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Por onde eu passei

Sansão do Campo

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Neste outono, por muitas ruas onde passo, encontro floridas as cercas vivas de Sanção do Campo* . Parecem pequenos tufos de algodão, são de extrema delicadeza e quem não conhece é incapaz de perceber quantos espinhos tem os seus galhos. À primeira vista parece frágil como suas flores, mas seus galhos produzem espinhos semelhantes aos da roseira e funcionam como uma barreira contra invasores, contra a poeira das estradas e quebra o vento. A natureza sempre surpreende, assim como o homem…. Revelam espinhos onde pensávamos ser só carinho, revelam carinho onde pensávamos ser só espinhos.

Aprendi há algum tempo que ninguém é exatamente o que aparenta, sempre temos o que descobrir e desvendar…. Enquanto caminho reflito que o aprendizado pode estar em cada passo, e consigo perceber tudo isso pois estou aberta para o que a vida oferece…. Não é fácil passar dos 60. Como escreveu Rita Lee “envelhecer é uma loucura”…Penso que é o tempo mais difícil de uma existência. A infância corre fácil, tudo é novo. A adolescência por mais incomoda que seja passa rápido, já se chega à juventude com um mundo de tesão por descobertas, passasse dos 30 com desejos maiores de conquistas e solidez, aos 40 há um brilho de olhar a trajetória quase ganhando o mundo, aos 50 o orgulho da maturidade, aos 60 é divertido ser visto como prioridade apesar de se sentir ainda jovem, mas chegar aos 70 é um susto com o futuro.  O tempo está mais curto. Posso fazer planos para 10 ou 15 anos? Quanto ainda terei de lucidez e vida com qualidade? São muitas perguntas sem respostas.

Enquanto me alongo no Pilates percebo integralmente a matéria que sou. Sinto todo o corpo enquanto me movimento. Por mais que em determinados pontos a pele perdeu o tônus, os músculos estão fortes. Atingi uma abertura de pernas que em outras épocas faria enorme sucesso… Agora servem apenas para exercitar a elasticidade… E entendo que o caminho está em contemplar o cenário que se apresenta e buscar no corpo e na alma mais elasticidade, flexibilidade, harmonia, amor, fé e aceitação do que vem pela frente…Como o Sansão do Campo, mesmo que hajam espinhos vamos manter a beleza das pequenas flores…

 

* Sansão do Campo, também conhecido como Sabiá, o Sansão do Campo é uma espécie pioneira nativa da região nordeste do Brasil, sendo um arbusto de rápido crescimento que apresenta vantagens que o tornam ideal para a formação de cerca viva.  É uma planta perene que necessita de pouquíssima manutenção e, dependendo da situação, bastante rústica e resistente, dispensando inclusive as podas. Suas pequenas flores acrescentam valor ornamental à cerca viva, um outro diferencial em relação à outras espécies para a mesma finalidade, além de ser utilizada para restaurações e recomposições de áreas degradadas. Outra característica marcante do Sansão do Campo é a utilização de sua madeira, que é muito apropriada para usos externos, como mourões, estacas, esteios e lenha.  Nome Científico: Mimosa caesalpiniifolia (Leguminosae Mimosoideae)

Manera Frufru

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Programei Fagner no Deezer para ser a trilha enquanto ia cortando os tecidos que se transformarão em coelhinhos de Páscoa para distribuir às crianças e minha cabeça viajou! Senti perfumes, lembrei das roupas, dos sabores, da temperatura e dos locais aonde ao longo da vida ouvi Fagner. Ele é uma das minhas grandes memórias musicais, trilha sonora de longos anos…

