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Sobre Domingos de Oliveira

Em janeiro de 1992 eu estava fazendo assessoria para Gloria Menezes e Tarcísio Meira que produziam e encenavam a peça “O Duplo”, texto e direção de Domingos de Oliveira no Teatro dos Quatro. Uma noite enquanto a peça acontecia, saí no lobby do teatro para fumar e Domingos me falou sobre um texto que sua filha com mais algumas amigas haviam escrito. Seria uma peça que ele estava dando a maior força, tanto que estava dirigindo, prestes a estrear e precisavam de uma assessoria de imprensa. Mas caíam na questão da falta de orçamento. Era um projeto ousado e me convidou para assistir a uma leitura algumas noites depois em sua casa. Topei mesmo sem saber o que era e na hora marcada lá estava acompanhada do Bernardo, meu filho que recentemente deixara a adolescência. Ofereceram-me um lugar de honra no sofá de veludo vermelho e as quatro meninas com os textos na mão, acompanhadas de um rapaz que tocava violão, encenaram o espetáculo na minha frente. Foi um soco no estômago. Fiquei ouvindo de boca aberta, completamente chocada com a atualidade e a forma direta como falavam de seus problemas, das suas alegrias. Era diferente de tudo o que eu tinha assistido em teatro nos últimos anos, e eu tinha assistido muita coisa!

Fiquei tocada com a peça que chamavam de “Diário de Uma Adolescente” e entrei de cabeça no projeto. Como não havia orçamento, ofereceram-me um pequeno percentual da bilheteria de um teatro com 85 lugares, previsão de 2 encenações por semana e o ingresso ao preço de 5 “dinheiros”. Fiz os cálculos e se tudo desse certo teria o dinheiro “para a feira”. Mas alguma coisa me dizia que ia ser sucesso. Recebi um excelente material fotográfico feito por Guilherme Rozembaun, irmão da atriz Priscila Rozembaun, mulher do Domingos, pois esta produção funcionava como uma ação entre amigos. Sugeri o título “Confissões de Adolescente”, bem mais intimista, e como alguns trechos da peça ainda estavam manuscritos e sem a ordem de apresentação, digitei e imprimi para registro na SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).

Fiz um release encadernado com muitas páginas. O espetáculo assim merecia, não havia outro no gênero. Apesar da total falta de pretensão com um orçamento de 300 dólares o espetáculo tinha uma grande verdade.  “Confissões de Adolescente” surgiu do diário de Maria Mariana, filha de Domingos de Oliveira e foi acrescido de pensamentos e situações vividas por outras três jovens que, junto com Mariana, compunham o cast: Carol Machado, Ingrid Guimarães e Patrícia Perrone. 

O material chegou nas redações dos jornais e surpreendeu aos editores que não sabiam nem em qual retranca enquadrar o espetáculo. Não era teatro adulto nem infantil, criaram assim a retranca Jovem. A estreia da peça foi destaque nos cadernos de fim de semana, capa dos cadernos de cultura não só por seu ineditismo como também por ter estreado num sábado após o carnaval quando nada de novo havia no mercado cultural. O que podia ser uma zebra foi a loteria.

No sábado 7 de março, antes das 5 da tarde os ingressos estavam esgotados. A cena era inusitada: pais deixavam filhos na porta da Casa de Cultura Laura Alvim e marcavam hora para buscá-los no final. A crítica teatral Barbara Heliodora, por não ter confirmado com antecedência, teve que voltar para casa pois não tinha um lugar disponível. No domingo repetiu o mesmo sucesso e no fim de semana seguinte foram programados 2 espetáculos por dia, e no sequente a sexta-feira já estava incorporada à agenda. As críticas foram unânimes em aplaudir a peça que abria caminho para outros tantos no mesmo segmento. Dois meses depois, “Confissões de Adolescentes” saiu do Porão da Casa de Cultura Laura Alvim para o teatro principal do mesmo espaço com uma plateia de 250 pessoas. Em poucos meses estavam no teatro Candido Mendes em Ipanema, e não demorou para chegarem no Teatro Casa Grande com 700 lugares, levantando voo para um sucesso maior. A peça virou livro best seller, áudio-livro pela gravadora Polygram (o primeiro lançado no Brasil), virou mini-série de TV e foi indicada ao Prêmio Emmy da TV Americana. Mais de um milhão de pessoas assistiram a este espetáculo no Brasil. O percentual de bilheteria que eu tinha direito e a princípio daria para a feira semanal, foi importante no meu orçamento o ano inteiro, até que em janeiro de 1993 me desliguei do projeto ao assumir a Assessoria de Eventos da Prefeitura do Rio de Janeiro.  Em 2004, chegando para fazer uma palestra na Universidade de Coimbra, atravessava um teatro a caminho do auditório quando vi umas garotas ensaiando uma peça. Reconheci uma parte do texto e fui conferir. Era Confissões de Adolescentes além mar.  (Texto do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”)
Obrigada Domingos de Oliveira por ter me proporcionado este enorme prazer e ter contribuído para o teatro jovem… Boa caminhada por outros palcos…

