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Não é Natal

A lama no Rio Doce, os tiros em Paris, a queimada na Chapada, tudo isso deixou meus pensamentos desordenados. Tragédias demais colaboraram para que as palavrinhas sumissem e nem consegui escrever na semana passada. Sem contar que quando se aproxima dezembro tudo me confunde…. Por mais que haja planejamento para receber os hospedes, a minha “São Silvestre particular”, uma corrida para que tudo esteja na mais perfeita ordem, acontece juntamente com o meu inferno astral… “Sinto muito, me perdoa, eu te amo, sou grata”, repetir centenas de vezes o mantra do Hoponopono para abaixar a ansiedade, pois sei que tudo vai dar certo, sempre deu…

akira e papai noel

Em meio a costumeira tensão, Helenita, a minha fiel escudeira, retirou do armário a caixa com enfeites de Natal. Tocada pela publicidade no rádio e na tv resolveu me fazer uma surpresa. Limpou cada peça do presépio, as bolinhas coloridas, luzes, anjinhos, enfeites antigos e deixou tudo exposto em uma grande gamela para que não ficasse despercebida a chegada de dezembro. Há alguns dias por onde meu olhar passa, entre a varanda e o escritório, os enfeites cutucam a memória. Dói… Apesar de algumas tentativas o evento “Natal” desapareceu do meu calendário há 14 anos quando, na antevéspera, enterrei meu irmão… Horrível enterrar, por favor me cremem, me joguem no mar, me façam desaparecer num toque de mágica, qualquer coisa mas na terra não… Acontece que naqueles tempos e nesta localidade era o que se podia fazer atendendo a um desejo de “me deixe por aqui, não me leve para o Rio”. Assim, num pequeno cemitério à beira da estrada, em uma cova aberta embaixo de uma árvore para dar sombra e sentir o vento do mar não muito distante, o que restou de seu corpo ficou num 23 de dezembro. Desde então tenho me esforçado para o Natal também não morrer em mim, mas tem sido uma luta árdua…

Há alguns anos coloquei luzes em uma árvore no jardim. Tinha decoração, mas não sentimento. Quase todos os anos insisto em fazer um arremedo de montagem de presépio, prendo umas bolas em um galho seco de açaí, crio um cantinho para o Natal, tudo sem a menor expressividade. Lembro de árvores enormes que com muito prazer montei nas salas de todas as casas por onde passei, sempre dia 1 de dezembro e desmontando 6 de janeiro. Gostava de colocar com antecedência os presentes em sua base e seguindo o meu exemplo, certo ano, um ex-marido deixou uma caixa grande de uma loja de roupas populares com um cartão em meu nome. Durante semanas temi o que encontraria lá dentro, mas na noite da festa ao abrir encontrei uma aliança de brilhantes! Já não tenho mais os brilhantes, há longo tempo troquei-os por uma árvore de natal em Nova York que é uma outra história. Mas o fato é que adorava embrulhar presentes, a cada ano escolhia um papel diferente, como o papel pardo com laço vermelho, papel chiffon vermelho com fita verde, muita imaginação para enfeitar a árvore, presentear a família e os amigos! Na noite de 24 havia a tradicional ceia com a família e antes da troca de presentes papai puxava o coro de “Noite Feliz”. Era uma desafinação coletiva. Ninguém aguentava as notas mais altas e se transformava em uma grande gargalhada. Eu ria para esconder as lágrimas disfarçando a emoção daquele ritual que nos acompanhava desde crianças… No dia 25 o almoço invariavelmente era na casa da Anna Ramalho com tantos amigos em torno de mesa farta e boas conversas…Era um fim de ano feliz.

Não que meus fins de ano deixaram de ser felizes, mas tem outro sabor. É o tempo que o filho chega para uma temporada longa, os hóspedes amigos vêm com novidades, clima de praia, muito sol e a vila que ao longo do ano é vazia, se transforma.  Intermináveis filas na balsa, o sufoco para não faltar mamão papaia nem queijo de minas no café da manhã (desaparecem dos mercados!!), as deliciosas baguettes do padeiro Gilmar, promessas à Santa Clara para que a chuva não atrapalhe os turistas, os brindes com espumante nos finais de tarde na casa de amigos, a alegria de ver os restaurantes cheios e os stands up paddles colorindo o rio e o mar… É tudo muito bom, só não é Natal… Da festa ficou a fé na renovação da vida com o nascimento de Jesus e um restinho de enfeites em algum canto da casa…

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Ele voltou

Na contramão do “desapega”, quando retirei do guarda-roupa o suficiente para encher três sacos de 100 litros que seguiram para doação, fiz um resgate emocional. Percebi que nem tudo o que não se usa mais é para ser descartado e, como num passe de mágica, meu olhar se voltou para ele, repousando há anos bem ao meu lado, ao alcance dos olhos, um velho amigo de tantas alegrias, parceiro de momentos incríveis, companheiro fiel, jamais me deixou na mão, encoberto por uma capa prateada. Ali estava aquele que me trouxe do Rio para a Bahia há 11 anos, o meu Palio branco. Parado na garagem há uns 5 anos, apesar das diversas ofertas para compras, com muito ciúmes não o deixei sair…. Neste período duas tentativas para acordar o pobre carro foram em vão… Em uma o mecânico roubou os pneus, em outra engasgaram o motor.

