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…e assim se passaram 15 anos

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Apesar de minha mãe dizer que acabamos como pó, prefiro acreditar na alma e que quando as pessoas morrem vão para um outro local, um novo cenário e um dia nos reencontramos. Este sentimento espiritualista cristão me acalma.  Mas em nenhum momento diminui a vontade em estar junto. Recentemente na novela “Eta mundo bão” o personagem central repetia que “tudo de ruim que acontece é pra melhor”. Desculpe Walcir Carrasco, autor da novela, mas esta frase é minha, repetida intensamente nos últimos anos. Repito para mim  e para amigos em crise… Nada poderia ser pior do que a partida tão rápida do meu irmão. Em apenas 9 meses aquele homem lindo, cheio de sonhos, cumpriu sua parte nesta dimensão e se foi. Se ele ainda aqui estivesse certamente eu continuaria vivendo em uma vida louca entre Rio e São Paulo, sabe-se lá por onde mais, e apenas usufruindo deste paraíso nas férias… Não teria aprendido com a mudança das marés e as luas o verdadeiro movimento da vida… Hoje vivo na casa que foi dele, ainda com muitos de seu mas do meu jeito…Sou feliz em saber que ele está só do outro lado da cortina … Quem sabe vendo eu cuidar de tudo, da grama que nasceu, as árvores que estão altíssimas, das novas flores que plantei, da horta e dos amigos que me visitam e ouvem eu lembrar de suas historias… Cada dia que amanhece ou mergulho no mar agradeço por este presente. Qualquer hora nos vemos meu querido irmão… Hoje são 15 anos de sua partida…

Foto feita por Leila Castanheira, primeira travessia da balsa, 1992.

Meu Natal

dd4dc2c5-a22c-4f2b-9efd-f89009b4ef11Então é Natal… Não vou cantar a música da Simone nem lembrar que desisti de festejar há 15 anos… Este ano tudo está diferente. Em julho quando vi o meu braço esquerdo imobilizado devido uma queda, tive tempo para refletir sobre a importância dele… Sou destra, mas a parceria é dos dois… Pra escrever, pra me banhar, pra dirigir, pra comer, pra tanta coisa, inclusive costurar… E aí me deu uma vontade enorme de fazer bonecas, mas como ? Então para estimular o braço a ficar bom, prometi a mim mesma que faria muitas bonecas para distribuir às crianças da escola infantil de Santo André… 22 meninos e 19 meninas…   E assim, depois de 1 mês de gesso, dois meses de fisioterapia, fui recuperar os movimentos brincando de fazer bonecas de pano, com enorme carinho e amor, imaginando cada criança que iria receber. Detalhes de laços de fita, babados, bordado inglês na saia, arremate feito a mão nas camisetas dos meninos, cabelos de lã … Estes meses se passaram e com a ajuda da Lelê na “”costura reta” completei minha missão… Ainda fiz sacos para embalar e coloquei o papelzinho com o nome da criança para Papai Noel não se confundir… A festa aconteceu a semana passada e não assisti. Acho que iria me debulhar em lágrimas e tinha a desculpa da chegada de um amigo… Agradeço à Claudia Schembri que fez as fotos, a Sara Amorim que gentilmente trouxe de sp tecido marrom que não encontrei por aqui e Patricia Farina, diretora do Centro Educacional Maria Marta, que me permitiu fazer este sonho. O meu Natal já rolou… Não vi Papai Noel, mas não importa…

Em tempo : as bonecas de pano que faço são inspiradas na Tilda, criada pela design norueguesa Tone Finnanger que também desenvolveu outros tantos produtos em tecido como coelho, colchas, almofadas, etc… A minhas Tilda tem 53cm de comprimento, olhos pequenos, bochechas rosadas e pescoço alongado… Como todas as Tildas do mundo não tem boca, as crianças falam por elas…

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Carlos Alberto Vizeu

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Carlos Alberto Vizeu com seu grande amigo Boni.

Quando ainda não se falava em preservar memória, eu já guardava fotos, cartas, recortes das reportagens que escrevi…. Isto faz tão parte do meu DNA que escrevi  3 livros que caminham nesta esfera : Um Instante Maestro, sobre o apresentador de TV Flávio Cavalcanti; O Rei na Terra Santa, sobre a produção do show em Jerusalém, e A Verdade é a Melhor Notícia  onde relato a experiência de 30 anos em assessoria de imprensa. Com as empresas e pessoas com quem trabalhei, fechei cada projeto em caixas, pastas, onde entreguei todo o processo bem detalhado, documentado… E acho que foi esse meu olhar para a história / estória que me aproximou de Carlos Alberto Vizeu, profissional de publicidade, produtor e diretor de TV, que cuidou da memória da TV brasileira como se fosse a da sua família.

