Ouvi no verao

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De lei

Ela já estava com mais de 80 anos e morava num sitio que quando comprou ficava na área rural. A cidade cresceu e envolveu o terreno que passou a ser objeto de desejo dos construtores de condomínio. O lugar era perfeito, algumas propostas foram feitas, mas ela mantinha-se inabalável e avisava que só saia de lá morta. Tinha como herdeira apenas uma neta que morava distante. Fazia raras visitas e na última examinou bem o terreno imaginando o que poderia render quando a avó partisse. O que a jovem não sabia é que nos últimos anos a avó apaixonada por este pedaço de terra vinha plantando Pau Brasil, Jatobá, Peroba, Ipê, Mogno, Cedro e Jacarandá. Plantou apenas árvores nobres, conhecidas como “madeira de lei” ,cuja exploração é controlada pela lei de crimes ambientais. O corte destas árvores não pode ser feito sem a autorização do governo e pode dar até dois anos de cadeia. A idosa deixou todos os bens registrados em cartório para surpresa da neta que terá que aprender a gostar de árvores.

Demitida

Construiu uma casa com grande área para horta, jardim e até um pequeno pomar. Plantou uma pitangueira, os anos passaram e a árvore não desenvolveu. Um dia, cansada de ver a árvore sem uma fruta chamou o jardineiro e mandou jogar fora. Aquela árvore não servia prá nada, estava demitida do pomar. O jardineiro pediu uma segunda oportunidade para a pitangueira que parece ter ouvido a reclamação. No dia seguinte, uma mínima pitanga verde apareceu entre as folhas. A minha amiga ainda pensou que o jardineiro tinha colado uma fruta para justificar a permanência da árvore, mas era verdade. A pitangueira nunca mais deixou de dar frutos. As melhores caipiroscas de pitanga do país são servidas em sua casa.

O presente

Fez sinal para um taxi, entrou com cuidado, sentou vagarosamente acomodando no colo o pacote que carregava. O motorista estava com um profundo mau humor para perder tempo com uma senhorinha que ainda carregava um embrulho que podia sujar o estofado do carro. A passageira, elegante, ágil, beirando os 80 anos, estava feliz com o presente. Carregava como uma preciosidade. O motorista perguntou resmungando entre os dentes sobre o conteúdo do pacote. Alegremente ela respondeu: “uma muda de jaqueira, vou plantar no quintal”. Ele não acreditou que uma mulher daquela idade ainda pensasse em plantar uma jaqueira, esperar até 7 anos para dar fruto. Mas era o sonho dela, acreditava que ainda teria saúde para comer a jaca do seu quintal. E seguiu pensando que o taxista, do jeito que estava, não chegaria nem aos 40.

 

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Uma resposta para “Ouvi no verao

  1. Léa querida, seus textos são lindos. Reuna-os, tente editá-los. Seria um belíssimo livro. Essência e forma. Beijos.

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