Sobre escolhas…

A professora, que também era poeta, se aposentou e foi morar numa pequena cidade nas serras do Estado do Rio…. Uma vida mais tranquila para quem passou os últimos 25 anos correndo entre a escola, a casa e atenção ao filho criado pelo pai, mas a quem visitava todos os dias.  Sozinha, chegou na pequena cidade, comprou uma casinha e foi conhecendo a comunidade.  Era o casal da mercearia, o taxista, o farmacêutico, as carolas da igreja, os viznhos e havia também o verdureiro, que trazia a produção da sua roça para vender na cidade. Ele vinha empurrando um carrinho de madeira, parava na casa da professora, ela escolhia alguns legumes, frutas e verduras, e ele seguia para a beira da estação do trem aonde tinha freguesia certa. Na volta, encontrava a professora sentada na varanda geralmente lendo um livro ou escrevendo poesias. Trocavam mais um dedo de prosa, comentavam assuntos banais como o calor ou o frio da estação, e ele seguia para casa. Com o passar do tempo, o verdureiro passou a parar e tomar café. Começou a guardar o carrinho de madeira na casa da professora, trazia as verduras em sacolas e nasceu uma amizade. Os vizinhos achavam estranho as conversas animadas entre pessoas de mundos tão diferentes.

Certo dia, a professora poeta foi para o Rio de Janeiro visitar a família e chegou acompanhada do verdureiro. Bem vestido, cabelo aparado, barba feita, unhas cortadas, adentrou aos salões do apartamento da família na Av. Rui Barbosa e o apresentou como seu companheiro. Foi um choque! O filho letrado, diplomado, fluente em 3 idiomas que conhecia o pequeno agricultor das raras visitas que fazia à mãe, não entendeu o que a levou, uma mulher culta e sensível, viver com um verdureiro analfabeto. Sim, ele era analfabeto, só conhecia os números. A ex-sogra, em cuja mesa só se comia em pratos com o brasão da família e usava talheres de prata, foi condescendente com a escolha. Compreensão feminina, o que nos dias de hoje chamam de sororidade. 

Me lembrei da história da professora e do verdureiro que juntos viveram até o fim dos dias, um cuidando do outro, com relatos de mulheres imponderadas que fazem escolhas estranhas e amores improváveis ao assistir “Lida Baarová” na Netflix. O filme conta sobre a atriz tcheco-austríaca que por dois anos foi amante do ministro da propaganda nazista da Alemanha, Joseph Goebbels, o mais perfeito exemplo de escolhas insensatas. Tinha tudo para cair fora do jogo de sedução, crescer na profissão, mas como coração é terreno sem dono, não há o que discutir… É um filme biográfico, um gênero que gosto muito, pois conhecer trajetórias para entender melhor a vida, muito me agrada.   Vira e mexe, aqui na minha região, escuto casos de profissionais, altas executivas, mulheres cultas que atuam em grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, cargos de poder e atuação impecável, chegam para uma pequena temporada e se apaixonam por homens mais simples, rudes, pescadores, agricultores, pedreiros, que fazem acontecer um amor sem tamanho, coisa de novela… Para uma, que me confidenciou um desses romances em que andavam na praia a luz do luar e ele contava sobre as marés, os períodos de boa pesca e conhecia o canto de quase todos os pássaros, perguntei o que conversavam depois do amor. O que acontecia quando batia aquela leseira e muitos reconhecem ser o momento em que se percebe se a escolha foi correta, se vale a pena continuar junto para um bom tempo, quem sabe construir uma vida … Com a maior tranquilidade ela me respondeu: “Faço nada, abraço e durmo… ” Ah… Simples assim… Ainda há muito o que se entender sobre relações e escolhas, sem qualquer julgamento…   

A Casa

Uma casa em obras é como uma pessoa nua à frente de um espelho de aumento revelando as suas mazelas… Todas as celulites, rugas, cravos e marcas de espinhas, gorduras acumuladas, varizes e cabelos brancos que ficavam escondidos estão à mostra para os que não as viram surgir e chegam para consertar…. É este o meu sentimento em meio a uma obra na qual estou envolvida há mais de um mês… Primeiro foi o telhado, pois a minha casa não tinha…. Sim era uma casa sem telhado, construída em estilo mediterrâneo com laje, se tornou inviável com tanto sol e chuva no sul da Bahia. Foi uma decisão difícil mudar o estilo da casa. O primeiro a sugerir foi o Paulinho, originalmente arquiteto, na última vez que me visitou olhou para o alto e foi contundente: “coloca um telhado com uma beira larga, mais de 50 cms, para proteger toda a casa”. Mas não vai contra o estilo? “Então continua chovendo dentro da casa...” pontuou bem-humorado.

Este ano, antes da pandemia, quando ainda se pensava num tempo normal, ouvi a opinião de um arquiteto amigo e vizinho. Era a mesma do Paulinho e sou grata por ter recebido sábios conselhos e feito a mudança. A sensação que tive quando as telhas cobriram a casa foi de proteção e cuidado. Já não estou mais exposta ao tempo. Tenho uma casa com eira e beira…

E para cuidar da casa toda, o telhado se estendeu para uma varanda, um espaço que não tinha qualquer valia e está se transformando num salão para relaxar com redes, poltrona, estrado com almofadas, com vento leve, uma brisa sempre fresca que vem do mar …  E não me canso de perguntar: por que não pensei nisso antes? Mas meu olhar estava viciado naquilo que se apresentava e tenho cada dia mais certeza de como é importante ouvir outras opiniões, trocar ideias…

A pintura começou, chega como um vestido novo para uma jovem dama, com quase 30 anos. Os toldos das janelas foram retirados revelando umas nesgas da cor original que ficou protegida do sol por alguns anos… Antes da tinta, como uma limpeza na pele cansada, escovão para tirar o limo que escorreu das árvores, uma boa dose de lixa, impermeabilizante e depois, enfim, a casa, terá seu novo vestido verde folha para se misturar entre as árvores e se manter num jeito discreto, num canto de terreno, exatamente como projetada ao ser construída por meu irmão… Aguardo feliz este novo tempo…          

A lagosta e eu…

Seguindo a tradição familiar, sou bem fraca na cozinha. Mamãe não gostava nem sabia cozinhar, mas sugeria pratos ótimos para todas as assistentes que passaram por nossa casa. Nos últimos anos, iniciada por uma amiga, descobri Rita Lobo e nesse período de pandemia fiz risotos e focaccias que foram bem recebidos.  Mas ser pouco competente em temperos e panelas não me impediu de nos últimos 5 anos estar envolvida com a gastronomia, desde que em 2016 capitaneei o Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento em Vila de Santo André. O sucesso foi tal que no ano seguinte se expandiu por Santa Cruz Cabrália e em sua trajetória teve a participação de 74 restaurantes e foram consumidos mais de 1500 quilos de lagosta. Esta é a 5ª. edição, tinha tudo para não acontecer, tempo de pandemia, alguns restaurantes ainda fechados, zero patrocínio, mas quem segura uma capricorniana teimosa que, como dizia meu pai, adora inventar coisas?

A bem da verdade o que me fascina é ver o que a promoção de eventos produz numa sociedade, como estimula o turismo, gera empregos, aumenta horizontes, cria oportunidades, movimenta recursos… Seja um Rock in Rio em Lisboa desbravando a Europa ou um Festival da Lagosta na Santa Cruz Cabrália com menos de 30 mil habitantes, conduzo meus sonhos e projetos com o mesma magnitude, respeito e atenção.  De repente a gastronomia da região ganha espaço na mídia e tanto os restaurantes dos sofisticados resorts, como as cabanas de praia, o bistrô na beira do rio, as trattorias, tem holofotes voltados para seus sabores provocando uma enorme alegria para os chefs e empresários que são estimulados a criar receitas e se renovar. 

