Lembra ? Este é o título da crônica do Bruno Astuto publicada hoje na revista Ela do jornal O Globo revivendo carnavais.
Lembro de todos. Ainda menina vestida de bailarina jogando lança perfume nas pernas dos passantes e garimpando confetes e serpentinas no ginásio do clube Banespa em São Paulo, até os camarotes da Sapucaí. E lembro, sobretudo, do relato que escrevi em 2012 e republico. Tudo verdade.
Ele amava carnaval. Ia aos ensaios da escola de samba, comprava os ingressos para os melhores bailes. Semanas antes mandava o smooking para o tintureiro e programava a agenda. Ela gostava menos, mas fazia o gosto dele. Tirava do armário a caixa com plumas, paetês, strass, tiaras e bijuterias, fazia um balanço do que servia ou o que podia ser repassado para o maquiador desfilar no Baile dos Enxutos e se preparava os bailes. Trajes específicos, não repetia roupa nem cor.
E foram a muitos bailes até que na segunda feira de carnaval ela ficou em casa assistindo ao desfile das Escolas de Samba na TV. Ele ia desfilar e a convencera de que a Sapucaí era uma coisa muito chata. Longos desfiles, horas de espera e o desconforto de uma frisa já que não comprara camarote. Ela aceitou, dormiu com a TV ligada e não viu quando ele chegou. Acordou na terça-feira gorda muito feliz, era o ultimo baile. Catou na sala o resto da fantasia que ele deixou e passou a manhã na piscina. Às 4 da tarde quando ele acordou, ela já estava na sala de TV com o maquiador e o cabeleireiro. A festa começaria mais cedo com o grande desfile de fantasias gravado pela TV e ele fazia parte do júri.
Com cara de ontem e muito bem humorado ele chegou à sala. Cumprimentou cantarolando o samba enredo, foi para a cozinha, pegou um café a acendeu um cigarro. Ela continuou nas mãos dos magos que a transformariam em uma linda mulher com tons de lilás e algumas plumas roxas. A TV estava ligada em algum programa vespertino, ele passou na sala para pegar o telefone sem fio e foi para o quarto. Maquiador e cabeleireiro riam, falavam alto e somado ao barulho da TV ela não ouviu o telefone tocar. Como por mágica, um passe dos anjos – ou dos demônios? – em alguns minutos se fez silencio. Os rapazes voltaram-se às funções, a TV ficou quieta e ela pode ouvir perfeitamente a seguinte frase vinda do quarto…
“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”
Volta o som da TV, os rapazes desconcertados retomam um assunto qualquer e ela em choque com a frase repetindo em sua mente.
“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”
Ficamos quem ? Pensou ela. Ele não poderia fazer isso. Uma confusão em sua cabeça, o bom humor dele ao acordar, uma sucessão de historias quanto ao desfile e ela não tinha mais o que fazer. Já estava na hora de sair. Ficou sentada como um manequim de loja, imóvel. Cabeleireiro e maquiador a levantaram da poltrona vestiram sua linda roupa lilás, colocaram os brincos com enormes pingentes de strass, as plumas na cabeça, um pouco mais de brilho nos ombros, calçaram suas sandálias douradas com salto 15 e estava pronta para a festa. Não chorava, não gemia, não falava. Estava em choque. A frase martelava.
“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”
Os rapazes perceberam e acompanharam o casal até a garagem. Comentários bobos no elevador, ela em silencio. Antes de entrar no carro ela abriu a porta do banco traseiro, viu restos de purpurina grossa no estofamento, penas vagabundas no chão e sentiu náuseas.
