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Parabéns Leny Andrade

Em outubro de 1983 passei a madrugada andando pelas ruas de Manhattan esperando o jornal The New York Times ir para as bancas.  Não andava sozinha, estava com a Lali Jurowski e o Zé Luiz Oliveira esperando para ler a crítica do show de Leny Andrade no Blue Note… Foi o Zé quem fez o contrato da Leny para seu primeiro show na Big Apple, a Lali minha amiga era produtora e intérprete da cantora e músicos, e eu tinha intermediado com a agencia de turismo aonde trabalhava o patrocínio da hospedagem e passagem aérea para a “brazilian jazz singer” conquistar a América.  Lembrei desses momentos com a notícia de que hoje Leny está fazendo 79 anos…

Ao longo dos anos ouvi Leny nas noites do Rio, ela tocou (e toca) na playlist de meus amores, principalmente os boleros… Há alguns anos reencontrei Leny morando no Retiro dos Artistas. Lembramos esta temporada que não mudou apenas a sua vida, mas a minha também.  Ela não sabia o quanto tinha sido importante quando uma noite no hotel em Manhattan, se preparando para o show, falávamos sobre crenças e ela me deu um livrinho de orações diárias… Durante muitos anos achei que o tinha perdido em tantas mudanças, até que ressurgiu numa pasta de documentos antigos num momento em que eu precisava ter fé. Desde então ele está na minha mesa de cabeceira…

Feliz aniversário Leny querida… que os anjos, arcanjos, elohims e serafins sempre estejam em seu caminho…

By John S. Wilson

  • Oct. 2, 1983

JAZZ: THE BRAZILIAN SINGER LENY ANDRADE

Leny Andrade, who’s being heralded as ”Brazil’s No. 1 jazz singer” at the Blue Note, where she is making her American debut through tonight, is a short, plump, round-faced woman who looks somewhat like Mildred Bailey and who does scat singing with an agility that approaches Ella Fitzgerald.

But in a program that is rhythmically focused on the bossa nova and on the livelier, more headstrong samba, and sung, with one exception, in Portuguese, Miss Andrade is most impressive in a song that is totally removed from jazz – an emotional and moving ballad in the Piaf tradition, ”Cantador.”

Miss Andrade sings it in a darker, softer voice than Piaf’s, with a dramatic effect that comes through even to a listener who doesn’t understand Portugese.

Her jazz talents come out in full force when her scat singing is done in challenging exchanges with the trumpeter and trombonist Claudio Roditi and the excellent quartet that he leads as her accompaniment – Aloisio Aguiar, piano, Lincoln Goines, bass, and Portinho, drums.

Possibly in an attempt to get around her language limitation, Miss Andrade is depending too much on scat singing, which soon becomes monotonous, particularly when she has another side to her singing that indicates a much wider vocal scope.

Autumn leaves, fora do tempo

Os tempos estão estranhos… Não falo de política, mas como a natureza está se expressando .. Depois de tanta chuva em novembro e dezembro, o outono chegou mais cedo com a profusão de folhas das árvores cobrindo o jardim da minha casa… Mas não é uma questão pessoal das folhas comigo… A mangueira linda na casa de amigas simplesmente ficou pelada em poucos dias e precisaram cortar seus galhos. Doeu no coração ver a árvore frondosa se despindo. Hoje é um monumento abstrato no jardim e todos os dias as proprietárias buscam esperançosas uma folhinha nascendo…. Uma árvore também se derramou no meu jardim e um lindo coqueiro cica foi coberto por fungo, necessitando de uma poda radical. Estou tratando o que sobrou, quem sabe se regenera… Ando pelo jardim fazendo croc croc nas folhas, nem tenho mais espaço na composteira para tantas …. 

Semana passada tropecei num vaso de plantas recém colocado na calçada em volta da minha casa. Desde então, de forma mais profunda do que simplesmente algo estético ou o imaginário da cantiga de roda onde Terezinha “de uma queda foi ao chão”, tenho refletido o que devo retirar do caminho. A vida dá sinais quando algo não vai bem, assim como a natureza.  Sem folhas para me despir, me resta o teclado de um computador e uma tela para rever minha trajetória. Acho que é tempo…