Em 73 estava recém separada e ganhei o LP “Manera Frufru” que passou a morar no meu “3 em 1”. Para quem não teve um “3 em 1”, apresento o aparelho que surgiu no início da década de 70. Era bastante simples: tinha rádio AM e FM estéreo, toca discos, gravador cassete (“tape deck”) montados num único gabinete e um par de caixas acústicas independentes. Esta era a mais importante peça do mobiliário reduzido do meu primeiro apartamento de mulher separada com pouco mais de 20 anos e um filho de 9 meses. No apartamento ainda se “destacavam” uma mesa com 4 cadeiras, uma estante feita com tabuas que se equilibravam em tijolos, dois colchões de solteiro que simulavam um sofá repletos de almofadas. E claro que muitas plantas em algum canto para disfarçar o vazio. Foi uma experiência marcante. Medo da cama vazia, da responsabilidade de manter a “família”, ter que cuidar de alguém quando eu ainda precisava que cuidassem de mim. Lembro que alguns dias depois da mudança fui falar alguma coisa com o porteiro que perguntou quem era o meu marido. Disse sem qualquer constrangimento que não tinha marido, mas a partir daí percebi que ele me olhava com um certo ar de reprovação e por não ter um homem em casa mereceria menos respeito. Nunca levei a sério, mas até hoje me divirto ao imaginar como ele deve ter ficado com o cabelo em pé com o entre e sai de amigos e as tantas festas que rolavam ao som do velho e bom 3 em 1 principalmente quando se tocava Fagner. Quem conhece um bom compositor sabe que na receita da boa música tem uma parte que eu chamo de “exorcizar sentimentos”, quando se pode gritar com a certeza de que aquelas palavras correspondem ao seu desejo mais profundo. Por exemplo, em “Velas do Mucuripe” eu sempre delirava com o final que, além da poesia no jogo das palavras – “vida vento vela leva-me daqui” – naquele momento era o que eu mais desejava. Queria ir longe e acabei indo morar nos Estados Unidos…

Nas minhas andanças com Fagner, em 78 quase cortei os pulsos ouvindo “Jura Secreta”, composição de Suely Costa em parceria com Abel Silva, meu professor de português do cursinho vestibular. “Só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz…” repetia repetia repetia no 3 em 1… Incrível constatar que como antes dos 30 anos de idade eu era tão dramaticamente apaixonada! Ah, se eu soubesse o que viria aos 40, aos 50, talvez não tivesse me desesperado tanto… Mas com Fagner não tem outro jeito, há de se ser pateticamente visceral. Até hoje.

“Borbulhas de amor” –  Tenho um coração, dividido entre a esperança e a razão  – é a minha cara.  “Traduzir-se” musicada sob o poema de Florbela Espanca – Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver – já fiquei rouca de tanto repetir e com  “Espumas ao vento” –  E de uma coisa fique certa, amor, a porta vai estar sempre aberta, amor, o meu olhar vai dar uma festa, amor, na hora que você chegar – é uma eterna realidade. Não sei quem espero, mas a porta está escancarada…

Fagner sempre faz uma revolução nos meus sentimentos. Traz saudades e tem a capacidade de tirar o mofo de paixões que jurava escondidas… Recentemente ele gravou “Paralelas”, do Belchior, e ao ouvir lembrei de uma das minhas grandes tragédias na cozinha. Era início dos anos 70, eu já era muito fraca com as panelas, mas a pedido de um amigo produtor musical que estava apresentando Fagner e Belchior ao mercado paulista, fiz um jantar. Era um grupo pequeno, consegui uma receita ótima de estrogonofe, escolhi um filet mignon de primeira, caprichei em uma boa dose de conhaque, mas boa vontade e bons produtos não significam bom resultado. O estrogonofe quando levado à mesa só não foi descartado pois os dois estavam famintos…. Não tinham vindo de pau de arara, mas era um tempo de vacas muito magras para eles que sonhavam com o sucesso e procuravam espaço para mostrar sua obra. Esta mesma obra que me fez companhia nesta tarde e me deu um enorme prazer de lembrar que naquela noite fui testemunha dos primeiros acordes, ideias, projetos…. Belas lembranças!

