Arquivo da categoria: Jornalismo

O cajueiro

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Há 14 anos descobri os cajueiros ao aprender a conviver com os dois plantados no jardim de casa… Troncos com formas sinuosas, ora buscando o sol, ora se enterrando na areia e depois retomando seu caminho que ameaçavam os telhados. Deram poucos frutos, muitas flores, mas gosto de admirar a sua força, a determinação em crescer, mesmo sem receber muita água. Bastava a da chuva e às vezes alguma que do gramado escorria para seus pés…

Porém, com o tempo seus troncos saíram do meu jardim, atravessaram a servidão* e quase se derramaram no caminho, inibindo a entrada de veículos mais altos. Para evitar que derrubassem a frágil cerca de madeira da minha casa como também a cerca de eucalipto de outro vizinho, há algum tempo coloquei uma estaca aparando um pesado galho, tudo paliativo… Sabia que um dia teria que ser podado. Na verdade, o que me seduz são seus galhos, muitos secos, fazendo como um “túnel de acesso” ao meu paraíso… O portal da minha alegria…

Ontem o vizinho de servidão, proprietário da Pousada Victor Hugo, construída nos anos 90 por meu irmão Victor e seu sócio Hugo, veio pedir socorro. Precisa de forma urgente da entrada de um caminhão por uma questão estrutural do seu empreendimento e com os galhos é impossível…

Ouvi o pedido, prometi refletir e fiquei divagando sobre a necessidade relevante do vizinho e a estética poética dos galhos, às vezes misturados com bouganvilles, dando boas-vindas à quem chega. O vizinho é meu bem e meu mal. Se for feliz e próspero, serei também. Doeu profundo o tempo de vazio, o abandono, a pousada sem saber que rumo tomar, muitas vezes fechada por longo tempo. Só sobreviviam os jardins, por total dedicação do Beto, jardineiro da época do meu irmão. Havia amor e cuidado por aquele espaço que vi ser construído, estava na inauguração, acompanhei a expansão, e se tornou ponto de referência no povoado, recebeu elogios nos cadernos de turismo, estrelas referendando os bons serviços, e vi também a partida do meu irmão. Foram anos difíceis de um inventário empacado na morosa justiça no sul da Bahia, a desavença entre o sócio e a minha família e, por fim, a venda há 4 anos. Período de altos e baixos, e a bela Victor Hugo perdendo a identidade…. Até que há seis meses chegou um empresário paulista cheio de sonhos para ser pousadeiro à beira mar… Um respiro para o meu coração…

Nestas divagações, me coloquei no lugar do vizinho…. Conclui a importância da poda …. Clareou a servidão, tenho esperança que vai renascer com vigor, assim como a pousada.

*Servidão – um acesso público para o mar, muitas são tão estreitas que veículos não entram. Esta servidão é mais larga, com acesso a veículos exclusivamente para minha casa e para Pousada Victor Hugo.  

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Paciencia

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No vai e vem do corpo no reformer* durante a aula de Pilates, vou contanto até 36 enquanto a outra parte do cérebro pensa, discute e reflete assuntos diversos… Ora os pensamentos são interrompidos pelo canto de um pássaro, outras por alguém que passa assobiando alguma canção… Este cenário fica entre árvores, jardineiras de pimentas e temperos, buganvílias e tumbérgias que às vezes se soltam dos galhos e fazem um tapete na entrada.

E foi no vai e vem desta manhã que fiquei refletindo sobre a imagem que uma amiga criou para explicar as ondas energéticas do nosso cérebro:  “são como velcro para agarrar maus pensamentos, e tefal para deixar escapar as boas energias”. Creio que vivemos um tempo VELCRO…. Muito ódio no ar, brigas, discussões, tudo a ferro e fogo… Discussões homéricas nas redes sociais, os amigos se assustam ao constatar que seus amigos estão fazendo uma escolha que não a sua, como assim? De repente se transformam em inimigos, um desencanto, como se o amor e o respeito que forjaram a amizade durante tantos anos deixassem de existir por conta das eleições.

