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Grão de areia

E então descobri que me colocaram no segmento “idosa” de uma forma totalmente pejorativa. Enquanto estava na terceira idade, na melhor idade, ou outros rótulos criados para mostrar a delícia de passar dos 60 (ou quiçá dos 70, 80…) havia um certo glamour… Mas de repente soltaram um vírus no planeta com endereço certo, como se fosse crime ter conquistado uma vida longa e saudável… O idoso penalizado, diminuído, como algo que pudesse ser descartado, jogado no lixo e aí me lembro das sábias palavras da Dercy Gonçalves inseridas no texto de um espetáculo que estreou ao completar 78 anos. Dercy falava magistralmente bem sobre a condição de se sentir olhada com desprezo por conta da idade, isto em 1985. E como resposta mostrava as pernas em vestidos curtos e respondia com inúmeros palavrões. Esta foi a sua arma…

Mas nos tempos de hoje, sem Dercy que viveu até os 101 anos para me defender, declaro em alto e bom tom que me recuso a acreditar que perdeu a graça o charme dos cabelos brancos, o prazer do conhecimento para ser compartilhado, a experiência como assunto na conversa entre amigos mais jovens, as descobertas que tenho com as situações mais simples que me deparo… Não estou no fim da vida, cada dia vou entendendo a minha missão no planeta.

Ontem fui dar um mergulho, não levei nem celular, óculos, chapéu, cadeira. Apenas um mergulho às 11 da manhã e fiquei encantada ao ver a praia completamente vazia. Nenhuma pegada na areia, nenhuma alma viva… Jamais vi cena assim num dia de sol neste horário, mesmo em períodos de baixa estação. Até os cães sumiram.  Mirei o infinito, mar calmo, céu azul, poucas nuvens, na sequencia fechei os olhos e fiz uma prece. Foi neste momento que me senti envolvida por uma energia tão intensa, tudo tão puro e vibrante na natureza, que aos poucos senti como se meu corpo diminuísse de tamanho, fui encolhendo em câmera lenta, vagarosamente, até me sentir menor que um grão de areia diante do gigantesco universo. Sem medo fiquei curtindo aquele momento único e especial. Um presente.

Somos exatamente isso, um grão e areia de passagem pelo planeta. Mas a vida não pode ser só isso, me colocar frente ao tiro certeiro de um vírus. Tomo todas as precauções, mas me recuso morrer na praia. Continuo na quarentena que, a bem da verdade, já estou há tanto tempo, e lastimo muito pouco.  Não posso abrir mão dos sonhos que tenho, vocês não imaginam o tamanho da minha lista de desejos. Ainda não acabei de descobrir metade de mim, estou disposta e aberta à tantas novidades e aprendizados que virão… Alto lá! Sem chances de me aceitar no rol dos que estão no fim da vida…

E hoje conversando por whatsaap com uma amiga que passa por um processo de saúde e o peso do vírus faz se sentir mais insegura, mesmo sendo uma mulher forte, com longa atividade política e pouca familiaridade com assuntos da espiritualidade, escreveu “acho que estamos chegando ao fim do poço, do túnel. Depois disso, é só luz”. É exatamente isso que acredito, estamos mudando a rota e este tempo é para pensar… Vamos tirar nossos sonhos do caderninho, marcar tempo para realizar, desacelerar do que não vale a pena, dar gás ao que é fraterno, amoroso, colaborativo… Acredito que ser menor que um grão de areia é um enorme exercício para os novos caminhos…

Em tempo : para quem quiser saber um pouco mais da minha história com Dercy Gonçalves, segue o que escrevi no livro “A Verdade É A Melhor Noticia”.

Com palavrões

Walter Lacet, um dos diretores artísticos do Canecão e diretor da TV Globo, telefonou contando que Dercy Gonçalves faria uma temporada na casa num horário alternativo às 7 da noite. Fez questão de explicar que ela não era uma pessoa de fácil acesso, para relevar qualquer mal-estar e que ao conhecê-la pessoalmente eu iria me apaixonar. Seguindo a recomendação, na hora marcada telefonei para a casa da Dercy com a minha mais tranquila e aveludada voz. A própria atendeu ao telefone de maneira brusca e assim que comecei a explicar a razão da chamada, da vontade de fazer um belo trabalho para dignificar e promover ainda mais a sua arte, ela interrompeu avisando que não daria entrevistas por ter nada a dizer, nem fotos para divulgar e quem quisesse saber alguma coisa que fosse assistir. Num tempo sem Google para a pesquisa, recorri aos arquivos da Biblioteca Nacional, fiz um release enxuto com pinceladas de sua trajetória enaltecendo os seus 78 anos! Era essa a idade da atriz com quem eu iria trabalhar, considerada irreverente e obscena por dizer palavrões no palco sem o menor pudor. E ainda por cima bem mal criada.

Lembro que na minha infância, uma vez por mês meus pais iam ao teatro e quando Dercy estava em cena com alguma comédia, era certa a presença deles, apesar do rubor de mamãe com os trechos mais picantes. Dercy era um mito, mas creio que não sabia disso. Até então nunca tinha se apresentado para uma plateia deste tamanho e num local com tantas referências importantes para o mundo dos espetáculos. A princípio o release caiu nas redações como pássaro sem ninho. Olhar enviesado dos editores que não sabiam aonde encaixar a informação. Não podia entrar na “retranca” teatro nem show. Era o que? Um espetáculo, dizia eu. Mas no fundo eu percebia que havia um sub texto que dizia “como no palco do Tom, do Vinicius, da Bethânia, do Caetano, do RPM vai se apresentar Dercy?”. Ela não era considerada nem atriz pela maioria da imprensa, mas uma velha vedete do teatro de revista.

