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…nem lembrava destes escritos…

Num movimento de mudanças e desapego, retirei todos os livros das estantes e armários, fiz uma seleção dos quais quero manter, e no meio encontrei algumas folhas arrancadas de um caderno com o texto que segue…É um curto diário escrito em novembro 2001, quando trouxe o meu irmão do Rio para Santo André depois de ter passado por um processo de radioterapia … Incrível ver quase 20 anos depois o que aconteceu com este lugar e a minha vida…

27 de novembro de 2001 – Sto Andre (BA)

Quando voltar ao Rio vou ver no meu mapa astral o que este dia representa, qual a quadratura do planeta, influências…. Talvez não tenha nada especial e, por não haver nenhuma expectativa, representou muito. No meio do voo para Porto Seguro, a não sei quantos pés de altura, entendi a vida. Nada a explicar muito teoricamente, mas de sentir profundamente. Só agora entendi onde estou e porque estou aqui cumprindo mais uma trilha. Estou perfeitamente integrada no universo e o que tenho que fazer me vai sendo mostrado passo a passo.

Quase 6 da tarde, o sol ainda morno, saio a caminhar na praia. Só eu e a natureza. Fiz uma prece linda, falei alto com o mar, as ondinas, as nuvens, os céus, os peixes, os pássaros, as árvores. Agradeci por estas descobertas. Antes tarde do que nunca. Agradeço pela graça dos meus 52 anos, ainda me é dada a chance de aprender tanto. Este 2001 tem sido revelador e transmutador. Quantas revelações profundas e íntimas.

Agradeci pela família em que estou e os desafios que me foram dados, aos que passaram e passam por meu caminho em todos os momentos e, se não consegui antes, que possa dar-lhes o meu amor.

Mergulhei no mar em oração num encontro pleno de energização, limpando cada célula do meu corpo e lavando a alma.

“Senhor, seja feita a sua vontade e não a minha”, repeti diversas vezes…

Enquanto escrevo uma sinfonia de pássaros executa a trilha sonora. Penso em meu irmão e penso em mim, em todo esse novo processo que apesar da dor me faz melhor, mais inteira e integrada. Sinto que estes dias serão plenos de descobertas.

….

Ontem quando o avião parou em São Paulo, deixei o Victor na sala de embarque e saí para chorar. Dói vê-lo tão debilitado em uma cadeira de rodas. Imagino o que ele pensa, sente…. Percebo seus sentimentos, medos e duvidas. Porto Seguro é próximo ao seu porto seguro sto andre. Choro quieta no saguão, dezenas de pessoas passam e as lágrimas correm velozes no meu rosto.  Engulo seco, olho para o teto, tento todas as técnicas para cessar o choro e nada funciona. Mordo a língua, respiro fundo e levo um tempo para segurar. Fico lembrando de quantos conhecidos estavam no mesmo voo: Kassu, Emilio Santiago, Lula Vieira, Rodolfo Medina. Pessoas que estão constantemente em minha vida. Vão e voltam. E estavam ali de expectadoras deste momento tão delicado. Emilio foi generoso, veio até nós, conversou com Victor como se nada estivesse acontecendo. Não fez cara de piedade.

Saio pelo aeroporto, entro na livraria e não escolho, sou escolhida por um livro do Brian Weiss. Acabo de ler na pag 85 algo genial referente ao desapego do medo abrindo a mente.
Você mantem um relacionamento tanto consigo quanto com outras pessoas. E você já viveu em muitos corpos e em muitos momentos. Por isso pergunte a si mesmo por que tem tanto medo? Por que tem medo de assumir riscos razoáveis? Teme por sua reputação, pelo o que os outros possam vir a pensar? Esses medos foram condicionados na sua infância, ou mesmo antes disso. Faça a si mesmo estas perguntas: o que posso perder? O que pode acontecer de pior? Sinto-me contente com a possibilidade de viver o resto da minha vida desse modo? Se a morte é uma realidade inevitável, isso será “tão arriscado”?

Apago a tv, a luz do abajur e são tantas as lembranças que voltam à minha mente que volto a escrever.  A emoção do Victor ao ver o mar enquanto o taxi fazia o percurso até Cabrália será inesquecível. Não sei se proposital ou ao acaso ele se sentou na janela que dava visão plena do mar. Fungou, passou as mãos nos olhos, mas não mostrou as lágrimas. O dia quente e lindo. Meia hora em Cabrália esperando a balsa. Aqui temos todo o tempo para esperar, estamos voltando para casa, estou cumprindo o que prometi.  

A brisa na balsa, janela aberta e Sto André vai se aproximando. A chegada na pousada, o reencontro com a casa. Victor está exausto. Branca e Fio vem ajudar com as malas. Victor fala pouco e vai deitar. Sobe devagar a escada e quando desaparece pego a Branca enxugando os olhos. Ugo vem, mas não chega a alcança-lo, já está deitado. Choramos juntos. Muito difícil. Não há como não se tocar com o estado que ele se encontra. Frágil, magro, sem músculos, nem parece o homem forte que deixou Sto. André há 6 meses. Chega de chorar. Apago a luz e vou dormir.

28 novembro 2001 quarta-feira

O banho de mar, o pedido para a limpeza do meu corpo, libertando de todas as energias negativas, atuou durante a madrugada limpando o intestino. Acordei aliviada…

8 da manhã café com Victor que veio de noite mal dormida com problemas no estomago. Dor e enjoo e o remédio está na mala que vem no carro com o Alceu. Victor está de poucas palavras, volta para a cama e saio para caminhar.

Sol gostoso, vou pela areia até a ponta da praia onde a maré está baixa. Sento num banco de areia e faço o exercício de respiração, me entrego neste reencontro com o universo.  Agora uma oração, peço aos santos e guias, leio a meditação do Serapis Bey e me sinto plena com a luz. Volto caminhando e o mar deixou na areia uma boneca pequena de plástico, parece uma guerreira. A vida e seus simbolismos e a minha cabeça viaja.