“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”
Sentou no banco do carona e nos poucos quilômetros até o clube não gritou. Mansamente ela soletrava cada um dos palavrões que conhecia. Não chorava para não estragar a maquiagem. Ele não sabia o que se passava com ela. Mas ficou calado, tinha culpa. Da rua Toneleros, passando o Corte Cantagalo à Lagoa o discurso ia de filho da puta à cafajeste. Desfiou um rosário de um ódio jamais imaginado. A maquiagem, o cabelo, a roupa, tudo intacto. Cada sílaba era uma lágrima. Na entrada da festa chegou distribuindo simpatia com elegância Sentou-se no camarote e viu que tinha se superado. Era a mais bonita de todas. Passou a noite tomando champagne sem olhar para ele. Voltou para casa em silencio, dormiu no quarto de hospedes, acordou na 4ª. feira de cinzas de ressaca. Telefonou para o advogado, fez as malas e nunca mais voltou. Ele pirou, nunca entendeu o que a fez deixar um bom casamento.
Uma foto recente deixou minha mão em primeiro plano — e me fez lembrar de Justino Martins (1917–1983). Para quem nunca ouviu falar, ele foi um grande jornalista que conheci nos tempos em que trabalhei na Bloch Editores.
Gaúcho, começou na Revista do Globo, em Porto Alegre, a convite de Erico Verissimo, e, com pouco mais de 20 anos, já era o editor. Morou em Paris, e foi lá que Adolpho Bloch o catapultou de volta ao Brasil para dar uma “cara” à revista Manchete, uma das mais importantes do país por muitos anos.
Para uma jornalista iniciante, que aos 26 anos assumia a direção de uma revista de fotonovelas e celebridades, dividir a bancada do cafezinho depois do almoço com tão ilustre figura era um enorme prestígio.
Mas a pouca experiência fez com que meu olhar distraído pousasse em suas mãos apoiadas no mármore — e visse pequenas manchas e as veias saltadas. E o pior: ele viu o que eu vi. Elegantemente, comentou: — São as marcas do tempo. Um dia você também terá.
E foi sobre essas marcas do tempo que me detive ao ver a foto recente — e outras tantas que têm surgido, onde manchas e veias azuladas se destacam… Impossível fugir.
Lembrei também que, por volta da mesma época, fui entrevistar uma “dama da alta sociedade” do Rio de Janeiro que morava numa cobertura na Avenida Vieira Souto. Me chamou a atenção o bracelete de brilhantes, bem justo, usado sob o pulso. Comentavam que ela havia feito uma cirurgia plástica para tirar as rugas das mãos — e escondia a cicatriz com aquele bracelete. Há cicatrizes que não se esconde, nem cirurgia plástica que resolva.
A realidade é que chega um tempo em que não há mais o que esconder. Ou é encarar as marcas e ser feliz com elas, ou sair de circulação. Prefiro a primeira opção.
Desde a estreia, em outubro, estou querendo escrever sobre o programa “Angélica ao Vivo”, no GNT. Ele me trouxe boas lembranças, tanto por ser ao vivo — uma arte para poucos apresentadores — quanto pelo formato “almoço com as estrelas”.
Talvez muitos nem se lembrem de que houve um tempo em que não existia transmissão de TV por satélite. Os programas eram exclusivos de seus estados e, tanto no Rio quanto em São Paulo, havia o tradicional “Almoço com as Estrelas”. No Rio, com Aérton Perlingeiro; em São Paulo, com o casal Lolita e Airton Rodrigues. Dezenas de artistas ainda em atividade podem comentar a importância desses programas na divulgação de suas músicas, peças de teatro, filmes, livros…
Tive uma relação próxima com o programa do Aérton Perlingeiro na TV Tupi. No final dos anos 60, comecei como repórter em uma revista de TV e, aos sábados, tinha a missão de fazer a cobertura. O melhor de tudo: tive o privilégio de ver estrelas como Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Bibi Ferreira, Agildo Ribeiro, Rogéria, e outros grandes nomes do teatro, à mesa, almoçando e promovendo seus espetáculos. Sempre era possível conseguir alguma entrevista nos intervalos.
