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Na tesoura

Em uma das mais remotas lembranças estou sentada aos pés da máquina de costura Singer admirando vovó cozer para a família.  Enquanto agilmente ela movimentava os pés sob o pedal fazendo a máquina funcionar, com uma tesoura de ponta redonda eu recortava sobras de tecido e criava vestidos para as bonecas. Não sei se esta imagem é real ou se criei de tanto ouvir a mamãe contar o quanto eu me encantava com costura e ficava nos pés da vovó, mas o certo é que tesoura virou um fascínio seja para a costura, aparar as plantas ou cortar o cabelo. O sentimento que “cortar é crescer” faz parte da minha história, e isso em muito somou quando vim morar numa casa com quintal e muitas árvores que precisam de poda constante, quase que implorando “uma tesourada, por favor”.

Quando aos 15 anos fiz um curso de costura não tive medo de encarar com firmeza um tecido caro seguindo um molde duvidoso. Do algodão barato à renda, fui com a cara e com a coragem, e se não deu certo reinventei… Mas antes disso, aos 13, 14 anos, eu me arriscava no corte de cabelo da Laura e da Edna. Com idades próximas a minha, eram filhas de índios do Paraná e passaram um longo período morando em nossa casa. Brincávamos de produzir um salão de cabeleireiro embaixo da mangueira. Um espelho era preso no gancho da rede, enfileirados numa mesinha colocávamos todos os pentes da casa, tinha toalha para os ombros e talco para o pescoço. A tesoura era da costura e como elas tinham cabelos muito lisos, o trabalho era fácil. Aparava as pontas e franjas, e jamais reclamaram.

Creio que foi aos 20 anos que comecei a cortar os meus próprios cabelos ao comprar num camelô uma engenhoca que unia dois pentes e, entre eles, se inseria uma gilete. Como na época eu usava cabelo bem curto, estilo “Joãozinho”, ia penteando e cortando. Se algo dava errado, rapidinho o cabelo crescia e cobria as falhas.  A ousadia de cortar com a tesoura foi com mais de 30 anos quando me olhando no espelho percebi que o cabelo estava horrível para o jantar de Thanksgiving na casa de Carol Greenwald em Nova York. Um evento programado há meses e como o orçamento era muito curto, o jeito foi aparar o comprimento.  Os amigos de Westchester gostaram do novo modelo e não revelei quem fez a arte.

Esses foram meus pensamentos ao acordar enquanto passava as mãos no cabelo percebendo que o pior já estava acontecendo: o formato capacete. Como tenho muito cabelo se deixar crescer me transformo em Dona Léa, uma senhora respeitada de cabelos grisalhos. É um sentimento ameaçador, pois Dona Léa, definitivamente, não sou eu.  Para não viver este momento me arrisco a tudo, até a passar a máquina 2 como já fiz algumas vezes.

E nos dias em que acordo assim, ainda lembro que certa vez ouvi um ilustre fotografo dizer que quando estava preocupado cortava o cabelo pois tinha a sensação de que os problemas iam juntos com as madeixas. Adotei esta teoria, por isso nesta manhã chuvosa, no caminho da cama para o banheiro, peguei a tesoura e em frente do espelho encarei o desejo de me reencontrar aos 20 anos com o cabelo um pouco arrepiado, desestruturado, aquela coisa sem compromisso, leve, desprendida, liberta, como creio que a minha alma é. Diante disso, já estou pronta para novos tempos.

Dia do Padre

Igreja do Sagrado Coraçao de Jesus

Hoje é dia do padre, impossível não lembrar do meu pai…. Criado na doutrina espírita, como profissional de vendas e marketing, papai estreitava relações com facilidade. E foi assim que aceitou o convite dos padres do colégio Meninópolis onde mamãe era professora para ajudar na campanha de construção da igreja do Sagrado Coração de Jesus, no Brooklin, bairro onde morávamos em São Paulo.

Sem qualquer intimidade com a igreja e seus rituais, papai fez a sua parte conseguindo doações e auxiliando na realização de uma revista lançada na inauguração. No final do movimento, papai se tornou amigo dos padres e, alguns anos depois, quando mudamos de São Paulo para o Rio, a relação permaneceu com troca de cartas e telefonemas. Certo dia chegou a consulta se poderíamos hospedar o Padre Vicente, o top de linha da diocese, que iria viajar para o Vaticano e, naquele tempo, os voos internacionais saíam da Cidade Maravilhosa.

Papai nem consultou a mamãe, respondeu positivo, o quarto dos rapazes recebeu uma cama de hospede, e nós recebemos uma série de ordens de como deveríamos nos comportar durante as 24 horas da visita. Proibido shorts, vestidos decotados e os rapazes tinham que usar camisa – nada de camiseta regata – apesar do verão 40graus. Apesar de palavrões não serem liberados em casa, cuidados com o palavreado. Se o padre manifestasse a intenção de rezar antes das refeições rezaríamos junto.

No dia marcado fomos eu, papai, mamãe e Marcus, meu irmão caçula, receber o Padre Vicente no aeroporto num final de tarde. Um homem inteligente, culto, no trajeto até a Tijuca mostrou que não era o carola que papai anunciara. Um lanche ajantarado nos esperava, com salada de maionese padrão da casa, cachorro quente, saladas e diante do calor papai perguntou ao padre se queria um suco ou uma cerveja. “Que venha a cerveja”, exclamou o padre… Assim rolou a conversa interessante até a hora de dormir.

No dia seguinte a programação já estava estabelecida. Como fazia com todos os visitantes papai levava para um passeio de carro, no caso uma Kombi, subindo o Alto da Boa Vista, passando pela Floresta da Tijuca, descendo à Barra da Tijuca onde parávamos para comer milho verde e o retorno era pela orla da zona sul, aterro do Flamengo, centro da cidade, uma volta no Maracanã e de novo estávamos na rua da Cascata.  Perfeito para ocupar a manhã pois no fim da tarde embarcaria para Roma.