….

O sol está fugindo de mim. Quando quero ele desaparece, quando mal posso tê-lo chega forte. Um sol incrível me acompanha em Cabrália durante as compras, mas no retorno, na travessia da balsa, o céu fica nublado.  Ameaça uma chuvinha, vou para a rede e sinto o vento, os passarinhos, adormeço e acordo com o sol já no fim do dia. Victor dorme na cama que foi colocada na sala. Poucas palavras. Está com um ferimento no cotovelo e tenho trocado o curativo. Vou caminhar num fim de tarde magnifico. Sinto o calor na minha pele que está tão branca e não penso mais nada a não ser viver este momento. Ouvir o mar, sentir o sol.

“Senhor seja feita a sua vontade e não a minha”.

Estou sozinha neste universo em total contemplação. Silencio em mim. Escuto os sons da natureza e do meu corpo. Deito na areia e meu corpo vai sentindo os grãos tocando suavemente. Abro as pernas e os braços, tenho a sensação de que posso flutuar. Sozinha, percebo a natureza em um momento único e mágico, exclusivo para mim. Fico em silencio, mente vazia e desperto para mergulhar num encontro de vigor e vida resplandecente. Grito graças à vida. Obrigada Senhor…. Em um outro canto, ali bem perto, meu irmão está morrendo.

….

A Edoarda fez uma massa maravilhosa, com um molho mais incrível ainda. Mãos de mestra italiana. Trouxe suas panelas para jantarmos. Ugo veio também. Saboreamos o manjar dos deuses, tomamos vinho, demos boas risadas e Victor em silencio. Comeu pouco e foi deitar. Continuamos no papo e às 10horas fechei a casa. Não gosto de deixa-lo dormindo sozinho, mas ele não quer companhia. Estou muito bem instalada no chalé, mas queria estar mais perto. Aviso que meu celular vai ficar ligado durante a noite por conta das ligações do Bê as vezes na madrugada. Inventei esta historia e me recolho preocupada. O ferimento não cicatriza, talvez seja necessário um outro procedimento.

Senhor dai-lhe forças para mais esta noite…

Complementando o pequeno diário :

No fim de semana, 1 e 2 de dezembro, Victor foi internado em Belmonte, para tomar soro e tratar do ferimento no braço. Retornamos dia 3, segunda-feira

O meu irmão Alceu trouxe o carro, sinto que não vai dar para ficar. Converso com a médica sem o Victor saber. Ela recomenda o retorno para o Rio.

Dia 8, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cabrália, rezo e peço que nos mostre o melhor caminho.

Dia 9 Victor acorda e me diz que devemos voltar.

Dia 10 de dezembro descemos no aeroporto de Congonhas e fomos direto para o hospital.

Dia 21 de dezembro Victor morreu.

Dia 23 de dezembro, atendendo seu pedido, deixei seu corpo no pequeno cemitério à beira da estrada em Mogiquiçaba, na divisa entre Cabrália e Belmonte.  

Só para mulheres experientes

Saíram do meu corpo 10 quilos e começo a me descobrir uma outra mulher. Não a mais magra que já fui e usou tantas roupas que ficaram guardadas como querendo provar que tinha sido mais leve … Mas uma mulher de 70 anos que voltou a olhar o seu corpo com prazer. Um assunto muito feminino que só quem voltou a vestir a velha calça jeans desbotada com folga pode avaliar… A sensação do vestido estar solto no corpo, de tudo cair melhor, de comer menos, não mais devorar uma caixa de bis e ficar feliz com 2 figos desidratados.  Não foi uma dieta, mas uma forma diferente de encarar a vida ao constatar que ainda tenho muito a construir e realizar. Pode parecer piração, mas tenho a sensação que o estômago diminuiu sem bariátrica. A gula foi controlada, aprendi a tomar café sem açúcar, retirei o trigo e o leite da mesa… Nada radical… Se der vontade como uma boa massa caseira ou um sorvete italiano que adoro… Neste novo movimento, entrou também o desapego aos livros e DVDs – os CDs já foram –, a organização das fotos que estão em diversas caixas, escrever mais (talvez um livro!), entender a razão da vida (se possível!), ser mais colaborativa, compreender o que é néctar e compaixão, refazer a horta e comer o que pode ser plantado no quintal. Tudo isso e muito mais, não necessariamente nesta ordem…

E foi neste novo estilo que viajei para São Paulo à trabalho aonde, invariavelmente, arrumo um tempo para me dar ao luxo de cortar o cabelo com o Jassa e passar na rua João Cachoeira que fica próxima a endereços que morei muitas vezes no Itaim Bibi. Tem o podólogo, a farmácia, a loja de camisetas, a das roupas sociais, a dos sapatos e a de lingerie. Foi exatamente nesta última que me surpreendi. Desculpe a intimidade, mas como estou falando entre amigas, confesso que há muitos anos uso um determinado tipo de calcinha de microfibra super prática e confortável, de uma marca bem conhecida e sem qualquer glamour.  É entrar na loja, olhar na prateleira, separar meia dúzia de beges e pretas, colocar na sacola e levar prá casa. Nem preciso experimentar. Estava exatamente no gesto de pegar as calcinhas quando me dei conta que não importava a cor, o estilo, era só algo para cobrir o corpo. Neste momento perguntei ao coração aonde eu tinha esquecido a minha alma feminina. Onde foi parar o sexy appeal, o cuidado em escolher lingerie para ocasiões especiais, as camisolas sedutoras…. Por um instante me remeti aos 19 anos quando, com o primeiro salário, comprei um conjunto de calcinha e sutiã importados. Tecido sintético delicado, novidade na época, com estampa clara num xadrez azul e branco, enfeite de rendas, estilo Brigite Bardot dos anos 60.  Foi a partir desta aquisição que descobri a graça do bem vestir na intimidade, mesmo que fosse apenas para mim. Mas naqueles tempos havia muita liberdade conquistada através da pílula anticoncepcional que veio mudar o comportamento das mulheres, a forma de encarar o mundo e fazer escolhas. Ser dona do próprio corpo, permitir seus desejos com total consciência …  Em plena maturidade, como num filme, me veio à memória os lençóis de seda, quartos floridos e perfumados, coleções de lingerie, meias de seda, colares de pérola, jogos de sedução, uma rica vida de muitas emoções. Em que momento tudo isso acabou? Ainda estou buscando a resposta, reconstruindo a trajetória e para começar devolvi as calcinhas comportadas para a vendedora e levei um conjunto de renda preta. Vou ser feliz…    