O almoço existia de verdade. Os pratos vinham um pouco frios, trazidos por garçons vestidos comme il faut — calça preta, paletó branco e gravata borboleta. Às vezes, algum convidado era flagrado pelas câmeras com a boca cheia ou chamado para dar alguma opinião ainda mastigando. Mas isso não apagava o brilho…
Ao assistir ao programa da Angélica, entrei numa viagem prazerosa. A tecnologia deu ao programa um ritmo ágil e leve, diferente dos anos 60/70, quando os convidados mal podiam se mover em torno da grande mesa. Agora, com a cozinha integrada — do fogão à mesa —, André Marques dominando as panelas, os drinks correndo soltos (e soltando a língua dos convidados), a descontração faz toda a diferença.
O auditório é simpático, a cantora transita da mesa para o palco com naturalidade — tudo muito atual, descolado e elegante. Quanto à Angélica, ela é um show à parte, com sua leveza e habilidade em transitar entre todos esses elementos.
Como é bom constatar que formatos antigos podem ser revisitados com inteligência e charme.
O primeiro foi Os Três Porquinhos, da Disney — e vinha acompanhado de um disquinho de plástico. A música “Quem tem medo do Lobo Mau?” acabou se tornando, para mim, um grito contra a adversidade. Medo de quê?, eu me perguntava, e logo me lembrava da musiquinha.
Aos 14 anos, Espumas Flutuantes, de Castro Alves, chegou como um presente merecido ao ganhar o prêmio de Melhor Redação do Colégio Batista Brasileiro, no Rio de Janeiro.
Aos 17, O Pequeno Príncipe, com a clássica e óbvia dedicatória: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” Recebi do namorado que me “ensinou” a ler literalmente, era professor de português.
Aos 19, Cadernos de João, de Aníbal Machado — a vida ganhando outros rumos. A dedicatória “Bendita a chuva que nos uniu” deixou lembranças eternas. Não conhecia o autor, mas me encantei pela narrativa linear, coleção de fragmentos de pensamentos e anotações do autor, abordando temas variados, com um estilo que mistura humor e lirismo.
E tantos outros vieram, poderia escrever um livro sobre os livros que me inspiraram em tantos momentos. Foram a força para gerar meus “filhotes” — todos com propostas de jornalismo e pesquisa:
Um Instante, Maestro (1993), memórias do pioneiro da TV Flávio Cavalcanti;
O Rei na Terra Santa (2011), reportagem sobre a produção e realização do show de Roberto Carlos em Jerusalém;
A Verdade é a Melhor Notícia (2015), bastidores e estratégias de assessoria de imprensa;
E, em 2024, Dody Sirena – Os Bastidores do Showbusiness.
Sempre gosto de lembrar: minha essência não nasceu do turismo. Mas ao escolher viver em uma região cuja principal possibilidade de desenvolvimento está no turismo, precisei me reinventar. Foi assim que agreguei minha trajetória em comunicação e eventos à criação do http://www.santoandre-bahia.com, que em 2026 completa 20 anos, e ao Festival da Lagosta, que chega à sua 8ª edição este ano. Com o tempo, passei também a integrar o Conselho de Turismo de Santa Cruz Cabrália, me disponibilizando a ouvir quem realmente entende do assunto.
Não é todo dia que, no extremo sul da Bahia, temos a oportunidade de dialogar com quem conhece os caminhos do turismo. Por isso aceitei com alegria o convite para um encontro com Divaldo Gonçalves, uma conversa simpática e rica sobre o plano Avança Turismo. Divaldo sabe o que fala. E muito bem. É diretor de Regulação e Certificação de Serviços Turísticos da Setur-BA e interlocutor estadual do Programa de Regionalização do Turismo do Ministério do Turismo.
A Bahia conta com 13 zonas turísticas que derivam 16 câmaras técnicas, pois uma zona se subdivide em mais de uma câmara, e entre elas a da Costa do Descobrimento, que abrange: Belmonte, Santa Cruz Cabrália, Porto Seguro e Guaratinga. Em processo de adesão – Itabela e Eunápolis. É através dessas câmaras que o Ministério do Turismo certifica atividades e qualifica serviços, orientando ações como capacitação profissional, incentivo à regularização de empreendimentos, melhoria de infraestrutura e promoção do desenvolvimento sustentável.
