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Historias de pescador

Adriano e “seu”Laurindo voltando da roça

Adriano trabalha na construção civil, é também pescador e presidente da associação de pescadores do Guaiú. Sempre frente aos movimentos da comunidade, como abrir o acesso do mar para o rio a fim de salvar as espécies, buscar caminhos para os pescadores chegarem com seus carros para retirar a produção do dia, Adriano sonha estudar engenharia e a primeira vez que o vi foi vestindo beca e usando capelo na formatura em administração de empresas. Dias depois nos encontramos no Fórum num grupo que ia ao encontro do promotor para discutir o alto preço das passagens para travessia da balsa, e foi na sala de espera que ouvi um pouco de sua história. Tem uma garra e um brilho nos olhos que atraem quem gosta de ouvir historias, como eu.

Passei a fazer parte dos seus grupos de whatsaap, a seguir suas redes sociais e quando o Nordeste começou a ser banhado com o óleo sua atuação passou a ser constante. Com a matéria cada vez mais descendo para o sul da Bahia, Adriano passou a alertar em vídeos sobre o grande mal desconhecido. Munido de um celular, diariamente, envia um relatório mostrando a praia ainda limpa, a chegada das pequenas partículas na areia, o mutirão com voluntários unindo folhas de coqueiros, redes e sombrites para impedir o óleo de entrar no rio e destruir os mangues e pequenos crustáceos…. Ele é o meu “Bom Dia Brasil” noticiando o que está acontecendo no Guaiú posso prever como estará em Vila de Santo André.

Adriano hoje enviou um áudio contando sobre o avô por quem foi criado, sua maior referência, grande inspiração. Laurindo Francisco de Souza, tem 100 anos, nasceu na região de Santa Maria Eterna, na vizinha Belmonte, e mora no Guaiú desde 1940.  Com tanta conversa sobre o derramamento de petróleo, ele contou que por volta dos anos 60 também apareceu muito óleo na praia, bem parecido com o que está acontecendo. Sem redes sociais e difícil comunicação, nem havia energia elétrica, apenas umas 3 casas no Guaiú, o mesmo número em Santo Antônio e Santo André, os moradores tomaram providencias. “Seu” Laurindo conta que há algum tempo guardava tonéis que tinha encontrado na praia e os aproveitou para armazenar o piche que chegava. Aos poucos a praia ficou limpa e durante anos guardou esta matéria que utilizava para calafetar os barcos que usava para pescar e trazer alimento à família….

Vendo os “novos invasores” que o neto vai recolhendo, “seu” Laurindo compara ao que retirou nos anos 60. Segundo ele, primeiro chegaram bolas pequenas, depois um volume maior e acredita que por ser inverno os blocos eram mais duros, não tão pastosos como tem visto. Na sabedoria e lucidez dos seus 100 anos, na experiência de quem viveu sempre à beira mar, ele sabe muito bem o quanto aumentou a temperatura no planeta. Não precisa de qualquer aparelho para medir o efeito estufa, acredita que isso poderá influenciar no movimento e a expansão deste derramamento. Reflexões, análises de um simples pescador que teme pelas praias, mangues, peixes, crustáceos, restinga, tudo que o cerca e onde plantou sua vida, sua família. Mas tem esperança de que em mais alguns anos tudo isso seja apenas uma história para o seu neto contar.

São João, acende a fogueira do meu coração

No final da rua da Margaridas, do lado esquerdo, antes de chegar no riacho, ficava a casa dos italianos Orabona. Nós morávamos no Brooklin, naquele tempo era um bairro distante do centro de São Paulo, onde ainda haviam chácaras, um rio aonde as crianças tomavam banho escondido dos pais, ruas sem calçamento, alguns sobradinhos, um colégio de freiras e outro dos padres, uma igreja a ser construída em mutirão, um pequeno comércio. Os italianos eram festeiros, assim como os espanhóis Alarcon que tinham o empório na esquina das Margaridas com Acácias.   

Eu esperava o ano todo pelas festas dos Orabona. Era tão bom quanto as férias no Rio. Nas semanas que antecediam a casa deles se transformava em atelier para construção de balões. Às vezes papai me levava prá ver aquele monte de papel de seda colorida que com recortes exatos e colagens magnificas com cola de farinha, se transformavam em peças únicas de uma beleza incrível. Tinham expertise em fazer a bucha e colocar de forma que subissem sem “lamber” (queimar), colorindo e iluminando o céu até se perderem no infinito. Na noite da festa me importava mais ficar olhando os balões no céu do que qualquer comilança… E a mesa era farta, mas eu só admirava sem preocupação com o meio ambiente ou o que a queda poderia provocar. Apenas sonhava em voar junto.   

