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Entre cupins, colmeias e canções…

“As aparências enganam”, música de Sérgio Natureza e Tunai, não sai da minha cabeça desde que precisei cortar uma árvore.
O tronco largo crescia inclinado sobre um chalé e, no topo, havia uma casa de cupim. Um amigo que entende do assunto recomendou retirar, pois poderia cair no telhado.

Chamei o rapaz da serra elétrica. Ele prendeu cordas em outras árvores para reduzir o impacto das quedas e, quando chegou ao alto, descobriu que a casa dos cupins estava vazia. Em compensação, ao ligar a serra percebeu que a árvore estava oca. Mas não abandonada.

Dentro dela havia uma enorme colmeia. Abelhas pequenas, sem ferrão, produziam um mel levemente cítrico. O trabalho era engenhoso: favos com estruturas hexagonais de cera, feitos pelas abelhas operárias. Como pequenas gavetas, servem para armazenar mel, pólen e também para que a rainha deposite os ovos, que se transformarão na nova geração.

Consultei Jean e Carlos, da Fazenda Arimugue, que têm grande experiência em meliponário (colmeias de abelhas sem ferrão) e apiário (colmeias de abelhas Apis). Eles recomendaram deixar os troncos próximos de onde estava a árvore. Assim, quem sabe, as abelhas continuam por lá até dezembro, quando eles voltam de viagem e poderão transferi-las para uma casinha.

Todo dia a gente aprende alguma coisa. E, mudando a trilha sonora, lembro outra canção: “Vivendo e aprendendo a jogar”, de Guilherme Arantes, eternizada na voz de Elis Regina.

“Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”

Sobre a Pousada Victor Hugo

Esse cenário me remete a uma história…

Na segunda metade dos anos 80, os amigos Victor e Ugo deixaram o Rio de Janeiro rumo a Porto Seguro. Um dia, decidiram explorar o litoral norte e, dirigindo um buggy até o fim da estrada, chegaram a um rio. Não havia balsa para cruzá-lo — apenas um barquinho. Conduzidos por um barqueiro, seguiram por uma trilha que margeava o mangue até a praia… e se encantaram. Era um vilarejo com pouco mais de 200 moradores. Decidiram comprar um terreno e construíram uma casa. Depois, veio a ideia de uma pousada. Adquiriram uma área à beira-mar.

Nascia ali uma sociedade perfeita. O nome unia os dos empreendedores e homenageava o escritor francês Victor Hugo, que ambos admiravam. Ugo, que morava em Milão, trazia o bom gosto e a arquitetura na alma. Victor, em Ipanema, vinha do mercado financeiro — era administrador e ótimo de conversa. Assim, em dezembro de 1994, foi inaugurada a Pousada Victor Hugo.   

No início, havia apenas o salão, o bar, a varanda, a cozinha, dois chalés e as espreguiçadeiras na praia. O jardim ainda era árido, a restinga rasa. Criaram, então, um jeito diferente de receber — sentido nos lençóis e toalhas sempre brancos, no clima elegante e descontraído que fazia os hóspedes se sentirem em casa. Tudo muito exclusivo, único, com glamour num clima de acolhimento com axé e estilo. No bar variedade de destilados, fermentados e o espumante sempre gelado; o cardápio era enxuto, com destaque para o inesquecível peixe ao molho de vinho.

Assim, na base dos bons relacionamentos e de “boca a boca”, passaram a ser descobertos por hóspedes notáveis. Tempos em que, no salão, na varanda ou na praia, corriam conversas inteligentes entre atores, escritores, terapeutas, acadêmicos, cantores, jornalistas, doutores e investidores — gente que buscava privacidade até para um topless livre à beira-mar. Nos pés a tradicional sandália havaiana e, em noites mais frescas, jogado nos ombros um cashmere autêntico. Trilha sonora do jazz aos clássicos da mpb. Atrás do balcão do bar, o bom humor (às vezes ácido) dos proprietários também ajudava a fortalecer a marca.

Victor conduziu a pousada até sua morte, em dezembro de 2001. Ugo a vendeu em março de 2014. A Pousada Victor Hugo tornou-se referência e símbolo de pioneirismo no turismo da orla norte de Santa Cruz Cabrália, deixando boas memórias para todos que por lá passaram — ou ouviram suas histórias.

No salão, entre peças contemporâneas trazidas da Itália e arte local, havia sempre uma obra do escritor Victor Hugo. Em francês, é claro. E dele extraio uma frase que parece escrita para essa história: “Não há nada como o sonho para criar o futuro.”

