O quadro

Depois de dois anos o apartamento foi vendido. Por desejo da minha mãe, de tudo o que lá estava cabia a mim um quadro, uma imagem de São Francisco e uma luminária de mesa. A luminária resolvi deixar uns tempos com minha irmã no Rio, pois não imagino onde colocar na minha casa tão rural. O restante a minha irmã embalou e despachou. Ontem fui à Porto Seguro buscar e trouxe  os dois grandes pacotes como se fossem presentes de Papai Noel. Abri com cuidado e mesmo assim o São Francisco quebrou o pescoço. Mas já coloquei no lugar, nem dá prá notar que foi decapitado com os solavancos da Rio-Bahia na carga do ônibus da São Geraldo. O quadro, um sanduíche de vidro, estava intacto e é nele que estou refletindo. Não me canso de ver as fotos que conheço de cor, como também lembro sabores, texturas, aromas, temperaturas e sonoridades de quase todas. Sou capaz de ouvir o click da velha câmera quando foi acionada. Esta ali um resumo da trajetória da minha família. São só sorrisos. Ah! que incrível esta memória seletiva que nos premia apenas com a lembrança dos bons momentos ! Ninguém brigou, nem discutiu, nem chorou, nem se insistiu injustiçado ou traído. Somos apenas dentes à mostra.

São fotos desde o casamento dos meus pais que reuni numa colagem, emoldurei e dei como presente num dia das mães. Jamais vi este quadro fora da sala de jantar da casa dos meus pais, e o que mexeu comigo foi constatar que prá minhas lembranças  é tudo o que restou da família. Já tem tempo que não nos reunimos prá rir e contar graças da vida. Nem nos dias do Pai nem da Mãe, nem ceia de Natal, ou lanche aos domingos. Mas enquanto o quadro permanecia naquela parede eu tinha um leve sentimento de que a qualquer momento poderíamos nos reencontrar em volta da mesa para compartilhar o cardápio tradicional dos almoços de domingo – talharim com carne assada e salada de batata com maionese – e falar dos planos para o futuro, conquistas e também os fracassos…

Não tem mais pai, nem mãe, nem apartamento. Os irmãos se espalharam no mundo com as suas famílias, são uma voz ao telefone algumas vezes por mês, enquanto o  tempo corre sem pedir licença. Constato madura e tranquila que hoje o quadro na parede é  apenas uma doce lembrança. Quem bom ter lembranças, são como um livro vivo que posso ler a qualquer momento…

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3 Respostas para “O quadro

  1. leo o livro, sentir as pessoas, mesmo elas nas lonjuras.
    beijos próximos.

  2. Adorei mais ainda porque faço parte deste quadro…
    Bjs,
    Dedé

  3. Nossa, me deu saudades de tantas coisas nas quais fazia muito tempo que não pensava! Posso comparar, por alguns minutos, minha cabeça como uma colcha de retalhos. Beijos

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