Esta era a memória de São João até mudar para o Rio na adolescência e conhecer as enormes festas que aconteciam nas ruas da Tijuca. Cada dia uma rua enfeitada com bandeirinhas e bambu, quadrilha, barraquinhas, comilança com quentão, vestido estampado com enfeite de renda, chapéu de palha com flor. Uma agenda disputadíssima e eu nem olhava mais para o céu procurando balões, mas sim para os lados interessada nos rapazes…

São João sumiu e voltou quando eu tinha menos de 30 anos e passou a ser festejado em casa, aniversário do marido que também tinha o nome do padroeiro. Toda festa tinha um clima caipira, mesmo que discreto. Uma vez ousamos ao extremo e transformamos o quintal da casa dos meus pais em arraial com cenografia impecável, música ao vivo com um trio de zabumba, sanfona e triangulo, quentão, amendoim torrado, cachorro quente, milho, canjica, bolos… Festança para ninguém botar defeito. Da diretoria do Salgueiro aos atores do elenco da novela que ele dirigia !!

Acabou o casamento e São João também. Reencontrei o santo há 15 anos quando vim morar no Nordeste onde a festa é tão grande, como o fim de ano no Sul quando as famílias se reúnem, ou um thanksgiving na América. São muitos dias de celebração. Em Santa Cruz Cabrália é praticamente o mês inteiro. Tem festas no centro da cidade, nos bairros, nos distritos. Tem até um bairro com um Santo Antônio com mais de 14m de altura onde acontecem 13 dias de festas, com missas, bingos, shows, para a alegria do padre e do povo. Consta que em Vila de Santo André, antigamente a festa durava 3 noites e 3 dias de musica, brincadeiras e comilança. Este ano se repetem 3 noites com apresentação de quadrilhas, barraquinhas com quentão de jenipapo, amendoim cozido, curau, caldo de pinto, pipoca, bolo de milho. Forró tocando alto, criança correndo, a temperatura mais fria, mas não tem fogueira nem balão no céu… O que sobrou da Mata Atlântica agradece.

Rock’n roll na veia

Em julho de 1990 quando foi lançada a 2ª. edição do Rock in Rio em uma entrevista coletiva na Tribuna de Honra do Maracanã, local aonde aconteceria o evento, foi feita uma superprodução com jornalistas vindos de diversos Estados, o que gerou uma grande repercussão. No entanto alguns dias depois veio um balde de água fria com a divulgação da notícia de que o Maracanã estaria com problemas na estrutura e poderia cair. Tudo levava a crer que era briga política.  O governo estadual sentiu-se ameaçado com a projeção que Roberto Medina teve com o sequestro sofrido um mês antes e o fato poderia agregar valor à família Medina, com Rubem, irmão, deputado federal e possível candidato ao governo do estado nas próximas eleições. 

Por questões estratégicas, Roberto Medina preferiu ficar fora de cena enquanto não saíssem os laudos técnicos que comprovassem que estava tudo bem com o estádio. Sabíamos que era um movimento para desestabilizar o festival e como o meu negócio não era política, mas ganhar espaço na mídia, várias ações foram criadas, entre elas a “Escalada do Rock”, onde bandas novas participavam de um concurso, a ganhadora teria contrato com uma gravadora e se apresentaria uma noite.  Centenas de fitas cassete* chegavam por correio ou eram entregues na recepção da Artplan, agencia que produzia o evento. Passei dias, noites, fins de semana, todos os horários livres, junto com o produtor Charles Nogueira fazendo uma peneira que depois era enviada para uma comissão passar o pente fino.  

Um dia chegou não uma fita, mas o próprio interessado em participar. Tratava-se de Serguei, que conheci ao lado de Janis Joplin numa entrevista coletiva na pérgola do Copacabana Palace em 1970, e ao longo dos anos vinha batalhando na carreira de rock star… Serguei queria participar da “Escalada do Rock”, estava fazendo o maior movimento na imprensa e foi se candidatar. Super alto astral, uma figura fora de qualquer padrão, muito divertido, onde chegava se tornava estrela… A produção definiu que ele poderia se apresentar na seleção como “hors concours” e em honra ao rock teria seus minutos de fama na abertura de um dos shows… Serguei vibrou!  Acreditando ter sido eu a responsável sua participação, ao longo dos anos jamais deixou de telefonar, mandar recados por amigos, flores, elogios na imprensa, sempre agradecido pela realização do sonho… Confesso que não fiz nada, apenas levei o assunto ao “dono” do evento, Roberto Medina, ao produtor Dody Sirena, e ambos concordaram que ele era a cara do rock and roll… E foi e será para sempre a cara do rock … Agora é tempo de ser estrela no céu ! 

O cantor Serguei morreu na manhã desta sexta-feira (7), aos 85 anos, no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda (RJ), onde estava internado desde o fim de maio.  

