
“Eu vivo uma vida de homem”. A frase de Antonia Pellegrino, presidente da EBC, em um post no Instagram, me fez descobrir que, sem perceber, eu também vivi uma vida de homem.
Entende-se por “vida de homem” aquilo que, há 50 anos, eu considerava absolutamente normal para qualquer mulher da minha geração que quisesse ser independente e precisasse criar os filhos sem um parceiro.
A maioria das minhas amigas viveu seus melhores anos, entre os 20 e os 30, exatamente assim: equilibrando pratos como um equilibrista de circo, tentando não deixar nenhum cair. Havia, é verdade, uma rede de apoio: a babá, a empregada doméstica, a mãe, a madrinha da criança, a melhor amiga e, na hora do aperto, até o porteiro e os vizinhos.
O curioso é que não me lembro de reclamações nas nossas conversas. E olha que elas eram longas, tanto no banheiro da redação quanto nas mesas de bar, ao fim do expediente. Talvez porque não enxergássemos aquilo como uma injustiça, mas como o caminho natural para conquistar a autonomia que desejávamos.
Também não tínhamos consciência de que estávamos abrindo uma estrada para que outras gerações chegassem ao ponto de identificar essa realidade e dizer, com todas as letras, que vivem uma vida de homem. Dar nome a essa experiência é, de certa forma, reconhecer o percurso de quem veio antes.
Fico feliz em saber que a EBC é hoje conduzida por uma mulher. Para quem não associa a sigla à instituição, a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) é a empresa pública federal responsável pela comunicação pública do país, administrando portais de notícias, emissoras de rádio e canais de televisão.
E pensar que trabalhei e participei de programas em algumas dessas emissoras, como a TV Educativa — hoje TV Brasil — e a Rádio Nacional!
Só por isso, já valeu o esforço de ter vivido uma vida de homem.
Foto Paulo Martins, 1971, Paraty