Ele voltou

Na contramão do “desapega”, quando retirei do guarda-roupa o suficiente para encher três sacos de 100 litros que seguiram para doação, fiz um resgate emocional. Percebi que nem tudo o que não se usa mais é para ser descartado e, como num passe de mágica, meu olhar se voltou para ele, repousando há anos bem ao meu lado, ao alcance dos olhos, um velho amigo de tantas alegrias, parceiro de momentos incríveis, companheiro fiel, jamais me deixou na mão, encoberto por uma capa prateada. Ali estava aquele que me trouxe do Rio para a Bahia há 11 anos, o meu Palio branco. Parado na garagem há uns 5 anos, apesar das diversas ofertas para compras, com muito ciúmes não o deixei sair…. Neste período duas tentativas para acordar o pobre carro foram em vão… Em uma o mecânico roubou os pneus, em outra engasgaram o motor.

Um dia eu cuido de você, pensava eu. Mas com a vantagem de um carro novo à disposição, cedido por uma amiga, o Palio foi ficando escondido atrás da capa prata que o protegia da maresia fazendo com que a minha dor de vê-lo abandonado fosse menor. O que os olhos não veem o coração não sente, diz o ditado popular. Guinho, meu braço direitos em assuntos de jardim e outros tantos da vida rural, sugeriu que de vez em quando fizesse uma vistoria para ver se não se transformara em residência de ratos ou outros animais da região como um horrível marsupial que faz ninhos onde menos se espera. Coloquei ratoeiras, mas não vi sinal de fios roídos.

O tempo foi passando e tristemente os pneus murcharam. Não se aguentava mais em pé. Fiquei com pena. Lembrei de quantas ofertas já tive para sua compra e recusei. Um fim inglório. Sem sair do lugar, retirei os pneus, um de cada vez, e levei para consertar. Não estavam furados, apenas cansados de ficar parados, ressecados, mas rapidamente ficaram firmes, tomaram forma… Mas ainda passou um bom tempo até que o ataque de desapega tomou conta de mim e depois de ter me desfeito de todas as roupas dos armários por quem não tinha o menor afeto que me lembrei do carro e resolvi trazê-lo à vida. Sem saber o que era preciso para sua recuperação em função dos anos sem emitir qualquer ruído nem se mexer, resolvi chamar o Samuel, o bom mecânico mineiro que conheci há pouco mais de um ano e por ter me provado total competência teve a honra de levar algo tão especial para a sua oficina.

Para mim, ele não é um Palio qualquer. Tem uma infinidade de referências, lembranças, memórias. Comprei logo depois do Rock in Rio 2001, ainda sob a orientação do meu irmão Victor, que sempre me aconselhava neste e em tantos outros assuntos…Era mais um Fiat na minha vida, pois aprendi a dirigir num 147.  Ele saiu zerinho da revendedora com ar condicionado potente, cd player, janelas e portas automáticas, um luxo para o meu coração… Grandes histórias, algumas alegres, outras menos, mas sempre valente. Quantos sonhos e pensamentos eu tive enquanto o dirigia nas ruas do Rio. Ele me levou ao aeroporto quando fui para Lisboa e me trouxe para a Bahia. Passeou comigo por todo o entorno da costa do descobrimento, me revelou este “quintal” baiano com mistura capixaba e mineirice, passou pelas 10 cidades onde aconteceu a Caravana Veracel, projeto que me permitiu comprar a casa onde moro. Como posso esquecê-lo!

Determinada deixei o Palio partir rebocado e eu não quis assistir a cena. A garagem ficou vazia. Quase todos os dias eu passava pela oficina do Samuel para vê-lo de longe. Respirava por equipamentos, muitos fios saíam do motor. Em outras vezes estava suspenso sendo examinadas as suas partes baixas… Fui forte, me controlei e em nenhum dia telefonei para saber o diagnóstico…. Temia o pior, uma resposta do tipo “não tem mais jeito, só se aproveita a carcaça que por sorte a maresia não comeu…”  Mas a semana passada uma mensagem no WhatsApp trouxe a felicidade de saber que ele estava OK… Havia sobrevivido à água que misturaram no tanque de gasolina que quase o afogou. A bateria que era nova, mas estava parada, reagiu a uma “chupeta” e até o ventilador funcionava mesmo sem gás do ar condicionado. Trocou pastilhas dos freios, filtros e tudo o mais que pudesse lhe dar uma longa vida. E o melhor: o som perfeito. Bota o Raul no CD player…

palio

E assim para a minha alegria ele voltou. Um som inconfundível do motor, prazer vê-lo entrando pelo portão. Nos últimos dias saí muito com ele…. Durinho, baixinho, batutinha, um sucesso. A direção não é hidráulica, mas estou adorando, assim faço musculação. Ainda falta acertar o ar condicionado para refrescar neste verão, resolver a elétrica da janela do carona, um tapete novo, lavar os bancos, um belo banho! Mas estou tão feliz que estes detalhes resolverei na próxima semana quando o levar para desfilar em Porto Seguro. Do jeito que ele está, preciso avisar para não se animar muito e querer pegar a estrada do Rio…

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