*A fita cassete ou compact cassette é um padrão de fita magnética para gravação de áudio lançado oficialmente em 1963, invenção da empresa holandesa Philips. Também é abreviado como K7.

O cassete era constituído basicamente por 2 carretéis, a fita magnética e todo o mecanismo de movimento da fita alojados em uma caixa plástica, isto facilitava o manuseio e a utilização permitindo que a fita fosse colocada ou retirada em qualquer ponto da reprodução ou gravação sem a necessidade de ser rebobinada como as fitas de rolo. Com um tamanho de 10 cm x 7 cm, a caixa plástica permitia uma enorme economia de espaço e um excelente manuseio em relação às fitas tradicionais.

O audiocassete ou fita cassete foi uma revolução difundindo tremendamente a possibilidade de se gravar e se reproduzir som. No início, a pequena largura da fita e a velocidade reduzida (para permitir uma duração de pelo menos 30 minutos por lado) comprometiam a qualidade do som, mas recursos tecnológicos foram sendo incorporados ao longo do tempo tornando a qualidade bastante razoável. Recursos como: novas camadas magnéticas (Low Noise, Cromo, Ferro Puro e Metal), cabeças de gravação e reprodução de melhor qualidade nos aparelhos e filtros (Dolby Noise Reduction) para redução de ruídos.

Os primeiros gravadores com áudio cassete da Philips já eram portáteis, mas no final dos anos 70 com a invenção do walkman pela Sony, um reprodutor cassete super compacto de bolso com fones de ouvido, houve a explosão do som individual. ( Fonte Wikipedia)

Em memória do Segundo Caderno O Globo

Em novembro de 1976, numa certa manhã na redação da revista TV Guia (Editora Abril) o editor Edgard Catoira me chamou para avisar que ia ter um “passaralho”, termo muito utilizado nas redações em referência a demissões em massa, e meu nome não constava da lista. Porém, buscava colocação para os que seriam demitidos e numa conversa com o Henrique Caban, editor de O Globo, soube que havia uma vaga para cobrir a área de TV no Segundo Caderno do jornal. Caban se interessou pelo meu currículo, já vinha me acompanhando e, caso eu aceitasse, a minha vaga iria para um colega que estava na mira do corte… Fui pra casa pensar. Nunca tinha trabalhado em jornal, toda a experiência era em revistas e tv, o salário não mudava muito, mas soava como um desafio sedutor.  No dia seguinte fui conversar com o Caban e assim começou a minha vida nas Organizações Roberto Marinho onde mais do que jornalismo, aprendi a me colocar como mulher e profissional. Não que eu não soubesse me portar, mas diante daquela redação repleta de intelectuais, o que eu escrevia era considerado subproduto…. Além disso, constava no meu currículo ter sido secretária do apresentador de TV Flávio Cavalcanti, considerado super de direita, ter escrito e dirigido revistas de fotonovelas… Popular é pouco…

Era um tempo em que ainda havia o discurso “passei pela área de serviço e a minha empregada estava assistindo o Chacrinha” ou a referência à qualquer outro programa popular, onde também se incluíam as novelas. Sim, eu sabia sobre os bastidores deste mundo ‘pouco qualificado’ e ainda namorava um diretor de novelas… Conviver com uma repórter assim era divertido para a “inteligentzia” que queria saber se a Sandra Bréa era caso de que diretor, se determinado ator era “bicha” – ninguém era gay naquele tempo- ,  se a cantora era “sapatão”, se fulano tinha um contrato com tantos cifrões, e  outras tantas curiosidades do submundo do subproduto das celebridades… Apesar de todo o ar político e culturalmente correto, a redação era um mafuá. Móveis velhos e empoeirados, janelas enormes que descortinavam para o Batalhão da PM, a trilha sonora das teclas nas máquinas de escrever, os cinzeiros cheios de bitucas de cigarro e o desfile de lendas do jornalismo que entrava silenciosamente para entregar seus artigos, alguns até escreviam em máquina no fundo da sala… Um calor infernal, o sol da tarde era inclemente, mas foi ali que eu comecei a forjar essa mulher que sou hoje… Foi no campo do que hoje seria o “bulling” que me fortaleci e passei a ter orgulho do meu caminho… Diferente dos meus amigos, eu não tinha cursado qualquer universidade. Sou do tempo que para ter registro de jornalista bastava apenas mostrar serviço, e assim me tornei uma.  As tendências ao brega que construí ouvindo o rádio da Rosalina na cozinha da infância, as raízes da Tijuca no grupo MAU, tudo formava a identidade do que eu estava me tornando.