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Em sintonia com a vida

Inúmeros sites vêm anunciando um evento que, a princípio, começou em novembro de 2018 e hoje chega ao ápice com o equinócio de outono, quando o Sol distribui sua luz de forma igual, a ambos os hemisférios do planeta.  Do ponto em que estou há 15 anos, num pequeno povoado cuja única poluição é de raras queimadas e alguns carros de som, com tempo para ver o nascer da lua e do sol, perceber um vento mais frio com o aviso de chuva, maré subindo e descendo, canto dos pássaros, percebo também pessoas que chegam e partem. Muitos são turistas, outros buscam uma outra vida com mais qualidade. Nem todos conseguem ficar por muito tempo, tanto viajantes que não aguentam a falta de agitação, como os desejosos de um novo destino. Santo André é para fortes, tem algo de místico e mágico, tem algo de mix de tribos que nem sempre convivem em harmonia, tem algo de sedução e repulsa, mas isso só se descobre com o tempo. E quem se encanta volta sempre.

Entre os muitos passantes e chegantes surgem os místicos. A energia pura pulsante, muito mar, rio, matas, poucas torres distribuidoras de poluição eletromagnética, é um convite para a reflexão. Os praticantes de yoga já descobriram o caminho e já ouviram a lenda de que há um Santo André de ouro guardado no fundo dessas terras. O santo teria sido trazido por um padre temeroso que a imagem desaparecesse como tantas outras da sua Igreja. Dizem que este mistério acessa uma memória profunda dos que passam por aqui e querem descobrir a própria essência, o seu ouro interior. Tem algo que não vemos e nem tocamos. Apenas sentimos como o brilho do ouro no fundo da terra. 

No feriado de 12 de outubro Halu Gamashi teve esse sentimento ao atravessar o rio João de Tiba. Médium, paranormal, autora de 10 livros, criadora de técnicas corporais e sutis, atuando há mais de 25 anos como professora, participando de congressos e workshops sobre anatomia do corpo sutil, chakras, campo áurico, filosofia, saúde e comportamento humano em diversas cidades brasileiras e europeias, chorou ao cruzar o rio. Convidada a trazer suas técnicas terapêuticas para um workshop de ashtangha yoga, conta que sobre as águas, enquanto a balsa fazia a travessia de pouco mais de 10 minutos, sentiu como se estivesse chegando em casa, sem jamais ter pisado em Santa Cruz Cabrália, cidade onde o “Brasil” começou.

Baiana de Salvador, andarilha pelo mundo, morou em mais de 400 cidades em seus 58 anos, sempre seguindo as indicações do seu guia espiritual que diz a acompanhar desde os 3 anos de idade. Estava instalada em Lisboa, onde lançou livros e atuava com terapias quando, no início de 2018, recebeu a recomendação de seu mentor para uma nova mudança: a Costa do Descobrimento. Instalou-se em Trancoso onde vivera nos anos 80 mas não sentiu a mesma energia do passado. Ficou aguardando novas indicações até que veio o convite para o workshop em Santo André e, desde então, não mais saiu.  Por ter chegado ao povoado com a cabeça raspada é chamada por alguns de “a monge de Sto André” e conta como sua mediunidade surgiu na primeira infância:

“Penso que não escolhi dedicar a minha vida à vida espiritual. Hoje sei que antes de encarnar assumi este compromisso. Fiz esta descoberta aos vinte e nove anos de idade, porém, desde que nasci as idiossincrasias e as peculiaridades que naturalmente despertaram em mim fizeram com que, aos três anos de idade, alguns dos meus familiares buscassem na espiritualidade um remédio. Os médicos quando me viam adoecer, não conseguiam chegar a um diagnóstico e “doenças atípicas” era o que a minha família começava a ter como resposta. A falta de esperança, o medo de me ver morrer foi a porta que se abriu para que eles procurassem a espiritualidade a fim de restabelecer a minha saúde, e isto virou um hábito: eu adoecia (febre reumática atípica, paralização dos rins, pequenos infartos), os médicos não encontravam diagnóstico e eles me levavam à uma casa espiritual. Faziam isto escondido por temerem serem rejeitados pela sociedade em que viviam. Assim foi até os meus dezoito anos quando descobri que não precisava adoecer e sim conhecer, afinar minhas energias, alinhar-me”.