Com meu olhar experiente em grandes eventos, o ano passado pedi ao Emerson Stark, 24 anos, morador de Sto André, para desenvolver um aplicativo contendo os pratos participantes, a história do festival, informações sobre Cabrália e como chegar. Ele fez um trabalho lindo e este ano resolvi dar um passo ainda maior. Além do aplicativo, era hora de aposentar os jurados tradicionais e a escolha da Melhor Lagosta e Melhor Atendimento ser feita pelo público. Quem come dá a nota através de um QR Code impresso no Guia do Festival, aonde se chega até um hot site e é só escolher entre 0 e 10 para pontuar o sabor. Emerson e seu sócio o índio Wilson Junior, toparam o desafio.  Mas como dois rapazes deste pequeno pedaço do sul da Bahia se especializaram no mundo digital ?

Em 2013 se instalou na cidade um CEIT (Centro de Educação e Inovação Tecnológica) realizado pela QUALCOMM e Fundação Telefônica Vivo, em parceria com a USAID e Prefeitura Municipal. O objetivo era incentivar a inclusão digital, explorando o potencial educacional das tecnologias móveis e das redes de telecomunicações, mobilizando a comunidade. Infelizmente o CEIT encerrou atividades alguns anos depois, mas a semente já estava plantada e dando frutos. Através deste projeto, Emerson, Wilson e outros jovens tiveram a oportunidade de viajar para São Paulo e serem palestrantes no encontro nacional de empreendedores no Campus Party e aí o mundo grande ficou perto, criar passou a não ter limites…

Com toda essa tecnologia e o alto astral dos empresários do setor, seguindo todos os protocolos dos tempos de pandemia, 10 restaurantes embarcam de 9 a 18 de outubro no Festival da Lagosta da Costa do Descobrimento. É uma honra conduzir esse projeto com o endosso do Senac, Sebrae e Abrasel, e o apoio da Katz Engenharia, parceria da Revista Bacana, pois instituições e empresários tem a consciência da importância da promoçao do turismo gastronômico para o desenvolvimento de um destino. Da minha parte, continuo buscando fazer a diferença na cidade onde escolhi viver. É isto que me move e me faz feliz. Não sei cozinhar, não tenho restaurante, nem sou tão apaixonada pelo crustáceo, mas amo fazer o festival…

Para saber mais acompanhem o @festivaldalagostacabralia, e se estiverem aqui por perto escolham a sua lagosta :

Cabana A Praia Branca (Mutá)

Lagosta ao Coco : Cozida com a água e na nata do coco verde, e ainda cebola, vinho branco seco, raspa de queijo da Serra Canastra, salsa, creme de leite e uma base de arroz. R$ 55,00 – Av. Beira Mar, 2850 – Praia do Mutá Aberto todos os dias de 10 às 16hs – Tel:  (73) 9990-3321

Cabana Macuco (Coroa Vermelha)

Lagosta das Índias : Lagosta assada guarnecida de um papelote feito na folha de bananeira recheada de ingredientes tipicamente indígenas. Ainda uma surpresa: a sobremesa fica por conta da casa. R$ 69,00 – Avenida Beira Mar n. 50, Coroa Vermelha – Todos os dias de 9:00 – 16:30 – Tel:  (73) 99920-1122  e  3677-1000

Hibisco Praia (Mutá)

CaNuVAL :  acrônimo de Cátia, Nuca, Vanessa e Alanda, homenagem às funcionárias do restaurante abraçando a causa do Outubro Rosa : Risoto cozido com vinho branco caldo de peixe e um molho leve de abacaxi, filé de lagosta e, por fim, uma pitada de açafrão para dar uma cor ainda mais viva a esse lindo prato. Acompanha salada de rúcula, tomate cereja e cubos de abacaxi. R$65,00 – Endereço: Av. Beira Mar, n. 12402, bairro Ponta do Mutá, Aberto de segunda a domingo das 10:00hrs as 17:00hrs Telefone (73) 999364442

Luz de Minas Bistrô, Brigaderia Café (Santo André)

Canoa dos Deuses : Um prato aromático de lagosta grelhada na manteiga de garrafa, com manta de nibs de cacau acompanhado de creme de kefir com hortelã e brotos frescos. Prato assinado por Said Dias, com toques da parceira Renata do @brigadeirodasminas R$ 85,00. Av. Beira Rio 62Todos os dias de 13:00 –  21:00 hs –  Tel: (73) 99871-0888 – 31 99958-7965

Maria Nilza (Guaiú)

Lagostelas : Lagosta grelhada no vinho branco com arroz indiano feito com castanhas e melaço de lagosta, laminas de abóbora grelhada.  Acompanha um drink da casa. R$ 65,00 – Praia do Guaiú – Todos os dias 09:30 às 16:00 horas – Tel : (73) 99985-0149

Recanto do Sossego (Coroa Vermelha)

Agnolotto : Agnolotto com recheio de lagosta, ricotta, aspargo com tomate cereja em crosta de bacon. R$ 80,00 – BR-367, 133,  Coroa Vermelha – Todos os dias de 8:30 – 23:30hs Tel: (73) 999-232630 

Restaurante Caju (Campo Bahia Hotel Villas Spa) (Santo André)

Lagosta Mar e Terra : Lagosta grelhada e flambada na cachaça e Risoto de aspargos com bisque de lagosta  Valor: R$ 89,00 +10%R$ – Av. Beira Mar 1885, Vila de Santo André – Todos os dias 12h às 15 – 19h às 22h Tel: (73) 3671-4200

Restaurante Gaivota (Santo André)

Duo de Lagosta : Cauda grelhada com aroma de limão rosa. Arroz cremoso de lagosta com coco. vinagrete de maxixe. Redução de frutas amarelas com vinho do vale de São Francisco. R$ 85,00 – Av. Beira Rio Todos os dias 12 às 21hs Tel: (73) 3671-4144

Restaurante Pitanga (Vila Angatu Eco Resort Spa) (Santo André)

Lagosta Angatu : Angatu significa felicidade e bem-estar, o equilíbrio yin yang vem na lagosta grelhada com tiras de berinjela, abobrinha e cenoura acompanhada de musseline de ervas e purê de banana da terra com lascas de castanhas tostadas. R$ 67,00 + 10% tx serviço Av. Beira Mar 2000, Vila de Santo André- Todos os dias 20 às 23hs Tel: (73) 3282-8200 

Restaurante Trigo (Cais Cabrália)

Massa de Cacau Tagliatelle ao cacau de Bahia, com lagosta e granola de pistache – R$65,00 Rua 23 de julho n 20, Praça da Ancora, Cais  – 5ª. a sábado 18hs – domingo 12 hs Tel: (73) 99109-8435

20 anos

Em setembro de 2000 eu estava envolvida em conhecer melhor o mundo da internet. Como diretora de comunicação do Rock in Rio, que iria acontecer em janeiro de 2001, numa volta para a Cidade do Rock, palco da emblemática 1a edição em 1985, estávamos num grande movimento de mídia. Já tínhamos sites e e-mail, ainda não haviam as redes sociais. Eu convivia diariamente com o assunto, encantada com a nova ferramenta e o destaque ainda era maior pois o patrocinador master, aquele que viabilizava a retomada do festival, era a AOL, um provedor de internet. Tínhamos dentro da produção uma área que só cuidava deste assunto. Era tudo muito inovador. Assim como mulheres grávidas que só encontram barrigudas à sua frente, eu só pensava em internet e me chamou a atenção a notícia do lançamento de um site sobre celebridades. E naquele domingo liguei no SBT no programa do Gugu e assisti o lançamento de O Fuxico