Em tempo : quem nunca ouviu o disco “Manera Frufru”, a razão desta viagem na memória, segue o set list :

  1. “Último Pau-de-Arara” (Venâncio / Corumba / J. Guimaraes)
  2. “Nasci Para Chorar” (Dion / Dimucci / versão: Erasmo Carlos)
  3. “Penas do Tiê” (Folclore/ adap. Raimundo Fagner)
  4. “Sina” (Raimundo Fagner / Ricardo Bezerra / Patativa do Assaré)
  5. “Mucuripe” (Raimundo Fagner / Belchior)
  6. “Como Se Fosse” (Raimundo Fagner / Capinan)
  7. “Pé de Sonhos” (Petrúcio Maia / Brandão)
  8. “Canteiros” (Raimundo Fagner/Cecília Meireles)
  9. “Moto 1” (Raimundo Fagner / Belchior)
  10. “Tambores” (Raimundo Fagner / Ronaldo Bastos)
  11. “Serenou na Madrugada” (Folclore / adap. Raimundo Fagner)
  12. “Manera Fru Fru, Manera” (Raimundo Fagner/R. Bezerra)

Inbox

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A mensagem pedindo o número do meu telefone para alguém que não vejo há dezenas de anos chegou inbox. Li, reli e fui levada para um tempo muito distante quando esperava encontrar um grande amor que tirasse meus pés do chão e me fizesse voar à lua. Como fotos de um álbum antigo veio a imagem do primeiro encontro e, como todos aqueles que marcam a vida, foi ao acaso. Amigo de amigos nos reunimos num escritório para discutir algum projeto e, de repente, nem sei mais o que falávamos, com o coração batendo tão forte que parecia sair da boca e não consegui mais olhar para ele. Saímos para comer alguma coisa e no final da noite eu estava encantada. Tenho um grave defeito: só me apaixono por pessoas inteligentes. O simples sedutor não me convence. Apenas o que tem algo a dizer, discutir, compartilhar, vida corrida com inteligência, perspicácia, humor e uma certa ironia … E ele era exatamente tudo isso ! Ainda tinha um cabelo desalinhado, uma cara amarrotada, um certo ar blasée no vestir e amigos poetas, músicos, escritores, artistas maravilhosos…. Óbvio que aconteceu um grande amor que só não foi mais longo pela distância. Por razões profissionais voltei a morar no Rio e a ponte aérea foi dificultando a relação. Creio que ele também tinha uma pendencia emocional em outra cidade e o tempo se encarregou de colocar um outro “grande amor” na fila.  Incrível hoje constatar que em uma certa idade há volúpia e sequência de “grandes amores” o que deixa a vida simplesmente fantástica e traz um tempero especial às lembranças na maturidade.

Aquela mensagem inbox ficou rodando um fim de semana em minha cabeça gerando uma questão: o que ele quer comigo ? Na segunda feira ao voltar para a casa depois de uma caminhada na praia recebi o recado de que alguém com um nome diferente telefonara se identificando como um grande amigo, fazendo uma porção de perguntas que variavam da localização geográfica de Vila de Santo André até o meu atual estado civil! Tudo muito divertido e surpreendente se você imagina que alguém está saindo de um baú depois de 45 anos…E quantas águas já rolaram neste tempo, quantas vidas e encarnações que ele nem imagina…

No meio da tarde o telefone tocou e era ele. A voz inconfundível, o tempo não havia passado. O mesmo tom bem-humorado, ironia fina, sedução inteligente… “Você foi o grande amor da minha vida”, ele soltou assim em meio de uma frase e eu quase caí do sofá! Como em uma tarde sem aviso prévio, sem clima de sinos tocando ou qualquer outro cenário de paixão surge esta declaração? Como se guarda por tantos anos o desejo de dizer “você foi o grande amor da vida” ?

Não levei a sério, mudei de assunto, ele repetiu a frase… O que continuava me impressionando não era o amor guardado, mas a sua voz firme, como se fosse um elemento protegido das agruras do tempo. O pensamento corria com o mesmo discurso ágil, inteligente, atualizado. A voz sem rugas, sem catarata, cabelos brancos, peles flácidas ou qualquer outra mazela que os anos trazem à matéria que somos. Não tinha botox, nem lifting, nem lipo, nem implante. Era uma voz no auge dos seus quase 40 anos, igualzinha quando nos conhecemos. Enquanto conversávamos, comecei a fazer cálculos de quantos anos ele teria e não aguentando a curiosidade perguntei:

“E com quantos anos você está ?”