Em uma trajetória de grandes desafios, tanto físicos como mentais, muitas vezes foi apontada como louca e não conseguia se entender por ser tão diferente das outras pessoas…

“Disseram-me que a espiritualidade tinha um projeto para mim. Confesso que aos dezoito anos, muito ignorante ainda sobre esse mundo invisível, me senti invadida e pensava: ‘Como é isto? A espiritualidade tem um projeto para mim? Eu queria ter o meu próprio projeto’. Porém, apesar destes questionamentos, durante nove anos morei em uma chácara-escola que me iniciou nos conhecimentos e na magia branca dos elementos da natureza, a água, a terra, o fogo, o ar, a madeira, os rios, as cachoeiras”.

Sem querer se prender a qualquer seita, a casa aonde viveu nesse período não era religiosa. Não era candomblé ou umbanda. Era uma casa que estudava a influência das energias da natureza nos humanos voltada ao conhecimento e à medicina mais do que aos mitos e mitificações. Antes de completar 28 anos saiu da casa, era tempo de conhecer o mundo.

“Disseram que eu estava pronta para canalizar mensagens e que a espiritualidade me ensinaria outras coisas e daria novas iniciações.  E descobri, aos vinte e nove anos, o porque de toda a minha vida estar sempre perto das energias da natureza e desse mundo sutil. Se minha família não fosse tão preconceituosa este caminho não teria sido tão difícil: realmente encarnei com o compromisso espiritual e se lutei tanto contra os preconceitos da minha família é porque havia em mim um chamado, muito forte para me aprofundar nesse universo. ”

Halu lamenta que os temas espirituais, principalmente a inteligência espiritual, sejam tratados com descrédito, banalidade, superficialidade e ironia, principalmente por alguns paranormais que valorizam muito mais os fenômenos do que os seus significados. Neste processo de vida, um dia percebeu que seus chacras se abriam em fendas no corpo físico, como na testa, na palma das mãos e no plexo solar, causando um profundo estranhamento. Todas essas manifestações foram registrados em fotografias, acompanhados por médicos que jamais conseguiram chegar a um diagnóstico.  As marcas dos movimentos dos chacras estão presentes e o processo acontece com assiduidade, principalmente quando ela percebe movimentos estranhos no planeta.

“O fenômeno, em mim, sempre o compreendi como uma mutação, o crescimento de um órgão sutil que abriria os meus canais para aprendizados mais importantes. Foi este o valor que dei aos fenômenos: eles precisavam acontecer para gerar mutações no meu corpo material que me viabilizassem o acesso à informação, e hoje tenho certeza que se tivesse escolhido parar nos fenômenos, utilizá-los como forma de convencimento para outros – o que chamam de exposição mórbida – eu não teria cumprido a minha missão de alcançar uma comunicação, que volto a repetir, sinto-me na obrigação, dever e direito de dividir com quantos queiram ler ou ouvir”.

Halu explica em seus livros que o termo chakra (em sânscrito significa roda), são portais de entrada e saída de energias, com muitas funções; podendo ser definido como radares energéticos que sintonizam a relação entre o corpo físico, o períspirito e a alma, sincronizando o produto desta união com o Universo. Então, rodando ou girando, esses pontos captam as energias sutis do universo, distribuindo-as pelo corpo. Como resultado das suas vivências no mundo espiritual desenvolveu setenta técnicas terapêuticas que visam a harmonia e o equilíbrio nos corpos físico, emocional e espiritual através do alinhamento dos chakras.

Autora com mais de 10 livros publicados no Brasil e Portugal, dentre eles: Caminhos de um aprendiz; Plano inverso; Chakras, A História Real de uma Iniciada; Chakras, The True History of a Medium; Clandestina, O Resgate de um Destino; Conde Vlado, um Alquimista em busca da Eternidade; A Hermenêutica de Deus e o Código Original; Meditando com a Consciência Suprema e O Livro dos Sonhos Cabalísticos, Halu Gamashi há 20 anos ministra cursos de terapia em uma escola em Yverdon Les Bain, na Suíça. Desenvolveu também uma linha de produtos – Maberu – que tem auxiliado e melhorado a qualidade de vida dos seus pacientes. 

