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Comunicação

Telefone de baquelite década de 40 - 1

Do nada ele morreu. Nada indicava que teria um fim súbito na noite de segunda-feira. Ainda esperei algumas horas, sem resultado.  Tentei colocar o chip num aparelho reserva, mas foi rejeitado. Foram quase 24 horas sem celular onde me vi em desespero, refém da tecnologia. Enquanto atravessava a balsa, rumo a Porto Seguro em busca de entendimento sobre o acontecido, fui lembrando que na minha historia nem sempre a comunicação foi fácil. Quando criança, morando em São Paulo, não tínhamos telefone. Se a notícia fosse urgente, apelava-se para recados na casa do vizinho ou no escritório do papai durante a semana. Mas nada era muito urgente, o mundo tinha mais tempo. Não lembro como, eu devia ter uns 7 anos quando papai comprou um telefone. Era um aparelho preto de baquelite que ganhou lugar de destaque. Foi instalado em uma estante embaixo da escada, ao lado de uma poltrona onde ficávamos horas esperando a telefonista completar a ligação interurbana para o Rio quando avisávamos das viagens de férias ou buscávamos notícias da vovó.

Quando mudamos para o Rio fomos para uma casa sem telefone. Era muito caro. Usávamos o do bar na esquina ou as vizinhas Maura e Da. Nanci davam recados. Morávamos na Tijuca em uma rua sem saída que no final tinha uma cascata e uma escadaria que dava acesso ao Morro da Formiga. A maioria dos moradores do morro preferia utilizar a rua paralela por onde os carros seguiam até o ponto mais alto, já os que tinham casas próximas a escada, subiam pela rua da minha casa. Assim, além dos vizinhos moradores, tínhamos os vizinhos passantes. O sapateiro, o senhor que consertava os cabos de panela, a senhora que lavava roupa, o eletricista e encanador, e neste sobe desce na rua arborizada fizemos muitos amigos. Certo dia um dos passantes parou para tomar folego na frente de casa e encontrou papai no portão. Puxou conversa e desabafou sobre o aborrecimento de ter um telefone. O seu número era o único no morro e estava cansado de chamar pessoas, anotar recados, principalmente de madrugada quando ligavam do hospital ou da delegacia. Estava arrependido de ter comprado e naquela madrugada ficou tão zangado que cortou o fio e colocou o aparelho na gaveta. Era o que faltava para papai fazer uma oferta e comprar o numero em prestações. Durante alguns meses recebemos chamados em horas improprias e tínhamos que repetir a ladainha que o telefone não estava mais no morro. Aos poucos os telefonemas para os moradores da escadaria foram rareando e o 586827, apesar de ter mudado de prefixo ao longo da vida, nos acompanhou enquanto houve papai e mamãe.

Naquele tempo não havia tanta pressa nas noticias, mas vivendo da comunicação me viciei em saber tudo o que acontece no mundo. Do tiroteio na Rocinha ao terremoto no México. Da bomba em Londres, às loucuras na Corea, aos fugitivos de Miamar, os escândalos em Brasilia tudo está na minha mira. Alguns temas mais profundamente, outros superficialmente… Conheço pessoas que estão se afastando do noticiário. Algumas já nem vêem mais os jornais na TV nem tão pouco na internet. Vivem num outro mundo, o que aqui neste povoado na Bahia se torna fácil.  Eu não conseguiria viver apenas com as noticias locais. Sou irremediavelmente viciada nas informações em grande escala. Como não saber o que rola neste planeta ?

Com isso é possível entender o meu pânico quando o smartphone sem qualquer aviso morreu. E hoje, minha alegria ao ser avisada pelo técnico que ele vai se salvar. Como viver sem ele ? Na verdade já eramos um só.

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