Conheci Dercy um dia antes da estreia durante o ensaio. O espetáculo escrito por Mario Wilson tinha o ator Luiz Carlos como “escada” para suas piadas e também como partner num número de dança. Diante da forma seca como me recebeu eu poderia ter desistido, mas percebi que era gentil à sua maneira. Em pouco tempo nos tornamos grandes amigas. Dercy chegava ao Canecão antes das 5 da tarde. Era o hábito antigo de quem praticamente viveu nos bastidores dos circos e mambembeava pelo país. Usava seu camarim como casa. Na antessala aguardava o horário do espetáculo assistindo TV, comendo salgadinhos e bordando suas sapatilhas com pequenas lantejoulas, paetês e canutilhos e não usava óculos. Nos primeiros dias eu chegava cedo, bom estar ao lado de alguém com tanta história. Mas por alguma razão de trabalho, certo dia cheguei na hora do show e ela reclamou da minha ausência. Confesso que me senti valorizada pela companhia e durante toda a temporada eu levava algum bordado ou tricô, para ficarmos juntas. Às vezes ela conversava, contava altas historias, outras ficava em silencio e eu acompanhava seu humor.

O espetáculo se transformou num grande sucesso de público e um dos fatores que alavancou a procura de ingressos foram os comerciais e reportagens da TV Globo, pois na mídia impressa somente esparsas notícias. Nenhum perfil, nenhuma crítica, nenhum destaque. Ela estava fora do padrão de artista naqueles tempos, creio que sua genialidade sempre esteve fora de qualquer parâmetro.

Acontece que este suporte das chamadas para o show e do jornalismo da TV Globo acontecia em função da comediante ter sido contratada da emissora nos seus primórdios, que levantara a audiência com um programa popular e muito divertido. Boni, então todo poderoso diretor geral, não escondia a sua amizade e carinho pela mulher que tinha história, passado e respeito, por mais controverso que isso pudesse parecer. Sem crítica ou fotos nas colunas, bastava seu nome gigantesco na porta do Canecão para atrair um público de todas as idades. Assisti todos aos seus shows e sabia o espetáculo de cor. Tirei deste espetáculo um trecho que carrego como aprendizado de vida. Dercy dizia “Deus fez esta porra mui to bem feita. Deu um pacotinho de felicidade pra cada um, mas tem gente que não olha o seu saquinho, fica olhando o do vizinho e não consegue ser feliz”. Esta era Dercy. Soube cuidar bem do seu saquinho, viveu 101 anos.

Rosas e tomates

Quando começaram a dizer que eu deveria ficar em quarentena, respondi que assim já estou desde que escolhi morar longe dos grandes centros. Pouco mudou a rotina. Ida ao centro de Cabrália ou Porto Seguro para supermercados, banco, comércio, correio, há algum tempo restringi para uma vez por semana.  Muitas vezes chego a ficar 15 dias, resolvo na vizinhança sem atravessar a balsa… Diante do Covid-19 criamos um grupo entre amigas para compras solidárias e buscar correspondência no correio. Só vai à cidade quem realmente tem necessidade, e assim vamos nos “quarentenando”.

Solidão não me assusta pois entre as constatações destes últimos anos com uma vida mais quieta, mas não reclusa, estão a de que sempre soube brincar sozinha. Devido a diferença de idade entre os meus irmãos – o mais próximo 4 anos, o mais novo quase 9 – bonecas, panelinhas, costurinhas, revistinhas, fizeram parte de um mundo particular. Na infância eu vivia escondida embaixo da escada. Morávamos num sobrado no Brooklin (São Paulo) e junto da escada havia uma saleta onde ficava o telefone e um pequeno sofá. O meu paraíso ficava exatamente ali, embaixo dos degraus, um lugar só meu. Era um espaço reduzido onde eu cabia direitinho com brinquedos, pensamentos, viagens e sonhos. Uma vez por semana a Rosalina vinha com a vassoura e, apesar dos meus protestos, desmontava o reino geralmente no horário em que eu estava na escola. Quantas vezes esqueceram de mim ali quieta, brincando com as bonecas de papelão ou fazendo roupa para as bonecas de louça, montando casinhas com blocos de madeira, jogando cinco marias com saquinhos de arroz ou apenas olhando para o teto e contando os degraus. Não me lembro mais quantos eram, mas contava debaixo prá cima, de cima prá baixo, quase que num transe hipnótico até dormir… Acordava com o telefone tocando ou minha mãe chamando para tomar banho e jantar…

Hoje o meu “reino” é um pouco maior. Tem uma área de 2.130m2, me sinto acolhida como no tempo em que ficava embaixo da escada e tenho muito com o que brincar. Uma querida amiga passou uma semana comigo e atacou de “me ajuda decora” dando um up nos chalés. Trocamos luminárias, interruptores, até uma parede foi pintada…Também aproveitei a chuva e replantei a horta. Beterraba, cenoura, salsa, cebolinha, alface e rúcula estão por vir. Há algumas semanas plantei em um grande vaso uma muda de pequenas rosas e qual não foi a surpresa ao ver um mato surgir no entorno. Com o cheiro que vinha quando molhava descobri que cresciam tomateiros.  A terra é produzida no quintal através de compostagem e às vezes acontece…. Com isso, estou acompanhando um tomateiro em flor com uma rosa envergonhada embaixo dos longos galhos.

Cancelei o agendamento na Policia Federal para um novo passaporte, assim como o projeto de ir à Andorra visitar as amigas Nenô e Denise. Seguindo a sugestão de uma amiga médica vou suspender o Pilates até o final do mês. Alongamentos em casa na medida do possível, caminhar na praia e na rua que, dependendo do horário, não encontrarei uma viva alma.  Aproveitei e desmontei a lavandeira provocando um desapego nas roupas de cama e banho que estavam mais usadas. Também doei as primeiras colchas de retalho, estavam um pouco desbotadas, mas um amigo gostou tanto que levou uma. É sempre assim, o que não serve para um é ótimo para outros. Muitos tecidos me esperam para serem cortados e surgirão novas colchas para enfeitar os chalés redecorados. Mas antes tenho a encomenda de duas bonecas de pano, pedido de uma amiga que disse ter sonhado com elas… E tantos anos se passaram e continuo brincando de bonecas.