Foi a partir de uma reportagem onde eu revelava o conteúdo das cartas que os fãs mandavam para os atores, que o seleto grupo de colegas passou a olhar o meu trabalho com mais atenção. Eu era um pouco mais do que uma “repórter de tv”. Consegui esta matéria graças à “santa” Guta, diretora de elenco da Globo e com poderes sobre as grandes estrelas globais, que me permitiu ler as cartas onde os fãs revelavam seus sonhos e intimidades em relação aos artistas. Como exemplo, um determinado ator recebeu uma caixinha que continha um vidro para que colocasse o seu esperma. Ela sonhava ter um filho e poderia ser até desta forma.  Foi a partir daí que meu caminho na redação ficou mais fácil e passei a me sentir pertencente ao time.

Tite de Lemos, Ivo Cardozo, Leonal Kaz e por último Fuad Atala acompanharam essa minha trajetória em 5 anos na redação do Segundo Caderno. Eles nunca souberam o quanto eu era feliz em compartilhar nas páginas do Segundo Caderno, entre matérias sobre sofisticadas montagens teatrais, operas, exposições de arte, concertos sinfônicos, autores premiados, cinema de arte, as matérias popularescas como as que fiz com Gretchen, Wando, Sidney Magal, Júlio Iglesias, entre muitas outras, além das estreias de todas as novelas…

Estas lembranças chegaram ao amanhecer quando soube da partida do querido Fuad Atala para redações celestiais. No ultimo dia 4 de abril quando reunimos uma parte dos Dinossauros de O Globo num jantar no Rio, chegamos a fazer um crachá para ele, mas com a saúde debilitada não pode brindar a amizade deste tempo tão feliz… Na foto, a alegria da nossa juventude e Fuad atrás da grande mesa com total maestria regendo todos nos… dezembro de 81, um pedaço da nossa equipe… ja não estão mais Sonia Biondo e Flavia Villas Boas… Presentes Leonel Kaz, Ana Maria Ramalho, Flavio Marinho, Terezinha Larcher, Eliane Levy de Souza e um pedacinho da Heloisa Daddario… Fomos muito felizes e continuamos a ser por ter tanta historia prá rever…

…e as crianças como vão ?

O tema Alzheimer voltou aos meus pensamentos com a morte da atriz e cantora Edyr de Castro. Ao ler a notícia tive a sensação de que não fazia muito tempo que ela fora diagnosticada e levada por amigos para o Retiro dos Artistas. Ah! como gosto do Retiro dos Artistas… No entanto quase 8 anos se passaram, o tempo corre… É mais ou menos este o período que acompanho o mesmo diagnostico em uma pessoa muito querida. Na verdade, creio que fui eu quem detectou algo estranho quando ela chegou para umas semanas de férias. No caminho do aeroporto à minha casa percebi que repetia os mesmos assuntos, creditei ao fato de estar animada com a viagem e muito para contar depois de um ano sem nos vermos. No entanto com o decorrer das semanas todos em casa foram notando a repetição das histórias e culminou com a Torta Alemã.  Ela sempre fez maravilhosas tortas para festas de família, principalmente a Alemã, e se prontificou a fazer uma para a ceia de réveillon. Comprei os ingredientes e ela avisou que faria a sua obra prima um dia antes para ficar mais saborosa. Faltando 4 dias para a festa ela acordou pronta para fazer a torta. Perguntei se não era para fazer na véspera, ela percebeu que tinha se confundido com as datas, afinal estava de férias e ”todo dia é domingo”. E este diálogo se repetiu nos dias seguintes até finalmente chegar o momento de fazer a sobremesa. Esta cena acendeu em mim uma luz vermelha, e quando voltou para casa enviei um longo email para a família contando os fatos, relatando a preocupação.

Alguns meses depois viria o diagnostico que ninguém queria ouvir, o próprio mal alemão, Alzheimer. Durante alguns anos permaneceu lucida, com alguns momentos de confusão mental. Voltou a me visitar outras vezes, tratei com cuidado, deixei o portão fechado com chave, temia que saísse pelas ruas da vila e não soubesse voltar… E pensar que ela caminhava pela estrada de terra, ia de uma ponta a outra da praia, passeava em Porto Seguro, e isso não fazia tanto tempo.  Foram dias difíceis ver como alguém que foi referência na minha história caminhava sem direção, pensamentos trocados, memórias confusas… Continuei percebendo as mudanças nos telefonemas algumas vezes por semana. Creio que ela não sabia que eu telefonava tantas vezes. Aos poucos a sua mente foi cada vez mais sendo tomada pelo “alemão” e as conversas eram confusas. Quando telefonei no aniversário ela disse que estava passeando em Itaipava. Como assim, se falávamos no telefone fixo?