Foto : Cláudia Schembri

Maysa

Conheci Maysa quando fui trabalhar com Flávio Cavalcanti no final dos anos 60. Ela era meu ídolo. Descobri Maysa com pouco mais de dez anos assistindo um programa de TV . Morávamos em São Paulo, era tarde da noite e não era programação para criança. Não sei bem porquê, mas naquela noite meu pai me deixou acordada e fiquei deslumbrada ao vê-Ia entrar no estúdio. Ela estava um pouco gorda, usava um vestido de chjffon drapeado preso num ombro só, os cabelos meio curtos caindo em desalinho pelo rosto e cantava Meu Mundo Caiu. Esta cena em preto e branco tinha um impacto ainda maior. Maysa era diferente de tudo o que eu vira e ouvira sobre música. Não tinha a doçura de Cely Campelo com seus lacinhos cor-de-rosa nem a voz grave e o violão de Inezita Barroso como o disco que tínhamos em casa. Era uma mulher com um olhar profundamente triste que caminhava por um estúdio esfumaçado, taça de champanhe na mão, apoiando-se em colunas de estilo romano e falava de um amor sofrido. Nos dias de hoje seria dark. Passei a acompanhar o trabalho de Maysa, rompendo com todos os paradigmas de mito para uma garota da minha idade.

Maysa foi compositora e cantora de grande carisma. Nasceu numa família rica, casou com um herdeiro dos Matarazzo, de São Paulo, e abandonou tudo pela música. Nos anos 70, continuava uma mulher muito bonita, cabelos castanhos caindo no rosto, olhos verdes profundos e um ar muito chique. Suas canções eram tristes, a chamada “música de fossa”, e seus sucessos eram Ouça e Meu Mundo Caiu. Em meados de 60, casou com um espanhol e foi morar na Europa. Estava lá há alguns anos quando, em 68, Flávio foi a Portugal para fazer o programa A Grande Chance a convite da TV portuguesa, transmitido pela Eurovisão. Hospedado no Hotel São Carlos, em Lisboa, Flávio reencontrou Maysa. Um encontro mais do que agradável, sincero, amigo e saudoso. A cantora acabou aceitando o convite do apresentador de voltar ao Brasil. Foi integrar o júri do programa Um Instante, Maestro!, fez um show inesquecível no Canecão, dirigido por Ronaldo Bôscoli e permaneceu fixa no Programa Flávio Cavalcanti.

Sincera, às vezes enfossada, mas grande amiga. Em 73, eu ainda trabalhava com Flávio, mas comecei a fazer reportagens como freelancer para uma revista. Um dia chegou a oportunidade de fazer uma entrevista com Maysa. Eu estava separada há pouco tempo, vivia pela primeira vez a experiência de morar sozinha com um filho pequeno, e não foi preciso muito para que Maysa percebesse minhas dificuldades naquele momento. Não perguntou muito sobre a minha vida, mas no meio da entrevista pegou o telefone e fez uma ligação. Começou a falar com alguém e lá pelas tantas pediu o endereço da minha casa. Quando desligou disse que eu deveria estar pronta às nove horas da noite, na porta do prédio, porque seu ex-marido, e amigo, iria me levar para jantar. Recomendara a ele que me desse uma noite inesquecível, pois eu estava precisando me divertir.

E tudo aconteceu conforme ela organizou. No dia seguinte, Maysa me telefonou para saber se o ex-marido havia se portado bem. Contou que fizera algumas anotações para ajudar na minha reportagem e que mandaria entregar. No mesmo dia chegou um envelope; quando abri, encontrei quatro folhas de papel-ofício dobradas ao meio, com uma pequena biografia manuscrita. Como toda fã, fui egoísta, guardei só para mim. Em 1977, quando Maysa morreu num acidente de carro na ponte Rio—Niterói, eu estava no Festival de Cinema de Gramado. Era um sábado, 22 de janeiro, e eu me preparava para a festa da entrega de prêmios do festival quando vi a notícia no Jornal Nacional. Chorei muito, e mais uma vez lembrei das quatro folhinhas dobradas, aqui transcritas.

 “Nasci no Rio, sou de Gêmeos, dia 6 de junho. Nasci em Botafogo, em casa mesmo, na Rua Visconde Silva. Hoje em dia é uma clínica. Tenho imensa saudade daquela casa e sempre sonho com ela.  Tenho um irmão, Alcebíades, já casado com Dorinha e que tem uma filha linda chamada Maysa, como eu. Meus pais são maravilhosos, minha mãe é linda e papai tem os olhos mais azuis que já vi. Sempre foram meus amigos e companheiros em tudo e para tudo.

Só não gostaram quando eu comecei a cantar. Deram o não. Hoje, porém são fãs incondicionais. A música sempre foi importante pra mim, desde menina. Minha tia Lia era pianista excelente, e, quando ela estudava, eu ficava horas e horas sentada ao lado dela ouvindo música clássica.