“Vou fazer 80 !!”

Não fiz silêncio. Gritei.

“Como assim ? A sua voz é a mesma…”

“Eu sou o mesmo”.

E ele era realmente o mesmo inteligente jornalista, produtor, criador, escritor, inventor de artistas, poeta, romântico meio sem jeito… O resto são fantasias, preconceitos, idiotices que construímos mentalmente sobre velhice. Neste dia aprendi que estamos inteiros em qualquer tempo, basta não perder a essência…

Comparações

foto-claudia_schembriEmbaixo da amendoeira, vejo os meses de verão acontecer na praia de Santo André…Amigos chegam para férias, contam as novidades do ano que passou, e é impossível não notar as marcas do tempo… Uns mais gordos, outros frequentaram academia estão malhados, percebo cabelos que ficaram grisalhos enquanto outros mais tintos, comentamos quanto foram prósperos ou difíceis os negócios, a política ou o simples fato de termos sobrevivido. Um ponto é fatal: silenciosamente todos se comparam…. Isto é inerente ao ser humano, o animal não olha para o outro para ver se está mais velho ou mais jovem, gordo ou magro, só mesmo o homem.

Lembro que a primeira vez que me percebi nas comparações foi no início da adolescência quando trocávamos de roupa para a aula de ginástica, e discretamente todas queriam saber quem já usava sutiã ou havia menstruado.  Às vezes mentiam quanto à menstruação para serem dispensadas das aulas… Depois, um pouquinho mais velha, a pesquisa ficava nas que eram ou não virgens, comparava-se o tamanho do salto do sapato, a roda do vestido, o perfume Avon ou importado, e por aí seguia numa disputa sem fim…. Tudo muito silencioso…Depois comparava-se o marido, o emprego, o carro novo, o apartamento, as férias no exterior, a casa na praia ou na serra, a escalada social…

Hoje me percebo curiosa em saber a idade das mulheres da minha faixa etária para ver quem está fisicamente melhor…Não sei qual o critério que uso para saber o que é melhor, mas discretamente analiso se os antebraços estão firmes para dar tchauzinho,  como estão as celulites nas pernas e no bumbum, a gordura que ganha forma nas costas e nos seios, a barriguinha, as varizes, as rugas em volta dos lábios denunciando as fumantes, tristes comparações mas totalmente verdadeiras… O tempo é implacável, esta não é uma boa disputa mas é a realidade desta vida mais longa e liberta que ganhamos… Mamãe jamais se permitiu ao se aproximar dos 70 colocar os braços de fora muito menos a barriga em um maiô de duas peças… E nós só tínhamos 30 anos de diferença… Tudo correu muito rápido e vamos tentando nos adaptar à nova realidade. Às vezes sinto que há um fio da navalha entre o adequado e o ridículo, mas é impossível julgar pois cada um vê no espelho a imagem que interessa.

Desde que voltei a praticar Pilates tenho pensado no meu bem-estar físico, pois as pernas que abalaram Paris jamais voltarão. Ficaram nas fotos e nas lembranças de quem viu. A flexibilidade do corpo e da mente são meus grandes objetivos. A agilidade dos pensamentos e a facilidade em me movimentar, cruzar as pernas, esticar os braços, andar firme, são meus desafios… Sei que com a determinação e juventude que tenho –  eu já contei que acredito ter 35 anos ? – vou bem longe.

 

Foto :  Cláudia Schembri

Outros carnavais

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Sentada a beira do rio esperando o bloco Unidos de Santo André passar, lembrei da foto com Paulo Martins que recentemente emoldurei e pendurei na parede da sala e me remete a outros carnavais. Meus pais se conheceram num baile de carnaval. Minha mãe era a rainha, ficava no trono acenando para os súditos; meu pai entrou no baile como penetra, não era sócio do clube e vestiu uma fantasia de dominó (não consigo imaginar!!!) com capuz na cabeça para não ser reconhecido… Ouvi esta história dezenas de vezes quando me vestiam de bailarina ou qualquer outra fantasia que “herdava” das primas ricas e me levavam para o clube com um saco de confete, um pacote de serpentina e uma lança perfume Rodo Metalica.