E, quando não se tem mais sonhadores, fica assim, abandonada, coberta de folhas secas. Apenas memórias…

Fotos 2006 Alexandre Campbell @xandecampbell

O Cacique Cobra Coral e eu

Osmar Santos quando me visitou de surpresa na Bahia em plena pandemia.

Em setembro de 2000 li uma pequena nota na coluna Informe JB do Ancelmo Góes sobre a previsão da Fundação Cacique Cobra Coral de muita chuva para janeiro num período próximo ao Rock in Rio que retornava à Cidade do Rock num projeto aguardado por muitos anos. Eu era diretora de comunicação do festival, nunca tinha ouvido falar na Fundação, e pedi a Ju (Juliana Braga) que era da equipe para localizar o endereço e enviei um email.

Passaram alguns meses, eu já tinha esquecido o assunto quando em dezembro chegou resposta da fundação que se apresentava como uma entidade Científica Esotérica especializada em fenômenos climáticos, comandada pelo Cacique Cobra Coral, espírito que em outras encarnações teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Podia parecer uma doideira, mas levei o assunto a sério. Por telefone conversei longamente com Osmar Santos, representante da Fundação, que confirmou ser possível evitar chuvas ou transferi-las para outras regiões com a força do vento através do trabalho espiritual do Cacique Cobra Coral.

Estávamos em dezembro e chovia no Rio. Em um projeto do tamanho do Rock in Rio a chuva era uma grande ameaça. Como Roberto Medina me conhecia há muito tempo, sabia que tinha espaço para falar qualquer coisa, mesmo um assunto insólito como esse.  Entrei nas sua sala certa da privacidade e descarreguei estas informações. Quem sabe contratar o Cacique Cobra Coral para não chover?

Ele pode não ter acreditado, mas como sempre elegante e aberto para ouvir as opiniões da equipe, respeitou a minha preocupação e ficou de pensar no assunto.

O século 20 terminou na Cidade Maravilhosa debaixo de muita chuva. Na segunda-feira 8 de janeiro todos os serviços de meteorologia anunciavam tempo ruim para a semana, incluindo dia 12, sexta-feira, abertura do festival esperado há 10 anos. E foi neste dia 8 que choveu muito, um grande teste para a capacidade de água na Cidade do Rock. Os técnicos e engenheiros justificaram como ótimo para se precaverem, mas na minha cabeça era o prenúncio de mais um festival na lama. Foi quando Roberto me chamou em sua sala dando carta branca para contratar a Fundação Cacique Cobra Coral. Pediu sigilo, tanto na mídia quanto na equipe.

A proposta oferecida pelo Cacique era que a força do vento levasse a chuva para regiões de seca. Se chegou em algum lugar de seca, não sei, mas a partir daí só quem tem fé pode acreditar no que aconteceu. Na sexta-feira e sábado choveu em vários pontos do Rio de Janeiro, inclusive nas proximidades da Cidade do Rock, mas lá dentro nenhuma gota. Na abertura do festival, no momento dos 3 minutos de silêncio pela paz no mundo, até apareceu um tímido sol em meio nuvens cinzentas, fato registrado em diversas fotos. O assunto não foi divulgado, podia virar a piada e em nada acrescentaria ao sucesso do evento… Mas alguns meses depois com o sucesso do festival, o assunto transpirou e muitos produtores passaram a contratar a Fundação Cacique Cobra Coral para garantir um bom tempo em seus eventos ao ar livre.

Lembrando Raul…

Nas celebrações dos 80 anos de Raul Seixas, volto ao passado e lembro do selo criado pela Artplan para os Correios como ação do Rock in Rio 1991…Toca Raul…

No livro “A Verdade é a Melhor Notícia”, conto detalhes como o Rock in Rio 1991 começou a ser planejado após Roberto Medina ter sido libertado pelos sequestradores e como foi fundamental para a mudança na promoção de eventos em geral… Segue parte do texto…

“No dia seguinte (ao retorno do sequestro), antes mesmo de Roberto (Medina) ter qualquer contato com a imprensa, o Presidente da Coca-Cola, Jorge Giganti, telefonou dando sinal verde para o festival que aconteceu seis meses depois, em Janeiro de 91, no Maracanã.  Era sinal de bons tempos. No final de julho organizamos uma super entrevista coletiva na Tribuna de Honra do Maracanã para anunciar o evento. Trouxemos jornalistas de diversos Estados, uma mega repercussão, porém alguns dias depois surgiu na imprensa uma notícia muito estranha: o Maracanã estaria com sérios problemas na estrutura e poderia cair. Bom, ao que consta era uma jogada política. O governo estadual do PDT sentiu-se ameaçado com a projeção que Roberto teve com o sequestro e isso poderia agregar valor à família Medina, com Rubem, irmão, deputado federal e possível candidato ao governo do estado.

