Sinais do tempo

Uma foto recente deixou minha mão em primeiro plano — e me fez lembrar de Justino Martins (1917–1983). Para quem nunca ouviu falar, ele foi um grande jornalista que conheci nos tempos em que trabalhei na Bloch Editores.

Gaúcho, começou na Revista do Globo, em Porto Alegre, a convite de Erico Verissimo, e, com pouco mais de 20 anos, já era o editor. Morou em Paris, e foi lá que Adolpho Bloch o catapultou de volta ao Brasil para dar uma “cara” à revista Manchete, uma das mais importantes do país por muitos anos.

Para uma jornalista iniciante, que aos 26 anos assumia a direção de uma revista de fotonovelas e celebridades, dividir a bancada do cafezinho depois do almoço com tão ilustre figura era um enorme prestígio.

Mas a pouca experiência fez com que meu olhar distraído pousasse em suas mãos apoiadas no mármore — e visse pequenas manchas e as veias saltadas. E o pior: ele viu o que eu vi. Elegantemente, comentou:
— São as marcas do tempo. Um dia você também terá.

E foi sobre essas marcas do tempo que me detive ao ver a foto recente — e outras tantas que têm surgido, onde manchas e veias azuladas se destacam… Impossível fugir.

Lembrei também que, por volta da mesma época, fui entrevistar uma “dama da alta sociedade” do Rio de Janeiro que morava numa cobertura na Avenida Vieira Souto. Me chamou a atenção o bracelete de brilhantes, bem justo, usado sob o pulso. Comentavam que ela havia feito uma cirurgia plástica para tirar as rugas das mãos — e escondia a cicatriz com aquele bracelete. Há cicatrizes que não se esconde, nem cirurgia plástica que resolva.

A realidade é que chega um tempo em que não há mais o que esconder.
Ou é encarar as marcas e ser feliz com elas, ou sair de circulação.
Prefiro a primeira opção.

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