
Eu achava que o currículo era suficiente.
Ali estavam anos de trabalho resumidos em poucas linhas: datas, cargos, conquistas. Tudo organizado, objetivo. Mas então pediram um portfólio e percebi que não tinha um.
Ou melhor, tinha feitos alguns para clientes, corporativos demais. Mas como fazer um falando de mim. Como contar a minha história como pessoa física.
E foi aí que veio a pergunta: como se conta uma vida?
Precisei de tempo. Tempo para pensar no formato, mas principalmente para reunir provas de que tudo aquilo que vivi era real.
Nas mudanças entre Rio de Janeiro, São Paulo, Nova York e Santa Cruz Cabrália, muita coisa ficou pelo caminho. Credenciais, diplomas, recortes de jornais e revistas… pequenos registros que hoje entendo como pedaços de mim.
Algumas fotos sobreviveram. Outras ficaram presas em CDs e DVDs que o notebook já não lê. Como se partes da minha história estivessem trancadas em um tempo que não conversa mais com o presente.
Comecei então uma espécie de arqueologia pessoal.
HD externo, acervo do jornal O Globo, postagens antigas no Facebook… fui juntando tudo. Nome por nome, imagem por imagem.
E, de repente, aquilo deixava de ser só informação.
Ganhava vida.
Porque a memória não é só lembrança, ela é sensorial. Um registro é capaz de me levar de volta ao lugar exato, ao momento preciso. Com cheiro, com sabor, com tudo.
Tem memória que tem perfume.
E foi assim que comecei a montar a minha história. Não mais como uma lista, mas como uma narrativa.
Confesso: estou mexida.
Talvez porque revisitar o passado não seja apenas lembrar — é reviver. Ou talvez porque eu tenha entendido algo simples:
eu não estava criando um portfólio.
Criei a linha do tempo para escrever um livro.
Show! Rever a vida é bom mesmo