Sempre me senti ridícula fantasiada. Até mesmo quando adolescente saía no grupo das  garotas da rua da Cascata vestida de índio ou melindrosa para brincar no baile no Montanha Clube. Em grupo o vexame era menor. Deve ter sido isso que me estimulou a aceitar o convite dos incríveis Stenio Pereira e Equio Reis para sair na comissão de frente da Portela. Na verdade era um séquito que acompanharia a colunável milionária Beky Klabin em sua estreia no carnaval.  Equio e Stenio eram dois artistas sensacionais que marcaram o fim dos anos 60 e início dos 70 em Ipanema. Um baiano, ator e diretor de teatro, o outro arquiteto carioca, foi o primeiro casal assumidamente gay que conheci. Juntos criaram uma grife, um estilo que fez sucesso entre artistas e descolados.

Beky era uma grande figura. De origem turca, chegou menina ao Brasil, casou com o empresário do ramo de papel e celulose Horácio Klabin com quem teve dois filhos. Foi jurada do programa do Chacrinha, namorou o cantor Waldick Soriano, o cirurgião plástico Hosmany Ramos que anos depois foi preso e julgado como traficante… Ela “causava” na sociedade carioca e por ser apaixonada por samba foi parar na Portela. As portas da sua cobertura na Av. Vieira Souto – o metro quadrado mais caro do mundo! – eram abertas para ritmistas e passistas realizarem os ensaios da “trupe” que a acompanharia na avenida. Claro que tudo regado a muito champagne e caviar. Não lembro quantos éramos naquele carnaval de 1972, mas viemos em torno de Beky que “carregava” um vestido branco, coberto de plumas e pedrarias. Evoluíamos numa coreografia ensaiada durante semanas seguindo a letra do samba “Ilu aiê odara, negro cantava na nação nagô…” Dizem que as joias que Beky usava eram de muitos quilates, por isso, discretamente, alguns seguranças a acompanhavam. Ainda não havia o sambódromo, as escolas se exibiam na Presidente Vargas, e quando terminou o desfile, lá estava nos esperando o seu motorista com o porta malas da Mercedes aberto repleto de bebidas e comidinhas para o grupo… Lembro voltando para casa com a maquiagem escorrendo no rosto …

Beky foi a primeira personalidade do “high society” a desfilar em uma escola de samba o que causou furor e se tornou um escândalo… Sua personalidade era tão marcante como referência em glamour e poder, que segundo consta, Gilberto Braga nela se inspirou para escrever a personagem Stela, vivida por Tônia Carrero na novela “Agua Viva” em 1980. Resgatei um de seus pensamentos: “Assim como Stela, detesto praia. Mas mando o copeiro buscar a água do mar para jogar no meu corpo porque queima mais”.

E, na doce brisa do fim de tarde do sábado de carnaval, vendo a explosão de cores do por sol relembrei deste carnaval enquanto esperava o bloco passar… Sem abre alas e coreografia, prefiro ver a vida de camarote…

Na foto abaixo, Beki Klabin (10 de setembro de 1921 – 20 de agosto de 2000.

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Alongar

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Sempre ao sair do Pilates tenho a sensação de estar mais alta. Hoje voltei pela estrada sentindo o sol estourar na pele, o cheiro das árvores nativas misturadas com o do asfalto, como se estivesse caminhando sob pernas de pau.  Acho que cresci uns 10 centímetros nesta última hora… O tempo que passo entortilhada em mim mesma sobre o teclado ou no sofá enquanto faço bordados desaparece. Sinto como se eu fosse uma roupa que ficou muito tempo pendurada no varal, embaixo do calor escaldante da Bahia e ao ser retirada está bem esticadinha… Enquanto caminho reflito que além do corpo deveria alongar os pensamentos. Esticar tal qual o elástico que levanta as minhas pernas e faz com que eu me sinta como uma bailarina em piruetas…. Alongar percepções, sentimentos, intuições…. Um pouco de Pilates para a alma, decifrar o que parece indecifrável no conhecimento de mim mesma… Sou uma porção de mulheres misturadas e apesar de tantos anos convivendo com esta questão ainda me surpreendo… Vou me alongar para a vida que ainda me espera…

