. Era um grupo pequeno, consegui uma receita ótima de estrogonofe, escolhi um filet mignon de primeira, caprichei em uma boa dose de conhaque, mas boa vontade e bons produtos não significam bom resultado. O estrogonofe quando levado à mesa só não foi descartado pois os dois estavam famintos…. Não tinham vindo de pau de arara, mas era um tempo de vacas muito magras para eles que sonhavam com o sucesso e procuravam espaço para mostrar sua obra. Esta mesma obra que me fez companhia nesta tarde e me deu um enorme prazer de lembrar que naquela noite fui testemunha dos primeiros acordes, ideias, projetos…. Belas lembranças!

Em tempo : quem nunca ouviu o disco “Manera Frufru”, a razão desta viagem na memória, segue o set list :

  1. “Último Pau-de-Arara” (Venâncio / Corumba / J. Guimaraes)
  2. “Nasci Para Chorar” (Dion / Dimucci / versão: Erasmo Carlos)
  3. “Penas do Tiê” (Folclore/ adap. Raimundo Fagner)
  4. “Sina” (Raimundo Fagner / Ricardo Bezerra / Patativa do Assaré)
  5. “Mucuripe” (Raimundo Fagner / Belchior)
  6. “Como Se Fosse” (Raimundo Fagner / Capinan)
  7. “Pé de Sonhos” (Petrúcio Maia / Brandão)
  8. “Canteiros” (Raimundo Fagner/Cecília Meireles)
  9. “Moto 1” (Raimundo Fagner / Belchior)
  10. “Tambores” (Raimundo Fagner / Ronaldo Bastos)
  11. “Serenou na Madrugada” (Folclore / adap. Raimundo Fagner)
  12. “Manera Fru Fru, Manera” (Raimundo Fagner/R. Bezerra)

Inbox

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A mensagem pedindo o número do meu telefone para alguém que não vejo há dezenas de anos chegou inbox. Li, reli e fui levada para um tempo muito distante quando esperava encontrar um grande amor que tirasse meus pés do chão e me fizesse voar à lua. Como fotos de um álbum antigo veio a imagem do primeiro encontro e, como todos aqueles que marcam a vida, foi ao acaso. Amigo de amigos nos reunimos num escritório para discutir algum projeto e, de repente, nem sei mais o que falávamos, com o coração batendo tão forte que parecia sair da boca e não consegui mais olhar para ele. Saímos para comer alguma coisa e no final da noite eu estava encantada. Tenho um grave defeito: só me apaixono por pessoas inteligentes. O simples sedutor não me convence. Apenas o que tem algo a dizer, discutir, compartilhar, vida corrida com inteligência, perspicácia, humor e uma certa ironia … E ele era exatamente tudo isso ! Ainda tinha um cabelo desalinhado, uma cara amarrotada, um certo ar blasée no vestir e amigos poetas, músicos, escritores, artistas maravilhosos…. Óbvio que aconteceu um grande amor que só não foi mais longo pela distância. Por razões profissionais voltei a morar no Rio e a ponte aérea foi dificultando a relação. Creio que ele também tinha uma pendencia emocional em outra cidade e o tempo se encarregou de colocar um outro “grande amor” na fila.  Incrível hoje constatar que em uma certa idade há volúpia e sequência de “grandes amores” o que deixa a vida simplesmente fantástica e traz um tempero especial às lembranças na maturidade.

Aquela mensagem inbox ficou rodando um fim de semana em minha cabeça gerando uma questão: o que ele quer comigo ? Na segunda feira ao voltar para a casa depois de uma caminhada na praia recebi o recado de que alguém com um nome diferente telefonara se identificando como um grande amigo, fazendo uma porção de perguntas que variavam da localização geográfica de Vila de Santo André até o meu atual estado civil! Tudo muito divertido e surpreendente se você imagina que alguém está saindo de um baú depois de 45 anos…E quantas águas já rolaram neste tempo, quantas vidas e encarnações que ele nem imagina…

No meio da tarde o telefone tocou e era ele. A voz inconfundível, o tempo não havia passado. O mesmo tom bem-humorado, ironia fina, sedução inteligente… “Você foi o grande amor da minha vida”, ele soltou assim em meio de uma frase e eu quase caí do sofá! Como em uma tarde sem aviso prévio, sem clima de sinos tocando ou qualquer outro cenário de paixão surge esta declaração? Como se guarda por tantos anos o desejo de dizer “você foi o grande amor da vida” ?

