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Quando se fala a verdade

Se há 4 dias uma mentira sobre o estado dos passageiros do avião em que estava a cantora Marília Mendonça enganou a imprensa por algumas horas, ontem a verdade mostrou que pode ser realmente a melhor notícia. Quando a jornalista Lilian Ribeiro abriu o programa “Em Pauta”, na Globonews, com lenço na cabeça e comunicou ao vivo que está tratando um câncer. foi um soco no estomago. Mais direta impossível, sem preâmbulos, sem mimi ou vitimização…Certamente não foi uma posição apenas da jornalista que no último ano começou a trilhar o caminho de apresentadora. O assunto deve ter sido discutido, estudado estrategicamente, debatido pela editoria da emissora… Percebo que essa atitude vem junto a uma postura que a Globonews vem tomando de “humanizar”, nem sei se este é o termo exato, os seus profissionais… Menos plásticos, mais orgânicos…Gente como a gente, só que com maior visibilidade…O mundo está aprendendo a ser verdadeiro, não temos tempo pra enganar …

Isso me faz muito feliz, confortável com minhas propostas, pensamentos…Esta manhã, conversando com a dona de uma loja de tecidos em Porto Seguro perguntei como estavam indo os negócios pré verão e ainda com pandemia.

“Com a pandemia as pessoas estão entendendo que não há tempo a perder… Ontem uma senhora com bastante idade veio procurar cortinas e achou os preços caros… Respondi: se gostou leve, aproveite que a vida é curta… Comprou duas, levou uma pra nora que cuida bem do seu filho…”

Saí da loja refletindo sobre a fala da empresária e a resposta da consumidora… Viver nunca foi tão desejado e necessário… Eu acredito que A Verdade É A Melhor Notícia, dei este título a um livro que escrevi com casos de assessoria de imprensa, e uso este pensamento no meu cotidiano… Se não quero falar, me calo… Mas não engano, e estou num momento de dizer tudo na lata… Não temo mais pelos meus atos… Acredito na transparência, em olhar o mundo sem medo, é o que temos pra hoje… Com isso, “se gostou leve que a vida é curta”…

“O homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar”

Durante um bom tempo ela ficou fechada. Quem andava pela vila encontrava a construção com a cruz no alto, as paredes amarelecidas, a porta com rachaduras, o mato crescido em lugar de jardim e o sino em silencio. A Igreja de Santo André, construída há pouco mais de 16 anos, estava abandonada. Não haviam missas, nem padres, nem leigos que pudessem fazer alguma celebração…   A pandemia fez com que o distanciamento aumentasse. Alguns fieis procuraram outras igrejas para suas preces, ou simplesmente desativaram o hábito de ir à missa…

Já passaram por nossa igreja noviços com poucas experiências, simpáticas freiras que faziam das missas uma alegre celebração, padres recém oficializados que apenas liam a liturgia sempre no mesmo tom, alguns experientes porém distantes dos fiéis, até que no início deste ano, com a chegada de um novo pároco à cidade de Santa Cruz Cabrália, Vila de Santo André passou a ter missas aos sábados às 9 horas, com o Padre Ivan e Padre Evanildo.

Nada na vida se compara à experiência, à paixão e ao conhecimento do que se faz. Não estou defendendo em causa própria, mas só o tempo nos dá a verdadeira medida do que acreditamos e professamos. O Padre Ivan, com seus cabelos brancos e boa quilometragem rodada em altares e pregações, tem a sensibilidade de perceber qual é a plateia que o aguarda, o que querem ouvir e o que ele deve passar…. Na missa de ontem, com a presença de alguns turistas e uma jovem que aos poucos está descobrindo a igreja, na Homilia, quando fez a pregação em estilo mais familiar explicando o tema evangélico, detalhou os momentos da missa e lindamente intercalou a Shemá Israel* (ouve Israel) constante do Evangelho** do dia com pensamentos de Charlie Chaplin – “o homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar” e Santo Agostinho – “é preciso compreender para crer, e crer para compreender ”.  Só não aplaudi por que não era o caso, mas me senti profundamente feliz…

Gosto do exercício da fé. Ir à missa me faz voltar à infância, uma relação de paz, sem medo do inferno nem promessas do céu, um ambiente para ouvir o coração, refletir, agradecer… Sinto um silencio em mim, algo que não explico, apenas vivencio e me emociono. Desde a chegada do Padre Ivan tem sido um grande deleite frequentar a missa… quanta diferença faz….

