Olhando a vida

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Saí cedo pra caminhar e assustei com uma haste enorme que surgiu do meio de uma planta no jardim. Acho que ontem não estava ali. É uma Ágave, que por aqui chamam de piteira, planta robusta que toma espaço, vejo sempre com uma proporção horizontal e, de repente, ganhou o céu. Segui pela praia pensando na rapidez como uma porção de coisas acontecem e não nos damos conta. Lembrei da dona Marlene, 62 anos, moradora da vila, mãe de 7 filhos, entre eles o “delegado” Lucas, cujo corpo foi velado na madrugada. No início da semana dona Marlene não levou a sério o formigamento que surgia na sola do pé e subia pelas pernas. Prenúncio de pressão alta, teve um derrame fatal, comentavam no velório na pequena igreja evangélica a beira do rio… Cadeiras brancas de plástico na bela paisagem, a tradição das rodas de conversa, garrafas de café e cachaça madrugada a dentro, alguns familiares levaram o colchonete e uma coberta para dormir próximo da falecida. Uma noite de muitas visitas. É assim que se morre aonde eu vivo…

Mas não vou me alongar sobre a morte nem lembrar a madrugada que passei na beira do mesmo rio recebendo cumprimentos de pessoas simples, mãos calejadas, amigos do meu irmão. Ele também não levou em conta aquela tosse e quando percebeu era tarde. Reflito a importância de atentar para o que não se atenta. Pequenos sinais, a luz vermelha piscando, sutis bandeirinhas acenando como nas corridas de automóvel avisando: perigo, perigo…

Todas as fugas para não ver, jogar embaixo do tapete, mudar de assunto, fazem parte do cotidiano. É o incomodo na relação quando se finge estar tudo “uóoooootimuuu” mas é só parar para pensar que em menos de cinco minutos percebe-se que está nos últimos momentos.  É o mal-estar que ficou no comentário estranho do amigo querendo levar muita vantagem na base da camaradagem. As divergências de propostas no trabalho quando você tem certeza que vai dar errado mas o patrão acredita que vai ser um sucesso, e o pior, é um fracasso e você nem pode usar a típica frase “eu não disse?”, senão perde o emprego. E tudo vai descendo goela abaixo, formigando o pé e por não ter dado atenção um dia explode.

Nos últimos anos fui aprendendo a pensar na vida. Não seria de outra forma morando num local distante dos grandes centros, em meio a resquícios da Mata Atlântica, com muitos bônus e alguns ônus. O dia longo começa pouco depois das 5 com a claridade entrando no quarto. Deixo a janela aberta para dormir com estrelas e acordar com sol. Não tenho trânsito para o trabalho, quando muito ir à Cabrália e esperar a balsa que sai a cada 30 minutos. Se preciso algo da “civilização” vou à Porto Seguro, 24 kms de estrada beirando o mar que até o caminhão lento ou um carro de turistas perdidos que poderiam ser um desgaste no humor fazem prazeroso o caminho. E diante disso não há como não procurar entender aonde estou, como estou e para onde estou indo…

Uma amiga trouxe de presente um pote com geleia de jabuticaba. A fruta foi colhida do seu quintal e lembro que até pouco tempo não era mais do que um arbusto.  Hoje com quase dois metros de altura e mais de 6 anos é uma árvore cumprindo a sua função.  Fiquei feliz com o presente, o sabor da geleia feita pela amiga e a constatação que ainda tenho tempo para plantar uma jabuticabeira no meu quintal e colher a fruta no pé. A bem da verdade nada me impede de fazer planos para 6, 10, 20 e quantos anos sonhar … Se não conseguir cumprir deixei o caminho aberto para quem quiser continuar… Mas tenho que estar atenta ao que estou plantando e o que quero colher… Cuidar das palavras pensadas e faladas, dos desejos, do que está no meu entorno e dos sinais… Estes às vezes vêm de onde menos se espera, como de um pote de geleia de jabuticaba.

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