O professor de português

Com Professor Délcio, as professoras que não recordo o nome, e Janine Thomas

Tenho fugido dele há muitos anos. Quando se apresenta é sorrateiramente, no meio de uma grande mudança, ressurge do nada e me olha desafiador. É apenas um livrinho sem capa, com algumas folhas soltas, mas mexe com as minhas entranhas. Não pelo teor dos poemas de Castro Alves e nem por saber de cor “Vozes D´África” – Deus! Ó Deus, onde estás que não respondes!? Em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, que embalde, desde então, corre o infinito… Onde estás, Senhor Deus?…-  mas por lembrar sempre de onde veio.

A dedicatória quase apagada mesmo que desaparecesse eu não esqueceria e diz “À aluna Léa Ceres Viana Penteado vencedora do “I Concurso de Redação” realizado no Ginásio Batista Brasileiro em 1962”. Acompanha as assinaturas da diretora Zeni e do professor Delcio. Aos 13 anos cursando a 3ª série, como todas as alunas do ginasial tive que fazer uma redação para participar do concurso. Não lembro se o tema era livre, mas a minha tinha o título “Saudades”. Nunca fui atenta às regras de gramática, mas tinha estilo. Me lembro das 3 folhinhas retiradas do caderno onde passei a limpo com a letra cuidadosa e sem rasura a redação. Eu sabia que estava bacaninha, mas a estima não era tão elevada ao ponto de achar que seria a melhor. E não é que foi?

Como eu era apenas uma aluna mediana, nem tão bonita, nem rica, nem da Igreja Batista, ter sido a vencedora causou um mal-estar. Poucas horas depois do anuncio feito no alto falante do pátio com todas as alunas formadas em fila, começou o zumzumzum de que eu não podia ser autora daquela redação tão surpreendentemente boa. Eu gostava de ler e escrever, sempre fui criadora de histórias que só ficavam nos meus pensamentos e não sei de onde tirei inspiração para colocar no papel. Lembro alguns trechos e deve ter chamado a atenção do professor Delcio, um homem negro, muito magro, com mais de 60 anos, o fato do primeiro e o último parágrafo começarem exatamente iguais. Nem sei aonde vi isso, mas sei que fiz assim e deu um diferencial à redação.

A revolta das colegas era velada. Não falavam abertamente, só no cochicho. Fiquei constrangida, triste, fora do prumo durante algumas semanas. Puro bulling, diriam nos dias de hoje. Engoli seco, não comentei em casa, tive vergonha. Em algum pensamento maluco nos longos seis quarteirões que caminhava da minha casa à escola cheguei a duvidar que tivera competência para escrever. Eu não era tão boa assim. Meu guarda-roupas era uma bagunça, eu odiara meu irmão quando nasceu, roubei bombons de minha mãe, assisti TV escondido e com tantos erros como podia escrever bem e ganhar um concurso?

Perguntas que ficaram nas pedras chutadas e o tempo passou mostrando que escrever era mais forte do que todas as dúvidas, minhas e dos outros. No ano seguinte, na formatura do ginásio, fui escolhida para ser a oradora da turma e fiz um lindo discurso que ninguém mais podia contestar a autoria.

E bem nesta semana quando acerto escrever para o portal da minha amiga loura, o livro “Espumas Flutuantes” voa da estante e a história de como tudo começou vem à tona. Um fato jamais comentado nem nos divãs dos analistas, nem nas confissões da igreja, nem repetida para a família, filho, maridos, namorados, amigos chegados… Guardada no fundo do coração saiu sem dor e com uma enorme gratidão ao concurso de redação que mostrou o meu caminho.

Esta cronica, escrita para o portal Anna Maria Ramalho e publicada em 23 de março de 2015, republico em honra ao professor inesquecível…

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São João, acende a fogueira do meu coração

No final da rua da Margaridas, do lado esquerdo, antes de chegar no riacho, ficava a casa dos italianos Orabona. Nós morávamos no Brooklin, naquele tempo era um bairro distante do centro de São Paulo, onde ainda haviam chácaras, um rio aonde as crianças tomavam banho escondido dos pais, ruas sem calçamento, alguns sobradinhos, um colégio de freiras e outro dos padres, uma igreja a ser construída em mutirão, um pequeno comércio. Os italianos eram festeiros, assim como os espanhóis Alarcon que tinham o empório na esquina das Margaridas com Acácias.   

Eu esperava o ano todo pelas festas dos Orabona. Era tão bom quanto as férias no Rio. Nas semanas que antecediam a casa deles se transformava em atelier para construção de balões. Às vezes papai me levava prá ver aquele monte de papel de seda colorida que com recortes exatos e colagens magnificas com cola de farinha, se transformavam em peças únicas de uma beleza incrível. Tinham expertise em fazer a bucha e colocar de forma que subissem sem “lamber” (queimar), colorindo e iluminando o céu até se perderem no infinito. Na noite da festa me importava mais ficar olhando os balões no céu do que qualquer comilança… E a mesa era farta, mas eu só admirava sem preocupação com o meio ambiente ou o que a queda poderia provocar. Apenas sonhava em voar junto.   

Esta era a memória de São João até mudar para o Rio na adolescência e conhecer as enormes festas que aconteciam nas ruas da Tijuca. Cada dia uma rua enfeitada com bandeirinhas e bambu, quadrilha, barraquinhas, comilança com quentão, vestido estampado com enfeite de renda, chapéu de palha com flor. Uma agenda disputadíssima e eu nem olhava mais para o céu procurando balões, mas sim para os lados interessada nos rapazes…

São João sumiu e voltou quando eu tinha menos de 30 anos e passou a ser festejado em casa, aniversário do marido que também tinha o nome do padroeiro. Toda festa tinha um clima caipira, mesmo que discreto. Uma vez ousamos ao extremo e transformamos o quintal da casa dos meus pais em arraial com cenografia impecável, música ao vivo com um trio de zabumba, sanfona e triangulo, quentão, amendoim torrado, cachorro quente, milho, canjica, bolos… Festança para ninguém botar defeito. Da diretoria do Salgueiro aos atores do elenco da novela que ele dirigia !!