Tudo isso reforça uma verdade simples: turismo é assunto sério. O turismo não é um conceito estanque, preso a fórmulas prontas. Ele se move, se transforma e se reinventa junto com os anseios de cada sociedade. À medida que os desejos das pessoas mudam — seja por mais sustentabilidade, por experiências autênticas ou por vivências coletivas — o turismo também se adapta, criando novos caminhos. O turismo é coletividade, não é projeto solo. O que antes era experiência, hoje a proposta é para vivências. O que podia ser visto apenas como lazer ou consumo, hoje ganha dimensões de pertencimento, identidade e preservação cultural. É essa natureza dinâmica que torna o turismo um desafio constante, mas também uma oportunidade única de alinhar desenvolvimento econômico com os sonhos e valores de cada comunidade.
Conhecer o Avança Turismo Bahia foi, acima de tudo, entender que ainda temos muito a aprender e a conquistar para o futuro de nossa cidade. Os objetivos são fortalecer o setor turístico, apostando em ações estruturantes como capacitação de profissionais, apoio à regularização de empreendimentos, elaboração de diagnósticos de infraestrutura e incentivo ao turismo sustentável. Com isso, busca-se ampliar a qualidade da oferta turística, gerar emprego e renda e valorizar as identidades locais, sempre em diálogo com municípios, empresários e comunidades.
Esses encontros aproximam gestores públicos, guias, trabalhadores do setor e representantes da sociedade civil, estimulando a cooperação regional e a construção de estratégias conjuntas. A ideia central é que cada destino possa se reconhecer dentro de uma rede mais ampla, consolidando a Bahia como referência em planejamento territorial e turismo de experiência no Brasil. Eu acredito. Adorei o encontro Divaldo, que outros se repitam… E conte comigo na plateia.
“As aparências enganam”, música de Sérgio Natureza e Tunai, não sai da minha cabeça desde que precisei cortar uma árvore. O tronco largo crescia inclinado sobre um chalé e, no topo, havia uma casa de cupim. Um amigo que entende do assunto recomendou retirar, pois poderia cair no telhado.
Chamei o rapaz da serra elétrica. Ele prendeu cordas em outras árvores para reduzir o impacto das quedas e, quando chegou ao alto, descobriu que a casa dos cupins estava vazia. Em compensação, ao ligar a serra percebeu que a árvore estava oca. Mas não abandonada.
Dentro dela havia uma enorme colmeia. Abelhas pequenas, sem ferrão, produziam um mel levemente cítrico. O trabalho era engenhoso: favos com estruturas hexagonais de cera, feitos pelas abelhas operárias. Como pequenas gavetas, servem para armazenar mel, pólen e também para que a rainha deposite os ovos, que se transformarão na nova geração.
Consultei Jean e Carlos, da Fazenda Arimugue, que têm grande experiência em meliponário (colmeias de abelhas sem ferrão) e apiário (colmeias de abelhas Apis). Eles recomendaram deixar os troncos próximos de onde estava a árvore. Assim, quem sabe, as abelhas continuam por lá até dezembro, quando eles voltam de viagem e poderão transferi-las para uma casinha.
Todo dia a gente aprende alguma coisa. E, mudando a trilha sonora, lembro outra canção: “Vivendo e aprendendo a jogar”, de Guilherme Arantes, eternizada na voz de Elis Regina.
“Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”
Na segunda metade dos anos 80, os amigos Victor e Ugo deixaram o Rio de Janeiro rumo a Porto Seguro. Um dia, decidiram explorar o litoral norte e, dirigindo um buggy até o fim da estrada, chegaram a um rio. Não havia balsa para cruzá-lo — apenas um barquinho. Conduzidos por um barqueiro, seguiram por uma trilha que margeava o mangue até a praia… e se encantaram. Era um vilarejo com pouco mais de 200 moradores. Decidiram comprar um terreno e construíram uma casa. Depois, veio a ideia de uma pousada. Adquiriram uma área à beira-mar.