No dia seguinte quando estávamos sentados para o café da manhã vem a surpresa:   Padre Vicente surge vestindo shorts preto, camisa de mangas curtas e calçando sandálias.  Estava pronto para o passeio e dar um mergulho em Copacabana. Claro que ninguém comentou nem demonstrou choque com a realidade. A verdade é que o dia foi muito divertido e quando o deixamos no aeroporto voltei para casa com a certeza de ter aprendido algo que iria mudar a minha vida: as pessoas não são seus títulos, suas vestes, suas crenças. São múltiplas.          

Sobre um sábado

Duas notícias tristes chegaram nesta madrugada. Mulheres que não conheci, mas ligadas diretamente a homens que quero muito bem, foram para outra dimensão. E a dor é sempre avassaladora, parece que não tem fim. Nenhuma morreu vitimada pelo vírus, mas o impacto, o ritual da despedida, a consciência da finitude é a mesma. Creio que nunca se falou tanto em luto e a sobrevivência tem encontrado menor espaço.  Os falidos, empresas fechadas, desempregos, tem espaço garantido. E como gosto de olhar o copo pela metade acreditando que está mais cheio, fico vibrando com os que estão se reinventando. Na minha set list “Only the strong survive” na voz de Billy Paul está no topo…

Fico buscando boas notícias, mas no meu dia a dia dois exemplos tem me trazido muita alegria: as lives da Teresa Cristina e da Leda Nagle. Cada uma no seu estilo estão bombando com informação e alto astral. Ambas são mulheres que já passaram dos 50, donas de sua arte e o talento ganhou ainda mais espaço quando o mundo se recolheu.  As madrugadas com a Teresa Cristina são divinas. Durmo mais leve, embalada por muita música boa. É o máximo estar na cama e, de repente, ver Caetano Veloso de pijama dividir a tela do Instagram dando uma canja. Momentos únicos como com Marisa Monte, Monica Salmaso, Maria Gadu super tímida, Zéca Pagodinho as 6 da tarde pois dorme cedo, e teria muitos parágrafos para contar tudo o que vi e ouvi nestes dias. E o canal da Teresa está aberto, ninguém paga pra entrar, pode sair quando quiser, mas aproveite pois vale a pena…

Leda é amiga dos tempos da redação de O Globo, de lá foi para a TV Globo onde se firmou como grande entrevistadora. Quando “foi saída” do programa Sem Censura, ao contrário do que muitos pensaram o mundo para Leda não acabou. Ela se reinventou com um canal no youtube fazendo o que sempre fez com maestria: conversar de forma leve, deixando o entrevistado falar. Com a pandemia se adaptou para o esquema das lives no Instagram e está dando show. Seu elenco é estelar, perpassa todos os assuntos, do jurista Ives Gandra ao mestre de cirurgia no cérebro Paulo Niemeyer, a Alcione Marrom, o ex-presidente Fernando Collor, estes são só alguns que assisti esta semana. E o melhor, todos saem agradecidos e deixando o registro de como são seus fãs. Leda não opina, traz as informações; assim como Teresa Cristina, canta em todos os ritmos, aberta às tendências musicais.   

E por isso neste sábado, a minha teoria para tempos difíceis está ainda mais fortalecida de que é preciso se reinventar e só os fortes sobrevivem. Assim como um dos mercadinhos aqui em Vila de Santo André que criou um grupo no whatsaap onde publica fotos dos produtos e aceita pedidos. Ou um casal que está oferecendo produtos que traz da área rural e entrega em casa como ovos caipira, pequenos e deliciosos maracujás, limão galego, pés de banana e verduras para quem quer começar uma horta, enfim, dezenas de ofertas que também chegam no aplicativo; e uma família que o pai italiano faz pão, a mãe vende roupas africanas, uma filha faz brigadeiro, a outra vende vinho e o genro pesca. Vamos nos reinventar e quando a tristeza bater, muda de canal e bota Billy Paul prá tocar, pois só os fortes sobrevivem… Outra hora conto sobre o prazer de ter trabalhado com Billy Paul, mas neste sábado segue o link, vamos cantar e dançar …

Carta para uma amiga

Minha loura querida,

Li sua crônica (link abaixo)… Feliz com seu passeio pela Lagoa… Não podemos nos privar destes pequenos prazeres, visto que em nossa idade os prazeres são bem outros… Uma brisa do mar, uma bela paisagem, um afago dos netos, uma atenção do filho, a vitória de um amigo frente a qualquer desafio, são alegrias que enchem nossos dias e muito mais verdadeiros do que aqueles quando acreditávamos que o grande barato eram as festas magistrais, muito divertidas, mas que passaram, assim como as ressacas e aquele gosto horrível de cinzeiro, pois fumávamos feito chaminé…

E nestes novos tempos, creio que devemos cuidar tanto da nossa saúde física como da mental. É isto que desejo do fundo do meu coração, para mim e para os que amo. E ter também uma casa confortável, uma família unida e amigos queridos… E ter sonhos muitos, sempre, projetos os mais variados para avivar a criatividade, mesmo que seja escrever um livro que está ainda no primeiro parágrafo, refazer a horta, aprender kabbala, ou uma colcha bordada ainda nas primeiras linhas…

Mas quero revelar um segredo, que pode parecer uma loucura:  abstraí da minha vida qualquer assunto que possa me tirar do sério, causar mau humor, dar engulhos, como as questões políticas… Não me dou ao direito de me sentir aviltada, ofendida ou invadida pelas loucuras do planeta, afinal o caos político é geral, e o nosso é apenas um quadrado da colcha de retalhos… Claro que a colcha está em cima da minha cama, mas posso virar de lado e não me alimentar deste pandemônio.  Na real, no frigir dos ovos, o que nos resta são nossos conhecimentos, as experiências do que já vivemos, vimos e aprendemos.  Isto sim vale ouro, um patrimônio que ninguém nos tira…