Acabou o casamento e São João também. Reencontrei o santo há 15 anos quando vim morar no Nordeste onde a festa é tão grande, como o fim de ano no Sul quando as famílias se reúnem, ou um thanksgiving na América. São muitos dias de celebração. Em Santa Cruz Cabrália é praticamente o mês inteiro. Tem festas no centro da cidade, nos bairros, nos distritos. Tem até um bairro com um Santo Antônio com mais de 14m de altura onde acontecem 13 dias de festas, com missas, bingos, shows, para a alegria do padre e do povo. Consta que em Vila de Santo André, antigamente a festa durava 3 noites e 3 dias de musica, brincadeiras e comilança. Este ano se repetem 3 noites com apresentação de quadrilhas, barraquinhas com quentão de jenipapo, amendoim cozido, curau, caldo de pinto, pipoca, bolo de milho. Forró tocando alto, criança correndo, a temperatura mais fria, mas não tem fogueira nem balão no céu… O que sobrou da Mata Atlântica agradece.

Rock’n roll na veia

Em julho de 1990 quando foi lançada a 2ª. edição do Rock in Rio em uma entrevista coletiva na Tribuna de Honra do Maracanã, local aonde aconteceria o evento, foi feita uma superprodução com jornalistas vindos de diversos Estados, o que gerou uma grande repercussão. No entanto alguns dias depois veio um balde de água fria com a divulgação da notícia de que o Maracanã estaria com problemas na estrutura e poderia cair. Tudo levava a crer que era briga política.  O governo estadual sentiu-se ameaçado com a projeção que Roberto Medina teve com o sequestro sofrido um mês antes e o fato poderia agregar valor à família Medina, com Rubem, irmão, deputado federal e possível candidato ao governo do estado nas próximas eleições. 

Por questões estratégicas, Roberto Medina preferiu ficar fora de cena enquanto não saíssem os laudos técnicos que comprovassem que estava tudo bem com o estádio. Sabíamos que era um movimento para desestabilizar o festival e como o meu negócio não era política, mas ganhar espaço na mídia, várias ações foram criadas, entre elas a “Escalada do Rock”, onde bandas novas participavam de um concurso, a ganhadora teria contrato com uma gravadora e se apresentaria uma noite.  Centenas de fitas cassete* chegavam por correio ou eram entregues na recepção da Artplan, agencia que produzia o evento. Passei dias, noites, fins de semana, todos os horários livres, junto com o produtor Charles Nogueira fazendo uma peneira que depois era enviada para uma comissão passar o pente fino.  

Um dia chegou não uma fita, mas o próprio interessado em participar. Tratava-se de Serguei, que conheci ao lado de Janis Joplin numa entrevista coletiva na pérgola do Copacabana Palace em 1970, e ao longo dos anos vinha batalhando na carreira de rock star… Serguei queria participar da “Escalada do Rock”, estava fazendo o maior movimento na imprensa e foi se candidatar. Super alto astral, uma figura fora de qualquer padrão, muito divertido, onde chegava se tornava estrela… A produção definiu que ele poderia se apresentar na seleção como “hors concours” e em honra ao rock teria seus minutos de fama na abertura de um dos shows… Serguei vibrou!  Acreditando ter sido eu a responsável sua participação, ao longo dos anos jamais deixou de telefonar, mandar recados por amigos, flores, elogios na imprensa, sempre agradecido pela realização do sonho… Confesso que não fiz nada, apenas levei o assunto ao “dono” do evento, Roberto Medina, ao produtor Dody Sirena, e ambos concordaram que ele era a cara do rock and roll… E foi e será para sempre a cara do rock … Agora é tempo de ser estrela no céu ! 

O cantor Serguei morreu na manhã desta sexta-feira (7), aos 85 anos, no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda (RJ), onde estava internado desde o fim de maio.  

*A fita cassete ou compact cassette é um padrão de fita magnética para gravação de áudio lançado oficialmente em 1963, invenção da empresa holandesa Philips. Também é abreviado como K7.

O cassete era constituído basicamente por 2 carretéis, a fita magnética e todo o mecanismo de movimento da fita alojados em uma caixa plástica, isto facilitava o manuseio e a utilização permitindo que a fita fosse colocada ou retirada em qualquer ponto da reprodução ou gravação sem a necessidade de ser rebobinada como as fitas de rolo. Com um tamanho de 10 cm x 7 cm, a caixa plástica permitia uma enorme economia de espaço e um excelente manuseio em relação às fitas tradicionais.

O audiocassete ou fita cassete foi uma revolução difundindo tremendamente a possibilidade de se gravar e se reproduzir som. No início, a pequena largura da fita e a velocidade reduzida (para permitir uma duração de pelo menos 30 minutos por lado) comprometiam a qualidade do som, mas recursos tecnológicos foram sendo incorporados ao longo do tempo tornando a qualidade bastante razoável. Recursos como: novas camadas magnéticas (Low Noise, Cromo, Ferro Puro e Metal), cabeças de gravação e reprodução de melhor qualidade nos aparelhos e filtros (Dolby Noise Reduction) para redução de ruídos.

