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Sobre Domingos de Oliveira

Em janeiro de 1992 eu estava fazendo assessoria para Gloria Menezes e Tarcísio Meira que produziam e encenavam a peça “O Duplo”, texto e direção de Domingos de Oliveira no Teatro dos Quatro. Uma noite enquanto a peça acontecia, saí no lobby do teatro para fumar e Domingos me falou sobre um texto que sua filha com mais algumas amigas haviam escrito. Seria uma peça que ele estava dando a maior força, tanto que estava dirigindo, prestes a estrear e precisavam de uma assessoria de imprensa. Mas caíam na questão da falta de orçamento. Era um projeto ousado e me convidou para assistir a uma leitura algumas noites depois em sua casa. Topei mesmo sem saber o que era e na hora marcada lá estava acompanhada do Bernardo, meu filho que recentemente deixara a adolescência. Ofereceram-me um lugar de honra no sofá de veludo vermelho e as quatro meninas com os textos na mão, acompanhadas de um rapaz que tocava violão, encenaram o espetáculo na minha frente. Foi um soco no estômago. Fiquei ouvindo de boca aberta, completamente chocada com a atualidade e a forma direta como falavam de seus problemas, das suas alegrias. Era diferente de tudo o que eu tinha assistido em teatro nos últimos anos, e eu tinha assistido muita coisa!

Fiquei tocada com a peça que chamavam de “Diário de Uma Adolescente” e entrei de cabeça no projeto. Como não havia orçamento, ofereceram-me um pequeno percentual da bilheteria de um teatro com 85 lugares, previsão de 2 encenações por semana e o ingresso ao preço de 5 “dinheiros”. Fiz os cálculos e se tudo desse certo teria o dinheiro “para a feira”. Mas alguma coisa me dizia que ia ser sucesso. Recebi um excelente material fotográfico feito por Guilherme Rozembaun, irmão da atriz Priscila Rozembaun, mulher do Domingos, pois esta produção funcionava como uma ação entre amigos. Sugeri o título “Confissões de Adolescente”, bem mais intimista, e como alguns trechos da peça ainda estavam manuscritos e sem a ordem de apresentação, digitei e imprimi para registro na SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).

Fiz um release encadernado com muitas páginas. O espetáculo assim merecia, não havia outro no gênero. Apesar da total falta de pretensão com um orçamento de 300 dólares o espetáculo tinha uma grande verdade.  “Confissões de Adolescente” surgiu do diário de Maria Mariana, filha de Domingos de Oliveira e foi acrescido de pensamentos e situações vividas por outras três jovens que, junto com Mariana, compunham o cast: Carol Machado, Ingrid Guimarães e Patrícia Perrone. 

O material chegou nas redações dos jornais e surpreendeu aos editores que não sabiam nem em qual retranca enquadrar o espetáculo. Não era teatro adulto nem infantil, criaram assim a retranca Jovem. A estreia da peça foi destaque nos cadernos de fim de semana, capa dos cadernos de cultura não só por seu ineditismo como também por ter estreado num sábado após o carnaval quando nada de novo havia no mercado cultural. O que podia ser uma zebra foi a loteria.

No sábado 7 de março, antes das 5 da tarde os ingressos estavam esgotados. A cena era inusitada: pais deixavam filhos na porta da Casa de Cultura Laura Alvim e marcavam hora para buscá-los no final. A crítica teatral Barbara Heliodora, por não ter confirmado com antecedência, teve que voltar para casa pois não tinha um lugar disponível. No domingo repetiu o mesmo sucesso e no fim de semana seguinte foram programados 2 espetáculos por dia, e no sequente a sexta-feira já estava incorporada à agenda. As críticas foram unânimes em aplaudir a peça que abria caminho para outros tantos no mesmo segmento. Dois meses depois, “Confissões de Adolescentes” saiu do Porão da Casa de Cultura Laura Alvim para o teatro principal do mesmo espaço com uma plateia de 250 pessoas. Em poucos meses estavam no teatro Candido Mendes em Ipanema, e não demorou para chegarem no Teatro Casa Grande com 700 lugares, levantando voo para um sucesso maior. A peça virou livro best seller, áudio-livro pela gravadora Polygram (o primeiro lançado no Brasil), virou mini-série de TV e foi indicada ao Prêmio Emmy da TV Americana. Mais de um milhão de pessoas assistiram a este espetáculo no Brasil. O percentual de bilheteria que eu tinha direito e a princípio daria para a feira semanal, foi importante no meu orçamento o ano inteiro, até que em janeiro de 1993 me desliguei do projeto ao assumir a Assessoria de Eventos da Prefeitura do Rio de Janeiro.  Em 2004, chegando para fazer uma palestra na Universidade de Coimbra, atravessava um teatro a caminho do auditório quando vi umas garotas ensaiando uma peça. Reconheci uma parte do texto e fui conferir. Era Confissões de Adolescentes além mar.  (Texto do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”)
Obrigada Domingos de Oliveira por ter me proporcionado este enorme prazer e ter contribuído para o teatro jovem… Boa caminhada por outros palcos…