Loura, aprendi com a maturidade que só me tira o sono doença ou desemprego de alguém que quero bem, e se nada posso fazer rezo e procuro manter a mente sã.  Sem receita de meditação, apenas me manter no eixo, nas boas palavras, bons pensamentos e bons alimentos, como bordei em algum lugar… Querida, mantenha seu astral no alto, as boas risadas, ótimas conversas e isso aumentará também sua imunidade… Um terço na mão, a fé no coração e a pandemia vai passar sim, assim como algum dia a política ganhará outro rumo como vimos em todos estes anos… No que consta do efeito vírus, sou sincera, não creio que o mundo irá mudar como um toque de pirlimpimpim … Muitas pessoas tiveram oportunidade para refletir e quem sabe escolher outro caminho… Porém, políticos corruptos continuarão, maus caráteres sobreviverão, doenças permanecerão nos laboratórios em busca de cura… Ao mesmo tempo que os dias nascerão e morrerão sempre lindos, as flores continuarão alegrando os caminhos, amores existirão e nós vamos rir de tudo isso tomando um whisky duplo pois ninguém é de ferro…

Em tempo :

  1. esta foto é dos nossos 50 anos….
  2. esta foi a crônica Caminhando e cantando na Lagoas

Na redação

Eu e Lucia Ritto – Foto André Costa e Silva

Este tempo de pandemia tem me trazido momentos surpreendentes… Ainda não arrumei as caixas de fotos, nem o armário, mas o passado chega através do whatsapp e do messenger fazendo um rebuliço na memória. No fim de semana um amigo enviou um texto antigo que publiquei domingo, e também o original do musical “Ninguém é Loira Por Acaso”, que escrevi e produzi para a Vanusa em 1999. Sim, eu já escrevi um espetáculo para teatro e não coloquei no meu currículo. Não rejeito a obra, é bem legal, a estrutura bem construída e até então eu tinha zero conhecimento de carpintaria de teatro. Podia ter tido vida longa, mas foi um projeto que acabou se perdendo com a Vanusa morando em São Paulo, eu no Rio já engatando no Rock in Rio que veio a acontecer em 2001 e assim ficou…  

Ainda não consegui reler “Ninguém é loira…”, preciso de fôlego, calma no coração e uma caixa de lenços de papel ao lado, pois vou chorar pelo tempo e amizade com que foi criada e como estamos agora. Mas antes de ter este fôlego, ontem, quando fui desligar o celular para dormir, vi uma foto que chegou no Messenger e me tirou o sono. Era eu aos 20 anos na Bloch, Rua do Russel, em 1969. As fotos foram feitas por André Costa e Silva, um jovem que estagiava na casa e fazia algumas matérias para a Revista Amiga.  Eu comecei em jornalismo como tudo em minha vida, muito por acaso. A convite do Moyses Fuks fui para a Bloch Editores que ia lançar uma revista sobre TV chamada Amiga. Estas fotos são da redação e quem trabalhou lá ou conheceu o prédio da rua do Russel vai se lembrar do cenário. Era um luxo de arquitetura e construção. Mármore, vidro, jacarandá, couro e tapetes por toda a parte, intercalados com obras de arte sem contar o visual para o parque do Flamengo. Tinha um restaurante com uma piscina, mesas redondas para 8 pessoas com toalha e guardanapos de linho branco, talheres de prata e copos bico de jaca.

Um desfile de lembranças nestas fotos. Muitas reflexões desde a alegria da juventude e dos amigos que partiram cedo como Lucia Ritto e Luiz Augusto Chabassus, rever Marco Antonio Gay, Alexandra Bertola, José Luiz Sombra, como a falta de preconceito ou pre julgamento em conviver pacificamente com o neto do ex-presidente da General Costa e Silva. Sim, André era neto do General Costa e Silva, o 2º presidente da época da ditadura militar que, dois anos antes, em sua posse, assinara o AI-5 que suspendia todos os direitos civis. Este mesmo general, naquele ano estava elaborando uma reforma política que incluiria a extinção do AI-5 e, segundo o jornalista Carlos Chagas, pretendia assinar essa emenda no dia 7 de setembro de 1969. Mas uma semana antes sofreu um derrame cerebral.  Como não havia nenhuma previsão constitucional para tal situação de emergência, foi sucedido por uma Junta Governativa Provisória, também conhecida como a Segunda Junta Militar. Morreu poucos meses depois. (Fonte Wikipedia)

Não me lembro, em nenhum momento, de que tanto eu como Lucia, Chabassus, Sombra, Marco Antonio, Alexandra, que nas fotos estamos sorrindo para as lentes do André e fomos às ruas como todos os outros jovens gritar contra a ditadura, termos rejeitado a sua companhia ou feito bullying. Eram tempos duros, difíceis, mas havia respeito.  E foi nestes pensamentos que perdi o sono, fazendo comparações com os tempos de hoje. Será que nestes 50 anos que se passaram, a delicadeza, o respeito, o amor ao próximo se esvaíram e em paralelo nasceu a cultura de que aceitar, doar, respeitar as diferenças é uma obrigação? 

Impossível ver o passado e não ter o coração repleto de orgulho da boa caminhada. Sinto o perfume, me lembro das risadas soltas, dos amores sem qualquer restrição… Não havia o medo da Aids nem de engravidar fora de hora. Senti até o calor do verão nas roupas com ombros de fora… Éramos felizes e sabíamos. Construímos uma bela história e somos setentões bem resolvidos… Esta pandemia tem me levado à viagens maravilhosas, às vezes rouba meu sono, me enche de lágrimas, e me faz ter cada vez mais certeza de que a vida está valendo a pena.