1994

World Economic Forum em Davos? Eu fui em 1994…

Não para ver Shimon Peres e YasserArafat subindo de mãos dados no palco do Congresso nem para discussões dos foruns econômicos e políticos. Naquele ano Davos se transformara na “Cúpula das Cúpulas”, com encontros paralelos informais entre líderes de organização de negócios, líderes regionais, mídia líderes, personalidades culturais, prefeitos globais e líderes globais para amanhã, reunindo mais de 1000 pessoas, o que fez com que estabelecessem que este fato não mais se repetiria…

Cesar Maia, então prefeito do Rio de Janeiro, fora convidado a participar do encontro dos prefeitos globais  que reuniria 20 cidades dispostas a apresentar projetos de um evento para celebrar a virada do milênio, que aconteceria a partir de 1996…O Rio fora a única cidade brasileira a participar e, se não me falha a memória, a única da América do Sul.  Um juri formado por técnicos mundiais capitaneados por Quincy Jones, escolheria 5 cidades que teriam os eventos patrocinados pelo Banco Mundial.  Como Assessora de Eventos da prefeitura, quando o convite chegou ao prefeito, fui chamada para criar este projeto e premiada com o reforço luxuoso do jornalista, diretor de TV e multi mídia Macedo Miranda Filho, que havia participado da campanha do prefeito e era um show de criatividade… Fizemos uma dupla e tanto, criamos uma série de eventos que aconteceriam em toda a cidade durante 30 dias precedendo a virada para o ano 2000. Todas as regiões ganhariam destaque, o projeto ganhou um vídeo e uma revista em inglês apresentando a cidade e a proposta.

Duas semanas antes viagem para Davos o prefeito avisou que estava com outros compromissos e a apresentação ficaria por minha conta.  Pânico total. Eu conhecia o projeto em todos os detalhes, afinal tinha construído com o Macedinho, mas daí fazer apresentação em inglês havia uma certa distância… Contratei um professor e todos os dias praticava inglês com foco na apresentação que teria duração de 30 minutos. Os ouvintes seriam um um juri de notáveis e os representantes de 19 cidades que também disputavam a primazia de ter um evento patrocinado pelo Banco Mundial e com a assinatura do World Economic Forum… Como companheiro de viagem me foi designado o ex-Ministro Marcílio Marques Moreira, sub-secretário para Políticas Públicas da Prefeitura, um diplomata de carreira, um gentleman. Como sabia da admiração do super maestro e compositor Quincy Jones por alguns artistas brasileiros, coloquei na mala cds para agradar a fera.

Chegamos em Zurique na manhã de sábado e o carro que nos levaria a percorrer menos de 150 kms até Davos era blindado. Não tínhamos tanto prestigio, mas como Yasser Arafat por questões de segurança preferiu ir de helicóptero, nos foi cedido o que fora reservado para ele. Um belo caminho entre montanhas branquinhas. Três invernos morando em Nova York vi muita neve, mas nada se comparava…  Nesta noite assisti ao emocionante encontro Arafat com Perez frente uma plateia em delírio. Na agenda de domingo tinha o dia livre e um jantar de gala com os participantes do encontro de prefeitos. Na segunda-feira pela manhã seria a apresentação do projeto. Voltei do jantar me sentindo mal, e o estado piorou durante a madrugada. Certamente o camarão do vol-au-vent servido como entrada estava com defeito. Uma noite trágica, às 8 da manhã já estava andando na rua repleta de neve em busca de uma farmácia. Cheguei para a apresentação medicada e à base de chá de erva doce…

Não sei de onde tirei forças, mas eu não tinha viajado mais de 9 mil quilômetros para ficar passando mal num quarto de hotel. Fiz o melhor que pude! Os astros colaboraram, os anjos disseram amém, o inglês soou perfeito, distribuí a revista sobre o Rio de Janeiro e os cds para o maestro que ficou encantado. Voltei para o quarto do hotel com febre e passei a noite suando e delirando. No dia seguinte retornei para Zurique aonde tomaria o voo para o Rio e estava passando muito mal. Não perdi a pose, não deixei o ex-ministro Marcílio perceber, e ainda conheci a cidade, almocei talharim na manteiga num restaurante superelegante e ao embarcar, senti o quanto estava fraca… Viajei sozinha e desmaiei à bordo. Desci no Rio e uma ambulância me levou direto para o hospital onde foi diagnosticado um processo de envenenamento alimentar. O remédio que eu tinha tomado em lugar de liberar o alimento ruim, simplesmente estancou. Um susto…. Recuperada, semanas depois chegou o resultado: Rio de Janeiro ficara entre as cinco escolhidas… 

Valeu o esforço!

Em tempo: os eventos não aconteceram por falta de patrocínio…

Sobre meu parceiro de projeto Macedo Miranda Jr, um pouco da sua trajetória,  numa homenagem póstuma:

Filho do escritor Macedo Miranda, foi o mais jovem repórter especial do Jornal do Brasil, promoção que conseguiu antes de completar 20 anos de idade. Com passagens pela Editora Abril e Bloch , criou e dirigiu diversos programas na Rede Globo como o Fantástico e o Globo Repórter.

Foi responsável por dirigir o primeiro Rock in Rio em 1985. Através de sua produtora – Arte & Fato – inovou, não somente na narrativa e linguagem, mas também na estética de diversos programas de televisão.

Construiu no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, a sede para sua empresa que trazia para a época a mais avançada tecnologia e condições inigualáveis para produção independente audiovisual.