Roberto, por questões estratégicas, preferiu ficar fora de cena enquanto não saíssem os laudos técnicos que comprovassem que estava tudo bem com o estádio, pois cada jornalista que se aproximava vinha com a mesma pergunta: “o Maracanã vai cair ou não?”. Sabíamos que era um movimento para desestabilizar o festival e como o meu negócio não era política mas ganhar espaço na mídia, resolvi destrinchar os “riders técnicos” e transformar em notícias. Rider técnico é uma espécie de manual de instrução que acompanha o contrato de qualquer artista e/ou banda onde consta tudo o que o contratante deve fornecer para o show acontecer da maneira que o artista quer. Lendo os riders descobri um baú de maravilhas para alimentar a imprensa.

Era isso que eu precisava para ter espaço nas publicações. Separava as notícias por veículo, dando exclusividade a fatos como que Billy Idol ia trazer seu “chef de cuisine” para preparar as refeições no camarim; que Axl Rose queria duas dúzias de rosas brancas e o mesmo número de rosas vermelhas no hotel; as exigências de George Michael vinham num livreto de 55 páginas e constavam garrafas de vinho branco francês (Chablis ou Chadornnay), vinho tinto  também francês (Gevrey, Chambertin Nuits St.George), pães de trigo e centeio, sete variedades de frios, sete variedades de frutas, seis litros de suco natural, água mineral francesa Evian ou Perrier, além de um rabino para preparar seus alimentos no tradicional estilo kosher servido num camarim  que deveria ser enfeitado com quatro palmeiras e cortinas azuis. Detalhe: sua roupa só podia ser lavada com sabão biodegradável. Distribuí com todas as medidas a receita de um bolo especial de batata com carne, típico da culinária irlandesa, pedido por Joe Cocker, além das lendárias 200 toalhas brancas que Prince exigia em cada uma de suas apresentações. O resultado de divulgação foi excelente. A partir daí, os riders técnicos passaram a fazer parte de todas as assessorias de imprensa.

Mas precisávamos de muito mais. Nos Estados Unidos e Europa estávamos cobertos com duas assessorias que trabalhavam com os maiores nomes da música internacional. Os escritórios do Lee Solters, em Los Angeles e o de Laister&Dicknson, em Londres, trabalhavam diretamente com a minha equipe. Formamos um bom time e tivemos poucos pontos de stress. Roberto Medina entende muito de comunicação, é um campeão na relação com a imprensa. Mas até definir a situação do Maracanã optou ficar de fora e estimulada, comecei a criar tudo o que pudesse gerar notícia. Ele ainda estava nos Estados Unidos contratando o cast internacional quando um dia pensei que poderíamos ter um selo com a marca Rock in Rio. Um selo mesmo, feito pela empresa de Correios, comercializado nas agências de todo o país, pois havia lido em algum lugar que a memória do mundo se fez através de selos e moedas. Enviei a sugestão por fax e ele deu carta branca. Fiz contato com a diretoria do Correio, fui a uma reunião em Brasília e aprendi muito sobre os selos. Não poderia fazer o selo de uma marca/produto, mas poderia homenagear ícones da música e ninguém melhor do que Cazuza e Raul Seixas. Conseguimos de forma muito discreta colocar um dos ícones da marca do patrocinador, a onda da Coca-Cola, unindo as duas imagens junto à logo do Rock in Rio. No dia do lançamento chorei copiosamente de emoção, parecia que eu era mãe do Cazuza ou viúva do Raul…