José Luiz Sombra, eu, Luiz Augusto Chabassus, Lucia Ritto e Alexandra Bertola

Do fundo do bau

Fecho mais uma caixa de arquivo morto. Colo uma etiqueta na tampa, outra na lateral com letras grandes, leitura fácil, posso ao longe, sem óculos, ver todas as caixinhas iguais, lado a lado, ocupando duas prateleiras da velha estante de ferro formando um desenho simétrico. Se não fosse a identificação nas etiquetas seria um arquivo morto como outro qualquer. Entretanto, este pode ter vida a qualquer momento. É só abrir e deixar fluir dos seus incontáveis papéis, fotos, recortes de jornais, documentos, histórias vividas e ouvidas ao longo de 50 anos nos bastidores.

Talvez mais do que 50 anos, cresci vendo o show do outro lado do palco. Fecha a cortina, corro no tempo e lá está a menina sentada no banco da cozinha, pernas balançando no ar, cheiro do feijão borbulhando na panela e a cebola fritando com o bife. A trilha sonora vem do rádio de madeira clara, com enormes válvulas, trama de tecido marrom no alto-falante bem em cima do dial, num lamento caipira acompanhado pelo violão. Rosalina enxuga as mãos no avental, passa nos olhos enrugados, limpa uma lágrima e me põe para correr. Atrás da porta continuo ouvindo a cantiga que fala de um amor infeliz, a própria história de Rosalina.

Miúda, ágil, poucas palavras, mãos especiais para a cozinha e costura, chegou em casa quando eu ainda nem andava. Trouxe junto com suas agulhas a filha, resultado de um casamento que acabara quando o companheiro foi ser cantor. Trajano Militão tocava violão e cantava. Abandonou a família para ser artista, queria ser famoso, correr o mundo…. Este mundo, na verdade, cabia todo em alguns bordéis a beira das estradas ou nas rádios do sul do país que Rosalina procurava sintonizar nas ondas médias e curtas.

O pequeno rádio de madeira acompanhava Rosalina por toda a casa. Mas a noite, em seu pequeno quarto, com a luz amarelada caindo do teto pendurada num longo fio com bocal marrom, aconteciam os momentos inesquecíveis. Enquanto passava roupa, gesto que eu imitava com um pequeno ferro a carvão, esperávamos o momento supremo do locutor anunciar: “Trajano Militão, o rei do violão! ” Num código só nosso, parávamos os movimentos, como que estivéssemos brincando de estátua. Silêncio total. Cúmplice respeitosa, eu ficava olhando aquela figura agachada num canto, mãos abraçando as pernas cobertas com uma longa saia, o corpo encolhido, apertado, dolorido como o coração ao ouvir aquele cantar.

A minha cabecinha viajava no sonho de como era fascinante a vida do artista que corria o mundo fazendo sucesso. Em que cidade estaria? Como seria a rádio, um prédio grande? E o microfone? Quem aplaudiria na plateia? E em quantas outras casas estariam ouvindo a mesma canção? E por que ele não tinha um disco de 78 rotações, aqueles com capa de papel pardo, com um furo no meio para se ver o rótulo, igual ao que papai colocava para tocar na vitrola com som hi-fi nos domingos de manhã?

Esta é minha mais remota lembrança sobre bastidores e, inconscientemente, creio ter sido o despertar da curiosidade em viver e ouvir histórias.

Mas este texto não terminava no parágrafo acima. Há quase 20 anos escrevi como introdução para um livro sobre showbusiness que acabou ficando no tempo e reapareceu neste fim de semana diretamente dos arquivos muito bem cuidados do meu amigo Macgyver Zitto… Só mesmo um “macgyver” para descobrir textos perdidos…

Meu amigo negro

nos anos 80 em NYC

Cada vez que vejo as imagens dos protestos nos Estados Unidos pela morte brutal de George Floyd lembro de um outro George, o Goodman, que conheci no início dos anos 80 quando morei em NYC. Fomos apresentados por amigos, ele era jornalista do New York Times e conhecera o Rio de Janeiro a convite do Alfredo Machado, da Editora Record, num grupo de formadores de opinião que fora ver o carnaval. Ficou alucinado com a cidade, amou tanto a Portela que em sua casa a bandeira da escola de samba de Oswaldo Cruz tinha destaque cobrindo o encosto de uma cadeira de espaldar alta na sala. Ficamos amigos, vamos dizer que um pouco mais do que amigos. Ele um negro com mais de 1m80 de altura, com quem eu andava por todos os cantos de Manhattan sem qualquer problema de racismo. Entrávamos e saíamos de restaurante, bares, teatros, livrarias, vernissages, sozinhos ou com seus amigos incríveis coreógrafos, bailarinos, pintores, escritores e também advogados, engenheiro, médicos…Todos negros. Talvez por eu ser latina, falar inglês com sotaque, não tinham restrições…

George morava bem em frente ao Central Park na entrada do Harlem, um apartamento com um visual incrível, onde ele preparava o jantar e eu lavava a louça… Certa vez me levou para conhecer a redação do New York Times e contou por que escrevia no caderno de real state.  Naqueles tempos os jornais no Brasil só tinham cadernos com anúncios de vendas e aluguel de imóveis, enquanto o New York Times tinha uma vez por semana um caderno maravilhoso, com análises econômicas, culturais, antropológicas, esportivas, sociais, das regiões que compõe o estado de Nova York. “Para escrever sobre real state tenho que saber um pouco de tudo, o que é uma grande oportunidade para um negro, pois os primeiros convites que recebi eram para escrever sobre música, artes e esportes. ”   

Sempre tenho que contar um fato interessante que aconteceu quando, no auge do nosso namorico, eu ia ao Rio passar 15 dias e perguntei se não queria ir comigo. Ele contrapôs o convite com uma pergunta: “o que sua família e amigos vão dizer ao verem você chegar com um negro? ” Respondi que a princípio alguém diria “a Léa enlouqueceu”. Mas quando comentassem que era americano amenizaria a conversa com um “até que é simpático” e quando soubessem que era jornalista do The New York Times diriam que era louro de olhos azuis. Ele riu muito e sempre contava para os amigos esse diálogo…George tinha total consciência do que significava um negro e uma branca juntos no Brasil.