Uau ! Parecia a Revista Amiga que vi nascer transportada para o século XXI de forma digital! Pulava o processo da gráfica, a distribuição nas bancas e entrava direto na tela do computador. Tentei acessar o site, mas não consegui…. Depois vim saber que o volume de acessos foram tantos que derrubou a rede do UOL… O Rock in Rio aconteceu inovando muito com a internet. Passaram-se muitos anos e acessar o mundo digital entrou no dia a dia dos brasileiros. Sites, blogs, conteúdo, mecanismos de buscas está tudo à disposição. E, com as muitas midias disponíveis, em 2006, quando, a convite do Projeto Emoções em Alto Mar, fui organizar a lista de veículos de imprensa que passariam 5 dias à bordo de um luxuoso transatlântico acompanhando a incrível experiencia de confraternizaçao entre amigos e fãs do Roberto Carlos, sugeri ao Dody Sirena, empresário do artista, dar um enfoque maior à midia digital, levando para a viagem diversos sites. O Fuxico foi um dos relacionados. Em 6 anos de atuação havia crescido, tinha milhares de acessos, se tornara referencia em sites de celebridades e aberto caminho para outros tantos. Eu não tinha contato com a jornalista Esther Rocha, editora, mas achei o telefone na web, fiz o convite e fomos nos conhecer em alto mar.

Foi em alto mar que ouvi a sua trajetória e ficamos amigas. Exemplo de “self made woman”, desbravadora, resiliente, divertida, foi preciso muito pouco para admirar a sua obra, o seu olhar para o futuro que motivou o apresentador Gugu Liberato, seu colega dos tempos da faculdade de jornalismo, em investir no que a principio parecia uma maluquice. O Fuxico foi o primeiro acesso para este mundo digital que se estendeu para a sua outra paixão, a gastronomia, que a fez voltar para a universidade, se transformar em chef e criar o site Vamos Falar de Comida. Tudo isso já justificaria a homenagem que faço hoje, no 1º dia dos 20 anos de O Fuxico, deixando meu registro de respeito e admiração à Esther e sua equipe, onde todos tratam os assuntos mais dificeis com respeito… Ela sabe que a comunicação deixou de ser cartesiana.  Além da ousadia e criatividade, quem está nesta área precisa ter grande acuidade, uma visão ainda mais acirrada de onde quer chegar. O poder de uma noticia abalar uma marca, uma instituição ou uma pessoa é grande e o processo é rápido. Reconstruir às vezes é difícil ou impossível. Esther, que venham mais tantos anos de sucesso e alegria… Com o mesmo astral, profissionalismo e dignidade…

O Brasil não Conhece o Brasil

A Bahia não estava no meu mapa natal, a minha família é do Paraná, mas meus pais escolheram dois baianos como meus padrinhos de batismo e crisma.  Meus padrinhos Álvaro Protásio e Almir Mansur me mimaram de um jeito muito manso.  Ambos eram homens altos, elegantes e tinham um modo tranquilo de falar. Um sotaque às vezes arrastado, que fazia uma enorme diferença numa família de sulistas. Esta talvez seja a minha primeira referência de uma Bahia que abracei há 16 anos quando vim morar em Vila de Santo André, Santa Cruz Cabrália, onde o Brasil começou.  Abracei tanto que até já sou Cidadã Cabraliense.

E por caminhos surpreendentes, acabei me envolvendo de tal forma com a cidade que hoje, por estar vice-presidente do Conselho de Turismo, integro o grupo gestor da Câmara de Turismo da Costa do Descobrimento que reúne as cidades de Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Guaratinga e Belmonte. Já participei de alguns encontros virtuais com representantes da Secretaria de Turismo do Estado e de outras instituições ligadas ao turismo junto aos gestores das 13 câmaras técnicas que envolvem dezenas de municípios, mas ontem, numa comemoração antecipada do Dia Internacional do Turismo que acontece no próximo domingo, fiquei maravilhada ouvindo os tantos destinos que essa Bahia oferece.

Com uma enorme diversidade de cenários, do mar ao sertão, dos sabores acres e doces, dos relevos e planícies, das grutas aos rios, dos tempos tórridos e áreas mais frescas, tudo tão perto e tão apaixonante que deu vontade de entrar no carro e sair estrada afora… E ainda tem as festas, o folclore, a arte, a cultura, o artesanato, tudo muito bem guardado, surgindo delicadamente em meio a tempos de quarentena. Pude ouvir como estes destinos estão se reinventando, como o Senac e o Sebrae foram importantes com suas plataformas e programas para qualificar os profissionais que atendem estas áreas para ir mais adiante do que o simples uso de máscaras e álcool em gel. Momento de saber como bem receber sem aglomeração oferecendo segurança aos turistas…

A boa nova que ouvi é que muitos turistas estão chegando pelas estradas, e impossível não lembrar Elis cantando “o Brasil não conhece o Brasil” (Querelas do Brasil, de Aldir Blanc / Maurício Tapajós).. Quem sabe um ponto positivo pode ficar desta pandemia: impulsionar o turismo nacional. E para quem quiser desvendar a Bahia, seguem os destinos onde as câmaras técnicas estão se dedicando para oferecer o melhor ao viajante… E só pra lembrar, de 9 a 18 de outubro tem a 5ª. edição do Festival da Lagosta em Santa Cruz Cabrália. Uma ótima pedida, e quem sabe a oportunidade da gente se encontrar por aqui.

Bahia de Todos os Santos (Salvador, Aratuípe, Cachoeira, Candeias, Itaparica, Vera Cruz, Madre de Deus, Maragojipe, Muniz Ferreira, Nazaré, Salinas da Margarida, Santo Amaro, São Félix, São Francisco do Conde, Saubara e Simões Filho.), Caminhos do Jiquiriçá (Amargosa, Jiquiriçá, Milagres, Mutuípe, Santa Inês, Ubaíra, Castro Alves, Cruz das Almas, Dom Macedo Costa, Santa Terezinha, Varzedo e Itatim.), Caminhos do Oeste (Barra, Barreiras, Santa Rita de Cássia, São Desidério, Bom Jesus da Lapa, Correntina, Ibotirama, Santa Maria da Vitória, Jaborandi e São Félix do Coribe), Caminhos do Sertão (Feira de Santana, Canudos, Euclides da Cunha, Itapicuru, Tucano, Cipó, Uauá, Adustina, Alagoinhas, Irará, Banzaê, Paripiranga, Santo Estevão), Caminhos do Sudoeste (Iguaí, Jequié, Maracás e Vitória da Conquista), Chapada Diamantina (Circuito da Chapada Norte: Bonito, Campo Formoso, Quixabeira, Jacobina, Miguel Calmon, Miramgaba, Ourolândia, Pindobaçu, Senhor do Bonfim e Utinga. Circuito do Diamante: Andaraí, Ibicoara, Iraquara, Itaetê, Lençóis, Mucugê, Barra da Estiva, Boninal, Iramaia, Itaberaba, Ituaçú, Nova Redenção, Palmeiras e Seabra. Circuito do Ouro: Abaíra, Jussiape, Paramirim, Piatã, Dom Basílio e Rio de Contas. Circuito da Chapada Velha: Barra do Mendes, Brotas de Macaúbas, Gentio do Ouro e Central) , Costa das Baleias (Alcobaça, Caravelas, Itamaraju, Mucuri, Nova Viçosa, Prado e Teixeira de Freitas), Costa do Cacau (Ilhéus, Itacaré, Ipiaú, Maraú, Una, Canavieiras, Itabuna, Uruçuca, Santa Luzia, Pau Brasil e São José da Vitória), Costa do Dendê (Cairu, Camamu, Valença, Taperoá, Igrapiúna, Ituberá), Costa do Descobrimento (Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Guaratinga e Belmonte), Costa dos Coqueiros (Mata de São João, Jandaíra, Entre Rios, Conde, Lauro de Freitas, Esplanada, Dias D´Ávila, Camaçari), Lagos e Cânions do São Francisco (Paulo Afonso, Santa Brígida) e Vale do São Francisco (Juazeiro, Sobradinho, Remanso, Curaçá e Sento Sé)

