Simonal nos 70 anos da TV

Nas celebraçoes dos 70 anos da TV brasileira, esta é uma das tantas historias que vi …O 18o capitulo do livro “Um Instante, Maestro!” onde relato a trajetória do apresentador Flávio Cavalcanti, dediquei a Wilson Simonal..

A música foi um dos elementos de maior importância nos programas que Flávio Cavalcanti criou e apresentou ao longo da vida. Em 1970, na Tupi, três dos artistas de maior sucesso na época eram seus contratados com exclusividade. Um deles era Wilson Simonal. Hoje é impossível encontrar um artista que tenha tido tanto sucesso e prestígio quanto Simonal no final dos anos 60, início de 70. Ele não era sertanejo, tampouco brega ou MPB. Criara um estilo, um movimento, uma marca que vendia milhares de discos, faturava alto com os shows que fazia no Brasil e exterior. Apresentava programas de televisão, era capa de revistas e chegara a lançar um bonequinho de pano, o Mug, que virou mania nacional.

Super afinado, com muito balanço e um repertório popular onde interpretava as canções mais simples de forma sofisticada, Simonal além de tudo era o rei da simpatia. Vestia-se com a maior elegância, era recebido nas festas mais fechadas da sociedade e tinha um Mercedes Benz branco, novinho em folha. As críticas que lhe eram feitas traziam sempre um ponto de inveja e preconceito: ele era um negro bem-sucedido. Voou mais alto do que o melhor sonho que um garoto pobre pode ter ao se tomar cantor. Filho de dona Maria, uma empregada doméstica semialfabetizada, começou, como muitos cantores, em um programa de calouros, o de Ary Barroso, aos dezessete anos. Sua apresentação mereceu um raro elogio do exigente compositor. Aos dezoito foi servir ao Exército, no 89º Grupo de Artilharia de Costa Motorizada, no Leblon, e lá surgiu a oportunidade de mostrar seus dotes vocais ao fazer um show de improviso, onde imitava Agostinho dos Santos e Harry Belafonte, cantores negros como ele. Dois anos depois, ao deixar o Exército, entrou para um conjunto de rock liderado por Sérgio Riff. O grupo se reunia na casa de Riff, no Leblon, e uma noite Carlos Imperial foi lá ouvir os novatos.

Imperial tinha dois programas de televisão: “Os Brotos Comandam”, na TV Continental, e “Festival de Brotos”, na TV Tupi. O suingue do crooner conquistou Imperial, que o levou para a TV e depois para gravar um compacto na Odeon, com o “Chá-Chá-Chá Terezinha”. O chá-chá-chá era o ritmo do início dos anos 60, e a música foi feita por Imperial para sua namorada Tereza. A letra era assim: “Terezinha,/todo dia,/dança o chá-chá-chá,/dança, menina, dança, balança o corpo/que eu quero ver…” Uma bobagem, mas, como o ritmo estava no auge, a música estourou nas paradas. Surgiram então os convites para shows, e outros tantos LPs se seguiram, numa sucessão de hits.

Aos 32 anos de idade, Simonal chegava ao auge de sua carreira. Gravara três maravilhosos LPs de bossa nova e, sob orientação de Imperial, lançou a “pilantragem”, com a música “Nem Vem que Não Tem”. Era um samba mais arrastado, cadenciado. Surgia assim um novo estilo musical na MPB. Simonal estava de volta ao Rio, depois de uma temporada em São Paulo onde apresentava um programa de TV. Morava em Ipanema, numa belíssima cobertura, e estava muito bem casado com a Terezinha do chá-chá-chá. Em 69, fez uma apresentação que literalmente balançou o Maracanãzinho. Simonal era presidente do júri do Festival Internacional da Canção, e fora contratado para fazer o show da noite final. Uma de suas características como showman era manter domínio total sobre o público, e naquela noite não foi diferente. Dividiu a plateia em duas vozes, como num gigantesco coral, e “regeu” vinte mil pessoas cantando “Meu Limão, Meu Limoeiro” e “Patropi”. Um espetáculo inesquecível e jamais repetido por qualquer outro artista. Era muito sucesso para um homem só. Domingos de Oliveira, o cineasta mais in do momento, dirigiu no final de 69 o filme “É Simonal”, uma produção de Carlos Thiré, tendo como ator principal o próprio cantor e um elenco formado por Maria Gladys, Oduvaldo Viana Filho, Vanda Stefânia, Irma Álvarez, entre outros artistas consagrados. Em 70, Simonal foi contratado como garoto-propaganda da Shell, para uma grande campanha publicitária. Estava na telinha da TV o dia todo, os postos de gasolina estampavam o seu sorriso em enormes cartazes e a companhia de petróleo patrocinava seus shows.

