Arquivo da tag: jaceguai 27

Jaceguai 27

FOTO_CATARSE_PROJETO_interna

Os amigos de juventude sabem da relação que tive com a família Porto Carreiro desde 1966. Na simpática casa na Tijuca onde viviam Maria Ruth e Aluízio, com as filhas Regina e Angela, vi nascer um grupo de jovens que se tornou de grande importância para a MPB. O MAU – Movimento Artístico Universitário – revelou talentos como Aldir Blanc, Gonzaguinha, Ivan Lins, Célia Vaz, Cesar Costa Filho, Eduardo Lages, Lucinha Lins, Ruy Maurity, Sílvio da Silva Júnior, Marcio Proença e muitos outros.  Esta história foi relembrada por vários amigos, transformada em livro por Leila Affonso e Jorge Fernando dos Santos, e está no Catarse recebendo recursos para se tornar realidade. Hoje fui dar uma xeretada em quantas anda o crowdfunding e fiquei preocupada com a possibilidade da meta não ser atingida e o livro se transformar em apenas uma porção de memória guardada na gaveta. Convido os amigos a conhecerem o projeto no https://www.catarse.me/jaceguai27. É uma bela historia !

O texto abaixo escrevi em outubro de 2010 sobre o meu encontro com Angela que tanto mudou a minha vida. Gosto sempre de lembrar… Um orgulho ter convivido com esta família.

lea e angela

Aos 17 anos…

Conheci Ângela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, ou simplesmente Ângela, ou Jóca, no 1º ano do curso Clássico no Instituto Coração de Jesus, uma escola que à noite chamava-se Colégio Veiga de Almeida e ficava em frente ao Colégio Militar na Tijuca. No primeiro dia de aula descobrimos que nascêramos no mesmo dia e mês, com um ano de diferença, e isto bastava para selar uma amizade para sempre. Alguns dias depois fui à sua casa e conheci um contexto de família liberal, com o pai psiquiatra, Aluízio Porto Carrero e a mãe, Maria Ruth, dona de casa e costureira maravilhosa. Em 1966, na efervescência da ditadura o sobradinho na rua Jaceguai 27 na Tijuca onde moravam, era refúgio de talentosos contestadores que nos fins de semana se reuniam para tocar violão, bater papo, namorar e tomar cerveja. Era sensacional para uma adolescente descobrir aquele clima de protesto e conhecer um mundo politicamente diferente do que tinha aprendido em casa. Com Aluízio e Maria Ruth tudo era permitido. Fumar, ficar acordada até o dia amanhecer e sobretudo falar de política. Liberdade, liberdade! Aprendia-se muito ouvindo de Sinval Silva (compositor de preciosidades gravadas por Carmem Miranda) a Nelson Cavaquinho. Ali eu vi Jacó tocar o seu Bandolim, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, já despontando como compositores, e acompanhei os novos que surgiam como Gonzaguinha (namorando Ângela), Ivan Lins (namorando Lucinha), Aldir Blanc, César Costa Filho, Sílvio Silva, Rolando Farias, Paulo Emilio, mais um monte de gente de talento que veio a se firmar nos festivais universitários. Deste grupo surgiu o MAU – Movimento Artístico Universitário que ganhou o país com todos eles transformados em estrelas do programa Som Livre Exportação na Rede Globo .

Saímos da adolescência e entramos juntas na juventude. Ainda posso ouvir o violão do Aluízio e nossas vozes em pleno pulmão entoando Pixinguinha num “Carinhoso” suplicante “vem vem vem vem… vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos seus….” Descobrimos juntas amores, dores de cotovelo e trocamos confidências… Lembro Ângela contando que havia se apaixonado por Gonzanguinha e com um jeito muito divertido dizia o quanto ele era magro, feinho e genial … Rimos muito, sempre, dessas e outras revelações íntimas que só na juventude se faz para as melhores amigas… Selamos uma amizade até 1991 quando Ângela aos 41 anos se cansou de respirar… Jamais esquecera seu grande amor, Gonzaguinha, e 6 meses depois de sua partida ela foi atrás … Em algum lugar no infinito deve estar rindo das nossas histórias, quem sabe cantando com sua voz pequena e suave, como naqueles sábados na Tijuca…

Anúncios