As flores do meu vizinho

As flores do meu vizinho

A pousada ao lado está fechada, silenciosa, abandonada ao tempo. Já não há vozes, portas que se abrem, gente chegando ou saindo. O lugar que um dia teve vida parece ter esquecido como era ser pousada.

Mas há uma coisa que insiste em me dizer que, de alguma maneira, ela ainda está viva.

São as flores.

Uma planta do antigo jardim se debruça sobre o muro e, de tempos em tempos, deixa cair no meu jardim uma chuva delicada de pequenas flores rosadas. Elas chegam sem pedir licença, espalham-se pelo chão e, por alguns instantes, devolvem vida à casa que já não a tem.

Lembro-me de quando aquele vizinho estava ali. De quando a casa tinha movimento, de quando éramos separados apenas por uma cerca.

Hoje, ele não está mais. E talvez seja por isso que essas flores tenham adquirido para mim um significado tão especial. Elas são a única coisa que ainda atravessa aquele muro. A única mensagem que chega daquela casa sem que ninguém a envie.

Caem no meu jardim como quem diz: eu ainda estou aqui.

E eu gosto de pensar que estão mesmo.

Enquanto essas flores continuarem caindo no meu jardim, alguma coisa daquele tempo continuará viva. E, de algum jeito, meu irmão também.

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