Simonal tinha trabalhado com os melhores empresários do país, mas, julgando-se autossuficiente, resolveu criar uma agência para administrar sua carreira e seus bens. Para cuidar de tudo isso convidou Rui Brizola, um misto de empresário e administrador. Tornou-se assim o primeiro artista a se auto-empresariar, montando um sofisticado escritório todo branco, muito bem decorado e aparelhado, na Avenida Princesa Isabel 150, em Copacabana. Para cuidar da parte financeira, indicado por Rui Brizola, Simonal contratou o contador Raphael Viviani, paulista que já havia trabalhado em bancos. Viviani veio morar no Rio e durante quatro meses ficou no Hotel Plaza, em frente ao escritório de Simonal, com todas as despesas pagas. Com a indicação de Brizola, o cantor não se preocupou em investigar o passado do contador e, como estava sempre viajando com shows, envolvido com muitas festas, entrevistas, numa vida como nos melhores tempos de Hollywood, acabou relaxando no controle de seus negócios. Um dia o sonho virou pesadelo. O gerente do banco telefonou avisando que havia um problema com a conta corrente da empresa, um rombo muito grande, e tudo levava a crer que o contador estava desviando dinheiro.

Estávamos em 1971, num clima político explosivo, vivendo em cima de um barril de pólvora. Qualquer coisinha era motivo para especulações, distorções, divagações e patrulhamento ideológico. A popularidade de Simonal incomodava tanto a esquerda quanto a direita. Ele achava difícil ser um negro bem-sucedido, resumindo o racismo brasileiro com a seguinte frase: “Em lugar onde preto pobre não entra, branco pobre também não entra.”

Simonal acreditava ter amigos em todas as áreas. Ao saber do desvio de seu dinheiro, em vez de ir à polícia fazer uma queixa contra o contador, pediu a uns amigos policiais, entre eles o inspetor Mário Borges, que nas horas vagas fazia sua segurança pessoal, que fizessem a averiguação. No dia 24 de agosto de 1971 os policiais saíram em busca do contador no próprio carro do artista, dirigido por seu motorista, Luiz llogti. Já passava das dez da noite quando chegaram no prédio em que Viviani morava, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Chamaram Viviani pelo interfone e o levaram para o DOPS – Departamento de Ordem Política e Social—, a fim de prestar depoimento sobre o desfalque dado na empresa de Simonal. O motorista Luiz llogti deixou-os no DOPS, na Rua da Relação, no Centro do Rio, e foi para casa, esperando o aviso para buscá-los. Algumas horas depois recebeu um telefonema avisando que o depoimento iria se prolongar e que ele não deveria voltar. O depoimento durou a noite toda. A mulher de Viviani viu quando o marido foi levado e identificou o motorista do cantor. O dia amanheceu sem Viviani chegar em casa, e sua mulher foi à 13ª Delegacia de Polícia dar queixa de que Simonal sequestrara seu marido. Ilogti não pôde afirmar se Viviani foi torturado, pois não assistiu ao depoimento, mas o contador declarou ter sofrido os mesmos métodos de tortura utilizados pelo regime militar, até confessar o roubo. Em pouco tempo o assunto chegou ao conhecimento da imprensa. O que seria um caso policial se transformou num escândalo político.

