“Gente eu vou falar no grupo pois eu não tenho como dar essa notícia tão dolorida, meu Samuelzinho acabou de falecer…”
A mensagem em áudio com voz embargada era de uma mulher num grupo de whatsaap com mais de 500 integrantes. Olhei o nome, a foto e não reconheci. Em instantes chegaram mensagens de pêsames, a foto do menino com uns 3 ou 4 anos, e em breve a tragédia estava revelada: um acidente na piscina na casa da avó. O relato desesperado era da própria avó.
Quem escreveria roteiro tão cruel ?
Maior do que a dor, me tocou a forma como essa mulher comunicou o ocorrido: um aplicativo.
Falando para muitos que talvez não a conhecessem e nunca tivessem visto Samuelzinho, fiquei com o sentimento de que não tinha alguém para segurar a mão, abraçar, chorar, até ficar exausta e sem voz. Ou lhe bastaria saber que tantos estariam se solidarizando com o seu sofrimento, mesmo que nunca a tivessem visto, o que era o meu caso.
O tamanho dessa solidão me levou a refletir quando as pessoas deixaram de ter amigos fora das telas do celular.
Na sequencia das mensagens de dor e pêsames que corriam na tela, se intercalavam os assuntos corriqueiros do grupo, conserto de fogão, venda de pão, horário da balsa, telefone de alguém… E para muitos a vida segue, como uma mensagem a mais no whatsaap, páginas viradas e qualquer assunto é só para passar o tempo.
Estava na travessia de balsa do rio João de Tiba, distraída, quando uma foto me encontrou: uma cachorrinha magrinha, encolhida na calçada do restaurante Berimbau. O alerta veio pelo grupo de WhatsApp dos “cachorreiros” da Vila de Santo André — gente que tem o coração atento aos cães perdidos ou abandonados. A imagem me tocou. Enviei para a Alexandra, dona do restaurante. Ela, generosa como sempre, logo conseguiu atraí-la com um pouco de ração e água.
Na saída da balsa, passei por lá para conhecer a pequena.
Eu vinha de um luto silencioso, dobrado. Em janeiro, perdi Akira. Em março, Chiquinho. Dois companheiros que deixaram um vazio enorme. Tinha decidido dar um tempo, respirar sem patas pela casa, sem pelos nas roupas. Mas bastou aquele olhar desconfiado e o corpo frágil perto de mim para que algo mudasse. Foi encantamento. Foi flecha certeira.
Ela não se deixava pegar. Arisca, como quem já apanhou demais na vida. Tentamos colocá-la no carro, mas ela fugiu. Escapou de laços, pulou muros, correu para uma casa onde o morador estava ausente. Alexandra pulou a cerca atrás dela, mas a pequena fugiu de novo, dessa vez para o condomínio ao lado. E nós atrás. Quanto mais nos aproximávamos, mais ela se escondia no mato. Desistimos, por ora. Era preciso respeitar seu tempo.
Espalhei fotos pelos grupos. Pedi ajuda. Torci. Até que veio a boa notícia: ela estava bem, acolhida em uma casa do condomínio. Mas a alegria durou pouco — a família já tinha outros cães e não poderia ficar com ela. Ainda assim, era um sinal: talvez ela fosse mesmo minha.
Na sexta-feira, a confirmação. Fui com Alexandra buscá-la. Ela veio ainda assustada, mas quando chegou em casa, se aconchegou como se já conhecesse cada canto. E ali mesmo ganhou nome: Yayá, homenagem à minha mãe, dona Yayá, que faria aniversário naquele 5 de maio. O dia em que encontrei a cachorrinha — ou melhor, o dia em que ela me encontrou.
Porque talvez seja sempre assim: achamos que estamos salvando alguém, mas no fundo, somos nós que estamos sendo salvos.
Em quase 21 anos como testemunha do desenvolvimento de Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia, o momento de maior projeção internacional que presenciei foi em 2014, quando a Vila de Santo André foi escolhida como base da seleção alemã de futebol durante a Copa do Mundo. Foram dezenas de jornalistas do mundo todo voltados para o pequeno povoado.