Simonal nos 70 anos da TV

Nas celebraçoes dos 70 anos da TV brasileira, esta é uma das tantas historias que vi …O 18o capitulo do livro “Um Instante, Maestro!” onde relato a trajetória do apresentador Flávio Cavalcanti, dediquei a Wilson Simonal..

A música foi um dos elementos de maior importância nos programas que Flávio Cavalcanti criou e apresentou ao longo da vida. Em 1970, na Tupi, três dos artistas de maior sucesso na época eram seus contratados com exclusividade. Um deles era Wilson Simonal. Hoje é impossível encontrar um artista que tenha tido tanto sucesso e prestígio quanto Simonal no final dos anos 60, início de 70. Ele não era sertanejo, tampouco brega ou MPB. Criara um estilo, um movimento, uma marca que vendia milhares de discos, faturava alto com os shows que fazia no Brasil e exterior. Apresentava programas de televisão, era capa de revistas e chegara a lançar um bonequinho de pano, o Mug, que virou mania nacional.

Super afinado, com muito balanço e um repertório popular onde interpretava as canções mais simples de forma sofisticada, Simonal além de tudo era o rei da simpatia. Vestia-se com a maior elegância, era recebido nas festas mais fechadas da sociedade e tinha um Mercedes Benz branco, novinho em folha. As críticas que lhe eram feitas traziam sempre um ponto de inveja e preconceito: ele era um negro bem-sucedido. Voou mais alto do que o melhor sonho que um garoto pobre pode ter ao se tomar cantor. Filho de dona Maria, uma empregada doméstica semialfabetizada, começou, como muitos cantores, em um programa de calouros, o de Ary Barroso, aos dezessete anos. Sua apresentação mereceu um raro elogio do exigente compositor. Aos dezoito foi servir ao Exército, no 89º Grupo de Artilharia de Costa Motorizada, no Leblon, e lá surgiu a oportunidade de mostrar seus dotes vocais ao fazer um show de improviso, onde imitava Agostinho dos Santos e Harry Belafonte, cantores negros como ele. Dois anos depois, ao deixar o Exército, entrou para um conjunto de rock liderado por Sérgio Riff. O grupo se reunia na casa de Riff, no Leblon, e uma noite Carlos Imperial foi lá ouvir os novatos.

Imperial tinha dois programas de televisão: “Os Brotos Comandam”, na TV Continental, e “Festival de Brotos”, na TV Tupi. O suingue do crooner conquistou Imperial, que o levou para a TV e depois para gravar um compacto na Odeon, com o “Chá-Chá-Chá Terezinha”. O chá-chá-chá era o ritmo do início dos anos 60, e a música foi feita por Imperial para sua namorada Tereza. A letra era assim: “Terezinha,/todo dia,/dança o chá-chá-chá,/dança, menina, dança, balança o corpo/que eu quero ver…” Uma bobagem, mas, como o ritmo estava no auge, a música estourou nas paradas. Surgiram então os convites para shows, e outros tantos LPs se seguiram, numa sucessão de hits.

Aos 32 anos de idade, Simonal chegava ao auge de sua carreira. Gravara três maravilhosos LPs de bossa nova e, sob orientação de Imperial, lançou a “pilantragem”, com a música “Nem Vem que Não Tem”. Era um samba mais arrastado, cadenciado. Surgia assim um novo estilo musical na MPB. Simonal estava de volta ao Rio, depois de uma temporada em São Paulo onde apresentava um programa de TV. Morava em Ipanema, numa belíssima cobertura, e estava muito bem casado com a Terezinha do chá-chá-chá. Em 69, fez uma apresentação que literalmente balançou o Maracanãzinho. Simonal era presidente do júri do Festival Internacional da Canção, e fora contratado para fazer o show da noite final. Uma de suas características como showman era manter domínio total sobre o público, e naquela noite não foi diferente. Dividiu a plateia em duas vozes, como num gigantesco coral, e “regeu” vinte mil pessoas cantando “Meu Limão, Meu Limoeiro” e “Patropi”. Um espetáculo inesquecível e jamais repetido por qualquer outro artista. Era muito sucesso para um homem só. Domingos de Oliveira, o cineasta mais in do momento, dirigiu no final de 69 o filme “É Simonal”, uma produção de Carlos Thiré, tendo como ator principal o próprio cantor e um elenco formado por Maria Gladys, Oduvaldo Viana Filho, Vanda Stefânia, Irma Álvarez, entre outros artistas consagrados. Em 70, Simonal foi contratado como garoto-propaganda da Shell, para uma grande campanha publicitária. Estava na telinha da TV o dia todo, os postos de gasolina estampavam o seu sorriso em enormes cartazes e a companhia de petróleo patrocinava seus shows.

Simonal tinha trabalhado com os melhores empresários do país, mas, julgando-se autossuficiente, resolveu criar uma agência para administrar sua carreira e seus bens. Para cuidar de tudo isso convidou Rui Brizola, um misto de empresário e administrador. Tornou-se assim o primeiro artista a se auto-empresariar, montando um sofisticado escritório todo branco, muito bem decorado e aparelhado, na Avenida Princesa Isabel 150, em Copacabana. Para cuidar da parte financeira, indicado por Rui Brizola, Simonal contratou o contador Raphael Viviani, paulista que já havia trabalhado em bancos. Viviani veio morar no Rio e durante quatro meses ficou no Hotel Plaza, em frente ao escritório de Simonal, com todas as despesas pagas. Com a indicação de Brizola, o cantor não se preocupou em investigar o passado do contador e, como estava sempre viajando com shows, envolvido com muitas festas, entrevistas, numa vida como nos melhores tempos de Hollywood, acabou relaxando no controle de seus negócios. Um dia o sonho virou pesadelo. O gerente do banco telefonou avisando que havia um problema com a conta corrente da empresa, um rombo muito grande, e tudo levava a crer que o contador estava desviando dinheiro.

Estávamos em 1971, num clima político explosivo, vivendo em cima de um barril de pólvora. Qualquer coisinha era motivo para especulações, distorções, divagações e patrulhamento ideológico. A popularidade de Simonal incomodava tanto a esquerda quanto a direita. Ele achava difícil ser um negro bem-sucedido, resumindo o racismo brasileiro com a seguinte frase: “Em lugar onde preto pobre não entra, branco pobre também não entra.”