Os primeiros gravadores com áudio cassete da Philips já eram portáteis, mas no final dos anos 70 com a invenção do walkman pela Sony, um reprodutor cassete super compacto de bolso com fones de ouvido, houve a explosão do som individual. ( Fonte Wikipedia)

Em memória do Segundo Caderno O Globo

Em novembro de 1976, numa certa manhã na redação da revista TV Guia (Editora Abril) o editor Edgard Catoira me chamou para avisar que ia ter um “passaralho”, termo muito utilizado nas redações em referência a demissões em massa, e meu nome não constava da lista. Porém, buscava colocação para os que seriam demitidos e numa conversa com o Henrique Caban, editor de O Globo, soube que havia uma vaga para cobrir a área de TV no Segundo Caderno do jornal. Caban se interessou pelo meu currículo, já vinha me acompanhando e, caso eu aceitasse, a minha vaga iria para um colega que estava na mira do corte… Fui pra casa pensar. Nunca tinha trabalhado em jornal, toda a experiência era em revistas e tv, o salário não mudava muito, mas soava como um desafio sedutor.  No dia seguinte fui conversar com o Caban e assim começou a minha vida nas Organizações Roberto Marinho onde mais do que jornalismo, aprendi a me colocar como mulher e profissional. Não que eu não soubesse me portar, mas diante daquela redação repleta de intelectuais, o que eu escrevia era considerado subproduto…. Além disso, constava no meu currículo ter sido secretária do apresentador de TV Flávio Cavalcanti, considerado super de direita, ter escrito e dirigido revistas de fotonovelas… Popular é pouco…

Era um tempo em que ainda havia o discurso “passei pela área de serviço e a minha empregada estava assistindo o Chacrinha” ou a referência à qualquer outro programa popular, onde também se incluíam as novelas. Sim, eu sabia sobre os bastidores deste mundo ‘pouco qualificado’ e ainda namorava um diretor de novelas… Conviver com uma repórter assim era divertido para a “inteligentzia” que queria saber se a Sandra Bréa era caso de que diretor, se determinado ator era “bicha” – ninguém era gay naquele tempo- ,  se a cantora era “sapatão”, se fulano tinha um contrato com tantos cifrões, e  outras tantas curiosidades do submundo do subproduto das celebridades… Apesar de todo o ar político e culturalmente correto, a redação era um mafuá. Móveis velhos e empoeirados, janelas enormes que descortinavam para o Batalhão da PM, a trilha sonora das teclas nas máquinas de escrever, os cinzeiros cheios de bitucas de cigarro e o desfile de lendas do jornalismo que entrava silenciosamente para entregar seus artigos, alguns até escreviam em máquina no fundo da sala… Um calor infernal, o sol da tarde era inclemente, mas foi ali que eu comecei a forjar essa mulher que sou hoje… Foi no campo do que hoje seria o “bulling” que me fortaleci e passei a ter orgulho do meu caminho… Diferente dos meus amigos, eu não tinha cursado qualquer universidade. Sou do tempo que para ter registro de jornalista bastava apenas mostrar serviço, e assim me tornei uma.  As tendências ao brega que construí ouvindo o rádio da Rosalina na cozinha da infância, as raízes da Tijuca no grupo MAU, tudo formava a identidade do que eu estava me tornando.

Foi a partir de uma reportagem onde eu revelava o conteúdo das cartas que os fãs mandavam para os atores, que o seleto grupo de colegas passou a olhar o meu trabalho com mais atenção. Eu era um pouco mais do que uma “repórter de tv”. Consegui esta matéria graças à “santa” Guta, diretora de elenco da Globo e com poderes sobre as grandes estrelas globais, que me permitiu ler as cartas onde os fãs revelavam seus sonhos e intimidades em relação aos artistas. Como exemplo, um determinado ator recebeu uma caixinha que continha um vidro para que colocasse o seu esperma. Ela sonhava ter um filho e poderia ser até desta forma.  Foi a partir daí que meu caminho na redação ficou mais fácil e passei a me sentir pertencente ao time.

Tite de Lemos, Ivo Cardozo, Leonal Kaz e por último Fuad Atala acompanharam essa minha trajetória em 5 anos na redação do Segundo Caderno. Eles nunca souberam o quanto eu era feliz em compartilhar nas páginas do Segundo Caderno, entre matérias sobre sofisticadas montagens teatrais, operas, exposições de arte, concertos sinfônicos, autores premiados, cinema de arte, as matérias popularescas como as que fiz com Gretchen, Wando, Sidney Magal, Júlio Iglesias, entre muitas outras, além das estreias de todas as novelas…

Estas lembranças chegaram ao amanhecer quando soube da partida do querido Fuad Atala para redações celestiais. No ultimo dia 4 de abril quando reunimos uma parte dos Dinossauros de O Globo num jantar no Rio, chegamos a fazer um crachá para ele, mas com a saúde debilitada não pode brindar a amizade deste tempo tão feliz… Na foto, a alegria da nossa juventude e Fuad atrás da grande mesa com total maestria regendo todos nos… dezembro de 81, um pedaço da nossa equipe… ja não estão mais Sonia Biondo e Flavia Villas Boas… Presentes Leonel Kaz, Ana Maria Ramalho, Flavio Marinho, Terezinha Larcher, Eliane Levy de Souza e um pedacinho da Heloisa Daddario… Fomos muito felizes e continuamos a ser por ter tanta historia prá rever…

Educação

Não poderia ser mais adequado para o momento que o país atravessa o evento que assisti no fim de semana.  Parafraseando Artur Xexéo, “os meus pouco mais de 33 leitores” sabem que moro em Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia, menos de 30 mil habitantes e tem como base econômica o turismo, a pesca e a agricultura. Uma cidade linda, histórica, poucos recursos, enorme extensão territorial e muito simples. Quando cheguei há 15 anos havia uma faculdade em Coroa Vermelha, um distrito na entrada da cidade. A Faculdade do Descobrimento tinha um campus bem estruturado, cursos de Administração e Enfermagem, previsão de outros tantos como Medicina. Mas algo deu errado, foi desativada e o local tomado por índios. Sim, índios.  Cabrália é uma das cidades com maior número de índios em área urbana no país.

