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Na redação

Eu e Lucia Ritto – Foto André Costa e Silva

Este tempo de pandemia tem me trazido momentos surpreendentes… Ainda não arrumei as caixas de fotos, nem o armário, mas o passado chega através do whatsapp e do messenger fazendo um rebuliço na memória. No fim de semana um amigo enviou um texto antigo que publiquei domingo, e também o original do musical “Ninguém é Loira Por Acaso”, que escrevi e produzi para a Vanusa em 1999. Sim, eu já escrevi um espetáculo para teatro e não coloquei no meu currículo. Não rejeito a obra, é bem legal, a estrutura bem construída e até então eu tinha zero conhecimento de carpintaria de teatro. Podia ter tido vida longa, mas foi um projeto que acabou se perdendo com a Vanusa morando em São Paulo, eu no Rio já engatando no Rock in Rio que veio a acontecer em 2001 e assim ficou…  

Ainda não consegui reler “Ninguém é loira…”, preciso de fôlego, calma no coração e uma caixa de lenços de papel ao lado, pois vou chorar pelo tempo e amizade com que foi criada e como estamos agora. Mas antes de ter este fôlego, ontem, quando fui desligar o celular para dormir, vi uma foto que chegou no Messenger e me tirou o sono. Era eu aos 20 anos na Bloch, Rua do Russel, em 1969. As fotos foram feitas por André Costa e Silva, um jovem que estagiava na casa e fazia algumas matérias para a Revista Amiga.  Eu comecei em jornalismo como tudo em minha vida, muito por acaso. A convite do Moyses Fuks fui para a Bloch Editores que ia lançar uma revista sobre TV chamada Amiga. Estas fotos são da redação e quem trabalhou lá ou conheceu o prédio da rua do Russel vai se lembrar do cenário. Era um luxo de arquitetura e construção. Mármore, vidro, jacarandá, couro e tapetes por toda a parte, intercalados com obras de arte sem contar o visual para o parque do Flamengo. Tinha um restaurante com uma piscina, mesas redondas para 8 pessoas com toalha e guardanapos de linho branco, talheres de prata e copos bico de jaca.

Um desfile de lembranças nestas fotos. Muitas reflexões desde a alegria da juventude e dos amigos que partiram cedo como Lucia Ritto e Luiz Augusto Chabassus, rever Marco Antonio Gay, Alexandra Bertola, José Luiz Sombra, como a falta de preconceito ou pre julgamento em conviver pacificamente com o neto do ex-presidente da General Costa e Silva. Sim, André era neto do General Costa e Silva, o 2º presidente da época da ditadura militar que, dois anos antes, em sua posse, assinara o AI-5 que suspendia todos os direitos civis. Este mesmo general, naquele ano estava elaborando uma reforma política que incluiria a extinção do AI-5 e, segundo o jornalista Carlos Chagas, pretendia assinar essa emenda no dia 7 de setembro de 1969. Mas uma semana antes sofreu um derrame cerebral.  Como não havia nenhuma previsão constitucional para tal situação de emergência, foi sucedido por uma Junta Governativa Provisória, também conhecida como a Segunda Junta Militar. Morreu poucos meses depois. (Fonte Wikipedia)

Não me lembro, em nenhum momento, de que tanto eu como Lucia, Chabassus, Sombra, Marco Antonio, Alexandra, que nas fotos estamos sorrindo para as lentes do André e fomos às ruas como todos os outros jovens gritar contra a ditadura, termos rejeitado a sua companhia ou feito bullying. Eram tempos duros, difíceis, mas havia respeito.  E foi nestes pensamentos que perdi o sono, fazendo comparações com os tempos de hoje. Será que nestes 50 anos que se passaram, a delicadeza, o respeito, o amor ao próximo se esvaíram e em paralelo nasceu a cultura de que aceitar, doar, respeitar as diferenças é uma obrigação? 

Impossível ver o passado e não ter o coração repleto de orgulho da boa caminhada. Sinto o perfume, me lembro das risadas soltas, dos amores sem qualquer restrição… Não havia o medo da Aids nem de engravidar fora de hora. Senti até o calor do verão nas roupas com ombros de fora… Éramos felizes e sabíamos. Construímos uma bela história e somos setentões bem resolvidos… Esta pandemia tem me levado à viagens maravilhosas, às vezes rouba meu sono, me enche de lágrimas, e me faz ter cada vez mais certeza de que a vida está valendo a pena.

José Luiz Sombra, eu, Luiz Augusto Chabassus, Lucia Ritto e Alexandra Bertola

Do fundo do bau

Fecho mais uma caixa de arquivo morto. Colo uma etiqueta na tampa, outra na lateral com letras grandes, leitura fácil, posso ao longe, sem óculos, ver todas as caixinhas iguais, lado a lado, ocupando duas prateleiras da velha estante de ferro formando um desenho simétrico. Se não fosse a identificação nas etiquetas seria um arquivo morto como outro qualquer. Entretanto, este pode ter vida a qualquer momento. É só abrir e deixar fluir dos seus incontáveis papéis, fotos, recortes de jornais, documentos, histórias vividas e ouvidas ao longo de 50 anos nos bastidores.

Talvez mais do que 50 anos, cresci vendo o show do outro lado do palco. Fecha a cortina, corro no tempo e lá está a menina sentada no banco da cozinha, pernas balançando no ar, cheiro do feijão borbulhando na panela e a cebola fritando com o bife. A trilha sonora vem do rádio de madeira clara, com enormes válvulas, trama de tecido marrom no alto-falante bem em cima do dial, num lamento caipira acompanhado pelo violão. Rosalina enxuga as mãos no avental, passa nos olhos enrugados, limpa uma lágrima e me põe para correr. Atrás da porta continuo ouvindo a cantiga que fala de um amor infeliz, a própria história de Rosalina.