Começo aqui o que não sei ainda aonde vai dar, quem sabe num livro…

Opinião 1964

Em 1964 eu tinha 15 anos e uma sorte imensa. Alexandre, meu primeiro namorado, vinha de uma família que tinha por hábito ir ao teatro e, em dezembro daquele ano, me convidou para assistir “Opinião” num teatro ainda em fase de acabamento na rua Siqueira Campos em Copacabana.  Foi um soco no estômago. Eu era uma garota da Tijuca que nunca tinha ido em um teatro de verdade – não que este fosse – e ontem, ao terminar de assistir ao documentário sobre Nara Leão na Globoplay, percebi como este encontro mudou minha vida para sempre.  O pai do Alexandre era general reformado, família do Rio Grande do Norte. Eles tinham alguma referência com o João do Vale, e creio que foi isso que nos levou a assistir ao espetáculo. O impacto foi tão grande, tanto para mim quanto para o Alexandre, sua irmã Ana Lucia e o namorado Marcos, que voltamos outras vezes inclusive para assistir Suzana de Moraes na curta temporada em janeiro de 65 e depois para aplaudir Maria Bethânia.

O namoro terminou, a amizade permaneceu pra sempre, mas aquele espetáculo mudou a minha vida. Eu fiquei completamente comprometida com a música, com a cultura, com a arte e com a política do país. Vivíamos em uma ditadura e eu pouco tinha conhecimento. Foram aqueles trechos das músicas, os textos do Armando Costa, Paulo Pontes, Oduvaldo Vianna Filho, a direção musical do Dory Caymmi e a força da direção geral do Augusto Boal que viraram minha cabeça.  “Carcará pega pra matar e come”, “podem me prender podem me bater que eu não mudo de opinião”, “a peba na pimenta”, “acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções”, “tristeza não tem fim, felicidade sim” que me fizeram desistir de estudar o curso técnico de Máquinas e Motores na Escola Técnica Nacional. Fui para a área de letras fazer o 2º grau Clássico quando conheci Ângela Porto Carrero, uma outra história que me abriu ainda mais portas nos encontros na Jaceguai 27 onde até me tornei amiga do João do Vale.

E sem maratonar, saboreando em pedaços como uma deliciosa torta Banofee, fui assistindo ao documentário passando em revista minha trajetória nos 5 episódios. Trilhas sonoras, estética, comportamento, modismo. Quase 60 anos que vivi estão lá.

Porém, mais do que ser uma obra importante para a música, a política, os costumes e a cultura do país, mais do que rever trechos do Opinião revendo minha ainda adolescência já madura, revi a minha vida ao sabor de Nara e seus amigos, sendo que muitos foram e continuam sendo meus. O jargão “à frente do seu tempo” é pouco para definir Nara e suas posturas. Ela era iluminada. E este foi o sentimento que tive na única vez que a entrevistei, em junho de 1981, para o Segundo Caderno de O Globo onde contava sobre o lançamento do disco “Romance Popular”. Depois de 6 anos Nara trazia um repertorio quase inédito apresentando Fagner e Fausto Nilo, se lançava como letrista em “Cli,Clé, Clô” e me falava sobre seu trabalho e planos. Tudo muito informal, nós duas sentadas no degrau do portal da sala voltada para o jardim do apartamento térreo na Rua Visconde de Pirajá de onde podíamos apreciar os muitos pés de goiaba, romã, carambola, cana de açúcar e banana, presentes do amigo Rubem Braga, também morador do bairro. “Um disco com alto astral”, assim ela definia o trabalho que levou 9 meses para ficar pronto e sua alegria ao se ver na capa mais bonita do que se achava. Conversa de mulheres passando dos 30, lembro deste sentimento.  A calma na conversa, um jeito equilibrado, tranquilo, audacioso sem alarde… E foi isso que concluí ao assistir ao documentário: Nara nunca alardeou que faria uma revolução, simplesmente fez… Não teve marketing, estratégias, modismos, posições… Era coração, intuição e verdade…

Nunca mais esquecerei Opinião e sou eternamente grata ao Alexandre, meu primeiro namorado…

Regenerar

Às 5 da manhã ao olhar o celular me surpreendi com as tantas mensagens de amigos querendo saber como estou… Sei que as notícias do sul da Bahia são aterrorizantes. Acompanho os fatos, chove desde o início de dezembro, as ruas da Vila de Santo André são uma coletânea de poças, o rio Acuba que estava seco há anos voltou a ter água, assim como um dos seus pequenos afluentes que servia de depósito de folhas de coqueiro e dendê subiu o degrau da varanda da casa de uma amiga. As notícias exibidas não são do meu sul da Bahia…  Por enquanto tudo bem por aqui. Santa Cruz Cabrália está com muita sorte, é isso que mais se escuta na rua.

