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A primeira vez…

Foto @claudia.schembri

E foi assim que certa manhã olhando no espelho de aumento percebi uma mancha pequena na lateral esquerda do nariz… Escura, com uma certa textura, quase escondida na dobrinha da narina, surgiu sem avisar… Um pequeno “milho” na testa, uns cravinhos ao lado dos olhos, uns pelos que surgem ao redor dos lábios que são retirados, todos esses elementos se integraram ao meu rosto há alguns anos e cuido na medida de seus desejos… Mas aquela manchinha com textura era novidade… Informalmente mostrei à uma querida moradora de Santo André, doutora com muitos títulos que socorre os amigos nos mais diversos assuntos da medicina, que olhou com atenção, não viu grande problema, mas sugeriu que procurasse um dermatologista sem muita pressa…

E foi assim que pela primeira vez apavorada com um câncer de pele fui a uma dermatologista. Afinal quem vive junto ao mar há quase 18 anos, nem sempre usando protetor solar, tudo seria possível. Mas ir a um profissional dessa área também me remete às histórias que ouço de amigas fazendo intervenções para minimizar as marcas do tempo, diminuir rugas, harmonizar a aparência, o que jamais cogitei por temer qualquer ação que não possa voltar ao modelo natural, e isto inclui tatuagem, cirurgia plástica, botox… Não recrimino, só temo me olhar no espelho e não ver mais a mesma que acompanhei toda mudança ao longo dos anos…

E foi assim que num calor ainda de verão encontrei num consultório super refrigerado em Porto Seguro a minha primeira dermatologista. Impossível esquecer a Dra.Flávia Levy!  Na primeira frase me senti sendo atendida por Ivete Sangalo, tal o sotaque soteropolitano … Alta, morena, cabelos longos, morando no sul da Bahia há pouco mais de um ano, fala com um jeito todo especial de quem sempre viveu em Salvador… Apresentando-se como “dermatologista de raiz” temendo a quantidade de sol e o maleficio à nossa saúde, bem-humorada sugere o uso de burca, camisas de mangas longas e chapéu com tecido UV… Se gostasse das redes sociais, @flavialevydermato faria enorme sucesso pois tem uma forma fácil e divertida de falar sobre problemas tão sérios…E no meio da nossa conversa, depois de ter olhado profundamente todo o meu rosto com uma lente, pediu que eu tirasse a roupa justificando  “entrou aqui tenho que ver tudo, sou uma dermatologista de raiz” !!

E foi assim que timidamente fiquei de calcinha e sutiã na sua frente, acompanhando o movimento que fazia com a lente percorrendo cada detalhe de todas as pintinhas, marcas e gordurinhas do meu corpo.  E não são poucas…. Parecia um detetive olhando, tocando analisando, e não pude deixar de pensar que se fosse há 50 anos o estado da matéria seria bem melhor…  As pernas reveladas nas minis saias e faziam sucesso já não respondiam mais ao passado de glória…Contei sobre a perda da safena no Rock in Rio de 1991, e aí já não eram mais as pintinhas, eram as grandes marcas da vida. Ah! vaidade feminina, acima de qualquer cuidado com a saúde… O que poderia já ter mexido comigo profundamente ainda foi mais forte quando pediu para tirar o sutiã e levantar os braços…. Desmontei. Que mulher sou eu neste exame psicologicamente mais profundo do que a ressonância magnética, a tomografia, a colonoscopia, a endoscopia, que fiz nos últimos anos… Olhando por fora me vi por dentro…

E foi assim que uma manchinha no nariz me levou à uma viagem profunda.  Apesar dos efeitos dos anos, o rosto está bem. Vou continuar com o Chronos que me acompanha há anos, de manhã e à noite, que será somado ao uso de um sabonete, uma pomada para a manchinha do nariz e outras que nem tinha visto no corpo, além de um protetor FPS 70. E pensar que eu só passava protetor 30 no rosto e óleo de coco… As camisas de mangas longas UV que ela sugere, sinto muito não vou usar… Ainda é vital sentir o sol queimando depois de um mergulho no mar… O mais importante deste encontro foi descobrir que há sempre hora para a agente se ver integralmente, por fora e por dentro… Mesmo com marcas, cicatrizes, algumas mazelas, a vida tem sido muito boa…