Miúda, ágil, poucas palavras, mãos especiais para a cozinha e costura, chegou em casa quando eu ainda nem andava. Trouxe junto com suas agulhas a filha, resultado de um casamento que acabara quando o companheiro foi ser cantor. Trajano Militão tocava violão e cantava. Abandonou a família para ser artista, queria ser famoso, correr o mundo…. Este mundo, na verdade, cabia todo em alguns bordéis a beira das estradas ou nas rádios do sul do país que Rosalina procurava sintonizar nas ondas médias e curtas.

O pequeno rádio de madeira acompanhava Rosalina por toda a casa. Mas a noite, em seu pequeno quarto, com a luz amarelada caindo do teto pendurada num longo fio com bocal marrom, aconteciam os momentos inesquecíveis. Enquanto passava roupa, gesto que eu imitava com um pequeno ferro a carvão, esperávamos o momento supremo do locutor anunciar: “Trajano Militão, o rei do violão! ” Num código só nosso, parávamos os movimentos, como que estivéssemos brincando de estátua. Silêncio total. Cúmplice respeitosa, eu ficava olhando aquela figura agachada num canto, mãos abraçando as pernas cobertas com uma longa saia, o corpo encolhido, apertado, dolorido como o coração ao ouvir aquele cantar.

A minha cabecinha viajava no sonho de como era fascinante a vida do artista que corria o mundo fazendo sucesso. Em que cidade estaria? Como seria a rádio, um prédio grande? E o microfone? Quem aplaudiria na plateia? E em quantas outras casas estariam ouvindo a mesma canção? E por que ele não tinha um disco de 78 rotações, aqueles com capa de papel pardo, com um furo no meio para se ver o rótulo, igual ao que papai colocava para tocar na vitrola com som hi-fi nos domingos de manhã?

Esta é minha mais remota lembrança sobre bastidores e, inconscientemente, creio ter sido o despertar da curiosidade em viver e ouvir histórias.

Mas este texto não terminava no parágrafo acima. Há quase 20 anos escrevi como introdução para um livro sobre showbusiness que acabou ficando no tempo e reapareceu neste fim de semana diretamente dos arquivos muito bem cuidados do meu amigo Macgyver Zitto… Só mesmo um “macgyver” para descobrir textos perdidos…

Meu amigo negro

nos anos 80 em NYC

Cada vez que vejo as imagens dos protestos nos Estados Unidos pela morte brutal de George Floyd lembro de um outro George, o Goodman, que conheci no início dos anos 80 quando morei em NYC. Fomos apresentados por amigos, ele era jornalista do New York Times e conhecera o Rio de Janeiro a convite do Alfredo Machado, da Editora Record, num grupo de formadores de opinião que fora ver o carnaval. Ficou alucinado com a cidade, amou tanto a Portela que em sua casa a bandeira da escola de samba de Oswaldo Cruz tinha destaque cobrindo o encosto de uma cadeira de espaldar alta na sala. Ficamos amigos, vamos dizer que um pouco mais do que amigos. Ele um negro com mais de 1m80 de altura, com quem eu andava por todos os cantos de Manhattan sem qualquer problema de racismo. Entrávamos e saíamos de restaurante, bares, teatros, livrarias, vernissages, sozinhos ou com seus amigos incríveis coreógrafos, bailarinos, pintores, escritores e também advogados, engenheiro, médicos…Todos negros. Talvez por eu ser latina, falar inglês com sotaque, não tinham restrições…

George morava bem em frente ao Central Park na entrada do Harlem, um apartamento com um visual incrível, onde ele preparava o jantar e eu lavava a louça… Certa vez me levou para conhecer a redação do New York Times e contou por que escrevia no caderno de real state.  Naqueles tempos os jornais no Brasil só tinham cadernos com anúncios de vendas e aluguel de imóveis, enquanto o New York Times tinha uma vez por semana um caderno maravilhoso, com análises econômicas, culturais, antropológicas, esportivas, sociais, das regiões que compõe o estado de Nova York. “Para escrever sobre real state tenho que saber um pouco de tudo, o que é uma grande oportunidade para um negro, pois os primeiros convites que recebi eram para escrever sobre música, artes e esportes. ”   

Sempre tenho que contar um fato interessante que aconteceu quando, no auge do nosso namorico, eu ia ao Rio passar 15 dias e perguntei se não queria ir comigo. Ele contrapôs o convite com uma pergunta: “o que sua família e amigos vão dizer ao verem você chegar com um negro? ” Respondi que a princípio alguém diria “a Léa enlouqueceu”. Mas quando comentassem que era americano amenizaria a conversa com um “até que é simpático” e quando soubessem que era jornalista do The New York Times diriam que era louro de olhos azuis. Ele riu muito e sempre contava para os amigos esse diálogo…George tinha total consciência do que significava um negro e uma branca juntos no Brasil.

Pois bem, a última vez que nos encontramos eu já tinha voltado a morar no Brasil, fui a passeio à NYC, ele me convidou para jantar e contou que estava se preparando para dar uma grande virada na vida. Foi contundente : “sei que você vai entender”.  Acontece que a primeira vez que fui à sua casa, mais do que a bandeira da Portela, me chamou a atenção um quadro com a foto de um menino negro segurando a mão de um homem branco que me apresentou como sendo seu avô. Contou que o avô fora professor em Harvard e se casara com uma negra gerando um enorme problema familiar. E nada mais disse. E a grande novidade que queria compartilhar era que decidira pedir demissão do jornal e morar um tempo com a mãe na Califórnia para ouvir a história das raízes de sua família “enquanto minha mãe está lucida”… E assim o fez e sabia que se eu estivesse no seu lugar faria exatamente o mesmo.