Uma das coisas que Halu Gamashi mais gosta em Santo André é sentir que está em um povoado onde o respeito às diferenças e a amizade são valores reais e objetos de permanente cultivo. Em 5 meses já apoiou projetos voltados às raízes e à cultura local, como a Festa de Iemanjá dia 2 de fevereiro, o Batismo de Capoeira, a abertura do carnaval bem no tradicional estilo baiano com entrega da chave da cidade a Rainha Moma. Seus pacientes e alunos que vêm de diversas partes do país têm trazido um novo movimento ao povoado. Até um suíço, campeão de snow boarding, está continuando sua formação e aprendendo português. Os seminários que realizava em sua chácara no interior de São Paulo, depois em Portugal e em tantos outros países, começam a ser realizados na Bahia. O próximo será de 17 a 21 de abril, Semana Santa onde compartilhará conhecimentos e aplicará técnicas como a fluidoretapia e leitura de aura. Em seu site publica constantemente artigos canalizados através de suas viagens astrais e, segundo ela, sobre Vila de Santo André há uma colônia espiritual. São cidades espirituais que servem de morada para os espíritos com algum grau de evolução, aguardando a reencarnação.  Quem sabe o Santo André de ouro perdido é sinal deste mistério ?

Foto : Cláudia Schembri

Para quem ama animais…



O ano passado perdi uma amiga. Um câncer fulminante a levou em poucos meses, depois de ter realizado o sonho de passar um Natal com neve em Nova York.  Ela era louca por Natal e por Nova York, realizava um sonho duplo. No Rio ela morava com um cachorrinho muito mimado. Como não tinha nem pais nem irmãos, seus bens foram para uma tia distante, assim como a guarda do animal. Os amigos desolados com a partida brusca, também ficaram preocupados com o fim do bichinho de estimação. Todos sabiam que era de convivência difícil, tinha milhões de manias, não ia à rua, fora diagnosticado com problemas cardíacos e nos ossos, e como sobreviveria com a ausência de quem o cuidava com tanto amor ?

De vez em quando comentava com amigos sobre o destino do animal e era uma incógnita. Até hoje quando soube que a tia, na mesma época que recebeu o cão, estava hospedando um sobrinho que fora ao Rio terminar um doutorado.  O sobrinho e a esposa tomaram-se de amores pelo pequeno que se revelou educadíssimo, sem mimos ou dificuldades. Resumo :   Keith, este é seu nome, foi adotado e hoje mora em Nova York. Exatamente onde sua “mãe” sonhava viver…Milagres acontecem…

 

Pequenas alegrias, algumas tristezas

ILUMINAÇÃO DA CRUZ DE SANTA CRUZ CABRÁLIA - BAHIA (FERNANDO PORTELLA/ZECA)

Tico e teco funcionam paralelamente. Com um lado do cérebro faço a contagem das práticas do Pilates, com o outro o pensamento viaja por caminhos que variam do cardápio do almoço a um tempo passado em Lisboa. Às vezes perco a contagem e, quando percebo, o exercício que deveria ser repetido 36 vezes já chegou aos 50. Esta manhã, enquanto contava no vai vem da ‘cama reformer’, concluía que me basta muito pouco para ser feliz.  Me pego diante de fatos que não me dão qualquer lucro ou resultado profissional, mas que me enchem o coração. Por exemplo, estou num momento de encanto com o Museu das Cadeiras Brasileiras que foi inaugurado em Belmonte, a apenas 50kms distante da minha casa. Ainda não visitei, nada tenho a ver com o projeto, mas só em pensar que tem um grão de arte tão próximo me faz feliz; algo significativamente novo para apresentar aos amigos e mostrar como é rico o sul da Bahia. Este museu, criado pelo filho do arquiteto Zanine Caldas, traz a valoração da arte e da cultura para esta região com tão poucas atrações. E no viés desta reflexão me pego olhando para Cabrália, um museu a céu aberto repleto de história, que permanece escondido.  Prédios centenários sendo comidos por cupins, infiltrações, memórias em ruínas. Área indígena com crescimento descontrolado, abandono das tradições. Não é culpa de uma gestão, mas de todas que não entenderam a importância da preservação da cultura e das tradições para alavancar o turismo, um setor crescente e fundamental para a economia.