Pela janela

Na volta da praia, corpo feliz com o sal e ainda quente do sol, antes de fechar os olhos para o banho – aprendi recentemente a me lavar exercitando o tato – vi da janela um Aracuã se equilibrando nos galhos finos da árvore no jardim em busca dos pequenos frutos… Tentei fotografar mas a ave foi rápida e se escondeu entre os galhos… Mas essa cena bastou para me levar a uma reflexão durante o banho e ao logo do dia… Qual mágica uma ave pesando em torno de meio quilo e medindo por volta de meio metro faz para pisar tão delicadamente, quase flutuar, a fim de colher seu alimento?

Fazendo analogia com a vida, colocando os pés no chão, percebi quantas vezes para sobreviver fui Aracuã… Quando em cima do galho fino, buscando proteção entre folhas e frutos, diante do desafio surgia o equilíbrio numa força que sabe Deus de onde vinha e resolvia o que parecia impossível… Com o passar do tempo, como se olhando no retrovisor, claramente revejo a caminhada, sem fantasias, mas só com um pouco de poesia e carinho. De galho em galho, de árvore em árvore, buscando e colhendo frutos, cheguei aonde estou muito mais paciente…

Quando vim morar na Bahia, fiz um site pessoal, semanas de trabalho tentando me alfabetizar em html, errando e acertando, e na apresentação escrevi algo como: hoje não sou mais ventania, sou vento morno…  Na época que escrevi eu ainda não era assim, mas foi uma boa previsão de um futuro que, 18 anos depois, percebo realmente ter atingido… O ditado português “”dou um boi para não entrar numa briga, mas dou uma boiada para não sair” desapareceu do meu discurso… Estou mais para conciliar, buscar o caminho do meio, encontrar uma saída…

Isso não me impede de sair pelo jardim interrompendo algum caminhão enorme que entre pela servidão (a ruela que leva à praia) para fazer entregas na pousada ao lado…. Até pouco tempo não entravam, tudo chegava em carros ou carrinhos de mão… Mas desde o dia que precisei cortar o galho do cajueiro que era um lindo adereço e impedia o acesso à veículos maiores, descobriram o caminho mais fácil e menos correto. Mesmo sem poder manobrar, caminhões enormes entram arrancando os galhos das árvores que ainda resistem e se derramam pela pequena rua… O desrespeito me incomoda, seja ele qual for, e nessa hora volto a ser ventania… Mas a revolta dura pouco… Respiro fundo, procuro ver o ridículo que é sair brigando por conta de alguns galhos maltratados ou por qualquer coisa… A vida é curta e boa… E vou aprendendo cada dia a causar menos impacto externo, buscar equilíbrio como o Aracuã, olhar mais às árvores, o movimento do mar, as estrelas nas noites escuras, e me descobrir de olhos fechados embaixo do chuveiro….

Domingos

Foto : Claudia Schembri

Eu adoro o silencio dos domingos…

Aos domingos não arrumo a cama, tomo café de pijama lendo o jornal no tablet, e nem os passarinhos cantam no meu quintal… Acho que eles sabem que é dia de descanso…

Aos domingos ouço música, como meu pai fazia quando eu era criança… Colocava os discos na vitrola e ficava fazendo alguma coisa, às vezes preparava o fumo para o cachimbo, misturava vários blends numa lata grande e acrescentava casca de maçã em uma operação silenciosa e cuidadosa. Em outras arrumava os próprios discos ou os livros na estante e pouco antes do almoço preparava algum drink especial que levava para mamãe na cozinha e me deixava dar uma bicadinha…  

É uma lembrança tão significativa que me faz ouvir música aos domingos como se fosse uma celebração em memória da minha família… Não preciso mais colocar os discos na vitrola, tenho uma playlist no spotify com Rod Stewart cantando standards americanos, uma série de boleros na voz de Luiz Miguel, o jazz da Diana Krall, a maravilha de João Bosco e ainda o som do nordeste de Fagner, Geraldinho Azevedo e Alceu Valença… Fico arrumando o jardim, tomando sol e bebendo Aperol…  Apesar da música ter feito parte da minha trajetória profissional, não consigo ter como fundo musical no cotidiano… Não trabalho ouvindo música… Tenho os sons da natureza, às vezes interrompidos pelos carros que passam vendendo frutas, fazendo anúncios da prefeitura e mais um sem número de ofertas, mas sei que são passageiros e não me aborrecem…

