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Meu pai não ensinou

Meu pai era um homem admirável. Em contraponto a infância pobre o tempo o sofisticou.  Tinha humor fino, jogava tênis, fumava cachimbo e falava mansamente. Dizia que aprendera com o cachimbo a organizar seus pensamentos refletindo entre as baforadas. Ouvi de sua boca uma das piores coisas que uma filha pode esperar. Recém-separada, de volta à casa da família, depois de um mês no aconchego ele usou o dito popular para me posicionar: “quem pariu Mateus que o embale. É tempo de você construir a sua vida”. E com esta elegância me tirou da zona de conforto e fui à luta. Agradeço por isso, não sei qual seria meu futuro sem esta  chacoalhada.

Papai era bom conselheiro, mas teve uma lição que não me ensinou: “quem não bate, apanha”. Aprendi com a vida, mas gostaria de ter sido alertada por ele.  Como bom tenista ele certamente sabia que muitas vezes o ataque é a melhor defesa, mas me ensinou que, assim como Jesus, na hora da agressão eu devia oferecer a outra face. Tentei seguir ao pé da letra, mas no caminho pela sobrevivência antes de dar a outra face precisei sair esmurrando quem estivesse em minha frente. No final do dia sentia-me exausta e culpada. E mesmo tendo que me superar jamais puxei o tapete. Acredito que o tempo revela as pessoas, dilui mal estar, alivia as tensões e nem todos são sempre bons ou ruins…

Papai me ensinou a ser paciente, apesar de toda a minha natural agitação. Posso ser uma usina de ideias, mas sei que nada acontece fora do seu tempo. Acredito que existe um mundo mágico, paralelo ao que vivo, aonde o meu futuro está ali, vai se formando com meus pensamentos, atitudes e merecimentos. Nada é revelado, espero que os dias me surpreendam. Deixo o tempo se acomodar, melhor que faço é arrumar o fumo em um cachimbo hipotético, refletir entre as baforada e esperar a vida tomar prumo.