De volta

 

ImagemAbri a porta e o encontrei depois de 10 anos. Paredes brancas, a poltrona bergére próxima ao sofá de couro, as 4 cadeirinhas da bancada para refeição. Uma cama de solteiro num quarto o armário embutido no outro. Abri as janelas e a linda vista do Parque do Flamengo se apresentou. Conheço onde estou. Aqui já foi a minha casa.

O sofá e a bergére podem contar a minha vida. Apesar de surrados, estão vivos. Passeei entre os cômodos, abri as janelas, as portas dos armários do quarto, do banheiro e da cozinha… Um vazio gritou nas lembranças. Quando saí deixei um mundo nas prateleiras. Livros, discos, taças de cristal da mamãe, papéis e papéis, muitas fotos… Nós mudamos bastante nestes anos, o apto recebeu alguns moradores, continua com um jeito acolhedor e simpaticão. Eu vi tantas terras e aprendi a vida de outra forma.

Respirei fundo, deixei as malas e saí para comprar o básico para a sobrevivência. Andando até o Largo do Machado encontrei a mesma mendiga na porta da Igreja Santíssima Trindade, reconheci o jornaleiro, a loja de roupas com a vitrine tentadora, o Cinema Paissandu com as portas fechadas, não sei se ainda está na ativa. Pensei encontrar a Churrascaria Majórica fechada, li que tinha sido destruída por um incêndio, mas estava firme no casarão antigo com fachada de pedra. O posto de gasolina na esquina da rua Paissandu está se transformando num enorme edifício, a livraria Galileu não mudou e o Largo do Machado é aquela confusão.

Voltando prá casa exausta, com o possível para sobreviver 48hs sem geladeira, dobrando a esquina quando um rapaz passou gritando: vem chuva. Cheguei a tempo de fechar as janelas. A água lavou a alma, inundou a rua… Fiquei através do vidro vendo a água subir, cobrir os pneus dos carros, o transito desaparecer e o lixo que estava nas calçadas se espalhou. Um caos. Fui dormir cedo estranhando o colchão sem travesseiro e acordei pensando nos livros e mais umas caixas que haviam ficado em algum lugar deste apartamento. Quem sabe na parte de cima do armário ? Peguei a escada e lá estavam os livros, um violão quebrado e duas caixas grandes de papelão. Coloquei a mão dentro de uma delas para puxar algum papel e fez-se um som. Era uma das caixinhas de música da minha coleção que aqui ficou. O piano de cauda que toca “Pour Elise” enquanto um cupido dança sob um coração. Mais caixa de música impossível!

Ótimas boas vindas ! Coloquei a caixinha para tocar, uma memória muito feliz que me faz mesmo sem geladeira ou tv me sentir em casa ! Obrigada Marcos Bart, Angela Ghizi, Leo Manssur e Hyldde Roza que tão bem cuidaram e deixaram suas boas energias neste apartamento.

 

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