Lembrando Raul…

Nas celebrações dos 80 anos de Raul Seixas, volto ao passado e lembro do selo criado pela Artplan para os Correios como ação do Rock in Rio 1991…Toca Raul…

No livro “A Verdade é a Melhor Notícia”, conto detalhes como o Rock in Rio 1991 começou a ser planejado após Roberto Medina ter sido libertado pelos sequestradores e como foi fundamental para a mudança na promoção de eventos em geral… Segue parte do texto…

“No dia seguinte (ao retorno do sequestro), antes mesmo de Roberto (Medina) ter qualquer contato com a imprensa, o Presidente da Coca-Cola, Jorge Giganti, telefonou dando sinal verde para o festival que aconteceu seis meses depois, em Janeiro de 91, no Maracanã.  Era sinal de bons tempos. No final de julho organizamos uma super entrevista coletiva na Tribuna de Honra do Maracanã para anunciar o evento. Trouxemos jornalistas de diversos Estados, uma mega repercussão, porém alguns dias depois surgiu na imprensa uma notícia muito estranha: o Maracanã estaria com sérios problemas na estrutura e poderia cair. Bom, ao que consta era uma jogada política. O governo estadual do PDT sentiu-se ameaçado com a projeção que Roberto teve com o sequestro e isso poderia agregar valor à família Medina, com Rubem, irmão, deputado federal e possível candidato ao governo do estado.

Roberto, por questões estratégicas, preferiu ficar fora de cena enquanto não saíssem os laudos técnicos que comprovassem que estava tudo bem com o estádio, pois cada jornalista que se aproximava vinha com a mesma pergunta: “o Maracanã vai cair ou não?”. Sabíamos que era um movimento para desestabilizar o festival e como o meu negócio não era política mas ganhar espaço na mídia, resolvi destrinchar os “riders técnicos” e transformar em notícias. Rider técnico é uma espécie de manual de instrução que acompanha o contrato de qualquer artista e/ou banda onde consta tudo o que o contratante deve fornecer para o show acontecer da maneira que o artista quer. Lendo os riders descobri um baú de maravilhas para alimentar a imprensa.

Era isso que eu precisava para ter espaço nas publicações. Separava as notícias por veículo, dando exclusividade a fatos como que Billy Idol ia trazer seu “chef de cuisine” para preparar as refeições no camarim; que Axl Rose queria duas dúzias de rosas brancas e o mesmo número de rosas vermelhas no hotel; as exigências de George Michael vinham num livreto de 55 páginas e constavam garrafas de vinho branco francês (Chablis ou Chadornnay), vinho tinto  também francês (Gevrey, Chambertin Nuits St.George), pães de trigo e centeio, sete variedades de frios, sete variedades de frutas, seis litros de suco natural, água mineral francesa Evian ou Perrier, além de um rabino para preparar seus alimentos no tradicional estilo kosher servido num camarim  que deveria ser enfeitado com quatro palmeiras e cortinas azuis. Detalhe: sua roupa só podia ser lavada com sabão biodegradável. Distribuí com todas as medidas a receita de um bolo especial de batata com carne, típico da culinária irlandesa, pedido por Joe Cocker, além das lendárias 200 toalhas brancas que Prince exigia em cada uma de suas apresentações. O resultado de divulgação foi excelente. A partir daí, os riders técnicos passaram a fazer parte de todas as assessorias de imprensa.

Mas precisávamos de muito mais. Nos Estados Unidos e Europa estávamos cobertos com duas assessorias que trabalhavam com os maiores nomes da música internacional. Os escritórios do Lee Solters, em Los Angeles e o de Laister&Dicknson, em Londres, trabalhavam diretamente com a minha equipe. Formamos um bom time e tivemos poucos pontos de stress. Roberto Medina entende muito de comunicação, é um campeão na relação com a imprensa. Mas até definir a situação do Maracanã optou ficar de fora e estimulada, comecei a criar tudo o que pudesse gerar notícia. Ele ainda estava nos Estados Unidos contratando o cast internacional quando um dia pensei que poderíamos ter um selo com a marca Rock in Rio. Um selo mesmo, feito pela empresa de Correios, comercializado nas agências de todo o país, pois havia lido em algum lugar que a memória do mundo se fez através de selos e moedas. Enviei a sugestão por fax e ele deu carta branca. Fiz contato com a diretoria do Correio, fui a uma reunião em Brasília e aprendi muito sobre os selos. Não poderia fazer o selo de uma marca/produto, mas poderia homenagear ícones da música e ninguém melhor do que Cazuza e Raul Seixas. Conseguimos de forma muito discreta colocar um dos ícones da marca do patrocinador, a onda da Coca-Cola, unindo as duas imagens junto à logo do Rock in Rio. No dia do lançamento chorei copiosamente de emoção, parecia que eu era mãe do Cazuza ou viúva do Raul…

