Mão na massa

Acabei me interessando pelo assunto só para dar uma força aos amigos.  Talvez com mais um aluno a professora se animasse. Eu sempre reconheci a minha inabilidade para artes plásticas. Com agulhas, linhas, tecidos até que me resolvo. E foi apenas para ter quórum que há um mês comecei com aulas de cerâmica, duas vezes por semana. No primeiro encontro com a argila me apaixonei. Amor ao primeiro toque.  Lembrei muito dos sentimentos já vividos, daquela festa que se pensa ser muito chata e se torna a melhor de todos os tempos, assim nasceu a minha relação com o barro.  Fascinante descobrir um novo repleto de segredos, jeitinhos e vontades. É praticamente um ser em transformação, chego a pensar que tem vida própria, em outros momentos acho que me escolhe para criar alguma peça…

Lembrei de uma história que ouvi a respeito do Dr. Roberto Marinho, não sei se é verídica, mas é bem bacana e adoraria que fosse. Conta a lenda que o poderoso criador da Rede Globo de Televisão, responsável pelo sucesso do sistema Globo de tudo, depois dos 80, em alguns dias na semana fazia aulas de cerâmica para evitar a artrite. Chego a imaginar Dr. Roberto – era assim que o chamávamos em O Globo – em um atelier super sofisticado, com um mega forno, cercado pelas melhores argilas do mundo, de todas as cores, “brincando de massinha”, transformando em potinhos, pratos, vasos, pequenas esculturas…

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Os meus dedinhos médio e indicador que de tanto escrever ficaram tortinhos, estão agradecendo por estes exercícios. Como é prazeroso mexer no barro! Coloco literalmente a mão na massa e vou mexendo aquela consistência, às vezes mais rígida, outras molhada, colocando força, muita energia para esticar como se fosse uma massa de pizza, atenta às bolhas que podem prejudicar o trabalho, batendo firme e depois, delicadamente, criando as peças… E nada se faz em um dia. Só mesmo o homem que Deus criou que, como consta na Bíblia, saiu do barro. No final da aula as peças são levadas para descansar e retomamos ao acabamento.

Ah! Como tem sido rica esta espera!  O exercício de dar um tempo e dias depois voltar a trabalhar a peça que ainda não está em ponto de forno, cuidar dos detalhes com pequenos instrumentos improvisados, do cabo de uma escova de dentes a uma agulha de crochê. Tudo muito delicado.  Paciência, este um grande desafio. Para uma capricorniana prática é quebrar paradigmas. E estou aprendendo com uma dedicada professora e três amigos, cada um com seu jeito de construir suas obras. Rimos muito, às vezes cantamos, contamos intimidades, uma catarse em meio ao barro.  Comentamos que no fim do ano faremos uma exposição, mas muito mais do que expor aos outros temos a nos mostrar superações. Reconheço que somos artistas. Um escreve poesias em suas peças; outra trabalha simetricamente, detalhista, ao máximo do capricho e energia; e a terceira que se denomina artesã aposentada, é uma artista na plena extensão da palavra.

Estou me descobrindo mais uma vez, refletindo enquanto construo potes, vasos, porta velas, pratos, todos assinados, que distribuirei entre amigos com a lembrança de mais um aprendizado.

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2 Respostas para “Mão na massa

  1. ZÊ ARTESÃ aposentada

    E não é que é mesmo uma delícia.
    Fico meio cabreira pensando no abandono das peças até a aula seguinte.Para na aula seguinte descobrir que a professora não se aguentou e foi num outro dia ver como estavam as coisas.

  2. Pronto! Você me inspirou… estou aqui pensando se cabe na minha lotadíssima agenda de Santa André, rsrsrs.

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