O desgaste familiar foi ganhando espaço, todos exaustos, tristes, vencidos, enquanto o “alemão” se incorporava no dia a dia. Causava preocupação, temor por ter que ficar sozinha, contratou-se uma acompanhante, mas não era essa a solução. Chegou o momento que não se queria ver nem viver aquele drama. A escolha foi leva-la para uma casa de repouso onde teria tratamento, cuidados e atenção. Ninguém sofreria ao ouvie suas conversas truncadas, pois não tinham convivido com a mulher ousada, brilhante, perfeccionista, divertida, companheira, inteligente, irônica, uma grande companhia. E assim ela foi para uma casa que, por ironia do destino, está localizada em uma rua que homenageia um de seus antepassados. Tudo em família. Ontem pela primeira vez telefonei e depois que me identifiquei ela perguntou: “e as crianças como vão?”.  Não sei com quem pensou estar falando, certamente não era comigo. As crianças vão bem, nas minhas lembranças da infância… As crianças ainda somos nós…

O ano que passou

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Foram mais de 300 dias num dilema que parecia sem fim…. Não havia critério de tempo, espaço ou lógica para a tortura surgir…. Às vezes ao acordar, outras no meio da noite, entre as refeições, lendo o jornal, na prece, na melhor cena da novela, no Pilates, quando menos esperava surgia o pensamento aterrorizante. A primeira manifestação foi exatamente há um ano ao assoprar as velas do bolo de aniversário e constatar que no próximo seriam 70. Foi difícil assimilar. E me perguntava: como assim? 70 anos !!!

Sei que Roberto tem 77, Chico 74, Caetano 76, Jagger 75, Fernanda 89, Bibi 96 e por aí vai, mas desconheço o processo pelo qual passaram, se rolou alguma neura ou se correu tranquilo. Cada um é um, e minha alma tem menos de 40 anos. Como tudo em minha vida aconteceu sem qualquer planejamento, fui seguindo e me deparei na porta dos 70. Nas primeiras semanas após a constatação pensei em mudar a alimentação, chegar aos 70 quilos para celebrar 70 anos, mas percebi que ficaria com cara de doente. Depois de uma certa idade emagrecer é temerário, pode cair tudo… Pensei em N projetos para superar o medo, estava quase me atirando de volta à um divã de analista. Optei por insistir na vida alimentar e mental saudável, caminhando na praia, retirando da mesa o pão, bolos, chocolates, mas isso não eliminava a navalha na cabeça, uma tortura silenciosa, vergonhoso até em compartilhar com os amigos.

E no meio deste drama há algumas semanas acordei muito estranha às 5 da manhã. Estava inebriada num profundo sentimento de que a vida é muito boa. Eram tantos passarinhos cantando, tamanha mistura de notas musicais, que até o estridente aracuã me fez feliz. Um sol escandalosamente carregado de brilho e o mar ao longe com jeito de maré alta. Esse cenário acordou em mim o sentimento de que se não tivesse chegado aos 70 não teria vivido esta e tantas outras maravilhas…

Como perder o prazer de ser testemunha da mudança na comunicação, a profissão que escolhi, ver sair do mimeógrafo às impressoras 3D, do orelhão aos smartphones, dos jornais nas bancas à leitura digital no tablet, do telex à internet. Imagine encarnar e perder a transformação da TV preto e branco para cores, às transmissões internacionais via satélite, não testemunhar a revolução que um homem chamado Flavio Cavalcanti fez na TV brasileira. O prazer em ter trabalhado em 4 Rock’n Rios e contribuído para a construção desta marca reconhecida mundialmente… Imagine que tédio ter a chance e não entrar no sonho do Roberto Medina tal qual um Sancho Pança seguindo Don Quixote atrás dos moinhos de vento? Que graça teria não acompanhar o crescimento de tantos profissionais que continuam meus amigos e, assim como eu, o tempo também está contando no velocímetro deles… Por favor, Dody Sirena!! Como passar nesta vida sem ver a sua trajetória despontando do sul do país, enfrentando os mais malucos desafios e  produzir um show em Jerusalém… Jesus ! E eu estava lá… Experiência única.

E todos os amores, paixões, encantamentos, prazeres, borboletas no estomago, taquicardia ao ouvir uma canção, suores, cheiros, sabores e também decepções, perdas, lutos, traições, mentiras, enganos, despedidas, puxadas de tapete, separações, tudo vivido muito intensamente como as cenas mais densas no final de um capítulo da novela aos sábados. Como esquecer !!! E como não lembrar quão felizes foram os namoros, casamentos, encontros furtivos, paqueras, amizades coloridas… Muito mais encontros do que desencontros…