Nascia ali uma sociedade perfeita. O nome unia os dos empreendedores e homenageava o escritor francês Victor Hugo, que ambos admiravam. Ugo, que morava em Milão, trazia o bom gosto e a arquitetura na alma. Victor, em Ipanema, vinha do mercado financeiro — era administrador e ótimo de conversa. Assim, em dezembro de 1994, foi inaugurada a Pousada Victor Hugo.
No início, havia apenas o salão, o bar, a varanda, a cozinha, dois chalés e as espreguiçadeiras na praia. O jardim ainda era árido, a restinga rasa. Criaram, então, um jeito diferente de receber — sentido nos lençóis e toalhas sempre brancos, no clima elegante e descontraído que fazia os hóspedes se sentirem em casa. Tudo muito exclusivo, único, com glamour num clima de acolhimento com axé e estilo. No bar variedade de destilados, fermentados e o espumante sempre gelado; o cardápio era enxuto, com destaque para o inesquecível peixe ao molho de vinho.
Assim, na base dos bons relacionamentos e de “boca a boca”, passaram a ser descobertos por hóspedes notáveis. Tempos em que, no salão, na varanda ou na praia, corriam conversas inteligentes entre atores, escritores, terapeutas, acadêmicos, cantores, jornalistas, doutores e investidores — gente que buscava privacidade até para um topless livre à beira-mar. Nos pés a tradicional sandália havaiana e, em noites mais frescas, jogado nos ombros um cashmere autêntico. Trilha sonora do jazz aos clássicos da mpb. Atrás do balcão do bar, o bom humor (às vezes ácido) dos proprietários também ajudava a fortalecer a marca.
Victor conduziu a pousada até sua morte, em dezembro de 2001. Ugo a vendeu em março de 2014. A Pousada Victor Hugo tornou-se referência e símbolo de pioneirismo no turismo da orla norte de Santa Cruz Cabrália, deixando boas memórias para todos que por lá passaram — ou ouviram suas histórias.
No salão, entre peças contemporâneas trazidas da Itália e arte local, havia sempre uma obra do escritor Victor Hugo. Em francês, é claro. E dele extraio uma frase que parece escrita para essa história: “Não há nada como o sonho para criar o futuro.”
E, quando não se tem mais sonhadores, fica assim, abandonada, coberta de folhas secas. Apenas memórias…
Osmar Santos quando me visitou de surpresa na Bahia em plena pandemia.
Em setembro de 2000 li uma pequena nota na coluna Informe JB do Ancelmo Góes sobre a previsão da Fundação Cacique Cobra Coral de muita chuva para janeiro num período próximo ao Rock in Rio que retornava à Cidade do Rock num projeto aguardado por muitos anos. Eu era diretora de comunicação do festival, nunca tinha ouvido falar na Fundação, e pedi a Ju (Juliana Braga) que era da equipe para localizar o endereço e enviei um email.
Passaram alguns meses, eu já tinha esquecido o assunto quando em dezembro chegou resposta da fundação que se apresentava como uma entidade Científica Esotérica especializada em fenômenos climáticos, comandada pelo Cacique Cobra Coral, espírito que em outras encarnações teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Podia parecer uma doideira, mas levei o assunto a sério. Por telefone conversei longamente com Osmar Santos, representante da Fundação, que confirmou ser possível evitar chuvas ou transferi-las para outras regiões com a força do vento através do trabalho espiritual do Cacique Cobra Coral.
Estávamos em dezembro e chovia no Rio. Em um projeto do tamanho do Rock in Rio a chuva era uma grande ameaça. Como Roberto Medina me conhecia há muito tempo, sabia que tinha espaço para falar qualquer coisa, mesmo um assunto insólito como esse. Entrei nas sua sala certa da privacidade e descarreguei estas informações. Quem sabe contratar o Cacique Cobra Coral para não chover?