Comandou diversas campanhas políticas, reconhecidas como inovadoras na área de marketing político televisivo, sendo responsável por inúmeras campanhas, entre outras, de Aureliano Chaves para a Presidência da República, de César Maia e Conde para prefeitura da cidade do Rio de Janeiro (estas últimas vitoriosas)

Historias de pescador

Adriano e “seu”Laurindo voltando da roça

Adriano trabalha na construção civil, é também pescador e presidente da associação de pescadores do Guaiú. Sempre frente aos movimentos da comunidade, como abrir o acesso do mar para o rio a fim de salvar as espécies, buscar caminhos para os pescadores chegarem com seus carros para retirar a produção do dia, Adriano sonha estudar engenharia e a primeira vez que o vi foi vestindo beca e usando capelo na formatura em administração de empresas. Dias depois nos encontramos no Fórum num grupo que ia ao encontro do promotor para discutir o alto preço das passagens para travessia da balsa, e foi na sala de espera que ouvi um pouco de sua história. Tem uma garra e um brilho nos olhos que atraem quem gosta de ouvir historias, como eu.

Passei a fazer parte dos seus grupos de whatsaap, a seguir suas redes sociais e quando o Nordeste começou a ser banhado com o óleo sua atuação passou a ser constante. Com a matéria cada vez mais descendo para o sul da Bahia, Adriano passou a alertar em vídeos sobre o grande mal desconhecido. Munido de um celular, diariamente, envia um relatório mostrando a praia ainda limpa, a chegada das pequenas partículas na areia, o mutirão com voluntários unindo folhas de coqueiros, redes e sombrites para impedir o óleo de entrar no rio e destruir os mangues e pequenos crustáceos…. Ele é o meu “Bom Dia Brasil” noticiando o que está acontecendo no Guaiú posso prever como estará em Vila de Santo André.

Adriano hoje enviou um áudio contando sobre o avô por quem foi criado, sua maior referência, grande inspiração. Laurindo Francisco de Souza, tem 100 anos, nasceu na região de Santa Maria Eterna, na vizinha Belmonte, e mora no Guaiú desde 1940.  Com tanta conversa sobre o derramamento de petróleo, ele contou que por volta dos anos 60 também apareceu muito óleo na praia, bem parecido com o que está acontecendo. Sem redes sociais e difícil comunicação, nem havia energia elétrica, apenas umas 3 casas no Guaiú, o mesmo número em Santo Antônio e Santo André, os moradores tomaram providencias. “Seu” Laurindo conta que há algum tempo guardava tonéis que tinha encontrado na praia e os aproveitou para armazenar o piche que chegava. Aos poucos a praia ficou limpa e durante anos guardou esta matéria que utilizava para calafetar os barcos que usava para pescar e trazer alimento à família….

Vendo os “novos invasores” que o neto vai recolhendo, “seu” Laurindo compara ao que retirou nos anos 60. Segundo ele, primeiro chegaram bolas pequenas, depois um volume maior e acredita que por ser inverno os blocos eram mais duros, não tão pastosos como tem visto. Na sabedoria e lucidez dos seus 100 anos, na experiência de quem viveu sempre à beira mar, ele sabe muito bem o quanto aumentou a temperatura no planeta. Não precisa de qualquer aparelho para medir o efeito estufa, acredita que isso poderá influenciar no movimento e a expansão deste derramamento. Reflexões, análises de um simples pescador que teme pelas praias, mangues, peixes, crustáceos, restinga, tudo que o cerca e onde plantou sua vida, sua família. Mas tem esperança de que em mais alguns anos tudo isso seja apenas uma história para o seu neto contar.

São João, acende a fogueira do meu coração

No final da rua da Margaridas, do lado esquerdo, antes de chegar no riacho, ficava a casa dos italianos Orabona. Nós morávamos no Brooklin, naquele tempo era um bairro distante do centro de São Paulo, onde ainda haviam chácaras, um rio aonde as crianças tomavam banho escondido dos pais, ruas sem calçamento, alguns sobradinhos, um colégio de freiras e outro dos padres, uma igreja a ser construída em mutirão, um pequeno comércio. Os italianos eram festeiros, assim como os espanhóis Alarcon que tinham o empório na esquina das Margaridas com Acácias.   

Eu esperava o ano todo pelas festas dos Orabona. Era tão bom quanto as férias no Rio. Nas semanas que antecediam a casa deles se transformava em atelier para construção de balões. Às vezes papai me levava prá ver aquele monte de papel de seda colorida que com recortes exatos e colagens magnificas com cola de farinha, se transformavam em peças únicas de uma beleza incrível. Tinham expertise em fazer a bucha e colocar de forma que subissem sem “lamber” (queimar), colorindo e iluminando o céu até se perderem no infinito. Na noite da festa me importava mais ficar olhando os balões no céu do que qualquer comilança… E a mesa era farta, mas eu só admirava sem preocupação com o meio ambiente ou o que a queda poderia provocar. Apenas sonhava em voar junto.   

Esta era a memória de São João até mudar para o Rio na adolescência e conhecer as enormes festas que aconteciam nas ruas da Tijuca. Cada dia uma rua enfeitada com bandeirinhas e bambu, quadrilha, barraquinhas, comilança com quentão, vestido estampado com enfeite de renda, chapéu de palha com flor. Uma agenda disputadíssima e eu nem olhava mais para o céu procurando balões, mas sim para os lados interessada nos rapazes…

São João sumiu e voltou quando eu tinha menos de 30 anos e passou a ser festejado em casa, aniversário do marido que também tinha o nome do padroeiro. Toda festa tinha um clima caipira, mesmo que discreto. Uma vez ousamos ao extremo e transformamos o quintal da casa dos meus pais em arraial com cenografia impecável, música ao vivo com um trio de zabumba, sanfona e triangulo, quentão, amendoim torrado, cachorro quente, milho, canjica, bolos… Festança para ninguém botar defeito. Da diretoria do Salgueiro aos atores do elenco da novela que ele dirigia !!