Não levei a sério, mudei de assunto, ele repetiu a frase… O que continuava me impressionando não era o amor guardado, mas a sua voz firme, como se fosse um elemento protegido das agruras do tempo. O pensamento corria com o mesmo discurso ágil, inteligente, atualizado. A voz sem rugas, sem catarata, cabelos brancos, peles flácidas ou qualquer outra mazela que os anos trazem à matéria que somos. Não tinha botox, nem lifting, nem lipo, nem implante. Era uma voz no auge dos seus quase 40 anos, igualzinha quando nos conhecemos. Enquanto conversávamos, comecei a fazer cálculos de quantos anos ele teria e não aguentando a curiosidade perguntei:

“E com quantos anos você está ?”

“Vou fazer 80 !!”

Não fiz silêncio. Gritei.

“Como assim ? A sua voz é a mesma…”

“Eu sou o mesmo”.

E ele era realmente o mesmo inteligente jornalista, produtor, criador, escritor, inventor de artistas, poeta, romântico meio sem jeito… O resto são fantasias, preconceitos, idiotices que construímos mentalmente sobre velhice. Neste dia aprendi que estamos inteiros em qualquer tempo, basta não perder a essência…

Comparações

foto-claudia_schembriEmbaixo da amendoeira, vejo os meses de verão acontecer na praia de Santo André…Amigos chegam para férias, contam as novidades do ano que passou, e é impossível não notar as marcas do tempo… Uns mais gordos, outros frequentaram academia estão malhados, percebo cabelos que ficaram grisalhos enquanto outros mais tintos, comentamos quanto foram prósperos ou difíceis os negócios, a política ou o simples fato de termos sobrevivido. Um ponto é fatal: silenciosamente todos se comparam…. Isto é inerente ao ser humano, o animal não olha para o outro para ver se está mais velho ou mais jovem, gordo ou magro, só mesmo o homem.

Lembro que a primeira vez que me percebi nas comparações foi no início da adolescência quando trocávamos de roupa para a aula de ginástica, e discretamente todas queriam saber quem já usava sutiã ou havia menstruado.  Às vezes mentiam quanto à menstruação para serem dispensadas das aulas… Depois, um pouquinho mais velha, a pesquisa ficava nas que eram ou não virgens, comparava-se o tamanho do salto do sapato, a roda do vestido, o perfume Avon ou importado, e por aí seguia numa disputa sem fim…. Tudo muito silencioso…Depois comparava-se o marido, o emprego, o carro novo, o apartamento, as férias no exterior, a casa na praia ou na serra, a escalada social…

Hoje me percebo curiosa em saber a idade das mulheres da minha faixa etária para ver quem está fisicamente melhor…Não sei qual o critério que uso para saber o que é melhor, mas discretamente analiso se os antebraços estão firmes para dar tchauzinho,  como estão as celulites nas pernas e no bumbum, a gordura que ganha forma nas costas e nos seios, a barriguinha, as varizes, as rugas em volta dos lábios denunciando as fumantes, tristes comparações mas totalmente verdadeiras… O tempo é implacável, esta não é uma boa disputa mas é a realidade desta vida mais longa e liberta que ganhamos… Mamãe jamais se permitiu ao se aproximar dos 70 colocar os braços de fora muito menos a barriga em um maiô de duas peças… E nós só tínhamos 30 anos de diferença… Tudo correu muito rápido e vamos tentando nos adaptar à nova realidade. Às vezes sinto que há um fio da navalha entre o adequado e o ridículo, mas é impossível julgar pois cada um vê no espelho a imagem que interessa.

Desde que voltei a praticar Pilates tenho pensado no meu bem-estar físico, pois as pernas que abalaram Paris jamais voltarão. Ficaram nas fotos e nas lembranças de quem viu. A flexibilidade do corpo e da mente são meus grandes objetivos. A agilidade dos pensamentos e a facilidade em me movimentar, cruzar as pernas, esticar os braços, andar firme, são meus desafios… Sei que com a determinação e juventude que tenho –  eu já contei que acredito ter 35 anos ? – vou bem longe.

 

Foto :  Cláudia Schembri

Outros carnavais

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Sentada a beira do rio esperando o bloco Unidos de Santo André passar, lembrei da foto com Paulo Martins que recentemente emoldurei e pendurei na parede da sala e me remete a outros carnavais. Meus pais se conheceram num baile de carnaval. Minha mãe era a rainha, ficava no trono acenando para os súditos; meu pai entrou no baile como penetra, não era sócio do clube e vestiu uma fantasia de dominó (não consigo imaginar!!!) com capuz na cabeça para não ser reconhecido… Ouvi esta história dezenas de vezes quando me vestiam de bailarina ou qualquer outra fantasia que “herdava” das primas ricas e me levavam para o clube com um saco de confete, um pacote de serpentina e uma lança perfume Rodo Metalica.