Ainda fizemos a Escalada Rock – um festival para escolher uma nova banda que abriria um dos dias do festival e gravaria um disco, e o Vestibular do Rock, do qual tenho enorme orgulho… O Vestibular do Rock era mesmo para ganhar espaço na mídia, pois na verdade eu precisava de 8 a 10 estagiários para a sala de imprensa e poderia muito bem recrutar nas faculdades.  Coloquei uma pequena nota em um jornal, distribuí cartazetes em algumas universidades que já estavam terminando as aulas, achei que viriam não mais do que 50 estudantes e faríamos a prova no auditório da Artplan. No dia da inscrição cheguei à agencia me deparei com uma fila que subia e descia a sem saída rua Negreiro Lobato e seguia pela Av. Borges de Medeiros na Lagoa… Mais de 1000 inscritos, inventamos um teste de inglês para uma primeira seleção de onde saíram 800 e o vestibular foi realizado dias depois nas cadeiras da Tribuna de Honra do Maracanã… Subdimensionei a demanda e passei 2 dias corrigindo provas… As provas eram múltipla escolha com fatos da 1ª. Edição do festival, informações sobre os artistas da nova edição, detalhes estruturais, e uma redação.  Para identificar os melhores, comecei corrigindo a redação e dependendo das primeiras linhas eu seguia em frente ou eliminava o candidato.  Foram selecionados 10 rapazes e 10 moças, uma equipe de qualidade.

Tínhamos uma sala de imprensa no Hotel Rio Palace, hoje Sofitel, no posto 6 em Copacabana e outra no Maracanã. A sala do hotel recebia os jornalistas que iam para as coletivas e quase todos os artistas lá estavam hospedados. Um forte esquema de segurança para evitar assedio em áreas em que as estrelas circulavam e montamos uma superestrutura para atender a imprensa de diversas partes do mundo. Antes da primeira coletiva internacional, nos reunimos para acertar sobre a dinâmica, quando uma das garotas da equipe inglesa sugeriu que eu fosse a mestre de cerimônias em português e ela em inglês. Confesso que não conhecia este detalhe de cerimonial e foi com elas aprendi a fazer o “announcement” de uma grande estrela de forma mais artística.

A sala de imprensa do Maracanã foi instalada num dos vestiários. Alugamos dezenas de máquinas de escrever, alguns raros repórteres internacionais traziam seus editores de texto, primórdios dos notebooks. A informática engatinhava, a internet começava a aparecer ainda muito restrita desde 1988 e o festival fechou parceria com a Unysis, uma empresa americana de alta tecnologia em TI e software. Com isso caiu em nossa mão o desafio de viabilizar uma ação para ser feita na sala de imprensa com o objetivo de atender aos jornalistas e promover o produto. Comentando o fato nos dias de hoje, parece que estávamos no tempo das cavernas. Fomos extremamente ousados ao criar uma redação com editora, repórteres e duas tradutoras (espanhol e inglês). A cada dia os repórteres tinham uma pauta a cumprir que incluía cobrir os shows e a área vip, recolher no final da noite os números oficiais do festival referentes a venda de produtos, público, consumo de bebidas, personagens interessantes na plateia, entre outros.  Traziam detalhes exclusivos dos bastidores além das notícias dos shows que iriam acontecer no dia seguinte, incluindo set list e nome dos músicos. Todo este material era editado/datilografado em português e simultaneamente vertido para o inglês e o espanhol. Na madrugada uma equipe da Unysis recolhia estes dados, digitava e quando no dia seguinte chegávamos à sala de imprensa todo o material estava disponível em cinco gigantes computadores que hoje se assemelhariam a terminais de banco. Os jornalistas podiam ler na tela ou imprimir as informações tanto dos shows do dia anterior como os que aconteceriam naquele dia. Era simplesmente o máximo da tecnologia…

Entre as funções da sala de imprensa havia a tarefa de acompanhar os fotógrafos à frente do palco. Cada artista determinava em contrato qual o tempo que poderiam ser clicados em um espaço que chamávamos de “curral”, mas era privilegiadíssimo, bem em frente ao palco. Alguns não se incomodavam que os fotógrafos ficassem o tempo todo do show, outros autorizavam no máximo uma música e estabelecemos no máximo três músicas. Para evitar qualquer atrito entre fotógrafos e seguranças, fato muito normal, eu seguia junto com o grupo antes de cada show. Os profissionais se posicionavam da melhor forma e ficavam esperando o momento de serem convidados a sair, com toda a delicadeza… Foi por conta disso que tive o prazer de assistir de muito perto alguns artistas como Prince. Jamais vi um adulto tão pequeno, com um salto tão alto e uma bundinha tão estreita… Apesar da Guerra do Golfo ter estourado no dia da abertura do festival, o Rock in Rio II foi um sucesso…Um dos melhores casts que já vi em um festival. Obrigada Maria Rita Stumpf, Deborah Bermann e todos os estagiários.  Nada aconteceria sem vocês.