Aproveito a estiagem, vou à Cabrália. Na balsa encontro Maria Nilza, feliz pelo rumo que sua vida está tomando, virou uma marca e contou que cada vez precisa ter menos. “A chave de uma casa, um cartão de crédito e uma mochila, é só isso que preciso pra ser feliz…Menos é mais”. Fico refletindo a sabedoria desta mulher e quem não conhece a trajetória sugiro a leitura rápida do perfil que escrevi há algum tempo para uma revista da região e republico abaixo.  

Depois dos 60 anos há muito mais para se ver de forma divertida… Relembrando Elis Regina em uma de suas últimas entrevistas “hoje a única coisa que me tira sono é febre de criança”…. Como não tenho criança, transfiro a preocupação para os cães, hoje doentes, razão para a travessia de balsa em busca dos remédios… Passo no correio para ver o que tem na caixa postal e encontro um livro, muito adequado a estes tempos que, como profetiza um amigo, “o sertão vai virar mar”.

O livro “A Arte de Guardar o Sol” de Walter Steenbock, fala sobre os padrões da natureza na reconexão entre florestas, cultivos e gentes. Como escreveu a querida Carla Mott Ancona em um bilhetinho que acompanhou o presente “é para lembrar que sempre estaremos interconectados. Que possamos seguir compartilhando nossos sonhos na eterna busca de novos horizontes para a regeneração da Mãe Terra”… Exatamente o que estamos precisando, regenerar as vidas, inclusive as nossas… E é por aí que andam meus pensamentos nestes últimos dias 2021, um ano difícil, mas com belos encontros e ensinamentos… Quero fazer menos barulho, ser mais brisa do que tempestade.. E que a leveza em 2022 nos acompanhe contrabalançando as previsões mais tenebrosas…

MARIA NILZA

Por Léa Penteado.

O aroma do feijão cozinhando no fogão a lenha da casa da avó ainda acompanha Maria Nilza. Não é à toa que o restaurante que tem há 16 anos na praia do Guaiú tem seu nome acrescido de “no fogão a lenha”, a sua marca registrada.  Se engana quem pensa que ela cresceu na cozinha. Fugiu o mais que pode do fogão. Morou em São Paulo e descobriu a maravilha de uma grande capital. Foram 12 anos entre idas e vindas para Vitoria da Conquista onde a família se instalou. Retornou para conduzir com a irmã um hotel e foi um choque cultural. Mas encarou o desafio que lhe deu a experiência de recepcionar clientes. O trabalho era muito, mas compensava financeiramente. A convite de amigos que tinham uma fazenda em Porto Seguro conheceu o litoral e quando viu o mar foi amor à primeira vista.  Durante um bom tempo se dividiu entre as duas cidades e tudo mudou quando foi convidada para cuidar do receptivo do restaurante A Fronteira, o maior na Passarela do Álcool. Apaixonada pela região, num dia de folga foi expandir seus limites e no caminho para Belmonte pegou uma carona que parou no Guaiú. E foi ali que conta ter sentido uma energia diferente que vinha no cheiro de terra molhada e provocou um estado de êxtase. Agradeceu a carona e ficou no local mesmo sem saber como voltaria para Porto Seguro. Ali começou a história de vida e amor que uniu seu nome ao povoado onde construiu sua marca. Alugou uma casinha para onde fugia nos dias de folgas, depois começou a fazer compotas com frutas da região e pensando mais longe, ao perceber que havia apenas um restaurante que nem sempre estava aberto, resolveu fazer o seu. Alugou uma casa maior, fez um puxadinho para o restaurante com duas mesas e um balcão. A experiência na cozinha era pouca, mas o feijão no fogão a lenha, o arroz soltinho, um frango à milanesa empanado com queijo ralado, farofa de cenoura e um molho de tomate com petit pois encantou o primeiro cliente, um vendedor de motores para barcos que passava pela região e foi embora falando maravilhas. Mandou muitos clientes, assim como amigos de Porto Seguro que na base da boca a boca foram promovendo os seus sabores até estourar em 1996 numa reportagem na revista Veja sobre o litoral brasileiro e referenciada como a “pérola baiana”.  O restaurante pé na areia, num lindo visual da praia do Guaiú, aberto de 3ª a domingo das 10 da manhã às 16hs, é referência nos guias de turismo, recebe visitantes de todo o mundo e os recepciona com o imenso sorriso e simpatia. Todos os detalhes da decoração, como o banheiro que é uma atração à parte, são pensados por ela. A equipe é formada por moradores do Guaiú e na cozinha ainda tem o fogão a lenha. No cardápio não pode faltar a carne de sol e o arroz de polvo, a resistência desde que tudo começou. 