Sendo assim, a educação ia até o ensino fundamental. Quem mais quisesse aprender deveria partir para cidades próximas como Porto Seguro e Eunápolis. Há uns quatro anos encontrei com uma amiga que disse ter entrado para a Faculdade de Pedagogia em Cabrália. Alvíssaras! Fora implantado o núcleo de uma universidade de Itabuna e ela vislumbrou a chance de voltar a estudar mesmo passando dos 40 anos. Algumas vezes voltei a perguntar sobre a faculdade, percebi um desapontamento nas entrelinhas, mas ela não desistira. Finalmente no último fim de semana a formatura aconteceu e lá estava eu. Menos de 20 formando entre administração e pedagogia, um enorme orgulho mesclado de emoção refletido nas famílias e amigos presentes. Confesso que nem me lembrava como é a cerimonia dessas… O última que eu poderia ter assistido foi a do meu filho, mas ao terminar o curso ele foi estudar nos Estados Unidos e não acompanhamos as festas. Mas numa cidade pequena como Cabrália este é um momento emblemático.  Tão significativo quanto um casamento. Trajes de gala, entrada triunfal, mesa composta por professores e um representante do legislativo que escorregou no plural de cidadão. Flores, trilha sonora épica que às vezes encobria os discursos, protocolos, muitos flashes. Até o vice-prefeito na plateia.

Enquanto o evento acontecia fiquei tentando decifrar na expressão de cada formando os desafios passados para chegar até este momento. Não eram apenas jovens, mas homens e mulheres de todas as idades. Muitos foram levados até o palco acompanhados por vários membros da família, quase uma procissão. Outras de braço dado com filho, também com a esposa de um lado e a filha do outro, com o pai e a mãe, ou seja, chegavam com os que haviam impulsionado esta realização. Assistindo a tudo pensei no diferencial que estas 19 pessoas farão à cidade, mais do que na formação da massa crítica, me contento com o exemplo que darão no seu entorno.  Já falam em pós-graduação, mestrado, doc, pós doc, phd, enfim uma carreira acadêmica. Fico feliz em saber que com o estudo passam a ter mais consciência da função como profissionais e o crescimento na forma de analisar, refletir e tomar decisões. Volto para casa com o sentimento de que alguma mudança positiva pode acontecer em Cabrália e, apesar da crise na educação universitária em todo o país, tenho o foco no meu quintal.      

Entusiasmada com o que presenciei, fui em busca de mais informações para escrever este texto e, com enorme tristeza, soube que o curso acabou. Foram as primeiras e únicas turmas deste núcleo que, segundo um aluno, apesar do empenho de professores foi um fracasso. Aula 1 vez por semana, sem conteúdo online, apenas email e a maior parte da comunicação por whatsaap. Não haviam apostilas, nem cronograma do curso. Será que estas universidades franqueadas e que sabem cobrar muito bem oferecem cursos através do FIES do tipo “você brinca que ensina e eu brinco que aprendo”?

Pobre educação brasileira ! Não se pode brincar com a formação de profissionais. Estudo é coisa séria, um titulo acadêmico vale uma posição melhor num concurso, na pontuação de um caro público, mas não melhora o mundo. O que mais entristece é saber que tem muita gente querendo estudar, sonhando mudar de vida, fazer uma nova história para a família, criar um novo lastro de conhecimento e sabe lá o que vai encontrar pela frente… Aos formandos desejo sucesso, que este seja apenas o primeiro canudo de muitos e o próximo seja em melhor instituição.

O Mago

Com a noticia da partida de Namur, fui buscar o que escrevi no livro “A Verdade é a Melhor Notícia”. Namur, grata por você ter me aberto a porta de um mundo mágico…. Descanse em paz…

Na foto, em um aniversário, com Namur, Carlos Alberto Torres e Tetê Nahaz.

Quem nunca teve vontade de ir a uma cartomante que atire a primeira pedra. Mas daí a entender do assunto há uma distância muito grande. Por isso um dia, quando um querido amigo diretor de programas da TV Globo telefonou pedindo que fosse ao encontro de um tarólogo, achei estranho. Não estava interessada em saber da minha vida nas cartas, mas a razão do convite era outro. Ele pedia discrição ao fato de se consultar com frequência com este profissional que estava em vias de lançar um produto e procurava uma assessoria de imprensa. Muito mais por respeito ao amigo do que interesse em trazer para o meu escritório um assunto que eu não conhecia, fui ao encontro do mago no bairro de Botafogo. Era um edifício residencial, discreto, onde em dois apartamentos havia a presença do mago. Em um ele dava aulas e colocava cartas, no outro residia e se movimentava entre os dois numa cadeira de rodas. 

Com lindos olhos azuis, voz grave e fala macia, Namur Gopalla foi me contando sobre o projeto que estava desenvolvendo há 5 anos junto com a artista plástica argentina Martha Leyros, sua aluna há 8. Estava pronto para sair das máquinas o primeiro baralho de tarô criado no Brasil. Mas o assunto era bem mais profundo do que os desenhos criados pela artista seguindo as formas dos baralhos tradicionais. Estávamos falando de ciência que até onde se sabe chegou à Europa através dos árabes no século 14 e eu não podia simplesmente “decorar” o nome das 22 cartas e sair falando por aí. Pensava sobre isso enquanto ouvia o mago contar sobre cada detalhe dos desenhos. O que à primeira vista parecia uma ilustração simples, estava repleta de significados e como eu não era iniciada no ocultismo, parecia que ele falava grego. Existe uma linguagem que chamei de “taronês” envolvendo lâminas, símbolos e formas de se posicionar as cartas em um jogo. O tema era sedutor, as cartas desenhadas a bico de pena e coloridas com lápis de cor, eram um sonho. E diante do meu interesse em entender melhor este mundo ele me convidou para participar de um curso que aconteceria no fim de semana seguinte.