*Shemá Israel (Ouve Israel) são as duas primeiras palavras da Torá. 

** Evangelho Marcos 12:28-34 Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?
E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.
Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.
E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele;
E que amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios.
E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém ousava perguntar-lhe mais nada.

Foto da missa do sábado 30 de outubro…

Pelas ruas

Quando fiz 18 anos tirei carteira de motorista. Era um documento necessário assim como o RG e o CPF. Mas só fui dirigir quase aos 30 anos, quando comprei o primeiro carro. Dirigir, mais do que um meio de transporte, passou a ser uma boa companhia para pensar na vida. Saía à noite dando voltas pela Lagoa Rodrigo de Freitas, conversando comigo mesmo sobre os caminhos que deveria tomar. Era um tempo de pouca violência urbana, sendo ainda possível fazer essa loucura com segurança. Sem ar condicionado, eu dirigia de janelas abertas fumando e foi num desses noturnos passeios, ouvindo Milton Nascimento no toca fitas, que decidi passar um tempo nos Estados Unidos: “vou me encontrar/ longe do meu lugar/ eu, caçador de mim”.

Em Portugal saía dirigindo o Toyota Yaris adesivado de Rock in Rio-Lisboa rumo à Setubal. Depois de 40 km, tomava a direção da Serra da Arrabida para me deliciar com a paisagem mágica do Parque Natural da Arrabida. Formado por terrenos acidentados na margem norte do estuário do Rio Sardo, o parque tem características incríveis em uma área de preservação de fauna e flora. Eu estacionava o carro, sentava numa murada e ficava olhando aquele cenário incrível que escolhi como meu lugar favorito em Portugal…

Estes e outros pensamentos me vieram à lembrança no fim de semana que andei de carro por São Paulo. Durante o dia, a paisagem urbana que não via há quase 2 anos, me revelou as empenas pintadas dos prédios como museus a céu aberto, a miséria sob os viadutos, os pedintes nos semáforos…. Um mundo feio e triste que a pandemia e a política criaram nestes tempos sombrios. À noite, com um amigo à caminho de um restaurante, circulando pelas ruas de casas e prédios elegantes, as mazelas da cidade foram encobertas pela trilha sonora do spotify. Que prazer ver a noite na grande cidade, o carro rodando alheio a garoa e nada me traz mais lembranças do que canções. Sou eclética. De Inezita Barroso a Glenn Miller, tudo me toca… De todas as décadas que vivi, tenho registros de emoções pontuados por músicas. E isto é tão forte que estou bordando frases musicais em tecidos que irão compor uma segunda colcha de retalhos… Pois a primeira já está pronta e se quiser ouvir, segue o link

  https://open.spotify.com/playlist/7FTPgzLGDzcWjlWxVgwLiP?si=6a7050b10d7a4f14  

Maid, você já assistiu ?