Por isso, quando Gregorio Marin trouxe o convite para a cidade participar do Dia Mundial da Criatividade e Inovação, vi ali um passo gigante para um município com pouco mais de 30 mil habitantes e que, nos últimos anos, não havia desenvolvido uma linguagem própria — vivendo à sombra da vizinha Porto Seguro.
O Dia Mundial da Criatividade e Inovação é celebrado em diversos países com o objetivo de estimular o pensamento criativo e propor soluções inovadoras para os desafios globais. Criado em 2001 no Canadá por Marci Segal, a data — 21 de abril — foi escolhida para anteceder propositalmente o Dia da Terra (22 de abril), simbolizando a importância de novas ideias para um futuro sustentável. Em 2017, a ONU reconheceu oficialmente a data, e agora, em 2025, Santa Cruz Cabrália se insere nesse movimento global, entre mais de 100 mil participantes em todo o mundo.
Embora o número exato de países e cidades participantes deste ano ainda não tenha sido divulgado, edições anteriores contaram com cidades de mais de 15 países, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Itália, Portugal, Emirados Árabes Unidos, Japão, Índia, República Dominicana e Sérvia.
Gregorio Marin, apaixonado por inovação e criatividade, chegou a Cabrália há pouco mais de dois anos. Com os amigos Grasi e Loredano Aleixo Junior, Elaine Camacho, Viko Tangoda e Marcos Teixeira, plantou uma semente ao adquirir uma casa centenária em ruínas na Praça Pedro Álvares Cabral. Ali nasceu o “Seu Beira Mar”, restaurante cujo cardápio é assinado pelo chef Viko Tangoda, que logo se tornou referência em alta gastronomia e bom gosto. Aos poucos, foi transformando o movimento da praça com eventos culturais pontuais.
Hoje, o “Seu Beira Mar” é mais que um restaurante: é um agente cultural e o mantenedor do Dia Mundial da Criatividade e Inovação em Cabrália. Com a colaboração de Izabel Tieri e em parceria com a prefeitura e apoio da secretaria de cultura, o projeto saiu do papel, ganhou site, presença nas redes sociais e atraiu convidados ilustres.
A programação destacou a diversidade cultural, reunindo acadêmicos, escritores premiados, educadores, mulheres que trabalham com piaçava, grupos indígenas Pataxó, apresentações de capoeira, maculelê, folia de reis, estética afro, animação com celular e tantas outras manifestações.
Um dos pontos altos foi a roda de conversa sobre Tecnologias Ancestrais, no auditório da Casa de Cultura Seu Jique. Três horas de troca intensa entre convidados e agentes locais, com depoimentos, experiências e propostas para o futuro e a promessa de nos reencontrarmos no ano que vem para acompanhar os avanços.
Tive a honra de ser mestre de cerimônias dessa conversa inspiradora, que contou com as sabedorias de :
Sérgio Bicudo – Consultor e mentor em economia criativa, inovação e transmídia. Mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.
Maurício Negro – Artista gráfico, ilustrador, escritor e gestor cultural, premiado internacionalmente.
Bruno Moraes – Educador, mestre em Educação Ambiental e coordenador da Escola da Floresta (RS).
Edson Kayapó – Historiador, escritor e professor indígena do IFBA e UFSB.
Jaime Maciel Bertolino – Psicólogo e diretor terapêutico com foco em saúde mental e desenvolvimento humano.
Álamo Pimentel – Pedagogo, doutor em Educação, professor da UFSB e Secretário de Educação de Cabrália.
Indara Mel – Advogada, professora universitária e Secretária de Meio Ambiente.
Andreza Anjos – Secretária de Cultura, multiartista, conselheira de Igualdade Racial e ativista.
Thayamehy Pataxó – Educadora e Secretária para Assuntos Indígenas.
Nitynawã Pataxó – Liderança da Aldeia da Jaqueira e autora do livro As Guerreiras na História Pataxó.
Aptxiena Pataxó – Jovem liderança e guardião da memória de seu povo.