Nos perdemos na vida e, há alguns anos, depois de muito procurar na internet, encontrei George que respondeu o meu alô com um email comovente … Memórias dos anos 80 reavivadas, sempre ficam só as boas histórias… Contou que casara, tinha filhos e netos, era professor, queria muito que eu fosse visitar sua casa e conhecer a família… Tinha escrito um livro, ia enviar mas nunca chegou… Também nos conectamos no facebook, às vezes comentava as minhas fotos e de uns tempos pra cá sumiu… Já vasculhei diversas vezes e não o achei… Hoje enviei um email. Não sei por onde anda George Goodman em tempos de covid 19…. Mas sei que cada vez que vejo, escuto ou leio sobre racismo a sua imagem está junto…

…nem lembrava destes escritos…

Num movimento de mudanças e desapego, retirei todos os livros das estantes e armários, fiz uma seleção dos quais quero manter, e no meio encontrei algumas folhas arrancadas de um caderno com o texto que segue…É um curto diário escrito em novembro 2001, quando trouxe o meu irmão do Rio para Santo André depois de ter passado por um processo de radioterapia … Incrível ver quase 20 anos depois o que aconteceu com este lugar e a minha vida…

27 de novembro de 2001 – Sto Andre (BA)

Quando voltar ao Rio vou ver no meu mapa astral o que este dia representa, qual a quadratura do planeta, influências…. Talvez não tenha nada especial e, por não haver nenhuma expectativa, representou muito. No meio do voo para Porto Seguro, a não sei quantos pés de altura, entendi a vida. Nada a explicar muito teoricamente, mas de sentir profundamente. Só agora entendi onde estou e porque estou aqui cumprindo mais uma trilha. Estou perfeitamente integrada no universo e o que tenho que fazer me vai sendo mostrado passo a passo.

Quase 6 da tarde, o sol ainda morno, saio a caminhar na praia. Só eu e a natureza. Fiz uma prece linda, falei alto com o mar, as ondinas, as nuvens, os céus, os peixes, os pássaros, as árvores. Agradeci por estas descobertas. Antes tarde do que nunca. Agradeço pela graça dos meus 52 anos, ainda me é dada a chance de aprender tanto. Este 2001 tem sido revelador e transmutador. Quantas revelações profundas e íntimas.

Agradeci pela família em que estou e os desafios que me foram dados, aos que passaram e passam por meu caminho em todos os momentos e, se não consegui antes, que possa dar-lhes o meu amor.

Mergulhei no mar em oração num encontro pleno de energização, limpando cada célula do meu corpo e lavando a alma.

“Senhor, seja feita a sua vontade e não a minha”, repeti diversas vezes…

Enquanto escrevo uma sinfonia de pássaros executa a trilha sonora. Penso em meu irmão e penso em mim, em todo esse novo processo que apesar da dor me faz melhor, mais inteira e integrada. Sinto que estes dias serão plenos de descobertas.

….

Ontem quando o avião parou em São Paulo, deixei o Victor na sala de embarque e saí para chorar. Dói vê-lo tão debilitado em uma cadeira de rodas. Imagino o que ele pensa, sente…. Percebo seus sentimentos, medos e duvidas. Porto Seguro é próximo ao seu porto seguro sto andre. Choro quieta no saguão, dezenas de pessoas passam e as lágrimas correm velozes no meu rosto.  Engulo seco, olho para o teto, tento todas as técnicas para cessar o choro e nada funciona. Mordo a língua, respiro fundo e levo um tempo para segurar. Fico lembrando de quantos conhecidos estavam no mesmo voo: Kassu, Emilio Santiago, Lula Vieira, Rodolfo Medina. Pessoas que estão constantemente em minha vida. Vão e voltam. E estavam ali de expectadoras deste momento tão delicado. Emilio foi generoso, veio até nós, conversou com Victor como se nada estivesse acontecendo. Não fez cara de piedade.

Saio pelo aeroporto, entro na livraria e não escolho, sou escolhida por um livro do Brian Weiss. Acabo de ler na pag 85 algo genial referente ao desapego do medo abrindo a mente.
Você mantem um relacionamento tanto consigo quanto com outras pessoas. E você já viveu em muitos corpos e em muitos momentos. Por isso pergunte a si mesmo por que tem tanto medo? Por que tem medo de assumir riscos razoáveis? Teme por sua reputação, pelo o que os outros possam vir a pensar? Esses medos foram condicionados na sua infância, ou mesmo antes disso. Faça a si mesmo estas perguntas: o que posso perder? O que pode acontecer de pior? Sinto-me contente com a possibilidade de viver o resto da minha vida desse modo? Se a morte é uma realidade inevitável, isso será “tão arriscado”?

Apago a tv, a luz do abajur e são tantas as lembranças que voltam à minha mente que volto a escrever.  A emoção do Victor ao ver o mar enquanto o taxi fazia o percurso até Cabrália será inesquecível. Não sei se proposital ou ao acaso ele se sentou na janela que dava visão plena do mar. Fungou, passou as mãos nos olhos, mas não mostrou as lágrimas. O dia quente e lindo. Meia hora em Cabrália esperando a balsa. Aqui temos todo o tempo para esperar, estamos voltando para casa, estou cumprindo o que prometi.  

A brisa na balsa, janela aberta e Sto André vai se aproximando. A chegada na pousada, o reencontro com a casa. Victor está exausto. Branca e Fio vem ajudar com as malas. Victor fala pouco e vai deitar. Sobe devagar a escada e quando desaparece pego a Branca enxugando os olhos. Ugo vem, mas não chega a alcança-lo, já está deitado. Choramos juntos. Muito difícil. Não há como não se tocar com o estado que ele se encontra. Frágil, magro, sem músculos, nem parece o homem forte que deixou Sto. André há 6 meses. Chega de chorar. Apago a luz e vou dormir.