Simonal acreditava ter amigos em todas as áreas. Ao saber do desvio de seu dinheiro, em vez de ir à polícia fazer uma queixa contra o contador, pediu a uns amigos policiais, entre eles o inspetor Mário Borges, que nas horas vagas fazia sua segurança pessoal, que fizessem a averiguação. No dia 24 de agosto de 1971 os policiais saíram em busca do contador no próprio carro do artista, dirigido por seu motorista, Luiz llogti. Já passava das dez da noite quando chegaram no prédio em que Viviani morava, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Chamaram Viviani pelo interfone e o levaram para o DOPS – Departamento de Ordem Política e Social—, a fim de prestar depoimento sobre o desfalque dado na empresa de Simonal. O motorista Luiz llogti deixou-os no DOPS, na Rua da Relação, no Centro do Rio, e foi para casa, esperando o aviso para buscá-los. Algumas horas depois recebeu um telefonema avisando que o depoimento iria se prolongar e que ele não deveria voltar. O depoimento durou a noite toda. A mulher de Viviani viu quando o marido foi levado e identificou o motorista do cantor. O dia amanheceu sem Viviani chegar em casa, e sua mulher foi à 13ª Delegacia de Polícia dar queixa de que Simonal sequestrara seu marido. Ilogti não pôde afirmar se Viviani foi torturado, pois não assistiu ao depoimento, mas o contador declarou ter sofrido os mesmos métodos de tortura utilizados pelo regime militar, até confessar o roubo. Em pouco tempo o assunto chegou ao conhecimento da imprensa. O que seria um caso policial se transformou num escândalo político.

A partir daí foi aberto um inquérito contra o inspetor Mário Borges, acusado de sequestrar o contador e, sob coação física, tê-lo feito assinar uma confissão de desfalque contra a firma do cantor. Segundo Simonal, Mário Borges, para livrar-se do processo e justificar o fato de trabalhar como segurança pessoal do cantor, acusou-o de ser informante do DOPS. Com isso o cantor foi arrolado no processo, acusado de sequestrar e torturar o contador com a ajuda de informantes do DOPS. O caso tomou proporções enormes, atingindo drasticamente a carreira do artista.

O mundo desabou para Simonal. Sua gravadora, a Philips, rescindiu o contrato alegando estar sofrendo pressões dos outros artistas. Ele passou a ser responsabilizado por todos os artistas, jornalistas e políticos perseguidos e torturados. Problema policial à parte, Simonal estava sendo vítima de uma sórdida campanha de difamação e boicote a uma carreira bem-sucedida. As portas foram se fechando. As casas noturnas lhe davam espaço, mas a imprensa evitava divulgar seus shows. Flávio Cavalcanti, ao contrário, continuava tratando o cantor como superastro, convidando-o todos os meses para o programa. Isso lhe garantia a presença na mídia eletrônica no momento em que seus discos eram retirados da programação de diversas rádios. O jornalista João Luiz Albuquerque lembra que nessa época estava fazendo uma entrevista com ele e, para continuar o papo, foram jantar no Mario’s, um restaurante muito conhecido no Leblon. Na mesa em frente havia alguns jornalistas e intelectuais, que começaram a provocar o cantor com piadinhas. Simonal resistiu o quanto pôde, mas em determinado momento virou-se para o grupo e falou: “A diferença entre nós é que eu sou negro, rico, e não tenho compromisso com a esquerda nem com a direita.”

No final de 1973, a barra estava ainda mais pesada. Flávio, sempre amigo de Simonal, passou a ser também seu compadre. Numa cerimônia muito simples, na igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana, Frei Memória batizou Max, o filho caçula do cantor, junto com meu filho, Bernardo. Algumas semanas depois a família Simonal deixava o Rio para morar em São Paulo. Após a mudança, uma “mágica” qualquer do destino impediu que chegasse até ao cantor e seu advogado a comunicação sobre o julgamento em que Mário Borges o acusava de “delação”. A partir daí o processo começou a correr à revelia. Num julgamento posterior, o assistente de acusação, Dr. Jorge Alberto Romeiro Jr., perguntou ao inspetor Vasconcelos, superior de Borges, se o cantor tinha algum envolvimento com o órgão. A resposta foi negativa. Este fato não foi divulgado na época, e o cantor continuava a ser tratado como o maior torturador do século.

Em novembro de 1974, Wilson Simonal foi julgado à revelia, sob a acusação de extorsão mediante sequestro. Foi obrigado a cumprir cinco anos e quatro meses de prisão, sendo um ano em colônia agrícola. No dia 12 de novembro ele foi preso em São Paulo e levado ao presídio de Agua Santa, num subúrbio do Rio, onde permaneceu por doze dias, enquanto seu advogado conseguia liberdade provisória até um novo julgamento. Em seu segundo dia de prisão uma notícia trouxe uma dor ainda maior. A morte do amigo, meio-irmão, Erlon Chaves.

Em novo julgamento, o juiz Mena Barreto desqualificou o sequestro e o condenou a seis meses de detenção, que poderiam ser cumpridos em liberdade por ser ele réu primário. Sua vida, no entanto, estava totalmente destruída. Simonal perdeu tudo o que havia conquistado, o sucesso, o prestígio, os bens materiais. Entrou em decadência, foi despejado da mansão onde morava em São Paulo, e sua mulher Tereza, profundamente estressada, passou longos períodos internada para tratamento médico.

Em maio de 1992 reencontrei Simonal. Acabara de mudar para um apartamento perto do Ibirapuera, em São Paulo, e estava terminando de arrumar a casa. Convalescia de uma hepatite, tossia muito, a respiração era ofegante, e dizia estar muito cansado. Não fazia shows há dois meses, e contou que começou a sentir esses sintomas numa temporada no México. Nessa turnê, fazia dois shows por noite, sentia muito calor, transpirava demais, não tinha apetite e entre uma apresentação e outra ia para o hotel descansar. Contou também que estava bebendo mais do que o normal, o que afetara o fígado e a vesícula. Como estava se alimentando muito mal, acabou anêmico, e tudo isso gerou uma hepatite.

Esse encontro com Simonal foi para mim como uma viagem ao tempo. Em sua casa, ao lado do sofá forrado de couro verde, havia uma mesa repleta de porta-retratos com fotos amarelecidas relembrando sua época de sucesso. Apesar do rosto envelhecido e do cabelo grisalho, Simonal mantinha o charme do tempo em que era o primeiro da música brasileira. Falava com as mesmas gírias, repetia o sorriso de canto nos lábios e sonhava com um grande espetáculo onde pudesse reviver uma cena do Circo – show apresentado no Canecão em 1973 -, onde surgia no palco com o rosto pintado de palhaço.

Simonal não se incomodava em falar do passado. Acreditava que nos meios de comunicação algumas pessoas o julgavam um mau-caráter, mas estava certo de que a grande maioria embarcara nessa onda para ficar de bem com a classe. Lembrava de que antes do caso Viviani, quando viajava ao exterior, trazia cartas de exilados para suas famílias e também assinou muitas listas dando dinheiro para auxiliar presos políticos, apesar de não ter uma posição política formada. Só muitos anos depois soube, através de amigos, que o dinheiro desviado por Viviani era repassado a Dulce Maia, irmã do publicitário Carlito Maia, conhecida militante de esquerda, com o objetivo de financiar guerrilhas. Acreditava ter sido vítima do macarthismo da esquerda festiva, do racismo e da inveja. Sentiu-se atirado vivo aos leões quando o jornal Pasquim publicou na capa um dedo enorme, a imagem do dedo-duro, onde estava escrito seu nome. Não gostava de falar sobre o mal que tudo isso provocara à sua carreira e à sua família, e às vezes chegava a imaginar como estaria se nada disso tivesse acontecido.

