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1o Capítulo

Na celebraçao dos 70 anos da TV brasileira, o 1o capítulo de Um Instante, Maestro ! Para quem gostar, o livro está disponivel em PDF ou ainda pode ser garimpado em sebos por todo o país…

Urca, Rio de Janeiro. Janeiro de 1971.
Domingo. Um calor insuportável. As duas horas da tarde, uma
longa fila saía da porta da TV Tupi e subia a Avenida São
Sebastião. Era tão grande que se confundia com as filas dos ônibus
que levavam os farofeiros* de volta para o subúrbio depois de um
belo domingo de praia.
A TV Tupi, Canal 6, estava instalada num prédio onde, muitos anos
antes, funcionara o Cassino da Urca. O bairro era estritamente residencial,
com apenas duas vias principais de acesso. Por um capricho da
arquitetura do anos 40 o prédio unia os dois lados da Avenida João Luís
Alves; de um lado funcionava a parte comercial e do outro, os estúdios.
Era engraçado ver os funcionários apressados passando de um lado para
outro, ziguezagueando na frente dos carros e ônibus. Mas isso já fazia
parte da rotina. Afinal, aquela era a maior rede de televisão do país, com
afiladas nas principais capitais.
Foi a Tupi que colocou no ar a primeira emissora do Brasil, em São Paulo, em 1950. O dono era Assis Chateaubriand, que tinha um império de comunicações, com rádios e jornais em vários estados brasileiros. Após a sua morte, em 4 de abril de 1968, todo esse conglomerado passou a ser administrado por um condomínio, como determinara o testamento por ele deixado. Mas o síndico geral, responsável pela direção desse condomínio, senador João Calmon, preocupava-se muito mais com sua carreira política do que com os caminhos da comunicação. Com isso, novas emissoras foram chegando e ganhando lugar no mercado.
No início da década de 70, os programas de auditório eram ao vivo, e a Tupi, apesar de não estar vivendo seus melhores momentos, com problemas financeiros e uma briga interna entre os condôminos, tinha grandes nomes como Bibi Ferreira, Jota Silvestre e Aérton Perlingeiro no comando de bons programas. Aos domingos, no entanto, tudo mudava. A Urca ficava com outra cara. Dentro da emissora, contra-regras, assistentes de produção, técnicos e músicos corriam de um lado para o outro da emissora, numa função que começava bem cedo. Do lado de fora, os fãs formavam longa fila e vibravam com a chegada dos artistas. Fã é fã em qualquer época, e ali se repetiam os chiliques, gritinhos e desmaios como nos áureos tempos do rádio. Paralelamente a essa agitação, acontecia uma outra não tão alegre junto à porta de serviço da emissora. Eram pedintes que se enfileiravam; a fila da miséria. Doentes, mendigos e necessitados vindos de diversos pontos do país esperavam a chegada do “Senhor dos Domingos“, o salvador da pátria que – acreditava poderia aliviar todos os males e solucionar os seus problemas.
Distante duas quadras da TV Tupi, numa pacata rua residencial, a Candido Gaffrée, havia uma casa branca de dois andares, varandinha, jardim na frente, coqueiro e mangueira no quintal. Era uma casa diferente. Ali produzia-se o programa que fazia o Brasil parar aos domingos. Naquele momento, fechado numa sala superrefrigerada, o todo-poderoso preparava-se para mais um programa. Sabia exatamente o que se passava na porta da emissora. Há seis meses era líder absoluto de audiência. Amado por muitos, odiado por outros tantos, era o apresentador mais polêmico da TV brasileira. Explorava assuntos que eram discutidos na semana seguinte pelos mais diversos segmentos da sociedade, como Congresso, repartições públicas, quartéis, bares, salões de cabeleireiro e universidades. Tanto a esquerda quanto a direita ficavam atentas ao que ele dizia, nem que fosse para discordar. Ele tinha consciência desse poder.

Atrás de uma grande mesa, sentado numa poltrona de couro, relia o script do programa. O mesmo script que recebera em sua casa, em Petrópolis, dois dias antes, numa cópia arroxeada, mimeografada* em papel-jornal. Idêntica à enviada à Censura. Era um tempo em que ninguém podia abrir a boca no rádio e na TV, nem publicar uma linha num jornal ou revista sem a aprovação da Censura. Depois de aprovado, o script ganhava outro formato na mão do apresentador. O papel-jornal era substituído por papel-ofício,
datilografado em máquina elétrica sem um erro. As perguntas das entrevistas eram copiadas em fichas brancas, impecavelmente limpas, sem rasuras. Somados a este farto material, capaz de manter milhares de brasileiros com os olhos pregados no vídeo durante quatro horas, outros textos surgiam de uma fina pasta decouro marrom, como se fizessem parte de um programa diferente.
Eram recortes de jornais e revistas, cartas, anotações e algumas folhas de papel datilografadas pelo próprio apresentador com identificações variadas: “Li não sei onde, guardei e dou de graça…”, “Criança diz cada uma…” e “Fora de script”. Este último, sem dúvida, o mais fascinante. Uma surpresa para os telespectadores, um susto para a produção e um soco no estômago do governo.
Conheci esse lado de dentro da televisão no primeiro dia de trabalho. Eu era jornalista e trabalhava como repórter da revista Amiga. Aos domingos era encarregada de ir à Tupi fazer a cobertura do programa. Aos poucos fui conhecendo as pessoas, e um dia acabei sendo convidada para trabalhar com ele. O salário era quatro vezes maior, e não pensei duas vezes. Estava recém-casada, queria fazer análise, e topei a proposta. Um acerto puramente profissional, pois politicamente eu discordava de alguns pontos de vista do apresentador. Mas,já no primeiro dia como sua secretária particular, percebi o quanto valiam o grito, a coragem, num tempo de poucas palavras. Valiam também a audiência, os pontinhos do IBOPE e a
ousadia de cutucar a censura com vara curta. O medo estava “fora de script”. Ele defenderia sua opinião com unhas e dentes, se fosse preciso, até tirarem o programa do ar.
Dramático, teatral, emocionado, ele dominava uma nova linguagem
de comunicação e acreditava que TV era “timing”: saber a hora do show, segurar o telespectador no suspense de uma boa reportagem. Tirava e colocava os óculos nervosamente, chorava diante das câmeras, vibrava com as entrevistas, ria com os fora de série e se divertia muito com o trabalho pelo qual era regiamente pago. Não era de esquerda nem de direita. Era simplesmente Flávio Cavalcanti.

*farofeiros – termo usado para definir pessoas que iam de ônibus fazer pic nic na praia

*mimeografada – cópias feitas através de um equipamento pré xeroc que produz a partir de matriz perfurada ( estêncil ) afixada em torno de pequena bobina de entintamento interno e acionada por tração manual ou mecânica.