Gostei da crônica de domingo do Fernando Gabeira, um ex-exilado, que não vê o Aeroporto do Galeão como saída para os problemas do país, “porque leio o outro nome dele, Antonio Carlos Jobim, e me lembro da beleza e do talento que este país abriga”.

Eu me lembro destas belezas e talentos todos os dias. Às vezes em fatos muito simples, como dos jovens da escola municipal de Santo Antônio que pedem ajuda para criar um jornal;  das árvores que o vizinho plantou ao construir a casa e dão sombra à rua; dos “horteiros” que vêm me ajudar e com isso acordo louca para ver as mudinhas cresceram na magia da noite; do nascer do dia no mar, um escândalo, e do pôr do sol no rio, um absurdo de lindo…Não é privilégio de quem mora fora do grande centro, mas de quem vai chegando aos 70 procurando entender que a vida não pode ser só embates, disputas, poder…

Entre as muitas mensagens que vêm nas redes sociais, enquanto escrevia recebi uma sobre a física quântica e as eleições, completando perfeitamente o meu sentimento:  “Tudo está em movimento. A matéria não é densa, é apenas um monte de partículas se movimentando. Os cientistas já provaram que o observador determina se o átomo vai se comportar como partícula ou como onda, num experimento chamado “Fenda Dupla”. Trocando em miúdos, isso significa que cada pessoa cria a sua própria realidade. Realidade essa que é interpretada de forma diversa de acordo com suas experiências de vida, meio cultural onde vive e projetos de futuro. Isso tudo me autoriza a valorizar a auto responsabilidade. Ou seja, se a sua timeline está cheia de troca de ofensas e você se perturba com isso, adivinha de quem é a responsabilidade? É sua. Você focou nisso. Você criou isso prá sua vida…”

Esta mensagem é de Roberta Ramalho, não conheço, mas adoro a generosidade dos compartilhamentos, simplesmente doar uma opinião que pode influenciar a vida de alguém… Como aconteceu com a minha, ficou tudo bem mais leve… Tão leve quanto a cena cotidiana que encontro na volta do Pilates. O cão, em frente da casa, à beira da estrada, esperando seu dono… Paciência e fidelidade aos seus princípios, creio que isto é o que estamos precisando…

 

reformer* é o equipamento mais comum entre os estúdios de Pilates. Ele é composto por uma plataforma deslizante que funciona como uma espécie de carrinho, que fica sobre uma estrutura retangular feita de madeira; o carrinho se conecta à molas, polias e cordas que são ligadas a esta estrutura.

Surpresas

 

Da parte mais alta do armário veio a pequena velha mala e eu não sabia que segredo revelaria o seu interior. Já tinham descido as roupas de cama e banho, tapetes, almofadas, cobertores, colchas, edredons. Toalhas redondas dos tempos do Rio, toalhas de renda bem grandes para dias de festa ou para emprestar para a igreja no dia de procissão, mas aquela mala nada me lembrava… A cada seis meses é feita uma grande arrumação no roupeiro da lavanderia para a nova temporada de hóspedes. Tudo é retirado. Teto lavado, luminárias, as prateleiras recebem tratamento contra cupins, estes minúsculos insetos que amam a vida à beira mar e fazem um enorme estrago. Peça por peça é examinada, análise cuidadosa do que precisa ser substituído, uma lista do que vai e o que fica é feita, em total desapego. Mas por onde andava aquela mala que só agora apareceu?