Com essa mobilização, Santa Cruz Cabrália se tornou a única representante do sul da Bahia entre as mais de 100 cidades brasileiras participantes do World Creativity Day 2025 — ao lado de Salvador, Feira de Santana, Lauro de Freitas, Camaçari e Mata de São João.
A programação dos dias 20, 21 e 22 de abril incluiu:
Grupo Cultural Tapurumã ui ikhã do Colégio Estadual Indígena de Coroa Vermelha
Encontro de Capoeira com Prof Pinguim e Mestres Barriga e Pé de Chumbo, e Oficina de Maculelê com Professor Pinguim
Boneco Budião Azul (Bloco Manga Rosa) com Marquinhos e Vinícius
Oficina de Estética Afro – Turbantes, com Moara Sachi
Desafio Criativo das Piaçaveiras do Ponto Central
Exposição do Coletivo Ybryda, com os artistas Tamykwã Pataxó, Evelyn Emi, êmydyô Tupinambá, Karolaine Pataxó e Jaqueline Pataxó i
Oficina de Animação com Celular, com Filip Couto
Fábrica de Aplicativo, com Luca Ranna e Evandro Ariqui
Moda e Estética dos Cortes de Cabelo da Periferia, com João Pedro S. Fernandes
Encontro de Percussão, com Timbaleiros e Grupo Maré da Lua do Centro de Convivência e Cultura de Sto André
Bloco Mestre Dezinha e as Nagôs de Belmonte
Folia de Santos Reis com Mestre Pedro Piroca e Samba de Roda Pataxó com Mestre Matigoti Pataxó
Para 2026, uma nova edição já começa a se desenhar em uma cidade que gosta de criar, inovar e, cada vez mais, afirmar sua identidade.
Nos conhecemos em um cenário bem diferente do que Vila de Santo André. Era janeiro de 1985 quando me recebeu em sua casa na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) para uma entrevista com seu marido Roberto Medina, contando com a presença dos filhos Jomar Jr, Rodolfo e Roberta. A reportagem foi capa do Segundo Caderno do jornal O Globo, edição de domingo, estávamos em pleno Rock in Rio!
Maria Alice Couto Fernandes, ou Maria Alice Medina, mais de 1m70 de altura, o máximo de elegância em bem receber em todos os cenários que nos reencontramos desde então. E não foram poucos. Do estilo roqueira chic à dona de casa, ela não deixava de ser notada. Eu a via num grupo de meditação ao nascer do dia no período em que o marido esteve sequestrado, como também estudando para o vestibular na faculdade de fisioterapia, acompanhando o marido em viagens ao exterior para contratação de artistas para outras edições do Rock in Rio, se preparando para fazer o caminho de Santiago, e em várias áreas VIPs do festival ao longo de todos esses anos. Uma amizade que não precisa ter presença constante, mas a certeza de que do outro lado tem alguém que lhe quer bem e conhece sua história.
Em 2002 me acompanhou até Santo André numa visita à casa do meu irmão que falecera meses antes. Foram poucos e intensos dias. Há 7 anos morando em Lisboa, vindo ao Brasil algumas vezes para visitar a família e amigos. Desta vez me deu o privilégio de passar uns dias em minha casa. Chegou um dia antes da Festa de Iemanjá, trazendo como recomendação terapêutica tomar sol, banho de mar e pé na areia. Foi o que encontrou, além de boas conversas e atendimento com ótimos profissionais de bem-estar que lhe cobriram de cuidados. Dias encantados…
Tive tempo de saber dos seus passos em Portugal, sua realização como autora do livro “Do Rock a Compostela” lançado em 2019, onde conta a sua trajetória como mulher e mãe até se tornar peregrina na primeira passagem pelo Caminho de Santiago em 1999. Já fez o trajeto 14 vezes, sendo três saindo da França e as outras de Portugal. E não bastando ainda foi estudar na Universidade de Santiago da Compostela. O livro tem um texto primoroso, pessoal, interessantíssimo, profundo e com fotos belíssimas de sua autoria. Uma peça de edição sofisticada, um livro de mesa, cujo conteúdo bem que mereceria uma edição básica para atingir um público ainda maior.