Sempre me senti ridícula fantasiada. Até mesmo quando adolescente saía no grupo das  garotas da rua da Cascata vestida de índio ou melindrosa para brincar no baile no Montanha Clube. Em grupo o vexame era menor. Deve ter sido isso que me estimulou a aceitar o convite dos incríveis Stenio Pereira e Equio Reis para sair na comissão de frente da Portela. Na verdade era um séquito que acompanharia a colunável milionária Beky Klabin em sua estreia no carnaval.  Equio e Stenio eram dois artistas sensacionais que marcaram o fim dos anos 60 e início dos 70 em Ipanema. Um baiano, ator e diretor de teatro, o outro arquiteto carioca, foi o primeiro casal assumidamente gay que conheci. Juntos criaram uma grife, um estilo que fez sucesso entre artistas e descolados.

Beky era uma grande figura. De origem turca, chegou menina ao Brasil, casou com o empresário do ramo de papel e celulose Horácio Klabin com quem teve dois filhos. Foi jurada do programa do Chacrinha, namorou o cantor Waldick Soriano, o cirurgião plástico Hosmany Ramos que anos depois foi preso e julgado como traficante… Ela “causava” na sociedade carioca e por ser apaixonada por samba foi parar na Portela. As portas da sua cobertura na Av. Vieira Souto – o metro quadrado mais caro do mundo! – eram abertas para ritmistas e passistas realizarem os ensaios da “trupe” que a acompanharia na avenida. Claro que tudo regado a muito champagne e caviar. Não lembro quantos éramos naquele carnaval de 1972, mas viemos em torno de Beky que “carregava” um vestido branco, coberto de plumas e pedrarias. Evoluíamos numa coreografia ensaiada durante semanas seguindo a letra do samba “Ilu aiê odara, negro cantava na nação nagô…” Dizem que as joias que Beky usava eram de muitos quilates, por isso, discretamente, alguns seguranças a acompanhavam. Ainda não havia o sambódromo, as escolas se exibiam na Presidente Vargas, e quando terminou o desfile, lá estava nos esperando o seu motorista com o porta malas da Mercedes aberto repleto de bebidas e comidinhas para o grupo… Lembro voltando para casa com a maquiagem escorrendo no rosto …

Beky foi a primeira personalidade do “high society” a desfilar em uma escola de samba o que causou furor e se tornou um escândalo… Sua personalidade era tão marcante como referência em glamour e poder, que segundo consta, Gilberto Braga nela se inspirou para escrever a personagem Stela, vivida por Tônia Carrero na novela “Agua Viva” em 1980. Resgatei um de seus pensamentos: “Assim como Stela, detesto praia. Mas mando o copeiro buscar a água do mar para jogar no meu corpo porque queima mais”.

E, na doce brisa do fim de tarde do sábado de carnaval, vendo a explosão de cores do por sol relembrei deste carnaval enquanto esperava o bloco passar… Sem abre alas e coreografia, prefiro ver a vida de camarote…

Na foto abaixo, Beki Klabin (10 de setembro de 1921 – 20 de agosto de 2000.

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Alongar

pista

Sempre ao sair do Pilates tenho a sensação de estar mais alta. Hoje voltei pela estrada sentindo o sol estourar na pele, o cheiro das árvores nativas misturadas com o do asfalto, como se estivesse caminhando sob pernas de pau.  Acho que cresci uns 10 centímetros nesta última hora… O tempo que passo entortilhada em mim mesma sobre o teclado ou no sofá enquanto faço bordados desaparece. Sinto como se eu fosse uma roupa que ficou muito tempo pendurada no varal, embaixo do calor escaldante da Bahia e ao ser retirada está bem esticadinha… Enquanto caminho reflito que além do corpo deveria alongar os pensamentos. Esticar tal qual o elástico que levanta as minhas pernas e faz com que eu me sinta como uma bailarina em piruetas…. Alongar percepções, sentimentos, intuições…. Um pouco de Pilates para a alma, decifrar o que parece indecifrável no conhecimento de mim mesma… Sou uma porção de mulheres misturadas e apesar de tantos anos convivendo com esta questão ainda me surpreendo… Vou me alongar para a vida que ainda me espera…