Namur era muito bom de didática e como era um mestre no assunto, em dois dias me deixou informada o suficiente para “vender” a ideia. Mas eu queria entender mais e estudando percebi que falar sobre ocultismo é como andar sobre um fio de navalha: se o assunto não for muito bem colocado, pode cair na vala comum e se tornar uma conversa de comadres no cabeleireiro sobre cartomante. Consultei as meninas da equipe e concluímos que para aceitar esse trabalho tínhamos que dar um tiro certeiro, uma bela matéria que gerasse confiabilidade, mostrasse categoria e desse status ao lançamento do tarô. E o melhor veículo seria a revista Veja. Não queria menos do que isso.

Para dar embasamento, entrei de cabeça no tema, fiz uma pequena pesquisa entre amigos e percebi que dentre todos os temas ligados ao oculto, como o I Ching, a quiromancia, a bola de cristal, o que mais caia no gosto do brasileiro era o tarô. Mistura de tradições egípcias e ciganas, o tarô permite que através de suas cartas, ou lâminas, os iniciados possam ler o passado, interpretar o presente, projetar o futuro, e os fatos são contados através da forma como as cartas são colocadas. Embaixo dos panos, de forma discreta, algumas figuras de expressão e da sociedade consultavam o oráculo e frequentavam os cursos que Namur oferecia. O tarô por ele criado com a artista plástica Marta Leyros, era muito elegante. Ao contrário de alguns baralhos europeus que conheci cujos desenhos são mais duros, cores esmaecidas e sombrias, o brasileiro trazia os símbolos com cores alegres, dando uma versão mais tropical sem perder, porém, o significado repleto de simbolismo que compõe cada elemento. 

Eu já tinha mais que “comprado” as maravilhas do tarô, quando procurei a redação da Veja. Não coloquei as cartas para saber se aceitariam a proposta, mas eles gostaram da ideia. Pediram exclusividade e durante duas semanas, até a publicação da matéria, eu nem pensava no assunto temendo que transpirasse em outro veículo. Não era um tema bombástico, mas a matéria na Veja era fundamental para os desdobramentos planejados. No dia 2 de setembro de 1987 lá estavam em matéria de página inteira o mago e a artista. O assunto tratado com respeito, pontuou o lançamento do baralho cuja primeira tiragem de 10 mil cópias se esgotou em poucas semanas. O mago que já era reconhecido no meio do ocultismo ampliou seu mercado e se tornou uma estrela do esoterismo. A reportagem pautou todos os outros veículos. Nem foi preciso distribuir release, o interesse sobre o assunto era grande e nosso maior trabalho era peneirar os interesses para não desgastar a imagem. Com um jeito misterioso, a barba alourada cobrindo o rosto, Namur agregava ainda mais magia à sua arte. O seu baralho de tarô até hoje é vendido no Brasil e em diversos países. O meu está guardado no fundo de uma gaveta.

Sobre Domingos de Oliveira

Em janeiro de 1992 eu estava fazendo assessoria para Gloria Menezes e Tarcísio Meira que produziam e encenavam a peça “O Duplo”, texto e direção de Domingos de Oliveira no Teatro dos Quatro. Uma noite enquanto a peça acontecia, saí no lobby do teatro para fumar e Domingos me falou sobre um texto que sua filha com mais algumas amigas haviam escrito. Seria uma peça que ele estava dando a maior força, tanto que estava dirigindo, prestes a estrear e precisavam de uma assessoria de imprensa. Mas caíam na questão da falta de orçamento. Era um projeto ousado e me convidou para assistir a uma leitura algumas noites depois em sua casa. Topei mesmo sem saber o que era e na hora marcada lá estava acompanhada do Bernardo, meu filho que recentemente deixara a adolescência. Ofereceram-me um lugar de honra no sofá de veludo vermelho e as quatro meninas com os textos na mão, acompanhadas de um rapaz que tocava violão, encenaram o espetáculo na minha frente. Foi um soco no estômago. Fiquei ouvindo de boca aberta, completamente chocada com a atualidade e a forma direta como falavam de seus problemas, das suas alegrias. Era diferente de tudo o que eu tinha assistido em teatro nos últimos anos, e eu tinha assistido muita coisa!

Fiquei tocada com a peça que chamavam de “Diário de Uma Adolescente” e entrei de cabeça no projeto. Como não havia orçamento, ofereceram-me um pequeno percentual da bilheteria de um teatro com 85 lugares, previsão de 2 encenações por semana e o ingresso ao preço de 5 “dinheiros”. Fiz os cálculos e se tudo desse certo teria o dinheiro “para a feira”. Mas alguma coisa me dizia que ia ser sucesso. Recebi um excelente material fotográfico feito por Guilherme Rozembaun, irmão da atriz Priscila Rozembaun, mulher do Domingos, pois esta produção funcionava como uma ação entre amigos. Sugeri o título “Confissões de Adolescente”, bem mais intimista, e como alguns trechos da peça ainda estavam manuscritos e sem a ordem de apresentação, digitei e imprimi para registro na SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).

Fiz um release encadernado com muitas páginas. O espetáculo assim merecia, não havia outro no gênero. Apesar da total falta de pretensão com um orçamento de 300 dólares o espetáculo tinha uma grande verdade.  “Confissões de Adolescente” surgiu do diário de Maria Mariana, filha de Domingos de Oliveira e foi acrescido de pensamentos e situações vividas por outras três jovens que, junto com Mariana, compunham o cast: Carol Machado, Ingrid Guimarães e Patrícia Perrone. 