Há pouco mais de dois anos Fernando Portella, um amigo que dirige o Instituto Cultural Cidade Viva, no Rio de Janeiro, me procurou com a proposta de uma empresa espanhola da área de energia elétrica em criar uma iluminação cênica em um marco histórico do país. Ele se lembrou da cruz da Primeira Missa em Coroa Vermelha que conhecera há muitos anos e achou ser o local adequado. Eu estava Secretária de Comunicação da Prefeitura, levei a proposta ao Prefeito e ao Secretário de Turismo que aprovaram o projeto, mas a realização não foi simples, a começar pela primeira visita técnica quando percebemos que o local não era mais o mesmo das boas lembranças de Fernando. O crescimento comercial desordenado fechou a bela vista para o mar, acabou o cenário que se imagina Cabral ter encontrado ao aportar com suas caravelas. Mesmo assim o projeto seguiu, com grandes desafios estruturais e finalmente foi inaugurada a iluminação cênica. O objetivo era marcar a presença do fato histórico e religioso, estimular o turismo com visitação noturna. Mas, assim como o museu indígena há anos abandonado, a cruz seguiu o caminho e voltou às escuras. Nada se preserva, nada se cuida. Ah! minha Cabrália, quando terão olhos para preservar a memória do país ?

Foto : Claudia Schembri

Fé no homem…

claudia_schembri (18)Foto: Cláudia Schembri

Acredito em milagres. Acredito na bondade do ser humano e, acredito que recebemos o que doamos…. Escolhi viver em um pequeno vilarejo no sul da Bahia onde todos se cumprimentam nas ruas, onde tudo se sabe e onde a solidariedade existe. Nem tudo são flores, mas são muito mais do que espinhos…. As vezes as pessoas se estranham, mas conviver é assim. Na madrugada da última sexta-feira entraram na casa da Cláudia Schembri. Sabiam que ela estava viajando, arrombaram uma porta e levaram equipamentos essenciais para seu trabalho como fotógrafa. Foi uma tristeza para ela, uma comoção na vila. O comentário geral era “como fizeram isso com a Cláudia que dá aula para as crianças, fotografa as festas na escolinha e os eventos da comunidade, ajudou a conseguir a doação dos móveis da escola municipal via Andréa Pitta, sempre disponível com receitinhas homeopáticas, escreve projetos que trazem recursos para ONGs…”, enfim, uma moradora muito querida.  Coloquei a boca no trombone, de forma delicada…. Fiz os procedimentos normais como BO na delegacia, avisei a Policia Militar caso fosse encontrado algum equipamento e em todos os grupos locais de WhatsApp… O que mais doía era a perda dos HDs externos, pois quem é profissional da área sabe o que eles representam…

Mas milagres existem, o mundo ainda tem jeito e continuo acreditando que se pode tocar no coração do homem… Na madrugada de ontem os equipamentos foram devolvidos. Soube através da Adriana que foi arrumar a casa e percebeu pacotes estranhos na cerca dos fundos da casa…. Deu o aviso e fui encontrar tudo muito bem embalado para proteger da chuva e acompanhado de uma carta com letrinha bem desenhada, carinho e capricho: “Sra Léa Penteado desculpe por este desentendimento. Perdão, o ocorrido está sendo resolvido por pessoas que estão por dentro de tais problemas que sempre que estiver em nosso alcance vamos fazer justiça contra esses elementos que de tal ocorrimento não haverá outros tipos de desentendimento como este. Queremos a paz para o nosso vilarejo. Desculpe. Não somos ladrão.”  Comovente. Chorei. Com Adriana fui abrindo os pacotes e surgindo a TV, o monitor, a mesa de edição de fotos, os 5 HDs externos, a caixa de som… tudo intacto…. Em tempos de tanta violência no país invadindo o noticiário na TV, vivenciar um fato como este é um privilégio. Posso dizer até que é uma bênção. É a certeza de que escolhi o lugar certo para viver, que somos um recorte de uma sociedade com seus códigos de ética e moral fortes, e todo o esforço que fizer para ajudar este povoado é ainda muito pouco.  Amo Vila de Santo André, aqui ainda posso acreditar que há um belo mundo pela frente…