28 novembro 2001 quarta-feira

O banho de mar, o pedido para a limpeza do meu corpo, libertando de todas as energias negativas, atuou durante a madrugada limpando o intestino. Acordei aliviada…

8 da manhã café com Victor que veio de noite mal dormida com problemas no estomago. Dor e enjoo e o remédio está na mala que vem no carro com o Alceu. Victor está de poucas palavras, volta para a cama e saio para caminhar.

Sol gostoso, vou pela areia até a ponta da praia onde a maré está baixa. Sento num banco de areia e faço o exercício de respiração, me entrego neste reencontro com o universo.  Agora uma oração, peço aos santos e guias, leio a meditação do Serapis Bey e me sinto plena com a luz. Volto caminhando e o mar deixou na areia uma boneca pequena de plástico, parece uma guerreira. A vida e seus simbolismos e a minha cabeça viaja.

….

O sol está fugindo de mim. Quando quero ele desaparece, quando mal posso tê-lo chega forte. Um sol incrível me acompanha em Cabrália durante as compras, mas no retorno, na travessia da balsa, o céu fica nublado.  Ameaça uma chuvinha, vou para a rede e sinto o vento, os passarinhos, adormeço e acordo com o sol já no fim do dia. Victor dorme na cama que foi colocada na sala. Poucas palavras. Está com um ferimento no cotovelo e tenho trocado o curativo. Vou caminhar num fim de tarde magnifico. Sinto o calor na minha pele que está tão branca e não penso mais nada a não ser viver este momento. Ouvir o mar, sentir o sol.

“Senhor seja feita a sua vontade e não a minha”.

Estou sozinha neste universo em total contemplação. Silencio em mim. Escuto os sons da natureza e do meu corpo. Deito na areia e meu corpo vai sentindo os grãos tocando suavemente. Abro as pernas e os braços, tenho a sensação de que posso flutuar. Sozinha, percebo a natureza em um momento único e mágico, exclusivo para mim. Fico em silencio, mente vazia e desperto para mergulhar num encontro de vigor e vida resplandecente. Grito graças à vida. Obrigada Senhor…. Em um outro canto, ali bem perto, meu irmão está morrendo.

….

A Edoarda fez uma massa maravilhosa, com um molho mais incrível ainda. Mãos de mestra italiana. Trouxe suas panelas para jantarmos. Ugo veio também. Saboreamos o manjar dos deuses, tomamos vinho, demos boas risadas e Victor em silencio. Comeu pouco e foi deitar. Continuamos no papo e às 10horas fechei a casa. Não gosto de deixa-lo dormindo sozinho, mas ele não quer companhia. Estou muito bem instalada no chalé, mas queria estar mais perto. Aviso que meu celular vai ficar ligado durante a noite por conta das ligações do Bê as vezes na madrugada. Inventei esta historia e me recolho preocupada. O ferimento não cicatriza, talvez seja necessário um outro procedimento.

Senhor dai-lhe forças para mais esta noite…

Complementando o pequeno diário :

No fim de semana, 1 e 2 de dezembro, Victor foi internado em Belmonte, para tomar soro e tratar do ferimento no braço. Retornamos dia 3, segunda-feira

O meu irmão Alceu trouxe o carro, sinto que não vai dar para ficar. Converso com a médica sem o Victor saber. Ela recomenda o retorno para o Rio.

Dia 8, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cabrália, rezo e peço que nos mostre o melhor caminho.

Dia 9 Victor acorda e me diz que devemos voltar.

Dia 10 de dezembro descemos no aeroporto de Congonhas e fomos direto para o hospital.

Dia 21 de dezembro Victor morreu.

Dia 23 de dezembro, atendendo seu pedido, deixei seu corpo no pequeno cemitério à beira da estrada em Mogiquiçaba, na divisa entre Cabrália e Belmonte.  

Só para mulheres experientes

Saíram do meu corpo 10 quilos e começo a me descobrir uma outra mulher. Não a mais magra que já fui e usou tantas roupas que ficaram guardadas como querendo provar que tinha sido mais leve … Mas uma mulher de 70 anos que voltou a olhar o seu corpo com prazer. Um assunto muito feminino que só quem voltou a vestir a velha calça jeans desbotada com folga pode avaliar… A sensação do vestido estar solto no corpo, de tudo cair melhor, de comer menos, não mais devorar uma caixa de bis e ficar feliz com 2 figos desidratados.  Não foi uma dieta, mas uma forma diferente de encarar a vida ao constatar que ainda tenho muito a construir e realizar. Pode parecer piração, mas tenho a sensação que o estômago diminuiu sem bariátrica. A gula foi controlada, aprendi a tomar café sem açúcar, retirei o trigo e o leite da mesa… Nada radical… Se der vontade como uma boa massa caseira ou um sorvete italiano que adoro… Neste novo movimento, entrou também o desapego aos livros e DVDs – os CDs já foram –, a organização das fotos que estão em diversas caixas, escrever mais (talvez um livro!), entender a razão da vida (se possível!), ser mais colaborativa, compreender o que é néctar e compaixão, refazer a horta e comer o que pode ser plantado no quintal. Tudo isso e muito mais, não necessariamente nesta ordem…