O material chegou nas redações dos jornais e surpreendeu aos editores que não sabiam nem em qual retranca enquadrar o espetáculo. Não era teatro adulto nem infantil, criaram assim a retranca Jovem. A estreia da peça foi destaque nos cadernos de fim de semana, capa dos cadernos de cultura não só por seu ineditismo como também por ter estreado num sábado após o carnaval quando nada de novo havia no mercado cultural. O que podia ser uma zebra foi a loteria.

No sábado 7 de março, antes das 5 da tarde os ingressos estavam esgotados. A cena era inusitada: pais deixavam filhos na porta da Casa de Cultura Laura Alvim e marcavam hora para buscá-los no final. A crítica teatral Barbara Heliodora, por não ter confirmado com antecedência, teve que voltar para casa pois não tinha um lugar disponível. No domingo repetiu o mesmo sucesso e no fim de semana seguinte foram programados 2 espetáculos por dia, e no sequente a sexta-feira já estava incorporada à agenda. As críticas foram unânimes em aplaudir a peça que abria caminho para outros tantos no mesmo segmento. Dois meses depois, “Confissões de Adolescentes” saiu do Porão da Casa de Cultura Laura Alvim para o teatro principal do mesmo espaço com uma plateia de 250 pessoas. Em poucos meses estavam no teatro Candido Mendes em Ipanema, e não demorou para chegarem no Teatro Casa Grande com 700 lugares, levantando voo para um sucesso maior. A peça virou livro best seller, áudio-livro pela gravadora Polygram (o primeiro lançado no Brasil), virou mini-série de TV e foi indicada ao Prêmio Emmy da TV Americana. Mais de um milhão de pessoas assistiram a este espetáculo no Brasil. O percentual de bilheteria que eu tinha direito e a princípio daria para a feira semanal, foi importante no meu orçamento o ano inteiro, até que em janeiro de 1993 me desliguei do projeto ao assumir a Assessoria de Eventos da Prefeitura do Rio de Janeiro.  Em 2004, chegando para fazer uma palestra na Universidade de Coimbra, atravessava um teatro a caminho do auditório quando vi umas garotas ensaiando uma peça. Reconheci uma parte do texto e fui conferir. Era Confissões de Adolescentes além mar.  (Texto do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”)
Obrigada Domingos de Oliveira por ter me proporcionado este enorme prazer e ter contribuído para o teatro jovem… Boa caminhada por outros palcos…

Em sintonia com a vida

Inúmeros sites vêm anunciando um evento que, a princípio, começou em novembro de 2018 e hoje chega ao ápice com o equinócio de outono, quando o Sol distribui sua luz de forma igual, a ambos os hemisférios do planeta.  Do ponto em que estou há 15 anos, num pequeno povoado cuja única poluição é de raras queimadas e alguns carros de som, com tempo para ver o nascer da lua e do sol, perceber um vento mais frio com o aviso de chuva, maré subindo e descendo, canto dos pássaros, percebo também pessoas que chegam e partem. Muitos são turistas, outros buscam uma outra vida com mais qualidade. Nem todos conseguem ficar por muito tempo, tanto viajantes que não aguentam a falta de agitação, como os desejosos de um novo destino. Santo André é para fortes, tem algo de místico e mágico, tem algo de mix de tribos que nem sempre convivem em harmonia, tem algo de sedução e repulsa, mas isso só se descobre com o tempo. E quem se encanta volta sempre.

Entre os muitos passantes e chegantes surgem os místicos. A energia pura pulsante, muito mar, rio, matas, poucas torres distribuidoras de poluição eletromagnética, é um convite para a reflexão. Os praticantes de yoga já descobriram o caminho e já ouviram a lenda de que há um Santo André de ouro guardado no fundo dessas terras. O santo teria sido trazido por um padre temeroso que a imagem desaparecesse como tantas outras da sua Igreja. Dizem que este mistério acessa uma memória profunda dos que passam por aqui e querem descobrir a própria essência, o seu ouro interior. Tem algo que não vemos e nem tocamos. Apenas sentimos como o brilho do ouro no fundo da terra. 

No feriado de 12 de outubro Halu Gamashi teve esse sentimento ao atravessar o rio João de Tiba. Médium, paranormal, autora de 10 livros, criadora de técnicas corporais e sutis, atuando há mais de 25 anos como professora, participando de congressos e workshops sobre anatomia do corpo sutil, chakras, campo áurico, filosofia, saúde e comportamento humano em diversas cidades brasileiras e europeias, chorou ao cruzar o rio. Convidada a trazer suas técnicas terapêuticas para um workshop de ashtangha yoga, conta que sobre as águas, enquanto a balsa fazia a travessia de pouco mais de 10 minutos, sentiu como se estivesse chegando em casa, sem jamais ter pisado em Santa Cruz Cabrália, cidade onde o “Brasil” começou.

