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Querida Nanan

Com Ângela Gonzaga tínhamos 16/17 anos e ríamos da vida…

Fiquei feliz com o seu aviso no Facebook de uma foto em que eu estaria com sua mãe, Ângela, e outros amigos. Fui direto à fonte e não encontrei. No lugar estava uma foto linda da sua mãe enxugando você e o Daniel, um gostoso jeito de cuidadora, e apesar dos olhinhos assustados de vocês, talvez pela nudez frente à câmera, havia confiança. Com essa foto amanheceu o meu dia, mais de uma hora se passou e continuo com a esta imagem na retina. E pensei que talvez você gostasse de saber um pouco da minha amizade com sua mãe.

Conheci sua mãe no 1º ano do curso colegial do Instituto Coração de Jesus. Engraçado pois a escola de manhã tinha este nome e a noite chamava-se Veiga de Almeida, que depois se transformou em universidade. Tenho a impressão que Ângela não foi ao primeiro dia de aula, quando chegou a turma já se conhecia um pouco e lembro que a convidei para dividir a carteira comigo. Naquele tempo as carteiras escolares não eram individuais com apenas uma prancheta para colocar o caderno. Eram como escrivaninhas com um banco corrido aproximando os alunos.  E ficamos amigas de cara, talvez por no princípio da conversa termos descoberto que nascêramos no mesmo 3 de janeiro !

A amizade solidificou quando algumas semanas depois fui estudar na casa da sua mãe na rua Jaceguai 27. Ali começou uma nova vida, um presente que me acompanha até hoje. A consciência dos amigos, da construção coletiva, do pensamento conversado, discutido e alinhado, da liberdade e nenhum preconceito às diferenças. Lá podia se tudo, até fumar na frente dos pais. Era muita vanguarda para uma garota como eu que vinha de uma família “linha dura”. Uma casa de musica e acolhida, de boas palavras e sentimentos. A grandeza dos seus avós, Maria Ruth e Aloísio Porto Carrero de Miranda, a relação fraterna entre Ângela e sua irmã Regina, permeiam meus pensamentos… Generosamente compartilhavam filosofias, projetos, sonhos… Tudo isso na segunda parte dos anos 60 onde fervilhava a ditadura no país que vivia com um medo no ar… Muito se escreveu sobre isso, mas esta casa de número 27 foi meu ponto de partida para descobrir a literatura, o respeito, a política e também o amor, a paixão enlouquecedora na juventude, aquela que dá vontade de sair gritando e quando não dá certo chega a se pensar em cortar os pulsos. Não só eu descobri, como também vi sua mãe descobrir esta paixão. Lembro com detalhes, até com perfume e cores, o dia que sua mãe me confessou que estava apaixonada por seu pai. Ainda era segredo e fui privilegiada ao ouvir esta primeira declaração feita bem longe da casa dos seus avós, talvez para as paredes não ouvirem, mas no quarto da minha casa numa tarde de sábado.

São muitas historias… Você quer amizade mais plena do que aos 17/18 anos duas jovens terem juntas o prazer de ouvir Chico Buarque cantando numa reunião para pouco mais de 20 pessoas ? Aconteceu conosco, Roberto Abramson é testemunha… Sua mãe sempre muito afinada, eu sempre muito desafinada, e muitas vezes na saída do curso pré vestibular na cidade íamos pelas ruas  cantando “Quem te viu, quem te vê”…. Seu avô fez uma música, talvez você conheça, que sua mãe e sua tia cantavam em dueto nos “saraus” da Jaceguai…Se a memória não me falha, a letra é assim

“Se a noite se perdeu, e o céu se fez manhã, por que você não vem, se de tudo que era seu, você fez coisa vã, assim como a manhã, a manhã do amor…

Não, não deixe que o amanhã, se faça tarde e eu sem você chegar, se depois do por sol, você meu sol virá, na manhã do adeus, nos dois…”

Depois já casada com seu pai no apartamento na Tijuca cujos moveis tinham sido desenhados por ele, a chegada de vocês e um dia acabamos trabalhando juntas. Mas na verdade, desde que vi a foto no Facebook, queria lembrar à você do humor de sua mãe… Ela era sutil, inteligente, delicada e as vezes fazia piada com um olhar… Nós tínhamos piadinhas e termos só nossos, nos divertíamos muito, ríamos dos outros… E de nós mesmas !! Como você pode ver nesta foto…

E depois ela partiu e deixou que ficássemos pensando na sua alegria e tentando ser Ângela na vida… Generosa, tranquila, apaixonada ao ponto de não resistir a partida do seu pai e foi continuar a viver seu amor em outra esfera…21 anos é muito tempo, menos do que convivemos juntas, mas a lembrança é muito maior… Um beijo com carinho e por favor, mate a a minha curiosidade e coloque a foto no Facebook…