E foi neste novo estilo que viajei para São Paulo à trabalho aonde, invariavelmente, arrumo um tempo para me dar ao luxo de cortar o cabelo com o Jassa e passar na rua João Cachoeira que fica próxima a endereços que morei muitas vezes no Itaim Bibi. Tem o podólogo, a farmácia, a loja de camisetas, a das roupas sociais, a dos sapatos e a de lingerie. Foi exatamente nesta última que me surpreendi. Desculpe a intimidade, mas como estou falando entre amigas, confesso que há muitos anos uso um determinado tipo de calcinha de microfibra super prática e confortável, de uma marca bem conhecida e sem qualquer glamour.  É entrar na loja, olhar na prateleira, separar meia dúzia de beges e pretas, colocar na sacola e levar prá casa. Nem preciso experimentar. Estava exatamente no gesto de pegar as calcinhas quando me dei conta que não importava a cor, o estilo, era só algo para cobrir o corpo. Neste momento perguntei ao coração aonde eu tinha esquecido a minha alma feminina. Onde foi parar o sexy appeal, o cuidado em escolher lingerie para ocasiões especiais, as camisolas sedutoras…. Por um instante me remeti aos 19 anos quando, com o primeiro salário, comprei um conjunto de calcinha e sutiã importados. Tecido sintético delicado, novidade na época, com estampa clara num xadrez azul e branco, enfeite de rendas, estilo Brigite Bardot dos anos 60.  Foi a partir desta aquisição que descobri a graça do bem vestir na intimidade, mesmo que fosse apenas para mim. Mas naqueles tempos havia muita liberdade conquistada através da pílula anticoncepcional que veio mudar o comportamento das mulheres, a forma de encarar o mundo e fazer escolhas. Ser dona do próprio corpo, permitir seus desejos com total consciência …  Em plena maturidade, como num filme, me veio à memória os lençóis de seda, quartos floridos e perfumados, coleções de lingerie, meias de seda, colares de pérola, jogos de sedução, uma rica vida de muitas emoções. Em que momento tudo isso acabou? Ainda estou buscando a resposta, reconstruindo a trajetória e para começar devolvi as calcinhas comportadas para a vendedora e levei um conjunto de renda preta. Vou ser feliz…    

Foto : Cláudia Schembri

Maysa

Conheci Maysa quando fui trabalhar com Flávio Cavalcanti no final dos anos 60. Ela era meu ídolo. Descobri Maysa com pouco mais de dez anos assistindo um programa de TV . Morávamos em São Paulo, era tarde da noite e não era programação para criança. Não sei bem porquê, mas naquela noite meu pai me deixou acordada e fiquei deslumbrada ao vê-Ia entrar no estúdio. Ela estava um pouco gorda, usava um vestido de chjffon drapeado preso num ombro só, os cabelos meio curtos caindo em desalinho pelo rosto e cantava Meu Mundo Caiu. Esta cena em preto e branco tinha um impacto ainda maior. Maysa era diferente de tudo o que eu vira e ouvira sobre música. Não tinha a doçura de Cely Campelo com seus lacinhos cor-de-rosa nem a voz grave e o violão de Inezita Barroso como o disco que tínhamos em casa. Era uma mulher com um olhar profundamente triste que caminhava por um estúdio esfumaçado, taça de champanhe na mão, apoiando-se em colunas de estilo romano e falava de um amor sofrido. Nos dias de hoje seria dark. Passei a acompanhar o trabalho de Maysa, rompendo com todos os paradigmas de mito para uma garota da minha idade.

Maysa foi compositora e cantora de grande carisma. Nasceu numa família rica, casou com um herdeiro dos Matarazzo, de São Paulo, e abandonou tudo pela música. Nos anos 70, continuava uma mulher muito bonita, cabelos castanhos caindo no rosto, olhos verdes profundos e um ar muito chique. Suas canções eram tristes, a chamada “música de fossa”, e seus sucessos eram Ouça e Meu Mundo Caiu. Em meados de 60, casou com um espanhol e foi morar na Europa. Estava lá há alguns anos quando, em 68, Flávio foi a Portugal para fazer o programa A Grande Chance a convite da TV portuguesa, transmitido pela Eurovisão. Hospedado no Hotel São Carlos, em Lisboa, Flávio reencontrou Maysa. Um encontro mais do que agradável, sincero, amigo e saudoso. A cantora acabou aceitando o convite do apresentador de voltar ao Brasil. Foi integrar o júri do programa Um Instante, Maestro!, fez um show inesquecível no Canecão, dirigido por Ronaldo Bôscoli e permaneceu fixa no Programa Flávio Cavalcanti.

Sincera, às vezes enfossada, mas grande amiga. Em 73, eu ainda trabalhava com Flávio, mas comecei a fazer reportagens como freelancer para uma revista. Um dia chegou a oportunidade de fazer uma entrevista com Maysa. Eu estava separada há pouco tempo, vivia pela primeira vez a experiência de morar sozinha com um filho pequeno, e não foi preciso muito para que Maysa percebesse minhas dificuldades naquele momento. Não perguntou muito sobre a minha vida, mas no meio da entrevista pegou o telefone e fez uma ligação. Começou a falar com alguém e lá pelas tantas pediu o endereço da minha casa. Quando desligou disse que eu deveria estar pronta às nove horas da noite, na porta do prédio, porque seu ex-marido, e amigo, iria me levar para jantar. Recomendara a ele que me desse uma noite inesquecível, pois eu estava precisando me divertir.

E tudo aconteceu conforme ela organizou. No dia seguinte, Maysa me telefonou para saber se o ex-marido havia se portado bem. Contou que fizera algumas anotações para ajudar na minha reportagem e que mandaria entregar. No mesmo dia chegou um envelope; quando abri, encontrei quatro folhas de papel-ofício dobradas ao meio, com uma pequena biografia manuscrita. Como toda fã, fui egoísta, guardei só para mim. Em 1977, quando Maysa morreu num acidente de carro na ponte Rio—Niterói, eu estava no Festival de Cinema de Gramado. Era um sábado, 22 de janeiro, e eu me preparava para a festa da entrega de prêmios do festival quando vi a notícia no Jornal Nacional. Chorei muito, e mais uma vez lembrei das quatro folhinhas dobradas, aqui transcritas.

