Vidas cruzadas

Estou em tempo de memórias, mexer em fotos, contar histórias para a os mais jovens da família. Este é Tio Tózinho (Antônio Penteado) tio do meu pai… Era uma grande figura que conheci em 1961 quando mudamos de São Paulo para o Rio de Janeiro. Funcionário da prefeitura, exercia algum trabalho burocrático, pois sua paixão era ser charadista, ou cruzadista como também eram chamados os que criavam palavras cruzadas. Ele fazia parte de um grupo aonde era muito prestigiado com o pseudônimo de Paraná, estado onde nasceu toda a família Penteado. Ouvi muitas histórias sobre ele e uma delas mostra que tinha visão de marketing mesmo no fim do século 18 quando nasceu e ter morrido sem ouvir sobre esta ferramenta…. Quando rapaz, morando em Curitiba, fazia enorme sucesso nas altas rodas com sua elegância, bom humor, raciocínio rápido e inteligência. Certo dia procurou o sapateiro mais chic da cidade para encomendar um sapato. Ouviu a lamúria sobre um couro alaranjado que o sapateiro tinha encomendado e estava encalhado. Propôs que fizesse o sapato custo zero. Caso ninguém procurasse para encomendar modelos com o mesmo couro, ele pagaria. Sapato pronto saiu a desfilar pela Rua XV, local de grande movimento no centro Curitiba aonde se usava fazer footing, andando de um lado para o outro para ver e ser visto. Em pouco tempo só dava sapato alaranjado na Rua XV, criou moda.

Mas a história que mais gosto é de amor. Casou em Curitiba com a moça da foto que faleceu 6 meses depois. No leito de morte ele prometeu à amada que não casaria no próximo ano, mas se acostumou a viver sozinho e assim ficou por toda a vida…. Mudou para o Rio e descobriu o prazer de estar num balneário. Frequentava a Cinelândia onde ia aos cinemas nas sessões da tarde. Tomava banho de mar na antiga praia do Flamengo, andava na calçada de Copacabana e circulava de lotação pela cidade.  Era feliz do seu jeito. Nos seus últimos anos, já aposentado, quase todos os sábados almoçava na nossa casa na rua da Cascata, na Tijuca. Chegava perfumado, cabelos brancos fartos, penteados com gumex, vestindo ternos de linho, ou apenas calça e camisa sempre de linho…Lenço de cambraia no bolso para enxugar o suor do verão, roupa impecavelmente amarrotada por conta do linho, mas isso não tirava o charme. Quando morreu eu tinha 15 anos, coube ao meu pai cuidar do enterro e desmontar o apartamento que morava na praça da Cruz Vermelha, no centro do Rio. Um apartamento simples onde se destacava uma escrivaninha e uma grande estante repleta de livros e calipídios (acho que assim que se escreve o termo que só ouvi falar), uma publicação encadernada escrita à mão com palavras para serem usadas em charadas, naquelas palavras cruzadas difíceis de resolver… Estes livros foram doados para uma associação de charadistas (ou cruzadistas) e para mim ficou um pecúlio da prefeitura, em dinheiros de hoje deveria ser uns 2 mil reais, motivo de alto consumo, inclusive uma meia peruca muito em moda na época… Tio Tózinho sempre esteve em minhas lembranças e, como sempre os fios da vida voltam a se entrelaçar, quando morava nos Estados Unidos houve um tempo que achei estar totalmente esquecida no Brasil. Ate receber por correio a carta de um sobrinho com uma página da revista Coquetel onde numa palavra cruzada aparecia : (L..) Penteado jornalista brasileira com 3 letras ! Era eu !!  Ele também não esqueceu de mim…

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