…e assim se passaram 15 anos

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Apesar de minha mãe dizer que acabamos como pó, prefiro acreditar na alma e que quando as pessoas morrem vão para um outro local, um novo cenário e um dia nos reencontramos. Este sentimento espiritualista cristão me acalma.  Mas em nenhum momento diminui a vontade em estar junto. Recentemente na novela “Eta mundo bão” o personagem central repetia que “tudo de ruim que acontece é pra melhor”. Desculpe Walcir Carrasco, autor da novela, mas esta frase é minha, repetida intensamente nos últimos anos. Repito para mim  e para amigos em crise… Nada poderia ser pior do que a partida tão rápida do meu irmão. Em apenas 9 meses aquele homem lindo, cheio de sonhos, cumpriu sua parte nesta dimensão e se foi. Se ele ainda aqui estivesse certamente eu continuaria vivendo em uma vida louca entre Rio e São Paulo, sabe-se lá por onde mais, e apenas usufruindo deste paraíso nas férias… Não teria aprendido com a mudança das marés e as luas o verdadeiro movimento da vida… Hoje vivo na casa que foi dele, ainda com muitos de seu mas do meu jeito…Sou feliz em saber que ele está só do outro lado da cortina … Quem sabe vendo eu cuidar de tudo, da grama que nasceu, as árvores que estão altíssimas, das novas flores que plantei, da horta e dos amigos que me visitam e ouvem eu lembrar de suas historias… Cada dia que amanhece ou mergulho no mar agradeço por este presente. Qualquer hora nos vemos meu querido irmão… Hoje são 15 anos de sua partida…

Foto feita por Leila Castanheira, primeira travessia da balsa, 1992.

Meu Natal

dd4dc2c5-a22c-4f2b-9efd-f89009b4ef11Então é Natal… Não vou cantar a música da Simone nem lembrar que desisti de festejar há 15 anos… Este ano tudo está diferente. Em julho quando vi o meu braço esquerdo imobilizado devido uma queda, tive tempo para refletir sobre a importância dele… Sou destra, mas a parceria é dos dois… Pra escrever, pra me banhar, pra dirigir, pra comer, pra tanta coisa, inclusive costurar… E aí me deu uma vontade enorme de fazer bonecas, mas como ? Então para estimular o braço a ficar bom, prometi a mim mesma que faria muitas bonecas para distribuir às crianças da escola infantil de Santo André… 22 meninos e 19 meninas…   E assim, depois de 1 mês de gesso, dois meses de fisioterapia, fui recuperar os movimentos brincando de fazer bonecas de pano, com enorme carinho e amor, imaginando cada criança que iria receber. Detalhes de laços de fita, babados, bordado inglês na saia, arremate feito a mão nas camisetas dos meninos, cabelos de lã … Estes meses se passaram e com a ajuda da Lelê na “”costura reta” completei minha missão… Ainda fiz sacos para embalar e coloquei o papelzinho com o nome da criança para Papai Noel não se confundir… A festa aconteceu a semana passada e não assisti. Acho que iria me debulhar em lágrimas e tinha a desculpa da chegada de um amigo… Agradeço à Claudia Schembri que fez as fotos, a Sara Amorim que gentilmente trouxe de sp tecido marrom que não encontrei por aqui e Patricia Farina, diretora do Centro Educacional Maria Marta, que me permitiu fazer este sonho. O meu Natal já rolou… Não vi Papai Noel, mas não importa…

Em tempo : as bonecas de pano que faço são inspiradas na Tilda, criada pela design norueguesa Tone Finnanger que também desenvolveu outros tantos produtos em tecido como coelho, colchas, almofadas, etc… A minhas Tilda tem 53cm de comprimento, olhos pequenos, bochechas rosadas e pescoço alongado… Como todas as Tildas do mundo não tem boca, as crianças falam por elas…

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Carlos Alberto Vizeu

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Carlos Alberto Vizeu com seu grande amigo Boni.

Quando ainda não se falava em preservar memória, eu já guardava fotos, cartas, recortes das reportagens que escrevi…. Isto faz tão parte do meu DNA que escrevi  3 livros que caminham nesta esfera : Um Instante Maestro, sobre o apresentador de TV Flávio Cavalcanti; O Rei na Terra Santa, sobre a produção do show em Jerusalém, e A Verdade é a Melhor Notícia  onde relato a experiência de 30 anos em assessoria de imprensa. Com as empresas e pessoas com quem trabalhei, fechei cada projeto em caixas, pastas, onde entreguei todo o processo bem detalhado, documentado… E acho que foi esse meu olhar para a história / estória que me aproximou de Carlos Alberto Vizeu, profissional de publicidade, produtor e diretor de TV, que cuidou da memória da TV brasileira como se fosse a da sua família.

