Visita

A casa dos meus pais tinha muitos braços abertos, bem mais do que o número de quartos. Papai e mamãe nasceram no Paraná e foram os primeiros de suas famílias a “ganhar o mundo”, entenda-se Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, por isso desde muito pequena lembro que tínhamos hóspedes. Eram parentes e amigos que chegavam para temporadas, como a tia avó que foi conhecer o mar e passava os dias sentada na poltrona favorita do papai recortando e emendando tecidos criando infindáveis tapetinhos; a prima da mamãe que se refugiou com o neto enquanto o filho, recém separado, mexia os pauzinhos para ter a guarda do menino. Teve também o padre de São Paulo que ia embarcar para Roma e como o avião saía do Galeão passou dias conhecendo a cidade tendo papai como guia turístico. Detalhe: papai não era católico, mas o ajudara a levantar fundos para construir uma igreja. A garota americana veio com um coral e a pedido da minha madrinha ficou conosco 15 dias. Ela não falava português, nós gaguejávamos inglês e fomos felizes. Uma prima que foi fazer extensão na Escola de Belas Artes e ficou quase um ano, e outra que fez também um longo curso de Biologia. Mas o melhor de tudo foi quando meu irmão Victor levou para casa um jovem peruano mochileiro que, através de amigos, conheceu na rua. Juan viajara de carona até o Rio carregando na mochila mais livros do que roupas. Apresentava-se como periodista (jornalista) isto em pleno ano da graça de 1966, no meio da “revolução”. Morou três meses em nossa casa e mamãe, penalizada com a penúria do rapaz, todo dia lhe dava um trocado para o ônibus e o cigarro. Saía de manhã, voltava a noitinha, e dizia que frequentava as universidades. Quis conhecer Brasília, papai conseguiu uma carona em um caminhão que transportava medicamentos e, para repatria-lo conseguiu um lugarzinho num voo do Correio Aéreo Nacional. Depois que ele partiu concluímos que deveria ser um agitador comunista. E papai era de direita!

Lembrei desses fatos enquanto lia o e-mail de uma amiga pedindo hospedagem para um casal que fotografa passarinhos e viaja de carro pelo país registrando as espécies mais incríveis. Impossível negar acolhida. Foi assim que conheci Gabi e Re (Gabriela Giovanka e Renato Rizzaro), idealizadores do tradicional pôster ilustrado com aves brasileiras e que desde 2005 viajam para documentar aves. Em 2009 foi publicado o pôster com uma coleção de aves da Mata Atlântica, seguido de aves do Pantanal (2010), Amazônia (2013), Pampa (2014) e Cerrado (2015). Agora chegou a vez da Caatinga. Felizes, queridos, bem-humorados, comprometidos com a natureza, eles batalharam para recuperar e manter uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), a Reserva Rio das Furnas, com 53 alqueires, distante 80km de Florianópolis, onde cercados por 7 cachoeiras convivem com pumas e outras tantas espécies em extinção.

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Falamos muito sobre vida na contramão. O quanto é bom se trabalhar com paixão e comprometimento. Por onde passam, em uma escola ou ONG, dedicam algumas horas com o projeto Roda de Passarinho, onde levam às crianças a refletir sobre a importância da liberdade e preservação da natureza. O carro em que viajam é uma Toyota, e também funciona como casa, sem ser um trailer. Foi adaptada, pode ser usada como confortável cama de casal com 2ms de comprimento, tem armários horizontais como gavetas, um pequeno depósito cozinha, bandeirinhas enfeitando a janela para dar um toque doméstico. Vivem com o mínimo, num máximo de qualidade. Sonham com que as RPPNs se multipliquem e, enquanto viaja fotografando passarinhos, Renato também encontra tempo para fazer lindos trabalhos editoriais. Deixou-me dois maravilhosos livros sobre Santa Catarina, design seu, o registro de alguns passarinhos no meu “quintal alado” e a certeza de uma nova amizade… Qualquer dia eles voltam, e eu espero pois adoro conhecer gente nova… Aprendi com meus pais.

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