Tenho me permitido dias livres, como jamais pensei… É um grande esforço me entregar ao ócio. Vou aprendendo aos poucos, quando consigo ficar algumas horas na rede sem me convocar para alguma tarefa … Tarefas que ninguém me exige, eu me imponho, que variam de fazer bonecas, bordar e costurar colchas, escanear fotos, até resolver questões complexas da comunidade onde moro e sair feito Dom Quixote contra os moinhos de vento…

No exercício do fazer apenas para mim, sem qualquer obrigação, tenho encontrado ótima companhia nas séries da TV… E foi assim que em dois dias chuvosos me dei ao luxo de maratonar “Maid”, uma nova série do canal Netflix que me valeu como ótimas sessões de terapia. Voltei ao tempo em que morei nos Estados Unidos com um filho pequeno… Não trabalhei como empregada doméstica, mas fui a minha própria “maid” limpando, lavando e passando, uma rotina que aprendi no grito… Não precisei contar com o suporte financeiro do governo, apesar de ter um social security, o cpf local que mantenho até hoje, mas tinha a culpa de estar como mãe solo e imigrante… Assim como Alex, a protagonista, eu também tive uma  “Regina” na vida, uma amiga fundamental que me ajudou a desenrolar trâmites legais e burocráticos, generosa ao ponto de abrir o seu armário e me fazer vestir como uma americana, me integrar na sociedade… 

“Maid” me fez lembrar os 30 minutos que andava na neve até a estação de trem, as moedas contadas para o mercado, a vendas dos anéis para comprar uma árvore de Natal e roupas de inverno…

“Maid” me fez lembrar os sapos que engoli e cuspi todos, um a um, no final da série tomando um copo de vinho… Sem culpa, sem engolir o choro… Deixei derramar livremente, bem mais feliz comigo, que estou aprendendo a colocar limites ao que não me convém e a dizer sim para mim…

Tem dias…

Tem dias que me sinto com 18 anos. A mesma curiosidade, uma certa ingenuidade juvenil com as promessas do mundo, um desejo louco de novas descobertas…Penso que tenho todo o tempo, valem os riscos… Em outros me sinto na maturidade dos 40, mais experiente arriscando na medida de onde a mão alcança, sabendo que ainda tenho muito à frente… Mas tem dias, como hoje, que acordo com 100 anos carregando o mundo nas costas. Um olhar de quem já viu tudo, uma canseira dos fatos que se repetem, completo “déjà vu”… Melhor não me perguntarem se está tudo bem, vá que eu repondo…  

E por estar num dia assim, fui para a varanda cercada de árvores e deitei na rede. Abaixei o som do celular, deixei o silencio entrar e fiquei simplesmente sem nada pensar. Nem no passado nem no futuro. Quieta. O mundo podia parar em definitivo. Apenas a brisa embalando a rede, quase permitindo a alma sair do corpo e voar… Viver o momento, mesmo que pequeno, sem qualquer obrigação … Nem mesmo responder o que quero para o almoço…

Foi neste vai e vem na rede, quase cochilando, que senti o sol ser encoberto por uma nuvem e começou a entrar um vento leve… Logo vieram os primeiros pingos, depois uma chuva sem muita consistência destas que anunciam sol em breve, e foi quando vi um passarinho voar bem perto buscando abrigo em uma árvore… Nunca duvidei que é pra lá que os pássaros se refugiam na chuva, mas nunca tinha visto a cena, talvez por estar mais preocupada em me proteger, ou fechar portas e janelas… Da rede eu via o sanhaço azul quietinho, se equilibrando num galho fino, porém forte o suficiente para aguentar seu peso de menos de 40 gramas. Era uma cena apenas para mim. Ele no seu galho, eu na minha rede, também me equilibrando no peso dos meus 100 anos, e isto bastou para me sentir novamente voltando aos 18, saciando a curiosidade de quem já viu muito, mas que ainda tem o que apreciar, nem que seja apenas a maravilhosa natureza que me rodeia..    