Aos domingos algumas vezes deixo de almoçar fora com amigos e faço um macarrão que não chega próximo ao sabor dos que vinham à mesa na casa dos meus pais acompanhados de carne assada e salada de batata com maionese… Quantas vezes ajudei a preparar a maionese amassando a gema cozida, colocando azeite aos poucos até ficar bem clarinha, quase branca…  

Durante muitos anos, quando morava distante, aos domingos no fim da tarde telefonava para minha mãe. Horário em que todos estavam reunidos para o lanche e assim sabia das novidades da família numa única ligação que muitas vezes aconteciam com chamadas internacionais que pesavam no orçamento, mas traziam uma alegria que preenchia meu coração por uma semana… Ainda hoje aos domingos no entardecer tenho o impulso de pegar o telefone mas ninguém atende o 586827. A família ficou pequena, mas continuo tendo os domingos…

Parabéns Leny Andrade

Em outubro de 1983 passei a madrugada andando pelas ruas de Manhattan esperando o jornal The New York Times ir para as bancas.  Não andava sozinha, estava com a Lali Jurowski e o Zé Luiz Oliveira esperando para ler a crítica do show de Leny Andrade no Blue Note… Foi o Zé quem fez o contrato da Leny para seu primeiro show na Big Apple, a Lali minha amiga era produtora e intérprete da cantora e músicos, e eu tinha intermediado com a agencia de turismo aonde trabalhava o patrocínio da hospedagem e passagem aérea para a “brazilian jazz singer” conquistar a América.  Lembrei desses momentos com a notícia de que hoje Leny está fazendo 79 anos…

Ao longo dos anos ouvi Leny nas noites do Rio, ela tocou (e toca) na playlist de meus amores, principalmente os boleros… Há alguns anos reencontrei Leny morando no Retiro dos Artistas. Lembramos esta temporada que não mudou apenas a sua vida, mas a minha também.  Ela não sabia o quanto tinha sido importante quando uma noite no hotel em Manhattan, se preparando para o show, falávamos sobre crenças e ela me deu um livrinho de orações diárias… Durante muitos anos achei que o tinha perdido em tantas mudanças, até que ressurgiu numa pasta de documentos antigos num momento em que eu precisava ter fé. Desde então ele está na minha mesa de cabeceira…

Feliz aniversário Leny querida… que os anjos, arcanjos, elohims e serafins sempre estejam em seu caminho…

By John S. Wilson

  • Oct. 2, 1983

JAZZ: THE BRAZILIAN SINGER LENY ANDRADE

Leny Andrade, who’s being heralded as ”Brazil’s No. 1 jazz singer” at the Blue Note, where she is making her American debut through tonight, is a short, plump, round-faced woman who looks somewhat like Mildred Bailey and who does scat singing with an agility that approaches Ella Fitzgerald.

But in a program that is rhythmically focused on the bossa nova and on the livelier, more headstrong samba, and sung, with one exception, in Portuguese, Miss Andrade is most impressive in a song that is totally removed from jazz – an emotional and moving ballad in the Piaf tradition, ”Cantador.”

Miss Andrade sings it in a darker, softer voice than Piaf’s, with a dramatic effect that comes through even to a listener who doesn’t understand Portugese.

Her jazz talents come out in full force when her scat singing is done in challenging exchanges with the trumpeter and trombonist Claudio Roditi and the excellent quartet that he leads as her accompaniment – Aloisio Aguiar, piano, Lincoln Goines, bass, and Portinho, drums.

Possibly in an attempt to get around her language limitation, Miss Andrade is depending too much on scat singing, which soon becomes monotonous, particularly when she has another side to her singing that indicates a much wider vocal scope.

