Os cristais

Passei a infância olhando, através do vidro da cristaleira, as taças e os copos de cristal. Delicados, com pequenos desenhos geométricos, sem jamais poder tocá-los. Não eram coisas para crianças. Meus pais ganharam o conjunto completo — com todos os tipos de copos, taças e algumas jarras — quando se casaram. Ao lado dessas preciosidades, ficavam dois potes de frutas em conserva, também presentes de casamento.

Decidiram abrir as compotas no nascimento do primeiro filho. Vieram mais quatro. Depois, as bodas de prata. E assim o tempo foi passando. Cresci imaginando o sabor daquelas frutas e, em algum momento, cheguei a pensar que morriam sufocadas, sem ar. Quando falava sobre isso, mamãe dizia: “Tudo tem sua hora”. A hora chegou sem data especial. Creio que durante alguma boa faxina na cristaleira ou na mudança dos móveis. E, quando finalmente foram abertas, descobriu-se que as tão almejadas frutas em conserva já não prestavam…

Hoje, lembrei das compotas ao retirar “os cristais” do armário para serem lavados. Há tempos descobri que nunca foram cristais, mas vidros finos, de boa qualidade. Fico pensando em quantos objetos e situações deixamos guardados, à espera de momentos especiais que nunca chegam. Como o amanhã pode ser longe demais, tenho utilizado “os cristais” sobreviventes com frequência. Principalmente o elegante copo longo para whisky.

Como papai fazia…

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