O meu vizinho do lado…

Quando alguma coisa me toca o assunto fica rondando minha cabeça como numa centrifuga de idéias ate que espremidas, peneiradas e coadas se transformam em textos. Acho que foi na semana passada que assisti no Jornal Nacional uma reportagem feita pelo Roberto Kowalick de que o governo do Japão está preocupado com  dezenas de idosos com mais de cem anos de idade desaparecidos. E o caso que chocou o país aconteceu numa casa em Tóquio onde morava o homem supostamente mais velho da capital, Sogen Kato, de 111 anos. A polícia descobriu o corpo dele mumificado no segundo andar. Tinha morrido há mais de 30 anos e nenhum vizinho se deu conta. Que dor !!

Eu não tenho problema em ficar sozinha, passei um grande desafio morando em Nova York quando no inverno, muitas vezes, ficava o fim de semana quase sem falar. Não era promessa, mas circunstâncias. O recesso era interrompido no domingo às 6 da tarde quando telefonava para falar com meu filho no Brasil. Mas penso na tristeza no fim da vida do velho Kato, na decepção de que ninguém se importava com ele. Ou não? Pode até ser normal à cultura oriental de cada um no seu quadrado. Distantes e frios, ao mesmo tempo em que exercitam com perfeição a contemplação, o olhar a distancia, mas não ao próximo…

A questão do velho Kato é um pouco dúbia já que a aposentadoria continuou sendo paga e os parentes estão sendo investigados, mas será que ele tinha a consciência de que não fazia a menor diferença?

O abandono e a solidão me tocam… Em algum momento de alguma “encadernação” acho que fui peregrina mundo a fora…  Para refletir sobre nossos vizinhos, fui buscar a poesia do Vinicius de Moraes que tem musica do Toquinho e fala sobre isso…

Um homem chamado Alfredo

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão.
Abriu o gás, o coitado,
O último gás do bujão.

Porque ninguém o queria,
Ninguém lhe dava atenção.
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração.
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação.

Ah! Quanta gente sozinha,
Que a gente mal adivinha.
Gente sem vez para amar,
Gente sem mão para dar,
Gente que basta um olhar, quase nada…

Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão.
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada.

Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom.
Um homem por trás dos óculos,
Como diria Drummond.

Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver.
Embaixo, assinado Alfredo,
Mas ninguém sabe de quê.

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