Convicção

Foto: Cláudia Schembri

Não lembro se foi para assistir Morangos Silvestres, de Bergman ou A Faca na Água, de Polanski, que falsifiquei minha caderneta escolar. Uma falsificação meio grosseira, mas aos 17 anos precisava provar que tinha 18 para entrar no cinema. Enquanto esperava a minha amiga Ângela na frente do Cinema Carioca na Praça Sans Peña olhei uma dezena de vezes para caderneta e tentei provar a mim mesma que tinha feito um trabalho de primeira ao transformar o 9 pelo 7. Apesar do temor, na hora da entrada Ângela falou baixinho: convicção, olhe firme para o porteiro e vamos em frente. E assim entramos achando que éramos o máximo. Hoje, tantos anos depois, percebo que naquele dia aprendi sobre “convicção” e isto se tornou minha atitude de vida… Acredito em tudo o que faço, não consigo ser metade… Tanto nos quadradinhos de crochê que vou tecendo há séculos e um dia irão compor uma colcha enorme, como escrevendo algum projeto super híper importante. Onde me coloco estou inteira e com a convicção de que estou fazendo o melhor… Esses pensamentos rodearam a minha cabeça, como o vento sul que entrou pela manhã sem trazer chuva, mas fazendo muita sujeira no quintal. Um turbilhão de lembranças de situações em que encarei a vida assim como o porteiro no cinema: olho no olho, vamos em frente… Foram muitas as convicções e atitudes que tomei de forma instintiva, uma estratégia para sobrevivência… Mas neste fim de dia colocando os pensamentos para dormir, concluo mais uma vez o quanto viver é fugaz. Passa tudo muito rápido, nem sei se era Morangos Silvestres ou Faca na Água, este detalhe não importa, mas sim ter convicção do que se quer da vida para não ser jogado de um lado para o outro como as folhas com o vento no quintal.

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2 Respostas para “Convicção

  1. Isto me lembrou de uma tentativa de entrar no Roxy (nem me lembro o filme), que era meio rigoroso com a qualificação de idades.
    Tinha 13 anos e comprei um maço de “Misbela”, um desses ‘mata-ratos’ como se dizia na época.
    Bem, fumei uns cinco cigarros, olhando de vez em quando para o relógio (como se estivesse a esperar alguem) e outras tantas para o porteiro…
    Passado algum tempo investi, comprei uma inteira, e, quando a apresentei o moço pediu meu documento.
    Joguei fora o resto dos cigarros e voltei pra casa… Tristonho!
    Embora não tenha muito a ver com a lição do caso acima, apenas me recordei…
    Quanto a “Morangos Silvestres” assisti no Alvorada, uma salinha que ficava em Copacabana. Já “A Faca na Água”, no antigo Riviera, depois Cinema 2…

  2. E eu cada dia mais, adoro o que escreve.Vc consegue falar de sentimentos,atitudes com uma perspicácia e sensibilidade tremendas.
    Bjo grande e saudade!!!

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