Conheci Vizeu quando ele procurava um jornalista para apresentar um programa de entrevistas que ocuparia um horário que a sua produtora, TeleTape, tinha na antiga TV Corcovado, de segunda a sexta, das 19 às 20hs. Nós tínhamos amigos em comum e foi num fim de tarde no Antoninos, à beira da Lagoa, que ele me falou sobre o projeto e dei a sugestão de uma série de profissionais que poderiam exercer a função… Mas foi na saída, me acompanhando até o carro, que Vizeu foi definitivo: “eu quero você apresentando o programa. ” Delírio, pensei. Eu tinha um escritório de assessoria de imprensa, muitos clientes e nenhum interesse no assunto. Televisão era uma lembrança do início da vida profissional, sempre morri de vergonha de me ver na telinha, fazer entrevistas fora de cogitação… Aconteceram mais alguns encontros para falarmos sobre este suposto programa que “alguém” iria apresentar e no final Vizeu me ganhou… Superei as dificuldades, aceitei a minha voz rouca, arrumei espaço na agenda e foi um ano imensamente feliz produzindo e apresentando o “Programa da Noite”.

Um ano feliz onde tive a oportunidade de conhecer o Vizeu devoto de Santa Edwiges, filho da Da. Yolanda e do Sr.Ary.  De conhecer Vizeu diretor de comerciais premiados nacional e internacionalmente, que preservava a memória da publicidade através do programa Intervalo, exibido durante muitos anos na então TV Educativa. E conhecer também o Vizeu apaixonado pela TV e sua trajetória, que anos depois pesquisou, escreveu, roteirizou e dirigiu um belíssimo documentário sobre os 60 anos da tv brasileira abordando os temas Os Pioneiros, Teledramaturgia, Telejornalismo, Show e Auditórios, Humor, Infantil, Propaganda, Tecnologia e TV’s Educativas. Este documentário é de tal importância que TODAS as emissoras de tv cederam seus arquivos para compor a série…

Vizeu foi um amigo de vida, daqueles que podemos ficar anos sem ver e quando encontramos nada mudou pois a essência do carinho e fidelidade à amizade permanecem… Desde 2003 ele atuava como consultor do Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) na Rede Vanguarda.  Juntos eles desenvolveram várias peças de publicidade, e o mais recente foi em agosto com o comercial de 13 anos da emissora que atua no Vale do Paraíba. Há poucos meses liguei para contar que a Luciana Savaget encontrara nos guardados da família uma longa entrevista que fiz com Edna Savaget, sua mãe, pioneira da TV, e gostaria de utilizar no documentário que está produzindo. Ele ficou feliz, “pede para ela me ligar, libero com o maior prazer”. E assim nos despedimos…Ele sempre doce, delicado, elegante… E assim, desta forma, ontem ele partiu deixando tantas memórias dos outros, mas não teve tempo de escrever o livro com a sua história…  Adoraria ter escrito este livro, assim como ter a cópia de todos os programas que fiz… Eu também preservo a memória dos outros e não cuido da minha… Mas encontrei no Youtube este vídeo do acervo do Dr. Jorge Bastos Garcia com a abertura do programa e parte de uma entrevista … Obrigada Vizeu por você ter passado em minha vida e deixado tão boas lembranças !

 

 

 

Meu voto

MARÇO 2016

Com Fabiana e Alexandre em foto de Cláudia Schembri

Há 12 anos quando escolhi viver em Vila de Santo André, abraçava causas e projetos em torno apenas do povoado. Passava correndo por Santa Cruz Cabrália, louca para pegar a balsa, cheguei a fazer uma camiseta com a inscrição Vila de Santo André – Bahia – Brasil.  Mas aos poucos a cidade foi se revelando prá mim. Assim como tantas outras entre as mais de 5500 cidades do país, Cabrália tem enorme extensão territorial e poucos recursos. Um diamante bruto, enorme potencial para o turismo em seus mais de 35 kms de praias – muitas semi-virgens –, e uma área rural em plena expansão. Uma cidade que tem identidade e cultura próprias, um lugar bom para se viver que vai buscando seu jeito e o orgulho de ser “santa-cruzense”.