Entre Aroreiras e Aracuans

A casa era assim há 17 anos…

O dia estava clareando e os aracuans faziam um grande alvoroço no jardim. Eles são barulhentos e ainda me espanta como tão grandes se equilibram na aroeira. Ainda na cama fiz as preces que estão no app do celular, tomei banho de água fria para não me resfriar, coloquei a meia e um um lenço no pescoço para me aquecer, e pouco antes das 7 horas saí para o pilates. Encontrei o vigia noturno da pousada vizinha que comentou sobre a chuva a noite. Na sequência passou o pintor de paredes dando carona para o pedreiro sentado no esquadro da bicicleta, e ambos acenaram sorridentes. Iam para a mesma obra e me encantei com a solidariedade.  A professora de pilates chegou atrasada pois perdeu a balsa, fui adiantando os exercícios e na volta encontrei no portão de casa a moça que veio entregar o pão integral que encomendei sábado no whatsaap e paguei com pix. Estas cenas do cotidiano em que o “pouco urbano” e o tecnológico se misturam nas primeiras horas deste dia tão especial, resumem o que tem sido a minha vida desde que aqui cheguei há exatos 17 anos.

No dia 9 de agosto de 2004 também estava nublado. A casa fechada há algum tempo tinha mofo nas paredes, mas estava quase exatamente como meu irmão deixou 3 anos antes. Ainda podia sentir sua presença. E, mesmo com as pequenas intervenções que fiz, ele ainda se faz sentir. Quer na foto na porta de entrada da varanda, quer nos móveis, quer na minha gratidão em forma de preces todos os dias…. Acho que ele sabia muito bem o que estava fazendo quando me apresentou a este lugar…. Tornei-me parte dessa comunidade, fiz muitos amigos e quando vejo que esta pandemia trouxe tantas pessoas em busca de um lugar legal prá morar só peço que conservem esta simplicidade, pois é o que encanta os turistas que são a única fonte de renda deste povoado…

Não me seduz mais o Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa ou Nova York, cidades onde vivi e fui muito feliz. Meu mundo é aqui, no meio de aracuans e aroeiras, aves e árvores que aprendi a amar…   

Aracuan – A ave mede de 40 a 60cm de comprimento e pesa entre 500 e 600 g. Caracteriza-se pelo padrão salpicado do peito, ainda que a cor da plumagem varie de acordo com a subespecie . Juntam-se entre outubro e novembro, e fazem ninhos únicos a aproximadamente 2 metros do solo.

Aroeira – Aroeira-vermelha, aroeira-pimenteira ou poivre-rose são nomes populares da espécie Schinus terebinthifolia, árvore nativa da América do Sul da família das Anacardiaceae. A aroeira também é uma planta medicinal que pode ser utilizada como remédio caseiro para tratar doenças sexualmente transmissíveis e infecções urinárias em mulheres.