 “Nasci no Rio, sou de Gêmeos, dia 6 de junho. Nasci em Botafogo, em casa mesmo, na Rua Visconde Silva. Hoje em dia é uma clínica. Tenho imensa saudade daquela casa e sempre sonho com ela.  Tenho um irmão, Alcebíades, já casado com Dorinha e que tem uma filha linda chamada Maysa, como eu. Meus pais são maravilhosos, minha mãe é linda e papai tem os olhos mais azuis que já vi. Sempre foram meus amigos e companheiros em tudo e para tudo.

Só não gostaram quando eu comecei a cantar. Deram o não. Hoje, porém são fãs incondicionais. A música sempre foi importante pra mim, desde menina. Minha tia Lia era pianista excelente, e, quando ela estudava, eu ficava horas e horas sentada ao lado dela ouvindo música clássica.

Aos três anos eu já sabia tocar alguma coisa com dois dedinhos. Aos seis ia dar meu primeiro concerto de piano, mas caí doente com sarampo. Aos sete outra vez, mas tive catapora; assim, nunca pude levar a sério uma carreira de pianista, hoje uma de minhas frustrações.

Já casada, esperando Jayminho, meu filho, hoje com dezessete anos, numa festinha em casa toquei algumas das músicas que compunha desde os treze anos.

Estava lá Roberto Corte Real que me convidou para gravar um disco logo que o baby nascesse. Meu pai era muito amigo de Silvio Caldas, Elizeth Cardoso, que sempre estavam lá em casa. Sílvio foi a primeira pessoa que me ajudou a tocar violão. Com Elizeth, aprendi muito para depois partir para cantora.

Não foi fácil conseguir ser profissional. Para poder seguir essa profissão, tive que abrir mão de muitas coisas e, por fim, não podendo mais, larguei até o meu casamento, minha casa, enfim, a minha vida de moça de sociedade, para seguir a minha verdadeira estrada.

Devo ter mais ou menos uns 23 LPs, muitos feitos no Brasil e dois nos States, Itália, Espanha, Argentina etc. Compus muitas músicas e devo ter gravado umas cinquenta. Elas sempre refletiam meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui escrever nada alegre. Fora do Brasil estive sete anos. As razões foram várias, mas a principal foi meu segundo casamento. Meu segundo marido, Miguel Azanza, era espanhol, e todos os seus negócios estavam na Espanha. Segundo foi querer levar Jayme para que ele tomasse contato com a vida num local onde ele fosse somente Jayme, e não Jayme Matarazzo. Para que ele aprendesse a se valorizar pelo que ele é, e não por outras coisas que poderiam ocorrer em face de seu nome.

Com a morte de André, meu primeiro marido, levei o Jayminho para a Espanha e hoje não me arrependo. Atualmente minha vida chegou a um ponto onde há um equilíbrio agradável, embora eu esteja dando os meus primeiros passos para que o equilíbrio seja total. Muitas vezes ainda me sinto perdida, só, o que é normal para quem se colocou tanto tempo nessa situação.

Carlos Alberto e eu temos muita coisa em comum, inclusive uma vivência adquirida nos tantos erros anteriores. Fomos pessoas machucadas e machucamos. Tudo que sou agora é uma consequência lógica do que passou. Só que procuro tirar o que de bom ficou e jogar fora o que não interessa. Há anos venho em busca de um local que me permitisse uma paz quase inacreditável. Antes era na Barra da Tijuca, há dezesseis anos, onde eu tinha uma casa e vivia em perfeita harmonia com meus bichos, o mar e uma turma da pesada. Hoje é uma praia distante onde vivo na mais completa harmonia com Carlos, com os bichos, o mar e mais ninguém a não ser essa nova expressão que está nascendo em mim há algum tempo que é a pintura. Levei um piano onde pretendo compor algumas coisas, levei um cavalete, meus discos e levei a minha paz que, juntamente com a de Carlos, nos faz pensar num pra sempre.

Jayminho hoje tem dezessete anos, é bonito, rico, canta, toca violão, pinta, é bacana e um ser humano maravilhoso, que muito me ajudou no encontro dessa paz que hoje em dia é a minha constante.

E se às vezes derramo o caldo, ele é quente, mas não mais fervendo.”

E isso aí, bicho!

Rio, novembro de 73″

Parte do livro “Um Instante, Maestro!”

Strangers in the Night

Outubro de 1979 – Depois de 6 anos entre namoro e “juntamento” numa segunda-feira o caminhão do primo Joãozinho parou na garagem do prédio e levou a mudança. Para trás ficava uma longa história e todos os moveis, utensílios, aparelhos, discos, quadros, lençóis de seda, aparelho completo de louça portuguesa, enfim, uma vidinha que fora bem legal. A relação chegara ao fim na noite de domingo com a presença da contadora para resolver a burocracia da empresa que tínhamos em comum. Deixava um apartamento duplex com piscina no Posto 3 para um simpático sala e dois quartos na rua Djalma Ulrich, Posto 6, na mesma velha e boa Copacabana. Em uma semana a casa estava montada, um fusca azul na garagem e o desejo de começar de novo…

No “treding topics” daquele final de ano estava a vinda de Frank Sinatra em janeiro para inaugurar o Hotel Rio Palace com três shows e um no Maracanã para mais de 60 mil pessoas.  Contrariando todas as previsões de uma cigana de que morreria ao vir à América do Sul, Sinatra estava fechadíssimo com o publicitário Roberto Medina e não se falava em outra coisa… Eu não iria perder esta oportunidade de assistir ao vivo “the old blues eyes” e logo que os ingressos foram postos à venda garanti dois para o Maracanã, nas cadeiras em torno do palco, local mais nobre do estádio e apesar de salgado o preço se encaixava no meu orçamento de jornalista.