Junto com a minha mudança que veio do Rio de Janeiro, trouxe além de um cão, livros, fotos e discos, o título de eleitor que não demorei a transferir. E assim, neste exercício de cidadania, estou chegando ao 3º pleito e não me arrependo das escolhas que fiz. Mesmo os que não foram eleitos, eram os que eu considerava mais alinhados às minhas propostas, independente de partido.

Estou acompanhando o movimento eleitoral com as novas leis. E muito mudou. Menos poluição visual e sonora, mais transparência nos recursos, e os candidatos hão de gastar muita sola de sapato para convencer o eleitor em quem depositar a sua confiança com o voto. Nesta campanha nem dá para falar mal da concorrência, o tempo é curto para bla bla bla e mi mi mi. É preciso objetivar, mostrar quem se é de cara e de ficha limpa.

Eu já escolhi o meu candidato e o conheci há alguns anos por acaso, enquanto fazia uma operação em um caixa eletrônico no banco e alguma coisa deu errado. Olhei para o lado e vi um rapaz alto, vestindo camisa social com as mangas dobradas, à primeira vista parecia o gerente. Pedi ajuda, ele disse não ser funcionário do banco, mas mostrou boa vontade em ajudar e logo viu que a solução era simples. Agradeci e só fui saber seu nome alguns anos depois, em março do ano passado, quando assumi a Secretaria de Comunicação e Governo de Santa Cruz Cabrália e fui formalmente apresentada a Alexandre Carvalho, Vice-Prefeito e Secretário de Planejamento.

Aquele rapaz de cabelos e olhos claros, sempre em movimento, falando alto, um enorme sorriso, me mostrou que suas decisões eram firmes. Estreante na política, trouxe consigo a experiência de administrador,  com a maturidade adquirida na gestão privada. Suas respostas eram objetivas, nada de empurrar as questões com a barriga. E, quando o soube candidato, decidi meu voto.

Sinto-me confortável em declarar meu apoio pois não trabalho na sua campanha nem sou filiada a qualquer partido. Acredito na democracia, no debate aberto e honesto, na construção em conjunto de uma cidade próspera, humana e com o olho no futuro. Boa sorte Alexandre Carvalho !

As fotos

 

11129843_1029878993690528_1316757353_n-1Sou grata ao Facebook por ser um canal onde eu possa acompanhar o tempo passar também para os meus amigos. Não estou envelhecendo sozinha. Faço parte da primeira geração que vive a maturidade de forma coletiva e online. Não faz muito tempo, lembro minha mãe abrindo caixas de fotos comentando sobre parentes e amigos. Tenho o sentimento de que até ela morrer, muitos dos que passaram em sua vida ficaram na imagem congelada da foto amarelecida, perdidos no tempo.

Ah Face como você me faz feliz ao rever a colega de escola que tinha o mais belo longo liso cabelo louro da turma, causava inveja pois não precisava fazer “touca”, e agora tem os mesmos lisos, mas não tão longos nem louros cabelos. E o namorado americano que envelheceu com charme, outros nem tanto, mas sempre encontro alguma juventude em todos os que um dia conheci e aparecem no meu face…

Parece simples escrever sobre isso, mas nem sempre sou feliz ao me ver envelhecendo. Confesso que me sinto com pouco mais de 30 anos. Não é o que o corpo mostra, mas é o que o espírito diz e me faz seguir acreditando que ainda há muitos sonhos para fazer acontecer. Mas outro dia no meio de uma meditação tive a certeza de que já andei muito e o caminho pela frente está mais curto…Talvez possa ter mais uns 20 anos. Legal. Ainda dá para plantar algumas árvores e comer os frutos mesmo não podendo mais subir no pé…

Estou procurando encarar tudo isso com a praticidade da capricorniana e com a boa relação que tenho com o que chamamos de mundo real. Espero que meu espírito empreendedor aliado à criatividade que reconheço ter, me tragam grandes experiências nestes próximos anos, pois não sou de nadar e morrer na praia… Viver tanta coisa boa para nos últimos 20 anos ter uma vida mais ou menos eu não quero… Espero que em meu mapa constem no mínimo uns 20 bons movimentos para justificar a caminhada.