De mulher prá mulher…

 

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Hoje estava na praia quando ouvi a notícia da morte de Da. Marisa Letícia Lula da Silva. 66 anos, pouco mais jovem do que eu, e, de repente, uma gavetinha abriu na minha memória e lembrei que um dia estive com ela. Era o dia 27 de setembro de 2010 e a DC Set  estava produzindo a festa de gala dos 100 anos do Corinthians no Auditório Elis Regina, no Anhembi (SP) com mega show do artista Roberto Carlos. A plateia estava repleta de celebridades, jogadores de todos os tempos, políticos, e na lista constava o presidente Lula da Silva, corinthiano roxo… Naquele mês de setembro o presidente Lula  estava empenhado na campanha da então candidata Dilma Roussef e, coincidentemente, naquele dia. faria um comício nas redondezas… As equipes DC Set e RC estavam a todo vapor na super produção e, entre outras funções, caberia a mim, junto com Andres Sanches, presidente do clube, receber Lula e comitiva… Pouco antes do show começar um telefonema avisa que o comício havia se delongado e o presidente pedira à sua esposa, Da. Marisa Letícia Lula da Silva, para representar a família. Rapidamente a equipe afinou a logística e fomos receber a primeira dama no estacionamento. Uma chegada discreta, pouco aparato, e me lembro bem do seu jeito delicado ao descer do carro, recompor o casaco em tom caramelo que ia até abaixo dos joelhos, estender a mão e dizer “muito prazer” com um simpático sorriso. Expliquei que para escapar do assédio do público iriamos entrar pelos bastidores, que o caminho era um pouco tortuoso e, enquanto caminhávamos entre fios e caixotes, ela com salto alto e eu com o privilégio de um sapato baixo, senti que segurou o meu braço buscando apoio e fomos andando como duas amigas que vão às compras de braços dados.  Era uma mulher de estatura mediana, magra, falando baixo, um jeito delicado. No nosso trajeto, talvez uns 500 ms, em certo momento ela foi vista por parte da plateia que estourou em gritos e aplausos. Da. Marisa respondeu ao aceno não como uma estrela entrando no palco, mas como uma pessoa comum que revia os amigos à distância. Detalhes dos bastidores não importam…O que ficou foi a simplicidade ao andarmos de braços dados… Desejo que sua nova caminhada seja  de luz, amparada por bons amigos  ….

Foto : Revista Veja – Abril

Feliz 2017

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A Murta com seus frutos

Acordei e vi a árvore de Ingá florindo de um lado da casa e a de Murta cheia de frutos do outro. Para quem vive em um grande centro esses fatos nada representam, mas para quem tem uma exuberante natureza a sua volta são sinais, nem que seja a promessa da chegada de muitas abelhas que passarão a rodear com um zumbido tão alto que me levam a crer que tem uma serra elétrica nas proximidades… Ah! prazeres de uma outra qualidade de vida… Neste tempo de verão vejo a alegria com que os turistas por aqui passam e se encantam… É uma vila muito simples, por isso a cada dia mais raro em meio a tanta tecnologia, tragédia, violência urbana, pressão, caos, medo…

Todos os meus amigos e também os amigos dos meus amigos deveriam ter o direito de passar uma semana por ano em um local como Vila de Santo André, onde as ruas são de terra, onde espontaneamente acontecem pequenos eventos a beira do rio para alegrar os visitantes, onde a gastronomia vai do PF básico ao restaurante de luxo, onde chove nas madrugadas e tem sempre estrelas e uma lua desenhada no céu, onde se toma banho de mar pois até as ondas são tranquilas.