“Estava aí, a senhora que não viu”, justificou a assistente. Não era tempo de ver, pensei ao levar a mala para a sala.  Enormes surpresas guardamos em casa e em nós mesmos sem perceber. E ali estava uma mala, não sei há quantos anos, no alto de um armário que é utilizado quase todos os dias e recebe uma enorme faxina duas vezes por ano. Ao abrir, sem qualquer cheiro de mofo ou de guardado, saiu um leve perfume de sabonete, e foram se revelando muitos anos de família, quase como um álbum de fotos. Eram os delicados crochês da vovó que ao longo de minha vida se espalhavam pelos móveis da casa da mamãe. Toalhas de todos os tamanhos, caminhos de mesa…  Lembranças muito vivas em algumas peças bem velhas, com a linha esgarçando, mas que me trazem a imagem da vovó sentada no sofá, enxergando muito pouco, crochetando e percebendo os desenhos que criava apenas através do tato. Às vezes um ponto a mais em uma fileira, uma laçada fora do lugar, mas ninguém reparava… Penduro então o crochê da vovó no varal para preservar a imagem em foto, pois os fios algum dia se romperão… Como tudo na vida…

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Escolhas

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Esta semana, duas postagens com muitas curtidas e comentários levaram-me a refletir. Na primeira, me solidarizei com os jornalistas demitidos na Editora Abril; a segunda comemorando 14 anos morando em Vila de Santo André.  Os dois assuntos apesar de dispares, se encontram num mesmo tema: escolhas.

Quando optei em sair do olho do furacão das grandes cidades e vir para a pequena Vila de Santo André, eu não estava desempregada. Ao contrário, estava num excelente momento profissional. Era diretora de uma promissora agencia de eventos da qual fiz parte da criação, completamente integrada no mercado de jornalismo, produção, eventos e marketing. Não sei se foi Deus, o destino, a casualidade que me fincaram na Bahia para não ver o meu Rio de Janeiro desmoronar e descobrir que, mesmo a mais de mil kms distante, posso participar de qualquer processo que necessite uma profissional criativa, experiente, integra, disponível 24hs, texto bacana, capacidade organizacional, bem-humorada e pau para toda a obra.

Nada foi previsto, tudo aconteceu com um desejo de entender melhor a vida e experimentar novos desafios. E foi possível. O mundo é maior do que o Rio e São Paulo, há muito a se doar e ensinar em localidades menores.  Estou sempre somando em algum projeto social ou na gestão pública. Fui secretária de cultura e de comunicação, em duas administrações distintas, cujos prefeitos não compartilhavam da minha escolha política. Como técnica aprendi e ensinei muito em Sta Cruz Cabrália, pouco mais de 28 mil habitantes, e em Vila de Sto André, com menos de 800 habitantes. Todos os egos e vaidades existem, como em qualquer lugar do planeta, e aprendi como conviver é delicado e rico…

Como jornalista, graças a internet, estudei redes sociais, e atuo postando fotos todos os dias no @santoandredabahia, na página http://www.facebook.com/santoandredabahia/ e mantendo atualizado o site www.santoandre-bahia.com . Todas estas redes tem o obetivo de promover o destino turistico onde escolhi viver, e isso é trabalho… Sou voluntária na área de comunicação do IASA, uma ONG que oferece aulas de música; vice-presidente do Conselho de Turismo de Cabrália; e, como uma região turística hospedagem é o que muitos procuram, tenho uma pequena pousada com três chalés para receber amigos e amigos de amigos, de um jeito muito especial…

Em 14 anos escrevi dois livros, atuei como consultora de comunicação em crises empresariais, participei da criação de projetos que se tornaram grandes eventos, dei palpite, somei, acrescentei, descasquei abacaxis com primor. E, nesse ínterim, lendo jornais e revistas online, ainda tive o prazer de ver muita folha no chão se transformando em adubo, maré subir e descer, lua nascendo, sol se pondo, vento derrubando galhos, passarinho cantando… Vi uma pequena muda de roseira dar flor, ouvi o silencio na madrugada, sol amanhecendo no meu rosto, cigarras anunciando o verão, chuvas lavando a alma em longo e úmido inverno…. Plantei árvores, acompanhei cachorro morrendo e crescendo, passarinho no ninho, amigos chegando e partindo, primeira estrela; júpiter, marte e saturno no céu… Rezo todos os dias agradecendo o que tenho, a minha família, aos amigos e aos que não gostam de mim… Nas minhas muitas mudanças, nacionais e internacionais, sempre soube que tinha um lugar para voltar, era a casa dos meus pais… Esta não existe mais e meu único lugar é o que construí. Com muito mais qualidade, precisando de muito menos, entendi que o amor incondicional, a delicadeza, o compromisso com a verdade, a fidelidade aos amigos é o que importa…