Neste processo de criar uma boa relação com a maturidade física, recentemente tive o privilégio de ser fotografada por uma querida amiga que utilizou todas as suas melhores lentes para me mostrar exatamente como estou. Sem photoshop ou qualquer outro recurso, nas fotos sou eu hoje e tenho que aceitar um olho que está mais caído, as rugas em torno nos lábios resultado dos anos como fumante, os grisalhos até nas sobrancelhas, as manchas senis na mão e no colo, enfim, é o que temos nestes tempos… Estas fotos – uma sequência deliciosa … –  tem sido uma ótima terapia… Não dá para viver olhando pelo retrovisor, tudo acontece na frente… É passar o lápis nos olhos, um batom na boca, pendurar um brinco e um colar e sorrir para a foto…

Surpresa…

Jpeg

Praia de Jacuman, Santo André da Bahia

Quando acordei no dia 02 de junho de 2014 não sabia a surpresa que me esperava. Na agenda o único compromisso era uma reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente de Cabrália cuja pauta constante do convite era “compensação do empreendimento Acquamarina Empreendimentos (Campo Bahia)”. Entenda-se o empreendimento como um grande condomínio em Vila de Santo André, povoado onde moro, que um grupo alemão estava construindo a toque de caixa, tempo recorde, para hospedar a seleção alemã de futebol que chegaria em menos de um mês.

Atravessei a balsa e lá fui para a Casa Cabral Belmonte, em Cabrália, sede da Secretaria de Meio Ambiente. Encontrei um bom quórum para a reunião e, antes que começasse, engrenei uma conversa com um rapaz que nem sabia quem era, nem tinha visto em outras reuniões. Ele perguntou em que bairro eu morava e quando falei “Vila de Santo André” imediatamente quis saber o que eu considerava como melhor investimento no local caso o empreendimento tivesse que pagar alguma multa pela retirada de vegetação em área de preservação ambiental. Como me preocupo com o destino que é dado ao lixo e, assim como algumas vizinhas, faço compostagem, separo garrafas, plásticos e papelão que levo para um senhor que recicla no bairro ao lado, sugeri criar um projeto piloto de coleta seletiva e uma horta orgânica, politicamente correto para uma APA e agregaria valor ao turismo. A cidade aonde moro ainda tem lixões e isto me deixa desconsolada. A conversa ficou por aí e quando a reunião começou fiquei sabendo ser ele o promotor Bruno Gontijo que, diante denúncias recebidas e comprovadas, era o responsável por uma ação no Ministério Público da Bahia que estava sendo movida contra os empreendedores do Campo Bahia.

Sai do encontro certa de que no mínimo um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta –  aconteceria. No dia 13 de junho recebi a boa notícia : o TAC fora assinado entre o Ministério Público da Bahia, a Secretaria de Meio Ambiente e as empresas RLL Transporte e Logistica Ltda-Me e Acquamarina Santo André Empreendimentos Imobiliários Ltda.  como compensação financeira e reparações aos danos ambientais cometidos na construção do Campo Bahia. E o meu coração ficou ainda mais feliz ao saber que os R$ 300.000,00 a serem pagos neste TAC seriam utilizados para a implantação da coleta seletiva.

Existem ações que justificam uma existência, e esta bastaria para a minha encarnação, pensei com meus botões. Continuei acompanhando o assunto e colaborando com a Secretária Léia Monteiro na montagem de um edital para desenvolver o projeto. Pedi ajuda a quem sabia mais, Zaba e Gisela Moreau, à “lixóloga” Patrícia Blauth, com quem aprendi muito sobre o assunto, e me municiaram com muitos exemplos de editais e parcerias público-privada. Enquanto estudávamos a forma da nossa coleta seletiva, houve uma mudança de caminho. Certo dia o promotor telefonou querendo saber o que eu achava de transferir o recurso da coleta seletiva para a criação de um melhor sistema de água para Santo André. Fiquei honrada pela deferência, afinal ele podia mudar o TAC sem me consultar. Uma melhor água para o povoado eu sabia que era um sonho de toda a comunidade. A água estava um lixo, tão escura que manchava as roupas, uma péssima impressão quando escorria pela pia e, apesar de não ser considerada de má qualidade, ninguém gosta de cozinhar com um liquido barrento.

