Educação

Não poderia ser mais adequado para o momento que o país atravessa o evento que assisti no fim de semana.  Parafraseando Artur Xexéo, “os meus pouco mais de 33 leitores” sabem que moro em Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia, menos de 30 mil habitantes e tem como base econômica o turismo, a pesca e a agricultura. Uma cidade linda, histórica, poucos recursos, enorme extensão territorial e muito simples. Quando cheguei há 15 anos havia uma faculdade em Coroa Vermelha, um distrito na entrada da cidade. A Faculdade do Descobrimento tinha um campus bem estruturado, cursos de Administração e Enfermagem, previsão de outros tantos como Medicina. Mas algo deu errado, foi desativada e o local tomado por índios. Sim, índios.  Cabrália é uma das cidades com maior número de índios em área urbana no país.

Sendo assim, a educação ia até o ensino fundamental. Quem mais quisesse aprender deveria partir para cidades próximas como Porto Seguro e Eunápolis. Há uns quatro anos encontrei com uma amiga que disse ter entrado para a Faculdade de Pedagogia em Cabrália. Alvíssaras! Fora implantado o núcleo de uma universidade de Itabuna e ela vislumbrou a chance de voltar a estudar mesmo passando dos 40 anos. Algumas vezes voltei a perguntar sobre a faculdade, percebi um desapontamento nas entrelinhas, mas ela não desistira. Finalmente no último fim de semana a formatura aconteceu e lá estava eu. Menos de 20 formando entre administração e pedagogia, um enorme orgulho mesclado de emoção refletido nas famílias e amigos presentes. Confesso que nem me lembrava como é a cerimonia dessas… O última que eu poderia ter assistido foi a do meu filho, mas ao terminar o curso ele foi estudar nos Estados Unidos e não acompanhamos as festas. Mas numa cidade pequena como Cabrália este é um momento emblemático.  Tão significativo quanto um casamento. Trajes de gala, entrada triunfal, mesa composta por professores e um representante do legislativo que escorregou no plural de cidadão. Flores, trilha sonora épica que às vezes encobria os discursos, protocolos, muitos flashes. Até o vice-prefeito na plateia.

Enquanto o evento acontecia fiquei tentando decifrar na expressão de cada formando os desafios passados para chegar até este momento. Não eram apenas jovens, mas homens e mulheres de todas as idades. Muitos foram levados até o palco acompanhados por vários membros da família, quase uma procissão. Outras de braço dado com filho, também com a esposa de um lado e a filha do outro, com o pai e a mãe, ou seja, chegavam com os que haviam impulsionado esta realização. Assistindo a tudo pensei no diferencial que estas 19 pessoas farão à cidade, mais do que na formação da massa crítica, me contento com o exemplo que darão no seu entorno.  Já falam em pós-graduação, mestrado, doc, pós doc, phd, enfim uma carreira acadêmica. Fico feliz em saber que com o estudo passam a ter mais consciência da função como profissionais e o crescimento na forma de analisar, refletir e tomar decisões. Volto para casa com o sentimento de que alguma mudança positiva pode acontecer em Cabrália e, apesar da crise na educação universitária em todo o país, tenho o foco no meu quintal.      

Entusiasmada com o que presenciei, fui em busca de mais informações para escrever este texto e, com enorme tristeza, soube que o curso acabou. Foram as primeiras e únicas turmas deste núcleo que, segundo um aluno, apesar do empenho de professores foi um fracasso. Aula 1 vez por semana, sem conteúdo online, apenas email e a maior parte da comunicação por whatsaap. Não haviam apostilas, nem cronograma do curso. Será que estas universidades franqueadas e que sabem cobrar muito bem oferecem cursos através do FIES do tipo “você brinca que ensina e eu brinco que aprendo”?

Pobre educação brasileira ! Não se pode brincar com a formação de profissionais. Estudo é coisa séria, um titulo acadêmico vale uma posição melhor num concurso, na pontuação de um caro público, mas não melhora o mundo. O que mais entristece é saber que tem muita gente querendo estudar, sonhando mudar de vida, fazer uma nova história para a família, criar um novo lastro de conhecimento e sabe lá o que vai encontrar pela frente… Aos formandos desejo sucesso, que este seja apenas o primeiro canudo de muitos e o próximo seja em melhor instituição.

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