Um dia eu cuido de você, pensava eu. Mas com a vantagem de um carro novo à disposição, cedido por uma amiga, o Palio foi ficando escondido atrás da capa prata que o protegia da maresia fazendo com que a minha dor de vê-lo abandonado fosse menor. O que os olhos não veem o coração não sente, diz o ditado popular. Guinho, meu braço direitos em assuntos de jardim e outros tantos da vida rural, sugeriu que de vez em quando fizesse uma vistoria para ver se não se transformara em residência de ratos ou outros animais da região como um horrível marsupial que faz ninhos onde menos se espera. Coloquei ratoeiras, mas não vi sinal de fios roídos.

O tempo foi passando e tristemente os pneus murcharam. Não se aguentava mais em pé. Fiquei com pena. Lembrei de quantas ofertas já tive para sua compra e recusei. Um fim inglório. Sem sair do lugar, retirei os pneus, um de cada vez, e levei para consertar. Não estavam furados, apenas cansados de ficar parados, ressecados, mas rapidamente ficaram firmes, tomaram forma… Mas ainda passou um bom tempo até que o ataque de desapega tomou conta de mim e depois de ter me desfeito de todas as roupas dos armários por quem não tinha o menor afeto que me lembrei do carro e resolvi trazê-lo à vida. Sem saber o que era preciso para sua recuperação em função dos anos sem emitir qualquer ruído nem se mexer, resolvi chamar o Samuel, o bom mecânico mineiro que conheci há pouco mais de um ano e por ter me provado total competência teve a honra de levar algo tão especial para a sua oficina.

Para mim, ele não é um Palio qualquer. Tem uma infinidade de referências, lembranças, memórias. Comprei logo depois do Rock in Rio 2001, ainda sob a orientação do meu irmão Victor, que sempre me aconselhava neste e em tantos outros assuntos…Era mais um Fiat na minha vida, pois aprendi a dirigir num 147.  Ele saiu zerinho da revendedora com ar condicionado potente, cd player, janelas e portas automáticas, um luxo para o meu coração… Grandes histórias, algumas alegres, outras menos, mas sempre valente. Quantos sonhos e pensamentos eu tive enquanto o dirigia nas ruas do Rio. Ele me levou ao aeroporto quando fui para Lisboa e me trouxe para a Bahia. Passeou comigo por todo o entorno da costa do descobrimento, me revelou este “quintal” baiano com mistura capixaba e mineirice, passou pelas 10 cidades onde aconteceu a Caravana Veracel, projeto que me permitiu comprar a casa onde moro. Como posso esquecê-lo!

Determinada deixei o Palio partir rebocado e eu não quis assistir a cena. A garagem ficou vazia. Quase todos os dias eu passava pela oficina do Samuel para vê-lo de longe. Respirava por equipamentos, muitos fios saíam do motor. Em outras vezes estava suspenso sendo examinadas as suas partes baixas… Fui forte, me controlei e em nenhum dia telefonei para saber o diagnóstico…. Temia o pior, uma resposta do tipo “não tem mais jeito, só se aproveita a carcaça que por sorte a maresia não comeu…”  Mas a semana passada uma mensagem no WhatsApp trouxe a felicidade de saber que ele estava OK… Havia sobrevivido à água que misturaram no tanque de gasolina que quase o afogou. A bateria que era nova, mas estava parada, reagiu a uma “chupeta” e até o ventilador funcionava mesmo sem gás do ar condicionado. Trocou pastilhas dos freios, filtros e tudo o mais que pudesse lhe dar uma longa vida. E o melhor: o som perfeito. Bota o Raul no CD player…

palio

E assim para a minha alegria ele voltou. Um som inconfundível do motor, prazer vê-lo entrando pelo portão. Nos últimos dias saí muito com ele…. Durinho, baixinho, batutinha, um sucesso. A direção não é hidráulica, mas estou adorando, assim faço musculação. Ainda falta acertar o ar condicionado para refrescar neste verão, resolver a elétrica da janela do carona, um tapete novo, lavar os bancos, um belo banho! Mas estou tão feliz que estes detalhes resolverei na próxima semana quando o levar para desfilar em Porto Seguro. Do jeito que ele está, preciso avisar para não se animar muito e querer pegar a estrada do Rio…

Teclando

Ah! Microsoft e Dell, jamais pensei escrever uma crônica relatando que um problema provocado por vocês mexeu tanto comigo…. De repente comecei a não poder mais usar o Word, meu companheiro há mais de duas décadas. Um aviso repetitivamente travava qualquer trabalho e avisava que o produto não estava registrado…. Assumo já ter usado Office pirata, mas este eu comprei! Não carrego culpa, nem creio em cobranças retroativas em casos deste gênero, por isso fui atrás de um técnico da Dell que, em meio a reinstalação do Office, simplesmente desligou o telefone, interrompeu a operação, pois eram 8 horas da noite em Brasília e os serviços cessam. Assim, simples. O consumidor que se ferre e volte amanhã.

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Estas 12 horas que fiquei sem o Word cheguei à triste conclusão que não sei mais escrever à mão. Até mesmo os bilhetes saem com letra horrorosa. A bem da verdade nunca soube, pois desde os primeiros ensaios em textos na máquina de escrever do papai, depois na Remington verdinha presente do Regis Cardoso, passando pelas Lexingtons das redações, a IBM com esfera no meu escritório e o PC386 com monitor monocromático com o programa Carta Certa, o meu oficio foi exercido nas teclas.

