Belmonte: arte memória e novos caminhos

Ateliê de Paco com Esther Rocha e Rose Selles

No início dos anos 90, quando vim a primeira vez à Santa Cruz Cabrália, meu destino era a Vila de Santo André. Cruzei o rio João de Tiba para uma curta estadia e tive a sorte de ser levada para conhecer a cidade vizinha de Belmonte.

Encantei-me com os casarões quase seculares, as ruas largas de mão dupla — resquício dos tempos áureos do café —, o farol no meio da cidade, o rio Jequitinhonha encontrando o mar e as maravilhosas cerâmicas de Dona Dagmar.

A vida mudou. Em 2004, vim morar na Vila Santo André e as visitas a Belmonte tornaram-se constantes, sempre acompanhando amigos. A cidade vem se transformando em vários setores, inclusive com o desenvolvimento para se tornar um polo estratégico da indústria de energia solar.

O foco está na produção de componentes de alta tecnologia, com a instalação de uma fábrica de vidro solar fruto de investimento chinês, estimado em R$ 1,8 bilhão. Esse projeto só é possível graças à areia sílica de alta pureza encontrada na região, matéria-prima fundamental para a fabricação do vidro utilizado em painéis fotovoltaicos.

Mas Belmonte não respira apenas desenvolvimento industrial — respira arte.

Com forte tradição musical, abriga duas sociedades centenárias: a Filarmônica Lyra Popular de Belmonte, fundada em 1914, e a Sociedade Filarmônica XV de Setembro, ativa desde o início do século XX. Além disso, a cidade vem se revelando um verdadeiro celeiro de artesãos.

Em janeiro, aos sábados, um grupo de artistas organizou a abertura de seus ateliês ao público. Uma experiência enriquecedora tanto para moradores quanto para turistas. Conhecer o lugar onde as obras nascem, visitar as casas — muitas delas quase seculares — foi uma iniciativa encantadora.

Passei por lá depois da temporada de portas abertas e tive a oportunidade de revisitar a olaria de Dona Dagmar, que segue viva pelas mãos de seus filhos, além de conhecer a Casa do Pensamento Flutuante, a Casa Velha e o Ateliê de Paco.

Há dois anos, o pesquisador de imagens Marcelo Mazagão — fundador e curador do Festival do Minuto desde 1991, diretor de filmes como Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (1999) e artista plástico com diversas exposições no currículo — mudou-se para a cidade. Comprou uma casa de quase 100 anos, que rapidamente ganhou o nome de Casa do Pensamento Flutuante.

Encantado com a cena local, passou a registrar imagens da cidade e abriu o espaço à visitação. Não se trata de um museu tradicional, mas de um ambiente onde são exibidas fotografias capturadas em Belmonte, além de obras produzidas ao longo de mais de 40 anos de atuação como pesquisador de imagens. A casa funciona de segunda a sábado, das 10h às 17h, mediante agendamento prévio pelo WhatsApp (73) 9981-8292.

A Casa Velha parece ter saído de um livro de contos. Há arte por todos os lados: das paredes que revelam os tijolos antigos aos móveis herdados da família e garimpados em brechós, das colchas afetivas aos desenhos, bordados e aquarelas.

No Instagram, @anafaria.vidaautoral apresenta-se com a frase: “A casa é minha linguagem e território de transformação.” É um espaço que convida a sentar, conversar e ouvir a trajetória de quem saiu de Minas Gerais, passou por São Paulo e Brasília e desaguou no Jequitinhonha, quase chegando ao mar. Envolvida em diversos movimentos culturais, ela integra a pulsante cena artística da cidade. A delicadeza de suas aquarelas com bordados é belíssima. Atenção para as pinturas em latinhas de sardinha.

O Ateliê de Paco funciona em uma casa estreita e comprida, com paredes cobertas por suas obras — muitas sobre madeira rústica — que dialogam com a arte popular brasileira, em estilo naïf. Antes de se dedicar à pintura de figuras bidimensionais, com cores chapadas e temas do cotidiano, Paco foi chef e professor de gastronomia.

Nascido em Belmonte, construiu sua trajetória no Rio de Janeiro, passando por cozinhas de restaurantes reconhecidos. Depois viveu um período na Europa e, ao retornar à cidade natal, sofreu um AVC. A pintura abriu um novo caminho em sua vida. Hoje, suas obras podem ser vistas no Instagram @ateliedepaco, onde também é possível agendar visitas.

Há ainda outros ateliês para conhecer na cidade, como a Casa Umbutu e o Ateliê Dusdois.

Voltarei em breve. Por enquanto, ficam essas dicas.

Fotos Esther Rocha

Casa do Pensamento Flutuante

Casa Velha

Deixe um comentário