Mudou o tema e vieram mais reuniões para definir qual o melhor sistema a ser adotado e se enquadrasse ao orçamento, quais empresas poderiam atender e ainda precisávamos buscar uma parceria na vila, uma ONG com boas referências e confiabilidade da comunidade para administrar a obra, efetuar os pagamentos seguindo a planilha determinada em contrato e todo o processo burocrático. Gerir o recurso de um TAC não é a função do Ministério Público nem da Prefeitura. A função deles é acompanhar o processo.

O sempre presente Centro de Convivência e Cultura, com mais de 15 anos de bons serviços à vila,  aceitou entrar no projeto e ontem, em sua sede, foi assinado o contrato com a presença do promotor, dos representantes da prefeitura e das empresas que vão realizar a obra. Tudo acompanhado e explicado para um grupo de moradores que atendeu ao convite para participar do encontro. Em até quatro meses a água da vila estará bem melhor, com mais volume e qualidade.  Todos vão poder lavar lençóis brancos, tirar as manchas da pia e cozinhar com tranquilidade. Nada tenho a ver com isso… Foi só uma boa luz que entrou no meu quarto naquele 2 de junho e me deu este presente… Continuo aberta para  novas surpresas.

obs : em tempos de política vale lembrar que não legislei em causa própria. Não uso a água que vem da rua, tenho sistema de tratamento em casa com água retirada do poço.

Por fora como é por dentro

Minha mãe nunca me falou sobre envelhecer. Creio que as mães não comentam com as filhas, pois preferem que, assim como elas acreditaram, continuem pensando que a juventude vai ser eterna. Quantas vezes sentei ao seu lado na sala de televisão e, enquanto agilmente ela fazia tricô, lembrávamos histórias divertidas da família, conversávamos sobre a vida dos outros, mas jamais falamos sobre aquele momento em que ela vivia, como se sentia com os cabelos além de brancos estarem mais ralos, a coluna arqueando o corpo, as veias marcando as mãos e se mostrando azuis nas pernas muito brancas.

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Minha mãe nunca me falou sobre como viu seus bebês se tornarem adultos e um dia chegarem em casa trazendo seus próprios bebês formando uma família. O assunto sempre ficava na periferia do bom casamento e seriam felizes para sempre. Não soube o que pensava sobre o sentimento de mulher transformada em avó, nem ousei perguntar como se sentia quando percebi que não tinha mais opinião nos encontros aos domingos. Todos falavam, menos ela. Seu ponto de vista era importante apenas quando se tratava de receitas caseiras, uma referência sobre a árvore genealógica da família ou o melhor modelo/cor para um casaquinho de bebê.  E mamãe sempre foi de opinião, mas o tempo foi deixando-a mais pensativa…

Minha mãe nunca me falou sobre como era ver seus pares partindo. A avó, os pais, os tios, primas, amigos, irmãos, alguém querido saindo de cena deixando o espetáculo mais pobre, os diálogos interrompidos, a risada murcha, o volume da trilha musical diminuindo.  Chegavam outros personagens, mas já era outro espetáculo. Aqueles que a acompanharam por tanto tempo ia fechando a cortina, ficava faltando um pedaço, como se tirassem o corrimão na subida da escada, a calda de ameixa no manjar branco, a meia quente na noite fria. E agora, no meu contexto, fico refletindo sobre como conviver com esta mudança de encenação constante, com tantas perdas a cada semana…

Minha mãe nunca me falou sobre os calores no corpo que mesmo pós menopausa continuam a acontecer. Não comentou sobre desejos e prazeres, sobre abraços e afeto, nunca soube quanto carinho ainda havia entre ela e papai depois dos 80. Ela comentou depois da morte do papai que num período curto em que ele passou por um processo de demência senil e levantava-se de madrugada querendo ir trabalhar, ao dormir ela amarrava a ponta de uma fita no seu pulso e a outra no dela, assim estaria junto em qualquer circunstância.  Não tenho em quem amarrar a fita, mas me encanta estes amores eternos… Choro com cenas de amor nas telas, com músicas apaixonadas