Duro constatar e nada mais a fazer senão colocar um whisky duplo com muito gelo, refletindo sobre o assunto. Antes de chegar nas teclas, as crônicas, textos ou qualquer outra coisa, nascem na minha cabeça. Levo um tempo na maturação. Às vezes divago juntando pecinhas no Mahajong ou números no Rummikub, até as palavrinhas se encontrarem acontecendo o milagre da escrita. É mágico, prazeroso, vital. Nesta noite sem teclado resolvi tentar no celular, mas meu pensamento se perdeu. Passei então ao lápis no papel em branco, mas os dedos, apesar de tortinhos de tanta escrita, agulhas, pincéis outras coisas mais, não respeitaram o meu pensamento. São muito lerdos.

Fui dormir concluindo que o teclado é praticamente uma extensão das minhas mãos. Declaro que jamais poderei viver sem eles, pouco importa se em máquina de escrever, pc ou mac, são o que há de mais essencial para a minha sobrevivência. Certa vez, não sei se li ou ouvi o João Ubaldo comentar a necessidade de escrever todos os dias. Mesmo que não produzisse algo de qualidade, ele se obrigava diariamente a sentar frente ao computador e escrever. Desde que comecei a fazer as crônicas para o portal da Anna Ramalho, tenho seguido este pensamento… Acabo de escrever uma já estou pensando na outra e assim não abandono as palavras que me fazem tanta companhia e bem à minha vida…

Obrigada Microsoft e Dell por terem me dado de volta às palavrinhas… Mesmo tendo ficado muito zangada, o mau humor já passou e agradeço imensamente por esta noite mal dormida e juro minha total submissão aos teclados…

Desafios

Chegou no meio da madrugada uma mensagem no WhatApp.  Tenho o péssimo hábito de dormir com o celular ligado. Primeiro era o telefone fixo ao lado da cama, podia chegar alguma notícia do filho ainda jovem que descobria a noite; depois o telefone e o celular acompanhando a saúde dos pais, e fiquei assim sempre pronta a receber notícias. Apesar do som ser quase inaudível do Aap, acho que foi meu anjo da guarda quem me acordou para ler a triste mensagem da amiga embarcando para o sul a fim de  ver a mãe com a saúde muito delicada… Pude vislumbrar a amiga nervosa, sozinha, no salão de embarque do aeroporto, uma longa e triste madrugada, aguardando um voo e pensando com quem conversar… Lembrou de mim, compartilhou a dor e pediu preces para a mãe que conheci tão bem quando passou uns dias em minha casa… Tenho a lembrança da alegria enorme do casal gaúcho banhando-se na águas de Santo André, assando carne numa churrasqueira improvisada,  tomando chimarrão e contado “causos”.

Crédito Foto: Cláudia Schembri

Esta curta mensagem fez cutucar um assunto que tenho dificuldade em engolir e entender, pois o câncer é um mal que ninguém acredita que poderá ter e, quem tem, não consegue perceber a sua intensidade… Sou prova disso. Eu tinha 22 anos, trabalhava com Flávio Cavalcanti na TV Tupi e fazia um tratamento com o mesmo dentista do patrão. Certo dia Flávio me chamou em sua sala e em tom solene disse que o dentista, muito seu amigo, tinha avisado que eu precisava fazer uma cirurgia urgente. O diagnóstico era um tumor ósseo no maxilar e junto estava um dente do siso incluso. Dias depois fui internada na Clínica Santa Terezinha em Petrópolis, estranhei tanto aparato, um cuidado exagerado, uma cirurgia que acreditava poder ser feita no consultório sem anestesia geral. Na minha cabeça o fato só se justificava por Flávio ser o homem mais importante da tv brasileira e eu sua secretária. Tolinha. Vieram dias tomando sopa, sucos e sorvete, muitos medicamentos, retirei os pontos, fiz novas radiografias e tive alta. Passados uns três anos, estava eu de novo na cadeira do mesmo dentista, de boca aberta, quando ele se dirigiu a um estagiário que tudo acompanhava e, apontando o local de onde havia retirado o dente e o tumor, comentou orgulhoso: “havia um CA, você nem diz! ” Quase mordi o seu dedo, tal a indignação por não ter sido informada que tivera um câncer!  Só naquele momento eu entendia a razão por que sempre ele insistia em radiografias da face a cada seis meses e eu achava uma bobagem.  Reclamei com meus pais que esconderam o assunto, porém nada mais a fazer a não ser ficar atenta para o resto da vida…

Sei que nem com todos é assim. Com meu irmão foi fulminante, apenas 9 meses e o câncer consumiu um homem lindo, vigoroso e inteligente no auge dos seus 56 anos. Acompanhar as suas químios e radioterapias foi duro demais. Ver o cabelo e os pelos sumindo, o corpo magro, e o sentimento de impotência diante da guerra que perdemos. Nestes anos muitos amigos queridos partiram, outros nem tão próximos, mas a quem admirava foram também, e tudo isso sempre em meio a muita dor e sofrimento…. Atualmente além da mãe da amiga que mora quase na fronteira do Uruguai, acompanho um amigo no Rio. Valente, obstinado e focado na superação, tem certeza absoluta que tudo isso é apenas um tempo para reflexão. Acredito também, mas isto não me impede de continuar indagando:

Quem é escolhido ? Como ? Por que ?