A partir daí foi aberto um inquérito contra o inspetor Mário Borges, acusado de sequestrar o contador e, sob coação física, tê-lo feito assinar uma confissão de desfalque contra a firma do cantor. Segundo Simonal, Mário Borges, para livrar-se do processo e justificar o fato de trabalhar como segurança pessoal do cantor, acusou-o de ser informante do DOPS. Com isso o cantor foi arrolado no processo, acusado de sequestrar e torturar o contador com a ajuda de informantes do DOPS. O caso tomou proporções enormes, atingindo drasticamente a carreira do artista.

O mundo desabou para Simonal. Sua gravadora, a Philips, rescindiu o contrato alegando estar sofrendo pressões dos outros artistas. Ele passou a ser responsabilizado por todos os artistas, jornalistas e políticos perseguidos e torturados. Problema policial à parte, Simonal estava sendo vítima de uma sórdida campanha de difamação e boicote a uma carreira bem-sucedida. As portas foram se fechando. As casas noturnas lhe davam espaço, mas a imprensa evitava divulgar seus shows. Flávio Cavalcanti, ao contrário, continuava tratando o cantor como superastro, convidando-o todos os meses para o programa. Isso lhe garantia a presença na mídia eletrônica no momento em que seus discos eram retirados da programação de diversas rádios. O jornalista João Luiz Albuquerque lembra que nessa época estava fazendo uma entrevista com ele e, para continuar o papo, foram jantar no Mario’s, um restaurante muito conhecido no Leblon. Na mesa em frente havia alguns jornalistas e intelectuais, que começaram a provocar o cantor com piadinhas. Simonal resistiu o quanto pôde, mas em determinado momento virou-se para o grupo e falou: “A diferença entre nós é que eu sou negro, rico, e não tenho compromisso com a esquerda nem com a direita.”

No final de 1973, a barra estava ainda mais pesada. Flávio, sempre amigo de Simonal, passou a ser também seu compadre. Numa cerimônia muito simples, na igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana, Frei Memória batizou Max, o filho caçula do cantor, junto com meu filho, Bernardo. Algumas semanas depois a família Simonal deixava o Rio para morar em São Paulo. Após a mudança, uma “mágica” qualquer do destino impediu que chegasse até ao cantor e seu advogado a comunicação sobre o julgamento em que Mário Borges o acusava de “delação”. A partir daí o processo começou a correr à revelia. Num julgamento posterior, o assistente de acusação, Dr. Jorge Alberto Romeiro Jr., perguntou ao inspetor Vasconcelos, superior de Borges, se o cantor tinha algum envolvimento com o órgão. A resposta foi negativa. Este fato não foi divulgado na época, e o cantor continuava a ser tratado como o maior torturador do século.

Em novembro de 1974, Wilson Simonal foi julgado à revelia, sob a acusação de extorsão mediante sequestro. Foi obrigado a cumprir cinco anos e quatro meses de prisão, sendo um ano em colônia agrícola. No dia 12 de novembro ele foi preso em São Paulo e levado ao presídio de Agua Santa, num subúrbio do Rio, onde permaneceu por doze dias, enquanto seu advogado conseguia liberdade provisória até um novo julgamento. Em seu segundo dia de prisão uma notícia trouxe uma dor ainda maior. A morte do amigo, meio-irmão, Erlon Chaves.

Em novo julgamento, o juiz Mena Barreto desqualificou o sequestro e o condenou a seis meses de detenção, que poderiam ser cumpridos em liberdade por ser ele réu primário. Sua vida, no entanto, estava totalmente destruída. Simonal perdeu tudo o que havia conquistado, o sucesso, o prestígio, os bens materiais. Entrou em decadência, foi despejado da mansão onde morava em São Paulo, e sua mulher Tereza, profundamente estressada, passou longos períodos internada para tratamento médico.