Feliz Natal

O sol entrou em capricórnio esta semana, e para mim diz muito…. Aguardo um brilho lá na frente depois do dia 3 de janeiro… Mesmo antes de ouvir falar de astrologia, o mês de dezembro já me soava estranho. Era uma vontade para que passasse rápido e logo chegassem as férias que me levariam para o Rio de Janeiro num circuito de hospedagens nas casas das madrinhas e da avó. Era uma festa arrumar a mala com roupas novas, viajar no ônibus da Viação Cometa para encontrar a família, os tios e primos, ir à praia, sentir o verão carioca. Picole com pedaços de coco num carrinho sem marca, deixar a barriga de fora, andar descalça, comer manteiga com sal, ouvir o sotaque chiado dos cariocas…  Era entrar o ano de alma lavada e com muitas histórias para contar…

Vivi esses estranhos dezembros, esperando janeiros, de muitas formas. Comprando presentes, casando e descasando, arrumando a festa para a família, escondendo presentes para Papai Noel chegar em grande estilo, fechando projetos, fazendo promessas, andando na neve, chorando, vendendo anéis para comprar uma árvore de Natal, eram 30 dias onde que cada um que passava dava um alivio, um a menos, como uma gincana que teria fim…  Isso vai acabar, falta pouco…. Ainda continuo assim vivendo esses dezembros…. Hoje às 5 da manhã ao acordar com mais um dia de chuva – raras exceções têm mais de um mês que está assim – pensei em quantas coisas gostaria de fazer e não posso. Decidi ficar quieta, sem desespero, esperar dezembro passar, a chuva diminuir e dias melhores virão. Afinal eles sempre vieram!  E como escreveu um amigo “A alegria é simples. Viver também. Por que complicamos? ”

Feliz Natal…

Quando se fala a verdade

Se há 4 dias uma mentira sobre o estado dos passageiros do avião em que estava a cantora Marília Mendonça enganou a imprensa por algumas horas, ontem a verdade mostrou que pode ser realmente a melhor notícia. Quando a jornalista Lilian Ribeiro abriu o programa “Em Pauta”, na Globonews, com lenço na cabeça e comunicou ao vivo que está tratando um câncer. foi um soco no estomago. Mais direta impossível, sem preâmbulos, sem mimi ou vitimização…Certamente não foi uma posição apenas da jornalista que no último ano começou a trilhar o caminho de apresentadora. O assunto deve ter sido discutido, estudado estrategicamente, debatido pela editoria da emissora… Percebo que essa atitude vem junto a uma postura que a Globonews vem tomando de “humanizar”, nem sei se este é o termo exato, os seus profissionais… Menos plásticos, mais orgânicos…Gente como a gente, só que com maior visibilidade…O mundo está aprendendo a ser verdadeiro, não temos tempo pra enganar …

Isso me faz muito feliz, confortável com minhas propostas, pensamentos…Esta manhã, conversando com a dona de uma loja de tecidos em Porto Seguro perguntei como estavam indo os negócios pré verão e ainda com pandemia.

“Com a pandemia as pessoas estão entendendo que não há tempo a perder… Ontem uma senhora com bastante idade veio procurar cortinas e achou os preços caros… Respondi: se gostou leve, aproveite que a vida é curta… Comprou duas, levou uma pra nora que cuida bem do seu filho…”

Saí da loja refletindo sobre a fala da empresária e a resposta da consumidora… Viver nunca foi tão desejado e necessário… Eu acredito que A Verdade É A Melhor Notícia, dei este título a um livro que escrevi com casos de assessoria de imprensa, e uso este pensamento no meu cotidiano… Se não quero falar, me calo… Mas não engano, e estou num momento de dizer tudo na lata… Não temo mais pelos meus atos… Acredito na transparência, em olhar o mundo sem medo, é o que temos pra hoje… Com isso, “se gostou leve que a vida é curta”…

“O homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar”