Por isso, em tempos de escolhas e mudanças, para quem não sabe o que fazer da vida, fica a dica : experimente sair da caixa e começar uma nova história… O mundo é acolhedor… Sempre vale à pena…

A casa dos meus avós…

… era uma parte em madeira e outra em alvenaria, um formato de construção muito usado no sul… Foi assim que comecei a lembrar deles esta manhã, dia que se comemora  São Joaquim e Santa Ana, Dia dos Avós.

Vovô era aposentado da rede ferroviária do Paraná, tinha pouco mais de 60 anos mas era considerado idoso, andava arrastando os chinelos.  Ele me contou que muito antes, quando meu pai era menino, moravam à beira da estrada de ferro e seu trabalho era sinalizar a passagem dos trens. No jardim da casa tinha uma pequena árvore de erva doce, foi aonde conheci de onde vinham as sementinhas que minha avó fazia chá….

As férias em Curitiba com as famílias dos meus pais, eram aguardadas ao longo do ano. Ficava um pouco na casa de cada tio, mas os tempos com meus avós eram especiais. Eu devia ter menos de 10 anos quando descobri a sua coleção de revistas O Cruzeiro*. Empilhadas no canto de um quarto, organizadas por ordem de publicação, era um enorme prazer desvendar as fotos e os textos. Era a minha Disney… Passava horas folheando as revistas e mal sabia que no futuro seria  “escrevinhadora”… Não importa se repórter, redatora, jornalista, roteirista, autora, a minha vida ficou definitivamente relacionada com a comunicação, palavras e imagens, estáticas ou em movimento…

As vezes penso o que levou meu avô a fazer esta coleção. A família era simples, a instrução foi a básica e naqueles tempos as revistas eram um luxo, “importadas” do Rio de Janeiro…  Não sei o fim que levou esta coleção, mas sou grata aos meus avós por terem aberto esta porta…

*O Cruzeiro foi uma revista semanal ilustrada brasileira, lançada no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1928, editada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Ultima publicação em julho de 1975. Fonte : Wikipedia

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Vovó Luiza, vovô Izaltino, com minha irmã Déa.

A primeira assessoria não se esquece

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Acordo com a notícia da morte de Helio Eichbauer. Conversamos poucas vezes, e ele nunca soube o quanto é relembrado quando vejo minha trajetória. Assim escrevi no primeiro capítulo do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”…

“1985

Um calor insuportável naquele mês de março, só quem mora no Rio de Janeiro conhece o prenúncio da chuva. Ainda eram raros os carros populares com ar condicionado e do ventilador do meu Chevette vermelho saía um bafo quente que era melhor deixar desligado. Eram quase 3 horas da tarde quando estacionei na Catedral Metropolitana e fui caminhando até o prédio do Teatro BNH, uma construção impactante. Um marco da arquitetura da década de 70, com forma piramidal e fachadas decoradas com esculturas dos artistas Carybé e Pedro Correia de Araújo.
Na entrada me recompus do suor, olhei o rosto no espelho, ajeitei o cabelo, passei batom e fui até o porteiro saber se Elda Priami havia chegado. Ele não tinha visto a companheira de redação do jornal O Globo que havia me convidado para fazer um free lance na “divulgação” de uma peça que estrearia naquele teatro. Quando Elda fez o convite sabia que meu forte não era “divulgação”. Eu tinha percorrido algumas redações como repórter, colunista, editora e diretora de revistas. Ela fora sócia da produtora Norma Thiré e nesse período, promoveram grandes espetáculos. Eu voltara recentemente dos Estados Unidos onde vivi por quase 3 anos e estava atirando para todos os lados: retomara meu trabalho no jornal O Globo como colaboradora em reportagens/críticas de shows, pesquisava e escrevia para a minissérie “Caso Verdade” da TV Globo e pela manhã era uma das redatoras do programa “Cidinha Livre”, na Rádio Tupi. Trabalho não me assustava.  Elda era contratada do jornal onde prestava serviço em horário integral escrevendo nos cadernos de moda e comportamento. Com essa agenda, seu tempo para trabalho extra era mais restrito e daí o convite.