Acabou o casamento e São João também. Reencontrei o santo há 15 anos quando vim morar no Nordeste onde a festa é tão grande, como o fim de ano no Sul quando as famílias se reúnem, ou um thanksgiving na América. São muitos dias de celebração. Em Santa Cruz Cabrália é praticamente o mês inteiro. Tem festas no centro da cidade, nos bairros, nos distritos. Tem até um bairro com um Santo Antônio com mais de 14m de altura onde acontecem 13 dias de festas, com missas, bingos, shows, para a alegria do padre e do povo. Consta que em Vila de Santo André, antigamente a festa durava 3 noites e 3 dias de musica, brincadeiras e comilança. Este ano se repetem 3 noites com apresentação de quadrilhas, barraquinhas com quentão de jenipapo, amendoim cozido, curau, caldo de pinto, pipoca, bolo de milho. Forró tocando alto, criança correndo, a temperatura mais fria, mas não tem fogueira nem balão no céu… O que sobrou da Mata Atlântica agradece.

Rock’n roll na veia

Em julho de 1990 quando foi lançada a 2ª. edição do Rock in Rio em uma entrevista coletiva na Tribuna de Honra do Maracanã, local aonde aconteceria o evento, foi feita uma superprodução com jornalistas vindos de diversos Estados, o que gerou uma grande repercussão. No entanto alguns dias depois veio um balde de água fria com a divulgação da notícia de que o Maracanã estaria com problemas na estrutura e poderia cair. Tudo levava a crer que era briga política.  O governo estadual sentiu-se ameaçado com a projeção que Roberto Medina teve com o sequestro sofrido um mês antes e o fato poderia agregar valor à família Medina, com Rubem, irmão, deputado federal e possível candidato ao governo do estado nas próximas eleições. 

Por questões estratégicas, Roberto Medina preferiu ficar fora de cena enquanto não saíssem os laudos técnicos que comprovassem que estava tudo bem com o estádio. Sabíamos que era um movimento para desestabilizar o festival e como o meu negócio não era política, mas ganhar espaço na mídia, várias ações foram criadas, entre elas a “Escalada do Rock”, onde bandas novas participavam de um concurso, a ganhadora teria contrato com uma gravadora e se apresentaria uma noite.  Centenas de fitas cassete* chegavam por correio ou eram entregues na recepção da Artplan, agencia que produzia o evento. Passei dias, noites, fins de semana, todos os horários livres, junto com o produtor Charles Nogueira fazendo uma peneira que depois era enviada para uma comissão passar o pente fino.  

Um dia chegou não uma fita, mas o próprio interessado em participar. Tratava-se de Serguei, que conheci ao lado de Janis Joplin numa entrevista coletiva na pérgola do Copacabana Palace em 1970, e ao longo dos anos vinha batalhando na carreira de rock star… Serguei queria participar da “Escalada do Rock”, estava fazendo o maior movimento na imprensa e foi se candidatar. Super alto astral, uma figura fora de qualquer padrão, muito divertido, onde chegava se tornava estrela… A produção definiu que ele poderia se apresentar na seleção como “hors concours” e em honra ao rock teria seus minutos de fama na abertura de um dos shows… Serguei vibrou!  Acreditando ter sido eu a responsável sua participação, ao longo dos anos jamais deixou de telefonar, mandar recados por amigos, flores, elogios na imprensa, sempre agradecido pela realização do sonho… Confesso que não fiz nada, apenas levei o assunto ao “dono” do evento, Roberto Medina, ao produtor Dody Sirena, e ambos concordaram que ele era a cara do rock and roll… E foi e será para sempre a cara do rock … Agora é tempo de ser estrela no céu ! 

O cantor Serguei morreu na manhã desta sexta-feira (7), aos 85 anos, no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda (RJ), onde estava internado desde o fim de maio.  

*A fita cassete ou compact cassette é um padrão de fita magnética para gravação de áudio lançado oficialmente em 1963, invenção da empresa holandesa Philips. Também é abreviado como K7.

O cassete era constituído basicamente por 2 carretéis, a fita magnética e todo o mecanismo de movimento da fita alojados em uma caixa plástica, isto facilitava o manuseio e a utilização permitindo que a fita fosse colocada ou retirada em qualquer ponto da reprodução ou gravação sem a necessidade de ser rebobinada como as fitas de rolo. Com um tamanho de 10 cm x 7 cm, a caixa plástica permitia uma enorme economia de espaço e um excelente manuseio em relação às fitas tradicionais.

O audiocassete ou fita cassete foi uma revolução difundindo tremendamente a possibilidade de se gravar e se reproduzir som. No início, a pequena largura da fita e a velocidade reduzida (para permitir uma duração de pelo menos 30 minutos por lado) comprometiam a qualidade do som, mas recursos tecnológicos foram sendo incorporados ao longo do tempo tornando a qualidade bastante razoável. Recursos como: novas camadas magnéticas (Low Noise, Cromo, Ferro Puro e Metal), cabeças de gravação e reprodução de melhor qualidade nos aparelhos e filtros (Dolby Noise Reduction) para redução de ruídos.

