Sobre escolhas…

A professora, que também era poeta, se aposentou e foi morar numa pequena cidade nas serras do Estado do Rio…. Uma vida mais tranquila para quem passou os últimos 25 anos correndo entre a escola, a casa e atenção ao filho criado pelo pai, mas a quem visitava todos os dias.  Sozinha, chegou na pequena cidade, comprou uma casinha e foi conhecendo a comunidade.  Era o casal da mercearia, o taxista, o farmacêutico, as carolas da igreja, os viznhos e havia também o verdureiro, que trazia a produção da sua roça para vender na cidade. Ele vinha empurrando um carrinho de madeira, parava na casa da professora, ela escolhia alguns legumes, frutas e verduras, e ele seguia para a beira da estação do trem aonde tinha freguesia certa. Na volta, encontrava a professora sentada na varanda geralmente lendo um livro ou escrevendo poesias. Trocavam mais um dedo de prosa, comentavam assuntos banais como o calor ou o frio da estação, e ele seguia para casa. Com o passar do tempo, o verdureiro passou a parar e tomar café. Começou a guardar o carrinho de madeira na casa da professora, trazia as verduras em sacolas e nasceu uma amizade. Os vizinhos achavam estranho as conversas animadas entre pessoas de mundos tão diferentes.

Certo dia, a professora poeta foi para o Rio de Janeiro visitar a família e chegou acompanhada do verdureiro. Bem vestido, cabelo aparado, barba feita, unhas cortadas, adentrou aos salões do apartamento da família na Av. Rui Barbosa e o apresentou como seu companheiro. Foi um choque! O filho letrado, diplomado, fluente em 3 idiomas que conhecia o pequeno agricultor das raras visitas que fazia à mãe, não entendeu o que a levou, uma mulher culta e sensível, viver com um verdureiro analfabeto. Sim, ele era analfabeto, só conhecia os números. A ex-sogra, em cuja mesa só se comia em pratos com o brasão da família e usava talheres de prata, foi condescendente com a escolha. Compreensão feminina, o que nos dias de hoje chamam de sororidade. 

Me lembrei da história da professora e do verdureiro que juntos viveram até o fim dos dias, um cuidando do outro, com relatos de mulheres imponderadas que fazem escolhas estranhas e amores improváveis ao assistir “Lida Baarová” na Netflix. O filme conta sobre a atriz tcheco-austríaca que por dois anos foi amante do ministro da propaganda nazista da Alemanha, Joseph Goebbels, o mais perfeito exemplo de escolhas insensatas. Tinha tudo para cair fora do jogo de sedução, crescer na profissão, mas como coração é terreno sem dono, não há o que discutir… É um filme biográfico, um gênero que gosto muito, pois conhecer trajetórias para entender melhor a vida, muito me agrada.   Vira e mexe, aqui na minha região, escuto casos de profissionais, altas executivas, mulheres cultas que atuam em grandes capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, cargos de poder e atuação impecável, chegam para uma pequena temporada e se apaixonam por homens mais simples, rudes, pescadores, agricultores, pedreiros, que fazem acontecer um amor sem tamanho, coisa de novela… Para uma, que me confidenciou um desses romances em que andavam na praia a luz do luar e ele contava sobre as marés, os períodos de boa pesca e conhecia o canto de quase todos os pássaros, perguntei o que conversavam depois do amor. O que acontecia quando batia aquela leseira e muitos reconhecem ser o momento em que se percebe se a escolha foi correta, se vale a pena continuar junto para um bom tempo, quem sabe construir uma vida … Com a maior tranquilidade ela me respondeu: “Faço nada, abraço e durmo… ” Ah… Simples assim… Ainda há muito o que se entender sobre relações e escolhas, sem qualquer julgamento…   

Uma resposta para “Sobre escolhas…

  1. uma homenagem à acidentada.não carecia se acidentar tão brutalmente para apresentar seu amado à família
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