Pois bem, a última vez que nos encontramos eu já tinha voltado a morar no Brasil, fui a passeio à NYC, ele me convidou para jantar e contou que estava se preparando para dar uma grande virada na vida. Foi contundente : “sei que você vai entender”.  Acontece que a primeira vez que fui à sua casa, mais do que a bandeira da Portela, me chamou a atenção um quadro com a foto de um menino negro segurando a mão de um homem branco que me apresentou como sendo seu avô. Contou que o avô fora professor em Harvard e se casara com uma negra gerando um enorme problema familiar. E nada mais disse. E a grande novidade que queria compartilhar era que decidira pedir demissão do jornal e morar um tempo com a mãe na Califórnia para ouvir a história das raízes de sua família “enquanto minha mãe está lucida”… E assim o fez e sabia que se eu estivesse no seu lugar faria exatamente o mesmo.

Nos perdemos na vida e, há alguns anos, depois de muito procurar na internet, encontrei George que respondeu o meu alô com um email comovente … Memórias dos anos 80 reavivadas, sempre ficam só as boas histórias… Contou que casara, tinha filhos e netos, era professor, queria muito que eu fosse visitar sua casa e conhecer a família… Tinha escrito um livro, ia enviar mas nunca chegou… Também nos conectamos no facebook, às vezes comentava as minhas fotos e de uns tempos pra cá sumiu… Já vasculhei diversas vezes e não o achei… Hoje enviei um email. Não sei por onde anda George Goodman em tempos de covid 19…. Mas sei que cada vez que vejo, escuto ou leio sobre racismo a sua imagem está junto…

…nem lembrava destes escritos…

Num movimento de mudanças e desapego, retirei todos os livros das estantes e armários, fiz uma seleção dos quais quero manter, e no meio encontrei algumas folhas arrancadas de um caderno com o texto que segue…É um curto diário escrito em novembro 2001, quando trouxe o meu irmão do Rio para Santo André depois de ter passado por um processo de radioterapia … Incrível ver quase 20 anos depois o que aconteceu com este lugar e a minha vida…

27 de novembro de 2001 – Sto Andre (BA)

Quando voltar ao Rio vou ver no meu mapa astral o que este dia representa, qual a quadratura do planeta, influências…. Talvez não tenha nada especial e, por não haver nenhuma expectativa, representou muito. No meio do voo para Porto Seguro, a não sei quantos pés de altura, entendi a vida. Nada a explicar muito teoricamente, mas de sentir profundamente. Só agora entendi onde estou e porque estou aqui cumprindo mais uma trilha. Estou perfeitamente integrada no universo e o que tenho que fazer me vai sendo mostrado passo a passo.

Quase 6 da tarde, o sol ainda morno, saio a caminhar na praia. Só eu e a natureza. Fiz uma prece linda, falei alto com o mar, as ondinas, as nuvens, os céus, os peixes, os pássaros, as árvores. Agradeci por estas descobertas. Antes tarde do que nunca. Agradeço pela graça dos meus 52 anos, ainda me é dada a chance de aprender tanto. Este 2001 tem sido revelador e transmutador. Quantas revelações profundas e íntimas.

Agradeci pela família em que estou e os desafios que me foram dados, aos que passaram e passam por meu caminho em todos os momentos e, se não consegui antes, que possa dar-lhes o meu amor.

Mergulhei no mar em oração num encontro pleno de energização, limpando cada célula do meu corpo e lavando a alma.

“Senhor, seja feita a sua vontade e não a minha”, repeti diversas vezes…

Enquanto escrevo uma sinfonia de pássaros executa a trilha sonora. Penso em meu irmão e penso em mim, em todo esse novo processo que apesar da dor me faz melhor, mais inteira e integrada. Sinto que estes dias serão plenos de descobertas.

….

Ontem quando o avião parou em São Paulo, deixei o Victor na sala de embarque e saí para chorar. Dói vê-lo tão debilitado em uma cadeira de rodas. Imagino o que ele pensa, sente…. Percebo seus sentimentos, medos e duvidas. Porto Seguro é próximo ao seu porto seguro sto andre. Choro quieta no saguão, dezenas de pessoas passam e as lágrimas correm velozes no meu rosto.  Engulo seco, olho para o teto, tento todas as técnicas para cessar o choro e nada funciona. Mordo a língua, respiro fundo e levo um tempo para segurar. Fico lembrando de quantos conhecidos estavam no mesmo voo: Kassu, Emilio Santiago, Lula Vieira, Rodolfo Medina. Pessoas que estão constantemente em minha vida. Vão e voltam. E estavam ali de expectadoras deste momento tão delicado. Emilio foi generoso, veio até nós, conversou com Victor como se nada estivesse acontecendo. Não fez cara de piedade.

Saio pelo aeroporto, entro na livraria e não escolho, sou escolhida por um livro do Brian Weiss. Acabo de ler na pag 85 algo genial referente ao desapego do medo abrindo a mente.
Você mantem um relacionamento tanto consigo quanto com outras pessoas. E você já viveu em muitos corpos e em muitos momentos. Por isso pergunte a si mesmo por que tem tanto medo? Por que tem medo de assumir riscos razoáveis? Teme por sua reputação, pelo o que os outros possam vir a pensar? Esses medos foram condicionados na sua infância, ou mesmo antes disso. Faça a si mesmo estas perguntas: o que posso perder? O que pode acontecer de pior? Sinto-me contente com a possibilidade de viver o resto da minha vida desse modo? Se a morte é uma realidade inevitável, isso será “tão arriscado”?