Os primeiros gravadores com áudio cassete da Philips já eram portáteis, mas no final dos anos 70 com a invenção do walkman pela Sony, um reprodutor cassete super compacto de bolso com fones de ouvido, houve a explosão do som individual. ( Fonte Wikipedia)

Em memória do Segundo Caderno O Globo

Em novembro de 1976, numa certa manhã na redação da revista TV Guia (Editora Abril) o editor Edgard Catoira me chamou para avisar que ia ter um “passaralho”, termo muito utilizado nas redações em referência a demissões em massa, e meu nome não constava da lista. Porém, buscava colocação para os que seriam demitidos e numa conversa com o Henrique Caban, editor de O Globo, soube que havia uma vaga para cobrir a área de TV no Segundo Caderno do jornal. Caban se interessou pelo meu currículo, já vinha me acompanhando e, caso eu aceitasse, a minha vaga iria para um colega que estava na mira do corte… Fui pra casa pensar. Nunca tinha trabalhado em jornal, toda a experiência era em revistas e tv, o salário não mudava muito, mas soava como um desafio sedutor.  No dia seguinte fui conversar com o Caban e assim começou a minha vida nas Organizações Roberto Marinho onde mais do que jornalismo, aprendi a me colocar como mulher e profissional. Não que eu não soubesse me portar, mas diante daquela redação repleta de intelectuais, o que eu escrevia era considerado subproduto…. Além disso, constava no meu currículo ter sido secretária do apresentador de TV Flávio Cavalcanti, considerado super de direita, ter escrito e dirigido revistas de fotonovelas… Popular é pouco…

Era um tempo em que ainda havia o discurso “passei pela área de serviço e a minha empregada estava assistindo o Chacrinha” ou a referência à qualquer outro programa popular, onde também se incluíam as novelas. Sim, eu sabia sobre os bastidores deste mundo ‘pouco qualificado’ e ainda namorava um diretor de novelas… Conviver com uma repórter assim era divertido para a “inteligentzia” que queria saber se a Sandra Bréa era caso de que diretor, se determinado ator era “bicha” – ninguém era gay naquele tempo- ,  se a cantora era “sapatão”, se fulano tinha um contrato com tantos cifrões, e  outras tantas curiosidades do submundo do subproduto das celebridades… Apesar de todo o ar político e culturalmente correto, a redação era um mafuá. Móveis velhos e empoeirados, janelas enormes que descortinavam para o Batalhão da PM, a trilha sonora das teclas nas máquinas de escrever, os cinzeiros cheios de bitucas de cigarro e o desfile de lendas do jornalismo que entrava silenciosamente para entregar seus artigos, alguns até escreviam em máquina no fundo da sala… Um calor infernal, o sol da tarde era inclemente, mas foi ali que eu comecei a forjar essa mulher que sou hoje… Foi no campo do que hoje seria o “bulling” que me fortaleci e passei a ter orgulho do meu caminho… Diferente dos meus amigos, eu não tinha cursado qualquer universidade. Sou do tempo que para ter registro de jornalista bastava apenas mostrar serviço, e assim me tornei uma.  As tendências ao brega que construí ouvindo o rádio da Rosalina na cozinha da infância, as raízes da Tijuca no grupo MAU, tudo formava a identidade do que eu estava me tornando.

Foi a partir de uma reportagem onde eu revelava o conteúdo das cartas que os fãs mandavam para os atores, que o seleto grupo de colegas passou a olhar o meu trabalho com mais atenção. Eu era um pouco mais do que uma “repórter de tv”. Consegui esta matéria graças à “santa” Guta, diretora de elenco da Globo e com poderes sobre as grandes estrelas globais, que me permitiu ler as cartas onde os fãs revelavam seus sonhos e intimidades em relação aos artistas. Como exemplo, um determinado ator recebeu uma caixinha que continha um vidro para que colocasse o seu esperma. Ela sonhava ter um filho e poderia ser até desta forma.  Foi a partir daí que meu caminho na redação ficou mais fácil e passei a me sentir pertencente ao time.

Tite de Lemos, Ivo Cardozo, Leonal Kaz e por último Fuad Atala acompanharam essa minha trajetória em 5 anos na redação do Segundo Caderno. Eles nunca souberam o quanto eu era feliz em compartilhar nas páginas do Segundo Caderno, entre matérias sobre sofisticadas montagens teatrais, operas, exposições de arte, concertos sinfônicos, autores premiados, cinema de arte, as matérias popularescas como as que fiz com Gretchen, Wando, Sidney Magal, Júlio Iglesias, entre muitas outras, além das estreias de todas as novelas…

Estas lembranças chegaram ao amanhecer quando soube da partida do querido Fuad Atala para redações celestiais. No ultimo dia 4 de abril quando reunimos uma parte dos Dinossauros de O Globo num jantar no Rio, chegamos a fazer um crachá para ele, mas com a saúde debilitada não pode brindar a amizade deste tempo tão feliz… Na foto, a alegria da nossa juventude e Fuad atrás da grande mesa com total maestria regendo todos nos… dezembro de 81, um pedaço da nossa equipe… ja não estão mais Sonia Biondo e Flavia Villas Boas… Presentes Leonel Kaz, Ana Maria Ramalho, Flavio Marinho, Terezinha Larcher, Eliane Levy de Souza e um pedacinho da Heloisa Daddario… Fomos muito felizes e continuamos a ser por ter tanta historia prá rever…

…e as crianças como vão ?

O tema Alzheimer voltou aos meus pensamentos com a morte da atriz e cantora Edyr de Castro. Ao ler a notícia tive a sensação de que não fazia muito tempo que ela fora diagnosticada e levada por amigos para o Retiro dos Artistas. Ah! como gosto do Retiro dos Artistas… No entanto quase 8 anos se passaram, o tempo corre… É mais ou menos este o período que acompanho o mesmo diagnostico em uma pessoa muito querida. Na verdade, creio que fui eu quem detectou algo estranho quando ela chegou para umas semanas de férias. No caminho do aeroporto à minha casa percebi que repetia os mesmos assuntos, creditei ao fato de estar animada com a viagem e muito para contar depois de um ano sem nos vermos. No entanto com o decorrer das semanas todos em casa foram notando a repetição das histórias e culminou com a Torta Alemã.  Ela sempre fez maravilhosas tortas para festas de família, principalmente a Alemã, e se prontificou a fazer uma para a ceia de réveillon. Comprei os ingredientes e ela avisou que faria a sua obra prima um dia antes para ficar mais saborosa. Faltando 4 dias para a festa ela acordou pronta para fazer a torta. Perguntei se não era para fazer na véspera, ela percebeu que tinha se confundido com as datas, afinal estava de férias e ”todo dia é domingo”. E este diálogo se repetiu nos dias seguintes até finalmente chegar o momento de fazer a sobremesa. Esta cena acendeu em mim uma luz vermelha, e quando voltou para casa enviei um longo email para a família contando os fatos, relatando a preocupação.