Em uma época em que não havia celular e por perto nenhum orelhão (telefone público) disponível para saber o que acontecera, fiquei esperando no lobby do teatro admirando os belos painéis entalhados em madeira. O local estava fresco, o que era um alento. Mais de meia hora se passara até que surgiu um rapaz alto, magro, moreno que perguntou se eu procurava alguém. Falei sobre a Elda e ele se apresentou como José Alberto Muchaki, produtor da peça, e me levou ao escritório onde encontrei Renata Sorrah. Eu conhecia Renata há muito tempo, pois no início da minha vida profissional fui repórter da revista Amiga e depois, quando casada com Régis Cardoso, diretor de novelas da Globo, convivia com grande parte do elenco da emissora.

Renata falava com vibração sobre “Grande e Pequeno”, a peça que estava produzindo. Fui anotando tudo, como repórter, e saí do teatro com o compromisso de que Elda telefonaria para acertar detalhes. No entanto à noite Elda me telefonou com a mudança de planos. Constatara que estava com trabalho demais no jornal e não poderia assumir mais um compromisso. No mesmo instante telefonei para Renata agradecendo o convite e dizendo que, por falta de experiência para conduzir sozinha o trabalho, estava deixando o campo livre. Mas não esperava ouvir a resposta que mudou minha vida:

– Nós queremos você exatamente por nunca ter feito esse trabalho …

Renata Sorrah e eu estreávamos juntas. Este foi o primeiro espetáculo que Renata produziu e o primeiro que divulguei. Por não saber como começar o trabalho resolvi me aprofundar no assunto. Li a peça várias vezes, todo material sobre a montagem na Alemanha e fui conhecer quem era Botho Strauss, o autor que pela primeira era encenado no país. Não havia Google para ajudar na pesquisa e entrevistei o diretor Celso Nunes, o cenógrafo Hélio Eichbauer, o iluminador Aurélio de Simoni, a figurinista Kalma Murtinho, além dos mais de 10 atores entre eles José Abreu e Ada Chaseliov. Assisti muitos ensaios, passei noites acompanhando a montagem, e por fim escrevi um release com 14 páginas! Era tão grande que encadernei para as folhas não se perderem. Os releases que eu recebia tinham no máximo duas páginas e pouco conteúdo. Eu queria que os jornalistas percebessem que aquele era um espetáculo especial. Eu não era uma “divulgadora”, mas uma jornalista nesta função.

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Renata Sorrah e o elenco da peça Grande e Pequeno : Abrahão Farc, Ada Chaseliov, Paulo Villaça, Catalina Bonaki, Telmo Faria, Joyce de Oliveira, Selma Egrei e Roberto Lopes

O release começava com a trajetória de Lott, personagem encenada por Renata Sorrah, uma mulher atormentada que visitava casas e apartamentos. As páginas seguintes eram dedicadas ao perfil do autor, diretor, cenógrafo, iluminador, figurinista e elenco. Era um compêndio. Para a divulgação eu só conhecia Flavio Marinho, do Globo; Macksen Luiz, do Jornal do Brasil e Arnaldo Branco, do Dia, nas funções de críticos/colunistas de teatro. Valia o capricho na apresentação.

Para que esta estreia fosse estrondosa, resolvi ampliar a linha de atuação e não ficar apenas na editoria de teatro. Fui a um jornaleiro super completo no centro do Rio que vendia publicações de todo o país e comprei um exemplar de cada. Nascia ali meu primeiro mailing. Através do telefone conferi cada endereço e enviei o que era praticamente um “book” aos editores não apenas do Rio mas também de São Paulo e principais capitais. O impacto com o material de qualidade – as fotos eram lindas! – foi atraindo a mídia e fui pautando reportagens do caderno de moda à editoria de negócios onde Sorrah surgia como investidora da sua arte.”