Tempos de recuperação pós rock. Não conseguia desligar da tomada. Minhas pernas estavam irremediavelmente marcadas com uma safena esclerosada e princípio de trombose diante das tantas horas em pé. Para acalmar aprendi a meditar, reabri o escritório e segui minha vida. “

Momento em que recebi do representantes dos Correios o primeiro selo.

Com Lucinha Araújo, Jorge Gigante então presidente da Coca-Cola, Caio Valli diretor da Artplan

Reflexão

“Gente eu vou falar no grupo pois eu não tenho como dar essa notícia tão dolorida, meu Samuelzinho acabou de falecer…”

A mensagem em áudio com voz embargada era de uma mulher num grupo de whatsaap com mais de 500 integrantes.  Olhei o nome, a foto e não reconheci. Em instantes chegaram mensagens de pêsames, a foto do menino com uns 3 ou 4 anos, e em breve a tragédia estava revelada: um acidente na piscina na casa da avó. O relato desesperado era da própria avó.

Quem escreveria roteiro tão cruel ?

Maior do que a dor, me tocou a forma como essa mulher comunicou o ocorrido: um aplicativo.

Falando para muitos que talvez não a conhecessem e nunca tivessem visto Samuelzinho, fiquei com o sentimento de que não tinha alguém para segurar a mão, abraçar, chorar, até ficar exausta e sem voz. Ou lhe bastaria saber que tantos estariam se solidarizando com o seu sofrimento, mesmo que nunca a tivessem visto, o que era o meu caso.

O tamanho dessa solidão me levou a refletir quando as pessoas deixaram de ter amigos fora das telas do celular.

Na sequencia das mensagens de dor e pêsames que corriam na tela, se intercalavam os assuntos corriqueiros do grupo, conserto de fogão, venda de pão, horário da balsa, telefone de alguém… E para muitos a vida segue, como uma mensagem a mais no whatsaap, páginas viradas e qualquer assunto é só para passar o tempo.

Samuelzinho descanse em paz.

Yayá chegou num dia 5 de maio

Estava na travessia de balsa do rio João de Tiba, distraída, quando uma foto me encontrou: uma cachorrinha magrinha, encolhida na calçada do restaurante Berimbau. O alerta veio pelo grupo de WhatsApp dos “cachorreiros” da Vila de Santo André — gente que tem o coração atento aos cães perdidos ou abandonados. A imagem me tocou. Enviei para a Alexandra, dona do restaurante. Ela, generosa como sempre, logo conseguiu atraí-la com um pouco de ração e água.

Na saída da balsa, passei por lá para conhecer a pequena.

Eu vinha de um luto silencioso, dobrado. Em janeiro, perdi Akira. Em março, Chiquinho. Dois companheiros que deixaram um vazio enorme. Tinha decidido dar um tempo, respirar sem patas pela casa, sem pelos nas roupas. Mas bastou aquele olhar desconfiado e o corpo frágil perto de mim para que algo mudasse. Foi encantamento. Foi flecha certeira.

Ela não se deixava pegar. Arisca, como quem já apanhou demais na vida. Tentamos colocá-la no carro, mas ela fugiu. Escapou de laços, pulou muros, correu para uma casa onde o morador estava ausente. Alexandra pulou a cerca atrás dela, mas a pequena fugiu de novo, dessa vez para o condomínio ao lado. E nós atrás. Quanto mais nos aproximávamos, mais ela se escondia no mato. Desistimos, por ora. Era preciso respeitar seu tempo.

Espalhei fotos pelos grupos. Pedi ajuda. Torci. Até que veio a boa notícia: ela estava bem, acolhida em uma casa do condomínio. Mas a alegria durou pouco — a família já tinha outros cães e não poderia ficar com ela. Ainda assim, era um sinal: talvez ela fosse mesmo minha.

Na sexta-feira, a confirmação. Fui com Alexandra buscá-la. Ela veio ainda assustada, mas quando chegou em casa, se aconchegou como se já conhecesse cada canto. E ali mesmo ganhou nome: Yayá, homenagem à minha mãe, dona Yayá, que faria aniversário naquele 5 de maio. O dia em que encontrei a cachorrinha — ou melhor, o dia em que ela me encontrou.

Porque talvez seja sempre assim: achamos que estamos salvando alguém, mas no fundo, somos nós que estamos sendo salvos.