Falamos também sobre seu envolvimento com projetos sociais em Portugal como Embaixadora da Plataforma do Agora, criada por uma portuguesa residente na Islândia que dá voz aos trabalhos sociais em mais de 60 países via rádio e outros meios de comunicação; diretora e fundadora de Zencancer e diretora de acontecimentos do Instituto Rope, instituição que realiza ações com portadores de doenças terminais. Na área literária, marca presença como membro da Academia Peregrina de Letras, cadeira 21, em São Paulo; participante da Academia Europeia de Escritores da Língua Portuguesa, Embaixadora do Instituto IMLUS, instituição do mundo da língua lusófona e Sócia Fundadora do MIMA – Museu Internacional da Mulher da Língua Lusófona.
Maria Alice não para. Com esse volume de conhecimento se tornou palestrante para peregrinos, mulheres 50+ e também no mundo corporativo onde fala sobre a capacidade de se reinventar. Ainda encontra tempo para ser mãe de três, avó de oito e cultivadora de amigos. Como consta no subtítulo do livro, “às vezes se ganhas às vezes se aprende”, e neste verão creio que percebeu que por aqui sempre sairá ganhando e aprendendo..
Esperamos um breve retorno!
As fotos da festa de Iemanjá são de Maria Alice…. as demais são dos amigos
Desde 1986 quando conheci a história de Dody Sirena, quis contar em um livro. As primeiras anotações foram em 1994 e, de lá pra cá, acompanhando sua trajetória, fazendo parte da equipe em diversos projetos, tentei algumas vezes convencê-lo o quanto poderia servir de inspiração para tantos outros sonhadores… Foram algumas negativas, sempre gentis. De tempos em tempos eu voltava ao assunto, até que em dezembro de 2021 acendeu uma esperança…Ele já havia trilhado um longo e bem-sucedido caminho no showbusiness, havia enfrentado a pandemia e, ao contrário de muitos empresários, não se retraiu, mas expandiu os negócios. Foi numa conversa por telefone que propus escrever o livro. Partiria do que vi, dos relatos de muitos profissionais com quem trabalhou, familiares, amigos, além de uma grande pesquisa. Se aprovasse publicaríamos.
Em novembro de 2023 entreguei os originais para análise. Ele ia embarcar alguns dias depois para fechar um grande negócio em Nova York, ficaria alguns dias com uma agenda mais tranquila e poderia ler. Dias depois enviou a mensagem que estava gostando bastante e quando voltasse queria conversar a respeito de algumas passagens. Foram duas longas conversas online quando trouxe comentários relevantes que engrandeceram o meu relato.
E assim, em maio de 2024 “DODY SIRENA, OS BASTIDORES DO SHOWBUSINESS”, lançado pela Matrix Editora, foi lançado com noites de autógrafos no Rio e em São Paulo, e a programada para Porto Alegre foi adiada para novembro devido as enchentes na cidade. Ótimas críticas, muitas entrevistas e a surpresa para muitos do quanto esse homem construiu em mais de quatro décadas.
Quem quiser conhecer essa história, pode adquirir o livro no link abaixo…
Estou no clima de “Mudanças”, igual a música da Vanusa e do Sérgio Sá onde sou parceira com o texto falado. Trocando de quarto, fazendo limpeza nos armários constato mais uma vez que a função do guarda-roupa duplex é ser depositário de tudo o que não faz a menor falta no dia a dia, mas acreditamos que um dia vamos precisar… E assim passam anos com “fantasmas” presos em malas e caixas… Esta arrumação era inevitável, procrastinada diversas vezes quase que falou por si pedindo socorro. Me liberte, parece que diziam as caixas de CD e DVD. Estou em tempo de reduzir as memórias físicas, afinal está tudo na nuvem. Já tinha doado uma parte, não tenho nem equipamento e agora resolvi guardar somente registros muito especiais onde o meu trabalho aparece creditado no encarte ou com enorme memória afetiva que poderiam até se transformar em quadros.