Aos três anos eu já sabia tocar alguma coisa com dois dedinhos. Aos seis ia dar meu primeiro concerto de piano, mas caí doente com sarampo. Aos sete outra vez, mas tive catapora; assim, nunca pude levar a sério uma carreira de pianista, hoje uma de minhas frustrações.

Já casada, esperando Jayminho, meu filho, hoje com dezessete anos, numa festinha em casa toquei algumas das músicas que compunha desde os treze anos.

Estava lá Roberto Corte Real que me convidou para gravar um disco logo que o baby nascesse. Meu pai era muito amigo de Silvio Caldas, Elizeth Cardoso, que sempre estavam lá em casa. Sílvio foi a primeira pessoa que me ajudou a tocar violão. Com Elizeth, aprendi muito para depois partir para cantora.

Não foi fácil conseguir ser profissional. Para poder seguir essa profissão, tive que abrir mão de muitas coisas e, por fim, não podendo mais, larguei até o meu casamento, minha casa, enfim, a minha vida de moça de sociedade, para seguir a minha verdadeira estrada.

Devo ter mais ou menos uns 23 LPs, muitos feitos no Brasil e dois nos States, Itália, Espanha, Argentina etc. Compus muitas músicas e devo ter gravado umas cinquenta. Elas sempre refletiam meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui escrever nada alegre. Fora do Brasil estive sete anos. As razões foram várias, mas a principal foi meu segundo casamento. Meu segundo marido, Miguel Azanza, era espanhol, e todos os seus negócios estavam na Espanha. Segundo foi querer levar Jayme para que ele tomasse contato com a vida num local onde ele fosse somente Jayme, e não Jayme Matarazzo. Para que ele aprendesse a se valorizar pelo que ele é, e não por outras coisas que poderiam ocorrer em face de seu nome.

Com a morte de André, meu primeiro marido, levei o Jayminho para a Espanha e hoje não me arrependo. Atualmente minha vida chegou a um ponto onde há um equilíbrio agradável, embora eu esteja dando os meus primeiros passos para que o equilíbrio seja total. Muitas vezes ainda me sinto perdida, só, o que é normal para quem se colocou tanto tempo nessa situação.

Carlos Alberto e eu temos muita coisa em comum, inclusive uma vivência adquirida nos tantos erros anteriores. Fomos pessoas machucadas e machucamos. Tudo que sou agora é uma consequência lógica do que passou. Só que procuro tirar o que de bom ficou e jogar fora o que não interessa. Há anos venho em busca de um local que me permitisse uma paz quase inacreditável. Antes era na Barra da Tijuca, há dezesseis anos, onde eu tinha uma casa e vivia em perfeita harmonia com meus bichos, o mar e uma turma da pesada. Hoje é uma praia distante onde vivo na mais completa harmonia com Carlos, com os bichos, o mar e mais ninguém a não ser essa nova expressão que está nascendo em mim há algum tempo que é a pintura. Levei um piano onde pretendo compor algumas coisas, levei um cavalete, meus discos e levei a minha paz que, juntamente com a de Carlos, nos faz pensar num pra sempre.

Jayminho hoje tem dezessete anos, é bonito, rico, canta, toca violão, pinta, é bacana e um ser humano maravilhoso, que muito me ajudou no encontro dessa paz que hoje em dia é a minha constante.

E se às vezes derramo o caldo, ele é quente, mas não mais fervendo.”

E isso aí, bicho!

Rio, novembro de 73″

Parte do livro “Um Instante, Maestro!”

Strangers in the Night

Outubro de 1979 – Depois de 6 anos entre namoro e “juntamento” numa segunda-feira o caminhão do primo Joãozinho parou na garagem do prédio e levou a mudança. Para trás ficava uma longa história e todos os moveis, utensílios, aparelhos, discos, quadros, lençóis de seda, aparelho completo de louça portuguesa, enfim, uma vidinha que fora bem legal. A relação chegara ao fim na noite de domingo com a presença da contadora para resolver a burocracia da empresa que tínhamos em comum. Deixava um apartamento duplex com piscina no Posto 3 para um simpático sala e dois quartos na rua Djalma Ulrich, Posto 6, na mesma velha e boa Copacabana. Em uma semana a casa estava montada, um fusca azul na garagem e o desejo de começar de novo…

No “treding topics” daquele final de ano estava a vinda de Frank Sinatra em janeiro para inaugurar o Hotel Rio Palace com três shows e um no Maracanã para mais de 60 mil pessoas.  Contrariando todas as previsões de uma cigana de que morreria ao vir à América do Sul, Sinatra estava fechadíssimo com o publicitário Roberto Medina e não se falava em outra coisa… Eu não iria perder esta oportunidade de assistir ao vivo “the old blues eyes” e logo que os ingressos foram postos à venda garanti dois para o Maracanã, nas cadeiras em torno do palco, local mais nobre do estádio e apesar de salgado o preço se encaixava no meu orçamento de jornalista.

O fim de ano fora tranquilo, Natal na casa dos meus pais, ano novo com amigos e sobre o ex o que sabia é que tinha viajado para ver a família no Rio Grande do Sul e estava choroso com a separação. Minha vida ia muito bem obrigado. Não era a primeira nem a última vez que daria a volta por cima… Trabalho e filho pra criar eram meu foco… Qualquer referência amorosa estava fora dos meus planos, afinal antes dos 30 anos estava na segunda separação e casamento não podia ser algo tão fugaz como trocar de camisola…