Apago a tv, a luz do abajur e são tantas as lembranças que voltam à minha mente que volto a escrever.  A emoção do Victor ao ver o mar enquanto o taxi fazia o percurso até Cabrália será inesquecível. Não sei se proposital ou ao acaso ele se sentou na janela que dava visão plena do mar. Fungou, passou as mãos nos olhos, mas não mostrou as lágrimas. O dia quente e lindo. Meia hora em Cabrália esperando a balsa. Aqui temos todo o tempo para esperar, estamos voltando para casa, estou cumprindo o que prometi.  

A brisa na balsa, janela aberta e Sto André vai se aproximando. A chegada na pousada, o reencontro com a casa. Victor está exausto. Branca e Fio vem ajudar com as malas. Victor fala pouco e vai deitar. Sobe devagar a escada e quando desaparece pego a Branca enxugando os olhos. Ugo vem, mas não chega a alcança-lo, já está deitado. Choramos juntos. Muito difícil. Não há como não se tocar com o estado que ele se encontra. Frágil, magro, sem músculos, nem parece o homem forte que deixou Sto. André há 6 meses. Chega de chorar. Apago a luz e vou dormir.

28 novembro 2001 quarta-feira

O banho de mar, o pedido para a limpeza do meu corpo, libertando de todas as energias negativas, atuou durante a madrugada limpando o intestino. Acordei aliviada…

8 da manhã café com Victor que veio de noite mal dormida com problemas no estomago. Dor e enjoo e o remédio está na mala que vem no carro com o Alceu. Victor está de poucas palavras, volta para a cama e saio para caminhar.

Sol gostoso, vou pela areia até a ponta da praia onde a maré está baixa. Sento num banco de areia e faço o exercício de respiração, me entrego neste reencontro com o universo.  Agora uma oração, peço aos santos e guias, leio a meditação do Serapis Bey e me sinto plena com a luz. Volto caminhando e o mar deixou na areia uma boneca pequena de plástico, parece uma guerreira. A vida e seus simbolismos e a minha cabeça viaja.

….

O sol está fugindo de mim. Quando quero ele desaparece, quando mal posso tê-lo chega forte. Um sol incrível me acompanha em Cabrália durante as compras, mas no retorno, na travessia da balsa, o céu fica nublado.  Ameaça uma chuvinha, vou para a rede e sinto o vento, os passarinhos, adormeço e acordo com o sol já no fim do dia. Victor dorme na cama que foi colocada na sala. Poucas palavras. Está com um ferimento no cotovelo e tenho trocado o curativo. Vou caminhar num fim de tarde magnifico. Sinto o calor na minha pele que está tão branca e não penso mais nada a não ser viver este momento. Ouvir o mar, sentir o sol.

“Senhor seja feita a sua vontade e não a minha”.

Estou sozinha neste universo em total contemplação. Silencio em mim. Escuto os sons da natureza e do meu corpo. Deito na areia e meu corpo vai sentindo os grãos tocando suavemente. Abro as pernas e os braços, tenho a sensação de que posso flutuar. Sozinha, percebo a natureza em um momento único e mágico, exclusivo para mim. Fico em silencio, mente vazia e desperto para mergulhar num encontro de vigor e vida resplandecente. Grito graças à vida. Obrigada Senhor…. Em um outro canto, ali bem perto, meu irmão está morrendo.

….

A Edoarda fez uma massa maravilhosa, com um molho mais incrível ainda. Mãos de mestra italiana. Trouxe suas panelas para jantarmos. Ugo veio também. Saboreamos o manjar dos deuses, tomamos vinho, demos boas risadas e Victor em silencio. Comeu pouco e foi deitar. Continuamos no papo e às 10horas fechei a casa. Não gosto de deixa-lo dormindo sozinho, mas ele não quer companhia. Estou muito bem instalada no chalé, mas queria estar mais perto. Aviso que meu celular vai ficar ligado durante a noite por conta das ligações do Bê as vezes na madrugada. Inventei esta historia e me recolho preocupada. O ferimento não cicatriza, talvez seja necessário um outro procedimento.

Senhor dai-lhe forças para mais esta noite…

Complementando o pequeno diário :

No fim de semana, 1 e 2 de dezembro, Victor foi internado em Belmonte, para tomar soro e tratar do ferimento no braço. Retornamos dia 3, segunda-feira

O meu irmão Alceu trouxe o carro, sinto que não vai dar para ficar. Converso com a médica sem o Victor saber. Ela recomenda o retorno para o Rio.

Dia 8, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cabrália, rezo e peço que nos mostre o melhor caminho.

Dia 9 Victor acorda e me diz que devemos voltar.

Dia 10 de dezembro descemos no aeroporto de Congonhas e fomos direto para o hospital.

Dia 21 de dezembro Victor morreu.

Dia 23 de dezembro, atendendo seu pedido, deixei seu corpo no pequeno cemitério à beira da estrada em Mogiquiçaba, na divisa entre Cabrália e Belmonte.  