Resultado: Renata Sorrah foi um sucesso de público e de crítica, arrebatou diversos prêmios naquele ano e continuou em sua bem-sucedida carreira de atriz e produtora…. De minha parte, o que seria um “free lancer” se transformou em meu nicho perfeito na carreira de jornalista. Obrigada Helio Eichbauer, você faz parte do meu currículo…

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Foto Ricardo Moraes – Folhapress

A pensão

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Veio a lembrança um tempo em que fui rebelde e saí do Rio atrás de um namorado em São Paulo. Devia ter uns 19 anos e em férias na casa de uma tia me encantei por um fotografo com mais de 40. Era irresistível! Cabeça raspada, jaqueta de couro e olhos azuis, elementos que bastavam para cometer a loucura de largar o vestibular, o emprego de secretária na Editora Abril, juntar as economias e tentar a vida em sampa… Claro que tinha tudo prá não dar certo, e não deu. Coração partido, sem querer voltar, recusei o convite para ficar na casa da tia, mas aceitei as indicações para ser “diarista” em confecções. Eu vestia tamanho 40 e, naquele tempo, as confecções contratavam moças para provar as roupas antes de irem para a produção. Era um tipo de manequim com vida e eu passava o dia entre as confecções nas proximidades da rua José Paulino para no final do mês ter um salário para o sustento básico, que incluía um quarto em uma pensão nas Perdizes. Pode parecer um relato deprê, mas neste período me diverti muito, fiz amigos incríveis, frequentei o templo da bossa nova em SP, o João Sebastião Bar onde ouvi muita música boa e vi muita gente começando.

Mas o assunto não é esse, na verdade eu queria contar sobre a pensão para moças onde morei. Era digna de um filme de Almodovar. Um casarão antigo e bem conservado, com 10 quartos, distribuídos entre dois andares e o quintal. Todos os quartos tinham o básico: cama, armário, mesa e cadeira. Os que ficavam do lado de fora, tinham o luxo de uma pia. O meu era assim. A proprietária era uma senhora um pouco gorda, passando dos 70 anos, cabelos brancos com reflexos azulados sempre arrumados, rosto bonito e rosado, baton vermelho, unhas pintadas e vestia blusas (ou camisolas? quem sabe peignoir ?) bordadas com rendas e babados. Ficava recostada em travesseiros, coberta por lençóis e colchas impecáveis, só aparecia o tronco. Ela não tinha as pernas.

Daquele local privilegiado tinha o controle total do seu negócio. Da janela próxima a cama via o quintal, da porta grande a escada, o movimento da sala do café, e de uma outra porta acompanhava a cozinha. Reinava absoluta. As portas do quarto só fechavam algumas horas por dia para a sua higiene. A cada entrada ou saída das hospedes era um cumprimento, uma palavra simpática, um sorriso. Um ambiente no maior alto astral sob o comando daquela mulher cujo passado não ousei perguntar. Não lembro se tinha família, mas era cercada por funcionárias muito dedicadas.

Quando decidi voltar para o Rio, três meses depois, ao me despedir fui recebida com um largo sorriso, uma xícara de chá com uma fatia de bolo, e uma profusão de afeto em forma de frases otimistas, como a importância de buscar o melhor para o meu caminho, da maravilha de ser jovem com tanto tempo para arriscar. Ainda não se falava em auto estima e auto ajuda, mas neste dia aprendi o que era resiliência…E seu sorriso, sua imagem, sua alegria até hoje me servem de exemplo.