Foi assim ao rever “Alma Mater”. Se tivesse que escolher apenas uma trilha sonora dos meus tempos morando em Lisboa seria esta. Descobri por acaso ao ouvir no rádio de um taxi e me encantei com a sonoridade do Rodrigo Leão, ex integrante do grupo Madredeus, que fui direto ao El Corte Inglês, uma enorme loja de departamentos, encontrar este que seria meu grande companheiro em terras lusas. Além desta “alma” guardada estavam outras memórias que fui folheando e me levando aos momentos em que um dia foram importantes. Folhear o passado é bom, mas o melhor é começar um álbum novo de figurinhas….
Em tempo : Rodrigo Leão e “Alma Mater” facilmente encontrado no Spotfy e outras plataformas. Trilha nova na casa !
Está rolando nas redes sociais no sul da Bahia um trecho do filme “Ipanema Adeus” com imagens do centro e cais de Santa Cruz Cabrália datado de 1974. O filme tem roteiro, direção e produção do Paulo Martins, primeiro marido, pai do meu filho, e começou a ser desenvolvido quando estávamos nos separando. Na sinopse Carlos, um executivo carioca de meia idade com um emprego estável e uma grande família, diante uma crise existencial abandona tudo e se muda para a Bahia para iniciar uma nova vida. O tema muito parecido com o que Paulo estava vivendo e, acompanhado dos protagonistas Hugo Carvana e Monique Lafond, viajou num fusca para filmar na região que, por total ironia do destino, eu vim viver há 20 anos. Razões totalmente diferentes me trouxeram, mas me levam a refletir sobre as “coincidências” da vida.
Há algumas semanas fui procurada por Diego Hamilton Reis, um professor de Porto Seguro que, junto com outros interessados na preservação da memória da cidade, está debruçado sobre as cenas dos anos 70. Considera um registro raro em formato audiovisual que mostra o casario, o cotidiano, personagens locais. Ele estava querendo localizar Paulo Martins, mas chegou tarde.
Paulo me visitou diversas vezes e ficaria imensamente feliz ao saber do legado de sua obra. Hoje quando completa cinco anos de sua partida, faço essa homenagem e convido aos interessados a assistir “Ipanema Adeus” disponível no Youtube… Salve Paulinho !!
Foi morando em Portugal, trabalhando no Rock in Rio-Lisboa, que um dia acordei decidida a parar de trabalhar por 6 meses. Os anos anteriores foram de glórias profissionais, perdas e dúvidas pessoais. Voltei ao Brasil, fechei o apartamento no Rio e vim para Vila de Santo André, Sta Cruz Cabrália, Bahia, que eu conhecia bem. Vim para a casa que era do meu irmão e que após sua partida minha mãe herdara. Cheguei com algumas malas, muitas interrogações, o desafio de vender a casa e buscar meu prumo.
Hoje fazem exatamente 20 anos que cheguei. Me atirei como num trapézio sem rede para a experiência de viver num povoado à beira mar, na época com menos de 400 habitantes. Foi como ouvir de novo “eu caçador de mim” que me inspirou nos anos 80 a deixar tudo e ir morar em Nova York. Se lá deu certo, por que não tentar?
O destino fez sua parte e trouxe o recurso para comprar a casa. Fui de pedaço em pedaço, assim como os mosaicos, as colchas de retalhos e de crochê que faço montando um quebra-cabeça mental. Descobri que podia trabalhar em home office com internet discada. Primeiro seriam 6 meses que se tornaram dois anos e no dia em que decidi ir embora, fui convidada para ser Secretária de Cultura. Irresistível!
Ganhei muito em qualidade de vida. Tudo mais simples, apesar das dificuldades para uma urbanoide em estar numa área semi rural. Escrevi três livros, textos em blogs, criei o site da região em 2006, fui secretária de Comunicação em outra gestão e, seguindo um amigo craque em turismo, abri a minha casa para receber viajantes. Cidadã Cabraliense, título na parede e no coração, me tornei conhecida numa cidade onde não tinha raízes e adoro quando andando pela rua alguém diz: “oi dona Léa”.
Fui mais longe do que podia sonhar. Agradecimentos são muitos, tantos amigos e histórias que preencheriam um livro. Quem sabe um dia. Acompanhei a transformação do povoado, muros onde haviam cercas, uma comunidade amigável de nativos e chegantes. Estou cercada pela exuberância da natureza com pássaros, marés, luas, sons e movimentos que me falam sobre a impermanência dos tempos. Tudo é fluído. E a vida é boa.