No dia 3 de janeiro, meu aniversário, convidei uns amigos para um brinde no novo apt e estava acabando de me arrumar quando a campainha tocou. Era o porteiro entregando uma caixa enorme que haviam deixado em meu nome. A caixa era leve, amarrada com um belo laço de fita vermelha e ao abrir encontrei embrulhado em papel de seda um longo vestido preto com alças finas, tecido leve esvoaçante salpicado de pequenos bordados em lantejoulas foscas…. Acompanhava uma sandália preta de salto 12, delicadíssima, uma pequena trousse e um envelope com um cartão “Aceita assistir comigo ao show do Sinatra no Rio Pálace ?” …. A assinatura eu reconheceria até usando simplesmente o tato… Era de um homem 15 anos mais velho e que um dia ao vê-lo entrar num teatro comentei com uma amiga: ainda caso com ele…. Cuidado com o que você pede, um dia acontece. Alguns meses depois fomos apresentados e engatamos um romance incrível, com altos e baixos, crises de ciúme dignas de cenas de novelas como as que ele dirigia na Globo… A proposta do bilhete era irresistível e algumas semanas depois ele veio me buscar para a noite encantada … Assistindo Sinatra numa mesa frente ao palco, cercada de amigos, brindamos o retorno ao grande amor … Compartilhei com ele o ingresso para o show no Maracanã, e, na semana seguinte, a mudança saiu do Posto 9 e retornou ao Posto 3.

Estas lembranças vieram hoje ao ler no Segundo Caderno de O Globo a reportagem sobre os 40 anos do show do Sinatra no Rio…. Não tenho fotos, mas lembro de todos os detalhes, e até algum momento em que acreditei que Sinatra passou os olhos por mim… A vida é boa, eu sei…

Em tempo: creio que alguma foto foi feita pelos tantos profissionais que cobriam a noite no Rio Palace, afinal dividíamos a mesa com Carlos Manga, Chico Anysio e Boni….

As mães

As amigas astrólogas sempre falam sobre o meu inferno astral que vem na aba das festas de fim de ano. Capricorniana de 3 de janeiro, sempre foi difícil conviver com a miscelânea entre Natal e Ano Novo. Para culminar a conjunção astrológica, foi numa antevéspera de Natal que enterrei meu irmão há 18 anos. Enterrei literalmente: caixão em cova rasa num pequeno cemitério à beira da rodovia BA-001 seguindo seu desejo. Nos tempos em que me debatia nas celebrações, insistindo em fazer uma grande árvore, comprar presentes e fingir que estava tudo bacana, havia o reforço do Natal na casa dos meus pais. Mamãe primava na organização. Algumas semanas antes, enquanto arrumava a árvore e espalhava a decoração pela casa, tirava as toalhas bordadas do armário que seriam exibidas na ceia do dia 24 quando toda a família se reunia.  Mamãe fazia a festa para a família, presentes para todos aos pés da árvore, ceia atendendo os desejos : torta de nozes para um, bacalhau para outro, tender para um terceiro, e assim ia o cardápio. Esta semana lembrei muito dela ao pensar na noite de Natal que se aproxima quando estarei com meu filho e ao ver Lurdes, a personagem da Regina Casé na novela “Amor de Mãe”, preparando no capricho o almoço de domingo para receber o rico namorada da filha. Minha mãe faria igual, mesmo sem saber cozinhar daria um show de ordens na cozinha e provavelmente serviria o mesmo chester e salada de maionese. Um parêntese: esta mãe que Regina construiu é perfeita, tem gestos de enorme força como as mãos que espalma nas costas de quem abraça, quando olha nos olhos e diz “você agora tem mãe”… Apesar da minha não ser nordestina, era muito parecida. Era capaz de qualquer loucura pelos filhos, menos vender a casa pois meu pai não permitiria… Mas a verdade é que este ano, particularmente, minha mãe tem me feito muita falta nestes dias e, junto com este sentimento, me veio a lembrança de duas grandes mães que protagonizaram 2019: Mercedes, a mãe do querido Ricardo Boechat, e Maria do Céu, a mãe do Gugu Liberato.  Quanta dignidade que estas mulheres com muitos anos de vida passaram num momento que nenhuma mãe espera: enterrar o próprio filho. Não eram personagens de novela, era dor na carne, no sangue, na alma. Assim como elas, centenas de mães choraram a perda dos seus filhos na violência urbana destes país… Meu desejo para 2020 é que as mães sofredoras fiquem apenas nas novelas, no talento da Regina Casé , Tais Araujo e Adriana Esteves. E de resto, a vida segue…

João

A música me leva longe. Cenários, aromas, sabores, amores, momentos, tudo volta e me transporto. Assim como os amigos distantes que num reencontro parece que o tempo não passou, a música exerce esse efeito em mim. Esta semana chegou na caixa postal um cd do João Caetano, presente precioso, e nem precisei chegar em casa para ouvir. Esperando a balsa abri o pacotinho e lá foi o cd engolido pelo som do carro e eu engolida por uma saudade imensa do João, dos nossos anos 80 no Rio, e de ouvir nova boa música.  A minha trilha sonora não tem novidade há muito tempo. Fico revisitando os cds digitalizados, fazendo playlists em aplicativos, que falta me fazia descobrir novas letras e sons numa voz que me preenche de boas memórias.

João além de belo compositor, interprete é um talentoso profissional que sempre atua com alguma forma de arte, mesmo quando dá um tempo para a música. Seja na moda quando teve as lindas lojas Fórum no Rio, seja no Arquivo Contemporâneo seu projeto atual. A sonoridade sempre serpenteando, desde os tempos da faculdade de medicina, por que ele também é médico… E aí aparece neste final de ano transbordando poesia num cd que não pode ser mais biográfico, a começar pelo título, apenas JOÃO, com sua assinatura…

