Desafios

Chegou no meio da madrugada uma mensagem no WhatApp.  Tenho o péssimo hábito de dormir com o celular ligado. Primeiro era o telefone fixo ao lado da cama, podia chegar alguma notícia do filho ainda jovem que descobria a noite; depois o telefone e o celular acompanhando a saúde dos pais, e fiquei assim sempre pronta a receber notícias. Apesar do som ser quase inaudível do Aap, acho que foi meu anjo da guarda quem me acordou para ler a triste mensagem da amiga embarcando para o sul a fim de  ver a mãe com a saúde muito delicada… Pude vislumbrar a amiga nervosa, sozinha, no salão de embarque do aeroporto, uma longa e triste madrugada, aguardando um voo e pensando com quem conversar… Lembrou de mim, compartilhou a dor e pediu preces para a mãe que conheci tão bem quando passou uns dias em minha casa… Tenho a lembrança da alegria enorme do casal gaúcho banhando-se na águas de Santo André, assando carne numa churrasqueira improvisada,  tomando chimarrão e contado “causos”.

Crédito Foto: Cláudia Schembri

Esta curta mensagem fez cutucar um assunto que tenho dificuldade em engolir e entender, pois o câncer é um mal que ninguém acredita que poderá ter e, quem tem, não consegue perceber a sua intensidade… Sou prova disso. Eu tinha 22 anos, trabalhava com Flávio Cavalcanti na TV Tupi e fazia um tratamento com o mesmo dentista do patrão. Certo dia Flávio me chamou em sua sala e em tom solene disse que o dentista, muito seu amigo, tinha avisado que eu precisava fazer uma cirurgia urgente. O diagnóstico era um tumor ósseo no maxilar e junto estava um dente do siso incluso. Dias depois fui internada na Clínica Santa Terezinha em Petrópolis, estranhei tanto aparato, um cuidado exagerado, uma cirurgia que acreditava poder ser feita no consultório sem anestesia geral. Na minha cabeça o fato só se justificava por Flávio ser o homem mais importante da tv brasileira e eu sua secretária. Tolinha. Vieram dias tomando sopa, sucos e sorvete, muitos medicamentos, retirei os pontos, fiz novas radiografias e tive alta. Passados uns três anos, estava eu de novo na cadeira do mesmo dentista, de boca aberta, quando ele se dirigiu a um estagiário que tudo acompanhava e, apontando o local de onde havia retirado o dente e o tumor, comentou orgulhoso: “havia um CA, você nem diz! ” Quase mordi o seu dedo, tal a indignação por não ter sido informada que tivera um câncer!  Só naquele momento eu entendia a razão por que sempre ele insistia em radiografias da face a cada seis meses e eu achava uma bobagem.  Reclamei com meus pais que esconderam o assunto, porém nada mais a fazer a não ser ficar atenta para o resto da vida…

Sei que nem com todos é assim. Com meu irmão foi fulminante, apenas 9 meses e o câncer consumiu um homem lindo, vigoroso e inteligente no auge dos seus 56 anos. Acompanhar as suas químios e radioterapias foi duro demais. Ver o cabelo e os pelos sumindo, o corpo magro, e o sentimento de impotência diante da guerra que perdemos. Nestes anos muitos amigos queridos partiram, outros nem tão próximos, mas a quem admirava foram também, e tudo isso sempre em meio a muita dor e sofrimento…. Atualmente além da mãe da amiga que mora quase na fronteira do Uruguai, acompanho um amigo no Rio. Valente, obstinado e focado na superação, tem certeza absoluta que tudo isso é apenas um tempo para reflexão. Acredito também, mas isto não me impede de continuar indagando:

Quem é escolhido ? Como ? Por que ?

Ainda verei muitos partirem pois apesar de tantos paliativos e possibilidades da medicina nem todos escapam. É como um raio que cai despedaçando sem aviso prévio. Uma bomba que nos faz até duvidar dos milagres, perder a crença em uma força superior. Um processo sofrido, às vezes longo, doloroso, talvez mais para a família do que para o enfermo que sempre tem esperança. Minha amiga pede preces à sua mãe. Tenho pedido à Deus, mas nem sempre Ele atende da forma que desejo. Não tenho mais como buscar a resposta à pergunta que sempre me faço diante das dificuldades: “o que tenho que aprender com isso? ”  Creio que isso é maior do que a minha pequena compreensão sobre a vida…  Só consigo repetir, como num mantra, a singela prece “Senhor seja feita a sua vontade e não a minha”.. . E acrescento, “por favor, se possível, seja rápido e tenha piedade”.

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