Ainda verei muitos partirem pois apesar de tantos paliativos e possibilidades da medicina nem todos escapam. É como um raio que cai despedaçando sem aviso prévio. Uma bomba que nos faz até duvidar dos milagres, perder a crença em uma força superior. Um processo sofrido, às vezes longo, doloroso, talvez mais para a família do que para o enfermo que sempre tem esperança. Minha amiga pede preces à sua mãe. Tenho pedido à Deus, mas nem sempre Ele atende da forma que desejo. Não tenho mais como buscar a resposta à pergunta que sempre me faço diante das dificuldades: “o que tenho que aprender com isso? ”  Creio que isso é maior do que a minha pequena compreensão sobre a vida…  Só consigo repetir, como num mantra, a singela prece “Senhor seja feita a sua vontade e não a minha”.. . E acrescento, “por favor, se possível, seja rápido e tenha piedade”.

Desapega

O coração veio à boca e voltou. Começou a bater forte. Ondas de calores, tremores de frio, tudo misturado, diante de cada um que surgia. Poderia ser bem mais simples, jamais imaginei que seria tomada por este sentimento diante dos muitos CDs que me acompanham há mais de duas décadas e confinei em grandes caixas de plástico.  Cansei de vê-los enfileirados, um apoiado no outro, praticamente mortos, tomando espaço na estante da sala. A música não saía mais deles, nem tenho cd player, tudo vem no computador, nas mídias alternativas, no pen drive, no celular….Tomando poeira e sem que ninguém os quisesse ao menos para admirar suas capas, resolvi recolhê-los até o dia em que surgisse uma ideia melhor. E este dia chegou. Depois de ler o livro da japonesinha que ensina a desapegar, minha vida está mudando de forma galopante.

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A guru japonesa Marie Kondo é autora do best seller “A Mágica da Arrumação” que vendeu mais de 2 milhões de exemplares, andou no topo da lista do The New York Times e foi lançado no Brasil há alguns meses.  Uma amiga deu a dica, encomendei e chegou no correio. Agarrei-me ao livro de tal maneira que desde então só penso em reduzir os meus pertences. Marie que nem inglês fala, é viciada em arrumação desde criancinha. Insistia para que a mãe desapegasse de objetos e mantivesse a casa numa organização minimalista. E foi dessa obsessão que nasceu o método KonMarie que a levou a ser disputada por milionários japoneses que acumulam além de dinheiro muita quinquilharia e querem aprender o detox do supérfluo. Aos 30 anos de idade ela ganhou o mundo falando sobre um programa que criou e que baseia-se em dois fundamentos: a necessidade de reavaliar tudo que se tem em casa para descartar sem dó os itens inúteis e a reorganização do espaço segundo categorias bem definidas. Ela sugere que se examine cada objeto por segmento. Das calcinhas/sutiãs aos suéteres, dos sapatos aos cds, passando pela louça, roupa de cama, banho e festas, bolsas, produtos de limpeza e de banheiro, livros, recuerdos de viagens, fazendo a seguinte pergunta: “Isto me traz alegria? ”

Estou vivendo exatamente o momento “isto me traz alegria” com os CDs, mas já de olho comprido nos livros, nas roupas, objetos de decoração e mais adiante a cozinha, o banheiro, fotografias… Já estabeleci que os CDs do coração serão gravados num HD externo, ocuparão menos espaço e terei para sempre as músicas da minha vida. Estou saboreando estes ensinamentos e me fazendo uma outra pergunta “isto me importa? ” Muito mais do que necessito TER é o PARA QUE carregar tantos objetos…  Ao longo da vida já desmontei muitas casas, doei, deixei para trás, abri mão, com o sentimento de querer me libertar do passado. Foi assim em muitas mudanças. Há alguns anos fiz uma conta e cheguei ao número de 26 mudanças em 23 anos. A última há 11 anos quando vim prá Bahia e me lembro que estava colocando as últimas coisas no carro quando percebi que não teria mais espaço para uma TV. Dei ao porteiro que ficou me acenando com o maior sorriso.

Mas nestes últimos anos novos elementos surgiram…. O guarda roupa que usei como executiva indo e voltando de São Paulo, mais livros, objetos de decoração, lembranças, presentes e haja acúmulo…. Vou esvaziar os armários, liberar espaço, respirar…. No entanto o que mais gostei no livro da japonesinha não foram as dicas para guardar meias esticadas (jamais embrulhar como uma bola!!), dobrar roupas de forma especial para serem acariciadas, ou guardar duas bolsas juntas, uma dentro da outra. Nas últimas páginas ela fala sobre o respeito que se deve ter à casa onde se vive, a importância da moradia, agradecer o teto que se tem.

“Você cumprimenta a sua casa ?” Ela pergunta e conta que se ajoelha no chão, no centro da casa dos clientes, e dirige-se mentalmente ao local. É um ritual silencioso que arranca olhares de espanto. “Assim como cumprimenta seus familiares e seus animais de estimação, faça o mesmo com a casa quando chegar da rua “ sugere Marie. Mesmo antes de ler seu livro ou reportagens sobre sua técnica, faço algo parecido. Sou muito grata pela casa que tenho. Ela é parte fruto do meu trabalho e parte memória da família. E por ser tão feliz aonde vivo que criei o hábito de pela manhã, ao abrir as janelas e portas, agradecer o dia e pedir que além do sol, entre muita saúde, alegria, prosperidade, harmonia… À noite, ao fechar cada uma das 9 portas e janelas da parte de baixo da casa, peço proteção e paz… Este pequeno ritual me faz muito bem e acredito que a vida vai ficar ainda muito melhor depois que puser a casa em ordem…

Braços de fora

Joguei mais uma peça de roupa em cima da cama e só então percebi que o guarda-roupa estava praticamente vazio. Saias, vestidos, blusas, calças, xales, lenços, formavam uma enorme montanha no mais autêntico estilo nada serve, nada combina. Depois de meia hora desfilando frente ao espelho para achar uma roupinha simples e ir ao encontro de amigos num bar, a ficha caiu. O problema não estava na cintura que aumentou uns centímetros, ou nos braços que já não aguentam mais ficar fora das mangas na baixa estação, mas a insatisfação era única e exclusivamente minha.