Baiana de Salvador, andarilha pelo mundo, morou em mais de 400 cidades em seus 58 anos, sempre seguindo as indicações do seu guia espiritual que diz a acompanhar desde os 3 anos de idade. Estava instalada em Lisboa, onde lançou livros e atuava com terapias quando, no início de 2018, recebeu a recomendação de seu mentor para uma nova mudança: a Costa do Descobrimento. Instalou-se em Trancoso onde vivera nos anos 80 mas não sentiu a mesma energia do passado. Ficou aguardando novas indicações até que veio o convite para o workshop em Santo André e, desde então, não mais saiu.  Por ter chegado ao povoado com a cabeça raspada é chamada por alguns de “a monge de Sto André” e conta como sua mediunidade surgiu na primeira infância:

“Penso que não escolhi dedicar a minha vida à vida espiritual. Hoje sei que antes de encarnar assumi este compromisso. Fiz esta descoberta aos vinte e nove anos de idade, porém, desde que nasci as idiossincrasias e as peculiaridades que naturalmente despertaram em mim fizeram com que, aos três anos de idade, alguns dos meus familiares buscassem na espiritualidade um remédio. Os médicos quando me viam adoecer, não conseguiam chegar a um diagnóstico e “doenças atípicas” era o que a minha família começava a ter como resposta. A falta de esperança, o medo de me ver morrer foi a porta que se abriu para que eles procurassem a espiritualidade a fim de restabelecer a minha saúde, e isto virou um hábito: eu adoecia (febre reumática atípica, paralização dos rins, pequenos infartos), os médicos não encontravam diagnóstico e eles me levavam à uma casa espiritual. Faziam isto escondido por temerem serem rejeitados pela sociedade em que viviam. Assim foi até os meus dezoito anos quando descobri que não precisava adoecer e sim conhecer, afinar minhas energias, alinhar-me”.

Em uma trajetória de grandes desafios, tanto físicos como mentais, muitas vezes foi apontada como louca e não conseguia se entender por ser tão diferente das outras pessoas…

“Disseram-me que a espiritualidade tinha um projeto para mim. Confesso que aos dezoito anos, muito ignorante ainda sobre esse mundo invisível, me senti invadida e pensava: ‘Como é isto? A espiritualidade tem um projeto para mim? Eu queria ter o meu próprio projeto’. Porém, apesar destes questionamentos, durante nove anos morei em uma chácara-escola que me iniciou nos conhecimentos e na magia branca dos elementos da natureza, a água, a terra, o fogo, o ar, a madeira, os rios, as cachoeiras”.

Sem querer se prender a qualquer seita, a casa aonde viveu nesse período não era religiosa. Não era candomblé ou umbanda. Era uma casa que estudava a influência das energias da natureza nos humanos voltada ao conhecimento e à medicina mais do que aos mitos e mitificações. Antes de completar 28 anos saiu da casa, era tempo de conhecer o mundo.

“Disseram que eu estava pronta para canalizar mensagens e que a espiritualidade me ensinaria outras coisas e daria novas iniciações.  E descobri, aos vinte e nove anos, o porque de toda a minha vida estar sempre perto das energias da natureza e desse mundo sutil. Se minha família não fosse tão preconceituosa este caminho não teria sido tão difícil: realmente encarnei com o compromisso espiritual e se lutei tanto contra os preconceitos da minha família é porque havia em mim um chamado, muito forte para me aprofundar nesse universo. ”

Halu lamenta que os temas espirituais, principalmente a inteligência espiritual, sejam tratados com descrédito, banalidade, superficialidade e ironia, principalmente por alguns paranormais que valorizam muito mais os fenômenos do que os seus significados. Neste processo de vida, um dia percebeu que seus chacras se abriam em fendas no corpo físico, como na testa, na palma das mãos e no plexo solar, causando um profundo estranhamento. Todas essas manifestações foram registrados em fotografias, acompanhados por médicos que jamais conseguiram chegar a um diagnóstico.  As marcas dos movimentos dos chacras estão presentes e o processo acontece com assiduidade, principalmente quando ela percebe movimentos estranhos no planeta.

“O fenômeno, em mim, sempre o compreendi como uma mutação, o crescimento de um órgão sutil que abriria os meus canais para aprendizados mais importantes. Foi este o valor que dei aos fenômenos: eles precisavam acontecer para gerar mutações no meu corpo material que me viabilizassem o acesso à informação, e hoje tenho certeza que se tivesse escolhido parar nos fenômenos, utilizá-los como forma de convencimento para outros – o que chamam de exposição mórbida – eu não teria cumprido a minha missão de alcançar uma comunicação, que volto a repetir, sinto-me na obrigação, dever e direito de dividir com quantos queiram ler ou ouvir”.

Halu explica em seus livros que o termo chakra (em sânscrito significa roda), são portais de entrada e saída de energias, com muitas funções; podendo ser definido como radares energéticos que sintonizam a relação entre o corpo físico, o períspirito e a alma, sincronizando o produto desta união com o Universo. Então, rodando ou girando, esses pontos captam as energias sutis do universo, distribuindo-as pelo corpo. Como resultado das suas vivências no mundo espiritual desenvolveu setenta técnicas terapêuticas que visam a harmonia e o equilíbrio nos corpos físico, emocional e espiritual através do alinhamento dos chakras.

Autora com mais de 10 livros publicados no Brasil e Portugal, dentre eles: Caminhos de um aprendiz; Plano inverso; Chakras, A História Real de uma Iniciada; Chakras, The True History of a Medium; Clandestina, O Resgate de um Destino; Conde Vlado, um Alquimista em busca da Eternidade; A Hermenêutica de Deus e o Código Original; Meditando com a Consciência Suprema e O Livro dos Sonhos Cabalísticos, Halu Gamashi há 20 anos ministra cursos de terapia em uma escola em Yverdon Les Bain, na Suíça. Desenvolveu também uma linha de produtos – Maberu – que tem auxiliado e melhorado a qualidade de vida dos seus pacientes. 