O fim de ano fora tranquilo, Natal na casa dos meus pais, ano novo com amigos e sobre o ex o que sabia é que tinha viajado para ver a família no Rio Grande do Sul e estava choroso com a separação. Minha vida ia muito bem obrigado. Não era a primeira nem a última vez que daria a volta por cima… Trabalho e filho pra criar eram meu foco… Qualquer referência amorosa estava fora dos meus planos, afinal antes dos 30 anos estava na segunda separação e casamento não podia ser algo tão fugaz como trocar de camisola…

No dia 3 de janeiro, meu aniversário, convidei uns amigos para um brinde no novo apt e estava acabando de me arrumar quando a campainha tocou. Era o porteiro entregando uma caixa enorme que haviam deixado em meu nome. A caixa era leve, amarrada com um belo laço de fita vermelha e ao abrir encontrei embrulhado em papel de seda um longo vestido preto com alças finas, tecido leve esvoaçante salpicado de pequenos bordados em lantejoulas foscas…. Acompanhava uma sandália preta de salto 12, delicadíssima, uma pequena trousse e um envelope com um cartão “Aceita assistir comigo ao show do Sinatra no Rio Pálace ?” …. A assinatura eu reconheceria até usando simplesmente o tato… Era de um homem 15 anos mais velho e que um dia ao vê-lo entrar num teatro comentei com uma amiga: ainda caso com ele…. Cuidado com o que você pede, um dia acontece. Alguns meses depois fomos apresentados e engatamos um romance incrível, com altos e baixos, crises de ciúme dignas de cenas de novelas como as que ele dirigia na Globo… A proposta do bilhete era irresistível e algumas semanas depois ele veio me buscar para a noite encantada … Assistindo Sinatra numa mesa frente ao palco, cercada de amigos, brindamos o retorno ao grande amor … Compartilhei com ele o ingresso para o show no Maracanã, e, na semana seguinte, a mudança saiu do Posto 9 e retornou ao Posto 3.

Estas lembranças vieram hoje ao ler no Segundo Caderno de O Globo a reportagem sobre os 40 anos do show do Sinatra no Rio…. Não tenho fotos, mas lembro de todos os detalhes, e até algum momento em que acreditei que Sinatra passou os olhos por mim… A vida é boa, eu sei…

Em tempo: creio que alguma foto foi feita pelos tantos profissionais que cobriam a noite no Rio Palace, afinal dividíamos a mesa com Carlos Manga, Chico Anysio e Boni….

As mães

As amigas astrólogas sempre falam sobre o meu inferno astral que vem na aba das festas de fim de ano. Capricorniana de 3 de janeiro, sempre foi difícil conviver com a miscelânea entre Natal e Ano Novo. Para culminar a conjunção astrológica, foi numa antevéspera de Natal que enterrei meu irmão há 18 anos. Enterrei literalmente: caixão em cova rasa num pequeno cemitério à beira da rodovia BA-001 seguindo seu desejo. Nos tempos em que me debatia nas celebrações, insistindo em fazer uma grande árvore, comprar presentes e fingir que estava tudo bacana, havia o reforço do Natal na casa dos meus pais. Mamãe primava na organização. Algumas semanas antes, enquanto arrumava a árvore e espalhava a decoração pela casa, tirava as toalhas bordadas do armário que seriam exibidas na ceia do dia 24 quando toda a família se reunia.  Mamãe fazia a festa para a família, presentes para todos aos pés da árvore, ceia atendendo os desejos : torta de nozes para um, bacalhau para outro, tender para um terceiro, e assim ia o cardápio. Esta semana lembrei muito dela ao pensar na noite de Natal que se aproxima quando estarei com meu filho e ao ver Lurdes, a personagem da Regina Casé na novela “Amor de Mãe”, preparando no capricho o almoço de domingo para receber o rico namorada da filha. Minha mãe faria igual, mesmo sem saber cozinhar daria um show de ordens na cozinha e provavelmente serviria o mesmo chester e salada de maionese. Um parêntese: esta mãe que Regina construiu é perfeita, tem gestos de enorme força como as mãos que espalma nas costas de quem abraça, quando olha nos olhos e diz “você agora tem mãe”… Apesar da minha não ser nordestina, era muito parecida. Era capaz de qualquer loucura pelos filhos, menos vender a casa pois meu pai não permitiria… Mas a verdade é que este ano, particularmente, minha mãe tem me feito muita falta nestes dias e, junto com este sentimento, me veio a lembrança de duas grandes mães que protagonizaram 2019: Mercedes, a mãe do querido Ricardo Boechat, e Maria do Céu, a mãe do Gugu Liberato.  Quanta dignidade que estas mulheres com muitos anos de vida passaram num momento que nenhuma mãe espera: enterrar o próprio filho. Não eram personagens de novela, era dor na carne, no sangue, na alma. Assim como elas, centenas de mães choraram a perda dos seus filhos na violência urbana destes país… Meu desejo para 2020 é que as mães sofredoras fiquem apenas nas novelas, no talento da Regina Casé , Tais Araujo e Adriana Esteves. E de resto, a vida segue…

João

A música me leva longe. Cenários, aromas, sabores, amores, momentos, tudo volta e me transporto. Assim como os amigos distantes que num reencontro parece que o tempo não passou, a música exerce esse efeito em mim. Esta semana chegou na caixa postal um cd do João Caetano, presente precioso, e nem precisei chegar em casa para ouvir. Esperando a balsa abri o pacotinho e lá foi o cd engolido pelo som do carro e eu engolida por uma saudade imensa do João, dos nossos anos 80 no Rio, e de ouvir nova boa música.  A minha trilha sonora não tem novidade há muito tempo. Fico revisitando os cds digitalizados, fazendo playlists em aplicativos, que falta me fazia descobrir novas letras e sons numa voz que me preenche de boas memórias.