Medalha de Ouro


Talvez aos 30 ou até aos 40 anos eu não tivesse o olhar que tenho hoje sobre a minha geração. Tinha muita pressa em viver todo o frescor de resto de juventude e devo ter deixado de perceber muito do que aconteceu no meu entorno. Às vezes alguém lembra alguma história em que andei metida e, espantada, comento com meus botões: e não é que eu fiz isso ?? A vida passou rápido…
Mas aos 70, com mais tempo para reflexões apesar da vida ser tão corrida mesmo fora dos grandes centros, talvez pelo fato da maturidade encher mais o coração de carinho e encantamento com o que me cerca, tenho me sentido muito orgulhosa dos feitos de algumas amigas com quem compartilhei momentos profissionais incríveis e se tornaram parceiras “ad eternum”. Às vezes é uma que vem com um livro, outra com uma boa prosa, mas esta semana Anna e Leda brilharam…   Na verdade, elas vêm brilhando há algum tempo. Se reinventaram quando saíram das redações e da frente das câmeras convencionais, criando seus próprios espaços. Anna fez um portal, Leda um canal no youtube. Não ficaram reclamando da falta de oportunidade, fizeram as suas. Muitas vezes me espelhei nelas talvez por termos tantas similaridades: somos jornalistas, capricornianas, mães de apenas 1 filho, boas de garfo e copo, otimistas, bem-humoradas, sem medo de ser feliz e apaixonadas pela vida.  Se juntássemos nossas histórias daria um livro e tanto, quem sabe uma peça de teatro ou até uma mini série.
Mas voltando aos feitos da semana, as duas muito competentes em suas entrevistas no Instagram, receberam aplausos e elogios dos seus convidados, figuras públicas da maior respeitabilidade: Leda com Ney Matogrosso e Anna com Ciro Gomes. Que qualidade de conversa !!  Nas duas noites em que assisti aos encontros, fui dormir com a alma lavada, um enorme orgulho da minha geração e principalmente dessas duas queridas… Nestes tempos em que tudo se julga, ataca, incrimina e cancela, são muitos os entrevistadores que conduzem as conversas com claros interesses políticos e corporativos. A função de informar permitindo que quem está do outro lado forme a sua opinião, já não tem qualquer relevância. O destempero é coletivo e quem ousar sair da panelinha, também passa a ser atacado e cancelado…  Imagina então quem se reinventou depois da aposentadoria e vem provando que está firme encarando todos os tempos e quantos desafios mais encontrar pela frente…
Às vezes tento abstrair e imagino o que as pessoas pensam ao me ver criando e tentando implementar projetos num tempo em que se acredita que na minha idade o caminho é para uma aposentadoria suave, com caminhadas na praia, pilates, leitura na rede, série nas TV, um crochê aqui, uma boneca de pano ali… Percebo isso em várias reuniões que participo, tanto no Conselho de Turismo de Santa Cruz Cabrália,  onde estou vice-presidente, como pedindo apoio para um projeto de gastronomia ao gerente regional do Sebrae, ou reunida com um grupo de profissionais jovens da MAPS, uma empresa de projetos sustentáveis que está se estabelecendo na minha vizinhança. Em todas as situações começam formalmente me tratando com “senhora” e com o desenrolar da conversa consigo mostrar que, na verdade, a única diferença que temos é que já vivi mais tempo, vi mais coisas, tenho um currículo mais gordinho…
E sei que isso também deve estar no desafio que a Anna e Leda passam a cada dia frente a uma nova entrevista… Mas como capricornianas teimosas, não desistimos… Continuemos sorridentes e otimistas como este registro que a Claudia Schembri fez há mais de uma dezena de anos quando vocês vieram me visitar na Bahia… Vocês são medalha de ouro na maratona da vida e, já que o assunto é jornalismo, como diria o inesquecível Ibrahim Sued, os cães ladram a caravana passa, sorry periferia e ademã que vamos em frente…    

De tudo fica um pouco

Perdi uma amiga há algumas semanas…  Perdi alguns amigos nestes últimos anos… Tenho perdido irmãos, parentes, mestres, mas não perdi as nossas histórias. As memórias estão mais vivas do que nunca…  No tempo em que uns vão outros chegam…  Ganhei dois amigos numa carona de carro da Bahia para Minas Gerais…  Não fiquei na estrada fazendo sinal, mas o destino deu um jeito e nos aproximou… Foi uma viagem inesquecível, quase dois dias de conversas tendo os cenários das estradas da Bahia, Espirito Santo e depois Minas Gerais… Há quanto tempo eu não viajava por estrada, só em sonhos…

Ontem resgatei uma amiga que não via há muitos anos…. Acordei pensando nela sem qualquer razão especifica…. Do nada o seu nome veio em meio a uma conversa, e aí puxei um rosário de boas lembranças…. Ela não está nas redes sociais, mas foi através de umas dessas redes, que unem e separam, que dei uma grande volta e a encontrei. Às vezes acho que tenho alma de detetive, mas é o hábito da repórter. Cheguei em boa hora no encontro, ela anda tristonha pois recentemente perdeu o filho caçula. Já havia perdido uma filha…E são nessas conversas, mesmo que curtas, que percebo o quanto podemos não só fazer pelos outros, como também por nós mesmos. É passando a vida em revista que damos mais valor à nossa caminhada, vemos muito mais conquistas do que derrotas e, como na poesia de Drummond, “de tudo fica um pouco”…