Autumn leaves, fora do tempo

Os tempos estão estranhos… Não falo de política, mas como a natureza está se expressando .. Depois de tanta chuva em novembro e dezembro, o outono chegou mais cedo com a profusão de folhas das árvores cobrindo o jardim da minha casa… Mas não é uma questão pessoal das folhas comigo… A mangueira linda na casa de amigas simplesmente ficou pelada em poucos dias e precisaram cortar seus galhos. Doeu no coração ver a árvore frondosa se despindo. Hoje é um monumento abstrato no jardim e todos os dias as proprietárias buscam esperançosas uma folhinha nascendo…. Uma árvore também se derramou no meu jardim e um lindo coqueiro cica foi coberto por fungo, necessitando de uma poda radical. Estou tratando o que sobrou, quem sabe se regenera… Ando pelo jardim fazendo croc croc nas folhas, nem tenho mais espaço na composteira para tantas …. 

Semana passada tropecei num vaso de plantas recém colocado na calçada em volta da minha casa. Desde então, de forma mais profunda do que simplesmente algo estético ou o imaginário da cantiga de roda onde Terezinha “de uma queda foi ao chão”, tenho refletido o que devo retirar do caminho. A vida dá sinais quando algo não vai bem, assim como a natureza.  Sem folhas para me despir, me resta o teclado de um computador e uma tela para rever minha trajetória. Acho que é tempo…

Começo aqui o que não sei ainda aonde vai dar, quem sabe num livro…

Opinião 1964

Em 1964 eu tinha 15 anos e uma sorte imensa. Alexandre, meu primeiro namorado, vinha de uma família que tinha por hábito ir ao teatro e, em dezembro daquele ano, me convidou para assistir “Opinião” num teatro ainda em fase de acabamento na rua Siqueira Campos em Copacabana.  Foi um soco no estômago. Eu era uma garota da Tijuca que nunca tinha ido em um teatro de verdade – não que este fosse – e ontem, ao terminar de assistir ao documentário sobre Nara Leão na Globoplay, percebi como este encontro mudou minha vida para sempre.  O pai do Alexandre era general reformado, família do Rio Grande do Norte. Eles tinham alguma referência com o João do Vale, e creio que foi isso que nos levou a assistir ao espetáculo. O impacto foi tão grande, tanto para mim quanto para o Alexandre, sua irmã Ana Lucia e o namorado Marcos, que voltamos outras vezes inclusive para assistir Suzana de Moraes na curta temporada em janeiro de 65 e depois para aplaudir Maria Bethânia.

O namoro terminou, a amizade permaneceu pra sempre, mas aquele espetáculo mudou a minha vida. Eu fiquei completamente comprometida com a música, com a cultura, com a arte e com a política do país. Vivíamos em uma ditadura e eu pouco tinha conhecimento. Foram aqueles trechos das músicas, os textos do Armando Costa, Paulo Pontes, Oduvaldo Vianna Filho, a direção musical do Dory Caymmi e a força da direção geral do Augusto Boal que viraram minha cabeça.  “Carcará pega pra matar e come”, “podem me prender podem me bater que eu não mudo de opinião”, “a peba na pimenta”, “acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções”, “tristeza não tem fim, felicidade sim” que me fizeram desistir de estudar o curso técnico de Máquinas e Motores na Escola Técnica Nacional. Fui para a área de letras fazer o 2º grau Clássico quando conheci Ângela Porto Carrero, uma outra história que me abriu ainda mais portas nos encontros na Jaceguai 27 onde até me tornei amiga do João do Vale.

E sem maratonar, saboreando em pedaços como uma deliciosa torta Banofee, fui assistindo ao documentário passando em revista minha trajetória nos 5 episódios. Trilhas sonoras, estética, comportamento, modismo. Quase 60 anos que vivi estão lá.

Porém, mais do que ser uma obra importante para a música, a política, os costumes e a cultura do país, mais do que rever trechos do Opinião revendo minha ainda adolescência já madura, revi a minha vida ao sabor de Nara e seus amigos, sendo que muitos foram e continuam sendo meus. O jargão “à frente do seu tempo” é pouco para definir Nara e suas posturas. Ela era iluminada. E este foi o sentimento que tive na única vez que a entrevistei, em junho de 1981, para o Segundo Caderno de O Globo onde contava sobre o lançamento do disco “Romance Popular”. Depois de 6 anos Nara trazia um repertorio quase inédito apresentando Fagner e Fausto Nilo, se lançava como letrista em “Cli,Clé, Clô” e me falava sobre seu trabalho e planos. Tudo muito informal, nós duas sentadas no degrau do portal da sala voltada para o jardim do apartamento térreo na Rua Visconde de Pirajá de onde podíamos apreciar os muitos pés de goiaba, romã, carambola, cana de açúcar e banana, presentes do amigo Rubem Braga, também morador do bairro. “Um disco com alto astral”, assim ela definia o trabalho que levou 9 meses para ficar pronto e sua alegria ao se ver na capa mais bonita do que se achava. Conversa de mulheres passando dos 30, lembro deste sentimento.  A calma na conversa, um jeito equilibrado, tranquilo, audacioso sem alarde… E foi isso que concluí ao assistir ao documentário: Nara nunca alardeou que faria uma revolução, simplesmente fez… Não teve marketing, estratégias, modismos, posições… Era coração, intuição e verdade…