Só para mulheres experientes

Saíram do meu corpo 10 quilos e começo a me descobrir uma outra mulher. Não a mais magra que já fui e usou tantas roupas que ficaram guardadas como querendo provar que tinha sido mais leve … Mas uma mulher de 70 anos que voltou a olhar o seu corpo com prazer. Um assunto muito feminino que só quem voltou a vestir a velha calça jeans desbotada com folga pode avaliar… A sensação do vestido estar solto no corpo, de tudo cair melhor, de comer menos, não mais devorar uma caixa de bis e ficar feliz com 2 figos desidratados.  Não foi uma dieta, mas uma forma diferente de encarar a vida ao constatar que ainda tenho muito a construir e realizar. Pode parecer piração, mas tenho a sensação que o estômago diminuiu sem bariátrica. A gula foi controlada, aprendi a tomar café sem açúcar, retirei o trigo e o leite da mesa… Nada radical… Se der vontade como uma boa massa caseira ou um sorvete italiano que adoro… Neste novo movimento, entrou também o desapego aos livros e DVDs – os CDs já foram –, a organização das fotos que estão em diversas caixas, escrever mais (talvez um livro!), entender a razão da vida (se possível!), ser mais colaborativa, compreender o que é néctar e compaixão, refazer a horta e comer o que pode ser plantado no quintal. Tudo isso e muito mais, não necessariamente nesta ordem…

E foi neste novo estilo que viajei para São Paulo à trabalho aonde, invariavelmente, arrumo um tempo para me dar ao luxo de cortar o cabelo com o Jassa e passar na rua João Cachoeira que fica próxima a endereços que morei muitas vezes no Itaim Bibi. Tem o podólogo, a farmácia, a loja de camisetas, a das roupas sociais, a dos sapatos e a de lingerie. Foi exatamente nesta última que me surpreendi. Desculpe a intimidade, mas como estou falando entre amigas, confesso que há muitos anos uso um determinado tipo de calcinha de microfibra super prática e confortável, de uma marca bem conhecida e sem qualquer glamour.  É entrar na loja, olhar na prateleira, separar meia dúzia de beges e pretas, colocar na sacola e levar prá casa. Nem preciso experimentar. Estava exatamente no gesto de pegar as calcinhas quando me dei conta que não importava a cor, o estilo, era só algo para cobrir o corpo. Neste momento perguntei ao coração aonde eu tinha esquecido a minha alma feminina. Onde foi parar o sexy appeal, o cuidado em escolher lingerie para ocasiões especiais, as camisolas sedutoras…. Por um instante me remeti aos 19 anos quando, com o primeiro salário, comprei um conjunto de calcinha e sutiã importados. Tecido sintético delicado, novidade na época, com estampa clara num xadrez azul e branco, enfeite de rendas, estilo Brigite Bardot dos anos 60.  Foi a partir desta aquisição que descobri a graça do bem vestir na intimidade, mesmo que fosse apenas para mim. Mas naqueles tempos havia muita liberdade conquistada através da pílula anticoncepcional que veio mudar o comportamento das mulheres, a forma de encarar o mundo e fazer escolhas. Ser dona do próprio corpo, permitir seus desejos com total consciência …  Em plena maturidade, como num filme, me veio à memória os lençóis de seda, quartos floridos e perfumados, coleções de lingerie, meias de seda, colares de pérola, jogos de sedução, uma rica vida de muitas emoções. Em que momento tudo isso acabou? Ainda estou buscando a resposta, reconstruindo a trajetória e para começar devolvi as calcinhas comportadas para a vendedora e levei um conjunto de renda preta. Vou ser feliz…    

Foto : Cláudia Schembri

Maysa

Conheci Maysa quando fui trabalhar com Flávio Cavalcanti no final dos anos 60. Ela era meu ídolo. Descobri Maysa com pouco mais de dez anos assistindo um programa de TV . Morávamos em São Paulo, era tarde da noite e não era programação para criança. Não sei bem porquê, mas naquela noite meu pai me deixou acordada e fiquei deslumbrada ao vê-Ia entrar no estúdio. Ela estava um pouco gorda, usava um vestido de chjffon drapeado preso num ombro só, os cabelos meio curtos caindo em desalinho pelo rosto e cantava Meu Mundo Caiu. Esta cena em preto e branco tinha um impacto ainda maior. Maysa era diferente de tudo o que eu vira e ouvira sobre música. Não tinha a doçura de Cely Campelo com seus lacinhos cor-de-rosa nem a voz grave e o violão de Inezita Barroso como o disco que tínhamos em casa. Era uma mulher com um olhar profundamente triste que caminhava por um estúdio esfumaçado, taça de champanhe na mão, apoiando-se em colunas de estilo romano e falava de um amor sofrido. Nos dias de hoje seria dark. Passei a acompanhar o trabalho de Maysa, rompendo com todos os paradigmas de mito para uma garota da minha idade.

Maysa foi compositora e cantora de grande carisma. Nasceu numa família rica, casou com um herdeiro dos Matarazzo, de São Paulo, e abandonou tudo pela música. Nos anos 70, continuava uma mulher muito bonita, cabelos castanhos caindo no rosto, olhos verdes profundos e um ar muito chique. Suas canções eram tristes, a chamada “música de fossa”, e seus sucessos eram Ouça e Meu Mundo Caiu. Em meados de 60, casou com um espanhol e foi morar na Europa. Estava lá há alguns anos quando, em 68, Flávio foi a Portugal para fazer o programa A Grande Chance a convite da TV portuguesa, transmitido pela Eurovisão. Hospedado no Hotel São Carlos, em Lisboa, Flávio reencontrou Maysa. Um encontro mais do que agradável, sincero, amigo e saudoso. A cantora acabou aceitando o convite do apresentador de voltar ao Brasil. Foi integrar o júri do programa Um Instante, Maestro!, fez um show inesquecível no Canecão, dirigido por Ronaldo Bôscoli e permaneceu fixa no Programa Flávio Cavalcanti.