Alguns meses depois viria o diagnostico que ninguém queria ouvir, o próprio mal alemão, Alzheimer. Durante alguns anos permaneceu lucida, com alguns momentos de confusão mental. Voltou a me visitar outras vezes, tratei com cuidado, deixei o portão fechado com chave, temia que saísse pelas ruas da vila e não soubesse voltar… E pensar que ela caminhava pela estrada de terra, ia de uma ponta a outra da praia, passeava em Porto Seguro, e isso não fazia tanto tempo.  Foram dias difíceis ver como alguém que foi referência na minha história caminhava sem direção, pensamentos trocados, memórias confusas… Continuei percebendo as mudanças nos telefonemas algumas vezes por semana. Creio que ela não sabia que eu telefonava tantas vezes. Aos poucos a sua mente foi cada vez mais sendo tomada pelo “alemão” e as conversas eram confusas. Quando telefonei no aniversário ela disse que estava passeando em Itaipava. Como assim, se falávamos no telefone fixo?

O desgaste familiar foi ganhando espaço, todos exaustos, tristes, vencidos, enquanto o “alemão” se incorporava no dia a dia. Causava preocupação, temor por ter que ficar sozinha, contratou-se uma acompanhante, mas não era essa a solução. Chegou o momento que não se queria ver nem viver aquele drama. A escolha foi leva-la para uma casa de repouso onde teria tratamento, cuidados e atenção. Ninguém sofreria ao ouvie suas conversas truncadas, pois não tinham convivido com a mulher ousada, brilhante, perfeccionista, divertida, companheira, inteligente, irônica, uma grande companhia. E assim ela foi para uma casa que, por ironia do destino, está localizada em uma rua que homenageia um de seus antepassados. Tudo em família. Ontem pela primeira vez telefonei e depois que me identifiquei ela perguntou: “e as crianças como vão?”.  Não sei com quem pensou estar falando, certamente não era comigo. As crianças vão bem, nas minhas lembranças da infância… As crianças ainda somos nós…

O ano que passou

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Foram mais de 300 dias num dilema que parecia sem fim…. Não havia critério de tempo, espaço ou lógica para a tortura surgir…. Às vezes ao acordar, outras no meio da noite, entre as refeições, lendo o jornal, na prece, na melhor cena da novela, no Pilates, quando menos esperava surgia o pensamento aterrorizante. A primeira manifestação foi exatamente há um ano ao assoprar as velas do bolo de aniversário e constatar que no próximo seriam 70. Foi difícil assimilar. E me perguntava: como assim? 70 anos !!!

Sei que Roberto tem 77, Chico 74, Caetano 76, Jagger 75, Fernanda 89, Bibi 96 e por aí vai, mas desconheço o processo pelo qual passaram, se rolou alguma neura ou se correu tranquilo. Cada um é um, e minha alma tem menos de 40 anos. Como tudo em minha vida aconteceu sem qualquer planejamento, fui seguindo e me deparei na porta dos 70. Nas primeiras semanas após a constatação pensei em mudar a alimentação, chegar aos 70 quilos para celebrar 70 anos, mas percebi que ficaria com cara de doente. Depois de uma certa idade emagrecer é temerário, pode cair tudo… Pensei em N projetos para superar o medo, estava quase me atirando de volta à um divã de analista. Optei por insistir na vida alimentar e mental saudável, caminhando na praia, retirando da mesa o pão, bolos, chocolates, mas isso não eliminava a navalha na cabeça, uma tortura silenciosa, vergonhoso até em compartilhar com os amigos.

E no meio deste drama há algumas semanas acordei muito estranha às 5 da manhã. Estava inebriada num profundo sentimento de que a vida é muito boa. Eram tantos passarinhos cantando, tamanha mistura de notas musicais, que até o estridente aracuã me fez feliz. Um sol escandalosamente carregado de brilho e o mar ao longe com jeito de maré alta. Esse cenário acordou em mim o sentimento de que se não tivesse chegado aos 70 não teria vivido esta e tantas outras maravilhas…

Como perder o prazer de ser testemunha da mudança na comunicação, a profissão que escolhi, ver sair do mimeógrafo às impressoras 3D, do orelhão aos smartphones, dos jornais nas bancas à leitura digital no tablet, do telex à internet. Imagine encarnar e perder a transformação da TV preto e branco para cores, às transmissões internacionais via satélite, não testemunhar a revolução que um homem chamado Flavio Cavalcanti fez na TV brasileira. O prazer em ter trabalhado em 4 Rock’n Rios e contribuído para a construção desta marca reconhecida mundialmente… Imagine que tédio ter a chance e não entrar no sonho do Roberto Medina tal qual um Sancho Pança seguindo Don Quixote atrás dos moinhos de vento? Que graça teria não acompanhar o crescimento de tantos profissionais que continuam meus amigos e, assim como eu, o tempo também está contando no velocímetro deles… Por favor, Dody Sirena!! Como passar nesta vida sem ver a sua trajetória despontando do sul do país, enfrentando os mais malucos desafios e  produzir um show em Jerusalém… Jesus ! E eu estava lá… Experiência única.