Nunca mais esquecerei Opinião e sou eternamente grata ao Alexandre, meu primeiro namorado…

Regenerar

Às 5 da manhã ao olhar o celular me surpreendi com as tantas mensagens de amigos querendo saber como estou… Sei que as notícias do sul da Bahia são aterrorizantes. Acompanho os fatos, chove desde o início de dezembro, as ruas da Vila de Santo André são uma coletânea de poças, o rio Acuba que estava seco há anos voltou a ter água, assim como um dos seus pequenos afluentes que servia de depósito de folhas de coqueiro e dendê subiu o degrau da varanda da casa de uma amiga. As notícias exibidas não são do meu sul da Bahia…  Por enquanto tudo bem por aqui. Santa Cruz Cabrália está com muita sorte, é isso que mais se escuta na rua.

Aproveito a estiagem, vou à Cabrália. Na balsa encontro Maria Nilza, feliz pelo rumo que sua vida está tomando, virou uma marca e contou que cada vez precisa ter menos. “A chave de uma casa, um cartão de crédito e uma mochila, é só isso que preciso pra ser feliz…Menos é mais”. Fico refletindo a sabedoria desta mulher e quem não conhece a trajetória sugiro a leitura rápida do perfil que escrevi há algum tempo para uma revista da região e republico abaixo.  

Depois dos 60 anos há muito mais para se ver de forma divertida… Relembrando Elis Regina em uma de suas últimas entrevistas “hoje a única coisa que me tira sono é febre de criança”…. Como não tenho criança, transfiro a preocupação para os cães, hoje doentes, razão para a travessia de balsa em busca dos remédios… Passo no correio para ver o que tem na caixa postal e encontro um livro, muito adequado a estes tempos que, como profetiza um amigo, “o sertão vai virar mar”.

O livro “A Arte de Guardar o Sol” de Walter Steenbock, fala sobre os padrões da natureza na reconexão entre florestas, cultivos e gentes. Como escreveu a querida Carla Mott Ancona em um bilhetinho que acompanhou o presente “é para lembrar que sempre estaremos interconectados. Que possamos seguir compartilhando nossos sonhos na eterna busca de novos horizontes para a regeneração da Mãe Terra”… Exatamente o que estamos precisando, regenerar as vidas, inclusive as nossas… E é por aí que andam meus pensamentos nestes últimos dias 2021, um ano difícil, mas com belos encontros e ensinamentos… Quero fazer menos barulho, ser mais brisa do que tempestade.. E que a leveza em 2022 nos acompanhe contrabalançando as previsões mais tenebrosas…

MARIA NILZA

Por Léa Penteado.