Ah João você está tocando direto no cd player do meu coração desde que atravessei a balsa com as janelas fechadas e aumentei o som pois minha alma precisava do seu delicioso cantar. Repito : que falta faz ouvir novas músicas. Músicas com cheiro de terra, memória rural de Goiás, sua raiz, a começar com “João”, mais autobiográfica impossível; músicas apaixonadas, românticas, delicadas como “A Voz do Coração” e “Te Amo”, as homenagens ao Rio de Janeiro em “Cem por Cento Carioca”, e para um seleto grupo de inspiradores que já partiram como Baden, Vinicius, Candeia, Braguinha, Lamartine, Donga, Lupiscinio em “Lugar Sagrado”, e ao design Sergio Rodrigues em “Almas Gêmeas”.  São 14 maravilhas, músicas que falam no meu coração, num tempo em que havia delicadeza, respeito, amizade. Um registro forte de uma época feliz. E ao ouvir “Porta Retrato”, descobri que mesmo vasculhando minha caixa de fotografias não tenho uma com você. Ainda está em tempo. Precisamos nos ver, no Rio ou na Bahia, pois o tempo passa como na letra de “Flor do Cerrado” “lembra do tempo / veloz ou lento / passando assim por nós / então me diga / que vão da vida / quis nos deixar tão sós? ”

Vidas cruzadas

Estou em tempo de memórias, mexer em fotos, contar histórias para a os mais jovens da família. Este é Tio Tózinho (Antônio Penteado) tio do meu pai… Era uma grande figura que conheci em 1961 quando mudamos de São Paulo para o Rio de Janeiro. Funcionário da prefeitura, exercia algum trabalho burocrático, pois sua paixão era ser charadista, ou cruzadista como também eram chamados os que criavam palavras cruzadas. Ele fazia parte de um grupo aonde era muito prestigiado com o pseudônimo de Paraná, estado onde nasceu toda a família Penteado. Ouvi muitas histórias sobre ele e uma delas mostra que tinha visão de marketing mesmo no fim do século 18 quando nasceu e ter morrido sem ouvir sobre esta ferramenta…. Quando rapaz, morando em Curitiba, fazia enorme sucesso nas altas rodas com sua elegância, bom humor, raciocínio rápido e inteligência. Certo dia procurou o sapateiro mais chic da cidade para encomendar um sapato. Ouviu a lamúria sobre um couro alaranjado que o sapateiro tinha encomendado e estava encalhado. Propôs que fizesse o sapato custo zero. Caso ninguém procurasse para encomendar modelos com o mesmo couro, ele pagaria. Sapato pronto saiu a desfilar pela Rua XV, local de grande movimento no centro Curitiba aonde se usava fazer footing, andando de um lado para o outro para ver e ser visto. Em pouco tempo só dava sapato alaranjado na Rua XV, criou moda.

Mas a história que mais gosto é de amor. Casou em Curitiba com a moça da foto que faleceu 6 meses depois. No leito de morte ele prometeu à amada que não casaria no próximo ano, mas se acostumou a viver sozinho e assim ficou por toda a vida…. Mudou para o Rio e descobriu o prazer de estar num balneário. Frequentava a Cinelândia onde ia aos cinemas nas sessões da tarde. Tomava banho de mar na antiga praia do Flamengo, andava na calçada de Copacabana e circulava de lotação pela cidade.  Era feliz do seu jeito. Nos seus últimos anos, já aposentado, quase todos os sábados almoçava na nossa casa na rua da Cascata, na Tijuca. Chegava perfumado, cabelos brancos fartos, penteados com gumex, vestindo ternos de linho, ou apenas calça e camisa sempre de linho…Lenço de cambraia no bolso para enxugar o suor do verão, roupa impecavelmente amarrotada por conta do linho, mas isso não tirava o charme. Quando morreu eu tinha 15 anos, coube ao meu pai cuidar do enterro e desmontar o apartamento que morava na praça da Cruz Vermelha, no centro do Rio. Um apartamento simples onde se destacava uma escrivaninha e uma grande estante repleta de livros e calipídios (acho que assim que se escreve o termo que só ouvi falar), uma publicação encadernada escrita à mão com palavras para serem usadas em charadas, naquelas palavras cruzadas difíceis de resolver… Estes livros foram doados para uma associação de charadistas (ou cruzadistas) e para mim ficou um pecúlio da prefeitura, em dinheiros de hoje deveria ser uns 2 mil reais, motivo de alto consumo, inclusive uma meia peruca muito em moda na época… Tio Tózinho sempre esteve em minhas lembranças e, como sempre os fios da vida voltam a se entrelaçar, quando morava nos Estados Unidos houve um tempo que achei estar totalmente esquecida no Brasil. Ate receber por correio a carta de um sobrinho com uma página da revista Coquetel onde numa palavra cruzada aparecia : (L..) Penteado jornalista brasileira com 3 letras ! Era eu !!  Ele também não esqueceu de mim…

O professor de português

Com Professor Délcio, as professoras que não recordo o nome, e Janine Thomas

Tenho fugido dele há muitos anos. Quando se apresenta é sorrateiramente, no meio de uma grande mudança, ressurge do nada e me olha desafiador. É apenas um livrinho sem capa, com algumas folhas soltas, mas mexe com as minhas entranhas. Não pelo teor dos poemas de Castro Alves e nem por saber de cor “Vozes D´África” – Deus! Ó Deus, onde estás que não respondes!? Em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, que embalde, desde então, corre o infinito… Onde estás, Senhor Deus?…-  mas por lembrar sempre de onde veio.

A dedicatória quase apagada mesmo que desaparecesse eu não esqueceria e diz “À aluna Léa Ceres Viana Penteado vencedora do “I Concurso de Redação” realizado no Ginásio Batista Brasileiro em 1962”. Acompanha as assinaturas da diretora Zeni e do professor Delcio. Aos 13 anos cursando a 3ª série, como todas as alunas do ginasial tive que fazer uma redação para participar do concurso. Não lembro se o tema era livre, mas a minha tinha o título “Saudades”. Nunca fui atenta às regras de gramática, mas tinha estilo. Me lembro das 3 folhinhas retiradas do caderno onde passei a limpo com a letra cuidadosa e sem rasura a redação. Eu sabia que estava bacaninha, mas a estima não era tão elevada ao ponto de achar que seria a melhor. E não é que foi?

