Além da casca

Aprendi, nas últimas duas décadas, mais do que em todas as outras. A sala de aula é o próprio entorno onde vivo; os ensinamentos vêm da força da natureza, da alma dos homens e da vida dos animais.

No último ano houve uma rebelião nas árvores do quintal. Começou com uma embaúba que recomendaram podar por abrigar uma enorme casa de cupins no topo. Quando chegaram para fazer o serviço, constatou-se que os cupins já haviam partido. Em seu lugar, as abelhas assumiram o posto e, aproveitando o tronco oco, construíram uma enorme colmeia.  

Em dezembro, o silêncio de uma tarde foi interrompido pela queda de uma árvore. Chamou atenção o tamanho, enganou a todos. Sem qualquer sinal aparente de deterioração, mantinha uma aparência vigorosa; no entanto, apesar do porte imponente, estava oca e suas raízes eram superficiais.

E sempre os cupins na causa. Fui entender e descobri que os cupins se desenvolvem com facilidade em períodos de chuva e excesso de umidade, e este ano tem sido especialmente propício para isso. Preparando-me para o anúncio dos efeitos do El Niño no segundo semestre, nos últimos dias foi preciso podar seis árvores e retirar outras cinco que estavam comprometidas.

Tudo isso me levou a refletir. Na natureza, os cupins muitas vezes são vistos apenas como destruidores. Mas, quando observamos melhor, percebemos que frequentemente estão trabalhando justamente onde a madeira já estava enfraquecida, morta ou em processo de decomposição. Eles não criaram o problema; apenas revelaram algo que já existia.

Com as pessoas, às vezes acontece algo parecido.

Há quem pareça forte, alegre e bem resolvido por fora, mas carregue fragilidades invisíveis. E há quem seja julgado por alguma marca, alguma falha ou algum momento difícil, quando, na verdade, possui uma força e uma beleza interior que não aparecem à primeira vista.

As aparências enganam, como na música de Tunai e Sérgio Natureza. Fazem parecer sólido aquilo que está frágil. Fazem parecer frágil aquilo que é extremamente forte.

No fim, árvores e pessoas compartilham algo em comum: para conhecer seu verdadeiro estado, é preciso olhar além da casca.

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