O aroma do feijão cozinhando no fogão a lenha da casa da avó ainda acompanha Maria Nilza. Não é à toa que o restaurante que tem há 16 anos na praia do Guaiú tem seu nome acrescido de “no fogão a lenha”, a sua marca registrada.  Se engana quem pensa que ela cresceu na cozinha. Fugiu o mais que pode do fogão. Morou em São Paulo e descobriu a maravilha de uma grande capital. Foram 12 anos entre idas e vindas para Vitoria da Conquista onde a família se instalou. Retornou para conduzir com a irmã um hotel e foi um choque cultural. Mas encarou o desafio que lhe deu a experiência de recepcionar clientes. O trabalho era muito, mas compensava financeiramente. A convite de amigos que tinham uma fazenda em Porto Seguro conheceu o litoral e quando viu o mar foi amor à primeira vista.  Durante um bom tempo se dividiu entre as duas cidades e tudo mudou quando foi convidada para cuidar do receptivo do restaurante A Fronteira, o maior na Passarela do Álcool. Apaixonada pela região, num dia de folga foi expandir seus limites e no caminho para Belmonte pegou uma carona que parou no Guaiú. E foi ali que conta ter sentido uma energia diferente que vinha no cheiro de terra molhada e provocou um estado de êxtase. Agradeceu a carona e ficou no local mesmo sem saber como voltaria para Porto Seguro. Ali começou a história de vida e amor que uniu seu nome ao povoado onde construiu sua marca. Alugou uma casinha para onde fugia nos dias de folgas, depois começou a fazer compotas com frutas da região e pensando mais longe, ao perceber que havia apenas um restaurante que nem sempre estava aberto, resolveu fazer o seu. Alugou uma casa maior, fez um puxadinho para o restaurante com duas mesas e um balcão. A experiência na cozinha era pouca, mas o feijão no fogão a lenha, o arroz soltinho, um frango à milanesa empanado com queijo ralado, farofa de cenoura e um molho de tomate com petit pois encantou o primeiro cliente, um vendedor de motores para barcos que passava pela região e foi embora falando maravilhas. Mandou muitos clientes, assim como amigos de Porto Seguro que na base da boca a boca foram promovendo os seus sabores até estourar em 1996 numa reportagem na revista Veja sobre o litoral brasileiro e referenciada como a “pérola baiana”.  O restaurante pé na areia, num lindo visual da praia do Guaiú, aberto de 3ª a domingo das 10 da manhã às 16hs, é referência nos guias de turismo, recebe visitantes de todo o mundo e os recepciona com o imenso sorriso e simpatia. Todos os detalhes da decoração, como o banheiro que é uma atração à parte, são pensados por ela. A equipe é formada por moradores do Guaiú e na cozinha ainda tem o fogão a lenha. No cardápio não pode faltar a carne de sol e o arroz de polvo, a resistência desde que tudo começou. 

Feliz Natal

O sol entrou em capricórnio esta semana, e para mim diz muito…. Aguardo um brilho lá na frente depois do dia 3 de janeiro… Mesmo antes de ouvir falar de astrologia, o mês de dezembro já me soava estranho. Era uma vontade para que passasse rápido e logo chegassem as férias que me levariam para o Rio de Janeiro num circuito de hospedagens nas casas das madrinhas e da avó. Era uma festa arrumar a mala com roupas novas, viajar no ônibus da Viação Cometa para encontrar a família, os tios e primos, ir à praia, sentir o verão carioca. Picole com pedaços de coco num carrinho sem marca, deixar a barriga de fora, andar descalça, comer manteiga com sal, ouvir o sotaque chiado dos cariocas…  Era entrar o ano de alma lavada e com muitas histórias para contar…

Vivi esses estranhos dezembros, esperando janeiros, de muitas formas. Comprando presentes, casando e descasando, arrumando a festa para a família, escondendo presentes para Papai Noel chegar em grande estilo, fechando projetos, fazendo promessas, andando na neve, chorando, vendendo anéis para comprar uma árvore de Natal, eram 30 dias onde que cada um que passava dava um alivio, um a menos, como uma gincana que teria fim…  Isso vai acabar, falta pouco…. Ainda continuo assim vivendo esses dezembros…. Hoje às 5 da manhã ao acordar com mais um dia de chuva – raras exceções têm mais de um mês que está assim – pensei em quantas coisas gostaria de fazer e não posso. Decidi ficar quieta, sem desespero, esperar dezembro passar, a chuva diminuir e dias melhores virão. Afinal eles sempre vieram!  E como escreveu um amigo “A alegria é simples. Viver também. Por que complicamos? ”