Santa Cruz Cabrália no Mapa da Criatividade Mundial

Em quase 21 anos como testemunha do desenvolvimento de Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia, o momento de maior projeção internacional que presenciei foi em 2014, quando a Vila de Santo André foi escolhida como base da seleção alemã de futebol durante a Copa do Mundo. Foram dezenas de jornalistas do mundo todo voltados para o pequeno povoado.

Por isso, quando Gregorio Marin trouxe o convite para a cidade participar do Dia Mundial da Criatividade e Inovação, vi ali um passo gigante para um município com pouco mais de 30 mil habitantes e que, nos últimos anos, não havia desenvolvido uma linguagem própria — vivendo à sombra da vizinha Porto Seguro.

O Dia Mundial da Criatividade e Inovação é celebrado em diversos países com o objetivo de estimular o pensamento criativo e propor soluções inovadoras para os desafios globais. Criado em 2001 no Canadá por Marci Segal, a data — 21 de abril — foi escolhida para anteceder propositalmente o Dia da Terra (22 de abril), simbolizando a importância de novas ideias para um futuro sustentável. Em 2017, a ONU reconheceu oficialmente a data, e agora, em 2025, Santa Cruz Cabrália se insere nesse movimento global, entre mais de 100 mil participantes em todo o mundo.

Embora o número exato de países e cidades participantes deste ano ainda não tenha sido divulgado, edições anteriores contaram com cidades de mais de 15 países, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Itália, Portugal, Emirados Árabes Unidos, Japão, Índia, República Dominicana e Sérvia.

Gregorio Marin, apaixonado por inovação e criatividade, chegou a Cabrália há pouco mais de dois anos. Com os amigos Grasi e Loredano Aleixo Junior, Elaine Camacho, Viko Tangoda e Marcos Teixeira, plantou uma semente ao adquirir uma casa centenária em ruínas na Praça Pedro Álvares Cabral. Ali nasceu o “Seu Beira Mar”, restaurante cujo cardápio é assinado pelo chef Viko Tangoda, que logo se tornou referência em alta gastronomia e bom gosto. Aos poucos, foi transformando o movimento da praça com eventos culturais pontuais.

Hoje, o “Seu Beira Mar” é mais que um restaurante: é um agente cultural e o mantenedor do Dia Mundial da Criatividade e Inovação em Cabrália. Com a colaboração de Izabel Tieri e em parceria com a prefeitura e apoio da secretaria de cultura, o projeto saiu do papel, ganhou site, presença nas redes sociais e atraiu convidados ilustres.

A programação destacou a diversidade cultural, reunindo acadêmicos, escritores premiados, educadores, mulheres que trabalham com piaçava, grupos indígenas Pataxó, apresentações de capoeira, maculelê, folia de reis, estética afro, animação com celular e tantas outras manifestações.

Um dos pontos altos foi a roda de conversa sobre Tecnologias Ancestrais, no auditório da Casa de Cultura Seu Jique. Três horas de troca intensa entre convidados e agentes locais, com depoimentos, experiências e propostas para o futuro e a promessa de nos reencontrarmos no ano que vem para acompanhar os avanços.

Tive a honra de ser mestre de cerimônias dessa conversa inspiradora, que contou com as sabedorias de :

Sérgio Bicudo – Consultor e mentor em economia criativa, inovação e transmídia. Mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

Maurício Negro – Artista gráfico, ilustrador, escritor e gestor cultural, premiado internacionalmente.

Bruno Moraes – Educador, mestre em Educação Ambiental e coordenador da Escola da Floresta (RS).

Edson Kayapó – Historiador, escritor e professor indígena do IFBA e UFSB.

Jaime Maciel Bertolino – Psicólogo e diretor terapêutico com foco em saúde mental e desenvolvimento humano.

Álamo Pimentel – Pedagogo, doutor em Educação, professor da UFSB e Secretário de Educação de Cabrália.

Indara Mel – Advogada, professora universitária e Secretária de Meio Ambiente.

Andreza Anjos – Secretária de Cultura, multiartista, conselheira de Igualdade Racial e ativista.

Thayamehy Pataxó – Educadora e Secretária para Assuntos Indígenas.

Nitynawã Pataxó – Liderança da Aldeia da Jaqueira e autora do livro As Guerreiras na História Pataxó.

Aptxiena Pataxó – Jovem liderança e guardião da memória de seu povo.

Com essa mobilização, Santa Cruz Cabrália se tornou a única representante do sul da Bahia entre as mais de 100 cidades brasileiras participantes do World Creativity Day 2025 — ao lado de Salvador, Feira de Santana, Lauro de Freitas, Camaçari e Mata de São João.