Não conheço mulher que não tenha passado por uma situação dessas. Tem dias que nada serve nada presta nada vale, nem nós mesmas. São dias que poderíamos pular no calendário, esquecer que existiram, não valem nem guardar como experiência de vida. Mas são dias que existem, às vezes muito mais do que desejamos. Jamais assisti um filme ou li em livros, a cena de um homem frente ao espelho colocando e tirando compulsivamente uma gravata, ou uma camiseta básica para ir tomar um chopp com os amigos.

Foto: Alexandre Campbell Penna

Chego a acreditar que o privilégio da transformação, tirar a pele e se recompor como um camaleão, é única exclusivamente feminina. Vem no mesmo pacote do processo da fêmea cujos óvulos caem no útero e se não forem surpreendidos na trajetória se escamam, dissolvem e jorram mensalmente por entre nossas pernas. Passamos boa parte de nossas vidas nos recompondo mês a mês, por dentro e por fora, experimentando as mais incrédulas sensações, como se tivéssemos permanentemente um espelho à nossa frente esperando qual personagem irá se refletir.

Somos e fomos uma coleção de personas. Há pouco tempo abri uma caixa com velhas fotos e fiquei procurando um ponto em comum em todas aquelas carinhas que se transmutavam ora em cabelos claros, outros escuros, longos, curtos, lisos, ondulados…. Fiquei analisando aonde eu realmente me reconheceria em qualquer circunstância e só então pude perceber que me encontro num certo jeito de olhar a vida com muita vontade. Um olhar que às vezes se acanha, outras encara, mas com a coerência de enfrentar o que vier sem medo. Não importa se foram os tempos de vacas gordas ou magras, se a roupa era chic de boutique ou costurada pela vovó, se o cenário de fundo era Nova York ou a Tijuca, se sozinha ou acompanhada, mas em todas aquelas fotos o olhar refletia a alma de quem acredita que viver vale a pena.

E é por isso que fico até envergonhada quando vejo na cama um monte de roupas empilhadas. Seda, linho, crepe, jeans, chita, algodãozinho barato, jersey, tudo se mistura e qualquer dia vai virar trapo. Não tem escapatória, é o destino do pano que nem traz alguma verdade ou faz diferença. Serve somente para cobrir um corpo e dar algum status. E eu ainda fico ali, vendo o que serve e o que não serve, combina ou não combina, sendo que a sensação de desconforto é puramente interior. Melhor seria esquecer a conversa com amigos, ler um livro, dormir mais cedo ou simplesmente trabalhar na consciência de que o verdadeiro poder está dentro de mim. Enquanto ficar brincando de pôr e tirar roupinha, como fazia com as bonecas de papelão que recortava das revistas que vinham no jornal de domingo, nada vai prestar ou saciar a minha busca…

Busca de roupa interior, de algum véu que se rompeu em algum momento e me deixou desnuda na confiança da luz que cada um carrega dentro de si. Algo invisível, intangível, um brilho além desta vida, que será sentido profundamente quando conseguir sem ressentimentos ou comparações deixar os braços de fora em qualquer estação.

Mão na massa

Acabei me interessando pelo assunto só para dar uma força aos amigos.  Talvez com mais um aluno a professora se animasse. Eu sempre reconheci a minha inabilidade para artes plásticas. Com agulhas, linhas, tecidos até que me resolvo. E foi apenas para ter quórum que há um mês comecei com aulas de cerâmica, duas vezes por semana. No primeiro encontro com a argila me apaixonei. Amor ao primeiro toque.  Lembrei muito dos sentimentos já vividos, daquela festa que se pensa ser muito chata e se torna a melhor de todos os tempos, assim nasceu a minha relação com o barro.  Fascinante descobrir um novo repleto de segredos, jeitinhos e vontades. É praticamente um ser em transformação, chego a pensar que tem vida própria, em outros momentos acho que me escolhe para criar alguma peça…

Lembrei de uma história que ouvi a respeito do Dr. Roberto Marinho, não sei se é verídica, mas é bem bacana e adoraria que fosse. Conta a lenda que o poderoso criador da Rede Globo de Televisão, responsável pelo sucesso do sistema Globo de tudo, depois dos 80, em alguns dias na semana fazia aulas de cerâmica para evitar a artrite. Chego a imaginar Dr. Roberto – era assim que o chamávamos em O Globo – em um atelier super sofisticado, com um mega forno, cercado pelas melhores argilas do mundo, de todas as cores, “brincando de massinha”, transformando em potinhos, pratos, vasos, pequenas esculturas…

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Os meus dedinhos médio e indicador que de tanto escrever ficaram tortinhos, estão agradecendo por estes exercícios. Como é prazeroso mexer no barro! Coloco literalmente a mão na massa e vou mexendo aquela consistência, às vezes mais rígida, outras molhada, colocando força, muita energia para esticar como se fosse uma massa de pizza, atenta às bolhas que podem prejudicar o trabalho, batendo firme e depois, delicadamente, criando as peças… E nada se faz em um dia. Só mesmo o homem que Deus criou que, como consta na Bíblia, saiu do barro. No final da aula as peças são levadas para descansar e retomamos ao acabamento.

