
No final do meu casamento com Paulo Martins havia um filme: Ipanema Adeus.
Era o sonho do arquiteto, fotógrafo, músico e cineasta — premiado por seus curtas e documentários — realizar um longa-metragem. Foi justamente no período de nossa separação que o roteiro foi criado. Quando “Ipanema Adeus” foi lançado, em 1975, compreendi o quanto o casamento o asfixiava e como seu grande desejo era fugir para um outro mundo.
Isso fica claro em seu alter ego, Carlos, personagem interpretado por Hugo Carvana: um executivo carioca bem-sucedido que, em meio a uma crise existencial, abandona a família no Rio de Janeiro e parte para a região de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, na Bahia, tentando recomeçar a vida como pescador ao lado da amante Gilda, vivida por Monique Lafond.
Se havia uma amante na vida real, nunca soube. O filme, que também contou no elenco com Bibi Vogel e Cláudio Cavalcanti, marcou a carreira de Paulo e representou a realização de um grande sonho. Por ironia do destino, quem acabou vindo morar nessa região fui eu. Nas vezes em que Paulo me visitou, comentávamos sobre essa coincidência.
Nos últimos anos, algumas pessoas da região me procuraram em busca de informações sobre Paulo. Entre elas, a organizadora do Festival de Cinema de Trancoso, interessada em exibir o filme, e um professor de Porto Seguro dedicado à preservação da memória da cidade.
Recentemente, surgiu uma nova demanda: um doutorando em Estado e Sociedade da Universidade Federal do Sul da Bahia que, por acaso, ao pesquisar filmes antigos no YouTube, encontrou imagens raras de Porto Seguro. O filme mostra o casario, o cotidiano e personagens locais de uma época em que a cidade ainda preservava outra escala e outro ritmo de vida.
Ao comparar aquelas imagens com a cidade de hoje, impressionou-se com a dimensão das transformações urbanas.
Inspirado pelo conteúdo, Leandro Santana Souza desenvolveu o artigo “Cinema e urbanização: o filme Ipanema, Adeus como documento do crescimento de Porto Seguro (1970–2026)” e me enviou para leitura.
Seu estudo analisa as transformações territoriais de Porto Seguro entre 1970 e 2026, utilizando o filme como fonte documental visual. A pesquisa adota uma abordagem interdisciplinar, reunindo Sociologia Urbana, Sociologia Visual e Demografia. Os dados revelam um crescimento populacional expressivo: de 30 mil para 180 mil habitantes no período.
Mais do que o registro do fim de um casamento, o filme preserva a memória de uma relação apaixonada, divertida e leve, que me deu Bernardo, um filho tão genial quanto o pai. E quem conheceu Paulinho pode afirmar: nem em seus sonhos mais ousados ele imaginaria que seu “Ipanema Adeus” se tornaria base para um estudo de doutorado.
Salve, Paulinho!