70 anos da TV brasileira

Então chegamos aos 70, eu e a TV brasileira… Eu um pouquinho antes, mas posso considerar que estamos no mesmo pique de renovação… Não sou bombril na antena – se é que me entende? – sou completamente streaming, up to date, um conteúdo de multimídia enorme, pronta para entrar no mercado na mais nova profissão de “conselheira” pois “coach” já era, e honrada em fazer parte de sete décadas desta história. Tem um pedacinho que lá estou, não como atenta e observadora, mas colocando a mão na massa na TV Tupi do Rio de Janeiro, no Programa Flavio Cavalcanti, o Senhor das Noites de Domingo como a revista Veja o intitulou… E esta passagem foi tão marcante que transformei no livro, “Um Instante, Maestro”, lançado pela Editora Record em 1992 e hoje disponibilizado em pdf neste blog.

Mas muito antes disso, aos 10 anos, quando a TV engatinhava eu a vi por dentro e me apaixonei. Fui muitas vezes ao Programa Pullman Junior na TV Record em São Paulo, aonde comia bolo, tomava milk  shake, assistia filmes do Roy Rogers e Dale Evans, participava de gincanas de perguntas e respostas e ganhei o prêmio máximo: uma lanterna dos heróis do faroeste. No início da vida profissional a TV também me esperava. Antes dos 20 anos, trabalhando como assistente do jornalista Eli Halfoun, que era gerente de divulgação da TV Continental (não haviam ainda os assessores de imprensa), a curiosidade me levou a fazer hora extra como contrarregra, produtora e o que mais precisasse em um dos primeiros programas de entrevista com estilo informal. Apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa, o programa ia ao ar à noite e a dupla entrevistava as melhores cabeças do Rio de Janeiro. Escritores, compositores, políticos, atores, artistas plásticos, sentavam em volta de uma mesa onde o whisky corria solto e assisti conversas saborosas. Não sei se dava audiência, mas o resultado era muito bom.

“Perguntas e respostas” voltaram à minha vida, num desafio nos anos 90 quando fiz a loucura de, durante 10 semanas, responder no programa “Sem Limite”, na TV Manchete, sobre a vida do Flávio Cavalcanti.  Foi neste tempo que concluí que a memória é um musculo, que quanto mais acessada melhor o resultado. O programa era apresentado por Luiz Armando Queiróz, cada programa 10 perguntas divididas em 3 itens, num total de 300 respostas. E não eram coisas simples, iam dos detalhes da certidão de nascimento da Marzinha, primeira filha do apresentador, até a relação das músicas do LP Canções Medalha de Ouro, joias da MPB orquestradas por Paul Mauriat e Erlon Chaves. E ouvi o ABSOLUTAMENTE CERTO na final debaixo de lágrimas e soluços ao repetir a carta que Flavio escreveu ao neto Jarbinhas, duas páginas de um texto excelente que levei dias decorando.   

Ah! TV na minha vida… ainda em voo solo apresentei dois programas… Sempre morri de vergonha das câmeras, por incrível que possa parecer. Até hoje tento reunir imagem e voz numa só Léa. É isso mesmo : eu acho que quem fala não é a imagem que tenho de mim !!

Um dos programas no início dos anos 80 marcava a estreia da TV Studio, que depois veio se tornar o SBT do Silvio Santos.  Foi a TV pioneira do apresentador e ficava no Rio de Janeiro. Moyses Weltman, que havia sido meu diretor na revista Amiga, estava à frente e, para cumprir uma determinação do Ministério da Comunicação que exigia um mínimo de horas de programas com produção local, criou um jornal no fim da noite e eu tinha de 15 a 30 minutos para falar o que quisesse…. Naquela época eu trabalhava no Segundo Caderno do jornal O Globo e escrevia sobre artes e espetáculos. Uma vez por semana, no final do dia, eu ia para a emissora em São Cristóvão e gravava programas suficientes para exibição de 2ª à sexta-feira. A maquiadora me preparava e eu só trocava a blusa, o brinco, o colar e o assunto…. Não tinha Teleprompter*. Era eu, a câmara, um bloquinho com o roteiro e falava como se ninguém estivesse me ouvindo, atenta ao coordenador da gravação que controlava quantos minutos ainda restavam. Por muito tempo não contei aos amigos que apresentava o jornal, mas como não se engana todos o tempo todo, foram me descobrindo e comecei a ouvir comentários “fui dormir assistindo você”… Eu nem respondia de tanta vergonha… Foi um tempo bom…Parei quando fui morar em Nova York.

Muitos anos depois, numa mesa no Antoninos na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, Carlos Alberto Vizeu, diretor de tv, me convenceu a apresentar um programa de entrevistas para a sua produtora, Tele Tape, que tinha um horário no início da noite, de 2ª à 6ª. feira, na então TV Corcovado. A esta altura eu tinha um escritório de Assessoria de Imprensa e o programa passou a ser a alegria de todos os que tinham artes para divulgar… Com quatro blocos de quase 12 minutos, fiz entrevistas incríveis, como uma das primeiras com a Adriana Calcanhoto chegando no Rio de Janeiro vinda de Porto Alegre. Os cenários eram os mais diversos: de restaurantes a salas de hotéis, escritórios, passando por festas em casas noturnas e conversar com amigos sempre era muito bom… Foi fazendo o “Programa da Noite” que descobri Santa Edwiges. Uma sexta-feira, já com todos os programas da semana seguinte gravados e editados, Vizeu telefonou pedindo desculpas por mudar a agenda, pois no dia seguinte, sábado, era dia de Santa Edwiges. Ele tinha uma promessa de fazer a cobertura da festa da santa e colocar no ar em qualquer programa que sua produtora tivesse e, no caso, era o programa que eu apresentava. Eu não precisaria fazer a cobertura, afinal era outro estilo, uma reportagem. Saí elegantemente da quase convocação me desculpando com uma viagem no fim de semana e, ao desligar o telefone, comentei com a Angela Tostes, minha assistente, sobre o conteúdo insólito de um programa que eu tinha me livrado e fiquei pasma quando ela me revelou: Santa Edwiges é a santa dos endividados. Imediatamente telefonei para o Vizeu e no dia seguinte estava linda e loura entrevistando o pároco, os fiéis e contando a história da santa que acabei devota.

E assim a TV foi passando profissionalmente na minha vida, sem contar as muitas vezes que participei do “Almoço com as Estrelas” do Aérton Perlingeiro, do programa do Chacrinha, das entrevistas no Clodovil e na Hebe, o prazer de ser debatedora do programa Sem Censura a convite da Leda Nagle. No meio disso tudo, dois momentos inesquecíveis na telinha: o dia em que fui entrevistada no Jornal Nacional para falar sobre a abertura da exposição dos 50 anos de música do Roberto Carlos na OCA, em SP, da qual fui diretora, e no Faustão, num quadro em homenagem ao Elymar Santos com o qual fecho um pouco dessas minhas memórias…

Domingão do Faustão 31 de janeiro 2016 https://globoplay.globo.com/v/4777299/

  • Teleprompter é um equipamento acoplado às câmaras de vídeo que exibe o texto a ser lido pelo apresentador

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