Ah! Como tem sido rica esta espera!  O exercício de dar um tempo e dias depois voltar a trabalhar a peça que ainda não está em ponto de forno, cuidar dos detalhes com pequenos instrumentos improvisados, do cabo de uma escova de dentes a uma agulha de crochê. Tudo muito delicado.  Paciência, este um grande desafio. Para uma capricorniana prática é quebrar paradigmas. E estou aprendendo com uma dedicada professora e três amigos, cada um com seu jeito de construir suas obras. Rimos muito, às vezes cantamos, contamos intimidades, uma catarse em meio ao barro.  Comentamos que no fim do ano faremos uma exposição, mas muito mais do que expor aos outros temos a nos mostrar superações. Reconheço que somos artistas. Um escreve poesias em suas peças; outra trabalha simetricamente, detalhista, ao máximo do capricho e energia; e a terceira que se denomina artesã aposentada, é uma artista na plena extensão da palavra.

Estou me descobrindo mais uma vez, refletindo enquanto construo potes, vasos, porta velas, pratos, todos assinados, que distribuirei entre amigos com a lembrança de mais um aprendizado.

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Visita

A casa dos meus pais tinha muitos braços abertos, bem mais do que o número de quartos. Papai e mamãe nasceram no Paraná e foram os primeiros de suas famílias a “ganhar o mundo”, entenda-se Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, por isso desde muito pequena lembro que tínhamos hóspedes. Eram parentes e amigos que chegavam para temporadas, como a tia avó que foi conhecer o mar e passava os dias sentada na poltrona favorita do papai recortando e emendando tecidos criando infindáveis tapetinhos; a prima da mamãe que se refugiou com o neto enquanto o filho, recém separado, mexia os pauzinhos para ter a guarda do menino. Teve também o padre de São Paulo que ia embarcar para Roma e como o avião saía do Galeão passou dias conhecendo a cidade tendo papai como guia turístico. Detalhe: papai não era católico, mas o ajudara a levantar fundos para construir uma igreja. A garota americana veio com um coral e a pedido da minha madrinha ficou conosco 15 dias. Ela não falava português, nós gaguejávamos inglês e fomos felizes. Uma prima que foi fazer extensão na Escola de Belas Artes e ficou quase um ano, e outra que fez também um longo curso de Biologia. Mas o melhor de tudo foi quando meu irmão Victor levou para casa um jovem peruano mochileiro que, através de amigos, conheceu na rua. Juan viajara de carona até o Rio carregando na mochila mais livros do que roupas. Apresentava-se como periodista (jornalista) isto em pleno ano da graça de 1966, no meio da “revolução”. Morou três meses em nossa casa e mamãe, penalizada com a penúria do rapaz, todo dia lhe dava um trocado para o ônibus e o cigarro. Saía de manhã, voltava a noitinha, e dizia que frequentava as universidades. Quis conhecer Brasília, papai conseguiu uma carona em um caminhão que transportava medicamentos e, para repatria-lo conseguiu um lugarzinho num voo do Correio Aéreo Nacional. Depois que ele partiu concluímos que deveria ser um agitador comunista. E papai era de direita!

Lembrei desses fatos enquanto lia o e-mail de uma amiga pedindo hospedagem para um casal que fotografa passarinhos e viaja de carro pelo país registrando as espécies mais incríveis. Impossível negar acolhida. Foi assim que conheci Gabi e Re (Gabriela Giovanka e Renato Rizzaro), idealizadores do tradicional pôster ilustrado com aves brasileiras e que desde 2005 viajam para documentar aves. Em 2009 foi publicado o pôster com uma coleção de aves da Mata Atlântica, seguido de aves do Pantanal (2010), Amazônia (2013), Pampa (2014) e Cerrado (2015). Agora chegou a vez da Caatinga. Felizes, queridos, bem-humorados, comprometidos com a natureza, eles batalharam para recuperar e manter uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), a Reserva Rio das Furnas, com 53 alqueires, distante 80km de Florianópolis, onde cercados por 7 cachoeiras convivem com pumas e outras tantas espécies em extinção.

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Falamos muito sobre vida na contramão. O quanto é bom se trabalhar com paixão e comprometimento. Por onde passam, em uma escola ou ONG, dedicam algumas horas com o projeto Roda de Passarinho, onde levam às crianças a refletir sobre a importância da liberdade e preservação da natureza. O carro em que viajam é uma Toyota, e também funciona como casa, sem ser um trailer. Foi adaptada, pode ser usada como confortável cama de casal com 2ms de comprimento, tem armários horizontais como gavetas, um pequeno depósito cozinha, bandeirinhas enfeitando a janela para dar um toque doméstico. Vivem com o mínimo, num máximo de qualidade. Sonham com que as RPPNs se multipliquem e, enquanto viaja fotografando passarinhos, Renato também encontra tempo para fazer lindos trabalhos editoriais. Deixou-me dois maravilhosos livros sobre Santa Catarina, design seu, o registro de alguns passarinhos no meu “quintal alado” e a certeza de uma nova amizade… Qualquer dia eles voltam, e eu espero pois adoro conhecer gente nova… Aprendi com meus pais.