Ele pode não ter acreditado, mas como sempre elegante e aberto para ouvir as opiniões da equipe, respeitou a minha preocupação e ficou de pensar no assunto.
O século 20 terminou na Cidade Maravilhosa debaixo de muita chuva. Na segunda-feira 8 de janeiro todos os serviços de meteorologia anunciavam tempo ruim para a semana, incluindo dia 12, sexta-feira, abertura do festival esperado há 10 anos. E foi neste dia 8 que choveu muito, um grande teste para a capacidade de água na Cidade do Rock. Os técnicos e engenheiros justificaram como ótimo para se precaverem, mas na minha cabeça era o prenúncio de mais um festival na lama. Foi quando Roberto me chamou em sua sala dando carta branca para contratar a Fundação Cacique Cobra Coral. Pediu sigilo, tanto na mídia quanto na equipe.
A proposta oferecida pelo Cacique era que a força do vento levasse a chuva para regiões de seca. Se chegou em algum lugar de seca, não sei, mas a partir daí só quem tem fé pode acreditar no que aconteceu. Na sexta-feira e sábado choveu em vários pontos do Rio de Janeiro, inclusive nas proximidades da Cidade do Rock, mas lá dentro nenhuma gota. Na abertura do festival, no momento dos 3 minutos de silêncio pela paz no mundo, até apareceu um tímido sol em meio nuvens cinzentas, fato registrado em diversas fotos. O assunto não foi divulgado, podia virar a piada e em nada acrescentaria ao sucesso do evento… Mas alguns meses depois com o sucesso do festival, o assunto transpirou e muitos produtores passaram a contratar a Fundação Cacique Cobra Coral para garantir um bom tempo em seus eventos ao ar livre.
Nas celebrações dos 80 anos de Raul Seixas, volto ao passado e lembro do selo criado pela Artplan para os Correios como ação do Rock in Rio 1991…Toca Raul…
No livro “A Verdade é a Melhor Notícia”, conto detalhes como o Rock in Rio 1991 começou a ser planejado após Roberto Medina ter sido libertado pelos sequestradores e como foi fundamental para a mudança na promoção de eventos em geral… Segue parte do texto…
“No dia seguinte (ao retorno do sequestro), antes mesmo de Roberto (Medina) ter qualquer contato com a imprensa, o Presidente da Coca-Cola, Jorge Giganti, telefonou dando sinal verde para o festival que aconteceu seis meses depois, em Janeiro de 91, no Maracanã. Era sinal de bons tempos. No final de julho organizamos uma super entrevista coletiva na Tribuna de Honra do Maracanã para anunciar o evento. Trouxemos jornalistas de diversos Estados, uma mega repercussão, porém alguns dias depois surgiu na imprensa uma notícia muito estranha: o Maracanã estaria com sérios problemas na estrutura e poderia cair. Bom, ao que consta era uma jogada política. O governo estadual do PDT sentiu-se ameaçado com a projeção que Roberto teve com o sequestro e isso poderia agregar valor à família Medina, com Rubem, irmão, deputado federal e possível candidato ao governo do estado.
Roberto, por questões estratégicas, preferiu ficar fora de cena enquanto não saíssem os laudos técnicos que comprovassem que estava tudo bem com o estádio, pois cada jornalista que se aproximava vinha com a mesma pergunta: “o Maracanã vai cair ou não?”. Sabíamos que era um movimento para desestabilizar o festival e como o meu negócio não era política mas ganhar espaço na mídia, resolvi destrinchar os “riders técnicos” e transformar em notícias. Rider técnico é uma espécie de manual de instrução que acompanha o contrato de qualquer artista e/ou banda onde consta tudo o que o contratante deve fornecer para o show acontecer da maneira que o artista quer. Lendo os riders descobri um baú de maravilhas para alimentar a imprensa.
