Dia do Padre

Igreja do Sagrado Coraçao de Jesus

Hoje é dia do padre, impossível não lembrar do meu pai…. Criado na doutrina espírita, como profissional de vendas e marketing, papai estreitava relações com facilidade. E foi assim que aceitou o convite dos padres do colégio Meninópolis onde mamãe era professora para ajudar na campanha de construção da igreja do Sagrado Coração de Jesus, no Brooklin, bairro onde morávamos em São Paulo.

Sem qualquer intimidade com a igreja e seus rituais, papai fez a sua parte conseguindo doações e auxiliando na realização de uma revista lançada na inauguração. No final do movimento, papai se tornou amigo dos padres e, alguns anos depois, quando mudamos de São Paulo para o Rio, a relação permaneceu com troca de cartas e telefonemas. Certo dia chegou a consulta se poderíamos hospedar o Padre Vicente, o top de linha da diocese, que iria viajar para o Vaticano e, naquele tempo, os voos internacionais saíam da Cidade Maravilhosa.

Papai nem consultou a mamãe, respondeu positivo, o quarto dos rapazes recebeu uma cama de hospede, e nós recebemos uma série de ordens de como deveríamos nos comportar durante as 24 horas da visita. Proibido shorts, vestidos decotados e os rapazes tinham que usar camisa – nada de camiseta regata – apesar do verão 40graus. Apesar de palavrões não serem liberados em casa, cuidados com o palavreado. Se o padre manifestasse a intenção de rezar antes das refeições rezaríamos junto.

No dia marcado fomos eu, papai, mamãe e Marcus, meu irmão caçula, receber o Padre Vicente no aeroporto num final de tarde. Um homem inteligente, culto, no trajeto até a Tijuca mostrou que não era o carola que papai anunciara. Um lanche ajantarado nos esperava, com salada de maionese padrão da casa, cachorro quente, saladas e diante do calor papai perguntou ao padre se queria um suco ou uma cerveja. “Que venha a cerveja”, exclamou o padre… Assim rolou a conversa interessante até a hora de dormir.

No dia seguinte a programação já estava estabelecida. Como fazia com todos os visitantes papai levava para um passeio de carro, no caso uma Kombi, subindo o Alto da Boa Vista, passando pela Floresta da Tijuca, descendo à Barra da Tijuca onde parávamos para comer milho verde e o retorno era pela orla da zona sul, aterro do Flamengo, centro da cidade, uma volta no Maracanã e de novo estávamos na rua da Cascata.  Perfeito para ocupar a manhã pois no fim da tarde embarcaria para Roma.

No dia seguinte quando estávamos sentados para o café da manhã vem a surpresa:   Padre Vicente surge vestindo shorts preto, camisa de mangas curtas e calçando sandálias.  Estava pronto para o passeio e dar um mergulho em Copacabana. Claro que ninguém comentou nem demonstrou choque com a realidade. A verdade é que o dia foi muito divertido e quando o deixamos no aeroporto voltei para casa com a certeza de ter aprendido algo que iria mudar a minha vida: as pessoas não são seus títulos, suas vestes, suas crenças. São múltiplas.          

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