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Com Valdir Siqueira, sempre uma lembrança

Com Valdir Siqueira, sempre uma lembrança

“Mesmo tendo deixado o Canecão, eu ainda estava como muito trabalho. Isso não era de todo ruim, pois significava um bom faturamento, mas trazia muita responsabilidade. Na verdade, eu não sabia o quanto eu queria crescer, não imaginava realmente o que era ter um grande escritório, com dezenas de clientes e funcionários, PIS, PASEP, FGTS e outras coisas mais. O que eu gostava mesmo era cuidar de cada projeto como sendo o único, pensar nos detalhes, construir junto com a equipe e o cliente uma comunicação sob medida. Diante destas divagações, uma noite trocando ideias com a querida amiga Ana Maria Ramalho, ela me deu uma sugestão: “Fecha o escritório e dá um tempo. Vai conversar com o Valdir e o Lula, eles estão precisando de um gerente de comunicação para a agência.” Antes de ser jornalista, eu desejei ser publicitária. Foi em uma agência de publicidade em que eu tive o meu primeiro emprego com carteira assinada. Era uma das maiores agências do país, e eu cheguei lá através de um anúncio do jornal procurando por uma recepcionista. Eu tinha 18 anos e fazia um curso na ABP (Associação Brasileira de Propaganda), ao mesmo tempo em que me preparava para o vestibular de psicologia. Meu pai fez parte da primeira turma de Publicidade formada em São Paulo nos anos 1950 e com um enorme prazer, ele me contava sobre as maravilhas do mundo do marketing: uma palavrinha tão especial que nem recebeu tradução, e que acabou sendo incorporada em sua forma original à Língua Portuguesa. Ele foi uma influência importante para mim. Assim, segui a sugestão da Ramalho e fui ao encontro do Valdir (Siqueira)7 e do Lula (Vieira)8 na simpática casa numa rua tranquila do Humaitá.
Com o Aias Lopes e Carlos Alberto Carmo (Carlão), eles formavam a cúpula da V&S Propaganda, uma agência premiada, com clientes importantes. Era um clima muito gostoso, que me cativou desde a primeira conversa. Parecia com o meu escritório, funcionava em uma casinha numa vila entre Laranjeiras e o Flamengo. Fui para casa com a cabeça a mil. Passei o fim de semana divagando sobre a proposta deles e voltei a um ponto que sempre me norteia nos momentos de alguma grande decisão: a certeza de que meu maior tesouro é meu caderno de telefones. É uma forma figurativa de dizer que os amigos – as pessoas que encontrei ao logo da vida e as relações construídas com eles – são importantes e me acompanham em qualquer caminho. Diante disso, tomei a decisão que achava mais coerente para aquele momento: iria ampliar o meu conhecimento em comunicação, vivendo no mundo corporativo. A partir daí, foi tranquilo para fechar o meu escritório: encaminhei a equipe para outros trabalhos, conversei com os clientes (alguns continuaria atendendo), desfiz o contrato da casa e sem qualquer apego doei alguns móveis, levei outros, assim como todo o arquivo de memórias. E comecei um novo tempo. Estava fascinada com a possibilidade de trabalhar de segunda a sexta, com horário fixo para chegar e para sair, sem contar que teria um bom salário no final do mês. Era exatamente esse o tempo do qual eu precisava, e me entusiasmava saber que estaria mais uma vez à frente de um desafio. Como a função de Gerente de Comunicação não existia na agência, estava livre para criar uma estrutura voltada exclusivamente para o mundo corporativo, trazendo o know-how adquirido com o meu escritório de eventos. Fui incorporada à nova área da agência, a Central de Informações, um departamento que funcionava em uma sala que era um grande arquivo de referências de imagens que poderiam ser usadas na montagem de provas de anúncios, para serem apresentadas aos clientes. Fiquei fascinada com aquela quantidade enorme de revistas, livros e pastas. Em tempos sem computador, todos os recortes eram arquivados em pastas. O que temos hoje em pastas do Windows (e outros sistemas operacionais), fazíamos em pastas de papelão,
algumas vezes até em caixas, com requintes, como por exemplo, a pasta de recortes sobre copos ter sub pastas, com taças, copos de plástico, todos os tipos possíveis e imaginários. O trabalho mais básico que era desenvolvido pela Central de Informações era o clipping, que ganhou uma cara nova. Geralmente, eu contratava uma empresa de clipping para atender aos projetos dos clientes, mas, neste caso, percebi que era uma ação muito mais subjetiva. Não precisávamos apenas saber tudo o que saísse de um determinado cliente, mas apenas o que poderia interessar às diversas áreas de agência, analisar tendências e oportunidades. Para fugir do padrão de recortes colados em folhas brancas, acrescentávamos desenhos, figuras e antigos anúncios retirados da minha coleção da revista Fonfon, o que dava um charme especial ao clipping. Eles deixavam de ser aquelas folhas grampeadas que passavam dias jogadas em cima de uma mesa. Mais uma vez, seguindo as mesmas exigências de qualidade de não ter recorte torto, nem mancha de cola. Tinha que ser objeto de desejo. Além das relações com a imprensa do segmento de propaganda e marketing, comecei a buscar assuntos para entrar em outras áreas. A V&S tinha entre seus clientes o Ministério da Saúde e estava lançando uma campanha promovendo consultórios odontológicos em comunidades. Mussum fazia muito sucesso no programa Os Trapalhões, tinha um sorriso bonito e foi contratado para ser o “garoto propaganda” da campanha. Como eu o entrevistara algumas vezes, sabia que ele tinha sido um menino pobre, e o convenci de que esta era uma boa oportunidade para dar um testemunho sobre a importância do comercial gravado. A entrevista saiu em uma coluna de televisão, e para além do comercial, o assunto ganhou vida em um depoimento verdadeiro, agregando um enorme valor ao trabalho da agência. Trabalhando com Cristina Ramalho e Júlio Marques, em uma equipe enxuta e afinada, conseguíamos fazer mil atividades simultaneamente. Desde preparar a lista de convidados para festas de premiação de publicidade, até embalar centenas de incensos artesanais em pequenas caixinhas como brinde de fim de ano. Organizávamos as festas mensais temáticas reunindo os funcionários, e criamos uma rádio para estas comemorações, onde qualquer um poderia oferecer uma música com uma mensagem. A rádio acabou fechando quando um funcionário dedicou a música “Comida” dos Titãs para o Diretor Financeiro, e aumentou o volume bem no trecho “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Em outra oportunidade, distribuímos algumas dúzias de vasos de violetas que foram encomendados para uma ação promocional cancelada um dia antes. Para não perder as flores, antecipamos o dia da secretária e fomos extremamente criativos, como uma boa agência. A V&S era uma empresa com profissionais da melhor qualidade, e era tão antenada com sua equipe, que havia reuniões semanais com uma psicóloga que atendia, separadamente, o Grupo da Diretoria e o Grupo de Gerentes. Enfim, era uma agência que pagava até o analista! Fomos felizes por pouco mais de um ano, até que uma proposta sedutora tirou o meu sossego e resolvi partir para novas experiências, mas com a certeza que este tempo corporativo tinha acrescentado muito na minha forma de encarar a assessoria de imprensa. A partir disso, eu podia tudo.
notas
7. Valdir Siqueira, paulista e publicitário, começou na agência Selo Azul, e de lá foi para a JMM Publicidade, depois, mudou para a SSC&B Lintas Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1976, foi para a multinacional J.Walter Thompson, onde conheceu Lula Vieira. Em 1982, fundou com ele a VS Escala, que depois passou a ser simplesmente V&S Propaganda. Foi duas vezes escolhido como Melhor Executivo do Ano pela ABP, e depois como Publicitário do Ano. De 1995 a 1998 presidiu a Federação Nacional das Agência de Propaganda (Fenapro). Foi presidente da APAR Rio, e depois da ABAP Nacional. Também foi ele o fundador e vice-presidente do CEMP. Formado em Publicidade na primeira turma
da ESPM-Rio, Valdir participou de diversas entidades de classe, tendo sido um dos fundadores da Associação Brasileira de Marketing, e presidente da Associação Brasileira de Propaganda. Lecionou publicidade e propaganda na PUC Rio, na ESPM e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, faz parte do Conselho Fundador e da diretoria do Conselho do Desenvolvimento Sustentável da Baia da Ilha Grande.”