Conheci Vizeu quando ele procurava um jornalista para apresentar um programa de entrevistas que ocuparia um horário que a sua produtora, TeleTape, tinha na antiga TV Corcovado, de segunda a sexta, das 19 às 20hs. Nós tínhamos amigos em comum e foi num fim de tarde no Antoninos, à beira da Lagoa, que ele me falou sobre o projeto e dei a sugestão de uma série de profissionais que poderiam exercer a função… Mas foi na saída, me acompanhando até o carro, que Vizeu foi definitivo: “eu quero você apresentando o programa. ” Delírio, pensei. Eu tinha um escritório de assessoria de imprensa, muitos clientes e nenhum interesse no assunto. Televisão era uma lembrança do início da vida profissional, sempre morri de vergonha de me ver na telinha, fazer entrevistas fora de cogitação… Aconteceram mais alguns encontros para falarmos sobre este suposto programa que “alguém” iria apresentar e no final Vizeu me ganhou… Superei as dificuldades, aceitei a minha voz rouca, arrumei espaço na agenda e foi um ano imensamente feliz produzindo e apresentando o “Programa da Noite”.

Um ano feliz onde tive a oportunidade de conhecer o Vizeu devoto de Santa Edwiges, filho da Da. Yolanda e do Sr.Ary.  De conhecer Vizeu diretor de comerciais premiados nacional e internacionalmente, que preservava a memória da publicidade através do programa Intervalo, exibido durante muitos anos na então TV Educativa. E conhecer também o Vizeu apaixonado pela TV e sua trajetória, que anos depois pesquisou, escreveu, roteirizou e dirigiu um belíssimo documentário sobre os 60 anos da tv brasileira abordando os temas Os Pioneiros, Teledramaturgia, Telejornalismo, Show e Auditórios, Humor, Infantil, Propaganda, Tecnologia e TV’s Educativas. Este documentário é de tal importância que TODAS as emissoras de tv cederam seus arquivos para compor a série…

Vizeu foi um amigo de vida, daqueles que podemos ficar anos sem ver e quando encontramos nada mudou pois a essência do carinho e fidelidade à amizade permanecem… Desde 2003 ele atuava como consultor do Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) na Rede Vanguarda.  Juntos eles desenvolveram várias peças de publicidade, e o mais recente foi em agosto com o comercial de 13 anos da emissora que atua no Vale do Paraíba. Há poucos meses liguei para contar que a Luciana Savaget encontrara nos guardados da família uma longa entrevista que fiz com Edna Savaget, sua mãe, pioneira da TV, e gostaria de utilizar no documentário que está produzindo. Ele ficou feliz, “pede para ela me ligar, libero com o maior prazer”. E assim nos despedimos…Ele sempre doce, delicado, elegante… E assim, desta forma, ontem ele partiu deixando tantas memórias dos outros, mas não teve tempo de escrever o livro com a sua história…  Adoraria ter escrito este livro, assim como ter a cópia de todos os programas que fiz… Eu também preservo a memória dos outros e não cuido da minha… Mas encontrei no Youtube este vídeo do acervo do Dr. Jorge Bastos Garcia com a abertura do programa e parte de uma entrevista … Obrigada Vizeu por você ter passado em minha vida e deixado tão boas lembranças !

 

 

 

Meu voto

MARÇO 2016

Com Fabiana e Alexandre em foto de Cláudia Schembri

Há 12 anos quando escolhi viver em Vila de Santo André, abraçava causas e projetos em torno apenas do povoado. Passava correndo por Santa Cruz Cabrália, louca para pegar a balsa, cheguei a fazer uma camiseta com a inscrição Vila de Santo André – Bahia – Brasil.  Mas aos poucos a cidade foi se revelando prá mim. Assim como tantas outras entre as mais de 5500 cidades do país, Cabrália tem enorme extensão territorial e poucos recursos. Um diamante bruto, enorme potencial para o turismo em seus mais de 35 kms de praias – muitas semi-virgens –, e uma área rural em plena expansão. Uma cidade que tem identidade e cultura próprias, um lugar bom para se viver que vai buscando seu jeito e o orgulho de ser “santa-cruzense”.

Junto com a minha mudança que veio do Rio de Janeiro, trouxe além de um cão, livros, fotos e discos, o título de eleitor que não demorei a transferir. E assim, neste exercício de cidadania, estou chegando ao 3º pleito e não me arrependo das escolhas que fiz. Mesmo os que não foram eleitos, eram os que eu considerava mais alinhados às minhas propostas, independente de partido.