Apesar de ter feito carreira no mercado internacional, como México, França, Argentina e Chile, onde continuou sendo aplaudido e respeitado, jamais se recuperou financeiramente. Mora com Tereza e os dois filhos menores, Patrícia e Maximiano, num apartamento alugado. O filho mais velho, Simoninha, trabalha com João Marcelo, filho de Elis Regina, num estúdio de som e mora sozinho. Sem trabalhar há meses, Simonal conta com a ajuda de muitos amigos, entre eles seu antigo empresário Marcos Lázaro. Mas os fantasmas ainda o perseguem. Fez questão de conseguir um habeas data, um documento oficial da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, datado de 28 de agosto de 1991, que nega a sua colaboração para qualquer órgão de repressão, seja DOPS ou SNI. Esta simples folha de papel, entretanto, não foi suficiente para apagar as mágoas dos 22 anos em que foi perseguido e boicotado. Simonal ainda sonha em ser o mesmo artista popular, como na década de 60.

Wilson Simonal – Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1938 — São Paulo, 25 de junho de 2000 

1o Capítulo

Na celebraçao dos 70 anos da TV brasileira, o 1o capítulo de Um Instante, Maestro ! Para quem gostar, o livro está disponivel em PDF ou ainda pode ser garimpado em sebos por todo o país…

Urca, Rio de Janeiro. Janeiro de 1971.
Domingo. Um calor insuportável. As duas horas da tarde, uma
longa fila saía da porta da TV Tupi e subia a Avenida São
Sebastião. Era tão grande que se confundia com as filas dos ônibus
que levavam os farofeiros* de volta para o subúrbio depois de um
belo domingo de praia.
A TV Tupi, Canal 6, estava instalada num prédio onde, muitos anos
antes, funcionara o Cassino da Urca. O bairro era estritamente residencial,
com apenas duas vias principais de acesso. Por um capricho da
arquitetura do anos 40 o prédio unia os dois lados da Avenida João Luís
Alves; de um lado funcionava a parte comercial e do outro, os estúdios.
Era engraçado ver os funcionários apressados passando de um lado para
outro, ziguezagueando na frente dos carros e ônibus. Mas isso já fazia
parte da rotina. Afinal, aquela era a maior rede de televisão do país, com
afiladas nas principais capitais.
Foi a Tupi que colocou no ar a primeira emissora do Brasil, em São Paulo, em 1950. O dono era Assis Chateaubriand, que tinha um império de comunicações, com rádios e jornais em vários estados brasileiros. Após a sua morte, em 4 de abril de 1968, todo esse conglomerado passou a ser administrado por um condomínio, como determinara o testamento por ele deixado. Mas o síndico geral, responsável pela direção desse condomínio, senador João Calmon, preocupava-se muito mais com sua carreira política do que com os caminhos da comunicação. Com isso, novas emissoras foram chegando e ganhando lugar no mercado.
No início da década de 70, os programas de auditório eram ao vivo, e a Tupi, apesar de não estar vivendo seus melhores momentos, com problemas financeiros e uma briga interna entre os condôminos, tinha grandes nomes como Bibi Ferreira, Jota Silvestre e Aérton Perlingeiro no comando de bons programas. Aos domingos, no entanto, tudo mudava. A Urca ficava com outra cara. Dentro da emissora, contra-regras, assistentes de produção, técnicos e músicos corriam de um lado para o outro da emissora, numa função que começava bem cedo. Do lado de fora, os fãs formavam longa fila e vibravam com a chegada dos artistas. Fã é fã em qualquer época, e ali se repetiam os chiliques, gritinhos e desmaios como nos áureos tempos do rádio. Paralelamente a essa agitação, acontecia uma outra não tão alegre junto à porta de serviço da emissora. Eram pedintes que se enfileiravam; a fila da miséria. Doentes, mendigos e necessitados vindos de diversos pontos do país esperavam a chegada do “Senhor dos Domingos“, o salvador da pátria que – acreditava poderia aliviar todos os males e solucionar os seus problemas.
Distante duas quadras da TV Tupi, numa pacata rua residencial, a Candido Gaffrée, havia uma casa branca de dois andares, varandinha, jardim na frente, coqueiro e mangueira no quintal. Era uma casa diferente. Ali produzia-se o programa que fazia o Brasil parar aos domingos. Naquele momento, fechado numa sala superrefrigerada, o todo-poderoso preparava-se para mais um programa. Sabia exatamente o que se passava na porta da emissora. Há seis meses era líder absoluto de audiência. Amado por muitos, odiado por outros tantos, era o apresentador mais polêmico da TV brasileira. Explorava assuntos que eram discutidos na semana seguinte pelos mais diversos segmentos da sociedade, como Congresso, repartições públicas, quartéis, bares, salões de cabeleireiro e universidades. Tanto a esquerda quanto a direita ficavam atentas ao que ele dizia, nem que fosse para discordar. Ele tinha consciência desse poder.

Atrás de uma grande mesa, sentado numa poltrona de couro, relia o script do programa. O mesmo script que recebera em sua casa, em Petrópolis, dois dias antes, numa cópia arroxeada, mimeografada* em papel-jornal. Idêntica à enviada à Censura. Era um tempo em que ninguém podia abrir a boca no rádio e na TV, nem publicar uma linha num jornal ou revista sem a aprovação da Censura. Depois de aprovado, o script ganhava outro formato na mão do apresentador. O papel-jornal era substituído por papel-ofício,
datilografado em máquina elétrica sem um erro. As perguntas das entrevistas eram copiadas em fichas brancas, impecavelmente limpas, sem rasuras. Somados a este farto material, capaz de manter milhares de brasileiros com os olhos pregados no vídeo durante quatro horas, outros textos surgiam de uma fina pasta decouro marrom, como se fizessem parte de um programa diferente.
Eram recortes de jornais e revistas, cartas, anotações e algumas folhas de papel datilografadas pelo próprio apresentador com identificações variadas: “Li não sei onde, guardei e dou de graça…”, “Criança diz cada uma…” e “Fora de script”. Este último, sem dúvida, o mais fascinante. Uma surpresa para os telespectadores, um susto para a produção e um soco no estômago do governo.
Conheci esse lado de dentro da televisão no primeiro dia de trabalho. Eu era jornalista e trabalhava como repórter da revista Amiga. Aos domingos era encarregada de ir à Tupi fazer a cobertura do programa. Aos poucos fui conhecendo as pessoas, e um dia acabei sendo convidada para trabalhar com ele. O salário era quatro vezes maior, e não pensei duas vezes. Estava recém-casada, queria fazer análise, e topei a proposta. Um acerto puramente profissional, pois politicamente eu discordava de alguns pontos de vista do apresentador. Mas,já no primeiro dia como sua secretária particular, percebi o quanto valiam o grito, a coragem, num tempo de poucas palavras. Valiam também a audiência, os pontinhos do IBOPE e a
ousadia de cutucar a censura com vara curta. O medo estava “fora de script”. Ele defenderia sua opinião com unhas e dentes, se fosse preciso, até tirarem o programa do ar.
Dramático, teatral, emocionado, ele dominava uma nova linguagem
de comunicação e acreditava que TV era “timing”: saber a hora do show, segurar o telespectador no suspense de uma boa reportagem. Tirava e colocava os óculos nervosamente, chorava diante das câmeras, vibrava com as entrevistas, ria com os fora de série e se divertia muito com o trabalho pelo qual era regiamente pago. Não era de esquerda nem de direita. Era simplesmente Flávio Cavalcanti.