Minha mãe nunca me falou sobre como é sem graça viver sem mãe. Ela bem que podia ter contado pois teve esta experiência antes de mim. E quando entra o mês de maio e se aproxima o seu aniversário e dia das mães, lembro sobre o que me ensinou e também o que esqueci de perguntar. Agora não dá mais tempo para saber o que pensava sobre tanta coisa, mas jamais vou esquecer o que me ensinou, e uma das preciosidades foi como cuidar do acabamento no tricô, no bordado, no crochê, na costura…. Ela dizia para não deixar nós, linhas soltas, qualquer obra deve ser bonita do lado direito como no avesso, tanto na frente como atrás. E este acabamento na construção de uma obra tomei como rumo na vida. Serve para amizades, amores, trabalhos, textos, seja lá o que for. Tem que estar bem-acabado, bem-cuidado, bem-preservado, por dentro e por fora…. Obrigada Yayá… Nessa reflexão, vejo que tenho as respostas prás perguntas que formalmente nunca te fiz! Muito amor por você!

Sem palavras

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Começo escrevendo na cabeça. As vezes surge um parágrafo inteiro, fico repetindo para não perder até chegar para o papel ou amadurecer. Em outras, os pobres textos morrem antes do papel, se perdem nos labirintos do cérebro e podem retomar algum dia sem qualquer aviso. Visualizo estes labirintos exatamente como aparecem nas imagens dos cérebros, cheios de meandros, cobrinhas onde se escondem boas ideias e inspirações. Fico tentando aguçar para ver se retorna alguma frase bacana para escrever nesta crônica, mas enquanto não surge vou colecionando bons temas como por exemplo, criar um bloco para o carnaval chamado “Caiacanga”. A ideia nasceu noite dessas enquanto tomávamos vinho e comíamos o nhoque da sorte no Sant´Annas. Uma amiga, da mesma faixa etária, comentou que em determinada situação estava visitando um amigo, enrolada numa canga, desprovida de sutiã e, inesperadamente, no meio da conversa, a dita caiu. Mais do que uma saia justa! Saiu tentando se recompor, mas o que tinha que ser revelado foi. Imaginei para o carnaval do próximo ano uma ala de mulheres maduras embrulhadas em cangas e ameaçando deixar cair em meio ao desfile. Não causaria qualquer impacto na pequena vila onde moramos, mas seria uma cena bem ridícula. As exibicionistas da 3ª. idade !

Estas tolas lembranças servem só para esquentar as teclas, pois é claro que um bloco desses não se cria nem somos loucas o suficiente… Mas compartilho esse pensamento para perceberem por onde anda a minha busca de inspiração em tempos de bombardeios políticos… Enquanto não sei o que escrever, monto quebra cabeças ou jogo paciência. Tudo no computador. Deve ter mais uma meia dúzia de dezenas de pessoas que fazem o mesmo e com quem quero dividir minha mais nova descoberta, um outro lado legal destes joguinhos de cartas. Quem brinca com isso sabe que existem momentos em que parece que não vai ter mais jeito, o jogo vai parar ali, nenhuma carta vai se encaixar e perder é a única certeza. Mas, de repente, aparece uma carta que não se estava prestando atenção e tudo muda. Todos os jogos vão se encaixando e pronto, encerra-se com louvor a paciência.  Tenho uma alegria enorme quando isso acontece pois lembro que em algum momento da vida quando achei que nada ia dar certo, saía uma carta da cartola mágica e o problema se resolvia…. As vezes está ali, bem ao lado, e a gente não consegue enxergar…. É aprender a ver com olhos menos viciados, uma das melhores técnicas para montagem de quebra-cabeças…. Quando não encontro uma determinada peça, faço pausa, mudo de assunto e ao voltar ela surge. É o desapego nos pequenos gestos…

Nestes últimos anos estou aprendendo a dar tempo para o olhar, perceber o que está no em torno, ver os pequenos milagres de cada dia. É soberba a luz entre as árvores no fim da tarde, o facho de sol que entra no box quando tomo banho bem cedo. Deixo seus raios aquecendo as minhas costas pois alguém me disse que é bom para espantar tristeza. Tristezas não tenho. Nem mesmo quando escuto uma música antiga, destas de rasgar os pulsos que vem na voz da Bethania… Estou me afiando na simplicidade e constato o quanto os meus amigos que estão nos grandes centros ficam sensibilizados quando posto uma foto no Instagram de um barquinho à deriva no rio, um vídeo da água correndo com a balsa,  um pica-pau de crista branca, a orquídea Dora que sempre floresce, a abóbora que surgiu da terra de compostagem, o mesmo com os melões quase no ponto… Fatos do meu cotidiano, em casa ou a caminho ao trabalho…Viver tudo isso me dá uma enorme alegria  mesmo sem inspiração para a crônica desta semana… Mas será que precisa ?