Ah! Nova York e Lisboa que me acolheram como uma de suas filhas. Na América com meias de nylon e sandália no verão, três invernos com neve, ser commuter entre Larchmont e Manhattan, almoçar sanduiche na escada da Saint Patricks, assistir à queima de fogos nos 100 anos da Brooklyn Bridge, a marcha pelo desarmamento nuclear nas ruas de Manhattan, tão organizada como o desfile de uma escola de samba…Tantas histórias e vidas… Portugal meu avozinho, como escreveu David Nasser, a descoberta das raízes, o encontro do idioma, das tradições e a beleza de tanta modernidade. A sardinha frita nas festas de Santo Antônio, as cerejas aos montes vendidas nas barracas na rua, os fados, os rocks e os pops que ainda tocam na minha playlist. Coimbra, Aveiro, Setúbal, Porto, Braga, Cezimbra, Azeitão, Serra da Arrabida, de norte e sul percorri suas estradas, ruas e vielas, deixando meu coração pleno de amor e simpatia. E por fim me tornar baiana de Vila da Santa Andre, Santa Cruz Cabralia, onde o Brasil começou !

Se não tivesse vivido tanto nem teria percebido que nasci em uma família que às vezes me faz pensar que nos reunimos apenas para esta experiência coletiva. Do meu irmão que se foi tenho a certeza que já estivemos juntos em outros momentos. Dos demais são relações em fases constantes de construção… Dos meus pais ficaram os ensinamentos sobre honestidade, respeito, tolerância. Dignidade, amizade, acolhimento. Em casa todos eram bem-vindos. Sempre havia um lugar na mesa e uma cama extra. Não se discutia politica, religião nem futebol, todos respeitavam as escolhas. E pude fazer as minhas, divergir do meu pai nas mudanças politicas; buscar um caminho na espiritualidade e torcer por um time que não era da familia… Foi essa estrutura que me permitiu entrar por tantas portas com pé no chão, sem deslumbramento, pedindo licença, aceitando desafios, encarando tudo com muito prazer e me levou a viver em tantos lugares como se estivesse sempre em casa. Mudavam os cenários, ora sofisticados, algumas vezes mais simples, mas a essência da família permanecia intocável.

O melhor de tudo, um prazer até egóico, a perpetuação da espécie, é a alegria de ver que o filho gerado se tornou um homem integro, profissional da mais alta qualidade, amigo sincero, sensível, amoroso e construiu uma família por quem tenho o maior amor… Gratidão Paulo Martins por esta parceria de vida. Bernardo é sem duvida o melhor de mim.

Se tivesse ficado no meio do caminho, não teria conhecido a paz e a grandeza que cresce internamente quando o externo começa a se deteriorar. Reconheço como grande mistério da vida a capacidade de exercer a quietude, a compaixão, a complacência diante dos que ainda produzem acirradas disputadas do ego. Já vi esse filme e o final nem sempre é feliz. A vida pode ser muito mais leve e simples. Continuo aprendendo, estudando e acreditando na sabedoria que vem com a maturidade. Faço planos sem parar. Me recrio, me reinvento, e ainda tenho muito chão pela frente. Aguardem.

Sobre consciência negra

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Quando criança na casa dos meus pais jamais se falou sobre negros. A razão era simples: negros eram pessoas como nós e os chamávamos pelo nome… No início dos anos 50 minha família mudou de BH para São Paulo, papai alugou um sobradinho na rua das Acácias (hoje Pássaros e Flores) no Brooklin, um bairro distante sem pavimentação, muito barro no caminho e mamãe chorou quando viu aonde seria o nosso lar. Era uma área rural que começava a ser urbanizada. Ainda tinha algumas chácaras, rios onde tomava banho e o Ginásio Beatíssima Virgem Maria, a escola das freiras, aonde fui estudar. Foi lá que conheci Neide Fernandes, morava em uma casa simples numa rua atrás da minha. Quintal grande muito bem cuidado, flores e hortas, ali vivia com o pai policial militar que vestia um uniforme azul marinho sempre impecável, a mãe, a avó, dois irmãos e eu adorava brincar em sua casa. Neide não era branquelinha como eu. Era morena, o pai negro, a mãe e a avó mais claras, mas jamais percebi essa diferença por que lá em casa negro tinha nome e não cor de pele. A vida nos levou por caminhos diferentes, mas com a chegada das redes sociais nos reencontramos. Permanecemos amigas até há dois anos quando ela partiu depois de um curto tempo doente. Nem soube que estava internada, a noticia veio como uma bomba, também pela mesma rede social que nos reuniu. Neide sempre me surpreendia com pequenos mimos que enviava para a caixa postal. Pacotinhos com biscoitos de polvilho que derretiam na boca feitos por ela, pãezinhos de queijo, panos de prato e uma série de carinhos embalados. Um dia ela mandou o santinho da minha Primeira Comunhão. Chorei em rever a criança com o anjo da guarda ao lado. Teve o cuidado de manter intacta a lembrança por toda a vida. Quer amor e amizade maior ? Por isso, quando tanto se fala em 20 de novembro, sinto que a minha consciência negra é consciência do amor e carinho aos amigos. Homenagem à Neide Fernandes, aonde estiver…

Foto Claudia Schembri em 23 de novembro de 2011 no lançamento do livro Um Show em Jerusalém em São Paulo.