Uma das coisas que Halu Gamashi mais gosta em Santo André é sentir que está em um povoado onde o respeito às diferenças e a amizade são valores reais e objetos de permanente cultivo. Em 5 meses já apoiou projetos voltados às raízes e à cultura local, como a Festa de Iemanjá dia 2 de fevereiro, o Batismo de Capoeira, a abertura do carnaval bem no tradicional estilo baiano com entrega da chave da cidade a Rainha Moma. Seus pacientes e alunos que vêm de diversas partes do país têm trazido um novo movimento ao povoado. Até um suíço, campeão de snow boarding, está continuando sua formação e aprendendo português. Os seminários que realizava em sua chácara no interior de São Paulo, depois em Portugal e em tantos outros países, começam a ser realizados na Bahia. O próximo será de 17 a 21 de abril, Semana Santa onde compartilhará conhecimentos e aplicará técnicas como a fluidoretapia e leitura de aura. Em seu site publica constantemente artigos canalizados através de suas viagens astrais e, segundo ela, sobre Vila de Santo André há uma colônia espiritual. São cidades espirituais que servem de morada para os espíritos com algum grau de evolução, aguardando a reencarnação.  Quem sabe o Santo André de ouro perdido é sinal deste mistério ?

Foto : Cláudia Schembri

Para quem ama animais…



O ano passado perdi uma amiga. Um câncer fulminante a levou em poucos meses, depois de ter realizado o sonho de passar um Natal com neve em Nova York.  Ela era louca por Natal e por Nova York, realizava um sonho duplo. No Rio ela morava com um cachorrinho muito mimado. Como não tinha nem pais nem irmãos, seus bens foram para uma tia distante, assim como a guarda do animal. Os amigos desolados com a partida brusca, também ficaram preocupados com o fim do bichinho de estimação. Todos sabiam que era de convivência difícil, tinha milhões de manias, não ia à rua, fora diagnosticado com problemas cardíacos e nos ossos, e como sobreviveria com a ausência de quem o cuidava com tanto amor ?

De vez em quando comentava com amigos sobre o destino do animal e era uma incógnita. Até hoje quando soube que a tia, na mesma época que recebeu o cão, estava hospedando um sobrinho que fora ao Rio terminar um doutorado.  O sobrinho e a esposa tomaram-se de amores pelo pequeno que se revelou educadíssimo, sem mimos ou dificuldades. Resumo :   Keith, este é seu nome, foi adotado e hoje mora em Nova York. Exatamente onde sua “mãe” sonhava viver…Milagres acontecem…

 

…e as crianças como vão ?

O tema Alzheimer voltou aos meus pensamentos com a morte da atriz e cantora Edyr de Castro. Ao ler a notícia tive a sensação de que não fazia muito tempo que ela fora diagnosticada e levada por amigos para o Retiro dos Artistas. Ah! como gosto do Retiro dos Artistas… No entanto quase 8 anos se passaram, o tempo corre… É mais ou menos este o período que acompanho o mesmo diagnostico em uma pessoa muito querida. Na verdade, creio que fui eu quem detectou algo estranho quando ela chegou para umas semanas de férias. No caminho do aeroporto à minha casa percebi que repetia os mesmos assuntos, creditei ao fato de estar animada com a viagem e muito para contar depois de um ano sem nos vermos. No entanto com o decorrer das semanas todos em casa foram notando a repetição das histórias e culminou com a Torta Alemã.  Ela sempre fez maravilhosas tortas para festas de família, principalmente a Alemã, e se prontificou a fazer uma para a ceia de réveillon. Comprei os ingredientes e ela avisou que faria a sua obra prima um dia antes para ficar mais saborosa. Faltando 4 dias para a festa ela acordou pronta para fazer a torta. Perguntei se não era para fazer na véspera, ela percebeu que tinha se confundido com as datas, afinal estava de férias e ”todo dia é domingo”. E este diálogo se repetiu nos dias seguintes até finalmente chegar o momento de fazer a sobremesa. Esta cena acendeu em mim uma luz vermelha, e quando voltou para casa enviei um longo email para a família contando os fatos, relatando a preocupação.

Alguns meses depois viria o diagnostico que ninguém queria ouvir, o próprio mal alemão, Alzheimer. Durante alguns anos permaneceu lucida, com alguns momentos de confusão mental. Voltou a me visitar outras vezes, tratei com cuidado, deixei o portão fechado com chave, temia que saísse pelas ruas da vila e não soubesse voltar… E pensar que ela caminhava pela estrada de terra, ia de uma ponta a outra da praia, passeava em Porto Seguro, e isso não fazia tanto tempo.  Foram dias difíceis ver como alguém que foi referência na minha história caminhava sem direção, pensamentos trocados, memórias confusas… Continuei percebendo as mudanças nos telefonemas algumas vezes por semana. Creio que ela não sabia que eu telefonava tantas vezes. Aos poucos a sua mente foi cada vez mais sendo tomada pelo “alemão” e as conversas eram confusas. Quando telefonei no aniversário ela disse que estava passeando em Itaipava. Como assim, se falávamos no telefone fixo?

O desgaste familiar foi ganhando espaço, todos exaustos, tristes, vencidos, enquanto o “alemão” se incorporava no dia a dia. Causava preocupação, temor por ter que ficar sozinha, contratou-se uma acompanhante, mas não era essa a solução. Chegou o momento que não se queria ver nem viver aquele drama. A escolha foi leva-la para uma casa de repouso onde teria tratamento, cuidados e atenção. Ninguém sofreria ao ouvie suas conversas truncadas, pois não tinham convivido com a mulher ousada, brilhante, perfeccionista, divertida, companheira, inteligente, irônica, uma grande companhia. E assim ela foi para uma casa que, por ironia do destino, está localizada em uma rua que homenageia um de seus antepassados. Tudo em família. Ontem pela primeira vez telefonei e depois que me identifiquei ela perguntou: “e as crianças como vão?”.  Não sei com quem pensou estar falando, certamente não era comigo. As crianças vão bem, nas minhas lembranças da infância… As crianças ainda somos nós…