Era isso que eu precisava para ter espaço nas publicações. Separava as notícias por veículo, dando exclusividade a fatos como que Billy Idol ia trazer seu “chef de cuisine” para preparar as refeições no camarim; que Axl Rose queria duas dúzias de rosas brancas e o mesmo número de rosas vermelhas no hotel; as exigências de George Michael vinham num livreto de 55 páginas e constavam garrafas de vinho branco francês (Chablis ou Chadornnay), vinho tinto também francês (Gevrey, Chambertin Nuits St.George), pães de trigo e centeio, sete variedades de frios, sete variedades de frutas, seis litros de suco natural, água mineral francesa Evian ou Perrier, além de um rabino para preparar seus alimentos no tradicional estilo kosher servido num camarim que deveria ser enfeitado com quatro palmeiras e cortinas azuis. Detalhe: sua roupa só podia ser lavada com sabão biodegradável. Distribuí com todas as medidas a receita de um bolo especial de batata com carne, típico da culinária irlandesa, pedido por Joe Cocker, além das lendárias 200 toalhas brancas que Prince exigia em cada uma de suas apresentações. O resultado de divulgação foi excelente. A partir daí, os riders técnicos passaram a fazer parte de todas as assessorias de imprensa.
Mas precisávamos de muito mais. Nos Estados Unidos e Europa estávamos cobertos com duas assessorias que trabalhavam com os maiores nomes da música internacional. Os escritórios do Lee Solters, em Los Angeles e o de Laister&Dicknson, em Londres, trabalhavam diretamente com a minha equipe. Formamos um bom time e tivemos poucos pontos de stress. Roberto Medina entende muito de comunicação, é um campeão na relação com a imprensa. Mas até definir a situação do Maracanã optou ficar de fora e estimulada, comecei a criar tudo o que pudesse gerar notícia. Ele ainda estava nos Estados Unidos contratando o cast internacional quando um dia pensei que poderíamos ter um selo com a marca Rock in Rio. Um selo mesmo, feito pela empresa de Correios, comercializado nas agências de todo o país, pois havia lido em algum lugar que a memória do mundo se fez através de selos e moedas. Enviei a sugestão por fax e ele deu carta branca. Fiz contato com a diretoria do Correio, fui a uma reunião em Brasília e aprendi muito sobre os selos. Não poderia fazer o selo de uma marca/produto, mas poderia homenagear ícones da música e ninguém melhor do que Cazuza e Raul Seixas. Conseguimos de forma muito discreta colocar um dos ícones da marca do patrocinador, a onda da Coca-Cola, unindo as duas imagens junto à logo do Rock in Rio. No dia do lançamento chorei copiosamente de emoção, parecia que eu era mãe do Cazuza ou viúva do Raul…
Ainda fizemos a Escalada Rock – um festival para escolher uma nova banda que abriria um dos dias do festival e gravaria um disco, e o Vestibular do Rock, do qual tenho enorme orgulho… O Vestibular do Rock era mesmo para ganhar espaço na mídia, pois na verdade eu precisava de 8 a 10 estagiários para a sala de imprensa e poderia muito bem recrutar nas faculdades. Coloquei uma pequena nota em um jornal, distribuí cartazetes em algumas universidades que já estavam terminando as aulas, achei que viriam não mais do que 50 estudantes e faríamos a prova no auditório da Artplan. No dia da inscrição cheguei à agencia me deparei com uma fila que subia e descia a sem saída rua Negreiro Lobato e seguia pela Av. Borges de Medeiros na Lagoa… Mais de 1000 inscritos, inventamos um teste de inglês para uma primeira seleção de onde saíram 800 e o vestibular foi realizado dias depois nas cadeiras da Tribuna de Honra do Maracanã… Subdimensionei a demanda e passei 2 dias corrigindo provas… As provas eram múltipla escolha com fatos da 1ª. Edição do festival, informações sobre os artistas da nova edição, detalhes estruturais, e uma redação. Para identificar os melhores, comecei corrigindo a redação e dependendo das primeiras linhas eu seguia em frente ou eliminava o candidato. Foram selecionados 10 rapazes e 10 moças, uma equipe de qualidade.