João além de belo compositor, interprete é um talentoso profissional que sempre atua com alguma forma de arte, mesmo quando dá um tempo para a música. Seja na moda quando teve as lindas lojas Fórum no Rio, seja no Arquivo Contemporâneo seu projeto atual. A sonoridade sempre serpenteando, desde os tempos da faculdade de medicina, por que ele também é médico… E aí aparece neste final de ano transbordando poesia num cd que não pode ser mais biográfico, a começar pelo título, apenas JOÃO, com sua assinatura…

Ah João você está tocando direto no cd player do meu coração desde que atravessei a balsa com as janelas fechadas e aumentei o som pois minha alma precisava do seu delicioso cantar. Repito : que falta faz ouvir novas músicas. Músicas com cheiro de terra, memória rural de Goiás, sua raiz, a começar com “João”, mais autobiográfica impossível; músicas apaixonadas, românticas, delicadas como “A Voz do Coração” e “Te Amo”, as homenagens ao Rio de Janeiro em “Cem por Cento Carioca”, e para um seleto grupo de inspiradores que já partiram como Baden, Vinicius, Candeia, Braguinha, Lamartine, Donga, Lupiscinio em “Lugar Sagrado”, e ao design Sergio Rodrigues em “Almas Gêmeas”.  São 14 maravilhas, músicas que falam no meu coração, num tempo em que havia delicadeza, respeito, amizade. Um registro forte de uma época feliz. E ao ouvir “Porta Retrato”, descobri que mesmo vasculhando minha caixa de fotografias não tenho uma com você. Ainda está em tempo. Precisamos nos ver, no Rio ou na Bahia, pois o tempo passa como na letra de “Flor do Cerrado” “lembra do tempo / veloz ou lento / passando assim por nós / então me diga / que vão da vida / quis nos deixar tão sós? ”

Vidas cruzadas

Estou em tempo de memórias, mexer em fotos, contar histórias para a os mais jovens da família. Este é Tio Tózinho (Antônio Penteado) tio do meu pai… Era uma grande figura que conheci em 1961 quando mudamos de São Paulo para o Rio de Janeiro. Funcionário da prefeitura, exercia algum trabalho burocrático, pois sua paixão era ser charadista, ou cruzadista como também eram chamados os que criavam palavras cruzadas. Ele fazia parte de um grupo aonde era muito prestigiado com o pseudônimo de Paraná, estado onde nasceu toda a família Penteado. Ouvi muitas histórias sobre ele e uma delas mostra que tinha visão de marketing mesmo no fim do século 18 quando nasceu e ter morrido sem ouvir sobre esta ferramenta…. Quando rapaz, morando em Curitiba, fazia enorme sucesso nas altas rodas com sua elegância, bom humor, raciocínio rápido e inteligência. Certo dia procurou o sapateiro mais chic da cidade para encomendar um sapato. Ouviu a lamúria sobre um couro alaranjado que o sapateiro tinha encomendado e estava encalhado. Propôs que fizesse o sapato custo zero. Caso ninguém procurasse para encomendar modelos com o mesmo couro, ele pagaria. Sapato pronto saiu a desfilar pela Rua XV, local de grande movimento no centro Curitiba aonde se usava fazer footing, andando de um lado para o outro para ver e ser visto. Em pouco tempo só dava sapato alaranjado na Rua XV, criou moda.

Mas a história que mais gosto é de amor. Casou em Curitiba com a moça da foto que faleceu 6 meses depois. No leito de morte ele prometeu à amada que não casaria no próximo ano, mas se acostumou a viver sozinho e assim ficou por toda a vida…. Mudou para o Rio e descobriu o prazer de estar num balneário. Frequentava a Cinelândia onde ia aos cinemas nas sessões da tarde. Tomava banho de mar na antiga praia do Flamengo, andava na calçada de Copacabana e circulava de lotação pela cidade.  Era feliz do seu jeito. Nos seus últimos anos, já aposentado, quase todos os sábados almoçava na nossa casa na rua da Cascata, na Tijuca. Chegava perfumado, cabelos brancos fartos, penteados com gumex, vestindo ternos de linho, ou apenas calça e camisa sempre de linho…Lenço de cambraia no bolso para enxugar o suor do verão, roupa impecavelmente amarrotada por conta do linho, mas isso não tirava o charme. Quando morreu eu tinha 15 anos, coube ao meu pai cuidar do enterro e desmontar o apartamento que morava na praça da Cruz Vermelha, no centro do Rio. Um apartamento simples onde se destacava uma escrivaninha e uma grande estante repleta de livros e calipídios (acho que assim que se escreve o termo que só ouvi falar), uma publicação encadernada escrita à mão com palavras para serem usadas em charadas, naquelas palavras cruzadas difíceis de resolver… Estes livros foram doados para uma associação de charadistas (ou cruzadistas) e para mim ficou um pecúlio da prefeitura, em dinheiros de hoje deveria ser uns 2 mil reais, motivo de alto consumo, inclusive uma meia peruca muito em moda na época… Tio Tózinho sempre esteve em minhas lembranças e, como sempre os fios da vida voltam a se entrelaçar, quando morava nos Estados Unidos houve um tempo que achei estar totalmente esquecida no Brasil. Ate receber por correio a carta de um sobrinho com uma página da revista Coquetel onde numa palavra cruzada aparecia : (L..) Penteado jornalista brasileira com 3 letras ! Era eu !!  Ele também não esqueceu de mim…