Nestes tempos longe do mar, saudades da casa e da família, reconhecendo as Minas Gerais aonde nasci e tão pouco vivi, estou cercada pelas montanhas da Serra do Rola Moça, em dias de sol e noites frias, acolhida na casa de amigas de sempre, no meio de muitas risadas, contando e ouvindo histórias, cozinhando, lavando, mexendo no jardim, fazendo crochê, rezando, vou me renovando e aprendendo que muito mais tem para chegar, ninguém parte, apenas muda de lugar…

Para Claudia, Du, Tarcísio e Tininha….

Na balsa

Ter que atravessar um rio por balsa para ir ao banco, à farmácia, ao correio, ao açougue, a um mercado com mais variedades, faz parte da minha vida… Durante a travessia com pouco mais de 15 minutos, somada à espera na fila, o que dá quase meia hora, é possível fazer uma porção de coisas, desde encontrar vizinhos e saber das novidades da região, colocar a correspondência em dia e até usar o bankline. Ontem, voltando do mercado, enquanto esperava a balsa, assisti no Instagram a live de uma amiga e agradeci por este presente…  A pandemia que transformou tantas vidas, também marcou a desta amiga que conheci como super executiva de marketing e turismo, praticante de yoga, que se descobriu com uma doença complicada. Passou por tratamento pesado e, na recuperação, quando pode tomar banho de mar, escolheu ficar em minha casa… E voltou diversas vezes…

Se encantou tanto por este povoado que escolheu aqui se casar num lugar lindo, na Ponta de Santo André, à beira do rio. Mas o planeta entrou em crise e ficou transferida a cerimonia para alguma data quando voltarmos à uma outra realidade. Tati Isler, CEO da Ti Transforma e da Ti Comunicações, aproveitou que o mundo parou e, através de lives, começou a compartilhar a razão da sua grande transformação pessoal com a prática da meditação. A executiva ganhou um sorriso tranquilo, um discurso suave e simples se mostrando como Monja Ishaya, professora da meditação Ishaya, uma palavra em sânscrito que significa “para uma consciência superior”, aberta para quem busca paz interior, felicidade, libertação do estresse e uma experiência viva de amor, presença e unidade.

E foi assim, esperando a balsa, que assisti a mais uma live da Tati, uma série que tem como interlocutora a jornalista e escritora Milly Lacombe @mlacombe, cujo tema foi  “agradecer”… Muito mais do que exercer o sentimento de gratidão, agradecer literalmente a tudo o que acontece na vida, o que é bom e o que nem tanto é… Me lembrei que nos anos 80, morando em Nova York, fiquei encantada com os pins (broches) que muitas pessoas colocavam na roupa às sextas feiras com a sigla TGIF  “Thank God It’s Friday” (“Graças a Deus é Sexta-Feira”), celebrando o último dia de trabalho/escola, um exercício quase que coletivo de dar graças. Foi na América também que entendi a força do Thanksgiving, o dia de Ação de Graças, celebrado na última quinta-feira de novembro, o maior feriado para os americanos, em honra ao resultado próspero da primeira colheita dos imigrantes ingleses na nova terra.  E fico pensando como na cultura brasileira exercitamos tão pouco o ato de agradecer. Em 1972, quando Roberto Carlos compôs e gravou “A Montanha” – Por isso eu digo: Obrigado Senhor por mais um dia, Obrigado senhor que eu posso ver, Que seria de mim sem a fé que eu tenho em Você. – , a canção estourou nas paradas como se houvesse inconscientemente um desejo de gratidão.  A música foi vertida para diversos idiomas, teve centenas de regravações e deve ainda continuar sendo executada nos lugares mais improváveis do planeta…  Enquanto por aqui temos que continuar aprendendo o que é bem simples…. Basta olhar no entorno e fazer mentalmente uma lista de nomes, pessoas, locais, coisas que você quer agradecer e sair vibrando positivamente…. Assim foi como entendi assistindo a live da Tati enquanto atravessava na balsa… Comecei a praticar hoje e pode saber que você está na minha lista…

