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O primeiro namorado

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Na casa dos meus pais havia regras e, entre elas, as meninas só podiam usar salto alto e namorar depois dos 15 anos. A minha irmã mais velha estava casada quando atingi a idade permitida…Não sei como foram para ela essas proibições. Apesar de ter ficado de olho em alguns garotos e usado sapatos com micro saltos, segui as ordens e só quando debutei com festa em casa, desci as escadas para dançar a valsa me equilibrando num salto enorme e fiquei atenta aos possíveis namorados.  Não queria um rapaz que morasse na mesma rua ou fosse do clube, nem tão pouco amigo dos meus irmãos. Tinha que ser alguém especial, novo no pedaço, praticamente um príncipe encantado. E aquele que viria ser o primeiro namorado apareceu alguns meses depois na saída da missa da Igreja Nossa Senhora da Conceição, na Tijuca. As missas no fim da tarde de domingo eram concorridas.  As famílias sentavam nas primeiras filas, na sequencia vinham as moças com os namorados, depois as desimpedidas e os rapazes ficavam em pé quase na porta. Na saída havia uma confraternização e rolavam as paqueras no sobe e desce da larga escada de pedra.

Foi nesta situação que vi e me interessei por um rapaz vestindo camisa com listras finas, calça lewis e sapato mocassim do Mottinha. Só quem foi jovem tijucano nos anos 60 pode avaliar o que era chic e blasée vestir calça lewis e mocassim do Motinha.  Ele estava com a turma de uma rua distante uns 5 quarteirões da minha casa, mas eu nunca o tinha visto. Não era de uma beleza estonteante, mas tinha charme, um jeito intelectual por conta dos óculos, falava manso e um sorriso sincero. Ficamos só no olhar. A semana passou eu esperando pela missa, preparando o figurino, imaginando como seria conversar com ele…. No outro domingo nos vimos de novo e na saída um dos amigos nos apresentou. Fomos andando juntos conversando nada de concreto, aquele papo meio sem graça, e na esquina de casa ele pediu o número do meu telefone. Ao longo da semana o telefone em casa foi só meu, tendo que enfrentar enormes brigas com os irmãos que também namoravam. Passei horas pendurada até saber tudo sobre a vida dele, contar a minha e concluirmos que devíamos tentar o namoro. Na sexta-feira às 8 da noite lá estava ele no portão da minha casa e, paralelo aos borbotões de paixão, coração pulando e cara de tola, fui aprendendo que havia um mundo maior do que a minha família, os amigos do colégio, do clube e da rua. Havia a família e os amigos do namorado. Uma outra cultura que às vezes era tão diferente daquela que eu aprendera em casa. Nem melhor nem pior, apenas uma outra forma. E viver estas outras experiencias era fascinante.

Alexandre – Luiz Alexandre Gonçalves e Silva – tinha 18 anos, estudara no Colégio Militar e fazia cursinho para a faculdade de arquitetura. A família era de Natal, RN. O pai era general reformado, a mãe muito delicada, fofa e elegante, e ainda tinha uma irmã que era quase noiva de um estudante de engenharia. Apesar do pai militar e estarmos em tempos de ditadura, com Alexandre assisti três vezes ao show Opinião, tendo o privilégio de ver as interpretações de Nara Leão, Suzana de Moraes e Maria Bethânia. Vivemos as aventuras de assistir aos primórdios das corridas de carro que aconteciam nas ruas da distante Barra da Tijuca. Íamos ao cinema, comíamos hot dog e tomávamos milk-shake no Bob’s, namorávamos na varanda da sua casa e no portão da minha.  Sempre tínhamos muito assunto… Almoços, jantares, pequenas viagens em família. Mais anos 60 impossível.

No meu primeiro Dia dos Namorados ganhei uma linda e delicada bolsa de veludo vermelho, uma espécie de carteira, muito moderna naqueles tempos, que veio embrulhada com papel brilhante e o selo da Sloper! Eramos bem felizes mas um dia o namoro acabou. Acho que ele disse que precisava se concentrar para o vestibular… Parece que chorei, mas o fato é que ficamos amigos pra sempre e nos encontramos em vários momentos. Sempre sabíamos um do outro. Alexandre foi morar no Leblon, se tornou um respeitado arquiteto e não casou. Eu já estava separada do primeiro casamento quando jantamos pela última vez… Tomamos uma garrafa de vinho e rimos muito. Lembramos a turma da Tijuca, contamos as nossas experiências da maturidade, das delicias de morar na zona sul e não precisar ir à praia de carro… A Tijuca era apenas uma doce lembrança, e era muito bom reviver estas historias com ele.  Alguns meses depois recebi um telefonema avisando sobre a morte do Alexandre. Não acreditei. Tudo muito rápido, um vírus estranho e fatal. Fui ao Cemitério São João Batista abraçar a família e me despedir do amigo. Muito jovem, tudo muito triste… Com ele iam as doces memórias de descobertas sobre romance, confiança, amizade, companheirismo, carinho, respeito e amor. Hoje ao ver tantas notícias sobre o dia dos namorados me peguei pensando na gratidão que tenho por ele ter sido o primeiro, pois se tornou referência para todos os que vieram. Tinham que ter charme, um jeito intelectual, falar manso e um sorriso sincero, como Alexandre.

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