O Mago

Com a noticia da partida de Namur, fui buscar o que escrevi no livro “A Verdade é a Melhor Notícia”. Namur, grata por você ter me aberto a porta de um mundo mágico…. Descanse em paz…

Na foto, em um aniversário, com Namur, Carlos Alberto Torres e Tetê Nahaz.

Quem nunca teve vontade de ir a uma cartomante que atire a primeira pedra. Mas daí a entender do assunto há uma distância muito grande. Por isso um dia, quando um querido amigo diretor de programas da TV Globo telefonou pedindo que fosse ao encontro de um tarólogo, achei estranho. Não estava interessada em saber da minha vida nas cartas, mas a razão do convite era outro. Ele pedia discrição ao fato de se consultar com frequência com este profissional que estava em vias de lançar um produto e procurava uma assessoria de imprensa. Muito mais por respeito ao amigo do que interesse em trazer para o meu escritório um assunto que eu não conhecia, fui ao encontro do mago no bairro de Botafogo. Era um edifício residencial, discreto, onde em dois apartamentos havia a presença do mago. Em um ele dava aulas e colocava cartas, no outro residia e se movimentava entre os dois numa cadeira de rodas. 

Com lindos olhos azuis, voz grave e fala macia, Namur Gopalla foi me contando sobre o projeto que estava desenvolvendo há 5 anos junto com a artista plástica argentina Martha Leyros, sua aluna há 8. Estava pronto para sair das máquinas o primeiro baralho de tarô criado no Brasil. Mas o assunto era bem mais profundo do que os desenhos criados pela artista seguindo as formas dos baralhos tradicionais. Estávamos falando de ciência que até onde se sabe chegou à Europa através dos árabes no século 14 e eu não podia simplesmente “decorar” o nome das 22 cartas e sair falando por aí. Pensava sobre isso enquanto ouvia o mago contar sobre cada detalhe dos desenhos. O que à primeira vista parecia uma ilustração simples, estava repleta de significados e como eu não era iniciada no ocultismo, parecia que ele falava grego. Existe uma linguagem que chamei de “taronês” envolvendo lâminas, símbolos e formas de se posicionar as cartas em um jogo. O tema era sedutor, as cartas desenhadas a bico de pena e coloridas com lápis de cor, eram um sonho. E diante do meu interesse em entender melhor este mundo ele me convidou para participar de um curso que aconteceria no fim de semana seguinte.

Namur era muito bom de didática e como era um mestre no assunto, em dois dias me deixou informada o suficiente para “vender” a ideia. Mas eu queria entender mais e estudando percebi que falar sobre ocultismo é como andar sobre um fio de navalha: se o assunto não for muito bem colocado, pode cair na vala comum e se tornar uma conversa de comadres no cabeleireiro sobre cartomante. Consultei as meninas da equipe e concluímos que para aceitar esse trabalho tínhamos que dar um tiro certeiro, uma bela matéria que gerasse confiabilidade, mostrasse categoria e desse status ao lançamento do tarô. E o melhor veículo seria a revista Veja. Não queria menos do que isso.

Para dar embasamento, entrei de cabeça no tema, fiz uma pequena pesquisa entre amigos e percebi que dentre todos os temas ligados ao oculto, como o I Ching, a quiromancia, a bola de cristal, o que mais caia no gosto do brasileiro era o tarô. Mistura de tradições egípcias e ciganas, o tarô permite que através de suas cartas, ou lâminas, os iniciados possam ler o passado, interpretar o presente, projetar o futuro, e os fatos são contados através da forma como as cartas são colocadas. Embaixo dos panos, de forma discreta, algumas figuras de expressão e da sociedade consultavam o oráculo e frequentavam os cursos que Namur oferecia. O tarô por ele criado com a artista plástica Marta Leyros, era muito elegante. Ao contrário de alguns baralhos europeus que conheci cujos desenhos são mais duros, cores esmaecidas e sombrias, o brasileiro trazia os símbolos com cores alegres, dando uma versão mais tropical sem perder, porém, o significado repleto de simbolismo que compõe cada elemento. 

Eu já tinha mais que “comprado” as maravilhas do tarô, quando procurei a redação da Veja. Não coloquei as cartas para saber se aceitariam a proposta, mas eles gostaram da ideia. Pediram exclusividade e durante duas semanas, até a publicação da matéria, eu nem pensava no assunto temendo que transpirasse em outro veículo. Não era um tema bombástico, mas a matéria na Veja era fundamental para os desdobramentos planejados. No dia 2 de setembro de 1987 lá estavam em matéria de página inteira o mago e a artista. O assunto tratado com respeito, pontuou o lançamento do baralho cuja primeira tiragem de 10 mil cópias se esgotou em poucas semanas. O mago que já era reconhecido no meio do ocultismo ampliou seu mercado e se tornou uma estrela do esoterismo. A reportagem pautou todos os outros veículos. Nem foi preciso distribuir release, o interesse sobre o assunto era grande e nosso maior trabalho era peneirar os interesses para não desgastar a imagem. Com um jeito misterioso, a barba alourada cobrindo o rosto, Namur agregava ainda mais magia à sua arte. O seu baralho de tarô até hoje é vendido no Brasil e em diversos países. O meu está guardado no fundo de uma gaveta.

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