Para quem quiser conhecer mais : https://www.thebrightpath.com/pt-br/

Como nascem os desafios…

Indicados por uma amiga, o casal mineiro chegou para passar 2 semanas na Casinha Amarela. Ela em home office, ele de férias. Precavidos com o vírus, vieram de carro. A Casinha Amarela é um dos três módulos que compõem o espaço de bem receber que tenho no mesmo terreno da minha casa. Originalmente era um chalé transformado numa casinha para hospedar um poeta, também mineiro, que por aqui ficou quase 2 anos. Nestes tempos de pandemia, passou a ser um lugar bem disputado, adequado para duas pessoas, tem o conforto de um quarto conjugado à uma sala, um bom banheiro, uma pequena cozinha e varanda. Acesso independente, quando desejado pode contar com serviço de camareira e café da manhã, direito a usufruir do jardim, piscina, chamego dos cães e algumas vezes da conversa com “a anfitriã” que, quando está inspirada, é boa para contar histórias…

Rapidamente Rita e Alexandre criaram uma rotina. Tomavam o café antes das 8 para que ela tivesse tempo de estar à postos nas extensas reuniões online, e ele, em férias, ia caminhar na praia de onde voltava com uma sacola repleta de restos plásticos trazidos pelo mar. A mesa da piscina se transformou em base de trabalho que Rita ia mudando de lugar conforme o sol, percorrendo todo o deck ao longo do dia. Três vezes por semana o dia começava mais cedo. Eles faziam no jardim exercício com pesos e outros instrumentos.  Até parecia que estavam numa academia. No meio da segunda semana, já anunciando a partida, consultaram sobre a possibilidade de estender a hospedagem. Ele voltaria a trabalhar online e poderia ser da Bahia, só faltando o notebook. Como os astros conspiram a favor, uma amiga estava vindo de carro de BH e poderia trazer o equipamento de trabalho…. Bom, de 2 semanas ficaram 5, e aí uma amizade foi se construindo… Fizemos churrasco, fomos ao mercado, ele fez um pão que é uma deliciosa receita da família, tomamos cerveja na piscina jogando conversa fora e no café da manhã havia sempre alguma história. Na despedida ofereci o melhor da gastronomia de casa: um peixe feito pela Lelê.  Sábado eles partiram, sem abraços, com um adeus à distância, máscaras no rosto e ficou esta carta…

Que me perdoem os monólogos virtuais, como whapps e e-mails sem vida e afins, que até agilizam, fazem links mas não nos envolvem. Gosto dos sotaques, entonações, suspense, surpresas, vivências gravadas em histórias. Gosto da chance de tirar a limpo, voltar ao assunto, revirar como num livro, uma página que passou e deixou saudade, reviver o texto, sentir de novo uma palavra que foi perdida…

Toda conversa, toda história compartilhada, tem vida, tem personagens principais mas tem coadjuvantes, pequenos detalhes que só se expões em uma narrativa, onde existe sinceridade e instiga curiosidade e atenção.

Léa, foram assim nossas conversas e seus livros, como especiais foram suas histórias… deleite e ensinamentos!

Foi assim “Leia me Penteado”, uma vivencia inspiradora, cultura, passagens de vida, aprendizados… efervescência de ideias e exemplos… apresentando fatos e pessoas reais, de caminhadas também surpreendentes.

Espero não ter fim essa nossa conversa…

Carinho e admiração,

Alexandre Moreira

Verão maravilhoso, março 21

E esta carta era o empurrão que faltava: começo hoje a escrever minhas histórias… Vem aí um novo livro… Obrigada Rita e Alexandre… Espero vocês em breve, enquanto isso, escrevo …