Durante um bom tempo ela ficou fechada. Quem andava pela vila encontrava a construção com a cruz no alto, as paredes amarelecidas, a porta com rachaduras, o mato crescido em lugar de jardim e o sino em silencio. A Igreja de Santo André, construída há pouco mais de 16 anos, estava abandonada. Não haviam missas, nem padres, nem leigos que pudessem fazer alguma celebração…   A pandemia fez com que o distanciamento aumentasse. Alguns fieis procuraram outras igrejas para suas preces, ou simplesmente desativaram o hábito de ir à missa…

Já passaram por nossa igreja noviços com poucas experiências, simpáticas freiras que faziam das missas uma alegre celebração, padres recém oficializados que apenas liam a liturgia sempre no mesmo tom, alguns experientes porém distantes dos fiéis, até que no início deste ano, com a chegada de um novo pároco à cidade de Santa Cruz Cabrália, Vila de Santo André passou a ter missas aos sábados às 9 horas, com o Padre Ivan e Padre Evanildo.

Nada na vida se compara à experiência, à paixão e ao conhecimento do que se faz. Não estou defendendo em causa própria, mas só o tempo nos dá a verdadeira medida do que acreditamos e professamos. O Padre Ivan, com seus cabelos brancos e boa quilometragem rodada em altares e pregações, tem a sensibilidade de perceber qual é a plateia que o aguarda, o que querem ouvir e o que ele deve passar…. Na missa de ontem, com a presença de alguns turistas e uma jovem que aos poucos está descobrindo a igreja, na Homilia, quando fez a pregação em estilo mais familiar explicando o tema evangélico, detalhou os momentos da missa e lindamente intercalou a Shemá Israel* (ouve Israel) constante do Evangelho** do dia com pensamentos de Charlie Chaplin – “o homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar” e Santo Agostinho – “é preciso compreender para crer, e crer para compreender ”.  Só não aplaudi por que não era o caso, mas me senti profundamente feliz…

Gosto do exercício da fé. Ir à missa me faz voltar à infância, uma relação de paz, sem medo do inferno nem promessas do céu, um ambiente para ouvir o coração, refletir, agradecer… Sinto um silencio em mim, algo que não explico, apenas vivencio e me emociono. Desde a chegada do Padre Ivan tem sido um grande deleite frequentar a missa… quanta diferença faz….

*Shemá Israel (Ouve Israel) são as duas primeiras palavras da Torá. 

** Evangelho Marcos 12:28-34 Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?
E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.
Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.
E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele;
E que amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios.
E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém ousava perguntar-lhe mais nada.

Foto da missa do sábado 30 de outubro…

Pelas ruas

Quando fiz 18 anos tirei carteira de motorista. Era um documento necessário assim como o RG e o CPF. Mas só fui dirigir quase aos 30 anos, quando comprei o primeiro carro. Dirigir, mais do que um meio de transporte, passou a ser uma boa companhia para pensar na vida. Saía à noite dando voltas pela Lagoa Rodrigo de Freitas, conversando comigo mesmo sobre os caminhos que deveria tomar. Era um tempo de pouca violência urbana, sendo ainda possível fazer essa loucura com segurança. Sem ar condicionado, eu dirigia de janelas abertas fumando e foi num desses noturnos passeios, ouvindo Milton Nascimento no toca fitas, que decidi passar um tempo nos Estados Unidos: “vou me encontrar/ longe do meu lugar/ eu, caçador de mim”.

Em Portugal saía dirigindo o Toyota Yaris adesivado de Rock in Rio-Lisboa rumo à Setubal. Depois de 40 km, tomava a direção da Serra da Arrabida para me deliciar com a paisagem mágica do Parque Natural da Arrabida. Formado por terrenos acidentados na margem norte do estuário do Rio Sardo, o parque tem características incríveis em uma área de preservação de fauna e flora. Eu estacionava o carro, sentava numa murada e ficava olhando aquele cenário incrível que escolhi como meu lugar favorito em Portugal…

Estes e outros pensamentos me vieram à lembrança no fim de semana que andei de carro por São Paulo. Durante o dia, a paisagem urbana que não via há quase 2 anos, me revelou as empenas pintadas dos prédios como museus a céu aberto, a miséria sob os viadutos, os pedintes nos semáforos…. Um mundo feio e triste que a pandemia e a política criaram nestes tempos sombrios. À noite, com um amigo à caminho de um restaurante, circulando pelas ruas de casas e prédios elegantes, as mazelas da cidade foram encobertas pela trilha sonora do spotify. Que prazer ver a noite na grande cidade, o carro rodando alheio a garoa e nada me traz mais lembranças do que canções. Sou eclética. De Inezita Barroso a Glenn Miller, tudo me toca… De todas as décadas que vivi, tenho registros de emoções pontuados por músicas. E isto é tão forte que estou bordando frases musicais em tecidos que irão compor uma segunda colcha de retalhos… Pois a primeira já está pronta e se quiser ouvir, segue o link

  https://open.spotify.com/playlist/7FTPgzLGDzcWjlWxVgwLiP?si=6a7050b10d7a4f14  

Maid, você já assistiu ?

