Mudar a tela

Lembro que mamãe vez por outra saía de casa e dizia que ia “olhar vitrine”. Tanto podia ser em Copacabana, no centro do cidade ou até no comercio da Tijuca em torno da Praça Saens Pena. Hoje compreendi o que era esse movimento. Era uma necessidade de mudar o foco, sair do cotidiano da casa e ter novas informações mesmo que essas não tivessem grande valia. As vezes ela voltava destes passeios tendo adquirido apenas de um par de meias ou um novelo de lã, mas o ato não era consumir mas não se deixar consumir pela mesmice do cenário de casa.
Hoje me senti precisando “olhar vitrine” e saí de casa para ver – se é que isto é possível? – outra paisagem. Sair da tela do computador, do livro, da TV, dos fuxicos e costuras, do jardim e da própria casa. Vim ver e ouvir o barulho do mar, o vento nas árvores e o canto dos passarinhos que apesar de serem iguais aos do meu quintal penso que aqui soam diferente.
Fiquei de molho em casa por conta de um tombo. Saindo da varanda que liga ao quarto escorreguei e bati com as costas no pequeno degrau. O impacto foi tão forte que perdi a voz. Depois de algum tempo consegui gritar e gemia baixinho “mamãe, mamãe”. Foi o momento que mais me senti criança desprotegida. Graças a Deus ficou apenas um grande hematoma nas costas, uma dor que ja esta aliviada -viva a arnica! – e o pensamento deste pedido de socorro. Não lembro em qualquer momento de dificuldade ter gritado por ela, mas nessa queda, talvez por fração de segundos, me senti imobilizada. Um bebê sem voz e movimento. Deve ter sido como voltar ao útero, ao colo. Não pedi por Jesus, nem por meu pai ou qualquer Santo, mas por ela. Pensei muito nisso todos esses dias em que vi o mar de longe. E tudo isto me serviu para lembrar o quanto é importante desviar o foco, ver de outra forma e “olhar vitrine” nem que seja distanciar 20 passos de casa. Rever afetos, saudades e relações. Refrigerar a alma e o coração, mudar a tela da vida.
E mudei tanto o olhar que não fotografei o mar, mas a amendoeira que me protege do sol.

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Uma resposta para “Mudar a tela

  1. Que delícia de texto, Léa. Bjs, querida.

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