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“Olá Léa, estou enganado ou você morou na rua Cascata, na Tijuca, Rio de Janeiro ? Em caso afirmativo, dentre outras, fomos colegas de colégio.  Sou Luiz Cezar, do Colégio Tijuca-Uruguay na rua Conde de Bonfim. “

Sou eu sim, respondi rapidamente à mensagem que chegou no facebook.

“Na época você tinha os cabelos compridos e era loura, muito bonita…”

Não era eu. Você está confundindo. Fui loura quando criança, depois alourei na maturidade com a ajuda de produtos químicos e confesso que não era um modelo de beleza para ser inesquecível….

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Procuro o perfil de quem manda a mensagem e encontro um homem próximo aos 70 anos, cabelos grisalhos com uma criança ao lado. O neto, presumo eu. Bingo, ele confere.  Uma série de nomes de ex-colegas ele traz à conversa. Lembro vagamente. Mas me recordo com todas as cores e formas da proprietária do colégio, Da. Carolina e sua irmã a ensandecida Da. Lola, loura platinada, que tirava o apito do bolso do avental para chamar os alunos. O colégio ficava em uma linda casa do tempo em que a Tijuca era um bairro elegante de classe média alta. Na parte superior era a residência da família, embaixo os empregados. A casa virou colégio na parte de serviço e as irmãs solteironas continuavam morando na parte alta. O quintal era grande, havia até uma quadra para esportes… Era um colégio pequeno, poucas turmas, na parte da manhã atendia ao ginásio e à tarde ao primário.

Cheguei lá por acaso. No dia 1 de janeiro de 1961 a minha família mudou de São Paulo para o Rio de Janeiro. Viemos em uma Kombi parando pela Dutra diante da ressaca do papai com tantas despedidas no réveillon. No volante papai, como copiloto mamãe, e distribuídos nos dois bancos cinco filhos legítimos, duas adotadas e um cachorro. Ainda tinham baldes, vassouras e panos para a primeira faxina na casa que papai havia alugado no bairro da Tijuca.  Aos 12 anos tudo o que eu conhecia do bairro era a casa da Da. Marina, mãe da tia Lygia, comadre e amiga da mamãe, aonde fiquei algumas vezes quando criança esperando ser levada para a casa da madrinha em Laranjeiras ou da vovó em Niterói.

Chegamos com o dia escurecendo, não havia luz nem móveis, mas achei linda. Em poucos dias estávamos bem instalados naquela grande casa, na arborizada e bucólica rua da Cascata, uma ladeira aonde no final havia uma queda de água entre as pedras e ao lado uma longa escadaria com acesso ao Morro da Formiga.  Uma rua residencial que tinha uma singela vila na entrada e apenas um pequeno edifício de três andares bem na metade. Gostei do novo ambiente, fiz algumas amizades e papai recomendou ao Victor, meu irmão quatro anos mais velho, que buscasse uma escola para nós dois. Depois de alguma pesquisa nas redondezas ele se encantou com a Tijuca-Uruguay, creio que muito mais pela arquitetura, as pitorescas dirigentes e o poético nome grafando Uruguay com ypsilon, do que por seu currículo escolar, tanto que lá só ficamos um ano.  Talvez por isso a memória dos tantos amigos que Luiz Cezar desfiou em nossa conversa era frágil.

Mais do que o colégio, professores e amigos, este ano eu descobri o Rio de Janeiro. O ônibus lotação que ia até Copacabana, o bonde até a Praça XV e Praça Tiradentes quando ia às compras com a mamãe, e todos os cinemas que haviam na Praça Saens Peña  – Olinda, Tijuca, Metro, Carioca e América – uma diversão aos domingo à tarde.  Foi uma paixão pela cidade e seu povo que eu não entendia como em dias de chuva usavam casaco e calçavam sandálias, pois no inverno em São Paulo eu aprendera a usar meias e sapato fechado. Era divertido ver como as pessoas eram muito mais espontâneas, conversavam em qualquer fila e no bonde, contavam suas histórias, e depois iam embora sem mesmo saber se iriam se reencontrar. Aprendi a comprar leite e manteiga fresca na CCPL, havia a Casa do Sabão que vendia tamancos de madeira que eu nunca tinha visto. Este foi o ano em que comecei a me tornar mulher: menstruei e ganhei o primeiro sutiã. Foi o ano em que comecei a dançar nos bailinhos do Clube Montanha e a torcer por meu irmão como goleiro no time da rua Canapó vestindo uma camisa escrita Smith que se transformou em seu apelido…