Tenho me permitido dias livres, como jamais pensei… É um grande esforço me entregar ao ócio. Vou aprendendo aos poucos, quando consigo ficar algumas horas na rede sem me convocar para alguma tarefa … Tarefas que ninguém me exige, eu me imponho, que variam de fazer bonecas, bordar e costurar colchas, escanear fotos, até resolver questões complexas da comunidade onde moro e sair feito Dom Quixote contra os moinhos de vento…

No exercício do fazer apenas para mim, sem qualquer obrigação, tenho encontrado ótima companhia nas séries da TV… E foi assim que em dois dias chuvosos me dei ao luxo de maratonar “Maid”, uma nova série do canal Netflix que me valeu como ótimas sessões de terapia. Voltei ao tempo em que morei nos Estados Unidos com um filho pequeno… Não trabalhei como empregada doméstica, mas fui a minha própria “maid” limpando, lavando e passando, uma rotina que aprendi no grito… Não precisei contar com o suporte financeiro do governo, apesar de ter um social security, o cpf local que mantenho até hoje, mas tinha a culpa de estar como mãe solo e imigrante… Assim como Alex, a protagonista, eu também tive uma  “Regina” na vida, uma amiga fundamental que me ajudou a desenrolar trâmites legais e burocráticos, generosa ao ponto de abrir o seu armário e me fazer vestir como uma americana, me integrar na sociedade… 

“Maid” me fez lembrar os 30 minutos que andava na neve até a estação de trem, as moedas contadas para o mercado, a vendas dos anéis para comprar uma árvore de Natal e roupas de inverno…

“Maid” me fez lembrar os sapos que engoli e cuspi todos, um a um, no final da série tomando um copo de vinho… Sem culpa, sem engolir o choro… Deixei derramar livremente, bem mais feliz comigo, que estou aprendendo a colocar limites ao que não me convém e a dizer sim para mim…

Tem dias…

Tem dias que me sinto com 18 anos. A mesma curiosidade, uma certa ingenuidade juvenil com as promessas do mundo, um desejo louco de novas descobertas…Penso que tenho todo o tempo, valem os riscos… Em outros me sinto na maturidade dos 40, mais experiente arriscando na medida de onde a mão alcança, sabendo que ainda tenho muito à frente… Mas tem dias, como hoje, que acordo com 100 anos carregando o mundo nas costas. Um olhar de quem já viu tudo, uma canseira dos fatos que se repetem, completo “déjà vu”… Melhor não me perguntarem se está tudo bem, vá que eu repondo…  

E por estar num dia assim, fui para a varanda cercada de árvores e deitei na rede. Abaixei o som do celular, deixei o silencio entrar e fiquei simplesmente sem nada pensar. Nem no passado nem no futuro. Quieta. O mundo podia parar em definitivo. Apenas a brisa embalando a rede, quase permitindo a alma sair do corpo e voar… Viver o momento, mesmo que pequeno, sem qualquer obrigação … Nem mesmo responder o que quero para o almoço…

Foi neste vai e vem na rede, quase cochilando, que senti o sol ser encoberto por uma nuvem e começou a entrar um vento leve… Logo vieram os primeiros pingos, depois uma chuva sem muita consistência destas que anunciam sol em breve, e foi quando vi um passarinho voar bem perto buscando abrigo em uma árvore… Nunca duvidei que é pra lá que os pássaros se refugiam na chuva, mas nunca tinha visto a cena, talvez por estar mais preocupada em me proteger, ou fechar portas e janelas… Da rede eu via o sanhaço azul quietinho, se equilibrando num galho fino, porém forte o suficiente para aguentar seu peso de menos de 40 gramas. Era uma cena apenas para mim. Ele no seu galho, eu na minha rede, também me equilibrando no peso dos meus 100 anos, e isto bastou para me sentir novamente voltando aos 18, saciando a curiosidade de quem já viu muito, mas que ainda tem o que apreciar, nem que seja apenas a maravilhosa natureza que me rodeia..