E lá se vão 60 anos da TV brasileira…

Alguns jurados do Programa Flavio Cavalcanti : Alvaro Valle, Erlon Chaves. Humberto Reis, eu e Marcia de Windsor. 1972

Lembro-me da TV marca Invictus com pés de ferro chegando à nossa casa em São Paulo. Não era uma data especial, como foi a enceradeira que Papai Noel colocou na varanda e deu umas pancadinhas na porta me deixando assustada. Simplesmente a TV chegou como status, afinal duas outras casas na rua já tinham a maravilhosa caixa que reproduzia imagens e algumas vezes éramos convidados a assistir. Foi amor à primeira vista. Eu e a TV nos tornamos quase uma pessoa só em todos estes anos. Antes de sonhar que um dia a minha historia estaria tão ligada à sua ao ponto de escrever um livro sobre um período importante de sua trajetória, com menos de 11 anos eu ia sozinha assistir ao programa “Pulmman Jr” na TV Record apresentado por Idalina de Oliveira, que tinha uma jovem assistente chamada Cidinha Campos.

Com a TV dei muitas gargalhadas assistindo ao Circo do Arrelia aos domingos na hora do almoço. Era a única exceção que meus pais abriam para fazer alguma refeição assistindo TV . Descobri a dor de cotovelo antes de me apaixonar na adolescência vendo Maysa cantar “Meu Mundo Caiu” num programa que papai considerava impróprio. Por acaso no final dos anos 60 fui trabalhar na TV Continental como secretária/assistente do jornalista Eli Halfoun. Ali comecei a construir uma trajetória profissional que me levou a ser memorialista do apresentador Flávio Cavalcanti, amigo essencial por muitos anos..

Foi através da TV que conheci Regis Cardoso e admirei tanto seu trabalho como diretor de novelas que um dia ao vê-lo receber um prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) desejei me casar com ele. E não é que me casei ?

Um dia Moyses Weltman, diretor da primeira concessão de TV do Sílvio Santos, a TV Studio no Rio de Janeiro, me propôs apresentar um quadro com noticias sobre espetáculos no único jornal que a emissora transmitia e ia ao ar quase à meia noite. O jornal só existia para cumprir uma lei que exigia algumas horas de jornalismo, pois a maior parte da programação era composta de velhos filmes . Uma vez por semana eu gravava todas as entradas no jornal. Não tinha recurso de entrevistas gravadas. Era tudo muito precário. Eu sozinha num estúdio falando sem parar olhando para uma câmera…

Em 1984 quando voltei a morar no Rio de Janeiro depois de um período em Nova York, fui trabalhar na TV Globo como pesquisadora do programa “Caso Verdade” que ia ao ar antes da novela das 6. A minha função era ler cartas e selecionar as que pudessem virar uma novelinha para ser encenada em 5 capítulos, de segunda à sexta-feira. De pesquisadora passei a roteirista, mas acabei voltando para a redação e a minha vida de autora se resumiu em 5 boas historias no ar, uma delas contando a historia da atriz Darlene Gloria – do primeiro nu no cinema a sua conversão à Igreja Evangélica – com o título de “Toda a nudez será perdoada”…

Alguns anos depois, cheguei em casa e meu filho estava assistindo a final de um participante no programa “Sem Limite”, na TV Manchete. Achei aquilo tão legal que no dia seguinte telefonei para a emissora e me inscrevi para responder sobre a vida do Flávio Cavalcanti. Estudei muito e foi quando percebi que a memória é como um músculo, quanto mais se exercita melhor  fica. Durante 10 semanas respondi a mais de 300 perguntas sobre a vida do Flávio e no final, quando aos prantos falei sem titubear a carta de duas páginas que  escreveu ao neto, ao ouvir Luiz Armando Queiróz dizer “absolutamente certo” tive o sentimento de ter concluído um ciclo…

E ainda um dia um homem que eu não conhecia chamado Carlos Alberto Vizeu através de um grande amigo me procurou propondo apresentar um programa de entrevistas. Por que não ? Juntei amigos, pessoas interessantes e durante um ano, fazia entrevistas diárias.  Conheci muita gente bacana como Adriana Calcanhotto recém chegada ao Rio…Gostava de ouvir as histórias e dizia que o programa era a alegria do assessor de imprensa, quase uma hora no ar…

Vejo quanto a historia da TV brasileira se confunde com a minha. Praticamente  crescemos juntas, temos a mesma idade, orgulho e respeito por nosso caminho…

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3 Respostas para “E lá se vão 60 anos da TV brasileira…

  1. Léa.

    Obrigada por continuar a escrever sobre suas experiências, memórias, momentos importantes em sua vida. Te confesso que gostaria muito de sentar e conversar com voce e te ouvir muito…..quem sabe no navio, quando formos umas outras vezes…..este ano está um pouco difícil porque estamos em fase de mudança para o Brasil, conforme já havia comentado aqui. Não sei se voce vai a shows em São Paulo, pretendemos ir a Sampa. Lá, encontraremos o Carlinhos do RC. Será que voce está no orkut?

    Enfim, parabéns pelos seus textos….adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Beijos no seu coraçaõ!!!!!

  2. tá vendo, léa, por isso a gente fica ligado em você. agora, “coloridamente”. beijos.

  3. Que bela história!
    Sempre gosto dos seus “causos” e da maneira como você os conta.

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