*farofeiros – termo usado para definir pessoas que iam de ônibus fazer pic nic na praia

*mimeografada – cópias feitas através de um equipamento pré xeroc que produz a partir de matriz perfurada ( estêncil ) afixada em torno de pequena bobina de entintamento interno e acionada por tração manual ou mecânica.

70 anos da TV brasileira

Então chegamos aos 70, eu e a TV brasileira… Eu um pouquinho antes, mas posso considerar que estamos no mesmo pique de renovação… Não sou bombril na antena – se é que me entende? – sou completamente streaming, up to date, um conteúdo de multimídia enorme, pronta para entrar no mercado na mais nova profissão de “conselheira” pois “coach” já era, e honrada em fazer parte de sete décadas desta história. Tem um pedacinho que lá estou, não como atenta e observadora, mas colocando a mão na massa na TV Tupi do Rio de Janeiro, no Programa Flavio Cavalcanti, o Senhor das Noites de Domingo como a revista Veja o intitulou… E esta passagem foi tão marcante que transformei no livro, “Um Instante, Maestro”, lançado pela Editora Record em 1992 e hoje disponibilizado em pdf neste blog.

Mas muito antes disso, aos 10 anos, quando a TV engatinhava eu a vi por dentro e me apaixonei. Fui muitas vezes ao Programa Pullman Junior na TV Record em São Paulo, aonde comia bolo, tomava milk  shake, assistia filmes do Roy Rogers e Dale Evans, participava de gincanas de perguntas e respostas e ganhei o prêmio máximo: uma lanterna dos heróis do faroeste. No início da vida profissional a TV também me esperava. Antes dos 20 anos, trabalhando como assistente do jornalista Eli Halfoun, que era gerente de divulgação da TV Continental (não haviam ainda os assessores de imprensa), a curiosidade me levou a fazer hora extra como contrarregra, produtora e o que mais precisasse em um dos primeiros programas de entrevista com estilo informal. Apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa, o programa ia ao ar à noite e a dupla entrevistava as melhores cabeças do Rio de Janeiro. Escritores, compositores, políticos, atores, artistas plásticos, sentavam em volta de uma mesa onde o whisky corria solto e assisti conversas saborosas. Não sei se dava audiência, mas o resultado era muito bom.

“Perguntas e respostas” voltaram à minha vida, num desafio nos anos 90 quando fiz a loucura de, durante 10 semanas, responder no programa “Sem Limite”, na TV Manchete, sobre a vida do Flávio Cavalcanti.  Foi neste tempo que concluí que a memória é um musculo, que quanto mais acessada melhor o resultado. O programa era apresentado por Luiz Armando Queiróz, cada programa 10 perguntas divididas em 3 itens, num total de 300 respostas. E não eram coisas simples, iam dos detalhes da certidão de nascimento da Marzinha, primeira filha do apresentador, até a relação das músicas do LP Canções Medalha de Ouro, joias da MPB orquestradas por Paul Mauriat e Erlon Chaves. E ouvi o ABSOLUTAMENTE CERTO na final debaixo de lágrimas e soluços ao repetir a carta que Flavio escreveu ao neto Jarbinhas, duas páginas de um texto excelente que levei dias decorando.   

Ah! TV na minha vida… ainda em voo solo apresentei dois programas… Sempre morri de vergonha das câmeras, por incrível que possa parecer. Até hoje tento reunir imagem e voz numa só Léa. É isso mesmo : eu acho que quem fala não é a imagem que tenho de mim !!

Um dos programas no início dos anos 80 marcava a estreia da TV Studio, que depois veio se tornar o SBT do Silvio Santos.  Foi a TV pioneira do apresentador e ficava no Rio de Janeiro. Moyses Weltman, que havia sido meu diretor na revista Amiga, estava à frente e, para cumprir uma determinação do Ministério da Comunicação que exigia um mínimo de horas de programas com produção local, criou um jornal no fim da noite e eu tinha de 15 a 30 minutos para falar o que quisesse…. Naquela época eu trabalhava no Segundo Caderno do jornal O Globo e escrevia sobre artes e espetáculos. Uma vez por semana, no final do dia, eu ia para a emissora em São Cristóvão e gravava programas suficientes para exibição de 2ª à sexta-feira. A maquiadora me preparava e eu só trocava a blusa, o brinco, o colar e o assunto…. Não tinha Teleprompter*. Era eu, a câmara, um bloquinho com o roteiro e falava como se ninguém estivesse me ouvindo, atenta ao coordenador da gravação que controlava quantos minutos ainda restavam. Por muito tempo não contei aos amigos que apresentava o jornal, mas como não se engana todos o tempo todo, foram me descobrindo e comecei a ouvir comentários “fui dormir assistindo você”… Eu nem respondia de tanta vergonha… Foi um tempo bom…Parei quando fui morar em Nova York.

Muitos anos depois, numa mesa no Antoninos na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, Carlos Alberto Vizeu, diretor de tv, me convenceu a apresentar um programa de entrevistas para a sua produtora, Tele Tape, que tinha um horário no início da noite, de 2ª à 6ª. feira, na então TV Corcovado. A esta altura eu tinha um escritório de Assessoria de Imprensa e o programa passou a ser a alegria de todos os que tinham artes para divulgar… Com quatro blocos de quase 12 minutos, fiz entrevistas incríveis, como uma das primeiras com a Adriana Calcanhoto chegando no Rio de Janeiro vinda de Porto Alegre. Os cenários eram os mais diversos: de restaurantes a salas de hotéis, escritórios, passando por festas em casas noturnas e conversar com amigos sempre era muito bom… Foi fazendo o “Programa da Noite” que descobri Santa Edwiges. Uma sexta-feira, já com todos os programas da semana seguinte gravados e editados, Vizeu telefonou pedindo desculpas por mudar a agenda, pois no dia seguinte, sábado, era dia de Santa Edwiges. Ele tinha uma promessa de fazer a cobertura da festa da santa e colocar no ar em qualquer programa que sua produtora tivesse e, no caso, era o programa que eu apresentava. Eu não precisaria fazer a cobertura, afinal era outro estilo, uma reportagem. Saí elegantemente da quase convocação me desculpando com uma viagem no fim de semana e, ao desligar o telefone, comentei com a Angela Tostes, minha assistente, sobre o conteúdo insólito de um programa que eu tinha me livrado e fiquei pasma quando ela me revelou: Santa Edwiges é a santa dos endividados. Imediatamente telefonei para o Vizeu e no dia seguinte estava linda e loura entrevistando o pároco, os fiéis e contando a história da santa que acabei devota.

E assim a TV foi passando profissionalmente na minha vida, sem contar as muitas vezes que participei do “Almoço com as Estrelas” do Aérton Perlingeiro, do programa do Chacrinha, das entrevistas no Clodovil e na Hebe, o prazer de ser debatedora do programa Sem Censura a convite da Leda Nagle. No meio disso tudo, dois momentos inesquecíveis na telinha: o dia em que fui entrevistada no Jornal Nacional para falar sobre a abertura da exposição dos 50 anos de música do Roberto Carlos na OCA, em SP, da qual fui diretora, e no Faustão, num quadro em homenagem ao Elymar Santos com o qual fecho um pouco dessas minhas memórias…

Domingão do Faustão 31 de janeiro 2016 https://globoplay.globo.com/v/4777299/

  • Teleprompter é um equipamento acoplado às câmaras de vídeo que exibe o texto a ser lido pelo apresentador

Dignidade

Amiga querida…

Talvez o olhar para como vamos nos transformando com a chegada das marcas e rugas do tempo, seja tão difícil de encarar que sempre publicamos fotos antigas para reafirmar como éramos belas quando jovens… Escrevi a primeira frase no plural, mas se enquadra bem no singular pois com a prerrogativa do #tbt às quintas feiras também procuro alguma foto memorável tendo nas entrelinhas a legenda “olha como eu estava bem…” É um ato de preservação da dignidade e isso é inerente ao ser humano e ainda mais nós, mulheres vaidosas não apenas das nossas belezas, mas orgulhosas da nossa trajetória.