De outras vidas…

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Aprendi em casa a fazer e conservar amigos. Meus pais não se contentaram com os 5 filhos. Ajudaram a criar outros três, receberam muitos amigos e parentes em longas temporadas, numa época que onde 7 comiam, 10 comiam também!  Ensinaram que fazer e cuidar de amigos é um exercício, e aprendi muito bem a lição. Quando alguém desaparece vou atrás e, se não encontro, é sinal que partiu para outra dimensão… As redes sociais têm sido generosas com reencontros e, entre tantos amigos, hoje me permito reverenciar uma que, como disse sua mãe, “esta é uma amizade que veio de outras vidas”. Ela é um exemplo de determinação e generosidade.

Aos 38 anos, empresária bem-sucedida, formada em duas faculdades, pós-graduada, completando um MBA, teve um AVC. Como sequela, ficou com palidez no nervo ótico, o olho onde através da câmera via o mundo e fotografava por puro deleite. Mas superar foi fácil. Aprendeu a fotografar com o olho esquerdo, desfez a sociedade na farmácia de homeopatia em BH, e atendendo a sugestão da neurologista mudou a vida antes que a vida mudasse ainda mais o seu caminho.

Quando estava iniciando um novo ciclo, veio trabalhar comigo na Secretaria de Cultura de Cabrália e alguns meses depois descobriu que estava com esclerose múltipla. Decidiu rejeitar os tratamentos convencionais que, segundo ela, eram muito invasivos e comprometiam o paciente e, por ser de uma família que se dedica à saúde e a educação, com suporte de alguns médicos estudiosos e pesquisadores, fez um mix de tratamento envolvendo a alopatia, antroposofia, homeopatia, acrescido de espiritualidade e muita fé. Alguns médicos ainda não entendem como conseguiu superar a doença auto imunine, mas o fato é que hoje ela é fotógrafa, atua como voluntária em projetos sociais e, quando o mar está tranquilo, desliza com seu stand up paddle pelas águas de Vila de Santo André… Salve Claudia Schembri em seu aniversário… Amiga, irmã, que todo dia me mostra que a fé move montanhas e é possível começar de novo !

O sapato verde

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Quando a Tai me deu a bola pequena para um novo exercício de pilates, viajei no tempo. A pequena e pesada bola era exatamente da cor daquele sapato que jamais esqueci. Foi amor à primeira vista: olhei na vitrine e me apaixonei. Nunca tinha visto e desejado tanto um sapato verde de salto alto.  Talvez não combinasse com as roupas, mas aquele verde com um mix de tons petróleo e turquesa era especial, sedutor, chiquíssimo. A delicada pelica tinha um brilho perolado, o que deixava o sapato ainda pouco adequado a muitos trajes, mas nada importava.  Eu tinha a impressão de que a cor era uma experiência do fabricante, nenhum outro fora confeccionado, assim como o Fiat Uva que tive. Quando comprei, a concessionária avisou que apenas dois veículos vieram com esta cor inusitada, um teste da fábrica. Os dois foram emplacados juntos, mas o outro foi destruído dias depois em um acidente, e com isso os amigos sabiam por onde eu andava, afinal era a única a conduzir um Fiat Fanta Uva perolado entre o Rio e São Paulo. Fomos felizes por muitos anos, até fizemos um Rock in Rio !

Refletindo enquanto escrevo, percebo que cores e combinações pouco usuais fazem parte da minha vida. Tive o cabelo cor de cenoura, mas neste quesito me superei, foram muitas mudanças. Pintei uma parede de laranja uniforme da Comlurb por indicação do feng shui; na adolescência pedi e tive um quarto com moveis pintados de cinza com paredes e cortinas cor de rosa inspirado em algum filme de Hollywood e hoje imagino que os próximos toldos de minha casa podem ser de tecido acquablock estampado com samambaias. Sou uma pessoa de gostos estranhos, se correr solto, com o passar do tempo posso virar uma fashionista como a Iris Apfel. Mas voltando ao sapato verde perolado que veio à memória através  da bola de pilates, me lembrei também que não o vi envelhecer nem furar a sola de tanto dançar em festas, mas dei de presente à uma prima querida que também se apaixonara por ele ao ver em meus pés. Ela queria tanto quanto eu o quis e achei que merecia compartilhar. E aí me deparei com uma enorme coincidência sincrônica da vida…. Senti a ausência desta prima no facebook e, investigando, descobri que sofrera um AVC e estava internada. Ela não merecia…Tão brilhante, tão plena, tão cheia de desejos e projetos… Está em uma casa de repouso, cercada de amigos que não sabem o que fazer para amenizar a situação e eu daqui da Bahia ainda tenho sonhos em forma de sapatos coloridos e desejo muito que ela saiba que se não aguentamos mais o salto, vamos de havaianas !