Como eu era apenas uma aluna mediana, nem tão bonita, nem rica, nem da Igreja Batista, ter sido a vencedora causou um mal-estar. Poucas horas depois do anuncio feito no alto falante do pátio com todas as alunas formadas em fila, começou o zumzumzum de que eu não podia ser autora daquela redação tão surpreendentemente boa. Eu gostava de ler e escrever, sempre fui criadora de histórias que só ficavam nos meus pensamentos e não sei de onde tirei inspiração para colocar no papel. Lembro alguns trechos e deve ter chamado a atenção do professor Delcio, um homem negro, muito magro, com mais de 60 anos, o fato do primeiro e o último parágrafo começarem exatamente iguais. Nem sei aonde vi isso, mas sei que fiz assim e deu um diferencial à redação.

A revolta das colegas era velada. Não falavam abertamente, só no cochicho. Fiquei constrangida, triste, fora do prumo durante algumas semanas. Puro bulling, diriam nos dias de hoje. Engoli seco, não comentei em casa, tive vergonha. Em algum pensamento maluco nos longos seis quarteirões que caminhava da minha casa à escola cheguei a duvidar que tivera competência para escrever. Eu não era tão boa assim. Meu guarda-roupas era uma bagunça, eu odiara meu irmão quando nasceu, roubei bombons de minha mãe, assisti TV escondido e com tantos erros como podia escrever bem e ganhar um concurso?

Perguntas que ficaram nas pedras chutadas e o tempo passou mostrando que escrever era mais forte do que todas as dúvidas, minhas e dos outros. No ano seguinte, na formatura do ginásio, fui escolhida para ser a oradora da turma e fiz um lindo discurso que ninguém mais podia contestar a autoria.

E bem nesta semana quando acerto escrever para o portal da minha amiga loura, o livro “Espumas Flutuantes” voa da estante e a história de como tudo começou vem à tona. Um fato jamais comentado nem nos divãs dos analistas, nem nas confissões da igreja, nem repetida para a família, filho, maridos, namorados, amigos chegados… Guardada no fundo do coração saiu sem dor e com uma enorme gratidão ao concurso de redação que mostrou o meu caminho.

Esta cronica, escrita para o portal Anna Maria Ramalho e publicada em 23 de março de 2015, republico em honra ao professor inesquecível…

Em memória do Segundo Caderno O Globo

Em novembro de 1976, numa certa manhã na redação da revista TV Guia (Editora Abril) o editor Edgard Catoira me chamou para avisar que ia ter um “passaralho”, termo muito utilizado nas redações em referência a demissões em massa, e meu nome não constava da lista. Porém, buscava colocação para os que seriam demitidos e numa conversa com o Henrique Caban, editor de O Globo, soube que havia uma vaga para cobrir a área de TV no Segundo Caderno do jornal. Caban se interessou pelo meu currículo, já vinha me acompanhando e, caso eu aceitasse, a minha vaga iria para um colega que estava na mira do corte… Fui pra casa pensar. Nunca tinha trabalhado em jornal, toda a experiência era em revistas e tv, o salário não mudava muito, mas soava como um desafio sedutor.  No dia seguinte fui conversar com o Caban e assim começou a minha vida nas Organizações Roberto Marinho onde mais do que jornalismo, aprendi a me colocar como mulher e profissional. Não que eu não soubesse me portar, mas diante daquela redação repleta de intelectuais, o que eu escrevia era considerado subproduto…. Além disso, constava no meu currículo ter sido secretária do apresentador de TV Flávio Cavalcanti, considerado super de direita, ter escrito e dirigido revistas de fotonovelas… Popular é pouco…

Era um tempo em que ainda havia o discurso “passei pela área de serviço e a minha empregada estava assistindo o Chacrinha” ou a referência à qualquer outro programa popular, onde também se incluíam as novelas. Sim, eu sabia sobre os bastidores deste mundo ‘pouco qualificado’ e ainda namorava um diretor de novelas… Conviver com uma repórter assim era divertido para a “inteligentzia” que queria saber se a Sandra Bréa era caso de que diretor, se determinado ator era “bicha” – ninguém era gay naquele tempo- ,  se a cantora era “sapatão”, se fulano tinha um contrato com tantos cifrões, e  outras tantas curiosidades do submundo do subproduto das celebridades… Apesar de todo o ar político e culturalmente correto, a redação era um mafuá. Móveis velhos e empoeirados, janelas enormes que descortinavam para o Batalhão da PM, a trilha sonora das teclas nas máquinas de escrever, os cinzeiros cheios de bitucas de cigarro e o desfile de lendas do jornalismo que entrava silenciosamente para entregar seus artigos, alguns até escreviam em máquina no fundo da sala… Um calor infernal, o sol da tarde era inclemente, mas foi ali que eu comecei a forjar essa mulher que sou hoje… Foi no campo do que hoje seria o “bulling” que me fortaleci e passei a ter orgulho do meu caminho… Diferente dos meus amigos, eu não tinha cursado qualquer universidade. Sou do tempo que para ter registro de jornalista bastava apenas mostrar serviço, e assim me tornei uma.  As tendências ao brega que construí ouvindo o rádio da Rosalina na cozinha da infância, as raízes da Tijuca no grupo MAU, tudo formava a identidade do que eu estava me tornando.

Foi a partir de uma reportagem onde eu revelava o conteúdo das cartas que os fãs mandavam para os atores, que o seleto grupo de colegas passou a olhar o meu trabalho com mais atenção. Eu era um pouco mais do que uma “repórter de tv”. Consegui esta matéria graças à “santa” Guta, diretora de elenco da Globo e com poderes sobre as grandes estrelas globais, que me permitiu ler as cartas onde os fãs revelavam seus sonhos e intimidades em relação aos artistas. Como exemplo, um determinado ator recebeu uma caixinha que continha um vidro para que colocasse o seu esperma. Ela sonhava ter um filho e poderia ser até desta forma.  Foi a partir daí que meu caminho na redação ficou mais fácil e passei a me sentir pertencente ao time.