Hoje chorei ao ler a forma como estão expondo a sua fragilidade nas manchetes de blogs e sites. É covardia, neste momento em que você não tem como se defender, tentarem desconstruir a sua imagem mostrando todo um doloroso processo que você está passando….Sei quanto o fã quer saber do seu artista, mas não desta forma…  É por isso que como sua amiga, há quase 50 anos, venho aqui levantar uma pequena bandeira pedindo DIGNIDADE.  Se não lembram quem você foi, independente de dar uma “googada” e levantar sua trajetória musical, seria bom perguntar à alguma mulher com mais de 70 anos o quanto você foi inspiradora e revolucionaria.  Nem falo do seu cabelo que era de dar inveja quando jogava a franja de um lado para o outro cantando “era um menino que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, ou o movimento delicado dos braços que dançavam no ar nas Manhãs de Setembro, ou quando você encarou um terrível patrulhamento ao gravar uma música contra o uso das drogas. Muitos avisaram, inclusive eu, para não se expor e você botou a cara pra bater e durante um bom tempo foi boicotada.

Talvez nem saibam que você enfrentou de cabeça erguida uma gravidez quase solitária, escondendo quem era o pai em respeito à família, pois ele ainda era casado. E suas buscas por um amor em tantos casamentos onde saiu economicamente sempre mais pobre do que entrou. Mas em todas as situações estava você, literalmente linda e loura correndo os palcos do país e do mundo, ganhando prêmio na Coreia cantando em português. Uma mala numa mão, uma frasqueira na outra com todos os seus milhares de produtos de beleza, e lá ia você sem medo de trabalhar e tendo que criar três filhos… E viva Da. Noemia, sua mãe, seu braço direito por tanto tempo…. Lembro num final de casamento você deixou em minha casa Amanda, Aretha e Veruscka para remontar a vida em São Paulo. E montar e desmontar casas sempre foram seu forte, tanto que serviu inspiração para compor Mudanças, da qual me orgulho de ter uma parcela na parceria que só nós mesmas sabemos.  A sua facilidade em compor, escrever sempre foi enorme. Ainda vejo você com um caderninho na mão, que era uma espécie de diário, anotação para composições, mas posso ainda ver a sua letra bem desenhada, ligeiramente inclinada para a direita, traço firme e certo.

Temos muitas histórias amiga! Como um domingo em que as crianças eram bem pequenas e você, para fazer surpresa ao Antônio Marcos, saiu da casa na Cantareira e se instalou em uma casa na cidade… Arrumou tudo em 3 dias e ficamos esperando ele chegar de uma turnê tomando licor Parfait D’Amour que você adorava e dava uma terrível ressaca…  Nem me refiro a Ninguém é Loura Por Acaso, espetáculo que escrevi para você, pois é um capítulo à parte, mas lembro das suas buscas espirituais, de Chico Xavier a quem me apresentou num encontro no Rio, por ter me aplicado Deepak Chopra com o livro As Sete Leis Espirituais do Sucesso, e seus estudos mais recentes do budismo com um incrível depoimento de como foi este encontro com a milenar tradição oriental. 

E é por isso e por muito mais que daria até para escrever um longo capítulo de um livro, que nesta manhã de setembro, me entristeci ao ler o leilão que fazem com sua dor… Por onde andam suas memórias e seus pensamentos não me importa, vale o que eu vi, vivi e na nossa amizade que eternamente guardo do lado esquerdo do peito, como na música do Fernando Brant que você um dia usou um trechinho para me deixar num bilhete…   

Conhecer

Lembro de ainda na adolescência ver nas revistas de fotonovela publicidade do Instituto Universal Brasileiro oferecendo cursos à distância, de corte costura à eletrônica, tudo chegava através do correio, e pensava quem fazia essas aulas e qual o grau de aproveitamento. Quando morei nos Estados Unidos conheci o que era garbage mail, um volume enorme de correspondência que chegava na caixa de correio oferecendo tudo o que a mente humana pudesse produzir, de roupas a cursos. Quando vim morar na Bahia, cheguei a me entusiasmar em fazer uma faculdade de história à distância, mas como a internet era discada – alguém não sabe o que é isso? – desisti … Em tempos de pandemia, os cursos floresceram mais que mato no meu gramado. Além das aulas de como fazer máscaras, pães e receitas da Rita Lobo, tenho me deliciado com cursos na Casa do Saber – fiz um de storytelling (muito legal!), de Kaballah com o Shmuel Lemle e o mais recente de Inteligência Emocional  – Search Inside Yourself – com Bianca e Guido Padovano que tem sido uma viagem, uma experiência pra lá de legal… 

A esta altura da vida, depois de anos no divã do psicanalista, curso de meditação para desligar a tensão do Rock in Rio em 1991, cinesiologia para deixar de fumar, neurolinguística para superar medos, formação em Reiki para entender a vida, constelação familiar para compreender a importância dos antepassados, só me faltava um curso para ativar a performance, liderança e ir em busca da felicidade…  Mindfullness, reconhecida como o grande pulo para o autoconhecimento da atualidade, é apontada como a ferramenta do momento… E tem sido bem revelador perceber que, repetindo, a esta altura da vida, ainda tenho o que aprender…

A bem da verdade, sempre acreditei que o dia que deixar de aprender, nem que seja o nome de uma árvore que está destruindo algumas tubulações do encanamento de casa, ou a ter uma percepção mais fina dos movimentos da maré, a vida terá acabado… Não vou dar spoiler dos caminhos que Bianca e Guido estão me levando a interagir em uma sala com quase 30 pessoas, de idades variadas, e com o auxílio de uma ferramenta incrível do Zoom, em determinados momentos ser levada para salas privativas, encontrar alguém que nunca vi e desenvolver exercícios bem interessantes… E estou revendo coisas que fazem me sentir viva, os meus desafios, as coisas que me irritam e quem eu sou quando estou no meu melhor…. Mas até agora a medalha de ouro vai para o aprofundamento sobre um tema fantástico: autocompaixão…

Jesus, como passei tanto tempo sem me ater a este tema… Que maravilha a nossa mente, seus meandros, gatilhos, sabotagens… Estou de olho em mim, estou com um olhar bem diferente para o outro, conhecendo o meu estado interno, as minhas preferencias, quais são meus recursos e minha intuições, como aponta Daniel Goleman, escritor “pai” da “Inteligência Emocional”, seu primeiro livro em 1995. Outro dia numa live com a Kika Gama Lobo, me defini com uma mulher sem limites. E é isto que me alimenta e me faz acordar numa alegria enorme, nem que seja apenas por perceber que está sol depois de algumas semanas de chuva, aproveitar a maré baixa, andar na praia e registrar a cena da foto acima… Aguardem a minha nova versão…

Para quem quiser conhecer https://siyli.org/