Começo a pensar que as redes sociais têm me trazido mais notícias de obituários e doenças, do que casamentos e nascimentos de filhos…. Na verdade, só nascimento de netos e bisnetos de amigos.

Preciso de mais sapatos verdes, carros coloridos, alegria no coração…. Preciso acreditar que ainda há muito para se rir, celebrar, comemorar, nem que sejam as rugas e os quilos a mais…. Preciso ser menos rigorosa quando me pego falando demais, detalhando casos que podem não interessar aos outros, mas lembrar boas histórias é viver de novo…. Preciso estar atenta aos amigos, e o Facebook é um ótimo medidor de frequência mesmo que às vezes traga notícias tristes, partidas que são sempre chegadas a outro plano…. E preciso lembrar de agradecer sempre por esta vida…

As amigas

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Enquanto adiantava a costura esperando o almoço – estou fazendo 50 coelhinhos para encher de guloseimas e dar às crianças na Páscoa – abri uma “stella” e lembrei da minha mãe.  Entre as suas características, eu admirava a capacidade de fazer e manter amigos.  Ela agregava, cuidava e era enorme o caderninho onde anotava a data de aniversário de todos que passavam por sua casa.  Minha mãe tinha amigas de muitos anos que chamávamos de “tias” mesmo sem qualquer parentesco. Uma delas, tia Maria, fora casada com um primo da mamãe, morava em Curitiba. Nascida em família rica e influente, escreveram seu nome na palma da mão do Cristo Redentor quando o monumento foi construído. Era o que falavam e na minha fantasia infantil era o máximo da nobreza.  Tia Maria era mais velha, tinha cabelos brancos, era alta, porte elegante, rosto jovem e sorridente. Aquele jeito que só tem quem nasceu em berço de ouro mas sabe o que é simplicidade sem pobreza. Uma ou duas vezes por ano passava uma temporada em nossa casa em São Paulo, e a primeira providencia ao chegar era encomendar ao armazém um engradado de cerveja. Isso mesmo. Um engradado de madeira repleto de garrafas casco escuro. Tia Maria fazia no tricô maravilhosas roupinhas de bebê. Assim como ela, eram casaquinhos, mantinhas, sapatinhos delicados e de extremo bom gosto, com os frufrus suficientes para não sufocar as crianças. Ela ensinou minha mãe a tricotar com esta qualidade, e às 10 da manhã, todos os dias, eu já podia vê-las sentadas na sala, agulhas e lãs a postos, tendo ao lado um copo de cerveja estupidamente gelada. Conversavam e riam. Jamais perguntei se não erravam os pontos com a cerveja, mas eu não tinha noção do teor alcoólico e tomar cerveja não era pecado.

Lembro de minha mãe e suas amigas Maria, Ladyr, Lygia, Glicínia e sinto falta das minhas amigas de vida. Hoje tomamos cerveja via face, Skype e whatsapp… Às vezes tenho o prazer de receber em casa e tiro a barriga da miséria. É bom ter por perto quem conhece minha história, e não apenas reconhece numa foto nas redes sociais. Amigas é um bem precioso, com ou sem cerveja. Amigas ouvem as tristezas, perdoam as ausências, entendem as escolhas, elogiam até o corte tosco do cabelo. Amigas riem dos ridículos, apoiam as perdas, acolhem os erros, perdoam o excesso de peso, enchem a alma de alegria… Uma “stella” como brinde às amigas de vida e volto à costura…