Tite de Lemos, Ivo Cardozo, Leonal Kaz e por último Fuad Atala acompanharam essa minha trajetória em 5 anos na redação do Segundo Caderno. Eles nunca souberam o quanto eu era feliz em compartilhar nas páginas do Segundo Caderno, entre matérias sobre sofisticadas montagens teatrais, operas, exposições de arte, concertos sinfônicos, autores premiados, cinema de arte, as matérias popularescas como as que fiz com Gretchen, Wando, Sidney Magal, Júlio Iglesias, entre muitas outras, além das estreias de todas as novelas…

Estas lembranças chegaram ao amanhecer quando soube da partida do querido Fuad Atala para redações celestiais. No ultimo dia 4 de abril quando reunimos uma parte dos Dinossauros de O Globo num jantar no Rio, chegamos a fazer um crachá para ele, mas com a saúde debilitada não pode brindar a amizade deste tempo tão feliz… Na foto, a alegria da nossa juventude e Fuad atrás da grande mesa com total maestria regendo todos nos… dezembro de 81, um pedaço da nossa equipe… ja não estão mais Sonia Biondo e Flavia Villas Boas… Presentes Leonel Kaz, Ana Maria Ramalho, Flavio Marinho, Terezinha Larcher, Eliane Levy de Souza e um pedacinho da Heloisa Daddario… Fomos muito felizes e continuamos a ser por ter tanta historia prá rever…

Educação

Não poderia ser mais adequado para o momento que o país atravessa o evento que assisti no fim de semana.  Parafraseando Artur Xexéo, “os meus pouco mais de 33 leitores” sabem que moro em Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia, menos de 30 mil habitantes e tem como base econômica o turismo, a pesca e a agricultura. Uma cidade linda, histórica, poucos recursos, enorme extensão territorial e muito simples. Quando cheguei há 15 anos havia uma faculdade em Coroa Vermelha, um distrito na entrada da cidade. A Faculdade do Descobrimento tinha um campus bem estruturado, cursos de Administração e Enfermagem, previsão de outros tantos como Medicina. Mas algo deu errado, foi desativada e o local tomado por índios. Sim, índios.  Cabrália é uma das cidades com maior número de índios em área urbana no país.

Sendo assim, a educação ia até o ensino fundamental. Quem mais quisesse aprender deveria partir para cidades próximas como Porto Seguro e Eunápolis. Há uns quatro anos encontrei com uma amiga que disse ter entrado para a Faculdade de Pedagogia em Cabrália. Alvíssaras! Fora implantado o núcleo de uma universidade de Itabuna e ela vislumbrou a chance de voltar a estudar mesmo passando dos 40 anos. Algumas vezes voltei a perguntar sobre a faculdade, percebi um desapontamento nas entrelinhas, mas ela não desistira. Finalmente no último fim de semana a formatura aconteceu e lá estava eu. Menos de 20 formando entre administração e pedagogia, um enorme orgulho mesclado de emoção refletido nas famílias e amigos presentes. Confesso que nem me lembrava como é a cerimonia dessas… O última que eu poderia ter assistido foi a do meu filho, mas ao terminar o curso ele foi estudar nos Estados Unidos e não acompanhamos as festas. Mas numa cidade pequena como Cabrália este é um momento emblemático.  Tão significativo quanto um casamento. Trajes de gala, entrada triunfal, mesa composta por professores e um representante do legislativo que escorregou no plural de cidadão. Flores, trilha sonora épica que às vezes encobria os discursos, protocolos, muitos flashes. Até o vice-prefeito na plateia.

Enquanto o evento acontecia fiquei tentando decifrar na expressão de cada formando os desafios passados para chegar até este momento. Não eram apenas jovens, mas homens e mulheres de todas as idades. Muitos foram levados até o palco acompanhados por vários membros da família, quase uma procissão. Outras de braço dado com filho, também com a esposa de um lado e a filha do outro, com o pai e a mãe, ou seja, chegavam com os que haviam impulsionado esta realização. Assistindo a tudo pensei no diferencial que estas 19 pessoas farão à cidade, mais do que na formação da massa crítica, me contento com o exemplo que darão no seu entorno.  Já falam em pós-graduação, mestrado, doc, pós doc, phd, enfim uma carreira acadêmica. Fico feliz em saber que com o estudo passam a ter mais consciência da função como profissionais e o crescimento na forma de analisar, refletir e tomar decisões. Volto para casa com o sentimento de que alguma mudança positiva pode acontecer em Cabrália e, apesar da crise na educação universitária em todo o país, tenho o foco no meu quintal.      

Entusiasmada com o que presenciei, fui em busca de mais informações para escrever este texto e, com enorme tristeza, soube que o curso acabou. Foram as primeiras e únicas turmas deste núcleo que, segundo um aluno, apesar do empenho de professores foi um fracasso. Aula 1 vez por semana, sem conteúdo online, apenas email e a maior parte da comunicação por whatsaap. Não haviam apostilas, nem cronograma do curso. Será que estas universidades franqueadas e que sabem cobrar muito bem oferecem cursos através do FIES do tipo “você brinca que ensina e eu brinco que aprendo”?

Pobre educação brasileira ! Não se pode brincar com a formação de profissionais. Estudo é coisa séria, um titulo acadêmico vale uma posição melhor num concurso, na pontuação de um caro público, mas não melhora o mundo. O que mais entristece é saber que tem muita gente querendo estudar, sonhando mudar de vida, fazer uma nova história para a família, criar um novo lastro de conhecimento e sabe lá o que vai encontrar pela frente… Aos formandos desejo sucesso, que este seja apenas o primeiro canudo de muitos e o próximo seja em melhor instituição.