Feliz Natal…

Quando se fala a verdade

Se há 4 dias uma mentira sobre o estado dos passageiros do avião em que estava a cantora Marília Mendonça enganou a imprensa por algumas horas, ontem a verdade mostrou que pode ser realmente a melhor notícia. Quando a jornalista Lilian Ribeiro abriu o programa “Em Pauta”, na Globonews, com lenço na cabeça e comunicou ao vivo que está tratando um câncer. foi um soco no estomago. Mais direta impossível, sem preâmbulos, sem mimi ou vitimização…Certamente não foi uma posição apenas da jornalista que no último ano começou a trilhar o caminho de apresentadora. O assunto deve ter sido discutido, estudado estrategicamente, debatido pela editoria da emissora… Percebo que essa atitude vem junto a uma postura que a Globonews vem tomando de “humanizar”, nem sei se este é o termo exato, os seus profissionais… Menos plásticos, mais orgânicos…Gente como a gente, só que com maior visibilidade…O mundo está aprendendo a ser verdadeiro, não temos tempo pra enganar …

Isso me faz muito feliz, confortável com minhas propostas, pensamentos…Esta manhã, conversando com a dona de uma loja de tecidos em Porto Seguro perguntei como estavam indo os negócios pré verão e ainda com pandemia.

“Com a pandemia as pessoas estão entendendo que não há tempo a perder… Ontem uma senhora com bastante idade veio procurar cortinas e achou os preços caros… Respondi: se gostou leve, aproveite que a vida é curta… Comprou duas, levou uma pra nora que cuida bem do seu filho…”

Saí da loja refletindo sobre a fala da empresária e a resposta da consumidora… Viver nunca foi tão desejado e necessário… Eu acredito que A Verdade É A Melhor Notícia, dei este título a um livro que escrevi com casos de assessoria de imprensa, e uso este pensamento no meu cotidiano… Se não quero falar, me calo… Mas não engano, e estou num momento de dizer tudo na lata… Não temo mais pelos meus atos… Acredito na transparência, em olhar o mundo sem medo, é o que temos pra hoje… Com isso, “se gostou leve que a vida é curta”…

“O homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar”

Durante um bom tempo ela ficou fechada. Quem andava pela vila encontrava a construção com a cruz no alto, as paredes amarelecidas, a porta com rachaduras, o mato crescido em lugar de jardim e o sino em silencio. A Igreja de Santo André, construída há pouco mais de 16 anos, estava abandonada. Não haviam missas, nem padres, nem leigos que pudessem fazer alguma celebração…   A pandemia fez com que o distanciamento aumentasse. Alguns fieis procuraram outras igrejas para suas preces, ou simplesmente desativaram o hábito de ir à missa…

Já passaram por nossa igreja noviços com poucas experiências, simpáticas freiras que faziam das missas uma alegre celebração, padres recém oficializados que apenas liam a liturgia sempre no mesmo tom, alguns experientes porém distantes dos fiéis, até que no início deste ano, com a chegada de um novo pároco à cidade de Santa Cruz Cabrália, Vila de Santo André passou a ter missas aos sábados às 9 horas, com o Padre Ivan e Padre Evanildo.

Nada na vida se compara à experiência, à paixão e ao conhecimento do que se faz. Não estou defendendo em causa própria, mas só o tempo nos dá a verdadeira medida do que acreditamos e professamos. O Padre Ivan, com seus cabelos brancos e boa quilometragem rodada em altares e pregações, tem a sensibilidade de perceber qual é a plateia que o aguarda, o que querem ouvir e o que ele deve passar…. Na missa de ontem, com a presença de alguns turistas e uma jovem que aos poucos está descobrindo a igreja, na Homilia, quando fez a pregação em estilo mais familiar explicando o tema evangélico, detalhou os momentos da missa e lindamente intercalou a Shemá Israel* (ouve Israel) constante do Evangelho** do dia com pensamentos de Charlie Chaplin – “o homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar” e Santo Agostinho – “é preciso compreender para crer, e crer para compreender ”.  Só não aplaudi por que não era o caso, mas me senti profundamente feliz…

Gosto do exercício da fé. Ir à missa me faz voltar à infância, uma relação de paz, sem medo do inferno nem promessas do céu, um ambiente para ouvir o coração, refletir, agradecer… Sinto um silencio em mim, algo que não explico, apenas vivencio e me emociono. Desde a chegada do Padre Ivan tem sido um grande deleite frequentar a missa… quanta diferença faz….

*Shemá Israel (Ouve Israel) são as duas primeiras palavras da Torá. 

** Evangelho Marcos 12:28-34 Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?
E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.
Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.
E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele;
E que amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios.
E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém ousava perguntar-lhe mais nada.

Foto da missa do sábado 30 de outubro…