Para Danuza Leão

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Sempre gostei de ler os jornais de domingo. Quando criança eu ganhava o suplemento infantil e assim nasceu o hábito.  Passei anos repetindo a rotina de colocar em uma cadeira na mesa do café da manhã os jornais e as revistas semanais. Tomar café era um ritual que se prolongava por horas, depois se estendia para a poltrona da sala onde as publicações eram colocadas em um banquinho. A esquerda ficavam as a ler, a direita as lidas…So saía de casa depois da última letra devorada. Este formato ficou no passado. No sul da Bahia as publicações chegam em forma digital e repito o ritual na mesa da varanda com o Ipad, e depois a leitura continua em uma rede no jardim, ou a beira da praia. E a praia foi a minha inspiração ao ler a crônica da Danuza Leão na revista Ela de O Globo.

A praia que ela descreve é muito igual à que a conheci no início dos anos 90 e aonde escolhi viver em 2004. Havia energia elétrica nas casas simples, não nas ruas…. As noites estreladas eram escandalosamente belas, e em uma barraca de piaçava à beira mar comia-se peixe frito com farinha e uma cachacinha prá descer mais fácil…. Não havia rúcula nem endivers nem brócolis, a salada era de repolho e tomate quase sempre verde.  A tv ficava do outro lado do rio, na praça da cidade, dentro de uma caixa que era aberta para alguns programas, e a balsa fazia travessia das 6 da manhã às 6 da tarde…. Os terrenos não tinham muros, cercas simples de pau de árvore amarradas por um arame farpado, mas qualquer um podia entrar e pegar fruta nos cajueiros, mangueiras, jaqueiras … Carros eram raros, não havia transporte público…

Esta praia não existe mais. Menos de 30 anos ganhou outros ares… Além dos “chegantes” que como eu escolheram por ser um bom lugar para viver, vieram as casas de veraneio, as pousadas, restaurantes e, mais recentemente, 2 resorts que estão buscando se inserir no segmento de “destinos para casamentos”.  Mudou muito sim. Antes um simples mercadinho hoje são 4, tem até 2 cabelereiros, uma loja de material de construção, 3 ONGs, wifi, tv a cabo, aluguel de bicicletas, loja de roupas, balsa até de madrugada, transporte público, uma estrada asfaltada que passa por fora, às vezes um som batidão numa esquina tirando o sono de quem mora perto…

Também não sou a mesma…. Com as tantas experiências e informações trazidas dos grandes centros por onde passei não me enquadraria no perfil de um amor e uma  cabana… Danuza querida, na nossa idade, um mínimo de conforto faz bem. Na minha quase deserta praia ainda tem muita estrela no céu, alguns quilômetros para andar a beira mar sem encontrar uma viva alma, a lua cheia nasce escandalosamente na hora certa em que o aplicativo do meu smartphone anuncia… Em contraponto sabiás, pardais, maritacas, beija flor, e outras tantas aves lindas e não raras, cantam no meu jardim.  E ainda tenho uma rede, deliciosa para ler você aos domingos… Quando quiser, apareça ! Vai ser um enorme prazer …

jardim botanico

Um pé lá outro cá. 3 noites e 3 dias na grande capital e quanta novidade. Encontro com a família em festa de aniversário, com direito a parabéns, bolo e brigadeiro. Visito o centro com amigas, conheço o prédio histórico Farol Santander, passamos na exposição do Adoniran Barbosa, depois teatro de onde saí embasbacada. Não com o talento notório das atrizes de Eva Wilma e Suely Franco, mas pela memória perfeita. Com 84 e 78 anos respectivamente, um show com o texto correndo inteiro, só as duas em cena, do riso à emoção.

Volto para casa e no caminho para o aeroporto uma parada rápida para visitar uma amiga no hospital. Estou em um tempo que tem sempre algum amigo partindo ou se preparando para seguir viagem.  Por morar distante, na maioria das vezes as notícias chegam pelas redes sociais, sem chance de acompanhar um funeral…. Mesmo sendo um momento de dor, nos velórios se reencontra amigos, sabe-se como estão envelhecendo…

No Uber pelas ruas de São Paulo fui pensando o que me aguardava no apartamento 306. Há alguns anos a amiga com quem compartilhei tantos momentos, que testemunhei casamentos, crescimento dos filhos, separações, sucessos e fracassos, que vi dar a volta por cima tantas vezes, entrou num processo onde viver é o que menos importa. Acabou o tesão. Uma apatia tão grande e foi se deixando para o nada… Como companhia para a solidão o cigarro, algum comprimido tarja preta e as vezes uma taça de vinho. Esse conjunto não dá certo pra ninguém.

