Lembrando um amigo…

Hoje Flávio Cavalcanti faria 98 anos. Ele é meu amigo inesquecível… A foto com Luiz Armando Queiróz, registra a minha ultima apresentaçao no programa Sem Limite, na TV Manchete, aonde tive a ousadia de responder sobre sua vida… Foram 10 programas, com 10 perguntas em cada edição, divididas no minimo em 3 partes… Ufa… Cheguei lá… E para completar as tantas informaçoes escrevi “Um Instante, Maestro !” lançado pela Editora Record em 92…. Quem tiver interesse em conhecer a historia desse apresentador, pode encontrar o livro digitalizado neste blog …. O texto abaixo é do capítulo 2, aonde conto como fui trabalhar com Flávio…

Eu tinha 22 anos de idade quando conheci Flávio. Tinha participado de passeatas, cantado músicas de protesto, procurado em delegacias de subúrbio um namorado desaparecido que só foi encontrado no DOPS, levado porrada da polícia no quebra-quebra da Cinelândia e ouvido dezenas de histórias de amigos torturados. Fazia parte de um grupo que veio a se chamar MAU – Movimento Artístico Universitário -, nascido na casa do psiquiatra Aloysio Porto Carreiro, na Rua Jaceguai, 27, Tijuca. Eu era colega de Angela, filha mais nova de Aloysio. Nos fins de semana, o grupo se reunia em sua casa para tocar violão, bater papo, namorar e tomar cerveja. Corria o ano de 1965, um após a revolução. Era sensacional para uma adolescente descobrir aquele clima de protesto e conhecer um mundo politicamente diferente do que tinha aprendido em casa. Com Aloysio e sua mulher Maria Ruth tudo era permitido. Fumar, ficar acordada até o dia amanhecer e, sobretudo, falar de política. Liberdade, liberdade! Aprendia-se muito ouvindo músicas de Sinval Silva a Nelson Cavaquinho, passando por Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, já despontando como compositores, e acompanhando os novos que ali surgiam como Gonzaguinha (namorando Ângela), Ivan Lins (namorando Lucinha), Aldir Blanc, César Costa Filho, Sílvio Silva, Paulo Emilio e mais um monte de gente de talento que veio a se firmar nos festivais universitários. Meus amigos não eram exatamente do estilo dos amigos de Flávio. Deste meu grupo, alguns ao longo da vida tomaram-se inimigos do apresentador por discordarem de sua postura. Apesar disso, me tomei amiga de Flávio, ou melhor, ele foi meu melhor amigo, essencial em minha vida durante quinze anos. Proporcionou-me momentos inesquecíveis, foi generoso, sincero, doce e dedicado, ensinando-me que, mais importante do que ser de esquerda ou de direita, era ter opinião própria e respeitar a alheia. Meu objetivo em escrever este livro foi apontar fatos e contar histórias que envolveram o apresentador e a televisão no período de 70 a 74. Mais do que o resgate do seu nome, quero revelar um Flávio Cavalcanti punido e perseguido pela Censura, ao contrário da imagem fortemente divulgada pelo patrulhamento ideológico. Colocaram-lhe uma culpa que jamais teve, foi chamado de dedo-duro sem jamais terem conseguido provar nada, apesar de ter ajudado a esconder amigos procurados pelo Exército. Foi conivente com a revolução de 64, mas acabou discordando dos rumos que esta tomou a partir do Ato Institucional 5, em dezembro de 1968, e pagou por isso. Através de pareceres da Censura Federal sobre o programa, somados a depoimentos de amigos, companheiros de trabalho e até mesmo de opositores, este livro mostra um Flávio Cavalcanti que quase ninguém conheceu.

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