Tínhamos uma sala de imprensa no Hotel Rio Palace, hoje Sofitel, no posto 6 em Copacabana e outra no Maracanã. A sala do hotel recebia os jornalistas que iam para as coletivas e quase todos os artistas lá estavam hospedados. Um forte esquema de segurança para evitar assedio em áreas em que as estrelas circulavam e montamos uma superestrutura para atender a imprensa de diversas partes do mundo. Antes da primeira coletiva internacional, nos reunimos para acertar sobre a dinâmica, quando uma das garotas da equipe inglesa sugeriu que eu fosse a mestre de cerimônias em português e ela em inglês. Confesso que não conhecia este detalhe de cerimonial e foi com elas aprendi a fazer o “announcement” de uma grande estrela de forma mais artística.
A sala de imprensa do Maracanã foi instalada num dos vestiários. Alugamos dezenas de máquinas de escrever, alguns raros repórteres internacionais traziam seus editores de texto, primórdios dos notebooks. A informática engatinhava, a internet começava a aparecer ainda muito restrita desde 1988 e o festival fechou parceria com a Unysis, uma empresa americana de alta tecnologia em TI e software. Com isso caiu em nossa mão o desafio de viabilizar uma ação para ser feita na sala de imprensa com o objetivo de atender aos jornalistas e promover o produto. Comentando o fato nos dias de hoje, parece que estávamos no tempo das cavernas. Fomos extremamente ousados ao criar uma redação com editora, repórteres e duas tradutoras (espanhol e inglês). A cada dia os repórteres tinham uma pauta a cumprir que incluía cobrir os shows e a área vip, recolher no final da noite os números oficiais do festival referentes a venda de produtos, público, consumo de bebidas, personagens interessantes na plateia, entre outros. Traziam detalhes exclusivos dos bastidores além das notícias dos shows que iriam acontecer no dia seguinte, incluindo set list e nome dos músicos. Todo este material era editado/datilografado em português e simultaneamente vertido para o inglês e o espanhol. Na madrugada uma equipe da Unysis recolhia estes dados, digitava e quando no dia seguinte chegávamos à sala de imprensa todo o material estava disponível em cinco gigantes computadores que hoje se assemelhariam a terminais de banco. Os jornalistas podiam ler na tela ou imprimir as informações tanto dos shows do dia anterior como os que aconteceriam naquele dia. Era simplesmente o máximo da tecnologia…
Entre as funções da sala de imprensa havia a tarefa de acompanhar os fotógrafos à frente do palco. Cada artista determinava em contrato qual o tempo que poderiam ser clicados em um espaço que chamávamos de “curral”, mas era privilegiadíssimo, bem em frente ao palco. Alguns não se incomodavam que os fotógrafos ficassem o tempo todo do show, outros autorizavam no máximo uma música e estabelecemos no máximo três músicas. Para evitar qualquer atrito entre fotógrafos e seguranças, fato muito normal, eu seguia junto com o grupo antes de cada show. Os profissionais se posicionavam da melhor forma e ficavam esperando o momento de serem convidados a sair, com toda a delicadeza… Foi por conta disso que tive o prazer de assistir de muito perto alguns artistas como Prince. Jamais vi um adulto tão pequeno, com um salto tão alto e uma bundinha tão estreita… Apesar da Guerra do Golfo ter estourado no dia da abertura do festival, o Rock in Rio II foi um sucesso…Um dos melhores casts que já vi em um festival. Obrigada Maria Rita Stumpf, Deborah Bermann e todos os estagiários. Nada aconteceria sem vocês.
Tempos de recuperação pós rock. Não conseguia desligar da tomada. Minhas pernas estavam irremediavelmente marcadas com uma safena esclerosada e princípio de trombose diante das tantas horas em pé. Para acalmar aprendi a meditar, reabri o escritório e segui minha vida. “
Momento em que recebi do representantes dos Correios o primeiro selo.
Com Lucinha Araújo, Jorge Gigante então presidente da Coca-Cola, Caio Valli diretor da Artplan