Trecho do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”

30 anos de rock

Capara do livro

Capa do livro

Depois de 3 anos morando em Nova York em 1984 voltei a morar no Rio e restabeleci minha relação de trabalho como freelancer no Segundo Caderno de O Globo. Naquele tempo ofereciam ao “freelancer” reportagens que a equipe fixa ou não tinha interesse ou disponibilidade para fazer. Acredito que por ter sido repórter especial na área de cultura durante 5 anos na mesma editoria, recebi a tarefa de ouvir Roberto Medina “aquele publicitário visionário” que estava anunciando um enorme festival de rock para o ano seguinte.  Na sala de reunião da Artplan na Lagoa lembro perfeitamente de ter ficado extasiada frente a ilustração do Benício mostrando como ficaria a Cidade do Rock. Foi amor à primeira vista. Conhecia Roberto há muitos anos, admirava as realizações de seu pai Abraham Medina e fiquei boquiaberta com a capacidade de projetar algo tão grandioso para um Brasil tão tímido em matéria de showbusiness. Por ter vivido nos Estados Unidos tão recentemente eu tomara conhecimento de grandes festivais e eventos, mas nada se comparava a este. Fiz a primeira reportagem, tentei convencer ao editor que merecia uma capa do Segundo Caderno, mas tudo que consegui foi uma matéria de duas colunas numa página interna. O assunto era tratado com pouco crédito, nas entrelinhas eu entendia que viam como um delírio. Depois desta reportagem fiz outra, mais outra, e acabei me tornando uma espécie de setorista de “rock in rio” dentro do Segundo Caderno, ou seja, aquela repórter que fica colhendo informações sobre o mesmo assunto. Era um tema que poucos na redação acreditavam e eu estava completamente encantada com a ousadia e dimensão. Mesmo sem bola de cristal eu conseguia ver o que representaria para país.

Quando o festival aconteceu em janeiro de 85 eu tinha uma intimidade com o evento como nenhum outro repórter do jornal. Sabia de cor quantos caminhões de terra, quilômetros de grama, milhares de metros de fios para a iluminação “bailarina” criada pelo light designer Peter Gasper  e todos os detalhes do mega evento. Poucas semanas antes do festival começar Roberto me concedeu uma entrevista exclusiva que finalmente consegui colocar na capa do Segundo Caderno do jornal O Globo no primeiro domingo do Rock in Rio. Nesta reportagem ele contava sobre sua vida, o desejo de ser poeta, a influência do pai e o desafio de fazer o festival. Uma das fotos que ilustrou a matéria mostra a família, tendo Roberta e Rodolfo, hoje principais cabeças do festival, ainda bem crianças. Como “prêmio” fiquei 10 dias trabalhando no sol e na lama, escrevendo para o jornal críticas, matérias sobre comportamento, tudo o que estivesse acontecendo, e quando o festival acabou, Medina fez o convite para que no próximo eu integrasse sua equipe. E lá estava eu. Rock in Rio Eu Acredito.