Nos últimos dias uma pergunta dá cambalhotas, piruetas e se debate na minha mente nos momentos mais inesperados… Invasiva como a música que um dia a gente acorda e não consegue se livrar, a pergunta que se debate em mim é infantil e fora do meu contexto. Ora bolas, a esta altura da vida uma pergunta assim não tem propósito: “O que você vai ser quando crescer?” A voz insiste na resposta que eu nunca soube dar, talvez seja esta a razão que ainda em tom infantil, tolamente batuca em mim como se viesse pedir satisfação do meu caminho… Não me lembro de quando criança ter algum plano sobre o futuro, nem mesmo ao chegar na adolescência .. Mas tinha que se ter respostas para perguntas de adultos, e esta era uma recorrente. Sem muita convicção, até certa idade eu dizia que queria ser médica. Depois aeromoça para voar – óbvio!! – e houve um tempo que quis ser mecânica. Cheguei até a entrar na escola técnica para estudar máquinas e motores (imagine!!!), mas isso durou apenas 1 ano…. Ficaram as fotos e um velho recorte de matéria publicada no Jornal do Brasil da “bela moça mecânica” . Papai era uma figura especial… Tinha radar fino para as tendências e interesses dos filhos… e nos encaminhava na medida de seus conhecimentos. Por ser curiosa, falante, perguntadora e sonhar com viagens, papai achou que o turismo poderia ser uma boa saída e um dia me levou ao coquetel de inauguração de uma agência de viagens… Olhei os cartazes de cidades com castelos, pistas de esqui, praias e jardins floridos, mas não me convenceram a aceitar o emprego de recepcionista naquele cenário. Dentro desse jeito sensível em detectar aptidões, papai sugeriu que, além do cursinho de preparação para psicologia que eu fazia à noite, eu fizesse um curso básico de publicidade na ABP – Associação Brasileira de Propaganda, em plena Av.Rio Branco, centro do Rio, dois dias na semana às 8 da manhã . E ali eu comecei a gostar da conversa, bem mais do que a do cursinho de vestibular, exceto pelas aulas de português/literatura do Prof. Abel, depois reconhecido como poeta e compositor Abel Silva. Gostei da idéia de fazer alguma coisa no centro da cidade e em poucos dias já estava com um jornal nas mãos procurando um emprego de recepcionista em algum escritório quando, pimba! Lá estava o anúncio “procura-se recepcionista para agência de publicidade…”. Uma longa fila, mais de 30 candidatas e fui escolhida por estar estudando publicidade. Papai tinha razão… A MPM Propaganda era uma agência com escritórios em Porto Alegre e São Paulo e seu nome veio da inicial dos sócios Mafuz, Petrônio e Macedo. Foi considerada a maior agencia nos anos 70, primeiro lugar no ranking por uma década e meia, ou seja, eu começava em lugar nobre… Nem tanto, pois das 9 às 18hs eu ficava sentada num cubículo com uma janelinha gradeada que dava para o hall dos elevadores de onde eu controlava a entrada das pessoas com autonomia de apertar um botão e abrir a porta. Nos intervalos, com uma máquina de escrever emprestada e um livro “aprenda datilografia”, com a mão esquerda corria nas teclas a s d f g enquanto a esquerda buscava ç l k j h …. Seis meses maravilhada com a vida de gente grande. O salário aparecia no final do mês na conta bancária e os objetos de pequenos desejos eram saciados. Na função de abre e fecha porta, “bom dia e boa tarde senhores”, conhecendo a agencia de baixo prá cima e quase profissional na datilografia, fui surpreendida com o convite para ser secretária do gerente de publicidade das revistas técnicas da Editora Abril… O trabalho na agencia me dera um upgrade moral, mas confesso que não tinha experiência para ser secretária como manda o figurino… E foi esta a primeira de muitas vezes em que resolvi dizer SIM ao desconhecido… Em novembro de 1968, um mês antes da assinatura do AI 5 (13 de dezembro) passei a ser secretária de publicidade em uma editora, e daí para descobrir a redação foi um pulo. A psicologia ficou para anos depois no divã do analista… Creio que foi aí que comecei a perceber o que seria quando crescesse, e mesmo assim a revelação profissional veio aos pedacinhos… Nada nunca é muito certo ou definitivo. Até hoje penso que algo pode surgir e me levar para outros caminhos, como a mudança de um vento em meio de um temporal no mar – ou numa calmaria – e assim como Cabral que chegou por estas terras por acaso, ainda me seja revelada alguma coisa a mais para eu ser quando crescer….
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Comentários
robertoabramson em PROVA DE EXISTÊNCIA robertoabramson em Jovem Kelli F. de Barros em Do fundo do bau KELLI MARITSA FERNAN… em Do fundo do bau robertoabramson em A árvore da felicidade
Léa querida!!!!
Muito bacana e assim vamos conhecendo um pouco mais dessa fantástica figura humana.
Beijo carinhoso
Graças a Deus para nós que convivemos com essa adoraável e eclética criatura do bem !
Bjo grande!
Para alem de muito interessante a sua postagem, Léa, gostei de sabê-la uma blogueira, como o sou desde 2006 como os meus “Casos” de Propaganda.
Por isto quero lhe dizer que passarei por aqui de quando em vez para ler e comentar…
Jonga
Lea, não sei que ventos virão mas não deixa de contar estorias, histórias e mandar cronicas desse pedaço de paraiso paraiso onde teu calor humano explode colorido.
Hoje é Lua Cheia, Urano entra em Aries não faltarão novas aventuras.
beijo,
Graça