Igual a ela…

New York, janeiro 1982 - Mamãe, eu e Bernardo

Acabei de almoçar sozinha, coloquei os cotovelos sobre a mesa, cruzei as mãos e por um momento me vi igual a minha mãe. Era exatamente nesta posição que ficava quando constatava que todos tinham acabado a refeição e balançava o sino de prata chamando a empregada para retirar os pratos da mesa. Os dedos longos cruzados, a cabeça num porte altivo, com os olhos ela acompanhava o movimento da empregada ao recolher os pratos e travessas acomodando tudo com muito cuidado na bandeja. Nesta postura permanecia até chegar à sobremesa e servir cada um de nós. Os pedaços de goiabada com queijo, ou colheradas de doce de leite cozido na panela de pressão junto com o feijão, eram divididos irmamente para evitar discussões. E hoje me peguei de mãos cruzadas repetindo o gesto, mesmo sem ter campainha para tocar nem empregada a chamar para recolher o único prato que eu mesma preparei.

Passei grande parte de minha vida não querendo ser igual a minha mãe. Já basta a semelhança física, e sempre foi difícil conviver com seu jeito pouco afetuoso. Impossível lembrar um abraço, um afago ou um colo. Se existiram foram tão rápidos que esqueci. Recordo seu jeito impecável de se arrumar para qualquer ocasião. Nenhuma ruga em suas roupas, sempre limpas e perfumadas. Mamãe tinha uma forma simpática de receber as visitas, atender ao telefone e se relacionar com os vizinhos. Quase que uma profissional em relações públicas. Jamais esqueceu um aniversário ou deixou de visitar amigos em momentos importantes. Os que a conheceram não devem ter percebido que seus filhos sentiam falta de um beijo de boa noite, um abraço ao voltar da escola, ou apenas ficar sentada de mãos dadas assistindo um filme na TV. Este último item nem pensar, pois mamãe odiava filmes. Não entrava no mundo dos sonhos e ilusões. Apesar de ser professora, jamais a vi com um livro nas mãos. Mas apesar de tudo isso era uma pessoa interessante e boa de conversa.

Somos exatamente o que rejeitamos ser. Li isso algumas vezes e acreditei que o fato não se repetiria comigo. Ledo engano. Hoje me vejo subindo as escadas apoiando as mãos sobre as coxas, exatamente igual a ela. Sou surpreendida em me ver com as mãos no queixo prestando atenção em algo que se passa na TV, assim como ela. E se for prestar mais atenção descobrirei mais semelhanças, pois ela está em mim muito mais do eu queria.

Há pouco mais de um ano ouvi pela primeira vez ela dizer “eu te amo minha filha”. A voz já muito fraca, a dificuldade em falar proveniente de uma paralisia facial, só próxima do fim conseguiu verbalizar o que deve ter sentido muitas vezes. Não sei o que aconteceu na trajetória dessa mulher que sempre teve gestos educados, não gritava nem gargalhava. Uma mulher contida, que manejava as agulhas de tricô com extrema agilidade fazendo roupas para bebê com tamanha delicadeza que me faz acreditar que somente ali colocava o enorme amor que não sabia expressar.

Mamãe não me ensinou a rezar nem a conversar com Deus. Passou grande parte da vida sem tocar no assunto, e quando surgia o tema num encontro familiar dizia: “política e religião não se discutem”. Nos últimos 10 anos depois da perda do marido e do filho, fez um altar em seu quarto com santos, anjos, fitas e flores com bênçãos diversas. Uma vez estávamos sentadas à mesa da cozinha conversando sobre o que acontece quando a vida acaba e, depois de ouvir todas as minhas colocações, ao ver uma formiguinha rondando o açucareiro esmigalhou-a com a unha comentando: “minha filha, a vida termina assim não tem nada depois. Morremos como a formiguinha. Acabou.”

Não lamento mais ter suas semelhanças físicas nem gestuais, pois na essência somos completamente diferentes. E a vida continua…

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6 Respostas para “Igual a ela…

  1. Lendo vc me emocionei…me reconheci em muitas situações similares. Sou parecida com mamãe, apesar de resistir à constatação. São curiosas essas pequenas armadilhas da vida que nos revelam a nós mesmos… Beijo

  2. Incrivel e emocionante como tudo o que vc escreve!
    Enquanto lia pude ver a tia, exatamente como eu sempre a vi. Impecável em tudo, nunca esquecia um aniversário, eu sempre sabia que ela me ligaria no meu dia, sem falhar um ano sequer. Senti saudades!
    bjs

  3. Querida,entendo tudo o que escreveu até por viver muito disso também.Cada dia que se passa estou mais Honorina do que nunca e a luta que travei comigo a vida inteira para ser contrária a isso,era uma preservação para não sofrer.
    Hoje,aos 59 anos quero cada dia mais me parecer com ela porque assim terei a certeza de que estou no caminho certo.
    Um beijo grande minha querida e afetiva amiga!
    Bel

  4. Vesti seu texto. É meu número.Talvez um bainhazinha…

  5. Fiquei sabendo do texto pela Luiza Maria e resolvi ler, como procuro ler coisas que pessoas que são importantes para mim escrevem. Como senti diferente o carinho que minha vó tinha por mim, fazendo a Montanha Russa de ameixas ,que ela sabia que eu adorava, todas as vezes que eu podia estar com ela. Quando eu tinha 10 anos e morei junto com meus avós por alguns meses e antes de dormir ela me mandava fazer “um xixi bem comprido” , e me dava um beijo dizendo “Deus o abençoe”. Quando eu me sentava com ela no sofá e ela pegava na minha mão contando as histórias da família. Ela realmente era uma pessoa com muitas regras, mas isso tenho certeza que veio da criação austera, comum da sua época. Quando conheceu meu filho e ficou morrendo de medo dele estranhar seu rosto deformado pela paralizia, porém conseguindo ótimas risadas dela quando pedia para ir no seu colo mesmo sem saber falar. Fiquei triste e algumas lágrimas me rolaram dos olhos, porque minha avó era realmente uma das pessoas mais importantes para mim, e é uma pena que as experiências que tivemos com ela tenham sido tão diferentes. Um beijo grande.

  6. Pingback: Corrente de blogueiros… | Léa Penteado

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