A programação dos dias 20, 21 e 22 de abril incluiu:

  • Grupo Cultural Tapurumã ui ikhã do Colégio Estadual Indígena de Coroa Vermelha
  • Encontro de Capoeira com Prof Pinguim e Mestres Barriga e Pé de Chumbo, e Oficina de Maculelê com Professor Pinguim
  • Boneco Budião Azul (Bloco Manga Rosa) com Marquinhos e Vinícius
  • Oficina de Estética Afro – Turbantes, com Moara Sachi
  • Desafio Criativo das Piaçaveiras do Ponto Central
  • Exposição do Coletivo Ybryda, com os artistas Tamykwã Pataxó, Evelyn Emi, êmydyô Tupinambá, Karolaine Pataxó e Jaqueline Pataxó i
  • Oficina de Animação com Celular, com Filip Couto
  • Fábrica de Aplicativo, com Luca Ranna e Evandro Ariqui
  • Moda e Estética dos Cortes de Cabelo da Periferia, com João Pedro S. Fernandes
  • Encontro de Percussão, com Timbaleiros e Grupo Maré da Lua do Centro de Convivência e Cultura de Sto André
  • Bloco Mestre Dezinha e as Nagôs de Belmonte
  • Folia de Santos Reis com Mestre Pedro Piroca e Samba de Roda Pataxó com Mestre Matigoti Pataxó

 Para 2026, uma nova edição já começa a se desenhar em uma cidade que gosta de criar, inovar e, cada vez mais, afirmar sua identidade.

Uma peregrina em Santo André

Nos conhecemos em um cenário bem diferente do que Vila de Santo André. Era janeiro de 1985 quando me recebeu em sua casa na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) para uma entrevista com seu marido Roberto Medina, contando com a presença dos filhos Jomar Jr, Rodolfo e Roberta. A reportagem foi capa do Segundo Caderno do jornal O Globo, edição de domingo, estávamos em pleno Rock in Rio!

Maria Alice Couto Fernandes, ou Maria Alice Medina, mais de 1m70 de altura, o máximo de elegância em bem receber em todos os cenários que nos reencontramos desde então.  E não foram poucos. Do estilo roqueira chic à dona de casa, ela não deixava de ser notada. Eu a via num grupo de meditação ao nascer do dia no período em que o marido esteve sequestrado, como também estudando para o vestibular na faculdade de fisioterapia, acompanhando o marido em viagens ao exterior para contratação de artistas para outras edições do Rock in Rio, se preparando para fazer o caminho de Santiago, e em várias áreas VIPs do festival ao longo de todos esses anos. Uma amizade que não precisa ter presença constante, mas a certeza de que do outro lado tem alguém que lhe quer bem e conhece sua história.

Em 2002 me acompanhou até Santo André numa visita à casa do meu irmão que falecera meses antes. Foram poucos e intensos dias. Há 7 anos morando em Lisboa, vindo ao Brasil algumas vezes para visitar a família e amigos.  Desta vez me deu o privilégio de passar uns dias em minha casa. Chegou um dia antes da Festa de Iemanjá, trazendo como recomendação terapêutica tomar sol, banho de mar e pé na areia. Foi o que encontrou, além de boas conversas e atendimento com ótimos profissionais de bem-estar que lhe cobriram de cuidados. Dias encantados…

Tive tempo de saber dos seus passos em Portugal, sua realização como autora do livro “Do Rock a Compostela” lançado em 2019, onde conta a sua trajetória como mulher e mãe até se tornar peregrina na primeira passagem pelo Caminho de Santiago em 1999. Já fez o trajeto 14 vezes, sendo três saindo da França e as outras de Portugal. E não bastando ainda foi estudar na Universidade de Santiago da Compostela. O livro tem um texto primoroso, pessoal, interessantíssimo, profundo e com fotos belíssimas de sua autoria. Uma peça de edição sofisticada, um livro de mesa, cujo conteúdo bem que mereceria uma edição básica para atingir um público ainda maior.

Falamos também sobre seu envolvimento com projetos sociais em Portugal como Embaixadora da Plataforma do Agora, criada por uma portuguesa residente na Islândia que dá voz aos trabalhos sociais em mais de 60 países via rádio e outros meios de comunicação; diretora e fundadora de Zencancer e diretora de acontecimentos do Instituto Rope, instituição que realiza ações com portadores de doenças terminais. Na área literária, marca presença como membro da Academia Peregrina de Letras, cadeira 21, em São Paulo; participante da Academia Europeia de Escritores da Língua Portuguesa, Embaixadora do Instituto IMLUS, instituição do mundo da língua lusófona e Sócia Fundadora do MIMA – Museu Internacional da Mulher da Língua Lusófona.