Bato delicadamente na porta, entro com cuidado e a encontro na cama com os cabelos presos num rabo de cavalo no alto da cabeça, o que lhe dá um ar jovial. O rosto está magro, são poucas as rugas, não faz o tipo velhinha…. Uma sonda no nariz, outra no braço, as mãos enroladas com ataduras e amarradas na cama. A enfermeira justifica de que ela ficou agitada, arrancou as sondas e precisou tolher os movimentos. Olho para trás e lembro nossas mãos soltas correndo pelo Jardim Botânico atrás da filha de uma amiga que se perdeu. Nossa juventude estava ali com os filhos pequenos, tantos desejos e sonhos… Até as perdas eram provisórias…

Mais de 40 anos de amizade e, mesmo que as vezes a distância fazia um vácuo, bastava um telefonema para resgatar o carinho e continuávamos qualquer assunto do ponto que havíamos deixado, sem importar o tempo. E encontro a amiga falando com dificuldade. Queria ouvir contar sobre este momento, onde foi que tudo degringolou, como chegou a este ponto. O tubo no nariz, a boca machucada com os lábios desidratados, a voz embargada, os efeitos dos medicamentos, deixaram a voz fraca, as vezes titubeante. Falei mais do que ouvi. Derramei um longo discurso com bons pensamentos, palavras de fé e positivismo. Rezei ao seu lado, agradeci ao nosso encontro nesta encarnação. Do pouco que consegui ouvir, com total lucidez, guardei a frase: “sei que quando bato com o pé no fundo do poço, tomo impulso e subo”. E quantas vezes ela fez isso… Despedi com um beijo na testa, saí pedindo a Deus que este fundo do poço chegue rápido, que ela tenha força para bater o pé e voltar breve para a vida…

O cajueiro

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Há 14 anos descobri os cajueiros ao aprender a conviver com os dois plantados no jardim de casa… Troncos com formas sinuosas, ora buscando o sol, ora se enterrando na areia e depois retomando seu caminho que ameaçavam os telhados. Deram poucos frutos, muitas flores, mas gosto de admirar a sua força, a determinação em crescer, mesmo sem receber muita água. Bastava a da chuva e às vezes alguma que do gramado escorria para seus pés…

Porém, com o tempo seus troncos saíram do meu jardim, atravessaram a servidão* e quase se derramaram no caminho, inibindo a entrada de veículos mais altos. Para evitar que derrubassem a frágil cerca de madeira da minha casa como também a cerca de eucalipto de outro vizinho, há algum tempo coloquei uma estaca aparando um pesado galho, tudo paliativo… Sabia que um dia teria que ser podado. Na verdade, o que me seduz são seus galhos, muitos secos, fazendo como um “túnel de acesso” ao meu paraíso… O portal da minha alegria…

Ontem o vizinho de servidão, proprietário da Pousada Victor Hugo, construída nos anos 90 por meu irmão Victor e seu sócio Hugo, veio pedir socorro. Precisa de forma urgente da entrada de um caminhão por uma questão estrutural do seu empreendimento e com os galhos é impossível…

Ouvi o pedido, prometi refletir e fiquei divagando sobre a necessidade relevante do vizinho e a estética poética dos galhos, às vezes misturados com bouganvilles, dando boas-vindas à quem chega. O vizinho é meu bem e meu mal. Se for feliz e próspero, serei também. Doeu profundo o tempo de vazio, o abandono, a pousada sem saber que rumo tomar, muitas vezes fechada por longo tempo. Só sobreviviam os jardins, por total dedicação do Beto, jardineiro da época do meu irmão. Havia amor e cuidado por aquele espaço que vi ser construído, estava na inauguração, acompanhei a expansão, e se tornou ponto de referência no povoado, recebeu elogios nos cadernos de turismo, estrelas referendando os bons serviços, e vi também a partida do meu irmão. Foram anos difíceis de um inventário empacado na morosa justiça no sul da Bahia, a desavença entre o sócio e a minha família e, por fim, a venda há 4 anos. Período de altos e baixos, e a bela Victor Hugo perdendo a identidade…. Até que há seis meses chegou um empresário paulista cheio de sonhos para ser pousadeiro à beira mar… Um respiro para o meu coração…

Nestas divagações, me coloquei no lugar do vizinho…. Conclui a importância da poda …. Clareou a servidão, tenho esperança que vai renascer com vigor, assim como a pousada.

*Servidão – um acesso público para o mar, muitas são tão estreitas que veículos não entram. Esta servidão é mais larga, com acesso a veículos exclusivamente para minha casa e para Pousada Victor Hugo.