Em maio de 1992 reencontrei Simonal. Acabara de mudar para um apartamento perto do Ibirapuera, em São Paulo, e estava terminando de arrumar a casa. Convalescia de uma hepatite, tossia muito, a respiração era ofegante, e dizia estar muito cansado. Não fazia shows há dois meses, e contou que começou a sentir esses sintomas numa temporada no México. Nessa turnê, fazia dois shows por noite, sentia muito calor, transpirava demais, não tinha apetite e entre uma apresentação e outra ia para o hotel descansar. Contou também que estava bebendo mais do que o normal, o que afetara o fígado e a vesícula. Como estava se alimentando muito mal, acabou anêmico, e tudo isso gerou uma hepatite.

Esse encontro com Simonal foi para mim como uma viagem ao tempo. Em sua casa, ao lado do sofá forrado de couro verde, havia uma mesa repleta de porta-retratos com fotos amarelecidas relembrando sua época de sucesso. Apesar do rosto envelhecido e do cabelo grisalho, Simonal mantinha o charme do tempo em que era o primeiro da música brasileira. Falava com as mesmas gírias, repetia o sorriso de canto nos lábios e sonhava com um grande espetáculo onde pudesse reviver uma cena do Circo – show apresentado no Canecão em 1973 -, onde surgia no palco com o rosto pintado de palhaço.

Simonal não se incomodava em falar do passado. Acreditava que nos meios de comunicação algumas pessoas o julgavam um mau-caráter, mas estava certo de que a grande maioria embarcara nessa onda para ficar de bem com a classe. Lembrava de que antes do caso Viviani, quando viajava ao exterior, trazia cartas de exilados para suas famílias e também assinou muitas listas dando dinheiro para auxiliar presos políticos, apesar de não ter uma posição política formada. Só muitos anos depois soube, através de amigos, que o dinheiro desviado por Viviani era repassado a Dulce Maia, irmã do publicitário Carlito Maia, conhecida militante de esquerda, com o objetivo de financiar guerrilhas. Acreditava ter sido vítima do macarthismo da esquerda festiva, do racismo e da inveja. Sentiu-se atirado vivo aos leões quando o jornal Pasquim publicou na capa um dedo enorme, a imagem do dedo-duro, onde estava escrito seu nome. Não gostava de falar sobre o mal que tudo isso provocara à sua carreira e à sua família, e às vezes chegava a imaginar como estaria se nada disso tivesse acontecido.

Apesar de ter feito carreira no mercado internacional, como México, França, Argentina e Chile, onde continuou sendo aplaudido e respeitado, jamais se recuperou financeiramente. Mora com Tereza e os dois filhos menores, Patrícia e Maximiano, num apartamento alugado. O filho mais velho, Simoninha, trabalha com João Marcelo, filho de Elis Regina, num estúdio de som e mora sozinho. Sem trabalhar há meses, Simonal conta com a ajuda de muitos amigos, entre eles seu antigo empresário Marcos Lázaro. Mas os fantasmas ainda o perseguem. Fez questão de conseguir um habeas data, um documento oficial da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, datado de 28 de agosto de 1991, que nega a sua colaboração para qualquer órgão de repressão, seja DOPS ou SNI. Esta simples folha de papel, entretanto, não foi suficiente para apagar as mágoas dos 22 anos em que foi perseguido e boicotado. Simonal ainda sonha em ser o mesmo artista popular, como na década de 60.

Wilson Simonal – Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1938 — São Paulo, 25 de junho de 2000 

2 Respostas para “Simonal nos 70 anos da TV

  1. Sempre tive curiosidade de saber o que realmente tinha acontecido com o Simonal. Hoje você me esclareceu tudo muito bem do ponto de vista de jornalista e de alguém que conviveu com ele. Lindo e comovente depoimento Léa. Muito obrigado.

  2. Lea 🌷 Obrigada pelo esclarecimento sobre a Vida de Simonal. Leio sempre tudo que vc escreve. É esclarecedor, verdadeiro. Gosto sempre de tudo ❤️ Beijos ✨

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