 

Foi um ano que me marcou profundamente, quando eu assumi que queria ser carioca, falar arrastado, escrever poesias sem nexo e saber sambar. Sinto muito Luiz Cezar, mas com tantas novidades você há de convir que o colégio era mero detalhe. Um turbilhão de novas emoções e descobertas como sentir o vento fresco no rosto quando seguia a passeio de bonde para o Alto da Boa Vista, ou quando papai colocava todos os filhos na Kombi e levava para tomar banho nas águas revoltas da praia da Barra. Era mais areia do que mar. Na volta parávamos em uma barraquinha e nos deliciávamos comendo milho verde. Mas sou imensamente grata por você ter tocado nesta memória e transformado este meu fim de semana em maravilhosas recordações…

Tá tranquilo, tá favorável

Noite estrelada, estendi o lençol no fio de aço no jardim, as cadeiras foram distribuídas formando a plateia, fixei o projetor em uma escada, o notebook no banquinho mais alto, o som no mais baixo, tudo pronto para receber os amigos iniciando uma nova temporada do Cine Clip com filmes fresquinhos… Do Oscar para as telas de Santo André… Luzes apagadas, pipocas nos potes, começa a sessão com a exibição de “Spotlight”, segundo a academia americana o melhor filme de 2015, quando o telefone toca na sala. Poucos chamam este número, geralmente amigos muito próximos, a família. Corri para atender e em clima do filme no primeiro momento não reconheci a voz. Mas a notícia era contundente. Uma pessoa muito querida acabara de ser diagnosticada com Parkinson. Ouvi sobre a dificuldade na locomoção, as quedas e o estado depressivo com o resultado dos exames. Desliguei o telefone com o coração partido e voltei à plateia como se estivesse tudo ok. Este processo louco é muito meu frente às notícias ruins. Continuo firme no que está rolando em volta e preciso de um tempo para a ficha cair literalmente. E a ficha caiu no dia seguinte. Amanheci lendo tudo que encontrava na internet sobre o assunto, procurei uma amiga médica que em meio a um longo papo saiu com uma frase simples que mudou minha forma de encarar tudo isso.

“Só quem vive mais tem estas doenças”.

A mais pura verdade. Se eu só tivesse passado dos 15 anos teria apenas conhecido sarampo, catapora, caxumba, coqueluche e talvez hoje nem ouvisse falar sobre isso com tantas vacinas no mercado. Mas passar dos 70 se enquadra bem naquele trecho da música Esotérico do Gil :  “mistério sempre há de pintar por aí”… Vida e morte estão no percurso… Com isso lembrei de um fato interessante que aconteceu há alguns anos na minha vila.  Quando cheguei há quase 12 anos ouvi que era difícil alguém morrer, nascer era mais fácil. Contava-se nos dedos os velórios até que em um ano foram vários. E foi em um destes que ouvi do Vitório uma declaração surpreendente:

“Vou mudar daqui pois não quero que a morte me pegue”.

Vitório tinha idade indefinida. Provavelmente muito mais que 60. Negro e forte, rosto expressivo e vincado, cortava madeira na roça e vendia para fazer cercas. Mas o Ibama proibiu a poda que ingenuamente ele acreditava ser “árvores de mato”, mas eram da preservada Mata Atlântica. Com isso ele começou a vender vassouras de piaçava que fazia retirando o produto também da roça. Fazia uma porção de bicos, tomava uns tragos e saía tagarelando pelas ruas e vielas sobre a mudança que deveria fazer. Não conseguiu mudar de vila nem de vida, e não faz muito tempo partiu.

Foto : Cláudia Schembri

Então, quando reflito sobre o tempo, lembro que a morte não se escolhe, não se foge nem se espera. Ela chega na hora certa. Até lá o melhor é pensar que somos imortais. Acredito na qualidade dos meus pensamentos e dos meus desejos, o que jogo ao mundo volta para mim na mesma proporção e sempre há alguma coisa legal que se pode fazer…Por enquanto, tá tranquilo, tá favorável !!