Sincera, às vezes enfossada, mas grande amiga. Em 73, eu ainda trabalhava com Flávio, mas comecei a fazer reportagens como freelancer para uma revista. Um dia chegou a oportunidade de fazer uma entrevista com Maysa. Eu estava separada há pouco tempo, vivia pela primeira vez a experiência de morar sozinha com um filho pequeno, e não foi preciso muito para que Maysa percebesse minhas dificuldades naquele momento. Não perguntou muito sobre a minha vida, mas no meio da entrevista pegou o telefone e fez uma ligação. Começou a falar com alguém e lá pelas tantas pediu o endereço da minha casa. Quando desligou disse que eu deveria estar pronta às nove horas da noite, na porta do prédio, porque seu ex-marido, e amigo, iria me levar para jantar. Recomendara a ele que me desse uma noite inesquecível, pois eu estava precisando me divertir.

E tudo aconteceu conforme ela organizou. No dia seguinte, Maysa me telefonou para saber se o ex-marido havia se portado bem. Contou que fizera algumas anotações para ajudar na minha reportagem e que mandaria entregar. No mesmo dia chegou um envelope; quando abri, encontrei quatro folhas de papel-ofício dobradas ao meio, com uma pequena biografia manuscrita. Como toda fã, fui egoísta, guardei só para mim. Em 1977, quando Maysa morreu num acidente de carro na ponte Rio—Niterói, eu estava no Festival de Cinema de Gramado. Era um sábado, 22 de janeiro, e eu me preparava para a festa da entrega de prêmios do festival quando vi a notícia no Jornal Nacional. Chorei muito, e mais uma vez lembrei das quatro folhinhas dobradas, aqui transcritas.

 “Nasci no Rio, sou de Gêmeos, dia 6 de junho. Nasci em Botafogo, em casa mesmo, na Rua Visconde Silva. Hoje em dia é uma clínica. Tenho imensa saudade daquela casa e sempre sonho com ela.  Tenho um irmão, Alcebíades, já casado com Dorinha e que tem uma filha linda chamada Maysa, como eu. Meus pais são maravilhosos, minha mãe é linda e papai tem os olhos mais azuis que já vi. Sempre foram meus amigos e companheiros em tudo e para tudo.

Só não gostaram quando eu comecei a cantar. Deram o não. Hoje, porém são fãs incondicionais. A música sempre foi importante pra mim, desde menina. Minha tia Lia era pianista excelente, e, quando ela estudava, eu ficava horas e horas sentada ao lado dela ouvindo música clássica.

Aos três anos eu já sabia tocar alguma coisa com dois dedinhos. Aos seis ia dar meu primeiro concerto de piano, mas caí doente com sarampo. Aos sete outra vez, mas tive catapora; assim, nunca pude levar a sério uma carreira de pianista, hoje uma de minhas frustrações.

Já casada, esperando Jayminho, meu filho, hoje com dezessete anos, numa festinha em casa toquei algumas das músicas que compunha desde os treze anos.

Estava lá Roberto Corte Real que me convidou para gravar um disco logo que o baby nascesse. Meu pai era muito amigo de Silvio Caldas, Elizeth Cardoso, que sempre estavam lá em casa. Sílvio foi a primeira pessoa que me ajudou a tocar violão. Com Elizeth, aprendi muito para depois partir para cantora.

Não foi fácil conseguir ser profissional. Para poder seguir essa profissão, tive que abrir mão de muitas coisas e, por fim, não podendo mais, larguei até o meu casamento, minha casa, enfim, a minha vida de moça de sociedade, para seguir a minha verdadeira estrada.

Devo ter mais ou menos uns 23 LPs, muitos feitos no Brasil e dois nos States, Itália, Espanha, Argentina etc. Compus muitas músicas e devo ter gravado umas cinquenta. Elas sempre refletiam meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui escrever nada alegre. Fora do Brasil estive sete anos. As razões foram várias, mas a principal foi meu segundo casamento. Meu segundo marido, Miguel Azanza, era espanhol, e todos os seus negócios estavam na Espanha. Segundo foi querer levar Jayme para que ele tomasse contato com a vida num local onde ele fosse somente Jayme, e não Jayme Matarazzo. Para que ele aprendesse a se valorizar pelo que ele é, e não por outras coisas que poderiam ocorrer em face de seu nome.

Com a morte de André, meu primeiro marido, levei o Jayminho para a Espanha e hoje não me arrependo. Atualmente minha vida chegou a um ponto onde há um equilíbrio agradável, embora eu esteja dando os meus primeiros passos para que o equilíbrio seja total. Muitas vezes ainda me sinto perdida, só, o que é normal para quem se colocou tanto tempo nessa situação.

Carlos Alberto e eu temos muita coisa em comum, inclusive uma vivência adquirida nos tantos erros anteriores. Fomos pessoas machucadas e machucamos. Tudo que sou agora é uma consequência lógica do que passou. Só que procuro tirar o que de bom ficou e jogar fora o que não interessa. Há anos venho em busca de um local que me permitisse uma paz quase inacreditável. Antes era na Barra da Tijuca, há dezesseis anos, onde eu tinha uma casa e vivia em perfeita harmonia com meus bichos, o mar e uma turma da pesada. Hoje é uma praia distante onde vivo na mais completa harmonia com Carlos, com os bichos, o mar e mais ninguém a não ser essa nova expressão que está nascendo em mim há algum tempo que é a pintura. Levei um piano onde pretendo compor algumas coisas, levei um cavalete, meus discos e levei a minha paz que, juntamente com a de Carlos, nos faz pensar num pra sempre.

Jayminho hoje tem dezessete anos, é bonito, rico, canta, toca violão, pinta, é bacana e um ser humano maravilhoso, que muito me ajudou no encontro dessa paz que hoje em dia é a minha constante.

E se às vezes derramo o caldo, ele é quente, mas não mais fervendo.”

E isso aí, bicho!

Rio, novembro de 73″

Parte do livro “Um Instante, Maestro!”