China, Índia e Cabrália

Esta manhã no Pilates, enquanto reforçava os exercícios para os bíceps deixando-os no ponto para receber a vacina, meus pensamentos viajaram tão longe quanto os insumos que vêm da China e da Índia para nos salvar.  Nas terras aonde Cabral chegou e nasceu o Brasil, me encontro deitada numa cama de alongamento imaginando a cena há mais de 520 anos quando as caravelas aqui aportaram. Estavam atrás de outros caminhos, de outros insumos e se depararam com este escândalo de paraíso continental…. Tantos anos depois, não desejamos descobridores portugueses, mas que indianos, chineses e até russos encontrem a rota e tragam a semente da cura. Tenho chorado ao ver nos noticiários cenas de vacinação. Choro mais do que nos filmes do tipo love story. Creio que muitos perceberam que a vida no fio de um vírus tornou-se ainda mais preciosa.  

Cercada por uma natureza exuberante, muitos quilômetros de praia, vivo dividida entre o sentimento de semi imunidade, mas com o temor do inimigo invisível que pode estar perto. É aterrorizante. Chegaram doses de vacina em Santa Cruz Cabrália. Não atuo na área de frente da saúde, nem sou índia, quilombola, tão pouco me encontro em um asilo. Com isso, a vacina para a minha turma vai demorar um pouco para chegar.

Mas, no entanto, hoje recebi a foto de uma prima querida sendo vacinada no Rio de Janeiro. Intelectual brilhante, poliglota, há pouco mais de 2 anos um AVC quase a tirou definitivamente do ar. Com sequelas, foi morar em uma casa de repouso para idosos e a vacina bendita chegou até lá. Fiquei feliz ao vê-la e triste ao saber que a sua rica vida intelectual ficou no passado. Com um pouco de confusão mental, passou a viver num outro mundo. Preferi não perguntar como ocupa o tempo, difícil imaginar alguém tão dinâmica e ativa em uma outra rotina. Ainda sou capaz de escutar as nossas risadas nas noites que passávamos bebendo vinho, contando casos e planejando o futuro para os nossos filhos ainda pequenos…

E é pela demora da vacina, por este cenário que se revela no mundo que cada dia estou mais certa de que viver é para consumo imediato… Mesmo com o distanciamento que estes tempos pedem, não dá para deixar de experimentar um novo afeto, usar o vestido guardado para um grande momento, tomar vinho na taça alemã Spiegelau, caprichar no perfume, se deliciar com camarões flambados ou lamber os dedos ao degustar uma fruta do conde pois estamos na temporada e os camelôs oferecem na rua em Porto Seguro… São simples e inadiáveis prazeres.  Como estrear uma camisola de seda apenas para si, usar o melhor sabonete e se labuzar com um bom creme no corpo para dormir assistindo a lua passear pela janela. A vida é curta demais para amanhã… 

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