Ainda fizemos a Escalada Rock – um festival para escolher uma nova banda que abriria um dos dias do festival e gravaria um disco, e o Vestibular do Rock, do qual tenho enorme orgulho… O Vestibular do Rock era mesmo para ganhar espaço na mídia, pois na verdade eu precisava de 8 a 10 estagiários para a sala de imprensa e poderia muito bem recrutar nas faculdades.  Coloquei uma pequena nota em um jornal, distribuí cartazetes em algumas universidades que já estavam terminando as aulas, achei que viriam não mais do que 50 estudantes e faríamos a prova no auditório da Artplan. No dia da inscrição cheguei à agencia me deparei com uma fila que subia e descia a sem saída rua Negreiro Lobato e seguia pela Av. Borges de Medeiros na Lagoa… Mais de 1000 inscritos, inventamos um teste de inglês para uma primeira seleção de onde saíram 800 e o vestibular foi realizado dias depois nas cadeiras da Tribuna de Honra do Maracanã… Subdimensionei a demanda e passei 2 dias corrigindo provas… As provas eram múltipla escolha com fatos da 1ª. Edição do festival, informações sobre os artistas da nova edição, detalhes estruturais, e uma redação.  Para identificar os melhores, comecei corrigindo a redação e dependendo das primeiras linhas eu seguia em frente ou eliminava o candidato.  Foram selecionados 10 rapazes e 10 moças, uma equipe de qualidade.

Tínhamos uma sala de imprensa no Hotel Rio Palace, hoje Sofitel, no posto 6 em Copacabana e outra no Maracanã. A sala do hotel recebia os jornalistas que iam para as coletivas e quase todos os artistas lá estavam hospedados. Um forte esquema de segurança para evitar assedio em áreas em que as estrelas circulavam e montamos uma superestrutura para atender a imprensa de diversas partes do mundo. Antes da primeira coletiva internacional, nos reunimos para acertar sobre a dinâmica, quando uma das garotas da equipe inglesa sugeriu que eu fosse a mestre de cerimônias em português e ela em inglês. Confesso que não conhecia este detalhe de cerimonial e foi com elas aprendi a fazer o “announcement” de uma grande estrela de forma mais artística.

A sala de imprensa do Maracanã foi instalada num dos vestiários. Alugamos dezenas de máquinas de escrever, alguns raros repórteres internacionais traziam seus editores de texto, primórdios dos notebooks. A informática engatinhava, a internet começava a aparecer ainda muito restrita desde 1988 e o festival fechou parceria com a Unysis, uma empresa americana de alta tecnologia em TI e software. Com isso caiu em nossa mão o desafio de viabilizar uma ação para ser feita na sala de imprensa com o objetivo de atender aos jornalistas e promover o produto. Comentando o fato nos dias de hoje, parece que estávamos no tempo das cavernas. Fomos extremamente ousados ao criar uma redação com editora, repórteres e duas tradutoras (espanhol e inglês). A cada dia os repórteres tinham uma pauta a cumprir que incluía cobrir os shows e a área vip, recolher no final da noite os números oficiais do festival referentes a venda de produtos, público, consumo de bebidas, personagens interessantes na plateia, entre outros.  Traziam detalhes exclusivos dos bastidores além das notícias dos shows que iriam acontecer no dia seguinte, incluindo set list e nome dos músicos. Todo este material era editado/datilografado em português e simultaneamente vertido para o inglês e o espanhol. Na madrugada uma equipe da Unysis recolhia estes dados, digitava e quando no dia seguinte chegávamos à sala de imprensa todo o material estava disponível em cinco gigantes computadores que hoje se assemelhariam a terminais de banco. Os jornalistas podiam ler na tela ou imprimir as informações tanto dos shows do dia anterior como os que aconteceriam naquele dia. Era simplesmente o máximo da tecnologia…

Entre as funções da sala de imprensa havia a tarefa de acompanhar os fotógrafos à frente do palco. Cada artista determinava em contrato qual o tempo que poderiam ser clicados em um espaço que chamávamos de “curral”, mas era privilegiadíssimo, bem em frente ao palco. Alguns não se incomodavam que os fotógrafos ficassem o tempo todo do show, outros autorizavam no máximo uma música e estabelecemos no máximo três músicas. Para evitar qualquer atrito entre fotógrafos e seguranças, fato muito normal, eu seguia junto com o grupo antes de cada show. Os profissionais se posicionavam da melhor forma e ficavam esperando o momento de serem convidados a sair, com toda a delicadeza… Foi por conta disso que tive o prazer de assistir de muito perto alguns artistas como Prince. Jamais vi um adulto tão pequeno, com um salto tão alto e uma bundinha tão estreita… Apesar da Guerra do Golfo ter estourado no dia da abertura do festival, o Rock in Rio II foi um sucesso…Um dos melhores casts que já vi em um festival. Obrigada Maria Rita Stumpf, Deborah Bermann e todos os estagiários.  Nada aconteceria sem vocês.

Tempos de recuperação pós rock. Não conseguia desligar da tomada. Minhas pernas estavam irremediavelmente marcadas com uma safena esclerosada e princípio de trombose diante das tantas horas em pé. Para acalmar aprendi a meditar, reabri o escritório e segui minha vida. “

Momento em que recebi do representantes dos Correios o primeiro selo.

Com Lucinha Araújo, Jorge Gigante então presidente da Coca-Cola, Caio Valli diretor da Artplan

Uma resposta para “Lembrando Raul…

  1. Ótimo texto, Léa! Gostaria de ter trabalhado em uma redação como a que você montou no Maracanã. A cereja do bolo foi o serviço da Unisys. Também trabalhei assim, quando comecei, na Editora Abril, em 1987. Tudo era feito nas saudosas laudas de papel. Na sequência, vinham os digitadores e os revisores, já com o texto na tela verde! Também fui revisor. Parabéns pelo seu trabalho! Um abraço.

Deixe um comentário