E todos os amores, paixões, encantamentos, prazeres, borboletas no estomago, taquicardia ao ouvir uma canção, suores, cheiros, sabores e também decepções, perdas, lutos, traições, mentiras, enganos, despedidas, puxadas de tapete, separações, tudo vivido muito intensamente como as cenas mais densas no final de um capítulo da novela aos sábados. Como esquecer !!! E como não lembrar quão felizes foram os namoros, casamentos, encontros furtivos, paqueras, amizades coloridas… Muito mais encontros do que desencontros…

Ah! Nova York e Lisboa que me acolheram como uma de suas filhas. Na América com meias de nylon e sandália no verão, três invernos com neve, ser commuter entre Larchmont e Manhattan, almoçar sanduiche na escada da Saint Patricks, assistir à queima de fogos nos 100 anos da Brooklyn Bridge, a marcha pelo desarmamento nuclear nas ruas de Manhattan, tão organizada como o desfile de uma escola de samba…Tantas histórias e vidas… Portugal meu avozinho, como escreveu David Nasser, a descoberta das raízes, o encontro do idioma, das tradições e a beleza de tanta modernidade. A sardinha frita nas festas de Santo Antônio, as cerejas aos montes vendidas nas barracas na rua, os fados, os rocks e os pops que ainda tocam na minha playlist. Coimbra, Aveiro, Setúbal, Porto, Braga, Cezimbra, Azeitão, Serra da Arrabida, de norte e sul percorri suas estradas, ruas e vielas, deixando meu coração pleno de amor e simpatia. E por fim me tornar baiana de Vila da Santa Andre, Santa Cruz Cabralia, onde o Brasil começou !

Se não tivesse vivido tanto nem teria percebido que nasci em uma família que às vezes me faz pensar que nos reunimos apenas para esta experiência coletiva. Do meu irmão que se foi tenho a certeza que já estivemos juntos em outros momentos. Dos demais são relações em fases constantes de construção… Dos meus pais ficaram os ensinamentos sobre honestidade, respeito, tolerância. Dignidade, amizade, acolhimento. Em casa todos eram bem-vindos. Sempre havia um lugar na mesa e uma cama extra. Não se discutia politica, religião nem futebol, todos respeitavam as escolhas. E pude fazer as minhas, divergir do meu pai nas mudanças politicas; buscar um caminho na espiritualidade e torcer por um time que não era da familia… Foi essa estrutura que me permitiu entrar por tantas portas com pé no chão, sem deslumbramento, pedindo licença, aceitando desafios, encarando tudo com muito prazer e me levou a viver em tantos lugares como se estivesse sempre em casa. Mudavam os cenários, ora sofisticados, algumas vezes mais simples, mas a essência da família permanecia intocável.

O melhor de tudo, um prazer até egóico, a perpetuação da espécie, é a alegria de ver que o filho gerado se tornou um homem integro, profissional da mais alta qualidade, amigo sincero, sensível, amoroso e construiu uma família por quem tenho o maior amor… Gratidão Paulo Martins por esta parceria de vida. Bernardo é sem duvida o melhor de mim.

Se tivesse ficado no meio do caminho, não teria conhecido a paz e a grandeza que cresce internamente quando o externo começa a se deteriorar. Reconheço como grande mistério da vida a capacidade de exercer a quietude, a compaixão, a complacência diante dos que ainda produzem acirradas disputadas do ego. Já vi esse filme e o final nem sempre é feliz. A vida pode ser muito mais leve e simples. Continuo aprendendo, estudando e acreditando na sabedoria que vem com a maturidade. Faço planos sem parar. Me recrio, me reinvento, e ainda tenho muito chão pela frente. Aguardem.

Sobre consciência negra

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Quando criança na casa dos meus pais jamais se falou sobre negros. A razão era simples: negros eram pessoas como nós e os chamávamos pelo nome… No início dos anos 50 minha família mudou de BH para São Paulo, papai alugou um sobradinho na rua das Acácias (hoje Pássaros e Flores) no Brooklin, um bairro distante sem pavimentação, muito barro no caminho e mamãe chorou quando viu aonde seria o nosso lar. Era uma área rural que começava a ser urbanizada. Ainda tinha algumas chácaras, rios onde tomava banho e o Ginásio Beatíssima Virgem Maria, a escola das freiras, aonde fui estudar. Foi lá que conheci Neide Fernandes, morava em uma casa simples numa rua atrás da minha. Quintal grande muito bem cuidado, flores e hortas, ali vivia com o pai policial militar que vestia um uniforme azul marinho sempre impecável, a mãe, a avó, dois irmãos e eu adorava brincar em sua casa. Neide não era branquelinha como eu. Era morena, o pai negro, a mãe e a avó mais claras, mas jamais percebi essa diferença por que lá em casa negro tinha nome e não cor de pele. A vida nos levou por caminhos diferentes, mas com a chegada das redes sociais nos reencontramos. Permanecemos amigas até há dois anos quando ela partiu depois de um curto tempo doente. Nem soube que estava internada, a noticia veio como uma bomba, também pela mesma rede social que nos reuniu. Neide sempre me surpreendia com pequenos mimos que enviava para a caixa postal. Pacotinhos com biscoitos de polvilho que derretiam na boca feitos por ela, pãezinhos de queijo, panos de prato e uma série de carinhos embalados. Um dia ela mandou o santinho da minha Primeira Comunhão. Chorei em rever a criança com o anjo da guarda ao lado. Teve o cuidado de manter intacta a lembrança por toda a vida. Quer amor e amizade maior ? Por isso, quando tanto se fala em 20 de novembro, sinto que a minha consciência negra é consciência do amor e carinho aos amigos. Homenagem à Neide Fernandes, aonde estiver…

Foto Claudia Schembri em 23 de novembro de 2011 no lançamento do livro Um Show em Jerusalém em São Paulo.