Estou acompanhando o movimento eleitoral com as novas leis. E muito mudou. Menos poluição visual e sonora, mais transparência nos recursos, e os candidatos hão de gastar muita sola de sapato para convencer o eleitor em quem depositar a sua confiança com o voto. Nesta campanha nem dá para falar mal da concorrência, o tempo é curto para bla bla bla e mi mi mi. É preciso objetivar, mostrar quem se é de cara e de ficha limpa.

Eu já escolhi o meu candidato e o conheci há alguns anos por acaso, enquanto fazia uma operação em um caixa eletrônico no banco e alguma coisa deu errado. Olhei para o lado e vi um rapaz alto, vestindo camisa social com as mangas dobradas, à primeira vista parecia o gerente. Pedi ajuda, ele disse não ser funcionário do banco, mas mostrou boa vontade em ajudar e logo viu que a solução era simples. Agradeci e só fui saber seu nome alguns anos depois, em março do ano passado, quando assumi a Secretaria de Comunicação e Governo de Santa Cruz Cabrália e fui formalmente apresentada a Alexandre Carvalho, Vice-Prefeito e Secretário de Planejamento.

Aquele rapaz de cabelos e olhos claros, sempre em movimento, falando alto, um enorme sorriso, me mostrou que suas decisões eram firmes. Estreante na política, trouxe consigo a experiência de administrador,  com a maturidade adquirida na gestão privada. Suas respostas eram objetivas, nada de empurrar as questões com a barriga. E, quando o soube candidato, decidi meu voto.

Sinto-me confortável em declarar meu apoio pois não trabalho na sua campanha nem sou filiada a qualquer partido. Acredito na democracia, no debate aberto e honesto, na construção em conjunto de uma cidade próspera, humana e com o olho no futuro. Boa sorte Alexandre Carvalho !

As fotos

 

11129843_1029878993690528_1316757353_n-1Sou grata ao Facebook por ser um canal onde eu possa acompanhar o tempo passar também para os meus amigos. Não estou envelhecendo sozinha. Faço parte da primeira geração que vive a maturidade de forma coletiva e online. Não faz muito tempo, lembro minha mãe abrindo caixas de fotos comentando sobre parentes e amigos. Tenho o sentimento de que até ela morrer, muitos dos que passaram em sua vida ficaram na imagem congelada da foto amarelecida, perdidos no tempo.

Ah Face como você me faz feliz ao rever a colega de escola que tinha o mais belo longo liso cabelo louro da turma, causava inveja pois não precisava fazer “touca”, e agora tem os mesmos lisos, mas não tão longos nem louros cabelos. E o namorado americano que envelheceu com charme, outros nem tanto, mas sempre encontro alguma juventude em todos os que um dia conheci e aparecem no meu face…

Parece simples escrever sobre isso, mas nem sempre sou feliz ao me ver envelhecendo. Confesso que me sinto com pouco mais de 30 anos. Não é o que o corpo mostra, mas é o que o espírito diz e me faz seguir acreditando que ainda há muitos sonhos para fazer acontecer. Mas outro dia no meio de uma meditação tive a certeza de que já andei muito e o caminho pela frente está mais curto…Talvez possa ter mais uns 20 anos. Legal. Ainda dá para plantar algumas árvores e comer os frutos mesmo não podendo mais subir no pé…

Estou procurando encarar tudo isso com a praticidade da capricorniana e com a boa relação que tenho com o que chamamos de mundo real. Espero que meu espírito empreendedor aliado à criatividade que reconheço ter, me tragam grandes experiências nestes próximos anos, pois não sou de nadar e morrer na praia… Viver tanta coisa boa para nos últimos 20 anos ter uma vida mais ou menos eu não quero… Espero que em meu mapa constem no mínimo uns 20 bons movimentos para justificar a caminhada.

Neste processo de criar uma boa relação com a maturidade física, recentemente tive o privilégio de ser fotografada por uma querida amiga que utilizou todas as suas melhores lentes para me mostrar exatamente como estou. Sem photoshop ou qualquer outro recurso, nas fotos sou eu hoje e tenho que aceitar um olho que está mais caído, as rugas em torno nos lábios resultado dos anos como fumante, os grisalhos até nas sobrancelhas, as manchas senis na mão e no colo, enfim, é o que temos nestes tempos… Estas fotos – uma sequência deliciosa … –  tem sido uma ótima terapia… Não dá para viver olhando pelo retrovisor, tudo acontece na frente… É passar o lápis nos olhos, um batom na boca, pendurar um brinco e um colar e sorrir para a foto…