O meu prognostico é que este será meu ano azul…. Não são previsões da astrologia, do tarô ou da bola de cristal, mas assim defini com dias tão azuis e por ter ganho uma bolsa, um colar, uma agenda e uma luminária da mesma cor.  Basta muito pouco para se colorir um ano e se reposicionar diante de um futuro que começo a desenhar nestes primeiros dias… Se o azul ficar marinho vou dar um jeito de clarear… Feliz 2017 em seu 7º dia…

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O Ingá com suas flores

…e assim se passaram 15 anos

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Apesar de minha mãe dizer que acabamos como pó, prefiro acreditar na alma e que quando as pessoas morrem vão para um outro local, um novo cenário e um dia nos reencontramos. Este sentimento espiritualista cristão me acalma.  Mas em nenhum momento diminui a vontade em estar junto. Recentemente na novela “Eta mundo bão” o personagem central repetia que “tudo de ruim que acontece é pra melhor”. Desculpe Walcir Carrasco, autor da novela, mas esta frase é minha, repetida intensamente nos últimos anos. Repito para mim  e para amigos em crise… Nada poderia ser pior do que a partida tão rápida do meu irmão. Em apenas 9 meses aquele homem lindo, cheio de sonhos, cumpriu sua parte nesta dimensão e se foi. Se ele ainda aqui estivesse certamente eu continuaria vivendo em uma vida louca entre Rio e São Paulo, sabe-se lá por onde mais, e apenas usufruindo deste paraíso nas férias… Não teria aprendido com a mudança das marés e as luas o verdadeiro movimento da vida… Hoje vivo na casa que foi dele, ainda com muitos de seu mas do meu jeito…Sou feliz em saber que ele está só do outro lado da cortina … Quem sabe vendo eu cuidar de tudo, da grama que nasceu, as árvores que estão altíssimas, das novas flores que plantei, da horta e dos amigos que me visitam e ouvem eu lembrar de suas historias… Cada dia que amanhece ou mergulho no mar agradeço por este presente. Qualquer hora nos vemos meu querido irmão… Hoje são 15 anos de sua partida…

Foto feita por Leila Castanheira, primeira travessia da balsa, 1992.

Meu Natal

dd4dc2c5-a22c-4f2b-9efd-f89009b4ef11Então é Natal… Não vou cantar a música da Simone nem lembrar que desisti de festejar há 15 anos… Este ano tudo está diferente. Em julho quando vi o meu braço esquerdo imobilizado devido uma queda, tive tempo para refletir sobre a importância dele… Sou destra, mas a parceria é dos dois… Pra escrever, pra me banhar, pra dirigir, pra comer, pra tanta coisa, inclusive costurar… E aí me deu uma vontade enorme de fazer bonecas, mas como ? Então para estimular o braço a ficar bom, prometi a mim mesma que faria muitas bonecas para distribuir às crianças da escola infantil de Santo André… 22 meninos e 19 meninas…   E assim, depois de 1 mês de gesso, dois meses de fisioterapia, fui recuperar os movimentos brincando de fazer bonecas de pano, com enorme carinho e amor, imaginando cada criança que iria receber. Detalhes de laços de fita, babados, bordado inglês na saia, arremate feito a mão nas camisetas dos meninos, cabelos de lã … Estes meses se passaram e com a ajuda da Lelê na “”costura reta” completei minha missão… Ainda fiz sacos para embalar e coloquei o papelzinho com o nome da criança para Papai Noel não se confundir… A festa aconteceu a semana passada e não assisti. Acho que iria me debulhar em lágrimas e tinha a desculpa da chegada de um amigo… Agradeço à Claudia Schembri que fez as fotos, a Sara Amorim que gentilmente trouxe de sp tecido marrom que não encontrei por aqui e Patricia Farina, diretora do Centro Educacional Maria Marta, que me permitiu fazer este sonho. O meu Natal já rolou… Não vi Papai Noel, mas não importa…

Em tempo : as bonecas de pano que faço são inspiradas na Tilda, criada pela design norueguesa Tone Finnanger que também desenvolveu outros tantos produtos em tecido como coelho, colchas, almofadas, etc… A minhas Tilda tem 53cm de comprimento, olhos pequenos, bochechas rosadas e pescoço alongado… Como todas as Tildas do mundo não tem boca, as crianças falam por elas…

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