Quando tudo começou eram os chalés que a jornalista Léa Penteado tinha em sua casa no vilarejo de Santo André, Santa Cruz Cabra, Bahia, aonde recebia informalmente amigos e amigos dos amigos. Depois que o Ricardo Freire e o Nick Santiago ficaram hospedados trazidos pela querida Cacaia, seguindo a sugestão de quem entende de turismo nasceu a “Pousada Banana da Terra”. Mas os que chegavam diziam: “é a casa da Léa”.
Este verão, quase que numa crise de identidade, conversando com a Aline e a Esther, amigas profissionais de marketing e comunicação, surgiu a ideia de fazer um “rebranding” da Banana da Terra, um processo usual para ajustar a maneira como marcas se colocam perante ao público e o mercado. Concluímos facilmente que o certo era dar o nome da própria essência: CASA DA LÉA.
A bem da verdade, “Banana da Terra” sempre foi CASA DA LÉA. Até o localizador do Google sabe disso, era só criar uma nova identidade visual. Todos que por aqui passam conhecem o atendimento sob medida, das boas conversas no café da manhã, das colchas e os cabides que faço para os chalés, dos livros para empréstimo, das dicas de passeios e, como Freire escreveu no @viajenaviagem ,“é como se hospedar na casa de uma amiga que você fez no Facebook (não por acaso, as reservas são realizadas por lá).” E agora também as reservas são por aqui, ou no www.acasadalea.com site criado pela @krissubtil ou no www.santoandre-bahia.com
Parece que nada mudou, mas para mim tem sabor de começar de novo.
Escrevo livros, já são 4. Escrevi reportagens para jornais e revistas, argumento para cinema, mini novelas, releases, cartas de amor e comerciais, apresentação de discos, musical para teatro, projetos, blog, posts nas redes sociais… Eu gosto tanto de escrever que, atendendo ao convite do chef Viko Tangoda, escrevi sobre a lenda do “Seu Beira Mar” para o cardápio do restaurante com esse nome no centro histórico de Cabrália . Muitos chegavam ao local perguntavam “quem é Seu Beira Mar” e agora ja sabem sobre a lenda que pesquisei com muito alegria, escrevi e assinei, na ultima página do cardápio … Para quem não conhece, segue abaixo.
“A Bahia, terra do sincretismo religioso, dos cultos de matriz africana e dos orixás, que inspirou na busca do nome para coroar a realização do sonho de um grupo de amigos de trazer nova vida e vitalidade ao Cais do porto de Santa Cruz de Cabrália.
Encontramos na força da lei, da ordem e da retidão de Pai Ogum e da força da maternidade, da geração e da criatividade de Mãe Iemanjá, o Seu Beira Mar, um lindo Caboclo da linha de trabalho destes dois Orixás.
Conta a história que um caboclo caçador certo dia andando por uma praia foi surpreendido por uma linda indígena e se encantou. Ao procurar o pai e o cacique para pedir sua mão em casamento, uma decepção! Ela estava comprometida e o pedido foi negado. Com um amor tão grande no peito, o caboclo arquitetou um plano, matou o pretendente para se casar com a amada.
Nem todo o amor afastou do caboclo um pesadelo aonde aparecia um indígena morto em uma praia. Certa madrugada saiu em busca do local e foi surpreendido por uma onda com um brilho intenso. Era Iemanjá que vinha cobrar a morte do seu filho. Queria o caboclo para lhe servir e, ao tentar levá-lo, surgiu Ogum anunciando que o filho era seu. Iemanjá refletiu e propôs à Ogum que o caboclo servisse a ambos. Até a 7ª onda serviria a ela, levando os pedidos dos que precisam da sua proteção. E atenderia à Ogum nas rogativas dos perdidos e aflitos nas beiras do mar, tormentas e naufrágios. E assim, Iemanjá e Ogum estão sempre nas praias acompanhando o Caboclo Beira Mar e nos inspirando na realização de nosso sonho!