Maria Alice não para. Com esse volume de conhecimento se tornou palestrante para peregrinos, mulheres 50+ e também no mundo corporativo onde fala sobre a capacidade de se reinventar. Ainda encontra tempo para ser mãe de três, avó de oito e cultivadora de amigos. Como consta no subtítulo do livro, “às vezes se ganhas às vezes se aprende”, e neste verão creio que percebeu que por aqui sempre sairá ganhando e aprendendo..

Esperamos um breve retorno!

As fotos da festa de Iemanjá são de Maria Alice…. as demais são dos amigos

Uma trajetória no showbusiness

Desde 1986 quando conheci a história de Dody Sirena, quis contar em um livro. As primeiras anotações foram em 1994 e, de lá pra cá, acompanhando sua trajetória, fazendo parte da equipe em diversos projetos, tentei algumas vezes convencê-lo o quanto poderia servir de inspiração para tantos outros sonhadores… Foram algumas negativas, sempre gentis. De tempos em tempos eu voltava ao assunto, até que em dezembro de 2021 acendeu uma esperança…Ele já havia trilhado um longo e bem-sucedido caminho no showbusiness, havia enfrentado a pandemia e, ao contrário de muitos empresários, não se retraiu, mas expandiu os negócios. Foi numa conversa por telefone que propus escrever o livro. Partiria do que vi, dos relatos de muitos profissionais com quem trabalhou, familiares, amigos, além de uma grande pesquisa. Se aprovasse publicaríamos.

Em novembro de 2023 entreguei os originais para análise. Ele ia embarcar alguns dias depois para fechar um grande negócio em Nova York, ficaria alguns dias com uma agenda mais tranquila e poderia ler. Dias depois enviou a mensagem que estava gostando bastante e quando voltasse queria conversar a respeito de algumas passagens. Foram duas longas conversas online quando trouxe comentários relevantes que engrandeceram o meu relato.

E assim, em maio de 2024 “DODY SIRENA, OS BASTIDORES DO SHOWBUSINESS”, lançado pela Matrix Editora, foi lançado com noites de autógrafos no Rio e em São Paulo, e a programada para Porto Alegre foi adiada para novembro devido as enchentes na cidade.  Ótimas críticas, muitas entrevistas e a surpresa para muitos do quanto esse homem construiu em mais de quatro décadas.

Quem quiser conhecer essa história, pode adquirir o livro no link abaixo…

https://matrixeditora.com.br/produtos/dody-sirena-os-bastidores-do-show-business/

Saindo do armário

Estou no clima de “Mudanças”, igual a música da Vanusa e do Sérgio Sá onde sou parceira com o texto falado. Trocando de quarto, fazendo limpeza nos armários constato mais uma vez que a função do guarda-roupa duplex é ser depositário de tudo o que não faz a menor falta no dia a dia, mas acreditamos que um dia vamos precisar… E assim passam anos com “fantasmas” presos em malas e caixas… Esta arrumação era inevitável, procrastinada diversas vezes quase que falou por si pedindo socorro. Me liberte, parece que diziam as caixas de CD e DVD. Estou em tempo de reduzir as memórias físicas, afinal está tudo na nuvem. Já tinha doado uma parte, não tenho nem equipamento e agora resolvi guardar somente registros muito especiais onde o meu trabalho aparece creditado no encarte ou com enorme memória afetiva que poderiam até se transformar em quadros.

Foi assim ao rever “Alma Mater”. Se tivesse que escolher apenas uma trilha sonora dos meus tempos morando em Lisboa seria esta. Descobri por acaso ao ouvir no rádio de um taxi e me encantei com a sonoridade do Rodrigo Leão, ex integrante do grupo Madredeus, que fui direto ao El Corte Inglês, uma enorme loja de departamentos, encontrar este que seria meu grande companheiro em terras lusas.  Além desta “alma” guardada estavam outras memórias que fui folheando e me levando aos momentos em que um dia foram importantes.  Folhear o passado é bom, mas o melhor é começar um álbum novo de figurinhas….

Em tempo : Rodrigo Leão e “Alma Mater” facilmente encontrado no Spotfy e outras plataformas. Trilha nova na casa !